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Agentes agroflorestais indígenas no Pará recebem formação para plantio sem queima

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Fotos: Divulgação/DGBio/IDEFLOR-Bio

A formação dos 120 agentes agroflorestais indígenas na Terra Indígena Alto Rio Guamá, no Pará, tem avançado com o curso ‘Agroecologia em Terras Indígenas: preparo de área de plantio’, realizado entre 24 e 30 de agosto. Promovida pelo Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade (Ideflor-Bio), em parceria com a ONG Aldeia Cabana e o Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa e Desenvolvimento Agrícola (Cirad) do governo francês, a ação ocorreu nas aldeias Cajueiro, Tekohaw e Canindé, no município de Paragominas. No dia 2 de setembro foi realizada a entrega dos certificados para os primeiros concluintes.

O curso faz parte do Projeto Apoio à Gestão e Restauração Florestal da Terra Indígena Alto Rio Guamá, financiado pelo Fundo de Desenvolvimento Florestal do Estado do Pará (Fundeflor). Um dos objetivos principais é capacitar 120 agentes agroflorestais indígenas, distribuídos em dois polos de aldeias: Santa Luzia do Pará e Paragominas.

Nas seis aldeias beneficiadas pelo projeto, cada grupo de 20 agentes será responsável por implementar um hectare de agrofloresta, contribuindo para a restauração ecológica e para a cadeia produtiva de mudas e sementes florestais no Pará.

A técnica do Ideflor-Bio e coordenadora da ação, Cláudia Kawhage, destaca a importância da prática de plantio sem queima.

Nesta fase, os agentes em formação aprenderam a preparar a área de plantio sem utilizar a queima, técnica sustentável que evita a emissão de gases de efeito estufa e promove a preservação da matéria orgânica do solo. A implantação dos módulos experimentais de agroflorestas ao lado das escolas indígenas permite o acompanhamento comunitário, reforçando a importância da prática agrícola sustentável.

Vantagens dos Sistemas Agroflorestais

Entre os benefícios das agroflorestas, destacam-se a redução da emissão de gases de efeito estufa e o sequestro de carbono. Ao evitar a queima, a emissão de dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄) e óxidos de nitrogênio (NOₓ) é significativamente reduzida.

Além disso, as árvores e plantas presentes nesses sistemas capturam CO₂ da atmosfera, armazenando carbono em sua biomassa e no solo, contribuindo para a mitigação das mudanças climáticas.

Outro benefício é a melhora da qualidade do solo, que, sem a queima, preserva sua matéria orgânica. Isso resulta em maior fertilidade e capacidade de retenção de água, além de promover a biodiversidade do solo. A cobertura vegetal constante das agroflorestas também ajuda a reduzir a erosão, protegendo o solo contra a degradação e evitando a liberação de carbono estocado no solo para a atmosfera.

A biodiversidade e a resiliência dos ecossistemas são fortalecidas pelas agroflorestas, que promovem a variedade de plantas, insetos e outros animais, criando ambientes mais equilibrados e resistentes às mudanças climáticas. Esses sistemas também ajudam a regular o microclima, controlando a temperatura local e a umidade, o que beneficia o crescimento das culturas e reduz a necessidade de irrigação.

Durante o curso, os indígenas também discutiram sobre a soberania e segurança alimentar em suas aldeias, com foco na conservação da agrobiodiversidade e na manutenção da cultura alimentar ancestral. O consumo crescente de alimentos industrializados, transgênicos e com agrotóxicos foi apontado como uma ameaça à saúde nas aldeias, reforçando a importância de preservar os modos tradicionais de cultivo e alimentação.

O Ideflor-Bio atua na Terra Indígena Alto Rio Guamá, uma das regiões biogeográficas mais ameaçadas de perda de biodiversidade na Amazônia. Embora 33% do território já tenha sido desmatado, a área ainda abriga o último grande e contínuo de floresta primária do nordeste paraense, servindo de refúgio para várias espécies ameaçadas de extinção.

*Com informações do Ideflor-Bio

Parque Ambiental Yasuhide Watanabe é novo espaço de lazer em Santa Izabel do Pará

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Santa Izabel do Pará ganhou mais uma opção de lazer: o Parque Ambiental Yasuhide Watanabe. O espaço possui uma área de 148.500 metros quadrados com o objetivo de se tornar muito além de um ponto turístico, cercado pela riqueza da biodiversidade amazônica, mas também um local de lazer para os moradores do município paraense.

O parque dispõe de espaço pet, playground, lanchonetes, orquidário e áreas dedicadas a jogos e piqueniques. O novo espaço também proporciona atividades científicas, por exemplo. 

Mas por que um nome japonês? O homenageado, Yasuhide Watanabe, foi um empreendedor e empresário do setor avícola que contribuiu para o desenvolvimento da região, tanto na geração de empregos quanto no incentivo ao esporte, através do Atlético Clube Izabelense.

Watanabe, nascido no Japão, chegou ao Pará ainda criança e, ao longo de sua vida, contribuiu para a economia de Santa Izabel, sendo um dos pioneiros na indústria alimentícia com a empresa Franco Americano, um dos maiores nomes do setor avícola do Norte e Nordeste do país.

“Sem dúvida alguma, aqui o povo de Santa Izabel vai poder confraternizar, vai poder estar com as suas famílias para aproveitar a natureza, aproveitar a preservação ambiental, mas acima de tudo, a conciliação de um parque com o crescimento urbano da cidade”, afirmou o governador do Pará, Helder Barbalho.

Para o empreendedor Milton Guedes, a entrega do espaço representa uma grande oportunidade de geração de renda. “Antes essa área estava parada, mas agora ficou muito melhor. Eu estou trabalhando nesta lanchonete e tenho certeza que a população vem para aproveitar o parque”, avaliou o empreendedor. 

