Um acampamento reúne mais de mil indígenas de diferentes povos de Roraima há 18 dias em manifestação contínua contra o Marco Temporal e a PEC 48/2024, de autoria do senador Hiran Gonçalves (PP) (entenda mais abaixo). Localizado na Terra Indígena São Marcos, às margens da BR-174, em Pacaraima, Norte de Roraima, os indígenas pedem que o projeto não seja aprovado com cartazes, palavras de ordem e bloqueios na rodovia.
Os protestos ocorrem de forma pacífica desde o dia 29 de outubro. Os bloqueios na avenida são feitos a cada seis horas. Durante os bloqueios, apenas veículos de emergência ou da polícia são autorizados a passar.
O marco temporal define que indígenas só podem reivindicar a demarcação de terras que eram ocupadas pelos povos originários no momento da promulgação da Constituição, em 5 de outubro de 1988. O projeto foi aprovado em maio de 2023 pela Câmara dos Deputados, mas foi derrubado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em setembro.
As lideranças do Conselho Indígena de Roraima (CIR) chegaram a enviar uma carta para os parlamentares da bancada de Roraima no Congresso Nacional, para os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e para o governo Federal. A proposta é que eles ouçam as lideranças aqui na comunidade sabiá no próximo dia 21 de novembro.
O Grupo Rede Amazônica procurou o Congresso Nacional, o STF e o governo Federal e aguarda resposta.
Para o coordenador regional da região Surumu, na Raposa Serra do Sol, o tuxaua Walter de Oliveira, de 55 anos, o objetivo é seguir lutando contra a tese do Marco Temporal e contra o que ele classificou como “perda de direitos constitucionais”. Ele destaca que a manifestação “não tem data para acabar”.
“Entendemos que essa lei viola os direitos indígenas, revertendo terras já demarcadas e homologadas. Por isso, as lideranças decidiram não aceitar esse projeto, que consideramos uma ameaça grave. A manifestação ocorre devido à essa insatisfação”, destacou a liderança.
Naisa de Sousa, de 47 anos, é coordenadora regional das mulheres indígenas da Região do Surumu. Para ela, enquanto liderança feminina, o movimento contra a tese representa um momento de união entre mulheres, crianças, adultos e também pessoas idosas, que já lutaram pelos direitos indígenas.
“Estamos aqui mobilizadas porque essa luta não é apenas para o presente, mas para o futuro dos nossos filhos e netos. Estamos defendendo nossa liberdade, o acesso à água limpa, ao ar puro e à preservação de nossa Mãe Terra. Esse movimento é essencial para nós, povos indígenas, pois chamamos a atenção para os problemas que enfrentamos e exigimos respeito aos nossos direitos”, disse a liderança.
Recomendações do MPF e procedimento do MPRR
Diante da manifestação, o Ministério Público Federal (MPF) enviou recomendações aos indígenas acampados para que deem passagem de transportes de emergência e de polícia entre outros durante os bloqueios. Na quarta-feira (13), o Ministério Público de Roraima (MPRR) instaurou um procedimento administrativo para fiscalizar e acompanhar a manifestação.
O promotor Felipe Hellu Macedo do MPRR considerou o principio constitucional da “livre a locomoção no território nacional” e que os bloqueios estão “gerando prejuízos incomensuráveis à população residente no Município de Pacaraima e adjacências” para instaurar o procedimento.
De acordo com o assessor jurídico do CIR, Júnior Nicacio Wapichana, as lideranças entenderam as orientações e o CIR responderá formalmente. Sobre o inquérito do MPRR, destacou que comunidades têm plena consciência de que o movimento é pacífico e fundamentado no direito de manifestação, garantido pela Constituição Federal de 1988.
“As comunidades estão reagindo de maneira organizada e buscando conscientizar a sociedade brasileira sobre a importância de sua luta. O movimento conta com apoio jurídico para garantir que as demandas sejam formalizadas e levadas às autoridades competentes”.
“A mobilização tem sido pacífica e responsável, sem qualquer incidente. As questões emergenciais, como saúde e transporte pela rodovia, estão fluindo normalmente, demonstrando o compromisso em não prejudicar serviços essenciais”, disse o advogado.
O Grupo Rede Amazônica procurou o Ministério Público Federal (MPF) e também o Ministério Público estadual e aguarda resposta.
Marco temporal e PEC 48
O marco temporal (Lei 14.701, de 2023) determina que serão consideradas terras tradicionalmente indígenas apenas aquelas que, na data da promulgação da Constituição (5 de outubro de 1988), já eram ocupadas ou disputadas pelos indígenas.
Em 2023, o STF considerou a tese do marco inconstitucional, mas o Congresso Nacional aprovou a proposta. Ela acabou sendo vetada pelo presidente Lula, no entanto, senadores e deputados derrubaram o veto e o marco temporal virou lei.
A PEC 48/2024, de autoria do senador de Roraima Hiran Gonçalves (PP), insere a tese do marco temporal na Constituição Federal. Para as organizações indígenas, a proposta “desconstitucionaliza os direitos indígenas”.
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, e o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, assinaram no dia 13 de novembro o protocolo de intenções do Restaura Amazônia, programa de restauração ecológica com geração de emprego e renda na Amazônia Legal. A nova parceria prevê o investimento de R$ 100 milhões nos próximos cinco anos, sendo R$ 50 milhões do Fundo Amazônia.
