O epidemiologista e pesquisador da Fiocruz Amazônia, Jesem Orellana, faz um alerta para a necessidade do uso de máscaras com sistema de filtragem especial (N95 ou PFF2), principalmente por pessoas com histórico de comorbidades e doenças respiratórias, nesse período crítico de intensificação da fumaça proveniente das queimadas e que encobre Manaus (AM).
“O que mais preocupa este ano em relação aos anteriores é que não se sabe, ao certo, se o que está acontecendo é simplesmente uma antecipação do período crítico ou se, realmente, este ano, teremos um período mais longo de exposição à fumaça tóxica, já que o pico da poluição em 2023 foi em outubro. Seria algo inusitado e extremamente preocupante, pois estenderia o sofrimento da população e traria consequências muito piores”, explicou Orellana.
O pesquisador afirma que alguns efeitos diretos da fumaça sobre a saúde podem ser facilmente identificados, como tosse seca, sensação de falta de ar, irritação dos olhos e garganta, congestão nasal ou alergias na pele.
“Indiretamente, o problema pode contribuir para o agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias como rinite, asma, bronquite, doença pulmonar obstrutiva crônica ou mesmo Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG)”, exemplifica Jesem, chamando atenção também para os efeitos negativos sobre a saúde mental de pessoas mais vulneráveis, uma vez que os níveis elevados de poluição atmosférica aumentam suas preocupações e incertezas, além de limitarem atividades de lazer ou terapêuticas ao ar livre.
Foto: Ingrid Anne/Arquivo Fiocruz Amazônia
Orellana ressalta que o aumento na busca por atendimentos médicos ambulatoriais e internações hospitalares é outro fator preocupante, uma vez que sobrecarrega os já precários serviços de saúde. “O uso de máscara torna-se, portanto, muito apropriado principalmente para que tem histórico de doença respiratória e precisa sair de casa”, explica.
Já no caso das pessoas que precisam fazer caminhadas e corridas, por recomendação médica, essas devem evitar as atividades ao ar livre e ao sair de carro devem ligar o ar-condicionado com a circulação interna ativada. Caso desenvolvam alguma manifestação clínica, devem procurar imediatamente uma unidade de saúde, evitando assim a automedicação ou piora do quadro clínico”, frisou.
As causas e consequências da seca histórica nos rios da bacia hidrográfica rondoniense, em especial, o rio Madeira fazem parte de uma pesquisa que aponta fatores antropogênicos e naturais; responsáveis pela seca dos rios. O aquecimento desproporcional entre os oceanos Atlântico Norte e Sul gera uma diferença que interfere na formação de nuvens de chuva na região Amazônica, crucial para a manutenção dos níveis dos rios durante todo o ano.
Desenvolvida pelo pesquisador João Paulo Assis Gobo, vinculado à Fundação de Amparo ao Desenvolvimento das Ações Científicas e Tecnológicas e à Pesquisa (Fapero) e líder do Grupo de Pesquisas em Bioclimatologia e Mudanças Climáticas na Amazônia da Universidade Federal de Rondônia (Unir), além de membro do Grupo de Pesquisa em Climatologia do Laboratório de Climatologia e Biogeografia (LCB) da Universidade de São Paulo (USP), a pesquisa apresenta fatores antropogênicos e naturais, responsáveis pela seca dos rios. Caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, o El Niño acontece com frequência a cada dois a sete anos. Sua duração média é de doze meses, gerando um impacto direto no aumento da temperatura global.
João Paulo Assis Gobo pesquisa fenômenos meteorológicos e os efeitos climáticos. Ao longo de 2023, foram observadas temperaturas recordes na superfície dos oceanos por conta do El Niño. Desde maio do ano passado, os registros térmicos no Oceano Pacífico Equatorial subiram de 0,5 °C acima da média para cerca de 1,5 °C acima da média, em setembro.
Os níveis de água do Madeira em Porto Velho, são os mais baixos em 56 anos, quando se iniciaram as medições no rio. Há quase um ano, o curso d’água, um dos maiores afluentes do rio Amazonas atingiu a cota de 1,44 metro, a menor em 17 anos. A marca, porém, chegou a 1,17 metro.
Previsão
Segundo explanado pelo pesquisador, a seca histórica dos rios da bacia hidrográfica rondoniense tem gerado consequências severas à população, com milhares de pessoas sem água e com dificuldades em obter alimentos, que o transporte hidroviário está comprometido. Já os peixes precisam mudar seu ciclo e buscar “rotas de fuga” para sobreviver. Entre os rios afetados estão o Candeias, Guaporé, Jamari, Mamoré, Machado, Madeira e Pirarara. Estes não só sustentam a biodiversidade local, mas também são vitais para as atividades econômicas da região, incluindo a agricultura e a hidroeletricidade.
O período chuvoso compreendido entre o final do ano de 2023 e os três primeiros meses de 2024, não foram suficientes para a recarga pluviométrica, ou seja, as precipitações ficaram abaixo do normal em toda a região Amazônica durante o período crucial para recarga dessa chuva que estava necessitando a região.
Conforme a pesquisa, a previsão para 2024, que está acontecendo, infelizmente é ainda pior, e, a partir de outubro, a configuração do fenômeno La Niña, oposto ao El Niño; fenômeno oceânico e atmosférico caracterizado pelo resfriamento anormal das águas do oceano Pacífico. O La Niña tende a criar condições de seca em muitas partes do mundo, a exemplo do Sul do Brasil, enquanto traz chuvas em excesso para outras áreas, como o litoral do Nordeste e a Amazônia.
O pesquisador ponderou que o fenômeno La Niña só deve ocorrer em Rondônia no final de 2024, trazendo chuvas em quantidades otimistas para os rios da Amazônia, em especial da bacia hidrográfica rondoniense, porém os próximos meses não serão bons com a esperada seca histórica.
Aquecimento
Além disso, o aquecimento global potencializa os eventos extremos como a seca e o processo de ressecamento do bioma. Estudos comprovam que o aquecimento global tem papel mais devastador na seca dos rios se comprado ao fenômeno climático El Niño, ou seja, as alterações climáticas estão modificando a reciclagem de umidade da floresta amazônica, interferindo diretamente nos processos hídricos da região e potencializando os períodos de secas. O aquecimento global do planeta interfere nas chuvas na região amazônica, atingindo os rios de Rondônia que são formados sobretudo pelos deslocamentos de massas de ar provenientes não do Oceano Pacífico, mas do Atlântico.
