O dia 31 de outubro é conhecido como Halloween ou Dia das Bruxas, uma data tradicional celebrada em países como Estados Unidos, Irlanda e Canadá. A tradição consiste em se fantasiar como figuras que representam filmes de terror ou histórias de suspense. No Brasil, a festa também é bastante popular e diversas celebrações como o Baile de Halloween da Sephora, em São Paulo, se tornaram tradição.
Evento anual que reúne os famosos, o baile aconteceu no Hotel Unique, em São Paulo, na noite do dia 11. E, este ano, a cunhã-poranga do boi-bumbá Garantido, de Parintins (AM), Isabelle Nogueira, foi uma das convidadas. Ela participou do evento usando uma fantasia que remete à uma das principais lendas amazônicas: a Matinta Perera.
Evento anual que reúne os famosos aconteceu no Hotel Unique, em São Paulo, na noite do dia 11.
Na Amazônia, existem diversas lendas sobre figuras que protegem a natureza, como o curupira, a Iara, o Mapinguari, e a icônica bruxa Matinta.
Ela é retratada como uma mulher que se transforma no pássaro rasga-mortalha, para amedrontar as crianças e os moradores locais com o seu assobio estridente.
A lenda conta que à noite é ouvido um assobio agudo que acaba assustando crianças e adultos, até que o morador da casa prometa tabaco ou fumo à bruxa. Ao ouvir o assobio, a pessoa deve dizer: “Matinta, pode passar amanhã aqui para pegar seu tabaco”.
Já no dia seguinte, uma velha aparece na residência onde a promessa foi feita, a fim de apanhar o fumo. A senhora é a pessoa que carregaria a maldição de ‘virar’ Matinta Perera, ou seja, à noite, ela se transforma no ser indescritível que assombra as pessoas.
Caso o dono da casa não cumpra a promessa, Matinta amaldiçoa todos os moradores da casa, com doenças ou até mesmo com a morte.
Isabelle Nogueira acabou explicando em suas redes sociais a escolha da personagem, o que viralizou em diversos perfis:
A Matinta Perera pode ser de dois tipos: com asa e sem asa. A que tem asa pode transformar-se em pássaro e voar nas cercanias do lugar onde mora. Enquanto, a que não tem, anda sempre com um pássaro, considerado agourento, e identificado como sendo ‘rasga-mortalha’.
Há quem conte que a sina de se transformar na Matinta é passada de mãe para filha, mas caso a mulher não tenha herdeiras, a bruxa, quando está para morrer, sai perguntando: “Quem quer? Quem quer?”.
Se alguém responder “eu quero”, pensando se tratar de alguma herança de dinheiro ou joias, recebe na verdade a maldição de se tornar a próxima Matinta Perera.
A bruxa amazônica também foi a escolha da influenciadora paraense Theulyn Reis:
O grupo de pesquisa do Laboratório de Medicina Tropical (LabMedt), da Universidade Federal do Acre (Ufac), realiza pesquisa com triatomíneos (insetos conhecidos como barbeiros, transmissores da doença de Chagas) capturados em residência e ambientes urbanos do Acre. Artigo desenvolvido durante o mestrado de Manoella da Silva Moura no programa de pós-graduação em Ciência da Saúde na Amazônia Ocidental destacou-se por descrever a ocorrência de barbeiros do 2º ao 13º andar de residencial urbano em Rio Branco.
Os espécimes foram coletados na capital acreana no período de julho de 2022 a junho de 2023 por moradores dos apartamentos e foram entregues ao setor de vigilância entomológica da cidade. Segundo o professor Dionatas Ulises de Oliveira Meneguetti, que lidera o grupo de pesquisa com a professora Mariane Albuquerque Lima Ribeiro, trata-se de um fato inédito para a ciência, pois esse tipo de vetor nunca tinha sido encontrado em andares tão altos.
O artigo foi publicado, em inglês, na “Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical”, com o título “Voando para a Lua: Relatos Impactantes da Invasão de Triatomíneos do 2º ao 13º Andar de um Edifício Residencial Urbano no Município de Rio Branco, Acre, Brasil”.
Ele contou que a ocorrência de barbeiros em apartamento foi descrita em outros artigos publicados pelo LabMedt.
“Porém, o que chamou a atenção nesse estudo foi a ocorrência em andares tão altos, como 10º, 11º e 13º, o que gera uma preocupação, visto o risco de transmissão vetorial da doença de Chagas, que é um problema atual para o Estado e infelizmente ainda negligenciado”.
No Estado do Acre, além dos apartamentos, barbeiros também foram encontrados em residência de municípios, como Cruzeiro do Sul e na capital Rio Branco. Para Meneguetti outro achado preocupante foi a ocorrência de barbeiros em locais “atípicos”, como penitenciária, hospital, posto de saúde, igreja e escola.
“Acredita-se que esse aumento de barbeiros nesses locais se deve ao aumento do desmatamento e queimadas no Estado, destruindo assim o habitat desses vetores, que, ao procurarem novos abrigos, são atraídos pelas luzes das construções”, concluiu o professor.