A Petrobras e o BNDES aportarão recursos de forma conjunta para ampliar o impacto dos projetos selecionados em editais e restaurar em torno de 15 mil hectares de vegetação nativa. O programa atua nos estados do Amazonas, Acre, Rondônia, Mato Grosso, Tocantins, Pará e Maranhão, alcançando territórios estratégicos, como o chamado Arco do Desmatamento, visando a transformá-lo no Arco da Restauração. O primeiro desses editais será publicado ainda este ano.
“A Petrobras apoia projetos de conservação, restauração e uso sustentável de florestas e outros ecossistemas. Esses projetos são reconhecidos por utilizar soluções baseadas na natureza com foco na mitigação das mudanças do clima e aumento da resiliência climática. Estamos usando toda essa experiência para contribuir no financiamento de outros projetos com foco no bioma amazônico”, afirma a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, destacando que as Soluções Baseadas na Natureza visam não só à conservação da biodiversidade, mas também transformações sociais positivas nas comunidades envolvidas.
O Restaura Amazônia conta com a parceria do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e contribuirá para a contenção do desmatamento e a conservação da biodiversidade em terras indígenas, territórios de povos e comunidades tradicionais, unidades de conservação, áreas públicas não destinadas e APPs e reserva legal de áreas de assentamento e de pequenas propriedades rurais.
“Essa iniciativa traz benefícios tanto para a mitigação da mudança climática quanto para as comunidades locais, estruturando a cadeia de restauração e gerando renda e emprego no próprio território. Além de criar um cinturão de proteção para conter o avanço do desmatamento, restaurar as florestas é a forma mais eficiente e barata de promover a captura de carbono, com escala”, explicou o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.
Entre os benefícios esperados com o Restaura Amazônia estão a preservação da biodiversidade, disponibilidade de recursos hídricos, redução da erosão, melhoria do microclima, remoção de dióxido de carbono da atmosfera, além de geração de empregos e renda. O programa também contribui para a implementação do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), com o fortalecimento da cadeia produtiva da recuperação, atração de investimentos e uma consolidação de um sistema de monitoramento.
Com o Restaura Amazônia, o governo federal começou a desenvolver esse amplo arco florestal de 6 milhões de hectares, retirando 1,65 bilhão de toneladas de CO2 até 2030, e alcançando 24 milhões de hectares até 2050 – uma área superior ao estado de São Paulo.
Restauração do Cerrado e Pantanal
Além da assinatura do protocolo de intenções do Restaura Amazônia, a Petrobras e o BNDES também anunciaram projetos selecionados para restauração de biomas no edital Corredores de Biodiversidade, da iniciativa Floresta Viva, que contará com investimentos de R$ 58,6 milhões das duas empresas nos próximos cinco anos.
Foram selecionados 12 projetos de restauração ecológica com área total de 2.744 hectares e fortalecimento da cadeia produtiva da restauração em sete corredores de biodiversidade para a conservação do Cerrado e do Pantanal. Os projetos vão atuar nos estados da Bahia, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso Sul, alguns em áreas que sofreram com impacto de período de estiagem e fogo.
O FUNBIO, parceiro gestor do Floresta Viva, foi responsável pela condução e operacionalização do edital. Os projetos contemplados foram: Sementes do Cerrado (DF, MG e GO); Restaura (MT); Veredas do Acari (MG); Restauração Ecológica e Café (MG); Cerradão: Conservação e Restauração (GO); Conectar (MG); Comunidades Gerais (MG e BA); Caminhos das Nascentes (MS); Canastra Viva (MG); Floresta Viva Sertão Veredas-Peruaçu (MG); Biodiversidade e Cadeias Produtivas (GO); Elo das Águas (DF).
Esses projetos estão em regiões estratégicas do bioma Cerrado e da Bacia do Alto Paraguai, importante para a conservação do Cerrado e do Pantanal. A expectativa é que os projetos tenham impacto positivo no fortalecimento de políticas públicas relacionadas à conservação, restauração e manejo integrado do fogo além de favorecer o envolvimento dos atores locais e o fortalecimento da cadeia da restauração de forma efetiva e socialmente integrada, com geração de emprego e renda.
Floresta Viva
O Floresta Viva é uma iniciativa do BNDES que, por meio de matchfunding , totaliza um investimento de mais de R$ 500 milhões em projetos de soluções baseadas na natureza. A iniciativa visa não apenas à restauração ecológica, mas também o estímulo à economia local e à promoção do desenvolvimento sustentável nos ecossistemas manguezal, cerrado e pantanal. Além deste edital, a Petrobras o BNDES também lançaram um edital1 para recuperação de áreas de manguezais no valor de R$ 47 milhões, por meio do qual foram selecionados oito projetos entre o Norte e Sudeste do Brasil.
Considerando o edital Corredores de Biodiversidade e o edital Manguezais do Brasil, a parceria entre BNDES e Petrobras na iniciativa Floresta Viva totalizou investimentos de mais de R$ 100 milhões para apoio a 20 projetos de restauração ecológica em biomas essenciais para a preservação ambiental no país.
