Há milhares de anos, o milho é parte fundamental da alimentação de muitas culturas indígenas das Américas. No Brasil, receitas e bebidas feitas com o cereal, como o preparado levemente alcoólico chamado de cauim pelos povos Tupi, fazem parte da dieta amazônica e são usadas em rituais. Algumas etnias indígenas brasileiras, como os Guarani Mbya, o consideram sagrado. É o grão mais produzido em escala mundial, em grande parte como alimento na pecuária e com presença notável na alimentação humana. Essa relevância faz com que arqueólogos e geneticistas hoje investiguem a origem, a dispersão e os processos de domesticação por quais o milho passou desde a origem da agricultura nas Américas.
Novas interpretações publicadas no dia 4 de setembro na revista Science Advances mostraram as similaridades entre amostras arqueológicas do milho e raças cultivadas atualmente por indígenas e agricultores tradicionais brasileiros. Os autores defendem que o milho chegou há 6 mil anos no sudoeste da Amazônia, a partir de sua origem no México, 9 mil anos atrás, de forma apenas parcialmente domesticada e, depois, passou por diferentes etapas de seleção e diversificação em regiões como o Centro-Oeste, Sul e Sudeste do país.
Isso não significa que a domesticação inicial se tenha completado na Amazônia. Amostras de milho encontradas em Minas Gerais com datas entre 570 e 1010 anos antes do presente têm características compatíveis com o primeiro milho plantado nas Américas. Atualmente, existem cerca de 300 raças de milho no continente americano. Delas, 15 são brasileiras, divididas em 19 sub-raças, das quais quatro são nativas, associadas aos indígenas, e são chamadas de Entrelaçado, Caingang, Avati Moroti e Lenha.
Os pesquisadores analisaram a morfologia e o DNA de 282 espigas fragmentadas, duas inteiras e 12 grãos de milho antigos encontrados nos anos 1990 por uma equipe do Museu de História Natural da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) coordenada pelo arqueólogo francês André Prous no vale do Peruaçu, no norte do estado. A curadoria do material hoje está a cargo do engenheiro-agrônomo e geneticista Fábio de Oliveira Freitas, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília, um dos autores do artigo.
“É uma quantidade grande de material encontrado naqueles sítios arqueológicos, ainda mais considerando o alto potencial de degradação devido às condições tropicais do país. A preservação ocorreu porque os milhos estavam em cavernas e foram enterrados dentro de cestos”, diz a geneticista Flaviane Costa, pesquisadora em estágio de pós-doutorado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) e primeira autora do artigo.
Ela fez as análises no âmbito de projetos coordenados pelas geneticistas Elizabeth Ann Veasey, sua orientadora no doutorado, e Maria Imaculada Zucchi, supervisora atual.
O teosinto, como essas amostras da Universidade Harvard, corresponde à forma ancestral do milho. Foto: Flaviane Costa/USP
Todos os exemplares tinham o que os biólogos chamam de endosperma farináceo: uma grande parte do corpo do grão, onde os nutrientes ficam armazenados, era opaca. Outras versões, mais transparentes, são classificadas como vítreas. As amostras arqueológicas foram comparadas às variantes de milho com endosperma farináceo, cultivadas atualmente por povos indígenas e agricultores tradicionais brasileiros, e com o teosinto, uma planta silvestre aparentada ao milho e considerada semelhante à sua forma ancestral. Os exemplares de teosinto estão armazenados no Museu de Arqueologia e Etnologia de Peabody, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. As informações de milho moderno foram obtidas em coleções da USP e da Universidade da República, no Uruguai.
As amostras arqueológicas são espigas cônicas com quatro a 40 grãos em cada uma de quatro a 18 fileiras. Essa configuração tem semelhanças com o teosinto moderno, cujas espigas cilíndricas têm entre duas e oito fileiras, com número de grãos que varia entre seis e 27 em cada uma. Eles definiram, com base nesses números, que um bom parâmetro para classificar as variantes primitivas de milho, ou seja, as anteriores ou mais basais do processo de domesticação, seria um número de fileiras inferior a oito, porque nenhuma raça moderna do cereal nas chamadas terras baixas da América do Sul se enquadra nesse critério – normalmente, essas raças sul-americanas exibem cerca de 12 fileiras, mas podem chegar a até 26. Entre as amostras de teosinto, 95% tinham menos de oito fileiras.
Milho arqueológico encontrado em Minas Gerais preserva características antigas. Foto: Fábio de Oliveira Freitas/Embrapa
Os geneticistas encontraram, em meio às 282 amostras do vale do Peruaçu, 14 exemplares arqueológicos com quatro ou seis fileiras, apesar de a domesticação do cereal ter se iniciado há 9 mil anos no México e há 5 mil anos na Amazônia ocidental. “Isso é algo completamente novo”, diz o arqueólogo Tiago Hermenegildo, pesquisador em estágio de pós-doutorado no Instituto Max Planck de Geoantropologia, na Alemanha, também vinculado ao Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP. Ele faz pesquisa arqueológica com milho na Amazônia, mas não participou do estudo. O traço é peculiar porque, em tese, o longo processo de domesticação, marcado pelo aumento das fileiras de grãos, deveria ter eliminado essas características.
A novidade, ao lado de dados comparativos levantados pelos autores, indica que o milho ainda não estava completamente domesticado quando chegou ao Brasil. “O artigo é disruptivo porque, até 2018, se pensava que toda a domesticação do milho havia ocorrido no México”, afirma Costa. “Havia um imenso vazio de dados para as terras baixas da América do Sul, que são as regiões do continente abaixo de 1.500 metros de altitude”.
