Como é a jornada dos venezuelanos acolhidos na fronteira com o Brasil?

Crise humanitária e, agora, o ataque dos EUA geram incerteza sobre o fluxo migratório. Em oito anos mais de 150 mil venezuelanos chegaram a Roraima e seguiram para outros Estados.

Migrantes venezuelanos fogem da crise atravessando a fronteira com o Brasil. Foto: Caíque Rodrigues/Rede Amazônica RR

Ao cruzar a fronteira entre a Venezuela e o Brasil, em Pacaraima, no norte de Roraima, migrantes venezuelanos encontram o primeiro ponto de atendimento a menos de um quilômetro da linha geográfica que separa os dois países. É nesse local que começa, oficialmente, a jornada para a permanência legal no Brasil e, para muitos, o processo de interiorização — como é chamada a política que leva esses estrangeiros para outras cidades do país.

O processo é conduzido pela Operação Acolhida, a força-tarefa do Exército criada em 2018 pelo governo federal, com apoio de organizações internacionais, sendo responsável pelo ordenamento da fronteira, acolhimento e interiorização de migrantes venezuelanos no Brasil.

A captura do ditador Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, pelos norte-americanos no último dia 3 projeta um momento de incerteza na fronteira.

Saiba mais: Entenda como fica a situação da Venezuela após o ataque dos Estados Unidos e prisão de presidente e primeira dama

Em um vídeo divulgado nas redes sociais, o Operação Acolhida disse estar “preparada para cenários de aumento do fluxo migratório” e mantém monitoramento constante na fronteira. Até a publicação desta reportagem, a situação era considerada estável.

“As equipes seguem atuando de forma permanente, acompanhando o movimento e garantindo o ordenamento da fronteira e a segurança da população roraimense”, informou.

Mais de 150 mil venezuelanos foram interiorizados por meio da Operação Acolhida. Elas foram levadas a 1.100 municípios brasileiros.

De acordo com o comandante da força-tarefa em Roraima, general de divisão José Luís Araújo dos Santos, a operação mantém seis abrigos divididos em Pacaraima e Boa Vista. Juntos, abrigam atualmente cerca 5,8 mil pessoas recém-egressas da Venezuela.

Apesar da importância de mecanismos como a Operação Acolhida para o atendimento humanitário aos migrantes, questões como adaptação cultural, inserção no mercado de trabalho, reunificação familiar e enfrentamento ao preconceito são parte do cotidiano de quem chega ao Brasil.

Por ser uma situação de “migração forçada”, o pesquisador e diretor do Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal de Roraima (UFRR), João Carlos Jarochinski Silva, explica que os desafios enfrentados pelos estrangeiros não acabam ao cruzar a fronteira.

“A interiorização cria oportunidades concretas, sobretudo ao ampliar o acesso ao trabalho e reduzir a pressão na fronteira, mas não elimina as perdas acumuladas ao longo da trajetória migratória. Não é só ter documento e ‘zerar’ a vida”, disse.

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Entrada de migrantes

Dados do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) contabilizam a entrada de quase 1 milhão de venezuelanos no Brasil entre 2018 e 2025 – o levantamento considera todo o fluxo migratório, o que inclui também o grupo atendido por meio da Operação Acolhida. Há outras rotas, além de Pacaraima, para que venezuelanos entrem e se estabeleçam no Brasil por conta própria.

Até novembro do ano passado, 11,2 mil migrantes foram levados para outros estados por meio do programa de interiorização da Acolhida.

Esse é o sonho do pedreiro venezuelano Daniel Torres, de 39 anos. Ele chegou em Pacaraima na última quarta-feira (7) após quatro dias de viagem saindo de ônibus de Apure, região na fronteira da Venezuela com a Colômbia.

Ele afirma que pretende seguir para Macapá, no Amapá, onde o irmão dele vive. Para isso, tentará atendido pelo programa de interiorização da Operação Acolhida.

“Quero trabalhar na construção civil com o meu irmão que mora em Macapá. Quero recomeçar a vida, na Venezuela não dava mais para ficar, muita coisa ruim. Em nome de Deus, quero começar uma vida nova”.