Diversidade é uma das mais marcantes características da Amazônia e sendo o Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região (AM/RR) um Tribunal amazônico, suas ações buscam cada vez mais refletir essa diversidade. Por isso, o TRT-11 produziu o ‘Manual do Trabalhador Amazônico’ em formato de história em quadrinhos e em três línguas: português, espanhol e nheengatu (para os povos indígenas). O lançamento ocorreu em 11 de outubro, no Fórum Trabalhista de Manaus (AM).
Para o presidente do Tribunal, desembargador Audaliphal Hildebrando da Silva, o lançamento do ‘Manual do Trabalhador Amazônico’ é mais uma ação inclusiva que atende desde o trabalhador residente nos centros urbanos e nas capitais de Roraima e Amazonas até os refugiados venezuelanos e os povos indígenas. “Todos merecem um tratamento digno, respeitoso, que permita o acesso aos seus direitos. Por isso fizemos esse Manual”, comemora.
Rodas de conversa
Representantes de várias etnias foram convidados a participar do evento e integrar as rodas de conversa, promovendo uma troca de saberes que abrange tanto os aspectos legais quanto os culturais dos direitos indígenas.
Líderes como Ismael Munduruku Franklin Gonçalves, cacique geral do Parque das Tribos; e Fábio Cardoso Munduruku, coordenador regional substituto da Fundação Nacional do Indígena (Funai), foram alguns dos convidados.
Sobre o Manual
A publicação do Manual do Trabalhador Amazônico faz parte de um esforço coletivo. Idealizado pelo desembargador Audaliphal Hildebrando da Silva, a edição tem roteiro da juíza Carolina França e foi confeccionado por artistas do coletivo de ilustradoras de Manaus, o “Má Tinta”.
A diagramação é de Lílian dos Reis e Silva e colaboração de Lorena Souza de Souza (layout e storyboard), Viviane Feitoza Cavalcanti (ilustrações e capa), Hirlaine Vasconcelos de Lima (ilustrações) e Aivlis Nicole Matos de Souza (colorização). A servidora Laís Reis coordenou o trabalho do coletivo e fez a revisão final.
O manual reconhece a diversidade da força de trabalho na Amazônia, incluindo os povos originários e imigrantes venezuelanos, e busca oferecer orientações para a proteção de grupos vulneráveis. Com versões em português, espanhol e nheengatu, a obra estará disponível tanto de forma impressa quanto digital, acessível por QR code, promovendo a inclusão e o fácil acesso à informação.
noturno, intervalos inter e intrajornada, orientações sobre o que fazer em caso de acidente de trabalho. Sobre normas de saúde e segurança no trabalho, como o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), adicional de periculosidade e insalubridade. Também fala sobre a proibição do trabalho infantil e sobre a aprendizagem. Na revista são disponibilizados os contatos de órgãos trabalhistas competentes para obter maiores informações.
Entre janeiro e 09 de outubro deste ano, Rondônia registrou 9.979 focos de incêndios, de acordo com dados do “Programa Queimadas” do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Um aumento de mais de 34% em relação ao ano todo de 2023, quando 7.417 focos foram registrados.
Dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) indicam que a última chuva significativa observada no estado foi no dia 08 de outubro, na região central do Norte do estado, com acumulados em torno de 25 a 30mm/h. Apesar disso, o cenário crítico de queimadas ainda é uma realidade no estado.
Somente nos primeiros nove dias de outubro foram 635 focos registrados pelo Inpe. Esse número é maior do que o registrado nos seis primeiros meses deste ano, quando juntos somaram 465 focos de incêndio. No cenário nacional, Rondônia ocupa a oitava posição entre os estados com maior número de focos de queimadas do país em 2024.
Fumaça e os prejuízos à saúde
Quem tem problemas respiratórios sofre ainda mais com tudo isso. É o caso da Isabelly Oliveira, ela tem 23 anos e foi diagnosticada com asma 5 anos atrás. Diante da cortina de fumaça que cobriu o céu do estado, ela sentiu de perto os impactos.
“Me impactou muito nas atividades do dia a dia, como sair de casa para ir trabalhar, academia e jogar basquete. Coisas que antes eram ‘normais’ me deixavam mais cansada com dor de cabeça e ardência nos olhos. Era difícil até para dirigir, como eu tenho asma tive que fazer mais uso da bombinha e inalação pelo menos três vezes ao dia, além de incluir umidificador nos lugares onde fico mais tempo, como o trabalho e em casa”, relatou.
A dona Maria do Perpetuo Socorro Santana de Castro, de 66 anos de idade, teve que voltar a um hábito antigo, muito comum no tempo da pandemia de Covid-19: a máscara.
“Deixei de ir aos meus compromissos na igreja, passeios com a família e atividades ao ar livre. E quando tinha que sair usava máscara para me proteger. Tenho bronquite asmática e com a fumaça minha saúde agravou, tive sangramento no nariz e cheguei até a ficar internada”, conta.
De acordo com o Ministério da Saúde, a fumaça das queimadas contém gases tóxicos e partículas de fuligem que podem causar diversas doenças respiratórias e pulmonares. A médica pneumologista, Ana Carolina Terra, explica como a exposição à fumaça pode ser tóxica para a saúde, principalmente para os mais vulneráveis como idosos, crianças e pessoas com problemas respiratórios.
