As festas religiosas ultrapassam a fé individual e se consolidam ao reunir dezenas ou até milhares de fiéis em procissões, promessas e tantas outras celebrações que atravessam gerações.
Essas expressões populares guiam populações e demonstram parte de suas culturas. O Portal Amazônia procurou algumas dessas manifestações mais populares nos estados da Amazônia Legal e preparou uma série destacando as principais festas religiosas de casa estado.
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Na terceira matéria da série, seguimos para o Amazonas, estado que abriga algumas das maiores expressões de fé do país, pois em diferentes municípios festas religiosas mobilizam populações inteiras, movimentam a economia local e preservam tradições centenárias.
Procissões terrestres e fluviais, novenários, missas campais, arraiais e promessas fazem parte do calendário religioso do Estado.
Conheça sete festas religiosas tradicionais no Amazonas:
Festa de Nossa Senhora do Carmo
A festa em honra à Nossa Senhora do Carmo, padroeira do município de Parintins, é uma das celebrações religiosas mais populares e importantes do Amazonas. Com fé e devoção à santa, a festa dura 10 dias com celebrações que acontecem entre 6 e 16 de julho, logo após o Festival Folclórico de Parintins.
As celebrações da festa incluem procissões com a imagem da santa e bandeiras, para aqueles que pagam promessas, missas e o tradicional arraial com com as comidas da barraca da santa e os brinquedos do parque.
Considerada como patrimônio cultural de Parintins, a festa recebe muitos romeiros que se deslocam de outros municípios do Estado do Amazonas para participarem.

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A festa do começa no dia 6 de julho, com o Círio de Nossa Senhora do Carmo e finaliza no dia 16 com a celebração da procissão e da santa missa solene, que conforme dados da Secretaria de Turismo do Município, cerca de 35 mil pessoas participam.

Durante os festejos na praça da Catedral são realizados os bingos, shows de bandas, apresentações de bonecas vivas e das associações folclóricas de bumbás, batismos de crianças, casamentos, jornadas apostólicas e leilões organizados pelos comerciantes e pecuaristas locais.
Além disso, durante os meses de maio e julho acontece a peregrinação da santa entre os municípios próximos, como Barreirinha, Boa Vista do Ramos e a capital Manaus.
O percurso do Círio sai da Paróquia de São José Operário e passa pelas ruas Nações Unidas, Álvaro Maia e Avenida Amazonas com destino à Catedral. Durante o trajeto pelas ruas da cidade a imagem da santa é reverenciada pelos moradores que ornamentam suas casas com flores e estendem tapetes de folhagem.
Em 2009 a Romaria das Águas foi implementada nos festejos, quando os fiéis vão até o porto da cidade para prestar homenagens à santa. Navegando pelo Rio Amazonas, o trajeto é guiado por uma imagem gigante de Nossa Senhora do Carmo que mede cerca de 16 metros de altura.

A festa da Padroeira de Ordem Carmelita era, inicialmente, a festa da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria. No entanto, entre 1376 e 1386, surgiu o costume de celebrar uma festa especial em homenagem a Nossa Senhora, foi então que a data do dia 16 de julho foi fixada, que é também a data em que, segundo a tradição carmelita, Nossa Senhora apareceu para S. Simão e lhe entregou o escapulário.
A santa é padroeira de Parintins e a Catedral em sua homenagem foi tombada por sua importância cultural pela Lei Nº 618/2004.
Festa de Santo Antônio de Borba
De acordo com a tradição, no local onde se construía a sede do município de Borba, uma imagem de Santo Antônio foi encontrada por pescadores. A imagem, porém, começou a desaparecer e a ser encontrada sempre no mesmo lugar, e após sucessivas ocorrências foi entendido que eram manifestações da vontade do santo.
No local onde a imagem sempre aparecia foi construída a igreja, e ao redor da igreja, o município de Borba nasceu.

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Iniciada por padres jesuítas em 1756, a festa foi reconhecida como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Estado em 2022.
A procissão fluvial da Canoa de Saída é o primeiro grande evento dos festejos antoninos de Borba e a imagem de Santo Antônio é levada a uma capela da comunidade de Acará, para depois ser devolvida pelo mesmo percurso.
Também chamada de Grande Procissão Fluvial no rio Madeira, a Canoa de entrada acontece no último dia do mês de maio, e milhares de fiéis vão em embarcações para buscar o santo de Acará e levá-lo de volta à sede em Borba.