Além dos investimentos em parceria com o BNDES, a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental, apoia nove projetos na região da Amazônia Legal, nas linhas de Educação e Floresta e Clima. O investimento total nesses projetos é de R$ 62 milhões.
A representante do movimento indígena, Marciely Tupari durante plenária que discute sustentabilidade, mudança do clima e transição justa no G20 Social. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
O penúltimo dia do G20 Social foi marcado pela realização de três plenárias simultâneas. Uma delas, dedicada à sustentabilidade, mudança do clima e transição justa.
Nesta plenária, realizada no Armazém 3, na Região Portuária, os debates foram abertos pela francesa Laurence Tubiana, negociadora chefe do acordo de Paris, que chegou direto da COP29 para participar do Fórum no Rio. Ela destacou os impactos das mudanças climáticas e a necessidade de reduzir os gases de efeito estufa, com transição energética e justiça social.
Segundo Laurence Tubiana, os principais impactados pelas alterações do clima são as populações mais pobres e periféricas dos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento. Ela ainda reforçou a necessidade de participação da sociedade civil nas decisões, e a importância do G20 Social como um espaço participativo.
Também presente na plenária, Marciely Tupari, liderança indígena de Rondônia, destacou a necessidade de a demarcação de terras estar na pauta climática:
“O que a gente tá debatendo enquanto movimento indígena é que o estado brasileiro coloque como pauta principal a questão da demarcação dos territórios indígenas como uma pauta climática. Como sempre é colocado nas negociações e como já foi comprovado, nós, povos indígenas, somos 5% da população mundial, mas nós preservamos 80% de toda a biodiversidade do planeta”.
Outra participante, Adriana Marcolino, diretora técnica do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), reforçou que os trabalhadores e trabalhadoras são os principais afetados pelas mudanças climáticas e os que menos têm recursos para lidar com as alterações do clima. Sobre os eventos climáticos extremos, sustentou a necessidade de medidas que assegurem que os mais pobres e vulneráveis não paguem pelas políticas de alteração climática geradas especialmente pelos mais ricos e poluidores.
Já o ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, falou sobre como a agricultura familiar brasileira pode contribuir para a aliança global:
“O Brasil tem o Pronaf, tem o Programa de Aquisição de alimentos, o Programa Nacional de Alimentação Escolar, tem o Programa de Compras Institucionais. O Brasil tem um grande programa voltado à reforma agrária. Todos esses programas são importantes para o Brasil e são exemplos que o Brasil pode oferecer para o mundo todo”.
Por sua vez, o secretário executivo do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, exaltou o avanço das agendas em debate no G20. Principalmente a importância da participação da sociedade civil neste processo de formulação de políticas públicas para um mundo sustentável.
Áreas da Amazônia com maior concentração de árvores ameaçadas de extinção abrigam uma maior diversidade de abelhas. É o que aponta artigo de pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale (ITV) publicado na revista “Functional Ecology” na quarta (13). O trabalho investigou como certas características das árvores, como tamanho, grossura e risco de extinção, se relacionam com a riqueza funcional das abelhas nesses ambientes, considerando fatores como o tamanho desses insetos, o tipo de ninho formado e a sociabilidade entre indivíduos da mesma espécie.
Para isso, a equipe registrou dados de quase 2.300 árvores em seis trechos da Floresta Nacional de Carajás, no sudeste da Amazônia. Além disso, foram coletadas abelhas que estavam voando nesses ambientes, bem como indivíduos atraídos para armadilhas de mel instaladas pela equipe. Os insetos capturados foram classificados em 98 espécies, enquanto as árvores analisadas totalizaram 359. A pesquisa foi realizada entre 2021 e 2022 e ambas as amostragens foram repetidas a cada ano.
Segundo Adrian González, pesquisador do ITV e principal autor do estudo, as árvores em risco podem estar associadas a condições como clima, solo e topografia que beneficiam uma alta diversidade de plantas. Por consequência, oferecem mais recursos para as abelhas. “Além dos recursos florais, essas espécies podem fornecer locais apropriados para nidificação e produção de óleos florais, que também são fonte de alimento para esses animais”, complementa o pesquisador.
Ao mesmo tempo em que oferecem habitat e matéria-prima para a sobrevivência das abelhas, González ressalta que as árvores em risco de extinção também precisam desses insetos para se reproduzirem, e alerta para a importância da conservação dessas espécies, visto que a extinção de uma das pontas dessa relação ameaça seriamente a outra. “A perda desses polinizadores resultaria na perda da frutificação e da geração de sementes dessas árvores, o que, a longo prazo, poderia levar à homogeneização da biota, restando poucas espécies que interagem entre si”, alerta.
Além dos danos ecológicos que esse cenário de perdas poderia causar na região amazônica, a redução da diversidade das abelhas e de árvores com as quais se relacionam poderia afetar a segurança alimentar e a economia do país, interferindo na diversidade de frutas, como o açaí, que são consumidas pela população nacional e exportadas, avalia González. O pesquisador também destaca que a manutenção dessa rede de interações é essencial para mitigar os impactos das mudanças climáticas, já que as árvores amazônicas armazenam carbono, o que previne a dissipação de altas quantidades de gases de efeito estufa no ambiente.
