Fila de brasileiros: por que posto na Venezuela vende gasolina mais barata que no Brasil?

Especialistas apontam o subsídio do governo venezuelano e a política de preços voltada ao mercado interno como os principais fatores para menor preço da gasolina, enquanto no Brasil os valores seguem parâmetros do mercado internacional.

Posto de gasolina no lado venezuelano da fronteira com o Brasil, onde fila de brasileiros se forma para abastecer. Foto: Ailton Alves/Rede Amazônica RR

Um posto de combustível na Venezuela tem atraído motoristas brasileiros em busca de gasolina mais barata na fronteira. O litro era vendido a R$ 6,30 até o dia 30 de janeiro de 2026, valor R$ 1,50 inferior ao cobrado em Pacaraima, no Norte de Roraima.

A venda ocorre no posto localizado em Santa Elena de Uairén, na fronteira com o Brasil. No dia da reabertura, a gasolina chegou a ser vendida a R$ 3, valor quase três vezes menor que o praticado em Pacaraima.

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O posto tem quatro bombas de abastecimento com o nome da PDVSA, estatal de petróleo da Venezuela. O país tem a maior reserva comprovada de petróleo do mundo e concentra cerca de 17% das reservas de petróleo do mundo, o equivalente a mais de 300 bilhões de barris.

Produção de petróleo e subsídio do governo na gasolina

O economista da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Roraima (Fecomércio), Fábio Martinez atribuiu o valor do combustível vendido mais em conta no posto da fronteira a dois fatores: a alta produção de petróleo na Venezuela e ao subsídio mantido pelo governo venezuelano.

Na prática, a estatal venezuelana de petróleo, a PDVSA, recebe incentivo do governo e vende a gasolina para refinarias e distribuidoras por valores abaixo do mercado internacional. Com o custo menor na origem, o combustível chega ao consumidor final por um preço mais baixo. Isso significa que o governo banca parte do custo da gasolina para manter o valor reduzido ao consumidor.

“Antigamente, quando a Venezuela não passava por essa crise econômica, a gasolina lá era centavos de real. Com o passar do tempo, o subsídio foi diminuindo, mas existe ainda assim um forte subsídio por parte do governo venezuelano para os combustíveis, fazendo com que o preço fique tão barato assim”, resumiu.

O professor e pesquisador de Relações Internacionais da Universidade Federal de Roraima, João Jarochinski, acrescenta que o preço segue parâmetros voltados ao mercado interno e tem peso político, associado ao discurso de soberania.

“O governo venezuelano mantém os preços domésticos em patamares inferiores aos praticados no mercado internacional, inclusive os que próprio país pratica na venda de petróleo e seus derivados no mercado internacional, como forma de evitar que os combustíveis, nesse caso a gasolina, atue como um vetor adicional de inflação num país que, ao longo dos últimos anos, enfrentou níveis inflacionários elevados”, destacou.

Posto de gasolina no lado venezuelano da fronteira com o Brasil, onde fila de brasileiros se forma para abastecer — Foto: Ailton Alves/Rede Amazônica
Foto: Reprodução/Rede Amazônica RR

Em resumo, na Venezuela o preço da gasolina não segue o mercado internacional. O valor é definido por decisões governamentais, sem relação direta com a cotação global do petróleo.

“É como se o barril de petróleo estivesse cotado a 60 dólares no mercado, mas a estatal vendesse internamente por 30 dólares, justamente para baratear o preço final”, exemplificou Martinez.

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Ao contrário do país vizinho, no Brasil, a gasolina é mais cara porque a política de preços segue parâmetros do mercado internacional e sofre influência de tributos federais e estaduais, conforme detalha o advogado e mestre em Direito Internacional pela pela Universidade de São Paulo (USP), Victor Del Vecchio.

“No Brasil, apesar de termos robustos investimentos estatais na indústria do combustível, o preço pago na bomba obedece a uma lógica de mercado de oferta e procura, levando em conta custos de produção, tributação, o preço do petróleo no mercado internacional, entre outros”, destaca advogado especialista em Direito Internacional, Victor Del Vecchio.

No valor pago pelo consumidor final no Brasil estão embutidos, por exemplo, impostos como a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) e o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).

Del Vecchio, no entanto, pondera que apesar de o combustível ser mais barato na Venezuela, o país enfrenta problemas sérios na produção e distribuição local: “É muito comum na Venezuela que, nas principais cidades, postos fiquem dias sem combustível e, quando há reabastecimento, longas filas são formadas para que a população possa comprar”.

A Câmara Venezuelana Brasileira de Comércio e Indústria de Roraima acompanha o movimento de reabertura do posto de combustível na fronteira. A expectativa é de que o abastecimento continue, mas isso depende das condições da estrada para a chegada dos caminhões-tanque com combustível até o posto que tem atraído brasileiros.

*Por Valéria Oliveira, da Rede Amazônica RR

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