Um estudo de 2018 tinha mapeado o genoma completo de diversas variedades de milho na América do Sul e verificado uma variação nos genes associados à domesticação do milho. Quando o processo está completo, espera-se que formas genéticas (alelos) que aumentam o número de grãos, por exemplo, se tornem as únicas existentes – ou fixadas, no jargão geneticista. “Agora mostramos exemplares arqueológicos de milho encontrados no Brasil com características primitivas, o que corrobora esses trabalhos anteriores”, afirma a pesquisadora da Esalq.
Ainda não há consenso. “O que os estudos genéticos afirmam é que no início da domesticação, no México, o milho tinha uma troca de genes muito mais intensa com as variantes silvestres”, diz Hermenegildo. “Quando chega ao Brasil, essa troca já não ocorre, apesar de ainda haver fluxo gênico com outras variedades, em um processo de domesticação secundária, e isso é reforçado pelo novo trabalho”.
Migração no continente
O grupo de Costa também buscou traçar a rota de migração do milho no continente. Para isso, identificou similaridades entre os grupos existentes e os exemplares comparados às amostras arqueológicas de milho das raças Entrelaçado, Caingang, Avati Moroti e Lenha, além de resultados sobre as mesmas raças publicados em outros artigos. Foi assim que descobriram que exemplares locais de Entrelaçado da Amazônia ocidental se aproximavam das amostras arqueológicas encontradas no Cerrado e na Caatinga.
Pinturas rupestres em cavernas do Peruaçu indicam que milho e buriti faziam parte da vida dos povos que habitavam a região. Foto: Fábio de Oliveira Freitas/Embrapa
O milho Avati Moroti está presente em várias partes do Brasil. Exemplares dessa raça encontrados no Cerrado mostraram proximidade com uma amostra da Mata Atlântica e outras descritas na literatura científica. Enquanto isso, outro subgrupo da mesma raça foi identificado mais ao Sul, na região do Pampa. Variedades locais dos milhos Caingang e Lenha também existem no Pampa e na Mata Atlântica.
Isso tudo ajudou os pesquisadores a propor um caminho de migração do cereal. Para eles, o milho foi trazido ao Brasil por migrações à Amazônia ocidental, de onde foi levado para as regiões de Caatinga e Cerrado, no Centro-Oeste e Nordeste. Ao mesmo tempo, outras ondas de migração também transportaram o grão para as regiões de Mata Atlântica, sobretudo no Sudeste, e ao Pampa, no Sul do Brasil.
“A comunidade científica conhece esses milhos nativos desde 1958, mas ninguém na arqueologia deu atenção até os anos recentes”, destaca Hermenegildo. “Essas evidências atuais sobre o vegetal chegaram a ser completamente ignoradas por décadas de pesquisas arqueológicas na Amazônia; o trabalho é fundamental nesse sentido”.
Ao pôr em evidência a resiliência das características primitivas do milho, o trabalho também tem impacto para as políticas de preservação e manejo atuais. Para Costa, a presença ao longo de milênios de variedades exclusivamente sul-americanas reforça a necessidade de políticas públicas e acordos internacionais para a conservação dessas raças nativas. A falta dessas políticas pode levar ao risco de extinção das variedades locais e raças nativas que ainda existem. “O trabalho valoriza o plantio realizado por populações tradicionais e indígenas”.
Para Hermenegildo, isso é importante porque muitos tipos de milho plantados pelos povos indígenas foram extintos junto com seus agricultores. “Foi uma verdadeira erosão cultural e genética, desde os tempos da colonização”.
Projeto
Genômica populacional e caracterização fenotípica para elucidar aspectos da origem, domesticação e dispersão do urucum (Bixa orellana) e milho (Zea mays) nas terras baixas da América do Sul (nº 15/26837-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisadora Responsável Elizabeth Ann Veasey (USP); Investimento R$ 192.720,56.
Pelo menos 518 pessoas viviam em residências improvisadas no Acre em 2022, segundo dados do Censo divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no início de setembro. De acordo com o levantamento, eram 275 homens e 243 mulheres nessa situação naquele ano, e a taxa de alfabetização nesse público era de 87,6%.
A maior parte desta população, segundo o Censo 2022, vive em estabelecimentos em funcionamento. Eram 232 pessoas neste tipo de moradia.
Logo depois, vêm as tendas ou barracas (de lona, plástico ou tecido), com 141 pessoas, estruturas não residenciais permanentes degradadas ou inacabadas, com 79 pessoas, outros domicílios improvisados, com 43 pessoas.
Também há 22 pessoas em estruturas improvisadas em logradouro público (exceto tenda ou barraca), sendo 15 homens e 7 mulheres, além de 1 pessoa que vive em veículo (carros, caminhões, trailers, barcos, etc).
O total de pessoas em moradias improvisadas no Acre representa 0,32% do montante registrado no país, que foi de 160 mil.
Déficit habitacional
Em julho, ao anunciar mais 110 unidades do programa Minha Casa, Minha Vida, o secretário estadual de Habitação e Urbanismo, Egleuson Santiago, destacou que o Acre tem um déficit habitacional de 23,9 mil unidades.
À época, o Ministério das Cidades destinou a nova remessa que, segundo o governo do Acre, será construída em municípios de até 50 mil habitantes, o que abrange 20 cidades do interior do estado.
Ao todo, o estado já teve quase 2 mil unidades destinadas pelo programa do governo federal. Com a autorização, a Secretaria de Estado de Habitação e Urbanismo do Acre (Sehurb) pode definir os locais onde os projetos serão construídos, e apresentar as propostas ao governo federal.