O autor defende que as conclusões obtidas podem ajudar a reforçar e integrar políticas existentes com o objetivo de promover uma conservação mais assertiva da vegetação e das abelhas amazônicas. “Nossos resultados reforçam que essas áreas são de grande importância para a conservação da biodiversidade e para preservar a diversidade funcional das abelhas”, observa González.
A peça “O Prazer é Todo Nosso“, nova produção da companhia cênica “Liga do Teatro”, chega ao palco do Teatro Experimental Waldemar Henrique (TEWH) neste sábado (16), com sessões às 18h e 20h. O espetáculo propõe uma abordagem leve e bem-humorada sobre os diversos tipos de prazer que as pessoas encontram em situações do cotidiano, mostrando que, muitas vezes, o prazer vai muito além da esfera sexual.
O espetáculo, estruturado em fragmentos cômicos, mergulha em cenas do cotidiano onde o desejo por prazer surge de forma inesperada. Em cena, o elenco traz situações que facilmente ressoam com o público, construindo um retrato leve de uma sociedade em busca de prazer e satisfação em diferentes momentos da vida.
A Fundação Cultural do Pará (FCP), por meio do TEWH, desempenha um papel crucial na promoção de políticas públicas de cultura, ampliando o acesso à arte e ao entretenimento para a população paraense.
A programação do teatro, que abrange desde espetáculos locais a produções nacionais, reflete o compromisso da FCP com a diversidade cultural e o apoio a artistas e coletivos locais. Por meio dessas iniciativas, a Fundação reafirma seu papel na construção de uma cena cultural forte e inclusiva no estado do Pará.
Mais informações podem ser obtidas no perfil oficial da companhia no Instagram, @aligadoteatro, ou pelo telefone (91) 98425-0317. Ingressos podem ser obtidos AQUI.
Qualquer modelo de transição ecológica precisa contemplar a demarcação de terras indígenas e a proteção das populações nativas de invasores, disse a representante da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Marciely Ayap Tupari, no dia 15 de novembro no Rio de Janeiro. Em plenária sobre desenvolvimento sustentável no G20 Social, ela citou a ameaça do Marco Temporal e criticou o projeto de exploração da Petrobras na Margem Equatorial.
“Os povos indígenas são 5% da população mundial, mas preservamos 80% da biodiversidade de todo o planeta. Graças tanto ao nosso conhecimento ancestral como ao sangue de nossos parentes derramados”, declarou a líder indígena.
Ela ressaltou que os próprios indígenas vivem em harmonia com o meio ambiente e têm muito a contribuir no G20 Social, evento paralelo à Cúpula de Líderes do G20, grupo das 19 maiores economias do planeta, mais União Europeia e União Africana.
“A sustentabilidade, hoje colocada como solução, sempre pusemos em prática. Queremos que nosso conhecimento seja utilizado. As consequências que estamos sentindo hoje são consequências de ações de 20 anos atrás. O que a gente vai esperar nos 20 anos à frente? Será que estamos preocupados com futuras gerações?”, declarou.
Em relação ao Marco Temporal, Tupari disse que a ameaça aos direitos dos povos indígenas continua avançando. Ela defendeu que o G20 Social considere a demarcação como um meio de enfrentamento às mudanças climáticas.
“Hoje no Brasil, estamos sofrendo um retrocesso muito grande, principalmente sobre o Marco Temporal. Hoje [estamos] debatendo para que o Estado brasileiro coloque a demarcação das terras indígenas como pauta climática”, declarou.
Tupari cobrou não apenas o avanço nas demarcações como a proteção das etnias, que, segundo ela, atuaram na linha de frente no combate aos invasores no governo anterior. “Não adianta só demarcar [terras indígenas]. Precisa garantir a proteção deles. A gente precisa olhar para indígenas na linha de frente defendendo territórios, disse.
Burocracia
A representante da Apib também criticou a burocracia na concessão de financiamentos aos povos nativos. Segundo ela, o dinheiro prometido por organismos internacionais não chega à população indígena por causa de restrições impostas tanto pelos bancos multilaterais como pelo governo brasileiro.
“A gente quer ter acesso a esses financiamentos que são colocados para nós, mas não conseguimos porque existe muita burocracia. Hoje, os movimentos indígenas [estão] criando fundos para ver se conseguem resolver esses problemas e acessar os financiamentos”, afirmou. “Nas COP [Conferências das Nações Unidas sobre as mudanças climáticas], eles só criam fundos. A gente ouve muitas promessas, mas não vê nada acontecer”, garantiu.
Petróleo
A líder indígena criticou o projeto da Petrobras de explorar a Margem Equatorial, área de grandes reservas de petróleo entre a costa do Rio Grande do Norte e a do Amapá. A potencial exploração de óleo na região, que inclui a foz do Rio Amazonas, é criticada por ambientalistas, preocupados com possíveis danos ambientais.
“Hoje não temos mais como barrar o limite de 1,5°C de aquecimento. Não podemos mais aumentar a extração de combustíveis fósseis. Se o Brasil quer vender para fora a imagem de país sustentável, não pode explorar petróleo na Região Amazônica”, avaliou Tupari, sob aplausos da plateia.
A representante da Apib disse, ainda, que os movimentos indígenas estão mobilizados para defender seus direitos e se manifestar contrários à exploração da Margem Equatorial no próximo ano, durante a COP 30, em Belém, no Pará.