Durante a procissão fluvial dezenas de barcos, lanchas, embarcações e uma balsa disponibilizada pela prefeitura acompanham o trajeto entoando cânticos. Durante a Canoa de Entrada, ao entardecer cerca de duas mil luminárias, com bases feitas de laranjas nativas, são colocadas sobre o rio para iluminar a frente da cidade.
A programação da festa inclui alvoradas, trezenários, missas, arraiais, procissão e momentos culturais. A festa movimenta a economia da cidade e atrai visitantes em busca das belezas naturais da região, como o Balneário do Lira e o Balneário do Rio Mapi.
Procissão Fluvial de São Pedro
Realizada nas águas do Rio Negro, no dia 29 de junho, a procissão fluvial de São Pedro reúne pescadores e embarcações decoradas que navegam pelas águas do Rio, como forma de homenagear e festejar o dia do padroeiro dos pescadores. Além disso, a procissão é uma das celebrações mais tradicionais de Manaus.

Celebrada em Manaus desde 1949, a festa de São Pedro inclui uma procissão fluvial e uma missa terrestre. Ao desembarcar no porto, os fiéis seguem em procissão terrestre até a Catedral Metropolitana de Manaus onde acontece a missa solene em honra a São Pedro.
Festa de Nossa Senhora da Conceição
A festa de Nossa Senhora da Conceição, considerada padroeira de Manaus e do Amazonas, inicia no dia 29 de novembro com um novenário voltado à santa. Durante o novenário acontecem celebrações eucarísticas, procissões, missas e adorações, além de uma feira da solidariedade e uma ciclo procissão em alusão à data.

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Celebrada no dia 8 de dezembro, com mais de 369 anos de história, a devoção à Nossa Senhora da Conceição no Amazonas data de 1659, quando foi trazida pelos missionários Carmelitas.
Inscrita no calendário Litúrgico da igreja católica em 1477, pelo Papa Sisto IV, a festa da imaculada Conceição foi proclamada como dogma em 8 de dezembro de 1854, pelo Papa Pio IX.
Santa Teresa D’Ávila
Durante os dias 6 e 15 de outubro, no município de Tefé, no Médio Solimões, acontece a festa de Santa Teresa d’Ávila, padroeira do município.
Considerado o maior evento católico da região, milhares de fiéis, romeiros e visitantes se reúnem na Catedral de Santa Teresa para participar de dez noites de devoção, celebração e homenagens a santa.

A devoção à santa Teresa remonta a 1689, quando o Padre jesuíta Samuel Fritz fundou a missão de Tefé com o propósito de evangelizar os povos indígenas do rio Solimões. A missão foi consagrada a Santa Teresa d’Ávila, por sua vida mística e pelas reformas no Carmelo.
Com o passar dos séculos, a devoção se fortaleceu entre os moradores de Tefé e em 1759, o local foi elevado à categoria de paróquia sob a proteção da santa.
O reconhecimento oficial veio no dia 4 de janeiro de 2004, quando Dom Sérgio Eduardo Castriani proclamou Santa Teresa d’Ávila como padroeira da Prelazia de Tefé, por meio de um decreto lido durante a celebração da Festa da Epifania do Senhor.

Além das missas solenes, novenas e procissões, o arraial conta com quiosques de comidas típicas, bingos, leilões, apresentações culturais e a presença dos comerciantes ambulantes, conhecidos como marreteiros. Alguns dos fiéis pagam suas promessas, em silêncio ou descalços, enquanto outros participam com gestos de gratidão e fé.
No dia 15 de outubro, dia litúrgico de Santa Teresa d’Ávila, acontece uma procissão pelas ruas da cidade e uma missa campal na catedral reunindo muitos fiéis.
Festa do Divino Espírito Santo
A festa do Divino Espírito Santo, uma das mais antigas tradições do catolicismo no Brasil, teve origem em Portugal, no século XIV, e foi trazida ao Brasil pelos colonizadores portugueses, após uma promessa feita pela Rainha Isabel Aragão ao Espírito Santo.
O município de Alvarães, localizado no Amazonas, celebra no dia 31 de maio, a Festa do Divino Espírito Santo e se transforma em um espetáculo de fé, cultura e natureza. A programação inclui missas, procissões, apresentações folclóricas e grandes atrações musicais.