A população ribeirinha e as comunidades tradicionais indígenas são uma das mais afetadas, pois essas comunidades que dependem das vias fluviais da floresta Amazônica ficam isoladas, sem acesso a combustível, alimentos ou água filtrada. Outro agravante está relacionado aos problemas de acessibilidade, visto que os moradores das comunidades ribeirinhas enfrentam obstáculos para sair e voltar às suas comunidades e, por fim atingindo sua subsistência, pois dependem dos recursos naturais da região que acaba sendo afetado com a estiagem.
Neste viés, o pesquisador João Paulo Assis Gobo deixa um importante apelo: a preservação da Amazônia é essencial para o equilíbrio climático, principalmente das comunidades tradicionais que utilizam dos recursos naturais para sobreviverem e população das áreas urbanas, as quais já sentem os efeitos e reflexos da seca histórica do rios que compreendem a bacia hidrográfica de Rondônia.
“Se conseguirmos reduzir a nossa taxa de desmatamento e estimular o retorno de vegetação na área que foi desmatada, podemos ter um efeito e tentar reverter esse trágico cenário para uma região que sempre foi compreendida como abundante em suas águas“, finalizou o pesquisador.
Para conectar equipes prestadoras de Assistência Técnica Rural (ATER) aos produtores rurais localizados na Amazônia, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), a Fundação Viver, Produzir e Preservar (FVPP) e a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-Pará), em parceria com agricultores familiares do Pará e apoio da Fundação Walmart e da Agência Norueguesa de Cooperação para o Desenvolvimento (Norad), desenvolveram o aplicativo ATER Paidegua.
A ferramenta permite que as equipes técnicas ofereçam suporte contínuo e de qualidade aos agricultores, mesmo à distância, se baseando na metodologia de assistência técnica com foco no desenvolvimento e adoção de práticas agrícolas sustentáveis para os atendimentos à distância e presenciais. Aparecida Brandão, coordenadora de projetos da FVPP, relata que mais de 80% das famílias assistidas na área rural têm acesso à internet.
“Duas das principais motivações para a criação do aplicativo foram reduzir os custos de ATER na Amazônia e permitir que as nossas equipes técnicas façam um bom registro das prestações de assistência técnica que já vínhamos fazendo virtualmente, só que de forma não sistematizada e não registrada”, destaca Lucimar Souza, diretora de Desenvolvimento Territorial do IPAM.
Imagem: Reprodução
Já em funcionamento, o aplicativo possibilita aos técnicos agendar visitas presenciais e criar bancos de dados organizados da propriedade e dos atendimentos realizados. “Isso reduzirá o tempo de espera para receber assistência e esclarecer dúvidas dos produtores, além de possibilitar o atendimento em locais de difícil acesso”, diz Elisangela Trzeciak, pesquisadora do IPAM.
A ferramenta também possibilita atender as necessidades específicas de cada região. “A regionalização e a característica peculiar de nossos territórios estarão mais acessíveis num aplicativo com a cara do Pará a todo o público rural paraense, especialmente a agricultura familiar, povos e comunidades tradicionais”, comenta Cristiane Fonseca, extensionista rural.
Os recursos minerais que caracterizam a região andina do Peru estão visivelmente ausentes ao norte do Huancabamba Gap, o ponto baixo de altitude nos Andes ligado à zona de deflexão que criou o Vale do Rifte Amazônico. No entanto, há uma cadeia de montanhas incomum localizada a leste da Cordilheira Oriental, na fronteira entre o Peru e o Equador.
A Cordillera del Condor é um cinturão de dobras e empuxos criado em uma das primeiras fases da orogenia andina, quando plútons magmáticos foram introduzidos em estratos sedimentares mais antigos que criaram pórfiros de cobre com recursos minerais significativos.
Há várias minas em desenvolvimento, mas a mais avançada é a do Projeto Mirador, que explorará uma quantidade estimada de 3,1 milhões de toneladas de cobre, 3,2 milhões de onças de ouro e 25 milhões de onças de prata. Essa é a primeira mina a céu aberto em escala industrial do Equador e incluirá uma instalação de processamento que converterá o minério em um concentrado.
A mina, que tem uma vida útil projetada de trinta anos, está sendo desenvolvida com capital chinês e gerará bilhões de dólares em royalties e receitas fiscais, contribuindo para a equação da balança de pagamentos que motiva os ministérios das finanças. Há outras quatro minas de cobre e duas minas de ouro em escala industrial em desenvolvimento.
No lado peruano da fronteira, garimpeiros de ouro estão ativos, mas não há reservas economicamente significativas de cobre ou outros metais básicos.
Os pórfiros de cobre do norte dos Andes
O Equador e o sul da Colômbia são conhecidos por seus vulcões que são comumente associados a pórfiros de cobre e ouro. A exploração recente revelou a existência de formações ricas em cobre perto da fronteira entre o Equador e a Colômbia.
No lado equatoriano, a Empresa Nacional Minera del Ecuador (ENAMI EP) está nos estágios iniciais de desenvolvimento de La Bonita, um depósito de cobre descoberto pela primeira vez na década de 1990, onde a perfuração exploratória extraiu amostras com concentrações de cobre entre 0,35% e 0,86%, com potencial igualmente atraente para ouro, molibdênio e chumbo. La Bonita abrange três grandes concessões com 13.500 hectares que fazem fronteira (e se sobrepõem ligeiramente) com terras reivindicadas pelo povo indígena Cofán.
A aproximadamente 300 quilômetros ao norte, um pórfiro de cobre e ouro semelhante, conhecido como Projeto Mocoa de Cobre-Molibdênio, está sendo desenvolvido por uma empresa júnior canadense de mineração.
A descoberta inicial foi feita em 1978 pelo Serviço Geológico da Colômbia (Ingeominas), mas não foi explorada seriamente até 2004, quando uma empresa júnior canadense adquiriu a concessão, e acabou vendendo-a para o atual proprietário (Libero Copper Corporation).
