Aves migratórias mudam rotina e estimulam novos estudos na Amazônia

Destino das aves migratórias na Amazônia virou debate na COP15, evento que visa o debate sobre as espécies no bioma amazônico.

Revoada de andorinhas-azuis no rio Negro, Amazonas. Foto: Marcos Amend/Arquivo Pessoal

A seca extrema de 2024 na Amazônia trouxe uma surpresa para a Transpetro, o braço logístico da Petrobras. Da noite para o dia, uma revoada de milhares de andorinhas-azuis (Progne subis) ocupou as estruturas metálicas do terminal de carga da empresa no rio Solimões.

Durante a estiagem, com a redução da vazão do rio, o porto de gás liquefeito em Coari, no Amazonas, foi desativado; não havia calado para atracar os navios cargueiros. Sem a movimentação habitual de funcionários e embarcações, as aves migratórias encontraram uma nova morada e permaneceram ali durante todo o verão amazônico.

Em 2025, os bandos da andorinha-azul, que realizam anualmente uma migração desde os Estados Unidos, já estavam familiarizados com o gigante ninho metálico da Transpetro e voltaram a ocupar o terminal. Porém, desta vez, com o fim da seca, o sistema logístico voltou ao normal e a coexistência com as aves migratórias se tornou um problema.

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Revoada de andorinhas-azuis, espécies migratórias, no rio Negro, Amazonas. Foto: Marcos Amend/Arquivo Pessoal
Revoada de andorinhas-azuis no rio Negro, Amazonas. Foto: Marcos Amend/Arquivo Pessoal

As fezes dessas milhares de aves apresentaram um risco tanto para a operação do terminal como para os funcionários. Os relógios e medidores das tubulações ficaram cobertos de cocô de andorinha-azul. Trabalhadores do terminal chegaram a resvalar devido à mistura das chuvas torrenciais amazônicas com as fezes.

Em busca de uma solução, a equipe de meio ambiente da Transpetro entrou em contato com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Lá, um dos ornitólogos mais renomados na região, o pesquisador Mario Cohn-Haft, já estava mapeando os padrões de migração das andorinhas-azuis para a Amazônia brasileira, considerada a maior andorinha do ocidente. 

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Cohn-Haft e alguns de seus alunos de pós-graduação atuam em parceria com a Associação para Conservação Purple Martin (que recebe o nome da espécie em inglês). A organização, além de trabalhar com instituições como o Inpa e o Instituto Butantan, utiliza uma rede de voluntários brasileiros e estrangeiros para fazer o rastreamento da espécie. Por meio de um projeto de ciência cidadã, ajudou a entender as rotas migratórias da Progne Subis revelando sua presença em diversas partes do bioma brasileiro.

A andorinha-azul — cuja população estimada é de 7,5 milhões de indivíduos — se reproduz no leste dos Estados Unidos, mas passa a maior parte do ano na Amazônia . No inverno estadunidense, grandes bandos da espécie realizam uma viagem de milhares de quilômetros em direção à América do Sul, em busca de condições melhores para se alimentar.

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Ao chegar no rio Negro, as aves migratórias ocupam as copas de árvores das florestas alagadas. Os estudos indicaram que alguns grupos podem chegar a até 250 mil indivíduos.

“A migração é um fenômeno absolutamente impressionante e inspirador. É, na verdade, emocionante assistir a milhares de pássaros passando em uma viagem impressionante, inimaginável para a mente humana. Mostram a complexidade de suas vidas e uma forma de inteligência muito distinta da nossa”, afirma Cohn-Haft.

O cientista conta que a chegada dessas enormes revoadas nem sempre é apreciada. Não é incomum que prefeituras de cidades amazônicas entrem em contato com o Inpa pedindo uma solução para o “problema”. Cohn-Haft diz que sua única recomendação aos prefeitos é que celebrem o fenômeno da migração. Mas não é o que geralmente acontece: incomodados com a sujeira, os gestores municipais tentam expulsar as aves cortando as árvores escolhidas por elas.

No caso da Transpetro, a solução tentará a coexistência com as aves. Para receber a revoada de 2026, há previsão da construção de uma estrutura em uma balsa próxima ao terminal, ainda sem data definida.

