Foto: Bruno Leão/Sedecti AM
Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
Mais um ano vencido e o Amazonas continua amarrado a uma matriz econômica altamente concentrada no Polo Industrial de Manaus (PIM). Dados da SEDECTI informam que o Produto Interno Bruto (PIB) estadual, da ordem de R$ 179,8 bilhões em 2025 continua altamente impulsionado pelo Polo Industrial de Manaus (PIM), que representa cerca de 30% a 34% do PIB estadual.
Dados da SEFAZ demonstram a participação relativa do PIB amazonense, no segundo semestre do ano passado, assim configurado:
- Comércio e Serviços – 43,84%;
- Indústria – 36,84%;
- Impostos – 15,74%;
- e o Setor Agropecuário respondendo por apenas 3,58%.
No mesmo período o estado gerou 566.357 empregos formais, à frente o setor Comércio e Serviços – 387.427 postos de trabalho; Indústria – 143.127; Construção – 31.012 e o Agropecuário, com minguados 4.791 empregos localizados basicamente no interior amazonense.
Por explícito desinteresse governamental desde 1967 o setor primário foi subestimado, fator que levou a ZFM a estruturar se, de forma insustentável, apenas sobre o setor secundário da economia. De tal sorte que, hoje, aproximadamente 95% do produto industrial advém do PIM; assim como 92% do ICMS arrecadado e 77,5% do PIB estadual concentram-se na capital amazonense.
O interior, subestimado, encontra-se definitivamente fora da ambiência econômica gerada em Manaus. Do contexto, pode-se destacar os municípios de Coari, com a extração primária de petróleo e gás (nenhum sinal até agora da implantação de um complexo petroquímico) e Presidente Presidente Figueiredo, onde se concentra a exploração de cassiterita (estanho) pela Mineração Taboca, a maior produtora do minério refinado do Brasil, cerca de 3% do estanho comercializado no mundo.
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Em novembro de 2024 a mineradora chinesa CNMC (China Nonferrous Metal Mining Group) adquiriu a Mineração Taboca por aproximadamente R$ 2 bilhões, incluindo a reserva de urânio na região. Na condição de maior produtor mundial, a China consolida fortes interesses na exploração de terras raras, um grupo de 17 elementos químicos (15 lantanídeos, mais escândio e ítrio) cruciais para a alta tecnologia, vitais para ímãs super potentes (veículos elétricos, turbinas eólicas), eletrônicos (celulares, LEDs) e aplicações militares, fator que vem gerando algumas preocupações geopolíticas sobre o Brasil ficar de fora da industrialização do minério.
A geógrafa Bertha Becker afirma que o desafio do desenvolvimento da Amazônia pressupõe implementar modelo que utilize o patrimônio natural sem destruí-lo, atribuindo valor econômico à floresta. Nesse sentido, ao que sustenta em sua vasta obra, o Brasil, no século XX, viveu quatro importantes revoluções tecnológicas: a criação da Petrobrás, em 1953; da Embraer, em 1969; da Embrapa, 1973, e a instituição do Proálcool, em 1975.
A quinta revolução tecnológica brasileira deve ser a da Amazônia. Ela foi mais além ao profetizar: “Três grandes eldorados podem ser reconhecidos contemporaneamente: os fundos oceânicos ainda não regulamentados; a Antártida, partilhada entre as potências; e a Amazônia, única a pertencer, em sua maior parte, a um só Estado nacional”. Estas respostas, não sei se vergonhosa ou lamentavelmente, a pesquisa nacional ainda não as tem, levando o país à plena dependência da tecnologia internacional. Estes os pontos cruciais e os maiores desafios do Amazonas para 2026. Solucioná-los pressupõe sobrepujar o estágio randômico sob o qual nossa economia historicamente é conduzida. Governo e sociedade civil não podem, penso eu, contentar-se apenas com números recordes do PIM, enquanto persistem graves problemas relacionados:
- à espraiada miséria urbana da capital e dos municípios, ao Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE),
- à regularização fundiária, ao sistema Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPF),
- ao Manejo Florestal Sustentável (MFS) ou a sistemas de produção (pacote tecnológicos) de produção de alimentos nas áreas de piscicultura (criação sustentável em cativeiro de pirarucu e outras espécies de vocação exportadora, como quelônios e jacaré), de produção agrícola ( fruticultura, café, coco) e extrativas, principalmente oleaginosas e vegetal (açaí, babaçu, castanha do pará, cacau, borracha).
Enormes e complexos desafios impostos ao governo, classes políticas, empresariais e à sociedade amazonense, que, todos juntos e coesos são, inexoravelmente, compelidos a lutar para superá-los tendo em vista a ampliação da atual, e insustentável, matriz econômica a partir da integração ZFM/PIM/Bioeconomia. Vale salientar que, enquanto o PIM fechou 2025 com pouco mais de 140 mil empregos diretos, apenas a citricultura paulista gera 400 mil postos de trabalho e a safra 2023/2024 fechou com um faturamento recorde de US$ 2,5 bilhões, 60% de exportações, um aumento de 21,29% em relação à anterior.
O contexto impõe, com efeito, a necessidade de desenvolver nova e desafiadora dinâmica do sistema econômico estadual. Certamente, a garantia de perenização da Zona Franca independentemente de favores fiscais. Assim pensava, e ensinava, o mestre Samuel Benchimol desde a edição do DL 288/1967.
Sobre o autor
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).
*O conteúdo é de responsabilidade do colunista
