O publicitário Andrey Rodrigues é o autor da HQ ‘Os Poderosos Treme-Terra’. Foto: Andrey Rodrigues/Acervo pessoal
As aparelhagens surgidas no Pará, que compõem festas muito populares no estado, além do imaginário do povo amazônico e suas lendas, são os elementos da história em quadrinhos (HQ) ‘Os Poderosos Treme-Terra‘. A obra, que deve ser publicada em breve, criada para quem é fã de quadrinhos envolvendo super-heróis e que tem orgulho da cultura nortista, segundo o criador Andrey Rodrigues.
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A história do publicitário belenense de 50 anos mergulha no conhecimento ancestral, na música, na tecnologia e, claro, no universo de super-heróis “amazofuturistas”. Morador do bairro Montese, também conhecido como ‘Terra Firme’, na periferia de Belém, o publicitário conversou com o Portal Amazônia sobre este trabalho, a primeira experiência dele com os quadrinhos.
O enredo de ‘Os Poderosos Treme-Terra’
‘Os Poderosos Treme-Terra’ conta a história dos gêmeos Maike e Maikon, que vivem na periferia de Belém, mas em um contexto diferente da realidade da cidade: eles comandam naves inspiradas nas apresentações de aparelhagens, onde é muito comum ver, além de shows de DJs, elementos cenográficos com grande estrutura, cenografia e muitas luzes.
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Os protagonistas da história são ‘carregadores de aparelhagem’, termo utilizado no Pará para quem carrega os equipamentos de som para os artistas locais. Andrey Rorigues explica que os personagens vivem, por meio de naves espaciais, uma viagem no espaço-tempo, redescobrindo conexões ancestrais com seres do passado, presente e futuro.
“Os gêmeos eu usei como referência os Ibejis (orixás gêmeos presentes em religiões de matriz africana como o Candomblé e a Umbanda). Na cosmogonia africana, os gêmeos vencem o espírito da morte por meio da música. Maike e Maikon são os personagens principais. Mas a história tem outras personagens gravitando ao entorno deles”, revelou.
Inspiração
Parte da inspiração desta história veio de um trabalho publicitário feito por Andrey Rodrigues: um comercial de TV que mostrava a aparelhagem ‘Crocodilo’, uma super estrutura onde DJ’s de Belém se apresentam.
“A proposta surgiu enquanto eu trabalhava na gravação de um comercial para o qual escrevi o roteiro e atuei na co-direção. A produção tinha a participação da aparelhagem ‘Crocodilo’, e acompanhei de perto toda a estruturação. Naquele período, eu lia diversas obras de afrofuturismo e passei a enxergar as aparelhagens como um elemento relevante dentro dessa perspectiva. A partir daí, começamos a construir a ideia do amazofuturismo”, contou.

“As aparelhagens fazem parte de minhas memórias afetivas. Lembro dos altares sonoros em festa de interior, bregas do Ted Max, Lambadas e House (Midback). Depois, a fase do Melody, Tecnomelody e enfim Tecnobrega”, comentou o autor da HQ sobre um dos pontos que estimularam sua criatividade.
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As ligações com os sonhos também dão o tom para o enredo da HQ ‘Os Poderosos Treme-Terra’. Rodrigues destaca que os sonhos muitas vezes trazem um significado para o amazônida e isso é levado em conta neste trabalho.
“Essa história que criei vai muito por essas cosmogonias. Tentando resumir, é um multiverso em Belém que conta as nossas cosmogonias amazônicas”, explicou ao Portal Amazônia.

Rodrigues também destaca que o leitor da HQ conseguirá identificar várias referências aos artistas locais. Muitos dos heróis dos quadrinhos são inspiradas nos artistas ligados a aparelhagem como DJ Méury, Rubi e Badalasson. “Tem vários Easter Eggs (surpresas escondidas), bem como o Stan Lee que aparece nos filmes da Marvel”, afirmou.

Financiamento coletivo
A história em quadrinhos já garantiu os recursos necessários para sair do papel. A campanha de financiamento coletivo, realizada por meio da plataforma Catarse, atingiu a meta estabelecida e assegurou a etapa final de produção da obra.
O projeto tinha como objetivo arrecadar R$ 14 mil para viabilizar a publicação. O valor será destinado às fases de produção e impressão da revista.
“Eu fui buscar ilustradores e também os custos para impressão e eu vi que é algo caro. E foi aí que fui informado sobre o Catarse, que mostra ser uma ferramenta bem transparente e funcionou. Através desta ferramenta, eu também consegui que a imprensa viesse até mim”, destacou.
Com o financiamento confirmado, a equipe agora concentra esforços nos ajustes finais e no processo gráfico para que a publicação chegue ao público apoiador e aos leitores interessados na produção independente da região Norte.