*Com informações da Agência Pará

23° Festival de Ópera do Theatro da Paz celebra centenário do italiano Giacomo Puccini

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Foto: David Alves/Agência Pará

Uma das principais tradições culturais do Pará e um dos principais festivais de Ópera do país abriu sua 23ª edição em agosto e segue até o dia 7 de setembro. O XXIII Festival de Ópera do Theatro da Paz, em Belém, destaca-se com uma homenagem ao centenário de morte do italiano Giacomo Puccini.

No dia 4 de setembro, o “Recital de Piano Duo Azulay” promete encantar o público com a maestria e a sensibilidade de um repertório cuidadosamente selecionado. Finalizando o Festival, a ópera cômica “Gianni Schicchi” será apresentada nos dias 3, 5 e 7 de setembro, destacando a genialidade de Puccini em um cenário repleto de humor e lirismo.

De acordo com Dione Colares, diretora artística do festival, o ‘Ano Puccini’ influenciou na programação e na seleção das obras do Festival este ano. “Puccini é uma figura lendária no mundo da ópera, ele é um gênio do drama musical e morreu há 100 anos atrás exatamente, em 1924. Então, nada mais coerente do que pensar nesse grande expoente do mundo lírico, e da ópera, como o patrono desta edição. O mundo comemora Puccini e nós aqui no Festival de Ópera do Theatro da Paz também comemoramos”, explicou.

Miguel Campos Neto, maestro da Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, detalha que Giacomo Puccini foi um dos mais importantes compositores de ópera da história, sendo um expoente significativo da escola do verismo. “Nascido na Itália, Puccini veio de uma família musical; seu avô também era compositor. Ele começou sua carreira compondo óperas que inicialmente não tiveram grande sucesso, mas a partir de sua terceira ópera, ‘Manon Lescaut’, alcançou reconhecimento e aclamação”, disse o maestro.

Nandressa Nuñez, diretora de produção do Festival, destacou a vontade e o esforço coletivo que têm sustentado o evento ao longo dos anos.

“Eu entendo que não existem desafios quando você tem a vontade de fazer. E o que existe verdadeiramente nesses 23 anos de Festival de Ópera é a vontade do governo, da Secretaria de Cultura e, principalmente, da produção do festival em fazer acontecer. A direção do Festival se empenha para que isso aconteça e buscamos fazer dando o melhor resultado para o público sempre”, afirmou.

Nuñez também ressaltou a importância histórica e a relevância cultural do Festival:

Inovações do Festival

Dione Colares destacou a visão artística que guiou a seleção das obras. “Pensamos em representar Puccini a partir de dois títulos contrastantes. ‘La Bohème’ traz um final trágico, enquanto ‘Gianni Schicchi’ apresenta um tema mais leve, inspirado na ‘Divina Comédia’ de Dante. Ambas as obras têm o amor como tema central, mas com desfechos diferentes”, explicou.

Foto: Carlos Dossena

A escolha de “La Bohème” (apresentada em agosto) também tem um significado especial para o Theatro da Paz. “Ela estreou no Brasil aqui no Theatro da Paz em 1900. Essa conexão histórica foi um dos motivos para escolhê-la”, explicou Colares.

Além disso, o festival deste ano traz uma inovação significativa com a inclusão de uma maestra, Lígia Amadio, que regerá ‘Gianni Schicchi’, marcando a primeira vez que uma mulher assume a regência de uma ópera no Festival. Outra novidade é a inclusão de um musical, em parceria com a Fundação Carlos Gomes, oferecendo matinês para o público infantil e geral.

O Festival de Ópera do Theatro da Paz é uma realização do governo do Pará, por meio da Secretaria de Estado de Cultura (Secult), Theatro da Paz, em parceria com a Academia Paraense de Música (APM) e tem uma programação diversificada com títulos contrastantes. 

*Com informações da Secult PA

Estimativa aponta que o Pará é o estado mais populoso da Região Norte

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O Pará é o estado mais populoso da Região Norte, ocupando a 1ª posição no ranking, e a 9° em relação às unidades federativas. Dentre os 100 municípios mais populosos do país, quatro são paraenses: Belém, Ananindeua, Santarém e Parauapebas. Estimasse um total de 8.664.306 habitantes, em seus 144 municípios. Esses são os dados atualizados, publicados no dia 29 de agosto pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

As estimativas das populações residentes nos 5.570 municípios brasileiros foram divulgadas pelo IBGE, com data de referência em 1º de julho de 2024. Segundo a publicação, estima-se que o Brasil tenha 212.583.750 habitantes e uma taxa de crescimento populacional de 4,68% comparada a população divulgada no Censo 2022. A Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) é o órgão no Pará que organiza, interpreta e disponibiliza dados, informações e diagnósticos do estado do Pará.

No Pará, a taxa de crescimento foi de 6,70%. Dos 144 municípios do estado, 4 (2,78%) apresentaram decrescimento populacional, 52 (36,11%) dos municípios tiveram crescimento entre zero e 5% e 88 (61,11%) apresentaram crescimento superior a 5%.

Atyliana Dias, da Diretoria de Estatística e de Tecnologia e Gestão da Informação (DETGI) da Fapespa, avalia que ao se organizarem, interpretarem e disponibilizarem dados, informações e diagnósticos do estado do Pará, aumenta-se a possibilidade de acertos nas tomadas de decisões rumo às metas estabelecidas na gestão administrativa, em qualquer esfera de governo. “Ao disponibilizar informações municipalizadas permite aos governos disporem de instrumentos adequados para uma gestão descentralizada”, avalia.

O município de Belém continua sendo o mais populoso do Estado, com 1.398.531 habitantes, seguido por Ananindeua com 507.838, Santarém com 357.311, Parauapebas com 298.854 e Marabá com 288.513 habitantes. Juntos, esses cinco municípios somam mais de 2,8 milhões de habitantes, agregando cerca de 32% da população do Pará. Por outro lado, Bannach é o município paraense com a menor população, com 4.252, seguido de São João da Ponta, com 4.509, e Sapucaia, com 6.160 habitantes.