Em um relatório recente para investidores, o desenvolvedor estima que o corpo de minério tenha aproximadamente 2,1 milhões de toneladas de cobre e 231.818 toneladas de molibdênio, o que seria avaliado em aproximadamente US$ 20 bilhões nas avaliações atuais de mercado para o cobre. A mina, se for desenvolvida, estará localizada a apenas 15 quilômetros ao norte da cidade de Mocoa, capital do Departamento de Putumayo; o corpo de minério se sobrepõe à Reserva Florestal Alto Rio Mocoa e é adjacente à Resguardo Indígena Yunguillo.
Áreas de mineração na Cordillera del Cóndor, no Equador, e na bacia superior do Putumayo, na fronteira com a Colômbia. Esquerda: Mineração industrial e irregular no contexto de áreas protegidas e terras indígenas. Direita: minas industriais e irregulares no contexto da história geológica. Fontes de dados: Gómez et al. (2019), RAISG (2022) e ENMI EP (2022).
Bauxita da Amazônia
O Brasil produziu mais de 35 milhões de toneladas de bauxita em 2020. Isso representa cerca de dez por cento da demanda global e representa um nível de produção que poderia ser mantido por aproximadamente 100 anos com base em reservas estimadas de 2.700 milhões de toneladas. Há três minas de bauxita em operação, localizadas em três municípios do estado do Pará, que geraram aproximadamente US$ 935 milhões em receita bruta em 2020.
A maior mina foi aberta em 1979 pela Mineração Rio Norte (MNR), uma joint venture envolvendo cinco empresas multinacionais e brasileiras. Ela está localizada na margem norte do rio Amazonas, no município de Oriximiná. Do outro lado do rio, na margem sul, há uma mina operada pela Alcoa no município de Juruti, que iniciou suas operações em 2010.
Ambas as minas são minas de enclave cercadas por floresta natural com usinas industriais dedicadas, uma linha ferroviária e instalações portuárias. A terceira mina foi estabelecida em 2007 pela Norsk Hydro no leste do Pará (Paragominas) em uma paisagem que foi fortemente impactada pelo desmatamento. Duas minas de bauxita adicionais estão em desenvolvimento pela Companhia Brasileira de Alumínio, ambas localizadas a poucos quilômetros da mina existente em Paragominas.
Os depósitos de bauxita no oeste do Pará estão localizados em antigas planícies sedimentares (peneplanícies) que foram criadas entre 50 e 60 milhões de anos atrás, no que é essencialmente a antiga planície de inundação do rio Proto-Amazonas, quando ele fluía do leste para o oeste. As minas no leste do Pará têm uma história geológica diferente, mas foram formadas por processos de intemperismo semelhantes no que já foi uma extensa planície costeira situada a leste do Cráton Amazônico.
Foto: Hydro / Halvor Molland
O interesse no desenvolvimento futuro da bauxita é revelado pelo número de concessões solicitadas por investidores e empresas de mineração (< 1.000), o que reflete o potencial nas paisagens ao redor das minas existentes, mas também nos municípios de Nhamundá, Urucará, Borba, Autazes e Careiro no estado do Amazonas.
Durante a maior parte do século XX, a Guiana e o Suriname foram líderes globais na produção e exportação de bauxita; no entanto, os depósitos minerais facilmente exploráveis nos dois países se esgotaram na primeira década do século XXI. A Guiana exporta apenas uma pequena fração de sua antiga produção, enquanto o Suriname fechou sua última mina e instalação de processamento em 2016.
Ambos os países ainda têm reservas consideráveis de bauxita, mas sua exploração não é, aparentemente, econômica no atual setor de mineração global. A Venezuela tem reservas muito grandes e de alta qualidade e a capacidade instalada para explorá-las; no entanto, seu setor mineral entrou em colapso devido à má gestão econômica e às restrições estruturais ligadas ao seu modelo econômico socialista.
As minas de cassiterita da Amazônia brasileira
A cassiterita é um minério conglomerado com altas concentrações de óxido de estanho [SnO2]; ela existe tanto como depósito ‘primário’ em formações de rocha dura associadas a intrusões magmáticas em rochas metamórficas quanto como depósitos ‘secundários’ em paisagens de deposição localizadas adjacentes ao corpo de minério primário.
O Brasil tem cerca de 15% das reservas globais de cassiterita e tem sido um grande produtor de estanho desde a década de 1960, quando fazia parte de um cartel internacional de estanho. Os altos preços (~US$ 35.000 por tonelada) alimentaram um boom de mineração que teve como alvo os depósitos aluviais que eram particularmente abundantes no noroeste de Rondônia (municípios de Porto Velho e Ariquemes), bem como paisagens selecionadas no Pará (São Félix de Xingu) e Amazonas (Presidente Figueroa).
A dinâmica do mercado acabou prevalecendo e uma queda vertiginosa no preço (US$ 5.000 por tonelada) levou ao colapso do cartel em l985 e, pouco tempo depois, ao fim das minas de cassiterita de pequena escala na Amazônia brasileira.
O preço do estanho se recuperou no superciclo de commodities entre 2007 e 2012 (US$ 15.000 e US$ 20.000), mas sua exploração agora está restrita a empresas com os recursos de capital necessários para explorar depósitos de rocha dura. Em 2022, duas empresas canadenses assinaram uma joint venture para explorar os depósitos de rejeitos e as minas de placer abandonadas em Ariquemes e nos municípios vizinhos.
A maior e mais antiga mina corporativa em operação está localizada perto da fronteira norte do estado do Amazonas, no município de Presidente Figueroa. Conhecida como mina Pitinga, ela é famosa por seu histórico de danos ambientais e conflitos sociais.
A mina foi aberta em 1982, quando o governo militar estava adotando uma estratégia de ‘desenvolvimento a todo custo’ que desconsiderava o impacto da degradação ambiental e ignorava os direitos dos povos indígenas (consulte o Capítulo 6). O recurso mineral estava localizado dentro das terras tradicionais dos Waimiri-Atroari, uma tribo que havia sido brutalmente reprimida na década de 1960 quando resistiu à construção da rodovia entre Manaus e Boa Vista. Sua reserva, criada em 1971 como forma de compensação pela brutalidade da década anterior, foi reconfigurada unilateralmente em 1981 para excluir a área da mina proposta.