Em novembro de 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já havia divulgado que seriam destinadas 1,6 mil unidades ao estado distribuídas entre três municípios: 1,4 mil em Rio Branco, além de 100 em Xapuri e mais 100 em Cruzeiro do Sul. A atualização não especifica, porém, a distribuição desta nova remessa entre as cidades.
O epidemiologista e pesquisador da Fiocruz Amazônia, Jesem Orellana, recebeu homenagem na Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (ALEAM) pela contribuição dada para a compreensão e enfrentamento do fenômeno do suicídio, em suas diversas nuances, por meio de pesquisas, palestras e artigos científicos, realizados ao longo de sua trajetória como pesquisador e chefe do Laboratorio de Modelagem em Geoprocessamento e Epidemiologia (Legepi), da Fiocruz Amazônia.
A entrega do diploma de reconhecimento, realizada em sessão especial em alusão ao ‘Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio’ (10/09), ocorreu no dia 11, por propositura do deputado estadual Jose Luiz, presidente da Frente Parlamentar de Cuidados e Prevenção à Depressão, Suicídio e Drogas do Poder Legislativo e Comissão de Prevenção à Depressão e Drogas da União dos Legisladores e Legislativos Estaduais (Unale).
“Fiquei feliz e motivado com o honroso reconhecimento, pois reflete parte do nosso empenho de aproximadamente 12 anos investigando o suicídio no Amazonas e em nível nacional. É realmente gratificante saber que, de alguma maneira, a Fiocruz Amazônia está contribuindo para a compreensão e enfrentamento de tão complexo problema de saúde pública”, destacou Orellana, em seu pronunciamento na ALE- AM.
Para o pesquisador, o ‘Setembro Amarelo’ é, sem dúvida, um período do ano que passou a fazer parte do cotidiano do brasileiro na luta contra o suicídio. “No entanto, sabemos que precisamos ir além, não apenas com ações estruturantes no campo da saúde mental e do bem-estar da população, mas também com reflexões sobre a necessidade de mais ações individuais oportunas, empáticas e acolhedoras com as pessoas que estão em sofrimento, seja ele discreto ou mais nítido”, comentou.
Foto: Divulgação/ALE-AM
Num recado direto às autoridades e ao público presente, Jesem Orellana salientou que o primeiro e mais importante ponto em relação ao suicídio é que se trata de uma causa de morte evitável, sobretudo em adolescentes e adultos jovens.
“No Brasil, em particular, o suicídio tem apresentado preocupante tendência de aumento nos últimos anos, tanto na população geral, como em indígenas. Para se ter uma ideia, somente entre 2020 e 2023 foram registrados cerca de 62 mil suicídios no Brasil, em maiores de nove anos, um número 50% maior do que o total de Palestinos mortos no desleal conflito com Israel”, informou.
E continuou: “Em 2022, o Brasil alcançou a sua maior taxa histórica de mortalidade por suicídio em maiores de nove anos (9,3 por 100 mil hab.), o que evidencia a necessidade de mais progressos em termos de políticas públicas ao seu enfrentamento e prevenção, sendo o risco de suicídio entre indígenas no Amazonas, por exemplo, um dos mais desafiadores das Américas”, observou, em consonância com as falas dos especialistas, parlamentares e a titular da Secretaria Estadual de Saúde, Nayara Maksoud, presente à solenidade.
“Esse evento serviu não apenas para reunir e evidenciar o esforço e o compromisso de diferentes atores no que tange à prevenção do suicídio no Amazonas, como também para quem sabe germinar uma agenda multisetorial e favorável à rede de atenção psicossocial no Estado, como destacado pelo Deputado João Luiz e pela Secretária de Saúde do Amazonas, Nayara Maksoud”, agradeceu Orellana.
Pesquisas
Jesem Orellana é pesquisador e epidemiologista da Fiocruz Amazônia, membro da Coordenação colegiada da Comissão de Epidemiologia da Abrasco e coordena o Laboratório de Modelagem em Estatística, Geoprocessamento e Epidemiologia (Legepi).
Colabora em projetos relacionados à COVID-19, à saúde e nutrição de populações vulneráveis, suicídio e outros tipos de violências e projetos relacionados aos efeitos negativos da emergência climática sobre a saúde humana.
Além de suas contribuições acadêmicas, Orellana presta consultorias técnico-científicas à imprensa, sociedade civil organizada e órgãos de controle como o Ministério Público e Defensoria Pública, bem como legisladores de diferentes níveis.
A viola de cocho considerada patrimônio cultural, e a canoa de um pau só, são bem conhecidas por Lourenço Pereira. Pescador de terceira geração na região do Pantanal, fala do rio como se fosse um filho a quem destina todo o cuidado e agradece a ele pelas conquistas da vida. É a natureza que permite a vida de Lourenço e é com ela que ele aprende a trabalhar. Os últimos anos, no entanto, têm revelado uma série de complicações a essa relação.
“A pesca vem mudando muito, a cada dia que passa”, relata Lourenço, preocupado com o nível do rio cada vez mais baixo que leva o peixe até a fronteira do Mato Grosso com o Mato Grosso do Sul. É do município de Cáceres (MT) que o pescador sai para trabalhar, se deslocando agora em torno de 250 km para dar início ao ofício da pesca. Não foi só a distância que aumentou: “Aumentaram muito as horas de navegação. Onde eu fazia com 12h, hoje eu tô fazendo com 18h de barco”. A poluição do corpo de água também preocupa. Impulsionada pelos incêndios cada vez mais recorrentes no Pantanal, torna impróprio para consumo o recurso que mata a sede.
