Capa do livro Nas margens do Rio Amazonas, de Eber Bentes. Foto: Divulgação
Por Jan Santos – jan.fne@gmail.com
Desde a Revolução Industrial, o mundo ocidental tem tomado o desenvolvimento como um projeto central. Cidades crescem, padrões de qualidade de vida são definidos, a terra dá lugar ao cimento e ao concreto. Contudo, as cidades não crescem para todos, os padrões de qualidade não são atingidos por todos, não há terra coberta o bastante para todos. A solução? Desenvolver mais, expandir mais, e mesmo assim, nunca será para todos.
O resultado? Um mundo desolado, sem um palmo de terra visível, coberto pelas coisas que construímos e, de repente, não achamos mais tão essenciais quanto um dia foram, gastas demais pelo tédio de possuir. E assim seguimos, sempre mais e mais desenvolvidos, em uma eterna corrida que mais cansa do que recompensa, porque corremos tanto, investimos tanto, que nenhuma linha de chegada será suficiente quando comparada com o tempo e o esforço que sacrificamos para cruzá-la.
A solução? Correr até a próxima linha de chegada, chegando novamente em lugar nenhum.
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Chegamos às estrelas, chegamos às entranhas da terra, chegamos ao fundo do oceano, e mesmo assim, não é o suficiente.
Há quem diga que é um engano chamar isso de desenvolvimento, coisa em que eu particularmente não acredito. O que eu sei é que, na lógica de mundo que adotamos, desenvolver é isso mesmo. O que devemos é querer outra coisa.
A professora Célia Xakriabá, ao falar sobre educação indígena em um texto chamado “Amansar o giz” (2020), descreve o processo de criação de objetos de barro que caracteriza seu povo. A forma como ela fala sobre a coleta do material das margens do rios na infância, sobre as memórias envolvidas em sua confecção e até mesmo a construção das casas feitas com o barro e suas próprias mãos enfatiza o que ela e vários outros originários chamam de corpo-território, uma experiência única de quem vive o solo como parte de si, e ambos, parte de um organismo maior, cujos participantes podem trocar forças mutuamente.
Assim como o corpo humano descansa no solo após a morte, é esse solo que oferece as condições materiais necessárias para que a vida humana goze de qualidade.

Uma compreensão parecida vive entre o povo Guna, no Panamá, que tece seus tecidos como quem tece um universo inteiro, e planta o cordão umbilical nas raízes de árvores que são, elas mesmas, suas filhas entrelaçadas. Ainda sobre a produção de cerâmica, um conto bastante curioso chamado de “Nãna e os potes de barro”, assinado por Chirley Maria Pankará, compõe o livro “Originárias: uma literatura antologia feminina de literatura indígena”, e conta como seu povo, em Pernambuco, utiliza um processo semelhante não apenas para produzir objetos, mas para manter contato com sua ancestralidade por meio da prática-ritual de trabalhar a terra.
Tais narrativas ilustram um conceito apresentado pela professora Célia, um que vai além das necessidades desnecessárias que o mundo ocidental insiste ter:
“Nós, populações tradicionais, temos condições de apresentar outro projeto de sociedade, não exatamente pela falácia do desenvolvimento e, sim, por meio do re-envolvimento, que representa a retomada de outros valores. Em nossa relação com o mundo, que é com o ambiente inteiro e não apenas com partes dele, não podemos criar laços impessoais ou sem espiritualidade. É impossível para os Xakriabá enxergar a natureza apenas como um bem a ser explorado, ou mesmo como um lugar que produz alimento”.

Ao ler sobre o re-envolvimento proposto por Xakriabá, percebo uma coisa fundamental: não podemos amar aquilo que não nos envolve. Desenvolver então ganha outro sentido: retira o envolvimento, separa, afasta. É fácil descartar aquilo pelo qual não temos afeto algum, então não é difícil sufocar com concreto e asfalto um metro de terra que não faz parte de mim.
Assim, procuro histórias com as quais possa me envolver, encontrar um espaço ao qual eu possa pertencer, e foi exatamente o que achei nas páginas de “Nas margens do Rio Amazonas” (2024), do parintinense Eber Bentes. Em seu livro de estreia, um dos vencedores do Prêmio Frauta de Barro da editora Valer, Bentes narra a história de um povoado ribeirinho que lida com o cabo de guerra entre o envolvimento e o desenvolvimento.

Além do fato óbvio de retratar um ambiente conhecido pela maioria dos amazônidas, com costumes, falas e sensações que nos dão um sentimento de familiaridade que é bastante acolhedor, Bentes conta a saga de uma comunidade que divide o solo com as forças da natureza, com os espíritos que desde seus ancestrais aprenderam a respeitar. O mais engraçado é que a história não é só sobre uma comunidade, mas ela é também comunitária, uma vez que ela é contada do ponto de vista dos vários moradores, a partir de experiências cotidianas que encontram na mística da floresta e do rio uma dinâmica própria de existência.
São pessoas que não vivem somente entre o rio e a floresta, mas entre a vida e o mistério, entre a segurança do conhecido e o fascínio do desconhecido, pois não questionam a existência da Boiúna, de Yurupary nem das visagens, mas encontram formas de coexistir com um mundo que conhecem bem o bastante para aceitar que há coisas que é melhor desconhecerem.
Nas margens de cada história, todas carregadas de um fantástico próprio, surge um horror inicialmente silencioso, quase um comentário despretensioso na boca dos moradores. Nos contos de Bentes, vemos o desenvolvimento surgir como uma figura monstruosa, que aos poucos engole gente, fé, terra, tudo. Na figura de um rico comerciante cearense, as histórias são lentamente devoradas pela fome infinita do desenvolvimento, e os moradores, impotentes, encontram nas narrativas que contam sua única estratégia de sobrevivência.
Sobrevivência não apenas das pessoas, mas também dos espíritos, da terra, da água e de tudo que forma aquela vila, aquele universo, às margens do Rio Amazonas. O ato de partilhar essas histórias, tal como o barro xakriabá, a cerâmica pankará e o tecido kuna, é a prática que preserva, para além da morte e para qualquer ato de des-envolvimento, a memória de um povo que sabe os caminhos para se envolver com a terra.
Ouvindo-as, nos tornamos eternamente responsáveis por aquilo com o que nos envolvemos.
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Sobre o autor
Jan Santos é autor de contos e novelas, especialmente do gênero Fantasia. Mestre em Literatura pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e com graduações em Língua Portuguesa e Inglesa, é um dos membros fundadores do Coletivo Visagem de Escritores e Ilustradores de Fantasia e Ficção Científica, além de vencedor de duas edições dos prêmios Manaus de Conexões Culturais (2017-2019) e Edital Thiago de Mello (2022).
*O conteúdo é de responsabilidade do colunista