Essa mina agora é operada pela Mineração Taboca, uma subsidiária de uma empresa de mineração peruana, a MINSUR, que adquiriu a concessão de 130.000 hectares e as instalações de processamento associadas em 2008. Embora a mina já tivesse iniciado sua transição para uma operação moderna a céu aberto, o novo proprietário continuou a usar a tecnologia de mineração de placer até 2012.
As reservas de bauxita da Amazônia brasileira estão concentradas nos planaltos do vale do rifte amazônico inferior e nas peneplanícies terciárias adjacentes. A bauxita é exportada pela hidrovia amazônica ou transformada em alumínio em refinarias e fundições em Barcarena e São Luís do Maranhão. Há três minas em funcionamento e duas em desenvolvimento pela Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), além de refinarias e fundições em Barcarena e São Luís do Maranhão. Fonte de dados: RAISG (2022).
A mineração de placer é particularmente nociva porque visa seletivamente e destrói habitats ribeirinhos, e seu uso na concessão de Pitinga criou um enorme passivo ambiental de longo prazo que ameaça a saúde dos indígenas vizinhos à mina.
A mina a céu aberto de Pitinga continua sendo altamente lucrativa e o corpo de minério de rocha dura é considerado a maior reserva de estanho do mundo (500.000 toneladas de estanho refinado). Em 2020, a mina produziu cerca de 7.400 toneladas de cassiterita enriquecida com receita bruta estimada em ~US$ 220 milhões. Mais importante ainda, a usina de processamento começou a recuperar nióbio e tântalo, minerais estratégicos com reservas estimadas em 775.000 e 106.000 toneladas de mineral refinado, respectivamente.
Nióbio, tântalo e elementos terras raras
O nióbio (Nb) é usado na indústria siderúrgica para fabricar aços especializados (inoxidáveis) que são usados nos setores de construção civil, construção naval, indústria automotiva e de petróleo e gás. O tântalo (Ta) é igualmente resistente à corrosão, mas é usado na fabricação de dispositivos eletrônicos miniaturizados, incluindo telefones celulares, equipamentos médicos e aplicações aeroespaciais.
Ambos os elementos tendem a ser encontrados juntos em um minério conhecido como coltan, que, aparentemente, está presente em paisagens há muito conhecidas por seus depósitos de cassiterita.
As receitas de nióbio e tântalo na mina de estanho de Pitinga agora representam cerca de cinquenta por cento da receita bruta da mina, contribuindo com mais US$ 200 milhões para as receitas corporativas em 2020. A diversificação da produção e das receitas pode passar por mais uma transição em breve, porque a mina parece ser uma fonte globalmente importante de uma classe de minerais estrategicamente significativa conhecida como elementos de terras raras (REE).
Os elementos de terras raras são os elementos da série de lantanídeos da tabela periódica; com números atômicos que variam de 57 (lantânio) a 71 (lutécio), eles são agrupados porque todos têm uma valência de +3 e compartilham determinadas propriedades químicas que influenciam sua distribuição na natureza.
Apesar do nome, eles não são particularmente raros, embora a mineração e a comercialização de REE tenham sido dominadas pela China por cerca de duas décadas. A geopolítica e a competição de alto risco gerada pela transição energética motivaram os investidores das economias ocidentais a priorizar o desenvolvimento de fontes alternativas desses minerais estratégicos.
Depois da China, o Brasil tem a segunda maior reserva conhecida de REE, estimada em aproximadamente 22 milhões de toneladas. A maior parte das reservas conhecidas está localizada em uma única mina em Goiás: Complexo de Mineração de Catalão. Existem três áreas na Amazônia que têm reservas potencialmente significativas de nióbio, tântalo e REE.
A Mineração Taborca ainda não começou a separar e processar os potenciais minerais REE dentro da concessão de Pitinga; aparentemente, eles estão presentes não apenas no corpo de minério primário, mas também nos mais de 6.000 hectares de lagoas de rejeitos que contêm mais de 100 milhões de toneladas de rocha residual.
As descobertas em andamento na mina de Pitinga, particularmente a associação de REE com cassiterita, nióbio e tântalo, estimularam um interesse renovado nas paisagens de mineração abandonadas em Rondônia e em outros lugares.
Foto: Luciana Uehara
Em janeiro de 2022, a Auxico Resources Canada Inc., criada especificamente para descobrir e desenvolver depósitos de REE, assinou um acordo com a Cooperativa Estanífera de Mineradores da Amazônia Legal Ltda. (CEMAL) para a exploração e comercialização de REE a partir dos rejeitos antigos existentes nos municípios de Ariquemes e Monte Negro, em Rondônia.
Estima-se que as áreas contenham 30 milhões de toneladas de rejeitos de operações anteriores de mineração aluvial e coluvial. Amostras fornecidas pelo CEMAL foram analisadas por uma instituição de pesquisa canadense e revelaram um teor total de óxidos de REE superior a 63%; essas amostras eram particularmente ricas em cério (35,9%), lantânio (15,2%) e ítrio (1,14%).
Assim como na mina de Pitinga, o potencial de explorar os rejeitos não remediados da mina seria uma oportunidade única (e inesperada) que poderia fornecer os recursos necessários para resolver um risco ambiental de longa data.
Morro dos Seis Lagos e regiões adjacentes na Colômbia e na Venezuela
O Moro de Seis Lagos é uma montanha remota no norte do estado do Amazonas com características geológicas semelhantes às da mina de Catalão, em Goiás. Muito antes de ser reconhecida como uma fonte potencial de elementos de terras raras, ela foi apontada como um depósito de nióbio de classe mundial (236 Mt @ 2,81% Nb2O5) com reservas economicamente significativas de titânio e manganês.
Sabe-se que o corpo de minério, ainda mal mapeado, contém monazita, florencite, rabdofano e pirocloro, minerais que são fontes conhecidas de óxidos de terras raras. Levantamentos preliminares sugerem que há aproximadamente 43 Mt de minério com concentrações de óxidos de terras raras que, em média, são de cerca de 1,5%. Isso tornaria o Morro dos Seis Lagos um dos principais depósitos de REE do Brasil.