Com 54 anos de vida, Lourenço afirma que nem ele nem seu pai, que viveu até os 98 anos de idade, tinham visto algo como o incêndio de 2020 durante toda essa janela de tempo. “Depois de 2020, nunca mais o incêndio acabou no Pantanal”, lamenta. Além de afetar o modo de vida das comunidades tradicionais, as queimadas recorrentes têm diminuído muito o número de madeira necessário para a produção da viola de cocho e da canoa de um pau só. “Sou apaixonado pela canoa de um pau só, eu tenho isso no sangue, a cultura dos Guató. Meu pai era mestre em fazer canoa de um pau só e viola de cocho. O fogo matou muito as madeiras com as quais a gente faz as canoas. Futuramente a gente vê que vai ter alguma só de foto mesmo. Para dar uma canoa tem que ser uma madeira muito antiga e grossa”, relata.
Viola de cocho, patrimônio cultural do Brasil, cuja matéria-prima é ameaçada pela crise climática. Foto: Reprodução/Iphan
Associado a outros pescadores, Lourenço faz parte de um projeto empenhado em reflorestar áreas do Pantanal com plantas nativas. Em torno de 1500 pescadores se organizam na forma de um “muxirum” – palavra de origem tupi que remete a algo como mutirão ou fazer junto – sem qualquer auxílio financeiro. Cada pescador planta mais ou menos cem mudas, e os que não plantam coletam sementes e cuidam dos canteiros.
O reflorestamento da região é importante tanto do ponto de vista ambiental como de preservação dos patrimônios nacionais originários das comunidades pantaneiras. O que essa associação de pescadores faz é um serviço para o bem estar e preservação da vida da comunidade, do país e do mundo.
Nas últimas décadas, outros bens e localidades históricas tombados pelo Iphan foram impactados por fenômenos extremos, como a cidade de São Luiz do Paraitinga (SP), que teve prédios bicentenários destruídos por um temporal em 2011. No Rio Grande do Sul, 41 museus, 52 centros culturais e 57 bibliotecas foram diretamente afetadas, segundo levantamento do governo do estado junto aos municípios gaúchos.
Na Amazônia, uma das consequências da seca agravada pela crise climática é o aparecimento de sítios arqueológicos antes submersos, o que acarreta na necessidade de salvaguarda dos locais. Segundo a arqueóloga Marjorie Lima, em encontro virtual realizado pelo Iphan no início do ano, a consequência vai além, já que “as pessoas estão mudando seus lugares de vivência, uma alteração elementar na vida das pessoas”, afetando também o patrimônio imaterial.
A superintendente do Iphan no Amazonas, Beatriz Calheiros, também exemplifica os impactos. “[Em 2023], as fumaças encobriram o centro histórico de Manaus (AM), que é um local histórico tombado pelo Iphan, inclusive apresentações artísticas no Teatro Amazonas tiveram seu agendamento impactado”. No Cerrado, a Chapada dos Veadeiros (GO), tombada pela Unesco como Patrimônio Mundial Natural, teve milhares de hectares destruídos em setembro deste ano.
É a partir desse contexto que o Iphan, junto ao Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos-BR), vem promovendo o Ciclo de Diálogos sobre Patrimônio Cultural e Ações Climáticas. O Ciclo é realizado a partir da concepção de que os detentores do patrimônio cultural são aliados fundamentais no enfrentamento às consequências das mudanças climáticas.
As ações estão sendo pensadas para contemplar os principais biomas do Brasil, levando em conta as necessidades do patrimônio cultural de cada região e a forma como as mudanças climáticas se apresentam em cada uma delas. As primeiras reuniões presenciais acerca do programa ocorreram em Brasília e a previsão é que os encontros ocorram em cada bioma brasileiro.
Incêndio na Chapada dos Veadeiros. Foto: Reprodução/CBMGO
O Iphan também está recolhendo informações a partir de um formulário, a fim de abranger e estar a par da situação de patrimônios culturais que não poderá, pois quaisquer motivos, ser comunicada nos eventos presenciais. “O questionário veio para chegar onde nós não estamos chegando. Os fóruns exigem você se deslocar, você ficar dois, três dias em determinado local. Desde o profissional em gestão do patrimônio até o detentor do conhecimento tradicional que está lá na comunidade”, esclarece Luana Campos, Secretária do Icomos-BR.
Entre os objetivos do programa, estão a produção de dados e estudos com a perspectiva de fortalecer políticas públicas e ações de enfrentamento e a análise dos principais riscos que afetam e poderão afetar distintos tipos de bens do patrimônio cultural.
A perspectiva é que o programa colete dados suficientes até a COP30, que vai acontecer em Belém, no Pará, em novembro de 2025. “A gente pede ajuda para que a gente tenha e consiga lançar na COP a Carta do Patrimônio e Mudanças Climáticas. As recomendações, indicadores, todos esses elementos que compõem uma carta do patrimônio como resultado desse trabalho e como um panorama, indicativos do cenário atual e projeções futuras para o patrimônio cultural frente às mudanças climáticas.”
Para ações como a realizada pelos pescadores, junto a Lourenço, no Pantanal, a formulação de políticas públicas que incentivem e reconheçam essas movimentações é fundamental, uma vez que os impactos da crise climática já estão sendo sentidos. Luana entende a pressa de muitos detentores, mas reitera que políticas públicas levam tempo e programas como o Ciclo de Diálogos são importantes para dar início a essas elaborações.
“Esse evento é um primeiro passo de uma jornada para a construção de uma política pública. Até o momento nós não temos tido condições de pensar o patrimônio e as mudanças climáticas; esse evento é pra isso. Primeiro a gente ouve, escreve, sistematiza e vai moldando até ter resultado. Ao longo desse processo, podemos ter algumas soluções mais rápidas? Sim. Mas nosso objetivo é o longo prazo. Tentamos trabalhar com o curto, médio e longo prazo.”
