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Terça, 06 Dezembro 2022

Almir Suruí, o líder indígena mais empreendedor do Brasil

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Nascido em 1974 na Terra Indígena Sete de Setembro, em Cacoal (RO), Almir Narayamoga Suruí é líder de seu povo desde os 17 anos, assim como foi o seu pai e avô. Tornou-se conhecido internacionalmente, recebendo comendas das maiores autoridades do mundo ocidental.

Sua luta bate de frente com os conflitos e ameaças envolvendo posseiros, madeireiros, mineradores e outros interessados nas terras dos Suruís. Algumas vezes, o cacique teve de ser escoltado pela Polícia Federal. E também foi inquirido — mais recentemente — em decorrência do seu tom mais áspero em relação ao governo.

O povo Paiter-Suruí vive numa área de 248 mil hectares de floresta e sua população está próxima de 1.300. Consta que a ancestralidade destes índios viva há mais de 8 mil anos na Amazônia.

Almir com sua filha Txai Suruí: reconhecimento planetário. Foto: Divulgação

Durante a reunião da COP 15 (Conferência da Cúpula do Clima, na Escócia) em Copenhague, na Dinamarca, em 2009, Almir apresentou o Projeto de Carbono Suruí, ganhando o Prêmio Maia Lin. Foi considerado, no mesmo ano, "a pessoa mais criativa em negócios do Brasil", pela revista norte-americana Fast Company, marca líder mundial em mídia de negócios. Almir já teve relações comerciais com o Google e Natura, vendendo conceitos de "soft power". Também produz café, castanha, gado e começa a investir em ecoturismo.

Além do reconhecimento pessoal conquistado, ultimamente Almir virou "O pai da Txai", a jovem acadêmica de Diteito que discursou na abertura da COP 16, em novembro de 2021. De imediato, a indígena de 24 anos ganhou as manchetes dos principais jornais do mundo; alguns mais entusiasmados até trataram de lançá-la como possível candidata ao Prêmio Nobel da Paz. Sobre isso, Almir resume: "orgulho".
 

Entrevistei Almir Suruí especialmente para minha coluna aqui no Portal Amazônia. Segue:

JÚLIO OLIVAR — Você é o mentor de sua filha Txai Suruí no ativismo pelos direitos indígenas?

ALMIR — Eu acredito que sim. Txai nasceu e cresceu observando nossas lutas; as lutas do seu pai e de sua mãe [Ivaneide Bandeira Cardoso, a Neidinha, dirigente da ONG Kanindé]. Minha filha entendeu que é necessário continuar. Não tratamos só de direitos indígenas, vai muito além, nossa ação refere-se à humanidade: direitos humanos e meio ambiente. Nossas bandeiras.

JÚLIO OLIVAR — Como foi a infância e a formação de Txai? Hoje em dia ela vive na aldeia?

ALMIR — Na infância da Txai ela me acompanhava. Não morávamos na aldeia, mas sim em Porto Velho, por questão de estratégias, estudos, militância, trabalho. Só que estávamos sempre lá [na aldeia] tratando de todas as questões. Hoje, ela está terminando o curso de Direito na Universidade Federal de Rondônia; passa temporadas na aldeia, junto com a gente. É uma liderança da juventude indígena, em todo o Estado, e agora sua voz é ouvida mundo afora, é uma porta-voz da causa indígena e da Amazônia.

JÚLIO OLIVAR — A participação de sua filha na COP 16 teve enorme repercussão. Isso favorece de que forma os índios?

ALMIR — Com certeza ela nos ajuda, e muito. Sua voz ajuda a nos proteger. Em 2011, nosso povo tinha projeto de carbono [a tribo passou a vender lotes de créditos de carbono certificado em território indígena. Feito de acordo com o mecanismo Redd (Redução de Emissões por Desmatamento)], com objetivo de combater as mudanças climáticas, que ainda eram pouco faladas no mundo. A participação da Txai na COP 16 resulta do nosso protagonismo lá atrás. Ela, agora, deu ainda mais visibilidade à nossa causa. Que é uma causa planetária.

JÚLIO OLIVAR — Quantos são os indígenas hoje vivendo em Rondônia e como se dá o diálogo entre as mais diferentes etnias?