Apesar de seu potencial mineral, existem vários obstáculos ao seu desenvolvimento, sendo o mais importante a sua localização dentro dos limites do Parque Nacional Pico da Neblina, uma área protegida de alto perfil criada em 1979.
Além disso, as paisagens circundantes estão dentro das áreas tradicionais de coleta de alimentos de vários grupos indígenas, incluindo os Yanomami, que habitam as paisagens florestais a nordeste, e os povos Baniwa, Baré, Desana, Maku, Tariana e Tukano, que residem ao longo do Rio Negro em direção ao sul. A área foi protegida adicionalmente com a criação de uma reserva biológica dentro do parque nacional que circunscreve a própria montanha.
Além da fronteira com a Colômbia, pode haver cerca de 1.000 milhões de toneladas de minérios minerais com REE nos departamentos de Guainía, Vichada e Vaupés. O banco de dados nacional de concessões de mineração mostra várias solicitações de licenças de exploração, muitas das quais estão dentro de reservas indígenas estabelecidas.
O governo deixou claro que não concederá nenhuma dessas solicitações; no entanto, há mais de uma década existe um comércio clandestino de coltan. A única atividade legal é uma mina proposta perto do vilarejo de Puerto Carreño (Vichada) pela empresa canadense Auxico Resources, que também manifestou interesse em uma formação geológica que se estende até o estado amazônico da Venezuela, perto da mina de bauxita de Pijiguaos.
‘Uma tempestade perfeita na Amazônia’ é um livro de Timothy Killeen que contém as opiniões e análises do autor. A segunda edição foi publicada pela editora britânica The White Horse em 2021, sob os termos de uma licença Creative Commons (licença CC BY 4.0).
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, com análise de Timothy J. Killeen e tradução de Lisete Correa.
Elson Antonio Sadalla Pinto, pesquisador docente da área de Biologia do IFAM Campus Manaus Centro (IFAM-CMC), em conjunto com pesquisadores de outras instituições, teve seu artigo científico publicado na revista ACTA AMAZONICA, uma das principais revistas de divulgação científica de pesquisas sobre a Amazônia.
A pesquisa ‘Extracellular expression, purification and bioreactor production of tambaqui (Colossoma macropomum) growth hormone in the yeast Komagataella phaffii (formerly Pichia pastoris)‘ teve o objetivo de identificar o gene codificador do hormônio de crescimento do tambaqui – espécie de peixe nativa da Amazônia mais cultivada nas pisciculturas regional e nacional -, e, introduzir este gene na levedura Pichia pastoris, a qual adquiriu a capacidade de produzir o hormônio de crescimento recombinante de tambaqui quando cultivada em biorreator.
“O hormônio de crescimento é uma proteína com importantes propriedades anabólicas, capaz de acelerar o crescimento de peixes em piscicultura, impactando positivamente sobre o desempenho zootécnico ao longo do ciclo produtivo”, aponta o professor Elson Sadalla.
A maior parte da pesquisa foi desenvolvida ao longo de seu doutoramento em Biotecnologia pelo Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da Universidade Federal do Amazonas. Contudo, segundo Sadalla, “o volume global de resultados apresentados no artigo foi fruto de um trabalho colaborativo entre pesquisadores do INPA, UFAM, IFAM, Fundação Oswaldo Cruz, Embrapa Amazônia Oriental e UFRJ”.
A pesquisa foi pioneira na produção heteróloga do hormônio de crescimento de uma espécie de peixe amazônica e a “possibilidade de utilização deste hormônio no cultivo de peixes amazônicos representa a chegada de uma nova fase para a piscicultura regional e nacional, fase está conhecida como Biotecnologia Aquática, baseada no uso de biomoléculas com efeitos precisos sobre a saúde e o desempenho zootécnicos de peixes em pisciculturas, geralmente superiores àqueles alcançados pelo uso das técnicas de manejo tradicional”, afirmou Sadalla.
“Espera-se que o trabalho sirva de base para a realização de futuras pesquisas biotecnológicas de expressão heteróloga de hormônios de crescimento de outras espécies de peixes amazônicos com potencial para piscicultura”, finalizou.
*Com informações do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)
Quando se fala em pirarucu, as pessoas imediatamente pensam no sabor do peixe gigante típico da Amazônia. De fato, o pirarucu manejado conquistou paladares ao redor do mundo, estrelando o cardápio de chefs renomados e as prateleiras de grandes redes de supermercados, atraindo cada vez mais consumidores. Mas não são só as peças deliciosas do peixe que interessam ao mercado. A pele do pirarucu, que até pouco tempo era descartada, tem sido utilizada para a confecção de roupas, acessórios e estofados, agregando ainda mais valor ao pescado de origem sustentável.
Com apoio da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), manejadores da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá, no estado do Amazonas, comercializam a pele do pirarucu para a empresa Nova Kaeru, que transforma o insumo em um curtume orgânico utilizado na fabricação de cintos, bolsas, sapatos e estofados. A parceria garante a geração de renda para as famílias manejadoras, com a pele do pirarucu vendida atualmente no valor de R$ 160.
“A estratégia de vender a pele do pirarucu, que antes era descartada, é uma maneira de agregar valor ao produto. Além de mostrar aos consumidores outras possibilidades de aproveitamento desse pescado, fazendo com que o produto esteja em vários lugares, inclusive, no meio da moda”, explica a superintendente de Desenvolvimento Sustentável de Comunidades da FAS, Valcléia Solidade.
A empresa compra a pele diretamente dos manejadores. Para preservar o insumo, a FAS e a Nova Kaeru promoveram capacitações aos manejadores para fazer a retirada e o beneficiamento da pele do pirarucu, deixando-a pronta para ser transformada em matéria-prima de vestimentas e acessórios, por exemplo.
Segundo Valcléia, é importante entender o conceito sustentável por trás do manejo do pirarucu. A espécie, que quase desapareceu das águas do Amazonas, encontrou reequilíbrio com incentivo ao manejo sustentável. Parcerias como essas são fundamentais para promover o valor da manutenção da floresta em pé.
“O pirarucu quase deixou de existir, então houve um processo muito grande de olhar esse produto não só como alimento para os ribeirinhos, mas também para a Amazônia como um todo. A Nova Kaeru está dentro desse conceito e traz uma integridade a esse processo. É uma parceria que se fortalece a cada ano; começamos a vender a pele por R$ 126, hoje está a R$ 160. A cada ano tem uma agregação de valor nessa pele”, informa Valcléia.