Regiões de Integração

Dentre as regiões de integração, as três mais populosas são: Região de Integração (RI) do Guajará, com 2.115.846 habitantes; RI Tocantins, com 866.692; e a RI Baixo Amazonas, com 840.015 habitantes. Essas três regiões somam mais de 3,8 milhões de pessoas. As regiões que tiveram destaque no crescimento populacional foram: RI Carajás (8,96%), RI Tocantins (7,28%), e RI Tapajós (7,24%); as que tiveram menores crescimentos populacionais foram: RI Lago de Tucuruí (4,26%), RI Araguaia (4,78%) e RI Capim (5,48%). 

Leia também: Saiba como estão divididas as regiões de integração dos municípios do Pará

Em 2024, quase metade da população concentra-se em apenas 15 dos municípios, sendo 49,17% ou 4,26 milhões de habitantes, que são aqueles com mais de 100 mil habitantes; 28 municípios com população entre 50 e 100 mil habitantes correspondem a 21,92% ou 1,89 milhão de habitantes; já 89 municípios com população entre 10 e 50 mil habitantes concentram 27,96% ou 2,42 milhões.

Municípios

A diretora explica que as estimativas populacionais municipais são um dos parâmetros utilizados pelo Tribunal de Contas da União (TCU) para o cálculo do Fundo de Participação de Estados e Municípios e são referência para vários indicadores sociais, econômicos e demográficos. Esta divulgação anual obedece ao artigo 102 da Lei nº 8.443/1992 e à Lei complementar nº 143/2013. 

Dessa forma, as populações dos municípios foram estimadas por procedimento matemático e são o resultado da distribuição das populações dos estados, projetadas por métodos demográficos, entre seus diversos municípios. O método baseia-se na projeção da população estadual e na tendência de crescimento dos municípios, delineada pelas populações municipais captadas nos dois últimos Censos Demográficos (2010 e 2022) e ajustadas. 

Assim, as estimativas municipais também incorporam alterações de limites territoriais municipais ocorridas após 2010. A nota metodológica e as estimativas das populações para os 5.570 municípios brasileiros e para as 27 unidades da federação podem ser consultadas no site do IBGE, através do link.

*Com informações da Agência Pará e Fapespa

Queimadas: Acre decreta emergência em saúde pública

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O governo do Acre decretou emergência em saúde pública por causa do fortalecimento da seca, do volume crescente de incêndios em áreas rurais e urbanas e a ‘vulnerabilidade da população ao consumo de água imprópria’.

O decreto de emergência foi publicado pela Secretaria de Saúde no último dia 20 de agosto. Mais de 1,7 mil focos de queimadas já foram registrados no estado até o dia 29 de agosto, de acordo com o monitoramento por satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

De acordo com a Secretaria de Saúde do Acre, o novo decreto deve permitir que o governo adote medidas para combater a situação de maneira mais ágil.

Conforme o Inpe, entre o dia 1º e o dia 29 foram registrados 1.767 focos, número 27% maior do que os 31 dias do mesmo mês no ano passado.

Ainda segundo o levantamento, o município de Feijó se mantém como o que mais registrou incêndios, com 444 focos, cerca de 25% do total. O município que tem população de pouco mais de 32 mil pessoas também lidera no ranking diário, com 59 focos entre o dia 29 e esta sexta-feira (30).

Qualidade do ar

Com intuito de reduzir o número de queimadas, focos de incêndio e desmatamento no Acre, o governo lançou a Operação Sine Ignis (Sem Fogo) no dia 29 de agosto. As ações são coordenadas pela Casa Civil, Defesa Civil e pela Secretaria do Meio Ambiente.

“[O que] vamos fazer nesse momento é intensificar já o que vem sendo feito. Estamos agora mesmo em Cruzeiro do Sul capacitando mais policiais, policiais militares, para operar com drones nessas áreas e vamos focar nas áreas mais críticas. Acho que cabe ressaltar que temos informações do Estado todo”, destacou o tenente-coronel da Polícia Militar, Kleison Albuquerque.

O lançamento da operação ocorreu no Centro Integrado de Operações Aéreas (Ciopaer). Além da Casa Civil, a Defesa Civil e a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), as ações são desenvolvidas também pelo Instituto do Meio Ambiente do Acre (Imac), o Grupo Especial de Fronteira (Gefron), o Cento Integrado de Operações Aéreas (Ciopaer), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Batalhão de Policiamento Ambiental (BPA).

Várias autoridades participaram do lançamento da operação. Foto: Neto Lucena/Secom AC

“Esse trabalho é contínuo, é importante a gente colocar que desde o começo do ano esse trabalho não para, é permanente, que hoje está sendo lançado essa operação para intensificar nesse período mais crítico. Os dados que o Sigma nos fornece para essas operações são dados mapeados, identificados e tem um histórico”, salientou a secretária adjunta de Meio Ambiente, Renata Souza.

O chefe da divisão técnica do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Sebastião Santos, fez um alerta para a importância da responsabilização de quem faz queimadas e afirma que haverá consequências pra quem pratica esse tipo de crime.

“Existem os procedimentos legais que aplicam-se as penalidades para quem comete o desmatamento no ato da fiscalização e aqueles em que são identificados, que vêm cometendo rotineiramente os delitos. Eles são considerados reincidentes e a legislação estabelece penas maiores para essas pessoas que são reincidentes. Então, a pena não pode ser dobrada ou triplicada”, disse.

A análise histórica dos dados também mostram que o alcance e a destruição provocadas por estes focos também preocupam. De acordo com um levantamento do projeto Acre Queimadas, que envolve diversos órgãos ambientais e pesquisadores, 2022 foi o segundo ano com maior área queimada mapeada desde 2005, quando foi registrado o ano mais crítico no estado.