ALMIR — São 23 terras indígenas e 43 povos. Há etnias diferentes entre si vivendo juntas, em algumas terras. Sempre dialogamos. Há assembleias e, mesmo durante a pandemia do novo coronavírus, usamos os grupos de WhatsApp e redes sociais para reuniões das lideranças. Sempre buscamos unificar o discurso para fortalecer as lutas dos povos indígenas, principalmente sobre nossos territórios e autonomias.

JÚLIO OLIVAR — Economicamente, como vivem os suruís?

ALMIR — O que nos garante o sustento é a produção agroflorestal. Produzimos banana, castanha, café. Também lidamos com pecuária. Alguns suruís são profissionais: agentes de saúde e agentes de saneamento, professores indígenas, e outros que recebem salários do governo. Muitos indígenas também são favorecidos pelos programas sociais do governo, que é um direito. Mas pensamos sempre na geração de emprego e renda como algo que nos fortalece e nos dá autonomia. O ecoturismo é uma aposta mais recente nossa. Vamos ter uma rota para turismo na aldeia, a partir do final de março de 2022. Também estamos desenvolvendo projetos de implantação de agroindústrias. Sempre de maneira sustentável, ecologicamente correta.

JÚLIO OLIVAR — Produzindo café, lidando com turismo e negociando crédito de carbono, pode-se dizer que os suruís constituem hoje o povo indígena mais empreendedor do Brasil?

ALMIR — Sim, com certeza. Desenvolvendo o nosso território de forma responsável. Alguns povos têm sido influenciados pelo governo a produzirem em grande escala. Mas, nós não. Falamos em agrofloresta. O objetivo é produzir menos e com muita qualidade, utilizando tecnologia e conhecimento científico somados às nossas tradições. O nosso diálogo com o mercado é de quem é empreendedor sim, mas que também é responsável social e ambientalmente. Se não aprendermos a empreender valorizando a floresta, com certeza vamos sofrer no futuro bem próximo.

JÚLIO OLIVAR — Como é a relação de vocês com as ONGs?

ALMIR — Eu governo o meu povo valorizando o diálogo. Não se pode achar que conseguimos algo sem precisar de ninguém. Precisamos das organizações e da sociedade civil organizada. Desde que elas venham dentro dos nossos ideais e queiram trabalhar em parceria, respeitando nossas expressões e opiniões.

JÚLIO OLIVAR — A liderança de Almir Suruí nasceu quando, influenciada por quais fatores e por quem?

ALMIR — Quando eu nasci, em 1974, ou seja, fazia apenas cinco anos que o nosso povo havia tido o primeiro contato com os não-índios. Até então éramos índios isolados. Nasci e cresci vendo todos os desafios enfrentados pelo meu povo. Eu me inspiro em meu avô no sentido de como devo agir como liderança. O essencial é saber ouvir e saber respeitar, inclusive as opiniões públicas divergentes, de outros líderes. O resultado que buscamos é o bem-estar de todos. Fui eleito [cacique] com 17 anos de idade. De lá para cá aprendi que não basta defender o meu povo, é preciso defender o mundo. Claro que o nosso povo e o estado de Rondônia são prioridades.

JÚLIO OLIVAR — Você escreveu, em 2015, um livro biográfico, contando em francês a sua saga. Você é melhor compreendido fora do Brasil?

ALMIR — Desde o começo da minha luta, tenho muitas pessoas que me seguem fora do país. Mas hoje tenho muito orgulho do povo brasileiro que sabe o que significamos, da nossa luta. O Brasil também me apoia. Eu e minha amiga Corine Sombrun [escritora francesa] escrevemos o livro "Sauver la planète: Le message d'un chef indien d'Amazoni". Há também uma versão em inglês. Espero logo termos o livro em português.

JÚLIO OLIVAR — Como é a relação da Funai do Governo Bolsonaro em relação ao período anterior?

ALMIR — Olha, há governos que impedem o diálogo. Nós precisamos de diálogo. Somos contra a proposta do atual governo de arrendamento de terras indígenas. Está claro que nós indígenas não somos bem-vindos, nem no governo, nem na própria Funai. Mas eles são obrigados a ouvir nossas opiniões. O diálogo está travado não é por causa de nós. Não se deve usar o poder pelo poder. Tem que construir com diálogo e respeito pela sociedade indígena. Antes haviam mais diálogo e respeito.

JÚLIO OLIVAR — Qual o grande desafio para os indígenas do século XXI?