Amazônia, destino de aves migratórias

A discussão sobre as aves migratórias na Amazônia ocupou um espaço de destaque na tarde da terça-feira (24), na 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15), que ocorre até o próximo domingo (29), em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. O evento reuniu cientistas, representantes de empresas, governo e comunidades indígenas que enfatizaram que ainda há muito por descobrir sobre os padrões de aves migratórias no bioma.

Saiba mais: Migração na Amazônia: conheça os principais fluxos de pessoas na região

Mapa com as rotas de migração rastreadas pelos voluntários da Purple Martin. Imagem: Associação para Conservação Purple Martin
Mapa com as rotas de migração rastreadas pelos voluntários da Purple Martin. Imagem: Associação para Conservação Purple Martin

Diferentemente do Pantanal e das zonas costeiras do Brasil, a Amazônia não é considerada uma região prioritária para o estudo de aves migratórias. A razão para isso é que a maioria das espécies de aves registradas na Amazônia são residentes (85%), ou seja, não realizam migrações.

Mesmo assim, os 15% restantes ainda representam um número significativo: segundo Cohn-Haft, 150 e 200 espécies de aves migratórias realizam algum tipo de deslocamento para o bioma. 

“A Amazônia é um destino de espécies que se reproduzem em outras regiões, mas que caem fora quando as condições são desfavoráveis. São espécies que se reproduzem nas zonas temperadas da América do Norte ou da América do Sul. Elas vão para lá para reproduzir e aproveitar o boom de insetos que ocorre na primavera e no verão”, diz o pesquisador do Inpa. Ele explica que dois terços de todas as espécies de aves no mundo são insetívoras.



Muitas vezes, a Amazônia é utilizada como um ponto de parada mais ao sul. São casos extraordinários, como os dos maçaricos que podem fazer migrações de até 30 mil quilômetros, viajando do Ártico à Patagônia. Na migração deste tipo de aves utilizam as praias de rio da Amazônia além das zonas costeiras como uma parada necessária antes de seguirem viagem. 

Mas existem outras espécies que ocupam a floresta por vários meses, como é o caso da andorinha-azul. Lá, elas trocam a plumagem, ganham gordura, fortalecem os músculos peitorais e, quando estão prontas, voam de volta ao norte.

Tudo isso passou a ser muito mais fácil de entender com as novas tecnologias de rastreamento. Até pouco tempo, os pesquisadores colocavam anilhas nos pássaros e contavam com sua rede de colaboradores para recapturar alguns destes indivíduos no destino final da migração. Considerando a extensão da Amazônia, esse método sempre foi pouco eficaz. Agora, cada vez mais se têm utilizado pequenos rastreadores com capacidade de envio de dados em tempo real.

Pesquisa intercultural como ferramenta

Um outro fenômeno da migração pouco entendido na Amazônia são as migrações dentro do próprio bioma. Há espécies que vivem em ambientes variados em diferentes épocas do ano, dependendo das variações da temperatura ou dos ciclos de cheia e vazante das planícies amazônicas.


Pesquisas entre organizações e comunidades indígenas enriquecem esses conhecimentos. Na COP15, o Instituto Socioambiental (ISA) e a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) apresentaram um projeto de 20 anos de pesquisa intercultural na região dos rios Tiquié e Içana, na fronteira com a Colômbia e a Venezuela.

Pesquisadores indígenas registram os dados em diários e relatam a ocorrência de espécies migratórias, além de atividades culturais e ciclos de pesca, caça e agricultura. Desde 2017, a Rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) do Rio Negro passou também utilizar o aplicativo Open Data Kit (ODK) para inclusão das informações.

Essa coleta já soma 35 mil observações e permitiu a identificação de 18 espécies de aves. A combinação dos dados de ocorrência com registros de precipitação e nível dos rios tem permitido entender o impacto das mudanças climáticas: “nós sabíamos que elas buscavam as cabeceiras dos rios no inverno, em maio, junho e julho, e que voltavam nos meses de verão. Mas isso está mudando”, conta Tiago Pacheco, indígena Koripako, coordenador dos AIMAs da região do Médio Içana.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela InfoAmazonia, escrito por Gustavo Faleiros

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