*Com informações da Rede Amazônica AC

Elaboração do Programa de Saneamento Indígena conta com parcerias nacionais

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Pesquisadores do grupo Políticas Públicas e Direitos Humanos em Saúde e Saneamento (PPDH) da Fiocruz Minas estão contribuindo para a elaboração do Programa Nacional de Saneamento Indígena. Por meio de reuniões quinzenais, o grupo oferece assessoria para a equipe técnica da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), órgão do Ministério da Saúde responsável pela criação do programa, ajudando no desenvolvimento da metodologia.

O grupo também trabalha em dois projetos de pesquisa, ambos financiados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que vão trazer contribuições diante do desafio de se formular um programa específico para o saneamento indígena.

Um dos trabalhos, intitulado ‘O estado da arte do saneamento indígena no Brasil: iniciativas institucionais e experiências de intervenção’, tem por objetivo fazer um mapeamento de ações já realizadas, de forma a recuperar as formulações, reflexões e avaliações existentes. Tendo como marco temporal a Constituição de 1988, quando se inicia a garantia de alguns direitos indígenas, como a demarcação de terras, a pesquisa inclui o levantamento de ações executadas por órgãos competentes e, também, de estudos que se referem ao tema.

Para conhecer o estado da arte, os pesquisadores estão atuando em duas frentes de trabalho: revisão de literatura e elaboração de uma linha do tempo.

A revisão inclui estudos publicados e, também, aqueles que constituem a chamada ‘literatura cinzenta’, abrangendo trabalhos não indexados, como, por exemplo, relatórios. Já a linha do tempo está sendo construída com base em análise documental e em depoimentos de pessoas que tiveram protagonismo em questões relacionadas ao saneamento indígena, como profissionais de órgãos públicos, lideranças indígenas, entre outras. As entrevistas já começaram a ser feitas e revelam questões importantes.

“Aparecem nos depoimentos as tensões institucionais, as relações conflituosas, a ausência de servidores em órgãos públicos envolvidos com o tema e a consequente rotatividade de profissionais, a descontinuidade das ações e de sistemas de informação, entre outros aspectos que mostram um legado sendo ignorado”, afirma o pesquisador do PPDH, Bernardo Aleixo, que é coordenador adjunto dos estudos em saneamento indígena. Iniciada em fevereiro deste ano, a previsão é que a pesquisa seja concluída em meados do ano que vem.

Avaliabilidade

O outro projeto do grupo é um estudo de avaliabilidade (EA), que visa verificar se as ações desenvolvidas e em desenvolvimento no campo do saneamento indígena poderão ser avaliadas futuramente. “Um programa, para ser avaliado, precisa ter um modelo que permita essa avaliação. É necessário que ele gere dados mensuráveis, possibilitando averiguar se está cumprindo os objetivos a que se propõe”, explica Aleixo.

Como o Programa de Saneamento Indígena ainda está em desenvolvimento, mais que verificar a avaliabilidade das atuais ações, o estudo do PPDH também propõe adequações ao modelo que está sendo desenhado, além de fornecer informações a serem usadas na avaliação. A ideia é que, ao ser concluído, o EA apresente uma descrição completa do programa, contendo críticas e avaliações, de forma a contribuir para a formulação de um programa coerente e lógico.

Tendo em vista a importância das questões culturais, ambos os projetos contam com a participação de dois bolsistas de Iniciação Científica indígenas. Um deles é Adreano Pinheiro dos Santos, da etnia pataxó na Terra Indígena Fazenda Guarani, no município de Carmésia (MG), que estuda engenharia ambiental na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Segundo Santos, é muito gratificante fazer parte desses projetos da Fiocruz, pelo nome que a instituição carrega, e por contribuir a comunidade pataxó.

“É uma honra para mim como indígena levar esse projeto para nossas comunidades. Sempre me preocupei muito com a questão do saneamento na minha aldeia e em outras que sofrem com o mesmo problema e acredito que essas pesquisas vão ajudar bastante”, diz.

O outro bolsista é Wanilson Honorato Cruz, da comunidade tikuna, da aldeia Umariaçu II, no município de Tabatinga, na região do Alto Solimões (AM), estudante de Ciências Sociais, na UFMG, que destaca sua satisfação em participar dos projetos. “Nunca tinha pensado em trabalhar com saneamento e estou gostando muito. Minha comunidade tem muitos problemas com saneamento, água e lixo e espero poder contribuir”, afirma.

Saúde mental

Além dos estudos voltados para o saneamento, outro importante trabalho do PPDH com povos indígenas tem como foco a saúde mental. Ainda em fase inicial, o projeto, coordenado pela pesquisadora Celina Modena, visa investigar o bem-viver e a atenção psicossocial na comunidade indígena xakriabá, que reúne uma população de cerca de 12 mil indígenas, distribuídos em 35 aldeias, no município de São João das Missões (MG).

“Para essa investigação, vamos trabalhar com dados da Sesai, por meio do Distrito Sanitário Indígena Especial Indígena, e também com as demandas apontadas pelos representantes da comunidade, que indicam como prioridade a atenção ao elevado índice de sofrimento mental, principalmente entre os jovens”, explica a coordenadora.

Conforme o projeto, a investigação será conduzida em quatro etapas realizadas simultaneamente: levantamento de indicadores de vigilância epidemiológica em saúde mental e de acesso e utilização dos serviços da Rede de Atenção Psicossocial da população indígena xakriabá; identificação de necessidades e soluções em saúde mental sentidas pela população; diagnóstico das redes de serviços da Atenção Psicossocial, da Rede de Atenção à Saúde Mental e Atenção Psicossocial e da proteção social; e construção coletiva de ações comunitárias voltadas à promoção do bem-viver e da atenção psicossocial.