ALMIR — A gestão adequada de seu território. O governo não apoia e até incentiva práticas como a mineração e o agronegócio. Isso não interessa às terras indígenas. Isso só traz retrocesso e impactos negativos. O governo deveria ter capacidade e criar créditos para gerar uma gestão melhor dos territórios, mas com todo um conjunto de fatores que incluem o empreendedorismo, sem afetar a natureza.

JÚLIO OLIVAR — Você é a favor da legalização da exploração de diamantes nas terras indígenas de Rondônia?

ALMIR — A forma como o governo tem abordado esse tema está errada. Eu não concordo com mineração da forma que o governo quer. Pensam apenas em favorecer mineradoras. E o que os índios vão ganhar com isso? Falam em favores e 'merrecas' para os índios. Para nós vão sobrar os impactos irreversíveis. Não concordamos.

JÚLIO OLIVAR — A cultura de vocês é preservada realmente ou virou algo mais alegórico sob todas as influências que vêm da sociedade dominante?

ALMIR — Preservamos. Nossa cultura é viva. Mas como em qualquer sociedade, também aprimoramos, tivemos acesso às tecnologias. A gente quer atuar também junto às culturas de não-índios. Há um intercâmbio e queremos implantar a universidade indígena. Educação e cultura têm que caminhar juntas.

JÚLIO OLIVAR — Você defende que os indígenas tenham uma representação política nos parlamentos? Como isso pode ser viabilizado ante a constatação de que, fora o meio acadêmico, ainda existe tanto preconceito social e residência contra os índios!?

ALMIR — Vivemos num país democrático e creio que todos os segmentos devem ser representados politicamente. Todos devem ter voz para que o Brasil seja um país justo e que tenha responsabilidades com todo o seu povo. Os indígenas estão preparados para atuar no legislativo e no executivo — em todos os níveis. É importante essa representatividade para que exista um contraponto dos outros interesses já postos. O desafio é construir um país com planejamento e sustentabilidade. A Amazônia é a grande riqueza e o grande potencial do mundo. 


Bar que existia desde 1959 fecha as portas em Porto Velho

O Bar do Canto era o mais antigo em funcionamento em Porto Velho, ponto de encontro e parte da memória afetiva da capital. Existia há 63 anos, sempre funcionando no mesmo endereço; tornou-se uma tradição. O bolo "moka", muito prestigiado na capital, era a marca do estabelecimento que foi uma mistura de lanchonete, confeitaria e restaurante. Não vendia bebida alcoólica. Fechou as portas em definitivo no dia 3.

O bolo "moka": tradição do Bar do Canto. Foto: Júlio Olivar/Acervo pessoal

Morreram nos últimos dias em Rondônia algumas figuras ilustres: 

- O ex-deputado e ex-prefeito de Ariquemes e de Ouro Preto do Oeste, Francisco de Sales. Morreu 31 de janeiro, aos 69 anos, vítima de câncer.

- O carnavalesco Flávio Daniel (foto) marcou época na cultura popular de Porto Velho. Contribuiu em diversas escolas de samba da capital, como autor de enredos. Também atuou como artista plástico e servidor público. Morreu dia 7 de janeiro, aos 76 anos, de Covid-19.

- Derli Dutra morava em Vilhena. Dirigiu vários órgãos públicos, a exemplo do Detran e o Procon. Morreu dia 8 de fevereiro, aos 72 anos, de AVC agravado pela Covid-19.

Flávio Daniel: alma de artista. Foto: Divulgação

Livro romanceia presença dos gaúchos na onda migratória em Rondônia

Vivendo em Vilhena há mais de 40 anos, o gaúcho Dari de Oliveira é testemunho da história que ele narra no livro "A Marcha dos Insensatos", recém-lançado. A obra narra a aventura da migração de muitos gaúchos primeiro para o Paraná, onde participaram do desbravamento, e de lá para Rondônia. A maioria deles ficou no sul rondoniense, onde até hoje exerce forte influência na economia, na política e na cultura.

Dari estabelece uma narrativa romanceada, mas com informações historiográficas. O livro é muito bem ilustrado com fotos da época da ocupação desta região.  

Dari no lançamento de sua obra. Foto: Divulgação

Sobre o autor

Às ordens em minhas redes sociais e no e-mail: . Todas às segundas-feiras no ar na Rádio CBN Amazônia Porto Velho, às 13h20.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

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