“Estamos falando de liberação de monóxido de carbono e outros diversos compostos químicos que ficam suspensos no ar, o que pode causar uma série de enfermidades. Quem já tem doenças cardiopulmonares e pulmonares, como rinite, sinusite, bronquite, asma, entre outras, deve redobrar o cuidado. Para evitar complicações alguns cuidados incluem umidificar o ar, evitar a exposição a fumaça, hidratação, além do uso de máscara quando estiver em exposição, isso pode colaborar diretamente na melhor qualidade do ar e saúde respiratória”.
Outros impactos
Se para os seres humanos as sequelas são grandes, para os animais a situação não é diferente. Em meio às queimadas eles fogem em busca sobreviver, mas muitos não conseguem. Dados do monitoramento do Corpo de Bombeiros Militar de Rondônia, entre junho, quando os focos de queimadas foram intensificados no estado, até o dia 08 de outubro, apontam que ao menos 423 animais foram mortos em meio a incêndios florestais. O biólogo, Flávio Terassini fala sobre o impacto das queimadas para a biodiversidade.
“Imagine a quantidade de insetos, aves, mamíferos, herbívoros, enfim, a infinidade de animais que acabam sendo prejudicados durante os incêndios florestais que acabam morrendo. A gente acompanha como essa frequência das queimadas está cada vez mais se prolongando, isso tende a ter uma perda maior, com isso infelizmente a gente tem espécies deixando de existir”, afirma o biólogo.
Foto: Reprodução
As queimadas também afetam diretamente a agropecuária, reduzindo a oferta de alimentos como carne, grãos e derivados. A saca de açúcar, por exemplo, sofreu uma queda significativa de produção devido à queima de plantações de cana.
De acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os preços já estão subindo: o leite aumentou até 32,1% entre julho e agosto, o café subiu 4,02% e a carne bovina também foi impactada pelas queimadas. Veja:
Arroz: +30,13%
Tomate: +19,58%
Alface: +15,51%
Ovo: -8,09%
Batata: +69,90%
Carnes: +2,84%
Linguiça: -1,43%
Feijão: -17,45%
Leite: +32,1%
Mamão: +17,58%
Banana: +11,37%
Queijo: +5,41%
Café: +4,02%
Açúcar: +3,70%
Carnes: +2,84%
O economista, Otacílio Moreira Carvalho, explica que em Rondônia houve redução de estimativa da produção na safra 2024, estimada em 2,5 milhões de sacas, 16,4% menor do que a obtida na safra de 2023.
“Isso se dá pela mudanças da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), na metodologia de apuração da área plantada com café, devido ao ajuste nas estimativas de área total, em razão do trabalho de mapeamento do parque cafeeiro que a referida instituição vem fazendo no estado. Mas cabe destacar que condições climáticas desfavoráveis também contribuíram para essa queda na produção. Como a safra é de um ano para o outro, em razão da forte estiagem que passa o estado e o país, o grande problema será para a safra 2024/2025, onde está ocorrendo um atraso no plantio de grãos, em especial a soja, e isso poderá trazer queda na produção em 2025 ”, disse.
O que está sendo feito?
Para enfrentar, monitorar e prevenir os incêndios criminosos no estado, o Ministério Público de Rondônia (MPRO) deflagrou a Operação Temporã, um movimento que visa combater crimes ambientais em áreas de reserva como o parque estadual Guajará-Mirim e a Estação Ecológica Soldado da Borracha e em outras regiões do estado tomadas pelo fogo.
A Operação foi deliberada pela Força Tarefa de Combate aos Incêndios Florestais, criada para atender uma solicitação do MPRO, após reuniões com diversas instituições ambientais e forças de segurança do estado.
A missão é composta por agentes do Ibama, Polícia Federal, Polícia Militar, Polícia Militar Ambiental, Comando de Fronteira do Exército, Secretaria de Desenvolvimento Ambiental, Polícia Civil, Corpo de Bombeiros Militar e Politec com o apoio de mais de 300 agentes.
Através dos canais de denúncias do MPRO como o Balcão Virtual ou ligando para o número 127, a população pode contribuir para reduzir os crimes ambientais.
De acordo com o promotor de justiça do MPRO e coordenador do grupo de atuação especial do meio ambiente, o Gaema, Pablo Hernandez Viscardi, o principal objetivo é atuar com medidas preventivas para que este cenário não se repita nos próximos anos.
“Desde o começo de agosto, quando a gente detectou que os focos de incêndio aumentaram significamente no estado de Rondônia, nós percebemos que até então todo o planejamento que tinha sido produzido estava sendo insuficiente por conta da situação extrema que estávamos vivenciando. Foi aí que surgiu, junto aos demais órgãos de combate à queimadas e incêndios, a força-tarefa chamada Operação Temporã. Creio que agora há de fato uma política pública de combate, embora tardia, mas que existiu e que sirva de lição para que no ano que vem a gente comece a planejar e executar as ações desde fevereiro. Principalmente, para que a gente previna o início dos focos de incêndio, a nossa atuação precisa ser preventiva e é para isso que o MPRO vai lutar ano que vem, uma atuação efetiva preventiva”, destacou.