Todas as etapas do estudo serão desenvolvidas em diálogo com a população indígena xakriabá, levando em consideração suas práticas próprias de cuidado e/ou autoatenção e respeitando suas organizações sociais e culturais. Além da coordenadora Celina Modena, a equipe de pesquisa multidisciplinar conta com o filósofo e psicólogo Alberto Mesaque Martins; com a antropóloga Bianca Retes Carvalho; e com três acadêmicas pertencentes à comunidade xakriabá: Adriana Santiago Oliveira (Drika Xakriabá); Artemisa Barbosa Ribeiro (Artemisa Xakriabá); e Jucyrema Gonçalves de Araújo (Jucyrema Xakriabá). Entre as três pesquisadoras indígenas, um desejo em comum: contribuir para a compreensão do sofrimento mental entre os povos indígenas e para a construção de ações voltadas ao bem-viver nas aldeias.

“Há algum tempo, temos percebido que o índice de suicídio e de casos de depressão entre os indígenas é bastante alto. São temas sensíveis, que precisam ser olhados. E eu, desde que entrei para a universidade, sempre quis dar um retorno para o meu povo, ajudando a compreender o que acontece na aldeia”, destaca Artemisa Xakriabá, da aldeia Barreiro Preto, que cursa o 9º período de psicologia.

Para a psicóloga Drika Xakriabá, da aldeia Imbaúba, o estudo é uma oportunidade para contribuir e ampliar o conhecimento sobre temas importantes que afetam as aldeias. “Pesquiso suicídio indígena desde a minha graduação. É um tema cada vez mais importante, pois o número de casos tem crescido. Estou com grande expectativa para este projeto e creio que será uma oportunidade para contribuir com as comunidades indígenas”, disse.

A psicóloga Jucyrema Xakriabá, da aldeia Brejo Mata Fome, também pesquisa atenção psicossocial entre os indígenas desde que entrou para a universidade. Para ela, o estudo que está começando agora é muito mais do que um projeto de pesquisa científica. “Para mim, é um projeto de vida. Toda a minha trajetória acadêmica é voltada para esse tema. Sou uma mulher indígena que faz pesquisa; é diferente de quando você é um agente externo. Durante muito tempo, nós, indígenas, fomos objeto de pesquisa, mas, agora, a gente também pode contribuir. Tem a contribuição acadêmica, mas também tem a contribuição por fazer parte desse povo”, destacou.

“Ouro de Tocantins”: você sabia que o capim dourado não é um capim? 

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O capim dourado (Syngonanthus nitens) é uma espécie de sempre-viva, planta bastante utilizada no artesanato, e remonta à técnica empregada pelos indígenas Xerente. Mas você sabia que o capim dourado não é um capim?

Os famosos fios de ouro, conhecidos como capim dourado, não fazem parte da família das gramíneas. Na verdade, trata-se da haste (parte de um vegetal que estão presas as flores) de uma pequena flor branca da família das sempre-vivas, nome popular de várias espécies de plantas que após colhidas e secas conseguem resistir consideravelmente ao tempo sem se estragar ou perder sua cor.

Foto: Esequias Araújo/Governo do Tocantins

O governo do Estado do Tocantins criou regras para o uso sustentável do capim-dourado. A Portaria 092/2005, reeditada como Portaria 362/2007 tem como objetivo evitar a extinção da espécie, que pode ser colhida somente em determinada época do ano e com autorização do Instituto de Natureza do Tocantins (Naturatins). 

Confira algumas regras:

  • As hastes só podem ser colhidas após a maturação das sementes, ou seja, somente a partir do dia 20 de setembro.
  • Os frutos devem ser cortados e dispersos no solo logo após a colheita.
  • As hastes de capim dourado não podem sair da região in natura, apenas em forma de artesanato.

O capim dourado é matéria-prima para a confecção de bolsas, bijuterias e objetos de decoração, que são nacionalmente conhecidos e valorizados. A arte de transformar as hastes em artesanato é uma herança dos indígenas Xerente.

Os utensílios fabricados por eles eram utilizados em casa ou trocados por outros produtos. Atualmente, a produção de tais peças artesanais é a principal fonte de renda de centenas de famílias.

Foto: Divulgação/Secom TO

Festa da Colheita 

A festa da colheita é uma realização da Associação dos Artesãos do Povoado Mumbuca e conta com o apoio do Governo de Tocantins, por meio da Secretaria do Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia, Turismo e Cultura (Seden). O evento acontece anualmente, sempre após a segunda quinzena do mês de setembro e segue até novembro, que marca o início do período liberado pelos órgãos de fiscalização para a coleta da planta típica. 

Foto: Adilvan Nogueira/Governo do Tocantins

As festividades acontecem na comunidade Mumbuca, em Mateiros, fortalecendo a resistência e formação da identidade cultural do povo local.

Durante o período festivo, são desenvolvidas atividades que visam a valorização cultural e a econômica das comunidades envolvidas no plantio, como palestras, degustação de comidas típicas, visita à pontos turísticos, vendas de produtos da agricultura familiar, shows e comercialização de artesanatos produzidos com o capim dourado.

Marinha disponibiliza atualização da sondagem no Rio Madeira

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Em continuidade ao Plano de Ação conduzido para o período de seca na Amazônia Ocidental, a Marinha do Brasil, por meio do Comando do 9º Distrito Naval, disponibilizou para a comunidade marítima e fluviária da região os dados atualizados da sondagem realizada pelo Aviso Hidroceanográfico (AvHoFlu) ‘Rio Solimões’ em trechos críticos do Rio Madeira.

Os dados de sondagem foram analisados pelo Centro de Navegação e Hidrografia do Noroeste (CHN-9) e são o resultado do levantamento hidrográfico que o AvHoFlu ‘Rio Solimões’ está realizando no rio Madeira desde o dia 3 de julho.

Foto: Divulgação/ Marinha do Brasil

O objetivo da sondagem, que continua até o dia 20 de setembro, é estabelecer uma rota segura para as embarcações que trafegam durante o período da seca no Rio Madeira. Adicionalmente, a Capitania Fluvial de Porto Velho mantém acompanhamento do nível do Rio Madeira e emite portarias com as necessárias restrições de navegação.