O manejo sustentável da RDS Mamirauá possui autorização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema). A FAS presta assistência técnica e assessoria para essa cadeia produtiva desde 2010.
“Apoiamos a cadeia produtiva em cinco unidades de conservação do Amazonas, entre elas a RDS Mamirauá, para que de fato as comunidades consigam colocar o produto no mercado, seja em restaurantes, nas feiras ou para parceiros como a Nova Kaeru. Com isso, queremos não só dar visibilidade a essa atividade, mas principalmente agregar valor que possa sustentar esses manejadores, que são os verdadeiros guardiões da floresta”, diz.
O pirarucu de manejo sustentável possui três conceitos agregados, explica Valcléia: o ambiental, o social e o econômico. “O conceito ambiental envolve o manejo em si, onde as pessoas realizam o trabalho de cuidar dos lagos, fazer a contagem dos peixes e evitar as invasões e pesca predatória. O conceito social reúne as pessoas em prol de uma causa, que é manter e até ampliar a quantidade de peixes. E o conceito econômico é o resultado desse trabalho, que envolve homens e mulheres que se dedicam a esse produto extrativista, para que ele possa trazer benefícios econômicos para as famílias daquele território”, explica a superintendente.
Cadeia de valor
Além da venda da pele, a FAS incentiva outras iniciativas da cadeia do pirarucu da RDS Mamirauá. Em feiras apoiadas pela FAS em 2023, os pescadores comercializaram 23,7 toneladas de pirarucu, gerando um faturamento de mais de R$ 240,8 mil. A venda beneficiou diretamente 112 manejadores.
A FAS também lançou, em 2022, o clube de comercialização por assinatura de pirarucu de manejo sustentável do Amazonas, o Piraruclub. Em um ano de existência, a iniciativa realizou a venda de 4,4 toneladas do pescado, gerando um faturamento de R$ 158 mil e beneficiando 110 famílias manejadoras no estado.
Ele pode ser servido de diferentes formas: assado, frito, cozido ou como recheio em bolinhos e massas. Um dos alimentos mais comuns entre a população ribeirinha do Pará e prato presente na gastronomia dos estados da região amazônica, o peixe mapará é, atualmente, objeto de estudo que busca subsidiar a implementação correta de medidas de proteção e garantia reprodutiva da espécie no Pará. De autoria da professora Kelli Garboza da Costa, docente do Campus Universitário do Tocantins da UFPA, a pesquisa tem como área de estudo a Bacia Hidrográfica do Baixo Rio Tocantins, abrangendo os municípios de Cametá e Limoeiro do Ajuru.
O mapará, também conhecido como mapurá, é um peixe de água doce, amplamente presente nos rios da Amazônia e América do Sul, que se apresenta em seis espécies: Hypophytalmus oremaculatus, H. fimbriatus, H. marginatus, H. donascimientoi, H. edentatus e H. celiae, sendo as duas últimas encontradas na região de estudo. Dados sobre o ciclo reprodutivo de fêmeas de mapará em Tucuruí-PA sugerem que o período de desova da espécie ocorre entre dezembro e janeiro, no entanto existe a possibilidade de diferentes épocas de desova, uma vez que se trata da ocorrência de duas ou mais espécies de mapará na área à jusante da barragem de Tucuruí-PA.
Para compreender melhor os períodos reprodutivos da espécie e os fatores ambientais que influenciam nessa reprodução, o Projeto “Distribuição espaço-temporal das larvas de mapará e mapeamento de áreas de desova na Bacia Hidrográfica do Baixo Rio Tocantins”, coordenado pela professora Kelli Garboza da Costa, iniciou o mapeamento da espécie com coletas de larvas dos peixes, realizadas no período de maio de 2023 a fevereiro de 2024, em oito áreas de Acordos de Pesca.
Com o mapeamento, observou-se a presença de larvas de uma variedade de espécies, em todos os estágios de desenvolvimento larval, o que indica que as oito áreas sugeridas pelos pescadores artesanais como importantes locais de pesca (os “poços”) são locais de crescimento e essenciais para o recrutamento de peixes. Por sua vez, os resultados quantitativos (número de larvas em cada m3 de água) mostraram que os peixes se reproduzem o ano todo, com picos de densidade de larvas entre os meses de fevereiro e agosto, e os menores registros de densidade foram observados entre os meses de setembro e janeiro, durante o período de paralisação da pesca.
“O que podemos afirmar com base nos resultados é que as áreas de coleta em Cametá e Limoeiro são propícias ao desenvolvimento de juvenis de mapará e de outras espécies, uma vez que a quantidade de matéria orgânica, fitoplâncton e zooplâncton, garante alimento diário para o que tem hábito alimentar planctívoro”, observa Kelli Garboza.
Estudos já realizados mostram, ainda, que, antes da construção da barragem de Tucuruí, o mapará desovava nas proximidades da cachoeira, e as larvas eram levadas pela correnteza até a foz do rio Tocantins. Com a barragem, o fluxo do rio foi alterado, as espécies de peixes migratórias que subiam e desciam o rio para se reproduzir precisaram se reorganizar, e “novos” locais de reprodução surgiram no baixo rio Tocantins.
“Supomos que o mapará esteja se reproduzindo nas proximidades do município de Baião, mais próximo às áreas de coleta, pois o tempo que as larvas levam hoje para descer o rio não é o mesmo da década de 1970. Então, se desovam em Baião, as larvas vêm descendo a foz do rio, chegando juvenis nos municípios de Cametá e Limoeiro do Ajuru, onde há muito alimento para seu crescimento”, explica a pesquisadora Kelli Garboza.
As coletas da pesquisa foram realizadas com o apoio das Secretarias Municipais de Pesca de Cametá e Limoeiro do Ajuru, em parceria com os Campi de Cametá e Bragança da UFPA, para suporte com embarcação, combustível, hospedagem e alimentação nos dias de coleta. Além da professora Kelli Garboza, a equipe do projeto de pesquisa conta também com bolsistas de iniciação científica e de extensão, bolsistas de mestrado, estudantes voluntários e pesquisadores doutores em Geografia, Biologia e Genética. Toda a equipe está cadastrada no DGP/CNPq “Ecologia Aquática e Caracterização Geoambiental da Amazônia”.