Outras ações de combate
Combate a queimadas em Rondônia. Foto: Divulgação/Secom RO
No final do mês de agosto, o Governo do Estado decretou a suspensão do uso do fogo para combater queimadas. O Decreto nº 29.428 afirma a suspensão do uso do fogo em todo o estado por um período de 90 dias. Além disso, a contratação de mais 126 brigadistas temporários foi incluída nas ações.
O combate aos incêndios florestais também foi reforçado com dois aviões Air Tractor, cada aeronave possui capacidade de 2 mil litros de água e suporte de quatro lançamentos por hora em uma distância de até 80 quilômetros. Com um total de 800 horas contratadas, as novas aeronaves já estão atuando para a diminuição dos danos causados pelos incêndios florestais criminosos em Rondônia.
“Uma revolução no campo!”. É assim que operadores de drone descrevem a chegada da tecnologia em propriedades rurais de Roraima. No município de Mucajaí, ao Sul do estado e onde a pecuária de corte se destaca, a aeronave virou aliada dos criadores de gado.
O drone sobrevoa as áreas de pasto pulverizando produtos agrícolas para eliminar as plantas daninhas que comprometem a qualidade das plantas forrageiras, espécies usadas para alimentar os animais, principalmente o gado.
Segundo o piloto de drone Marcos Junior, além da pulverização, é possível também fazer a dispersão de sementes de pastagem, o que representa uma vantagem na produção de alimento para o rebanho.
“Com o drone nós podemos fazer o mapeamento de qualquer tipo de área, fazendo um plano de voo e aplicamos defensivos e adubos de forma mais precisa na área”, explica Marcos Junior.
Os drones agrícolas estão diretamente ligados à chamada agricultura de precisão. O método busca otimizar os recursos, evitando desperdício de produtos ou perdas nas áreas de produção.
Foto: Oséias Martins/Amazônia Agro
De acordo com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), o Brasil tem cerca de 2,5 mil drones destinados à agricultura. Em Roraima, o número de profissionais e empresas que atuam no setor teve crescimento, conforme explica o técnico especializado em drone, José Iran.
“O mercado dos drone está com muita procura em Roraima. Tem muitas pessoas vindo de fora para trabalhar com isso aqui e os fazendeiros estão comprando o equipamento”, diz José Iran.
Para Marcos Junior, a aeronave pode ser usada em diversos tipos de culturas agrícolas e executa atividades como monitoramento de lavouras, aplicação precisa de insumos e geração de dados que otimizam as atividades no campo.
“Essa tecnologia é bastante versátil e serve para aplicação de produtos em plantações de grãos, frutas, hortaliças e pastagens”, ressalta o piloto de drones.
Foto: Oséias Martins/Amazônia Agro
Comparado a outros métodos de pulverização, o drone pode ter melhor custo benefício e atende pequenos e grandes produtores. Os desafios do uso são o tempo de voo e a capacidade de carga limitada. A bateria de alguns dura 3h.
Apesar disso, a tendência é que o uso de drones agrícolas continue ganhando espaço nas áreas de produção de Roraima. A expectativa dos produtores é de que o equipamento contribua para uma agricultura mais moderna e eficiente.
Uma recomendação expedida pelo Ministério Público de Rondônia (MP- RO) pede a proibição legal de construção/manutenção de estradas, vias e acessos no interior das Unidades de Conservação (UCs) de Porto Velho. A notificação foi enviada para o Governo de Rondônia e para os Municípios de Porto Velho, Candeias do Jamari (RO) e Itapuã do Oeste.
O documento sugere que seja necessário uma licença ambiental prévia para todas as obras que possam ocorrer nas áreas, assim como estudos preliminares dos impactos dessas construções nas unidades de conservação. O MP-RO também indica a adoção de medidas preventivas de proteção das UCS da capital.
De acordo com o MP-RO, a recomendação faz parte de uma série de atuações do Ministério Público voltadas à recuperação e à proteção das Unidades de Conservação de Porto Velho, que segundo o órgão, vêm sofrendo com desflorestamento, invasões em propriedades extensas e comercialização ilegal de gado.
O Grupo Rede Amazônica entrou em contado com os órgãos citados, mas não obteve retorno até a finalização desta matéria.
O Amazonas registrou o primeiro caso de dengue tipo 3 dos últimos 15 anos, de acordo com o boletim epidemiológico divulgado pela Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas – Dra Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP) na última semana. Os últimos casos da doença por esse tipo haviam sido confirmados entre os anos de 2002 e 2009.
Ainda de acordo com a FVS-RCP, de 1 de janeiro a 26 de setembro de 2024, foram confirmados 6.191 casos de dengue, o que representa um aumento de 67,9% quando em relação ao mesmo período de 2023. Os casos foram confirmados clinicamente pelo Laboratório Central de Saúde Pública do Amazonas (LACEN-AM).
A diretora-presidente da FVS-RCP, Tatyana Amorim, ressaltou que as medidas de prevenção da doença devem ser intensificadas, principalmente para que pessoas que já foram infectadas com o vírus tenham outros tipos da doença.
“A dengue possui quatro sorotipos. Pessoas que foram infectadas com outros sorotipos ficam mais vulneráveis a desenvolver a dengue na forma mais grave. Todos nós somos responsáveis pela prevenção, evitando criadouros do mosquito”, destaca a diretora-presidente da FVS-RCP, Tatyana Amorim.
