Dia de Portugal, de Camões e das comunidades portuguesas

Os portugueses continuam espalhados pelos vários continentes, levando consigo o saber, a língua, a cultura, o trabalho e as raízes nacionais.

Torre de Belém, em Portugal. Foto: Reprodução/Museus e Monumentos de Portugal

Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br

No século XIX, estabeleceu-se que a data de falecimento de Camões teria ocorrido à 10 de junho de 1580. O responsável por isso foi o Visconde de Juromenha que descobriu na Torre do Tombo, um documento onde era mencionada a quantia a que a mãe do poeta, senhora Ana de Sá, tinha direito após a morte do filho, cuja data era indicada.

A celebração nacional do tricentenário da morte do poeta, em 1880, pelo impacto que teve na sociedade da época e pelo rastro de orgulho que deixou para a posteridade, permanece até os dias atuais como memória importante a ser festejada.

A monarquia constitucional não voltaria a comemorar a data. Porém a primeira vereação da Câmara Republicana de Lisboa foi que decidiu transformá-la em Município de Lisboa em dias especiais, celebrado em toda capital do país.

Ao sabor das vicissitudes políticas e da instabilidade da primeira República Portuguesa, o dia 10 de junho foi comemorado durante vários anos, num misto de celebração laica e republicana, dominando o grande ideal da instituição pública e de arraial popular dada a proximidade dos festejos de Santo Antônio.

Somente em 1925, na sequência das comemorações do quarto centenário de nascimento do poeta, também festejado na data da morte por se desconhecer a data do nascimento, é que foi consagrada como festa de Portugal. Mas foi a ditadura que, finalmente, a instituiu como feriado nacional.

O Estado Novo manteve o feriado que, depois de um período de esmorecimento, foi recuperado no quadro da mística imperialista do regime e das comemorações do sacrifício de sangue dos soldados portugueses que estavam a lutar nas guerras na África.

Vista aérea de Lisboa, em Portugal. Foto: Reprodução/Câmara Municipal de Lisboa

A designação oficial continuou a ser dia de Portugal, mas a retórica vigente recuperou neste momento uma expressão já utilizada na comemoração do centenário em 1925, o dia da raça. A expressão não tinha um único sentido e tende a ser lida e entendida no contexto em que foi utilizada para se perceber os vários significados que lhe foram atribuídos.

Depois do dia 25 de abril de 1974, num quadro democrático e pós-colonial, o dia 10 de junho se manteve como um dos mais importantes feriados nacionais. A designação foi alterada para ‘O Dia de Camões, Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas’. A celebração perdia o cunho imperial, mas não deixava de evocar a diáspora dos portugueses pelo mundo.

O dia 10 de junho e o Príncipe dos Poetas mantém-se, assim, como um dos mais perenes símbolos da nação portuguesa.

Nesta oportunidade quero destacar os maiores vultos da história portuguesa que foram emigrantes: Damião de Góes, Francisco Manuel de Melo, Eça de Queiroz, Almeida Garrett, Pedro Vaz de Caminha e consequentemente, em uma era mais moderna, Ferreira de Castro, Fernando Pessoa e tantos outros hoje espalhados pelo mundo.

Não há dúvida! Que os nomes mais gloriosos da história de Portugal, desde os navegadores, escritores, historiadores e missionários, todos tinham sangues emigrantes.

Retrato de Luís de Camões por Fernão Gomes, por volta de 1577. Imagem: Reprodução/WikimediaCommons

No Amazonas não foi diferente, muitos foram aqueles que perpetuaram seus nomes em nossa história: JG Araújo, José Teixeira de Souza, José Cruz, Antônio Duarte de Matos Areosa e tantos outros da era moderna.

Segundo Conceição Meireles, investigadora especialista em História Contemporânea de Portugal, Camões representava o gênio da Pátria, representava Portugal na sua dimensão mais esplendorosa e mais genial.

Esta comemoração alia-se a “portugalidade” com o gênio do poeta e com o espírito aventureiro e empreendedor dos portugueses, que tal como nos tempos da expansão marítima, de grandiosidade portuguesa em que Portugal deu ao mundo a tarefa da colonização.

Os portugueses continuam espalhados pelos vários continentes, levando consigo o saber, a língua, a cultura, o trabalho e as raízes nacionais. Esses portugueses espalhados pelos quatro cantos do mundo são deveras importantes para a expansão da importância de Portugal.

Quero encerrar a minha fala proferindo uma estrofe da poesia de Camões:

Transforma-se o amador na causa amada,
Por virtude do muito imaginar,
Não tenho logo que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada,
Que mais desejo o corpo alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma transformar”.

Bem aja os portugueses espalhados pelo mundo, em especial no Amazonas!

Sobre o autor

Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

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