Para minimizar os impactos da seca neste ano, o Comando do 9 Distrito Naval elaborou o Plano de Ação para a seca 2024 que contém medidas para que os seus navios, lanchas e aeronaves estejam preparados logisticamente e operacionalmente para atuarem nos pontos críticos à segurança da navegação da Amazônia Ocidental.

O plano também prevê o emprego das Capitanias e Agências na mitigação dos impactos da seca, incrementando as ações de presença e o acompanhamento da situação dos rios e lagos. Caso necessário, também serão empregados os meios no combate aos incêndios florestais ou no transporte emergencial de alimentos e materiais.

*Com informações da Marinha do Brasil

Queimadas: Amazonas registra pior mês de agosto dos últimos 26 anos

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Com mais de 10 mil queimadas, Amazonas tem pior mês de agosto dos últimos 26 anos. Foto: Divulgação/Ibama

O Amazonas tem o pior agosto em relação a queimadas dos últimos 26 anos. Os dados são do programa BD Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e levam em consideração o monitoramento feito desde 1998, quando o órgão começou a série histórica.

Parte do Amazonas está encoberto por uma mancha de fogo de quase 500 quilômetros de extensão, conforme captado pelo satélite europeu Corpenicus. O problema também afeta o Acre, Rondônia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e agora o Pará, formando um verdadeiro ‘cinturão do fogo’.

Leia também: Imagens de satélite revelam mancha de fogo com mais de 500 km de extensão na Amazônia

O governo decretou emergência ambiental em todos os 62 municípios do estado e proibiu qualquer tipo de queimada. O fogo criou uma nova onda de fumaça que encobre Manaus e outros municípios amazonenses.

Segundo o Inpe, de 1º a 31 de agosto, o Amazonas registrou 10.328 queimadas, o maior índice desde 1998, quando o instituto começou a monitorar os focos de calor na região. Até então, o recorde era de agosto de 2021, quando o estado havia registrado 8,5 mil focos de calor.

O número de queimadas em agosto deste ano é quase o dobro do registrado em agosto do ano passado: 5.474. O problema que já era grave em 2023, está pior este ano.

Em julho, o estado também já havia registrado o pior índice da história para o mês.

🔥Número de queimadas no Amazonas de 1º a 31 de agosto de 2024: 10.328 (⬆️ 88% em relação a 2023)
🔥Número de queimadas no Amazonas de 1º a 31 de agosto de 2023: 5.474.

Dos dez municípios que mais queimaram a Amazônia Legal em agosto, três estão no Amazonas: Apuí, Lábrea e Novo Aripuanã. Os três, inclusive, estão localizados no Sul do estado, chamado de ‘arco do fogo’, devido a forte presença da pecuária na região.

Apuí está na quarta posição da lista com 2.267 queimadas. Lábrea vem logo atrás com 1.959 focos de calor e Novo Aripuanã fecha o ranking com 1.208. A lista traz ainda municípios do Pará, Rondônia e Mato Grosso do Sul.

Além disso, o Amazonas vive uma seca severa. Dados da Defesa Civil do estado apontam que o Rio Negro, rio que banha Manaus, chegou a 19 metros neste domingo (1º). A seca é crítica em quase todos os mananciais do estado. Em Tabatinga, na Região do Alto Solimões, o Rio Solimões está com o nível mais baixo da história.

Mancha de fogo avança

Mancha de fogo encobre parte da Amazônia e países da América do Sul. Foto: Reprodução/Windy

Uma mancha de fogo com mais 500 quilômetros de extensão e mais de 400 quilômetros de largura tem avançado sobre a Amazônia, conforme captado pelo satélite europeu Copernicus. O fenômeno cobre pelo menos seis estados da Amazônia Legal, dentre eles, o Amazonas.

Neste domingo (1º), a mancha de fogo reduziu o avanço sobre o Amazonas. Em compensação, o fenômeno começou a se estender sobre o Pará e avança sobre o Peru, Equador e a Colômbia.

Leonardo Vergasta, meteorologista do Laboratório do Clima (Labclim) da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), explicou que a mancha indica uma alta concentração de dióxido de carbono na atmosfera, resultado das queimadas que produzem essa fumaça.

Vergasta também destacou que a falta de chuva intensifica o problema. “Regiões como Mato Grosso e Rondônia estão há mais de 90 dias sem chuva, enquanto o Sul do Amazonas e o Acre enfrentam uma seca de 7 a 21 dias. A ausência de chuva e as altas temperaturas durante a estação seca tornam a vegetação extremamente vulnerável às queimadas provocadas pela ação humana”, explicou.

Fumaça de volta

Fumaça voltou a encobrir Manaus. Foto: Reprodução/Rede Amazônica

O avanço das queimadas no Amazonas fez com que Manaus vivesse, mais uma vez, uma “onda” de fumaça na semana passada. Essa, inclusive, foi a segunda vez que o fenômeno atingiu a cidade só este ano.

O problema voltou na segunda-feira (26). Já na terça (27), o fenômeno tomou conta da cidade por completo, resultando em baixa qualidade do ar na maioria das zonas da capital, de acordo com o Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva). A situação também afeta o interior do estado.

Na ocasião, segundo a Secretaria de Meio Ambiente do Amazonas (Sema), uma frente de massa de ar vinda do sudoeste do Brasil chegou a Manaus trazendo material particulado das queimadas no sul do Amazonas, de estados vizinhos e, também, de áreas da Bolívia.

Conforme o Selva, para ser considerado de boa qualidade, o ar precisa medir entre 0 e 25 μm/m³ (micrómetro por metro cúbico de AR).

No entanto, bairros da Região Sul de Manaus chegaram a registar 171.6 µg/m³. Já na região da Praia da Ponta Negra, um dos principais pontos turísticos da capital, o índice chegou em 196.4 µg/m³. Em quase todos os pontos da capital, o nível do ar era considerado péssimo ou muito ruim. Muitas pessoas voltaram a usar máscaras de proteção nas ruas.