Vigilância e Resposta
No Amazonas, a FVS-RCP realiza o monitoramento das arboviroses por meio do Plano de Preparação, Vigilância e Resposta para Dengue, Zika e Chikungunya no Amazonas. Além de suporte técnico, capacitações técnicas virtuais e presenciais, a FVS-RCP entrega equipamentos, como veículos, inseticidas aos municípios.
O órgão informa também que os próprios moradores podem realizar os meios de prevenção em casa com medidas como:
Esvaziar garrafas PET, potes e vasos; Guardar pneus em locais cobertos; Limpeza das calhas de casa; Manter a caixa d’água, tonéis e outros reservatórios de água bem fechados; Colocar areia nos pratos de vasos de planta; Amarrar bem os sacos de lixo; E não acumular sucatas e entulhos.
Foto: Nataliel Rangel, Mickael Marques e Thales Lima
Um projeto do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá (Iepa) e da Universidade do Estado do Amapá (Ueap) está buscando auxiliar na tomada de decisões voltadas para a diminuição dos efeitos das mudanças climáticas na região costeira amazônica. O Observatório Popular do Mar (Omara) iniciou as atividades em 2023 e busca promover acesso a informações sobre o mar amazônico na costa do Amapá.
O Omara envolve as comunidades ribeirinhas na observação dos fenômenos marítimos e como eles influenciam na vida dos moradores. Salinização dos rios, erosão, e inundações são alguns dos problemas enfrentados por essas comunidades.
Atualmente o projeto está na segunda fase, que é de conscientização e divulgação dos dados já coletados. Na primeira etapa a ação reuniu comunitários para explicar sobre os processos e incentivou eles a se engajarem no projeto.
Foto: Nataliel Rangel, Mickael Marques e Thales Lima
Segundo a coordenadora do Omara, Janaina Calado, a identidade do povo do norte está diretamente relacionada com os rios.
“A identidade do povo amazônida está muito relacionado às florestas e rios. Só que a gente tem uma imensa Amazônia costeira marinha, que ainda é muito pouco conhecida e muito pouco conectada à vida das pessoas. Então o Omara permite que a gente conecte essas informações, fazendo com que as pessoas se entendam como populações costeiras”, contou a pesquisadora.
Para o morador da comunidade do Limão do Curuá, Carlos Augusto Ferreira, o monitoramento é muito importante para os trabalhadores do local.
Foto: Nataliel Rangel, Mickael Marques e Thales Lima
“A gente acredita muito nesse processo de acompanhamento das terras caídas aqui na região. Pra nós como produtores, agricultores, extrativistas, isso vai contribuir muito pro nosso trabalho dentro da floresta.” , disse o morador da comunidade.
Atualmente, o projeto possui 11 estações de monitoramento e abrange a região estuarina do Beira Amazonas, o Arquipélago do Bailique e a costa da ilha do Marajó, envolvendo comunidades em Chaves, no canal sul do rio Amazonas, no Pará. Os dados da pesquisa devem ser divulgados em novembro.
Chegamos ao domingo mais aguardado pelo povo do Pará, o domingo da maior festa religiosa do povo paraense e a maior procissão do mundo: o Círio de Nazaré. São 232 anos de uma devoção e fé que poucos conseguem explicar ou relatar. A grande procissão sai neste domingo, dia 13, da Catedral de Belém com destino à Basílica Santuário, erguida no mesmo local em que a Imagem foi achada em 1700, pelo caboclo Plácido.
Percorre o Centro Histórico de Belém e alguns dos principais monumentos representativos da história da cidade, como o Ver-o-Peso, Estação das Docas, Praça da República, entre outros. São em torno de seis horas, num percurso de 3,600 Km, em que mais de dois milhões de pessoas devem caminhar em oração, devoção e agradecimento. A expectativa deste ano é superar os 2,3 milhões de devotos presentes em 2023.
Antes da procissão ocorre uma missa em Frente à Catedral de Belém, que será celebrada por Dom Alberto Taveira Corrêa, arcebispo metropolitano de Belém, a partir de 6h, e a procissão deve sair a partir das 7h (horário de Belém). A decoração da Berlinda é de Vando Nascimento.
E por que o achado de uma Imagem se transformou em uma das maiores demonstrações de fé da humanidade? Relatos apontam que Plácido encontrara a imagem em uma bifurcação de um taperebazeiro (árvore do taperebá). Ele a levara para sua casa e a colocara em um pequeno altar de miriti, onde estavam um crucifixo e outras imagens de santos de sua devoção. No dia seguinte, a imagem teria sumido. Ao retornar ao local do achado, percebeu que ela se encontrava no mesmo lugar do dia anterior.
O fato repetiu-se durante alguns dias e a notícia do “desaparecimento” se espalhou, provocando a intervenção das autoridades civis e eclesiásticas, fazendo com que fosse levada para o Palácio do Governo, para o Paço Episcopal e à recém-erguida Catedral, de onde ela também sumiu, sendo encontrada no mesmo local de origem. Por conta dos desaparecimentos, Plácido teria entendido que a imagem deveria ficar no local onde fora encontrada e ali construiu uma ermida para abrigá-la. O local do achado é onde hoje se encontra a majestosa Basílica Santuário.