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Programa de interiorização

Quando chegam em Pacaraima, os migrantes são cadastrados pelo governo brasileiro, que solicita documentos para registro e permanência no país , além de submeter os cidadãos a uma triagem básica de saúde – momento em que são vacinados. Em alguns casos, também são encaminhados para atendimento médico.

Enquanto aguardam a conclusão desses procedimentos, permanecem em abrigos temporários no município. Esses alojamentos são administrados pelos militares do Exército.

Durante essa etapa, os venezuelanos recém-chegados ao Brasil informam se têm oferta de emprego ou familiares em outras regiões, o que pode facilitar a inclusão no programa de interiorização.

Após a fase inicial, os migrantes seguem em ônibus para Boa Vista, onde o atendimento é ampliado. Ao menos um coletivo parte por dia de Pacaraima, conforme o Grupo Rede Amazônica apurou.

Na capital de Roraima, aqueles que têm trabalho garantido ou rede de apoio entram na fila para serem transferidos a outros estados. Os que não contam com suporte são acolhidos em abrigos de trânsito, com estrutura maior do que a disponível na fronteira.

Parte dos migrantes também participa de cursos de qualificação profissional, oferecidos em parceria com instituições como o Senai, além de processos de intermediação com empresas que buscam contratar profissionais. Depois desta etapa ocorre a interiorização para cidades onde há vagas de emprego ou familiares.

Migrantes venezuelanos

Para quem passou por esse processo, o retorno à fronteira pode marcar um novo capítulo da história migratória. Marjorie Cabrera, de 36 anos, natural de Maturín, vive há cinco anos no Brasil e voltou a Pacaraima para buscar as filhas e o irmão, que agora seguirão com ela para Santa Catarina, o estado que mais recebe venezuelanos por meio da interiorização. 

Ela mora no município de São José (SC), onde trabalha em um comércio, e conta que a viagem à Venezuela, em dezembro, foi marcada pela emoção do reencontro.

“A gente já tinha cinco anos que não se via. Agora, minhas três filhas estão todas reunidas. É muito sentimento encontrado”, afirmou.

Segundo Marjorie, a interiorização foi decisiva para a construção de uma nova vida no Brasil.

“É muito legal morar em Santa Catarina. A gente começa uma vida nova, uma vida boa. Aqui já é a minha vida, não tem como deixar o que eu tenho para voltar para a Venezuela”, disse.

A dimensão do trabalho humanitário desenvolvido na fronteira foi destacada pelo general José Luís. Ele afirmou que a operação segue estruturada para atender novos cenários migratórios.

“Cerca de 80 mil pessoas foram recepcionadas, com mais de 600 mil atendimentos [em 2025], garantindo documentação para viver no Brasil com cidadania”, afirmou o general.

Segundo ele, a atuação também avançou nas áreas de saúde e acolhimento com mais de 7 mil pessoas vacinadas “protegendo migrantes, refugiados e a população brasileira”.

Venezuelanos chegam e são recebidos por meio da Operação Acolhida em Boa Vista janeiro 2025
Foto: Caíque Rodrigues/Rede Amazônica RR

Não é um recomeço completo

Na avaliação do professor João Carlos Jarochinski, o processo migratório não pode ser visto como um simples “reinício administrativo”.

“Essas pessoas chegam, na maioria das vezes, sem recursos, sem conseguir transformar o que tinham na Venezuela em investimento aqui. Muitas vêm de uma migração forçada, marcada por perdas materiais, ruptura familiar e dificuldade de comprovar suas qualificações profissionais”, afirma.

De acordo com o pesquisador, o ponto favorável ao Brasil é que essa política de interiorização também atende a demandas estruturais do próprio país, especialmente em estados com escassez de mão de obra e envelhecimento da população, como Santa Catarina, principal destino dos venezuelanos no programa.

Ainda assim, ele aponta problemas que persistem no processo de integração.

“Há um descompasso entre a qualificação que muitos migrantes possuem e as vagas que acabam sendo ofertadas. Falta avançar no reconhecimento de títulos, na validação de competências e em políticas públicas mais articuladas entre União, estados e municípios.A interiorização funciona, mas precisa ser acompanhada de estratégias reais de integração”, avalia.

*Por Caíque Rodrigues, da Rede Amazônica RR

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