O mirante da pedra da Paixão de Cristo foi inaugurado no dia 14 de novembro em Mucajaí, cidade no Sul de Roraima, distante 50 km de Boa Vista. A estrutura foi erguida sobre a Pedra do Pimba, conhecida como “Pedra da Paixão”, e conta com 130 degraus em um percurso de 230 metros.
A construção, de responsabilidade da prefeitura de Mucajaí, integra parte da política de fomento ao turismo na cidade. Mucajaí é palco do espetáculo a céu aberto “Encenação da Paixão de Cristo”, que há 40 anos envolve os moradores da região no teatro religioso sobre os últimos momentos de Jesus Cristo.
A “Pedra da Paixão” ficou conhecida por ser cenário da crucificação de Jesus na peça. A visitação ao público foi liberada a partir do dia 15.
Além dos 130 degraus em concreto com iluminação de LED, o mirante tem duas plataformas de observação da floresta que rodeia Mucajaí. No ponto mais alto, a cerca de 110 metros de altura, é possível observar a Serra Grande, no município do Cantá. Diariamente, dezenas de moradores e turistas visitam o local.
Para a prefeita Eronildes Gonçalves (Solidariedade), que é conhecida como “Nega”, a inauguração é um marco para o turismo na região e consolida Mucajaí como um dos principais destinos do interior de Roraima.
“Mucajaí tem um turismo em ascensão, com grande destaque para o ecoturismo a poucos quilômetros de Boa Vista, como as cachoeiras do Esmeralda e a Cachoeira do Evandro, além das trilhas e serras encantadoras para os amantes da natureza. O mirante soma-se aos nossos esforços em fazer da cidade um dos mais importantes destinos em Roraima e brinda o final da nossa gestão”, afirmou Eronildes, que neste ano encerra o segundo mandato à frente da prefeitura.
A obra custou R$ 1.950.000 e teve financiamento do Governo Federal e do Ministério do Turismo, com emendas dos então deputados Jhonatan de Jesus e Édio Lopes, que é marido de Nega. O local recebeu o nome de “Mirante Primeira-Dama Raimunda Pereira Almeida.”
Raimunda Pereira Almeida era esposa do ex-prefeito de Mucajaí, Roldão Almeida, que governo o município entre 1985 e 1988. Ela morreu aos 75 anos em 15 de setembro de 2024, “deixando um legado de solidariedade e força, além de seu esposo, três filhos, seis netos e dois bisnetos.” A homenageada também trabalhou como técnica em enfermagem na região.
A Paixão de Cristo de Mucajaí
A tradicional festa religiosa do município de Mucajaí mantém viva uma tradição que há quatro décadas envolve moradores e atrai visitantes de todas as regiões. A “Encenação da Paixão de Cristo” foi criada em 1982 e em todos esses anos só não foi realizada em 2020 e 2021, os primeiros anos da pandemia. A festa ultrapassou a barreira do tempo transformando-se em um dos maiores eventos culturais e religiosos do estado.
Idealizada pelo professor Venceslau Catossi, a encenação foi organizada pela primeira vez em colaboração com colegas professores e apoiada por uma visão comunitária que buscava criar um evento especial para a Semana Santa. Desde então, a apresentação cresceu em importância e alcance, sendo reconhecida oficialmente, em 2015, como Patrimônio Cultural Imaterial de Roraima.
Durante a Semana Santa, milhares de visitantes lotam a cidade para assistir ao espetáculo, movimentando hotéis, restaurantes e o comércio em geral. A prefeitura e organizações locais têm investido cada vez mais na infraestrutura para acomodar o crescente número de turistas, que, além de celebrarem a fé, contribuem para a criação de empregos e geração de renda.
O 29º Encontro de Tambores iniciou no dia 14 de novembro na sede do Centro de Cultura Negra do Amapá (CCNA) Raimunda Ramos, no bairro Julião Ramos – antigo bairro do Laguinho – em Macapá. O evento segue durante 12 dias, a partir das 19h, com apresentações, exposições, dinâmicas culturais, oficinas, palestras e venda de comidas e bebidas que fazem parte da história amapaense como a gengibirra.
O indígena Shina Batista, Palikur da etnia Aruaque, disse que a oportunidade de mostrar a dança é histórico. Além de relembrar de onde veio o povo do Amapá, repassando ensinamentos dos antepassados para os filhos e levando a cultura adiante.
“Viemos mostrar a dança da nossa cultura. Nossa língua quase foi extinta há um tempo atrás, nossos antepassados foram morrendo e a gente tenta fazer o resgate de origem com essa dança aqui hoje. Vamos dando aulas aos nossos filhos e netos para que não deixem a cultura”, disse.
Batista destacou a resiliência da cultura indígena. Foto: Isadora Pereira/g1 Amapá
Batista disse ainda que é importante conviver com a cultura e mantê-la viva através dos jovens, para que não seja perdida durante o tempo. “Nós estamos aqui e existimos, dentro da nossa mãe terra”, finalizou.
A abertura reuniu centenas de pessoas para celebrar a cultura dos povos amapaenses com espetáculos dos povos originários, povos de terreiro, escolas de samba, marabaixo, capoeira, hip-hop, escolas de samba e outros.
