Documentário registra manejo da fauna pelo povo Baniwa no Amazonas

O documentário 'Eenonai: Conservação e manejo na casa dos animais' registra o conhecimento ancestral do povo Baniwa e os impactos da emergência climática que ameaçam essa prática no Alto Rio Negro.

Foto: Reprodução/Youtube-Instituto Socioambiental

  • O tempo certo para sair em busca da caça;
  • o pote de guardar o curare – veneno que vai ser colocado na flecha;
  • o cuidado para não abater nada além do necessário;
  • a partilha com a comunidade;
  • os impactos da emergência climática nos ciclos.

Esses são alguns elementos do milenar manejo da fauna pelo povo Baniwa registrados no documentário ‘Eenonai: Conservação e manejo na casa dos animais’, lançado durante a COP30, em Belém (PA).

Eenonai é o termo na língua dos conhecedores Baniwa que se refere aos animais e dá nome ao documentário sobre o manejo da fauna na região do Rio Ayari (Alto Rio Negro, Amazonas), na bacia do Rio Içana, território predominantemente do povo Baniwa.

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Entre os Baniwa, a prática da caça se mantém de geração em geração e integra um sistema sofisticado de conhecimentos dos povos indígenas do Alto Rio Negro, uma das regiões mais preservadas da Amazônia. Esse manejo também compõe o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro (SAT-RN), reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histório e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio cultural.

O educador-pesquisador, físico, cientista ambiental e liderança indígena Dzoodzo Baniwa, que participou da produção do Eenonai, ressalta a importância do documentário, que registra o manejo sustentável da caça pelo povo Baniwa. 

“O documentário traz esse registro importante sobre o conhecimento. Cada povo indígena  tem seu próprio sistema de conhecimento e do manejo do seu território. Cada técnica, cada domínio da tecnologia é muito importante. Os Baniwa utilizam, por exemplo, instrumentos tradicionais, como zarabatana, e tem outras técnicas. O documentário resgata essas práticas tradicionais e dá esse horizonte de como podemos continuar mantendo o manejo da caça no nosso território, inclusive nessa perspectiva de impacto de mudanças climáticas. É muito importante, porque tanto os animais quanto nós povos indígenas manejamos esse território todo, ajudamos a diversificar as plantas, distribuindo sementes. A gente tem esse papel muito importante na proteção da floresta”, diz. 

Documentário registra manejo da fauna pelo povo Baniwa no Amazonas
Foto: Reprodução/Youtube-Instituto Socioambiental

Sabedoria do povo Baniwa retratada no documentário

As práticas e saberes sobre esse manejo são acompanhados pelos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) da região, que desenvolvem pesquisas sobre temas socioambientais, em diálogo permanente com os conhecedores de suas comunidades e com pesquisadores especializados não-indígenas.

Constituída a partir de colaborações entre o Instituto Socioambiental (ISA), a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e organizações e escolas indígenas locais, a Rede de AIMAS atua na região do Içana e em outras áreas do Alto e Médio Rio Negro, registrando em diários e tablets práticas de manejo das roças, pesca, caça, coleta de frutos e insetos, intercâmbios econômicos e rituais, fabricação dos instrumentos e utensílios.

Constantemente, os pesquisadores relatam os impactos das mudanças climáticas nos ciclos ecológicos e nas práticas de manejo, que afetam a disponibilidade da fauna e flora, bem como os eventos sociais e rituais.

O objetivo da Rede de AIMAs é promover pesquisas colaborativas e interculturais de longa duração para o fortalecimento dos conhecimentos indígenas e da gestão territorial. Para isso, os agentes indígenas também contam com a parceria com institutos de pesquisa e universidades.

Essas pesquisas geram observações e indicadores que apoiam a governança territorial, conforme explica Dzoodzo Baniwa.

“A pesquisa sobre a fauna no território Baniwa Koripako é muito importante porque gera indicadores que vão orientar diretrizes para construção do plano de manejo, sobretudo pensando gestão territorial e governança do território. A pesquisa consegue traduzir o manejo tradicional que está sendo praticado no território há milhares de anos. O documentário Eenonai também retrata o resultado da pesquisa registrada por nós da rede de pesquisadores indígenas. E com isso esperamos contribuir com debates e diretrizes para implementação do Plano de Gestão Territorial e Ambiental nos territórios”, diz.

A pesquisa retratada no documentário é fruto da dedicação da Rede de AIMAs em parceria com o Centro de Pesquisa e Monitoramento Eenopana e a Rede Fauna – Pesquisa em Conservação, Uso e Manejo da Fauna da Amazônia.

Assista:

A idealização do projeto é da pesquisadora e coordenadora-adjunta do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (PRN/ISA), Natalia Pimenta, e dos pesquisadores André Pinassi Antunes e Walter Lopes da Silva, do povo Baniwa. A direção é do documentarista Fellipe Abreu, especialista em sistemas alimentares, e da analista do ISA, Giselle Sousa.

Ficha técnica

  • Idealização: Natalia Camps Pimenta, André Pinassi Antunes e Walter Lopes da Silva
  • Produção: Natalia Camps Pimenta, André Pinassi Antunes, Walter Lopes da Silva, Dzoodzo Baniwa e Ana Amélia Hamdan Gontijo
  • Direção: Fellipe Abreu e Giselle Sousa
  • Direção de fotografia e captação de áudio: Fellipe Abreu
  • Entrevistas em Baniwa: Laise Cardoso
  • Roteiro: Luiz Felipe Silva
  • Edição/finalização: Elder Barbosa
  • Agradecimentos: Aos moradores e conhecedores de Canadá e demais comunidades do rio Ayari, Escola Baniwa Eeno Hiepole, Centro de Pesquisa e Formação Eenopana, National Geographic, Rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) da Bacia do Rio Negro.
  • Realização: ISA, FOIRN, Rede Fauna, Nadzoeri
  • Apoio: Ipê/Lira e Nia Tero.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Socioambiental

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