Símbolos
Além disso, ao longo da história, incontáveis são os relatos de graças alcançadas por intercessão de Nossa Senhora de Nazaré. Desde a primeira procissão, em 1793, até hoje, alguns elementos foram incorporados à grande Romaria como:
a Berlinda, carro especial para a condução da Imagem Peregrina, puxado pelos devotos;
a Corda de 400 metros, divididas em 5 estações e dois núcleos;
e os 14 Carros de Promessas.
Com o passar do tempo, também, outras romarias e eventos foram integrados ao calendário oficial que conta, hoje, com 14 romarias. Em 2019 o Traslado dos Carros foi incorporado como procissão oficial, saindo às ruas como tal em 2022, por conta da pandemia. E em 2023 foi instituída a romaria da acessibilidade.
Foto: Rosana Pinto/Ascom DFN
Em 2014, a organização do Círio recebeu, oficialmente, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), o certificado de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
Em 2022, saiu pela primeira vez nas ruas o Carro da Saúde. O novo símbolo foi criado em 2021, para homenagear o padre Santo Antônio Maria Zaccaria, que além de religioso, era também médico e dedicou-se a salvar vidas e, principalmente, um agradecimento aos profissionais de saúde que se dedicaram com tanto empenho no combate à pandemia.
Com a inclusão, a festa passou a ter agora 14 carros. Integram o conjunto de carros do Círio de Nazaré, além da Berlinda: Carro de Plácido, Barca da Guarda Mirim, Barca Nova, Cesto de Promessas, Barca com Velas, Barca Portuguesa, Barca com Remos, Carro Dom Fuas e Carro da Sagrada Família, os quatro Carros dos Anjos, que são conduzidos pela Catequese da Basílica Santuário de Nazaré, e o Carro da Saúde.
O motivo da fé
Atualmente a Imagem Original permanece o ano todo no Glória, na Basílica Santuário, estando próxima dos devotos em maio e outubro, e uma outra Imagem, chamada Peregrina, participa de todas as festividades do Círio. Desde quando a Imagem Original foi entronizada no Glória, outra imagem, pertencente ao Colégio Gentil Bittencourt, passou a substituí-la nas romarias até 1969, quando foi confeccionada a Imagem Peregrina, que até hoje segue nas 14 romarias e visitas oficiais. A imagem possui status de Chefe de Estado, conferido por uma lei estadual paraense.
Este é o Círio de Nazaré, uma manifestação religiosa que representa todo um povo, independente de escolhas ou fé. Representa o povo, a economia, o turismo. A cidade se transforma, as pessoas se transformam. Em todos os cantos só se ouve uma voz: é Círio outra vez. Como explicar mais de dois milhões de pessoas reunidas em procissão, rezando, confraternizando e renovando a esperança em dias melhores!? Não há explicação. Há a vivência.
Neblinaphryne imeri: uma nova espécie de sapo descoberta na Serra do Imeri, no norte da Amazônia. Foto: Antoine Fouquet
No alto de uma montanha no norte da Amazônia, o canto de um sapinho atraiu a atenção dos pesquisadores. Era um canto que eles nunca tinham ouvido antes, num lugar que ninguém nunca havia pesquisado antes — dois fortes indícios de que se tratava de uma espécie nova.
Escutar o bicho era fácil; encontrá-lo no meio da vegetação, nem tanto. Levou quatro dias para os cientistas capturarem o primeiro exemplar, e dois anos para eles definirem cientificamente a sua identidade. Assim como previsto, tratava-se de uma espécie nova, que eles batizaram de Neblinaphryne imeri, em homenagem à cadeia de montanhas na qual ela foi descoberta: a longínqua Serra do Imeri, na fronteira do Amazonas com a Venezuela.
O trabalho que descreve oficialmente a espécie foi publicado em 25 de setembro na revista científica Zootaxa, assinado por um grupo de pesquisadores do Instituto de Biociências (IB) da USP, do Centro de Pesquisas sobre Biodiversidade e Ambiente (CRBE) da França e da Universidade Autônoma de Madri, na Espanha, que participaram de uma expedição pioneira à Serra do Imeri em novembro de 2022.
Os pesquisadores passaram 12 dias acampados no topo de uma montanha vizinha ao Pico do Imeri, a quase 1.900 metros de altitude, coletando a maior diversidade possível de plantas e animais ao redor do acampamento, em uma das regiões mais preservadas e menos conhecidas da Amazônia. Voltaram para casa com mais de 260 espécies de flora e fauna na bagagem; várias das quais são consideradas inéditas para a ciência. O Neblinaphryne imeri é a primeira dessas a ter sua descrição publicada numa revista científica — o que equivale a uma certidão de nascimento da espécie.
Um dos sapinhos coletados na expedição e usados para descrever a nova espécie, batizada de Neblinaphryne imeri. Foto: Leandro Moraes
“Logo que chegamos, ouvimos o canto de um sapinho que era claramente novo, pelo menos para nós. E desde os primeiros momentos tentamos encontrar o emissor daquele canto; mas foi difícil porque essa espécie é superpequena e canta muito bem escondida no musgo”, conta o biólogo Antoine Fouquet, pesquisador do CRBE e colaborador de longa data da equipe do IB, onde fez pós-doutorado em 2010-2011. Foi ele, ao lado do colega Leandro Moraes, do IB, quem coletou o primeiro exemplar da nova espécie no Imeri.