Sobre o evento
O Encontro dos Tambores é realizado desde 1995 no Amapá, sendo uma tradição e Patrimônio Cultural e Imaterial. Todos os anos as comunidades negras e indígenas se reúnem para a celebração da cultura, como uma forma de dar continuidade aos costumes ancestrais.
O indígena e músico acreano Mapu Huni Kuin se apresentou, na última quinta-feira (14), na 25ª cerimônia anual de entrega do Grammy Latino, em Miami, nos Estados Unidos, ao lado do DJ Alok, indicado ao prêmio mais importante da indústria musical latina.
A performance da música “Pedju Kunumigwe”, indicada na categoria de melhor interpretação de música eletrônica latina, fez parte da apresentação e divulgação do álbum “O Futuro é Ancestral“, que foi lançado no dia 19 de abril, quando se celebra o Dia dos Povos Indígenas.
“O prêmio máximo não veio, mas estamos celebrando muito a indicação dos jurados internacionais do Grammy para que o canto sagrado do povo Nhandewa chegasse à finalíssima. É uma grande vitória: pela primeira vez na história da premiação uma canção indígena brasileira foi indicada”, disse a página oficial do Instituto Alok.
Também nas redes sociais, Mapu Huni Kuin celebrou o feito.
“Este é um marco que une todos os povos indígenas e celebra nossa cultura junto à incrível equipe do Alok. Estamos cheios de gratidão e emoção por fazer parte desse momento tão especial”, comemorou o acreano.
Segundo o artista, o canto “Pedju Kunumigwe”, indicado ao prêmio, é um chamado às crianças para que escutem o sagrado canto dos pássaros: “Venham, vamos ver juntos!”. A música que venceu a categoria de música eletrônica latina foi Bzrp Music Sessions, Vol. 53 (Tiësto Remix), de Bizarrap e Shakira.
Os Guarani Nhandewa vivem no Norte do Paraná, nos territórios Indígenas Ywy Porã (Posto Velho), Narã’i (Laranjinha) e Pinhalzinho. A mensagem é de respeito às existências físicas e espirituais dos povos indígenas, assim como de seus projetos de futuro, em profunda conexão com a terra que habitam.
O trabalho de Alok é o primeiro autoral de sua carreira, é um projeto sociocultural do Instituto Alok e é resultado de mais de 500 horas de gravações entre pelo menos 60 artistas indígenas de oito etnias, incluindo a Huni Kuin. Em março deste ano, o acreano, em conjunto com outros indígenas, se apresentou em Los Angeles.
Mapu Huni Kuin (ao meio) em cerimônia de entrega do 25º Grammy Latino, nos EUA. Foto: Reprodução/Instagram @alok
Outras apresentações
Em 2021, indígenas do Acre, das etnias Yawanawá e Huni Kui, também se apresentaram ao lado do DJ Alok no Global Citizen Live. A performance foi transmitida direto da Amazônia e mostrou o trabalho que o artista tem feito ao lado dos povos indígenas nos últimos meses.
A Global Citizen pretende convocar “os governos, grandes empresas e os filantropos para que trabalhem juntos na defesa do planeta e para vencer a pobreza, concentrando-se nas ameaças mais urgentes”.
A ideia da apresentação foi mostrar que é através dos cantos indígenas que se pode ouvir o que a floresta tem a dizer.
“Há sete anos eu estava em busca de inspiração, então fiz uma longa viagem até a aldeia Yawanawá, na Amazônia. Chegando lá, passei a ressignificar muitos valores na minha vida, inclusive a forma como eu lidava com a natureza e com a música. Lá, aprendi que os cantos indígenas são cantos ancestrais da florestas. Vivemos um momento urgente no planeta com todas as mudanças climáticas e é preciso preservar a floresta e a melhor forma de fazer isso é ouvindo o que ela tem a dizer”, disse o artista no clipe apresentado no festival.
“O Futuro é Ancestral”
O interesse de Alok pelos povos indígenas não é de hoje. Antes desse projeto, o DJ lançou em 2015 uma música composta por sons de rituais indígenas. Na época, ele chegou a ficar três dias na Aldeia Mutum, em Tarauacá, com os povos da etnia Yawanawá.
Foram seis pessoas da equipe do DJ para capturar a experiência em meio à floresta amazônica. De acordo com o artista na época, a ideia de visitar a aldeia surgiu de uma empresa que já havia feito um trabalho na tribo.
Ainda dessa experiência, o artista lançou, em 2016, o minidocumentário “Yawanawá – A força”, publicado em plataformas digitais. A produção, de 21 minutos, mostra o encontro do artista com a etnia Yawanawá.
Agora, o projeto “O Futuro é Ancestral” conta com nomes como Mapu Huni Kuin, Brô MC’s, Rasu e grupo Yawanawa e Owerá MC, que assim como o acreano, também participaram da cerimônia.
O objetivo do projeto é difundir a importância da música na visão de mundo dos povos originários, além de mostrar a força da canção ancestral do Brasil e amplificar a voz e sabedoria milenar dessa população. Os royalties de Alok como produtor e co-autor, inclusive, serão doados para os artistas que participam deste trabalho.
O projeto é reconhecido pela Unesco como contribuição relevante para a “Década Internacional das Línguas Indígenas”, uma forma, segundo os organizadores, de reafirmar a importância da música para a preservação da cultura originária.