Fogo é causado por pecuaristas, diz Ibama

Segundo o geógrafo e superintendente do Ibama no Amazonas, Joel Araújo, as queimadas que atingem o Amazonas e que geram a onda de fumaça são causadas por pecuaristas.

“A fumaça sobe a partir das queimadas para formação de pasto na pecuária e são deslocadas para as regiões urbanizadas por massas de ar que são um fenômeno normal na climatologia amazônica”, disse Joel.

Ao Grupo Rede Amazônica, o dirigente também disse que a entidade trabalha para combater o problema. No entanto, o Ibama tem apenas 121 brigadistas para atender toda a região do Amazonas.

A reportagem questionou a Secretaria de Meio Ambiente do Amazonas (Sema) sobre as medidas tomadas para combater o avanço do fogo no estado, mas não obteve resposta até a última atualização.

*Por Matheus Castro, da Rede Amazônica AM

Nove em cada 10 terras indígenas da Amazônia enfrentam seca, levando à falta de alimentos e água

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Nove em cada dez terras indígenas (TIs) na Amazônia Legal foram atingidas pela seca em julho deste ano. Dos 388 territórios na região, 358 (92%) enfrentam o problema, que já impacta diretamente a rotina das populações indígenas. As comunidades têm enfrentado a necessidade de buscar água e alimentos, cruzando rios secos e percorrendo longos trajetos a pé.

Esse cenário foi constatado pela InfoAmazonia por meio de uma análise de dados exclusivos obtidos junto ao Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e de entrevistas com indígenas de comunidades afetadas. Em julho do ano passado, 260 TIs foram atingidas, um número 37% menor do que o registrado no mesmo mês de 2024.

92% das terras indígenas da Amazônia são atingidas por seca em julho de 2024

A maioria dos territórios está em seca severa (192). Dezessete territórios enfrentam seca extrema, uma das classificações mais graves do problema.

Fonte: Cemaden • Análise e visualização: InfoAmazonia

Além do aumento no número de territórios afetados pela seca, o problema também se intensificou. Segundo a classificação do Cemaden (leia mais sobre a metodologia da análise aqui), em julho do ano passado, apenas uma TI foi classificada como “seca extrema”. Neste ano, esse número subiu para 17.

Somado a isso, 53,6% das TIs (192 no total) foram classificadas como seca severa em julho deste ano, enquanto 41% enfrentam seca fraca ou moderada. Já em 2023, 73,8% dos territórios (192) estavam em seca fraca ou moderada, e apenas 10,3% enfrentavam seca severa (27).

Número de terras indígenas na Amazônia sob seca aumentou 37% em julho de 2024

Arraste a barra para conferir a diferença entre julho de 2023, quando havia 260 terras indígenas passando por seca na Amazônia Legal, e julho deste ano, com 358.

Fonte: Cemaden • Análise e visualização: InfoAmazonia

A seca extrema às margens do rio

O Amazonas é o estado da Amazônia Legal com o maior número de terras indígenas em situação de seca, totalizando 146. Depois, vem o Mato Grosso, com 68, e o Pará, com 55. A TI Cacau do Tarauacá, no município de Envira (AM), a 1.206 mil km de Manaus, passou de uma situação de normalidade em julho de 2023, para uma seca extrema em julho de 2024. 

O povo Kulina vive às margens do rio Tarauacá, afluente do rio Juruá, mas as embarcações já não conseguem mais navegar. Onde antes havia água, agora resta apenas lama. Eles tentam usar o que sobrou de um lago para construir um “sangrador”, cavando um caminho mais fundo e estreito no solo, técnica usada para que a água tenha altura suficiente para a passagem dos barcos. Além disso, estão improvisando pontes com pedaços de madeira, já que é impossível andar sem afundar no chão lamacento.

Indígenas na TI Cacau do Tarauacá, no município de Envira (AM), usam toras de madeira para construir ponte e fazem ‘sangrador’ para ter altura suficiente para a passagem dos barcos. Foto: Arquivo Pessoal/Marcos Kulina
Indígenas na TI Cacau do Tarauacá, no município de Envira (AM). Foto: Arquivo Pessoal/Marcos Kulina

Essa locomoção difícil é o principal desafio a ser vencido contra a fome.“Nós temos um poço que fizemos com o nosso dinheiro, juntamos nossos recursos e, por isso, hoje ainda temos água. Mas estamos passando necessidade de alimentação, porque sem o rio falta peixe”, completa Marcos. 

O peixe, um dos principais alimentos para quem vive na Amazônia, fica mais raro. Os indígenas são obrigados a sair do território a pé e comprar comida no município mais próximo. Além disso, a produção do roçado também é severamente impactada, prejudicando o crescimento de culturas como a mandioca e a banana. 

Maria Cordeiro, conhecida como Mariazinha Baré, é presidente da Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (Apiam) e diz que a maior preocupação é abastecer as comunidades mais distantes. “Estou recebendo a ligação de parentes que estão com dificuldade para se locomover, dificuldade com alimentação, com água e com a saúde. Estamos fazendo um mapeamento e entrando em contato com as lideranças”, explica. 

Os indígenas que conseguem andar quilômetros até o mercado mais próximo entram em contato com produtos industrializados e fora do cardápio tradicional. Por isso, a Apiam está fazendo a aquisição de alimentos produzidos nas terras indígenas que ainda não sofrem com a seca extrema no Amazonas. A ideia é redistribuir a produção para as comunidades mais afetadas. De acordo com Mariazinha Baré, isso vai ocorrer por meio de uma ação com a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), empresa pública vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). As tratativas estão sendo feitas com apoio do Ministério Público Federal (MPF). 

“Precisamos valorizar a soberania alimentar desses povos. Nesse período difícil de mudanças climáticas, a gente tem que buscar alternativas para produzir, comercializar e fornecer alimentos de qualidade. Uma vez que a gente só foca nos produtos industrializados, a tendência é ter mais doenças e aumentar a desnutrição”, explicou a presidente da Apiam.