Foto: Divulgação
Responsabilidade Socioambiental
Segundo Kelli Garboza, muitos estabelecimentos em Cametá possuem, em seu cardápio, o “mapará fifiti”, apreciado por consumidores locais e turistas, que veem o produto como uma “iguaria”, porém isso fortalece e incentiva a pesca predatória que tem como consequência a redução ou o desaparecimento da espécie.
“Temos observado em feiras livres a imensa quantidade de mapará ‘fifiti’ (juvenil) sendo comercializada, fruto das práticas não permitidas por lei. A captura de mapará nesse estágio de crescimento interrompe o período de maturação das fêmeas e, consequentemente, a desova e a manutenção da espécie”, lembra a pesquisadora da UFPA.
Para evitar as consequências negativas dessa prática, há uma proposta de projeto de extensão focada na preservação do mapará que deve iniciar ainda no mês de agosto, com vigência até 2025. A finalidade é promover a conscientização e a responsabilidade socioambiental, utilizando material educativo informativo.
“Algumas pessoas desconhecem que a pesca do ‘fifiti’, indivíduo com tamanho inferior a 29 cm, é proibida na área de abrangência das 61 comunidades pesqueiras de Cametá (ver Portaria No 288/2024 – Semas). O material busca incentivar mudanças de hábitos e atitudes da sociedade na pesca, na comercialização e no consumo do mapará nesse estágio de crescimento”, aponta a pesquisadora.
Atualmente, o Projeto “Distribuição espaço-temporal das larvas de mapará e mapeamento de áreas de desova na Bacia Hidrográfica do Baixo Rio Tocantins” está na etapa de análise genética, sob supervisão da professora Simoni Santos da Silva, no Campus Bragança da UFPA. Também estão em andamento as fases de cartografia social e de mapeamento participativo com os pescadores artesanais, sob coordenação do professor Edir Augusto Dias Pereira (Campus Cametá). O resultado será a produção de mapas que constituam ferramenta de auxílio das comunidades e instituições pesqueiras na implantação de ações que visam à conservação e ao manejo da pesca do mapará no baixo curso do rio Tocantins.
Os rios da Bacia do Rio Amazonas seguem em processo de descida (vazante). Em alguns pontos, como na região do Alto Solimões, é observada uma queda acentuada nos níveis. Os dados fazem parte do 32º Boletim Hidrológico da Bacia do Amazonas, divulgado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) no dia 9 de agosto.
Em Tabatinga (AM), o Solimões registra descidas acima de 20 centímetros (cm) por dia. A última cota observada foi de 96 cm – abaixo do mínimo para a época. Diante do cenário, a projeção é de que, nessa estação, as cotas mínimas do ano ocorram ainda neste mês.
“Podemos prever isso em razão das descidas acentuadas e dos níveis abaixo das mínimas nos rios do Peru, que deságuam no Solimões”, explica a pesquisadora em geociências Jussara Cury.
Já o Rio Negro, em Manaus (AM), está em processo de vazante e com descidas regulares, representadas por variações diárias na ordem de 11 cm. No entanto, os níveis estão abaixo da faixa de normalidade. A última cota observada foi de 24,2 m. As mínimas nessa estação devem ocorrer em outubro. Também foram registradas descidas nas bacias dos rios Branco, em Roraima; Purus, no Acre; e Amazonas.
Repiquetes no Rio Madeira
O Rio Madeira registrou oscilações (repiquetes) ao longo da semana, em Porto Velho (RO), devido às chuvas registradas na região, mas voltou ao processo de descida entre quinta (8) e sexta-feira (9). A cota atual é de 2,38 m. O Madeira chegou a níveis muito baixos na região de Porto Velho, antes da época prevista, principalmente devido às chuvas abaixo da média entre novembro de 2023 e abril de 2024.
Confira aqui o 32º Boletim Hidrológico da Bacia do Amazonas.
A diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), Ane Alencar, dá um panorama sobre a situação da temporada do fogo que, em função da seca, tende a ser mais severa este ano. A entrevista foi divulgada na newsletter Um Grau e Meio, uma produção quinzenal e gratuita do IPAM com análises exclusivas sobre clima e meio ambiente. Confira a entrevista:
Qual o cenário que se apresenta para a temporada do fogo na Amazônia este ano?
O cenário é preocupante. Infelizmente o efeito da seca severa que atingiu a Amazônia em 2023 e se estendeu até o início de 2024, acabou por impactar a estação chuvosa de 2024, reduzindo sua extensão e intensidade. Este ano, as chuvas só começaram a cair em Roraima – último Estado a começar a chover – no final de março atrasando esse período em quase um mês.
Por outro lado, no ponto mais extremo ao sul da Amazônia, no estado do Mato Grosso, as chuvas param mais cedo em 2024 determinando o fim do período chuvoso, o que geralmente no fim de maio. Esse encurtamento da estação chuvosa depois de um período de seca extrema, não foi suficiente para recarregar o solo e os rios, que já iniciaram o período seco de 2024 em situação de estresse.
Quais os estados e municípios que podem ser mais impactados?
A seca de 2023 e início de 2024 acabou por afetar principalmente o norte da Amazônia, mais precisamente a região ao longo e a norte da calha do rio Amazonas. Estas regiões que compreendem o norte do estado dos estados do Amazonas e Pará, e Roraima e Amapá, essa região está muito suscetível devido ao estresse hídrico gerado anteriormente, mas essa região que tem seu período ápice de fogo em Outubro pode receber um impacto positivo do La Nina que em outubro já espera-se que esteja mais forte e antecipe o período de chuvas.
Isso significa que talvez a região mais preocupante seja mesmo aquela ao sul da calha do Amazonas que apesar de não ter sofrido o nível de seca extrema do norte da Amazônia, teve um período anômalo de seca e agora já dá indícios de estar muito inflamável. O Estado do Acre, Sul do Amazonas, Rondônia, norte do Mato Grosso e Sul do Pará entram nessa lista de regiões onde as atenções devem ser redobradas, ainda mais que essas são as regiões onde o desmatamento também se mostra bastante ativo.
