Natalicio Karai apresentando calendários Guarani. Foto: Reprodução/Museu das Culturas Indígenas
Tradições como roupas novas, ceias fartas, simpatias, fogos de artifício e a famosa festa de virada de ano, à meia-noite no dia 31 de dezembro, compõem o imaginário popular de grande parte da população quando se fala em Réveillon, em ano novo.
No entanto, para a maioria dos povos indígenas, essa data não carrega significado simbólico, visto que essas etnias não seguem o calendário gregoriano, adotado mundialmente, mas que se organizam a partir dos ciclos da natureza.
📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp
Na Amazônia brasileira, por exemplo, o número de etnias é de 391 (Censo de 2022 do IBGE) e esses povos desenvolvem seus próprios calendários com base em fenômenos naturais como o regime das chuvas, as cheias e as vazantes dos rios, os períodos de plantio, pesca, caça e, sobretudo, o movimento das constelações. Esses calendários são transmitidos de geração em geração e orientam a vida social, econômica e espiritual dessas comunidades.
Leia também: ‘Constelações e as estações do ano’: Como os indígenas usam a cosmologia a seu favor?
Embora muitos indígenas já estejam habituados ao calendário gregoriano, utilizado em atividades institucionais, escolares e administrativas, por sua proximidade com os centros urbanos, esses povos mantêm suas próprias formas de medir o tempo.
Divisão do tempo indígena
A divisão do tempo é uma prática ancestral que acontece a partir das mudanças das constelações. Entre os povos indígenas os calendários são representados graficamente por círculos, que organizam os ciclos naturais ao longo do ano, em que são considerados elementos como a agricultura, atividades de subsistência e a mudança das constelações.

Nas comunidades localizadas próximas à linha do Equador, o ano costuma iniciar com a constelação da Jararaca, período que coincide com a época de enchentes, aproximadamente nos meses de novembro e dezembro no calendário gregoriano. Diferente do calendário ocidental, essas datas não são fixas, já que se a cheia do rio atrasa ou adianta, o início do ano também muda.
Enquanto isso, de acordo com a Cooperação e Aliança no Noroeste Amazônico (Canoa), os povos Tukano orientais, Aruaki e Macu, que habitam a região do Alto Rio Negro, no Noroeste Amazônico, utilizam um calendário desenvolvido pelo organização. Dividido em três círculos principais, os calendários reúnem os ritos de passagem, como benzimentos, os períodos agrícolas e os períodos de pesca, como a caça e a coleta de insetos.
O padre Justino Sarmento Rezende explica que, para muitos povos indígenas, a organização do tempo está profundamente ligada aos ciclos da vida e da natureza. Segundo ele, o ritmo do cotidiano não é marcado por datas fixas, mas por acontecimentos fundamentais da existência humana, como a gestação, o nascimento e a morte, que em diversas culturas são acompanhados por rituais e celebrações.

“Geralmente as pessoas seguem o ritmo, o ciclo da vida, a gestação da mulher, o nascimento de uma criança. Quando alguém morre, algumas culturas realizam festas”, afirma o padre.
Além disso, a chegada das frutas comestíveis, por exemplo, também dá origem a festas e momentos de partilha entre as comunidades e parentes, assim como os períodos de caça e pesca. De acordo com Justino, as cerimônias antecedem atividades importantes do cotidiano, como a abertura de roças, a construção de casas e a recepção de visitantes.
Ele explica que não existe um único modelo de organização do tempo entre os povos indígenas, e que as comunidades que passaram por processos de evangelização ou escolarização acabam incorporando outras referências ao seu calendário tradicional.
Leia também: Rochas milenares eram usadas como calendário solar por povos indígenas: conheça o Stonehenge da Amazônia, no Amapá
“Quem já é evangelizado, cristianizado, faz também festas religiosas. Quem tem escola inclui o calendário escolar, as festas cívicas, e assim vai seguindo, depende de como cada povo vai vivendo a sua própria história”, explica.
Diversidade de calendários
A diversidade dos calendários indígenas está diretamente ligada à diversidade cultural desses povos. Não existe apenas ‘um povo indígena’ ou ‘uma única cultura indígena’, são muitos povos diferentes, com histórias, crenças e formas de viver próprias.
Essa diversidade também aparece na relação dos povos indígenas com o calendário ocidental e com as festas de fim de ano. Quanto maior o contato com a população não indígena, maior costuma ser a influência do calendário gregoriano e de datas como o Natal e o Ano Novo.

As manifestações socioculturais indígenas são construídas tanto a partir das tradições quanto do contato com a sociedade envolvente. Povos que mantêm uma relação mais próxima com cidades, escolas e instituições acabam incluindo no dia a dia festas cívicas, religiosas e até o calendário escolar.
Apesar disso, o sentido simbólico da passagem do tempo está presente em todas as culturas, já que a ideia de renovação, tão associada ao Ano Novo no calendário, também aparece em diferentes etnias, ainda que em outras datas e contextos. Assim, enquanto o calendário gregoriano marca o tempo de forma fixa e padronizada, os calendários indígenas permanecem flexíveis e profundamente conectados à natureza.
*Com informações do Instituto Socioambiental