O exemplo de resultado a curto prazo dado por Luana é do diálogo estabelecido com a Defesa Civil em um dos eventos presenciais em Brasília. “A Defesa Civil está neste momento revendo o plano nacional de diretrizes da defesa civil. A partir desse evento que nós promovemos em Brasília, nós incentivamos o grupo a introduzir a cultura, o patrimônio. Se não tivesse tido o evento, talvez isso não teria acontecido de forma mais lógica.”
“Patrimônio Cultural e Ações Climáticas”, evento paralelo do G20 realizado em maio pelo MinC. Foto: Filipe Araújo/MinC
Esta é uma das ações que o Ministério da Cultura tem realizado para integrar o setor cultural nas discussões sobre a crise climática. Na Cop28, em Dubai, o Brasil e o país sede coordenaram juntos o lançamento do Grupo de Amigos da Ação Climática Baseada na Cultura, uma coalizão de ministros da Cultura. O debate, contudo, não teve avanços significativos e ainda não há informação sobre uma nova reunião na Cop29, que será realizada no Azerbaijão em dezembro. Outras reuniões sobre o tema têm sido realizadas na programação paralela do G20, já que o Brasil sedia os encontros do grupo em 2024. A expectativa é que a questão do clima e da cultura seja mencionada no documento final do G20, que será apresentado em novembro, em Salvador.
Os maiores debates sobre a relação entre clima e cultura têm sido realizados por organizações da sociedade civil e ativistas da área. Um exemplo é a Rede Clima & Cultura em Foco, uma iniciativa do People’s Palace Projects do Brasil, em parceria com o Perifalab, que promove uma série de encontros sobre o tema. Para Marcele Oliveira, Diretora da PerifaLab, uma mudança na legislação que inclua a sustentabilidade no âmbito da política cultural pode fazer a diferença. “Através da cultura, a gente pode conscientizar massivamente as pessoas”.
⅙ dos bens culturais mundiais estão ameaçadas pela crise climática, diz Unesco
A crise climática impacta o patrimônio cultural em todos os continentes. Segundo Marlova Jovchelovitch, diretora da Unesco no Brasil, pelo menos ⅙ dos patrimônios culturais estão ameaçados pelas mudanças climáticas. O levantamento, divulgado pelo órgão durante o lançamento da missão emergencial da Unesco no Rio Grande do Sul, em julho deste ano, também revelou que ⅓ dos sítios arqueológicos estão em áreas de potencial risco.
Para a gestora, não há mais como separar a cultura das discussões sobre o clima. Nos últimos anos, as demandas por fundos emergenciais após desastres, como as enchentes no Rio Grande do Sul, têm aumentado com o passar do anos. No sul do Brasil, a missão foi formada por especialistas em gestão de crise, resgate e recuperação de acervos, que coletaram dados e informações para embasar um diagnóstico das necessidades pós-enchente e recomendações técnicas para os mais de 50 museus afetados na tragédia. Ações semelhantes foram realizadas após desastres no Haiti, no Nepal, na Namíbia e no Paquistão nos últimos anos.
O socorrista cultural guatemalense Samuel Franco Arce foi um dos profissionais que visitaram o Rio Grande do Sul em julho. Especializado em emergências, ele explica que a velocidade das mudanças climáticas exige novos protocolos de museus e instituições culturais, de modo geral. “É importante considerar o que as mudanças climáticas estão fazendo com o Patrimônio Cultural. Nós estamos começando a ver o impacto em sítios arqueológicos que estão sofrendo erosão, por exemplo. Alguns patrimônios são mais vulneráveis que outros, mas precisamos nos preocupar, porque nossos bens culturais serão afetados de forma mais rápida do que vimos nos passado”, explica o especialista que já atuou em um terremoto no Nepal, em 2015, e enchentes na Índia, em 2022.
Entre as mudanças práticas que serão necessárias para emergências futuras, Samuel explica que os museus vão precisar repensar a localização de seus acervos, pois, assim como no Brasil, em diferentes partes do mundo constrói-se acervos no subsolo das instituições culturais. Um prédio anexo, em lugar diferente do museu, pode ser uma saída possível para a preservação.
Outra solução é o deslocamento das soluções para andares superiores. “Um procedimento que recomendamos é que arquivos como fotografias e documentos estejam salvos na nuvem e também em mais de um prédio, pois às vezes as pessoas guardam três backups em um mesmo lugar e, se um incêndio acontece, tudo será perdido”, exemplifica.
Para atuar como socorrista cultural, Samuel explica que são necessários treinamentos de diversos tipos: com bombeiros, com as forças armadas, com os primeiros socorros. “Você precisa enxergar de forma global, não apenas com olhar de um restaurador de acervos e obras de arte”, explica. “Em caso de enchentes, nós fazemos uma espécie de triagem e diagnóstico, percebendo o que pode ser restaurado e o que foi perdido.”
Andrea Richards, arqueóloga caribenha, ressalta que a diversidade cultural precisa ser considerada em situações de tragédias climáticas. A especialista atua, em especial, na preservação de patrimônios culturais pós-enchentes e pós-ciclones nas regiões do Caribe, onde há ocorrência periódica de furacões, e no Sudeste do continente africano. “Quando trabalhamos na reconstrução do patrimônio cultural, é importante pensar na diversidade cultural”, explica. “Para mim, vindo do Caribe, a diversidade é essencial, porque somos uma mistura de diferentes raças, e vejo o mesmo no Brasil.”
