Antropóloga paraense defende mestrado sobre mulheres negras em terreiros de Candomblé

No estudo, o terreiro é apresentado como um quilombo urbano, um princípio ideológico de resistência cultural, em que as relações são estruturadas no matriarcado, de acordo com as vivências, pelos filhos e filhas da casa.

Tema foi objeto de estudo da pesquisadora Fiama Góes, da UFPA, que se baseou nas atividades do Terreiro Rundembo Gunzó de Bamburusema Junsara, que fica em Belém. Foto: Reprodução/Instagram-Profa.fiamagoes

A compreensão das dinâmicas territoriais e de sociabilidade de mulheres negras dentro de um terreiro de Candomblé de Angola foi tema de estudo da antropóloga Fiama Góes, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Pará (PPGSA / UFPA), na dissertação de mestrado ‘DAS MAMETUS ÀS MUZENZAS: As articulações e vivências de mulheres negras dentro de um terreiro de Candomblé e os reflexos no exercício da vida em comunidade‘.

Por meio das vivências, dos saberes e das perspectivas individuais e coletivas de mulheres negras, Fiama Góes descreve os passos e a rotina dentro do Terreiro Rundembo Gunzó de Bamburusema Junsara, localizado na periferia de Belém (PA), no bairro Terra Firme. Fora dele, ela observa as redes e os compartilhamentos entre o terreiro e a vida em comunidade dessas mulheres e seus projetos políticos sociais.

No estudo, o terreiro é apresentado como um quilombo urbano, um princípio ideológico de resistência cultural, em que as relações são estruturadas no matriarcado, de acordo com as vivências, pelos filhos e filhas da casa.

Mulheres “cuidam” das pessoas e perpetuam saberes ancestrais

No Terreiro Rundembo Gunzó de Bamburusema Junsara, a autora identifica uma estrutura hierárquica contra-hegemônica, que valoriza o saber e o poder de mulheres negras e se organiza pela mobilidade: ninguém permanece estagnado, evolui-se conforme tempo e conhecimento. O cuidado com os mais jovens e com os mais velhos é um princípio central, conduzido pela sacerdotisa Mam’etu Muagilê (Mãe Beth), mulher negra, quilombola e ativista.

“Ao participar dessa outra forma organizacional, o primeiro sentimento que tive foi o de estranhamento, dado que, na cultura ocidentalizada, não aprendemos a valorizar as pessoas responsáveis pelo cuidado, as quais, normalmente, são mulheres e são tratadas como subalternizadas (…) Por outro lado, dentro do terreiro, quem assume os ‘cargos de cuidado’ são pessoas consideradas autoridades da casa e estão em posições hierárquicas de notoriedade perante a família de santo”, relata a autora.

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A obra destaca a centralidade da sabedoria ancestral, política e social da matriarca, que orienta a comunidade e guia o crescimento espiritual dos Filhos de Santo, um processo que exige abandonar vaidades e aprender, em pequenas tarefas cotidianas, com obediência e respeito aos mais velhos. Essa lógica revela que o terreiro se organiza não apenas por hierarquia, mas também,  sobretudo, por um sistema comunitário, no qual o reconhecimento no outro e as redes de apoio formadas no dia a dia sustentam a vida dentro e fora do barracão.

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O Terreiro Rundembo Gunzó de Bamburusema Junsara valoriza o poder e os saberes de mulheres negras. Foto: Acervo de pesquisa/Jornal Beira do Rio

Ibamca como prática social criada no terreiro

Verificou-se, na pesquisa, como as vivências internas do terreiro dialogam com as realidades externas de seus integrantes, fortalecendo a construção da história do povo preto com base nas estruturas ancestralmente organizadas na roça. Esse vínculo se materializa no Instituto Bamburusema de Cultura Afro- Amazônica (Ibamca), criado para atender à comunidade do terreiro e à população afro-amazônica das periferias e ilhas de Belém, especialmente da Terra Firme.

A necessidade de fundar o instituto surge, justamente, porque, devido a estruturas político-sociais persistentes, o terreiro ainda não é reconhecido como um espaço legítimo para ações sociais apoiadas pelo poder público.

Com base nas vivências e no diálogo com as oito mulheres negras, entre as quais, a sacerdotisa Mam’etu Muagilê e outras sete Filhas de Santo pertencentes ao terreiro, Fiama Góes observou como se constroem as redes e os compartilhamentos com a realidade exterior transformada pelas subjetividades de algumas mulheres que integram e são mantenedoras dessas redes.

A autora conclui que a separação entre o Ibamca e o terreiro é apenas simbólica, já que os projetos sociais do instituto nascem da própria casa de santo e de seus princípios de comunidade, solidariedade e cuidado. Desde sua criação, em 2004, o Ibamca realizou ações sociais, como distribuição de cestas básicas, exames e apoio para retirada de documentos, além de projetos culturais, como Capoeira Angola, Cine Bamburusema, Pretinta, entre outros. Em 2023, recebeu o reconhecimento de Ponto de Memória pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). Ainda assim, a burocracia segue sendo um obstáculo histórico para a obtenção do CNPJ.

Antropóloga Fiama Góes com seu diploma de mestrado. Foto: Reprodução/Instagram-profa.fiamagoes

Segundo a pesquisa, o conhecimento técnico das Filhas de Santo foi essencial para que o terreiro acessasse políticas públicas de incentivo por meio do Ibamca, colocando a comunidade em espaços dos quais o povo preto costuma ser excluído. Como advogada e integrante da casa, a pesquisadora assumiu o compromisso de apoiar a regularização do instituto, articulando parcerias com organizações especializadas nesse trabalho.

Para Fiama Góes, a perspectiva comunitária vivenciada dentro do espaço de aquilombamento, como é a casa de santo, é que move o terreiro e o Ibamca a trabalhar em prol do povo preto.

“Compreende-se que o terreiro, a associação, a família de santo, os filhos e filhas da casa, de modo individual ou coletivo, podem contribuir para a expansão de redes de apoio que conseguem alcançar toda a comunidade preta que está sofrendo na diáspora, por não se ver pertencente ao corpo social ocidental, posto que é uma parcela sempre colocada à margem de direitos”, relata a autora.

Sobre a pesquisa

DAS MAMETUS ÀS MUZENZAS: As articulações e vivências de mulheres negras dentro de um terreiro de Candomblé e os reflexos no exercício da vida em comunidadefoi apresentada por Fiama Góes, no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Pará (PPGSA / UFPA), em 2023 , com orientação do professor Rodrigo Correa Diniz Peixoto.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, da UFPA, edição 176, escrito por Keila Gibson

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