Olhos irritados, dificuldade para respirar, tempo seco, navegação prejudicada, falta de alimentos e água para beber. Essas são algumas das situações enfrentadas pelos amazonenses durante o verão de 2024. A combinação de crimes ambientais e mudanças climáticas impôs a moradores das sedes municipais e das zonas rurais desafios extremos de sobrevivência. O cenário é reflexo do aumento geral dos focos de calor na Amazônia Legal, apesar da redução no desmatamento, o que sugere que as queimadas continuam a ser uma prática preocupante na região, tanto em áreas já desmatadas, como em áreas de floresta.
“A fumaça tem trago (sic) consequências terríveis para as nossas vidas, tanto pra mim quanto para a minha família tem sido muito difícil, pois a (sic) acordar com bastante fumaça com dificuldade pra respirar, dificuldade pra vim (sic) pro trabalho, pois quando saímos de casa é muito fumaça, dificulta na visão, dificulta na questão de respirar. E aqui no nosso município de Lábrea a gente tem sofrido de uma forma bem ampla, né? Pois todos os dias com bastante fumaça, não sofre só uma pessoa, mas todo o público em geral. Eu, particularmente, tenho sofrido bastante, pois meu filho e minha esposa sofrem de problemas respiratórios, de asma, tendo que ir ao hospital com frequência para amenizar os efeitos da fumaça”, relatou Pedro Geraldo, orientador educacional, morador de Lábrea, no sul do Amazonas.
O depoimento de Pedro faz parte da série “Entre a fumaça e a seca: vozes do sul do Amazonas”, produzida pelo Coletivo Jovens Comunicadores do Sul do Amazonas (Jocsam) para dar visibilidade aos desafios enfrentados pelos moradores da região durante o verão, ano após ano.
“Bom, quando a gente fala de Humaitá, o perímetro urbano tá sofrendo com a fumaça, muita gente passando mal, em hospitais, muitos idosos e crianças precisando de atendimento de saúde. E quando a gente fala da parte ribeirinha de Humaitá, da parte rural, muitas as pessoas estão com dificuldade pra escoar produção, para conseguir o acesso à escola, então é algo que tá bem complicado. A gente vê que os produtos estão aumentando o valor para quem está consumindo aqui na cidade e muitas vezes não está conseguindo chegar. E para o produtor que está lá, escoar também não está fácil porque tem muita praia, muita distância para carregar, muita coisa”, contou Del Belfort de Moraes, membro do GT Desmatamento e Queimadas da Aliança para o Desenvolvimento Sustentável do Sul do Amazonas e articulador da Rede Transdisciplinar da Amazônia (Reta).
Del avalia que a abertura de áreas de pasto contribuiu para a situação vivida pelos moradores de Humaitá nos últimos meses. “A gente notou que esse ano teve muitas pessoas da região contribuindo, muitos empreendimentos da região. Então, assim, as queimadas no Apuí, em Lábrea, no próprio território de Humaitá para abrir espaço para o agronegócio, também é um grande contribuidor nesse desastre que a gente está vivendo nesse momento”, disse.
Os municípios do sul do Amazonas estão entre os que mais desmatam e mais queimam na Amazônia. O próprio estado está entre os que mais destroem a floresta. A região fica na área de influência da rodovia BR-319, que, hoje, é o maior catalisador de desmatamento, focos de calor e degradação florestal no Amazonas.
“Bom, o principal causador de queimadas na região, principalmente no sul do Amazonas, é a expansão da fronteira agrícola aqui nessa região, que é principalmente chamada de Arco do Desmatamento. A gente tem visto nos últimos anos o avanço dessa fronteira agrícola, juntamente com o avanço das queimadas. E esse aumento das queimadas aqui na região acontece principalmente próximo às rodovias. A gente percebe, também, que áreas ambientais, como unidades de conservação e terras indígenas, freiam um pouco o avanço tanto do desmatamento quanto das queimadas na região do sul do Amazonas”, disse Hildeberto F. Macedo Filho, engenheiro e mestrando em Ciências Ambientais pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
O manejo inadequado do solo e a falta de controle efetivo das queimadas podem estar agravando a situação, que se converte em impacto no bem-estar e no cotidiano da população.
“A nossa motivação ao pensar na criação da série “Entre fumaça e seca: vozes do sul do Amazonas” está não somente em uma, mas em várias razões”, declara o Jocsam. “Queremos dar voz às comunidades dos nossos territórios, que muitas vezes são ignoradas nas discussões sobre queimadas e seca. Isso ajuda a valorizar cada experiência e as vivências sobre os impactos. Buscamos, também, a conscientização, aumentando o despertar da consciência sobre os impactos, pois mostramos como esses fenômenos afetam a vida cotidiana das pessoas, a biodiversidade e o ambiente. Além disso, destacamos, ainda, o impacto político, ao dar visibilidade aos problemas enfrentados pelas comunidades. Acreditamos que a série pode influenciar políticas públicas e chamar a atenção de autoridades para a necessidade de ações efetivas na região”, explicam os jovens.
“Essas motivações refletem um compromisso com a justiça social, a preservação ambiental e o fortalecimento da identidade comunitária, queremos mostrar que tudo o que vivemos nunca, jamais será esquecido”, concluíram.