Para encontrar o bichinho em meio a um emaranhado de musgos e raízes foi preciso usar a técnica de playback, em que o pesquisador grava o canto do animal e toca de volta para ele, na expectativa de atraí-lo para perto ou fazer com que ele se mova, revelando sua localização. “Eu fui atrás de um cantor, comecei a cavar com o Leandro, e depois de alguns minutos fazendo playback um bicho pulou, quando estávamos quase desistindo”, relatou Fouquet, em entrevista ao Jornal da USP.
Paisagem da Serra do Imeri, com o acampamento da expedição e o Pico do Imeri ao fundo. Foto: Herton Escobar/USP Imagens
Nos dias seguintes, a equipe capturou outros nove exemplares da espécie (sete machos e três fêmeas no total), com 1,5 a 2 centímetros de comprimento cada um. O Neblinaphryne imeri é predominantemente marrom, com pintinhas brancas e algumas manchas amarelas espalhadas pelo corpo — principalmente na porção ventral. As fêmeas são um pouco maiores do que os machos, que cantam predominantemente ao amanhecer e ao entardecer. Alguns exemplares foram encontrados em áreas de floresta, entocados no musgo; enquanto outros estavam em áreas abertas, escondidos na vegetação ou entre folhas de bromélias.
O exemplar que serviu de modelo para a descrição da espécie (conhecido como holótipo) foi um macho de 1,6 centímetro, coletado em 16 de novembro de 2022, a 1.800 metros de altitude — detectado enquanto cantava na entrada de uma toca de tarântula. (O animal escolhido como holótipo não é necessariamente o primeiro a ser coletado, mas o que tem o melhor conjunto de informações associadas a ele, como gravações do canto, fotografias na natureza, localização exata do ponto de coleta e amostras de tecido.)
Todos os animais coletados na expedição estão depositados nas coleções biológicas do Museu de Zoologia da USP.
Parentesco inesperado
Desde o início, os pesquisadores perceberam que se tratava de uma espécie inédita, mas não sabiam a qual linhagem ela pertenceria — ou seja, em qual braço da árvore genealógica dos anfíbios ela se encaixava. A hipótese preliminar, baseada numa avaliação visual dos animais em campo, era de que seria uma nova espécie de Adelophryne, um gênero de sapinhos que ocorrem tanto nas terras baixas quanto no alto dessas formações montanhosas do norte da Amazônia, conhecidas como tepuis. Análises moleculares (de DNA) e morfológicas mais detalhadas, porém, apontaram uma outra direção.
Para a surpresa dos pesquisadores, os dados indicaram que a parente mais próxima dos novos sapinhos era a Neblinaphryne mayeri, uma outra espécie que o mesmo grupo de cientistas havia descoberto em 2017 numa expedição ao Pico da Neblina — a montanha mais alta do Brasil, que fica 80 quilômetros a oeste do Pico do Imeri. Por isso a nova espécie foi batizada de Neblinaphryne imeri. (No caso do Neblinaphryne mayeri, o nome da espécie é uma homenagem ao general Sinclair Mayer, do Exército Brasileiro, que foi fundamental para a realização das expedições.)
“O mais incrível é que as duas espécies são muito diferentes morfologicamente. Jamais imaginamos que elas seriam irmãs”, relata o herpetólogo Miguel Trefaut Rodrigues, professor emérito do IB e mentor das duas expedições — ao Pico da Neblina e à Serra do Imeri. “Você vê que a morfologia externa também engana, muitas vezes”.
Foi só com a análise das características genéticas e osteológicas, obtidas por meio de uma tomografia computadorizada do esqueleto, que os pesquisadores puderam enxergar as semelhanças internas por baixo das diferenças externas, que revelaram o parentesco inesperado.
Hoje, as partes mais elevadas dos maciços da Neblina e do Imeri são separadas por 20 quilômetros de terras baixas, que funcionam como uma barreira à dispersão desses animais entre um e outro grupo de montanhas. Em outras palavras: as espécies estão completamente isoladas uma da outra, apesar da distância geográfica entre elas não ser tão grande assim — especialmente para os padrões amazônicos.
Espécies irmãs: Neblinaphryne imeri e Neblinaphryne mayeri são linhagens que divergiram de um ancestral comum, ocupando grupos de montanhas distintas no norte da Amazônia. Foto: Reprodução/USP
Um mundo à parte
O conjunto desses ecossistemas de altitude do norte da Amazônia é conhecido como Pantepui. Sua marca registrada são as imponentes montanhas de topo plano e paredões desnudos, como o Monte Roraima e o próprio maciço do Pico da Neblina, que inspiraram a história de O Mundo Perdido, de Arthur Conan Doyle.