Falta de água potável 

De acordo com os dados da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), 2,8 mil aldeias indígenas na Amazônia Legal não têm estrutura de abastecimento de água. No Amazonas, onde existem mais territórios em condição de seca, está o Distrito Especial Indígena (Dsei) Alto Rio Solimões, que apresenta o pior nível de abastecimento de água em todo o país. São 32,5 mil pessoas sem acesso a poço ou caminhão pipa para fornecer água.

Beto Fernandes Torres, do povo Tikuna, leciona línguas e literatura e mora na TI Tikuna Feijoal, no município de Benjamin Constant, a 1,5 mil km de Manaus. A terra indígena está classificada como seca moderada pelo Cemaden e é atendida pelo Dsei Alto Rio Solimões. 

A TI Tikuna Feijoal é um dos casos que a Apiam tenta ajudar a levar alimentos. Isso porque, na prática, a locomoção também é quase impossível, segundo Torres, levando à falta de água e comida. Segundo ele, o horário das aulas na escola já foi reduzido, “porque a merenda não está chegando”: “nós realmente estamos enfrentando a seca. Estamos tendo uma dificuldade para chegar ao município de Benjamin Constant e ter alimentos. Para sair da nossa comunidade tem que pegar uma canoa e passar dois dias ou três dias viajando”. 

Mariazinha Baré, da Apiam, afirma que o Estado já poderia ter iniciado as ações de apoio e prevenção às comunidades antes da seca chegar, com a implementação de mais poços artesianos e captação de água nas comunidades. “[O estado deveria]  identificar aquelas [comunidades] que mais precisam, estocar alimentos que durem mais tempo, como a farinha e a tapioca”, diz. 

InfoAmazonia questionou o governo do Amazonas, a Fundação dos Povos Indígenas (Funai) e o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) para saber quais ações estão sendo feitas para reduzir os danos da seca às populações indígenas da Amazônia Legal, mas não houve resposta até a data de publicação desta reportagem. 

Seca na Amazônia

A descida do nível dos rios é comum nesta época do ano, caracterizada pela estiagem (a estação seca na Amazônia oriental acontece normalmente de julho a outubro), mas a Amazônia enfrentou um déficit de precipitação ainda no primeiro semestre, período que costuma ser a estação chuvosa da região. Isso ocorreu por efeito do El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal do oceano Pacífico na linha do Equador, que, em combinação com o aquecimento do oceano Atlântico Norte, inibiram a formação de nuvens e geraram maior seca na região amazônica. 

O pesquisador Renato Senna, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), explica que a tendência é piorar. “A gente continua ainda com precipitação muito abaixo do que deveria estar acontecendo. Agora, a gente está entrando no período de seca, os meses de julho e agosto normalmente são meses de pouquíssima precipitação na Amazônia de uma forma geral, é normal acontecer. Só que a seca já vai encontrar as bacias e os rios em condições de deficiência”. 

A gente continua ainda com precipitação muito abaixo do que deveria estar acontecendo. Agora, a gente está entrando no período de seca, os meses de julho e agosto normalmente são meses de pouquíssima precipitação na Amazônia de uma forma geral, é normal acontecer. Só que a seca já vai encontrar as bacias e os rios em condições de deficiência. Renato Senna, pesquisador do Inpa.

Apesar da urgência do tema, o governo federal ainda está desenvolvendo um plano nacional de adaptação climática, que incluirá um setor específico para povos indígenas e deverá ser apresentado apenas em 2025. O MPI disponibilizou um formulário online para que os cidadãos possam contribuir, preenchendo dois campos sobre os seguintes temas: “Quais são os principais impactos da mudança climática que o ‘Plano Clima Adaptação: Povos Indígenas’ deve enfrentar?” e “Quais ações de adaptação à mudança climática você acha que devem ser incluídas no ‘Plano Clima Adaptação: Povos Indígenas’ para promover a justiça climática?”. 

Dos nove estados da Amazônia Legal, cinco têm Secretaria de Povos Indígenas. Amazonas, Mato Grosso e Maranhão não têm pastas dedicadas às populações tradicionais. 

No Acre, foram registradas 31 terras indígenas com algum grau de seca, sendo que 27 delas estão em seca severa. No mesmo período, em julho do ano passado, eram 13 enfrentando a seca – um aumento de 107%. Francisca Arara, secretária da Secretaria Extraordinária de Povos Indígenas (Sepi), explica que está focada em conseguir recursos dos fundos de atenção ambiental e climática para conseguir dar conta dos projetos que precisam ser implementados no estado. A médio prazo, os planos incluem a recuperação da capacidade produtiva das terras indígenas, com equipamentos e estudos de restauração, a reconstrução de casas e malocas que foram atingidas pelos eventos extremos, e a garantia da segurança alimentar. De forma emergencial, o objetivo é distribuir cestas básicas e água potável. 

“É urgente que os doadores, dos comitês, dos governos, entendam o que nós estamos enfrentando. Por incrível que pareça, os povos indígenas que mantêm as florestas é que estão sofrendo mais os impactos dos extremos. Aqueles que moram perto de estradas e municípios têm mais chance de sobreviver, mas quem vive mais distante fica muito vulnerável, estamos sofrendo isso na pele.”, diz a secretária. 

É urgente que os doadores, dos comitês, dos governos, entendam o que nós estamos enfrentando. Por incrível que pareça, os povos indígenas que mantêm as florestas é que estão sofrendo mais os impactos dos extremos. Aqueles que moram perto de estradas e municípios têm mais chance de sobreviver, mas quem vive mais distante fica muito vulnerável, estamos sofrendo isso na pele. Francisca Arara, secretária da Sepi, no Acre.

*Esta reportagem foi produzida pela Unidade de Geojornalismo InfoAmazonia, com o apoio do Instituto Serrapilheira.