Entre setembro de 2023 e setembro de 2024, a Amazônia Legal registrou um aumento expressivo no número de focos de calor, que passou de 33.247 para 41.463, o que representa um aumento de 24,71%. “Esse crescimento no número de focos de calor é um indicativo de que, embora o desmatamento tenha diminuído no período, a prática de queimadas, frequentemente associada ao manejo de áreas já desmatadas, intensificou-se, potencialmente devido a atividades agropecuárias ou à limpeza de áreas já convertidas para outros usos”, avalia o especialista em geoprocessamento e analista do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), Heitor Paulo Pinheiro.
Já no Amazonas, houve uma leve redução no número de focos de calor, de 6.990 em setembro de 2023 para 6.879 no mesmo período de 2024, representando uma diminuição de 1,59%. Segundo Heitor, essa redução é pequena, mas relevante, considerando a vasta extensão florestal do estado e a importância de manter baixos níveis de focos de calor. “Visto que esses focos estão diretamente relacionados à degradação florestal e à emissão de gases de efeito estufa”, destaca. “Vale ressaltar que mesmo com a diminuição no número de focos de calor, os números gerais ainda permanecem altos, e preocupantes, principalmente para saúde da população, devido à fumaça e também aos impactos a longo prazo na degradação de espaços naturais”.
Humaitá encoberta por fumaça entre setembro e outubro de 2024. Foto: Hildeberto F. Macêdo Filho/Jocsam
Em Rondônia, o cenário é diferente, com um pequeno aumento de 3,36% nos focos de calor, passando de 2.650 em setembro de 2023 para 2.739 em setembro de 2024. O estado é historicamente afetado pela expansão agropecuária e desmatamento e continua a apresentar desafios no controle das queimadas, que são muitas vezes usadas como técnica de manejo agrícola. “O aumento, embora pequeno, reflete a persistência de práticas que contribuem para a degradação ambiental”, diz Heitor.
Nos municípios localizados na área de influência da rodovia BR-319, houve uma redução de quase 10% nos focos de calor, caindo de 3.936 em setembro de 2023 para 3.544 em setembro de 2024. “Essa redução de 9,96% é um dado positivo, especialmente considerando o potencial de impacto ambiental dessa área sensível, onde a pressão por expansão agrícola e pecuária, além da grilagem de terras é elevada. A redução dos focos de calor pode indicar uma maior eficiência nas políticas de prevenção e combate às queimadas, agregada ao aumento de chuvas na região”, avalia.
“Vale ressaltar que o momento político, de eleições municipais contribui com este cenário de aumento e é a oportunidade de fazermos uma indagação: será que fogo e política não estão ligados? E como frear e identificar os causadores de tantas ocorrências? Sem políticas públicas eficazes e adaptadas à região esta será uma realidade que se repetirá ano após ano”, alerta Heitor.
Brigada Indígena
Em Lábrea, município que está em terceiro lugar no ranking de focos de incêndio em 2024, o povo Apurinã criou a Brigada Indígena de Incêndio da Terra Indígena Caititu, que desempenha um papel fundamental na proteção do território. Composta por 23 indígenas que receberam treinamento do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), através do projeto Raízes do Purus, realizado pela Operação Amazônia Nativa (Opan), a brigada atua no combate a incêndios florestais e na prevenção de queimadas ilegais em um território que sofre com a intensificação do desmatamento. A criação da brigada foi motivada pela necessidade de proteger os sistemas agroflorestais (SAFs), que são essenciais para a subsistência da comunidade.
Os SAFs, que produzem alimentos como frutas, feijões e tubérculos, têm sido ameaçados por incêndios que se alastram para dentro da terra indígena. A brigada, formada por meio de um processo que envolveu treinamento técnico e a aquisição de equipamentos, atua em ações emergenciais e em atividades de prevenção, como a realização de queimadas controladas. A atuação da brigada tem sido crucial para evitar a perda de plantações e garantir a segurança alimentar do povo Apurinã.
O processo de criação da Brigada da Terra Indígena Caititu começou em 2022. Na época, Francisco Padilha, indígena do povo Apurinã que já tinha formação na área de combate a incêndios, ofereceu uma formação básica a um pequeno grupo. “Eram sete pessoas e já fizeram um bom trabalho. Agora são 23 brigadistas que estão atuando dentro da nossa terra”, conta Tata Apurinã. No mesmo ano, os Apurinã também fizeram a aquisição de equipamentos necessários para o trabalho, como abafadores, bomba costal, rádio comunicadores e equipamentos de proteção individual.
Apesar dos desafios, como a alta demanda por trabalho e a necessidade de lidar com incêndios que se alastram rapidamente, os brigadistas demonstram grande comprometimento com a proteção do seu território. A brigada é vista como um exemplo de como as comunidades indígenas podem se organizar para enfrentar os desafios do desmatamento e das mudanças climáticas, contribuindo para a conservação da Amazônia. Saiba mais acessando este link.
Texto produzido em parceria com o Coletivo Jovens Comunicadores do Sul do Amazonas (Jocsam).
Com informações de texto produzido pela jornalista Talita Oliveira, do projeto Raízes do Purus, executado pela Operação Amazônia Nativa (Opan).