Arte do terreiro em exposição: estudo analisa obras e artistas afro-amazônicos

Idealizada pelo professor Arthur Lean­dro (in memoriam), a exposição 'Nós de Aruanda, Artistas de Terreiro' surgiu como projeto de extensão do Grupo de Estudos Afro-Amazônico da UFPA.

Foto: Divulgação/Acervo Centro Cultural da Justiça Eleitoral do TRE-PA

Ele saiu de casa e se dirigiu à Galeria de Artes The­odoro Braga, no centro de Belém (PA). A exposição em cartaz sai dos moldes tradicionais e apresenta ao público algo novo no cenário artístico-cultural da capital do Pará. Na abertura, em meio ao salão, o discurso de uma mulher emocionada, rodeada pelos organizadores do evento, chama atenção ao proferir:

“Eu não sabia que era artista. Quem disse que eu era artista foram vocês!”.

A artista em questão é a candomblecista Mametu Nangetu. A exposição é ‘Nós de Aruanda, Artistas de Terreiro‘. “Ele”, o personagem citado na primeira linha, é Carlos Arthur Góes Cordeiro. Proveniente de família cristã protestante, historiador e professor da rede básica de ensino, Carlos Cordeiro se deparou com a cena em 2013, enquanto observava a exposição.

A frase da afrorreligiosa Mametu Nangetu foi tão marcante que se tornou o pontapé para sua jornada acadêmica, iniciada com a Graduação em História e estendida até o mestrado, com a dissertação intitulada ‘Eu não sabia que era artista!: exposição Nós de Aruanda, Artistas de Terreiro, no cenário cultural afro-amazônico paraense’

“A minha pesquisa, na verdade, foi um insight de quando eu ainda cursava a graduação. Porém eu só percebi isso em 2017, ao investigar como os alunos iden­tificavam essas expressões artísticas, de matriz africana, dentro do espaço escolar, com base em uma perspecti­va mais descolonizada e antropológica”, explica Carlos Góes Cordeiro.

Idealizada pelo então professor da UFPA Arthur Lean­dro (in memoriam), a Exposição Nós de Aruanda, Artistas de Terreiro surgiu como um projeto de extensão do Grupo de Estudos Afro-Amazônico (Geam). O objetivo era trazer a arte afro-brasileira para fora dos espaços de terreiros, enfatizando que filhos e filhas de santo eram artistas. 

A ex­posição, que contou com oito edições, tinha como tripé: a aplicabilidade da Lei 10.639/2003, que tornou obrigatória a abordagem da cultura e da história africanas em sala de aula; a exaltação da memória e luta de Mãe Doca (Rosa Viveiros), mulher negra, maranhense, que inaugurou o primeiro terreiro de tambor de mina em Belém, em 1891; e a apresentação para a população das experiências artísticas vivenciadas dentro dos terreiros.

Salões, galerias e outros espaços de sociabilidade

Com a pesquisa, Carlos Góes Cor­deiro quis mostrar a importância de o patrimônio afrorreligioso estar presente nos espaços de sociabilidade. 

“Vejo que é um desafio, principalmente den­tro dos programas de pós-graduação mais tradicionais, as pessoas percebe­rem as dimensões dessas formas de cultura. Quando se fala em patrimônio, percebemos um constructo social en­gessado: um casarão, um monumento ou um objeto, mas não notamos, em muitos casos, a presença material e a imaterial do patrimônio contido em ter­reiros sagrados”, ressalta o historiador.

A pesquisa procurou dar voz aos artistas de terreiro e perceber o que eles entendem como arte, considerando seus fazeres e suas vivências dentro das casas de santo. Inicialmente, foi feito um aporte teórico autores que tecem discussões antropológicas patrimoniais. Em seguida, Cordeiro buscou artistas e suas obras, usando, como critério, a disponibilidade, pois o período era de pandemia de covid-19.

O estudo evidencia a necessidade de ampliar o debate sobre o patrimônio dos povos de terreiro. Essa discussão está intimamente ligada à política histó­rica e cultural do Pará, uma vez que, na capital do estado, apenas o Terreiro de Mina Dois Irmãos, localizado no bairro Guamá, é tombado pelo Departa­mento de Patrimônio Histórico Artístico e Cultural (DPHAC). 

“Em Belém, temos mais de três mil terreiros e apenas um é registrado de forma imaterial. Existe um legado das tradições de matriz afri­cana que é pouco considerado pelo Poder Público e em debates sociocul­turais”, avalia o pesquisador.

“Discutir a religiosidade da nossa região é importante, porque nos deli­mita como indivíduos múltiplos e únicos entre tantas outras localidades do Brasil, mas sem perder de vista os laços que unem a identidade dos povos de terreiros para fortalecimento da cultura e a energia vital (Axé) presente nos cultos afros”, explica Carlos Cordeiro.

Cultos afros ainda enfrentam a intolerância religiosa

Outro ponto destacado na disser­tação é a intolerância religiosa, res­ponsável por propagar um imaginário ruim acerca dos cultos afros.

“Em um dos eventos da exposição, no ano de 2017, houve a circulação de uma per­formance do orixá das matas (Oxóssi), da Av. Presidente Vargas até a Galeria Theodoro Braga. Foi interessante ver a reação dos transeuntes diante de pes­soas trajadas com guias, indumentárias de santo, além da entidade vestida de folhagem amazônica. Foram recorren­tes os atos de se benzer ou se afastar e olhares de desprezo. Outro exemplo aconteceu em 2016, quando um grupo levou uma obrigação para o rio, no distrito de Icoaraci, e foi hostilizado por estar fazendo ‘macumba’”.

A pesquisa demonstra como a ex­posição foi importante para fazer com que filhos e filhas de santo passassem a se reconhecer como artistas.

“A minha intenção era não apenas responder problemas estruturais como a exclusão artística dos terreiros, mas também refletir sobre a arte produzida em Be­lém. Quando Mametu Nangetu se re­conhece como artista, indivíduo ativo na sociedade, produtora de cultura e saberes, mesmo que ela não entenda, está descolonizada da ideia de arte”, analisa, satisfeito, Carlos Arthur.

Falar sobre patrimônio no Brasil ainda envolve disputas de poder. “Ne­nhum de nós nasce com preconceito, eles nos são ensinados. Ao longo do tempo, vamos somando experiên­cias na escola, no trabalho e com os amigos, e então quebramos alguns paradigmas. Foi esse movimento que, em 2013, me fez mudar de concepção acerca dos cultos afros. Desconstruir começa na base do ensino”, finaliza o historiador.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, edição 173, da UFPA, escrito por André Furtado

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