“Quando o trabalho de restauro é feito, é importante se assegurar de que não é apenas um tipo de patrimônio que está sendo recuperado. Precisamos considerar as diversas vozes que se expressam através do patrimônio”, explica Andrea sobre sua experiência atuando em diferentes países, como Malawi, Dominica e Antigua. A visita ao Rio Grande do Sul foi sua primeira experiência de missão emergencial no Brasil. No Brasil, além dos museus do RS, apenas o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, foi contemplado com esse programa da Unesco nas últimas décadas.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Nonada Jornalismo, por Pedro Tubiana e Anna Ortega
No fim dos anos 1970, para acompanhar a futura mulher, Vera Maria Fonseca de Almeida, o biólogo paulista Adalberto Luis Val mudou-se de São Carlos, no interior paulista, para Manaus, capital do Amazonas. Logo ficou fascinado pela diversidade e pelos mecanismos de adaptação biológica dos peixes da Amazônia. Por ali vivem cerca de 3 mil espécies, desde os minúsculos Priocharax manus, de 15 milímetros, até o pirarucu (Arapaima gigas), com 3 metros de comprimento.
Aos poucos, com o grupo que criou no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Val identificou os insuspeitos mecanismos fisiológicos e bioquímicos de várias espécies, especialmente do tambaqui (Colossoma macropomum), que capta o ar com os lábios na superfície da coluna-d’água, e do pirarucu, que tem uma bexiga natatória modificada, com a qual absorve oxigênio do ar quando emerge à superfície.
Nos últimos anos, diante das mudanças na região, como a expansão populacional, a poluição e o desmatamento, agravadas pelo aquecimento global, ele começou a ver se os peixes poderiam sobreviver a outra reviravolta ambiental, como as que passaram ao longo de milhões de anos. Descobriu que algumas espécies são mais resistentes que outras, mas de modo geral os organismos aquáticos são bastante sensíveis a variações de temperatura. Essa descoberta explica a mortandade de peixes e botos na seca que atingiu a Amazônia em 2023, quando a água chegou a 40,9 graus Celsius (ºC).
Val e Vera têm dois filhos, Fernando e Pedro, também pesquisadores. Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Adaptações da Biota Aquática da Amazônia (INCT-Adapta), membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e ganhador do Prêmio Fundação Bunge na categoria Vida e Obra em 2023, ele conversou em junho com Pesquisa FAPESP.
Por que resolveu estudar os peixes da Amazônia?
Adalberto Val: Para responder, tenho de voltar à minha infância. Nasci e fui criado em uma fazenda em Campinas, no interior de São Paulo. Um dos passatempos do fim de semana era pescar em uma lagoa. Havia poucas espécies de peixes nela, basicamente tilápia e lambari. De tanto ir lá, fiquei curioso para saber como os peixes viviam embaixo d’água. Um dia, peguei uns peixes com uma peneira, coloquei numa garrafa de boca larga, tampei e levei para casa. No início, eles nadaram, mas no dia seguinte estavam todos mortos. Eu devia ter 12 anos. Fiquei muito chateado e decidi: quero aprender mais sobre peixes. Precisava entender como é que eles conseguiam viver debaixo da água.
E o que fez?
Adalberto Val: Enchi a paciência do meu pai, que acabou me dando algumas revistas sobre peixes. Quando fui para o ciclo intermediário [atual ensino médio], resolvi fazer um curso técnico de bioquímica. Ao final dele, mudei para São Carlos, fiz um concurso para técnico e fui contratado pela Universidade Federal de São Carlos [UFSCar] para trabalhar com um pesquisador que estudava sangue de peixe. Era um bom começo, mas ainda precisava fazer um curso superior. Escolhi biologia. Nesse período, namorava Vera, também de Campinas, que estava terminando o mestrado e tinha sido convidada para trabalhar no Inpa, em Manaus.
Eu estava no fim da graduação. Vera foi visitar o Inpa e fui junto. Lembro que fiquei fascinado ao ver uma enorme coleção de peixes. Em um mercado de Manaus, encontrei muitas espécies, bem maiores do que as que via em São Paulo. Daí, tomei uma decisão: é aqui que eu quero viver. Viemos os dois para Manaus. Fiz o mestrado no Inpa e depois fui contratado pelo instituto. Isso foi no início dos anos 1980.
O que mais chamou a sua atenção quando chegou a Manaus?
Adalberto Val: De pronto, percebi que a Amazônia é um ambiente extremamente dinâmico. Os rios e lagos sofrem intensas variações do nível da água, da temperatura e de oxigênio dissolvido. Há ainda os rios de águas ácidas como o Negro. A primeira pergunta que me fiz foi como os peixes enfrentam essas oscilações. Também me intrigou a diversidade de peixes na Amazônia, perto de 3 mil espécies, enquanto na fazenda de Campinas tinha apenas duas ou três.
No mestrado, estudei as duas espécies de jaraqui [Semaprochilodus insignis e S. taeniurus], peixes de características peculiares. Na época da reprodução, eles migram mais ou menos 1,6 mil quilômetros, do alto rio Negro até o encontro das águas com o Solimões. Quando nascem, os peixinhos são arrastados rio abaixo e se dispersam pelas várzeas. Ainda pequenos, começam a nadar de volta, entram no rio Negro e migram em direção à cabeceira. Isso me intrigou demais.
Como é que o peixe poderia saber que estava migrando para a água branca do Solimões e, depois, para a água preta do Negro?
Adalberto Val: Minha tristeza foi terminar a dissertação de mestrado e não conseguir as respostas para minhas perguntas principais – aquelas que eu formulara aos 12 anos e as que desenhara ao chegar na Amazônia. Agreguei outras e, assim, dediquei a vida a estudar os peixes da Amazônia. Faz 45 anos que estou aqui. Ao longo do tempo, os peixes da região desenvolveram respostas morfológicas para se adequar às mudanças do ambiente
Que espécie estudou no doutorado?