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Entre os diversos símbolos do festejo, as velas do Divino, luzes flutuantes que iluminam o lago de Alvarães, posta sobre ‘barquinhas’ rodeadas de papel colorido, destacam-se entre os fiéis.
A festa começa com a tradicional elevação do mastro, quando os fiéis o carregam em procissão até o local onde será levantado e fixado durante os 10 dias de celebração. A programação inclui também novenas, cortejos, celebrações e culmina com uma missa campal, ao ar livre, quando fogos de artifício anunciam o encerramento da festa.
É nesse momento que o Lago de Alvarães e milhares de velinhas coloridas e flamejantes formam uma cidade iluminada, que mistura fé, arte e natureza.

Festa de São Sebastião
De 11 a 19 de janeiro, os fiéis de São Sebastião participam de noites de novenário em honra ao santo católico, padroeiro que intercede contra as epidemias, pestes e guerras. No dia 20, dia litúrgico do santo, acontece a tradicional procissão pelas ruas do centro histórico de Manaus, com a imagem do santo, e uma missa campal na Igreja de São Sebastião.
São Sebastião teve uma vida cercada de desafios e provações, conquistando o posto de comandante da Guarda Pretoriana e converteu-se ao cristianiamo de forma secreta, já que na época o império romano era governado por Diocleciano e por Maximiano.

Suas boas ações não passavam despercebidas, como visitar os cristãos presos e ajudar os necessitados e doentes. O santo não participava dos martírios nem das manifestações de idolatria dos romanos, e por essa razão foi denunciado por um soldado.
O imperador Diocleciano, ao saber que Sebastião era cristão, sentiu-se traído e mandou que ele abandonasse a sua fé e ao se negar, foi alvejado por flechas e apesar de ter sobrevivido, ele foi novamente condenado e morto. Graças a sua vida de defensor da fé cristã e martírio, Sebastião foi canonizado e declarado padroeiro da contra a peste e a guerra.
Festa de Santa Teresinha do Menino Jesus
Santa Teresinha do Menino Jesus nasceu em Alençon, na França, no dia 2 de janeiro de 1873, e faleceu no dia 30 de setembro de 1897, com apenas 24 anos. Teresinha viveu sua vida em missão pelo amor de Jesus Cristo e em 1923, foi beatificada pelo Papa Pio XI, e canonizada em 1925.

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Aos 15 anos, Teresinha quis ingressar para o convento, mas devido a pouca idade foi negada. Recorrendo ao bispo e ao Papa, Teresinha insistiu por três meses até ter a autorização do bispo para ingressar.
A programação em honra à santa inclui adoração ao Santíssimo Sacramento, novena das rosas, unção dos enfermos, terço da misericórdia e uma procissão seguida de missa campal.
Festejo em Honra a Nossa Senhora das Dores
Realizado entre os dias 6 e 15 de setembro, no município de Manicoré, o Festejo de Nossa Senhora das Dores é um evento religioso que movimenta o interior do estado, movimenta a economia local e atrai milhares de visitantes ao Município.
Declarado como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Amazonas a partir do Projeto de Lei (PL) no 189/2022, o festejo em honra a Nossa Senhora das Dores foi instituído e celebrado pela primeira vez em 1865.

A sede administrativa e religiosa da região do Médio Rio Madeira era, originalmente, a Freguesia dos Baetas. No entanto, o crescimento acelerado do povoado de Manicoré mudou esse cenário e com o desenvolvimento econômico e o aumento populacional, Manicoré tornou-se mais influente que Baetas.
Por conta do avanço, no dia 6 de julho de 1868, com o apoio do Tenente-Coronel da Guarda Nacional Manoel Pereira de Sá, a administração provincial do Amazonas oficializou a transferência da sede da freguesia para Manicoré.
A partir desse decreto, o povoado passou a ser reconhecido como Freguesia de Nossa Senhora das Dores de Manicoré, começando a devoção da santa na região.
*Com informações da Arquidiocese de Manaus, Universidade de Caxias do Sul, Universidade Federal do Amazonas e Prelázia de Tefé
**Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
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