Quanto tempo deve durar?
O auge do período seco em grande parte da região são os meses de agosto e setembro. Normalmente no meio do mês de outubro, já começam as chuvas no sul da região. O fenômeno La Nina, pode antecipar esse período chuvoso o que pode ser uma boa notícia para reduzir os riscos de incêndios na região. Eu diria que tudo vai depender de quando o La Nina ganha força e do nível de influência do aquecimento do Oceano Atlântico.
Por que os incêndios florestais se agravam nesta época?
É nessa época que grande parte da Amazônia está sem chuvas e as pessoas aproveitam para queimar as áreas recém desmatadas e fazer uso do fogo para renovar seus pastos. O uso descontrolado do fogo acaba por criar situação de riscos onde o fogo escapa para as florestas adjacentes e causa incêndios. O que acontece justamente no período que a paisagem está mais inflamável como um todo.
Quais as características destes incêndios florestais?
Normalmente os incêndios florestais na Amazônia tem características muito próprias. Devido ao nível de umidade e cobertura de copa, uma área de floresta afetada pelo fogo uma primeira vez tem uma característica onde as chamas são baixas, de 20cm a 50cm, e a frente de fogo é lenta.
Isso acaba matando grandes arvores que não tendo uma proteção de casca apropriada são expostas a altas temperaturas por um longo período. Uma vez que essas áreas de floresta são queimadas, favorecem que um segundo fogo tenha características diferentes, já sendo mais intenso e podendo chegar a copa dependendo do nível de seca do ambiente.
Quais atividades econômicas mais contribuem para os incêndios florestais?
Os incêndios são derivados das queimadas que finalizam o processo de desmatamento e é muito utilizado como ferramenta para a renovação de pastagem. Como a principal atividade econômica da Amazônia é a pecuária, ocupando cerca de 90% da área desmatada na região, e essa atividade usa o fogo como principal ferramenta de manejo, podemos afirmar que o uso descontrolado do fogo para a manutenção das áreas de pastagem são fontes importantes para os incêndios na região.
Que tipo de providência pode ser tomada para se antecipar e prevenir o cenário?
Em um cenário onde a paisagem está muito inflamável, a melhor coisa a se fazer é reduzir o fogo na paisagem e tomar medidas para controlar o uso do fogo onde ele é autorizado. Isso quer dizer, que a redução do desmatamento e incentivos para práticas agropecuárias sem o uso do fogo seriam medidas muito bem vistas nesse momento de extrema inflamabilidade das florestas da região.
O que é e por que existe uma temporada do fogo na Amazônia?
A temporada do fogo existe pois ele é usado como ferramenta na prática produtiva e de manejo do principal uso da terra da região, a pecuária. Seu uso vai desde a formação das áreas de pasto através do desmatamento até a manutenção dos pastos plantados, sendo uma forma barata de limpar os arbustos e plantas não palatáveis para o gado e favorecer a rebrota do capim plantado.
Há locais que estão lidando melhor com a situação do que outros? Como suas experiências podem ser um exemplo a ser replicado no bioma para a redução do fogo?
Eu vejo que é difícil imaginar a paisagem da Amazônia sem nenhum fogo acontecendo justamente pela sua importância na prática agropecuária, mas vejo o uso do fogo diminuindo e aonde ele tem que ocorrer, ser de forma controlada e responsável. Isso sem dúvidas vai reduzir e muito a possibilidade de incêndios que acabam por gerar uma situação de degradação e perda de qualidade das florestas e dos ecossistemas da Amazônia como um todo.
Um exemplo de que a redução e uso controlado do fogo reduzem o risco de incêndios ocorreu em 2023, quando de acordo com um estudo lançado recentemente pelo IPAM, indicou que os municípios que tiveram maior redução do desmatamento, também reduziram a área queimada, principalmente por incêndios. Esse esforço de redução do desmatamento precisa continuar, assim como o de controlar o uso do fogo.
O prédio é uma relíquia arquitetônica da Amazônia. Foto: R. Machado
Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com
Localizado em frente ao rio Mamoré, fronteira natural entre Brasil e Bolívia, o Museu Municipal de Guajará-Mirim, a 359 km de Porto Velho, está em estado de abandono e fechado à visitação pública há pelo menos quatro anos. Instalado na antiga estação da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM), o espaço cultural guardava relíquias importantes da história local e regional.
Nesta semana, o fotógrafo e memorialista Rosinaldo Machado, de Porto Velho, esteve em Guajará. Ele fotografou o museu e escreveu um texto em que lamento a situação. O ativista, que é também membro da ARL (Academia Rondoniense de Letras), resume o quadro desta forma: “Desprezo, descaso e crime contra a nossa história”.
Antiga locomotiva da EFFM abandonada no museu. Foto: R. Machado O acervo desapareceu ou foi danificado no interior do museu. Foto: R. Machado
A estação foi criada em 1912. Sessenta anos depois, foi fechada, após a desativação definitiva da histórica ferrovia. Somente em 1992, foi reaberta, agora transformada em museu. “Em seu interior há valiosas peças que retratam a história da ferrovia, dos heróicos e anônimos trabalhadores, dos seringueiros e dos indígenas”, relata Machado, em tom indignado.
Em 2006, o prédio foi tombado pelo Iphan como patrimônio histórico nacional. Tornou-se um cartão postal visitado por turistas, estudantes e pesquisadores. Ao longo dos anos, o clássico imóvel passou por algumas reformas, sendo a última concluída em 2013 pelo Governo do Estado em convênio com o Governo Federal.
Telhado ameaça desabar. Foto: R. Machado
Atualmente, “as paredes estão desgastadas pelo tempo, o telhado está desabando e as belíssimas peças que estavam no interior do museu sumiram ou estão sendo degradadas pelo tempo”, aponta o fotógrafo.
A prefeitura afirma que o espaço pertence à União e que não foi repassado, formalmente, ao Município. Não há nenhum projeto da prefeitura em curso encaminhado ao Governo Federal pedindo solução para o problema. Rosinaldo Machado entrou em contato com o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e aguarda uma manifestação do órgão. O ativista também citou o Ministério Público Federal para que se pronuncie.
Sobre o autor
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.