Adalberto Val: O tambaqui [Colossoma macropomum], que ainda hoje é o nosso modelo de estudo. Estudei as hemoglobinas do tambaqui. Meu orientador foi o professor Arno Rudi Schwantes [1939-2014], da UFSCar, o mesmo do mestrado, que era credenciado como professor colaborador no Inpa. Nesse período, comecei a interagir com dois pesquisadores estrangeiros que tiveram um papel importante na minha carreira. O primeiro foi Grant Bartlett, do Laboratório de Bioquímica Comparada, da Universidade da Califórnia em San Diego, nos Estados Unidos.
Ele estudava pequenas moléculas do interior das células vermelhas, os fosfatos orgânicos, que regulam a função das hemoglobinas. Por meio dele, conheci David Randall [1938-2024], da Universidade da Columbia Britânica, em Vancouver, no Canadá, especialista em fisiologia dos peixes. Em 1976, Randall havia coordenado uma das principais expedições científicas de pesquisadores estrangeiros à Amazônia, que ficou conhecida como Alpha Helix. Um de seus focos – e foi o que mais me atraiu – era a fisiologia dos peixes.
Naquela época, era obrigatória a participação de um representante brasileiro nas expedições científicas. O escolhido foi Schwantes. Com isso, criou-se uma condição para que eu me aproximasse de Randall e buscasse uma oportunidade para fazer o pós-doutorado com ele – meu objetivo era me especializar em fisiologia. Essa aproximação foi fantástica e resultou na publicação do livro Fishes of the Amazon and their environment [Springer Verlag, 1995], que por muito tempo foi bastante citado.
Tambaqui (Colossoma macropomum). Foto: Governo de Rondônia
Quais foram seus principais achados sobre os peixes amazônicos?
Adalberto Val: De uma forma geral, eles não suportam variações extremas de temperatura. É o inverso do que se pensava. A água dos rios da região está sempre acima de 28 ou 30 oC. Imaginávamos que, se ela esquentasse mais, os peixes iriam se virar. Mas não. Eles são mais sensíveis do que os da zona temperada. Isso tem implicações diversas para a fisiologia deles e para a criação em cativeiro.
Há pouco tempo publicamos um artigo na Nature sobre os efeitos da seca que atingiu a Amazônia em 2023, quando a água chegou a 40,9 oC. Foi essa temperatura que provavelmente causou a imensa mortalidade de peixes e botos. Quando a temperatura chega a esse nível, cai a quantidade de oxigênio na água e as taxas metabólicas dos animais sobem de forma brutal.
Os peixes não conseguem regular a temperatura do corpo e, assim, a temperatura ambiental tem efeito direto sobre todos os processos bioquímicos e fisiológicos. O resultado é que eles não têm como atender à demanda metabólica. No caso dos golfinhos, por ser mamífero, é diferente. Conseguem regular a temperatura do corpo como nós, o que impõe um gasto energético adicional com alta demanda cardiológica. A pressão sanguínea sobe e, em alguns casos, o animal pode sofrer acidentes vasculares.
Que outros efeitos as variações ambientais têm sobre os peixes?
Adalberto Val: Eles desenvolveram um conjunto de respostas morfológicas às mudanças do ambiente. O tambaqui é um caso interessante. Ele expande os lábios inferiores para canalizar a camada superficial da coluna-d’água, mais oxigenada, para as brânquias. Dentro do organismo dos peixes acontecem outras modificações. Por exemplo, eles são capazes de controlar a ligação da hemoglobina com o oxigênio.
No caso do tambaqui, do jaraqui e de outras espécies, ocorre dentro das células a regulação da quantidade dos fosfatos orgânicos, segundo as variações de oxigênio na água. Assim, eles mantêm estável a transferência de oxigênio do ambiente aquático para os tecidos. Essa descoberta foi fenomenal, pois respondeu àquela pergunta que fiz aos 12 anos: como é que os peixes conseguem viver debaixo d’água? Durante o dia, a luz permite a fotossíntese que produz oxigênio.
À noite, contudo, nas águas paradas de lagos, lagoas e regiões de várzea, há menos oxigênio. Mas os peixes têm mecanismos que regulam a ligação da hemoglobina com o oxigênio e aumentam a capacidade do sangue de extrair o oxigênio da água. Mesmo as espécies que recorrem a outras estratégias precisam desse mecanismo. Esse achado foi fundamental, pois mostrou que uma única resposta nem sempre é suficiente para minimizar o efeito da variação de oxigênio do ambiente sobre o organismo.
Há outros exemplos?
Adalberto Val: Sim. O tamoatá [Hoplosternum littorale], o cascudo [Liposarcus multiradiatus] e alguns bagres têm partes do estômago e do intestino vascularizadas e direcionadas à troca gasosa. Eles vão até a superfície e engolem água misturada com ar. A troca gasosa se dá na transição do estômago para o intestino, sem prejuízo da regulação da afinidade da hemoglobina com o oxigênio. Descobrimos que alguns peixes, em vez de ter os fosfatos orgânicos convencionais – ATP [adenosina trifosfato] e GTP [trifosfato de guanidina] –, possuem outros. O tamoatá tem o 2,3-DPG [bifosfoglicerato], um composto que nós, humanos, também temos.
A produção do 2,3-DPG não responde à disponibilidade de oxigênio e, sim, à variação de temperatura. À medida que a temperatura se eleva e a quantidade de oxigênio na água diminui, o peixe aumenta a produção de 2,3-DPG. Tais adaptações envolvem genes que controlam proteínas essenciais atuantes nesse processo.