Do ponto de vista evolutivo, é como se o Pantepui fosse um bioma à parte da Amazônia, pairando sobre as terras baixas da floresta. As condições ambientais no alto dessas montanhas são diferentes das que existem abaixo delas, principalmente em função da temperatura; e as espécies que se adaptaram a viver na altitude dificilmente descem para as áreas mais baixas e quentes do bioma. Nesse sentido, é como se essas montanhas fossem arquipélagos em um oceano de floresta, que é intransponível para a maioria das plantas e bichos que vivem em suas “ilhas”.
Por isso os cientistas suspeitam que as duas espécies de Neblinaphryne sejam endêmicas (exclusivas) de seus respectivos maciços. As evidências genéticas sugerem que elas se originaram de um ancestral comum que viveu naquela região 55 milhões de anos atrás, quando as montanhas do Neblina e do Imeri provavelmente estavam conectadas. À medida que a paisagem foi se transformando e os maciços foram se isolando uns dos outros pela erosão (em função de processos climáticos e geológicos), cada população de sapinho foi também se distanciando e se diferenciando uma da outra, ao ponto de se tornarem espécies diferentes. “Nós estamos ainda em um fase muito inicial de tentar reconstruir essa história; que, por ser muito antiga, é muito complexa”, diz Rodrigues.
Os maciços do Pico do Imeri e do Pico da Neblina ficam no norte do Amazonas, dentro de duas áreas protegidas: a Terra Indígena Yanomami e o Parque Nacional do Pico da Neblina. Imagem: Reprodução/Jornal da USP
Até onde os pesquisadores puderam averiguar, a espécie do Pico da Neblina vive em áreas de vegetação aberta acima de 2 mil metros de altitude e se abriga, principalmente, debaixo de pedras; enquanto que a espécie da Serra do Imeri vive entre 1.700 e 2 mil metros de altitude, ocupando tanto áreas de floresta quanto de vegetação aberta. A necessidade de adaptação a essas condicionantes ambientais distintas, segundo os cientistas, poderia explicar porque as espécies divergiram tanto em sua morfologia externa. Os cantos de cada uma também são completamente distintos.
“Essas regiões altas tem uma configuração de ilhas e, tipicamente, cada ilha tem espécies endêmicas por causa do isolamento”, explica Fouquet. Segundo ele, o Pantepui abriga pelo menos 11 gêneros de anfíbios endêmicos ou subendêmicos, que não descem — ou muito raramente descem — abaixo de 1 mil metros de altitude. “Esses gêneros evoluíram em isolamento durante dezenas de milhões de anos; então o Sir Arthur Conan Doyle não estava tão fora da realidade quando escreveu O Mundo Perdido, imaginando dinossauros e pterodáctilos no topo dos tepuis.”
Peças do quebra-cabeça
Os cientistas ainda têm outras quatro espécies novas de anfíbios e três de lagartos do Imeri para descrever, pelo menos. “Esse é o primeiro de vários artigos e a primeira de várias espécies”, diz o professor Taran Grant, especialista em anfíbios do IB-USP, que também participou da expedição à Serra do Imeri e assina o trabalho na Zootaxa.
Descobrir, descrever e estudar a história de vida de novas espécies é uma das tarefas mais básicas e mais importantes para a compreensão e a conservação da biodiversidade. “A primeira pergunta que todo mundo faz para nós é: Quantas espécies vocês descobriram lá na Serra do Imeri? Então essa é a primeira pergunta que a gente tem que responder”, pondera Grant. “Bem ou mal, todos os esforços e iniciativas de conservação são baseados em diversidade de espécies.”
Tanto a Serra do Imeri quanto o Pico da Neblina já estão dentro de áreas protegidas — a Terra Indígena Yanomami e o Parque Nacional do Pico da Neblina — que não estão sob pressão direta de desmatamento naquela região, pelo menos por enquanto. Mas as mudanças climáticas, impulsionadas pelo aquecimento global, ameaçam a biodiversidade de todo o bioma, e são especialmente problemáticas para essas espécies de altitude, que são adaptadas a temperaturas mais amenas e não têm para onde correr em caso de aquecimento
Pesquisar e proteger essas espécies, portanto, é fundamental tanto para entender o passado quanto para resguardar o futuro da biodiversidade amazônica. “Estamos conhecendo uma parte do planeta que era completamente desconhecida, do ponto de vista da ciência, e isso acaba preenchendo lacunas extremamente importantes na história da vida do planeta, da América do Sul e da Amazônia, como se fossem peças de um quebra-cabeça”, explica Rodrigues. “Veja só; nós descobrirmos uma linhagem que a gente nem sabia que existia, com 55 milhões de anos de idade, e isso pode nos contar uma história sobre o nosso continente muito mais antiga do que a gente imaginava.”
Descrever as espécies é apenas o primeiro passo desse processo. Os cientistas ainda planejam aprofundar as pesquisas genéticas e os estudos comparativos para entender melhor as relações de parentesco e a história evolutiva dessas linhagens.
O Jornal da USP acompanhou os pesquisadores na Serra do Imeri em 2022 e produziu reportagens em texto e vídeo sobre a expedição, que podem ser vistas aqui e aqui. O projeto foi realizado com apoio do Exército Brasileiro e do programa Biota da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Também assinam o trabalho na Zootaxa os pesquisadores Renato Recoder, Agustín Camacho, José Mário Ghellere e Alexandre Barutel.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, escrito por Herton Escobar