E o pirarucu, o que descobriu sobre ele?
Adalberto Val: É um peixe para lá de excepcional. De respiração aérea obrigatória, ele nasce com a capacidade de sintetizar ATP e GTP. Mas, durante o primeiro ano de vida, substitui esses dois fosfatos por um terceiro chamado inositol pentafosfato, que, pasme, existe também nas células vermelhas das aves. O pirarucu é o único peixe com esse fosfato. Faz a respiração aérea por meio de uma bexiga natatória modificada, e não do pulmão. A piramboia [Lepidosiren paradoxa] é o único peixe pulmonado na Amazônia.
A capacidade adaptativa dos peixes da Amazônia permitirá que superem os desafios que virão com as mudanças climáticas?
Adalberto Val: Essa é a pergunta central do nosso projeto INCT-Adapta. Durante milhões de anos, desde o levantamento dos Andes, temos uma história de tectonismos e mudanças climáticas na Amazônia. Boa parte do que vemos hoje por aqui surgiu durante o processo de formação da bacia amazônica. Esses movimentos propiciaram as condições para a diversificação de espécies na região. Ao mesmo tempo, permitiram que os organismos desenvolvessem adaptações ao longo do processo evolutivo.
Os mais adaptados aos desafios ambientais sobreviveram melhor. Agora queremos saber se os peixes amazônicos conservaram em seu genoma as informações que lhes permitiram enfrentar as mudanças climáticas do passado e se podem voltar a expressar essas características. Não temos uma resposta definitiva. Sabemos que algumas espécies conseguem fazer ajustes e sobreviver até certo limite.
Outras não. Às vezes, espécies diferentes do mesmo gênero respondem de forma distinta. Isso indica que alguns grupos perderam as informações que possibilitariam que sobrevivessem, em parte, aos desafios ambientais. Eu digo em parte pelo seguinte: os processos de aquisição dessas adaptações ocorreram durante milhões de anos. E as variações climáticas atuais acontecem numa velocidade muito rápida, sem dar tempo para os organismos se adaptarem.
Poderia dar um exemplo?
Adalberto Val: O tambaqui. Se isolarmos a temperatura, conseguimos que ele consiga sobreviver até cerca de 40 oC. Mas quando colocamos o dióxido de carbono nessa equação, que é uma das causas do efeito estufa, 40% dos alevinos começam a apresentar deformações esqueléticas e derrame do pericárdico. Eles vão ser predados e desaparecer. Os que sobrarem, sem essas deformações, talvez consigam produzir uma prole. Uma parte vai apresentar essas deformidades e outra vai sobreviver, criando um processo evolutivo novo. Não sabemos no que vai dar.
Que outros impactos na fauna aquática decorrentes das alterações ambientais antrópicas já são conhecidos?
Adalberto Val: Estudamos os efeitos sinérgicos das alterações climáticas com outros fatores, como poluição por metais, plásticos, petróleo e medicamentos. Quando a temperatura da água sobe e diminui o oxigênio, os peixes batem mais rápido o opérculo [estruturas de proteção das brânquias], fazendo passar mais água sobre as brânquias, de modo a manter a oxigenação do sangue. Só que quando passa mais água contaminada pelas brânquias, ele capta mais contaminantes. E aí tem um agravante.
Alguns peixes aprenderam durante a evolução que, quando não tem oxigênio na água, eles podem subir para a superfície quando vão respirar ou engolir água misturada com o ar. Se o rio está contaminado com petróleo, ele vai pegar mais petróleo e internalizar no seu corpo. Quando o homem interfere no ambiente, algumas adaptações surgidas durante o processo evolutivo podem jogar contra os animais.
O desmatamento também ameaça os peixes?
Adalberto Val: Sim. A cobertura florestal protege os animais, pois ajuda a reduzir a temperatura do ambiente aquático. Quanto mais desmatamento, maior o aumento da temperatura do sistema. Como os peixes são vulneráveis à elevação da temperatura, eles ficam ameaçados. O pior é que o homem também corre risco, já que 90% da proteína consumida pela população da Amazônia tem origem nos peixes. Reduzir a produção de peixes ocasionará um problema sério de segurança alimentar.
A poluição dos rios por esgoto também preocupa. As grandes cidades da região têm um sistema rudimentar de tratamento de esgoto. O rio é o lugar onde se despeja tudo. Quando você tem uma cidade de 10 mil habitantes, um rio do tamanho do Amazonas dá conta dessa situação. Mas quando a cidade tem 2,1 milhões de pessoas, como Manaus, é diferente.
Qual é o objetivo do INCT-Adapta?
Adalberto Val: O Adapta tem cerca de 30 grupos de pesquisa e 100 pesquisadores, vários deles no exterior, inclusive em países amazônicos. O nosso Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular, o LEEM, no Inpa, é a sede do INCT. Temos salas climáticas para reproduzir as condições ambientais projetadas para 2100. O objetivo é estudar como peixes, insetos e plantas enfrentarão essas novas condições. Uma sala reproduz em tempo real a temperatura, os níveis de gás carbônico, a luminosidade e a umidade da floresta a partir de dados transmitidos por uma torre instalada na mata.
As outras três salas reproduzem cenários futuros – brando, intermediário e extremo –, de acordo com o modelo do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas] para 2100. Descobrimos que os fungos crescem muito mais em cenários extremos. Se são fungos comestíveis, fantástico, teremos mais comida. Mas se são fungos infecciosos, haverá mais problemas.
No caso do mosquito da malária, os achados são preocupantes. Quanto mais extremas são as condições ambientais, maior é o número de gerações de mosquitos em um dado intervalo de tempo. Como resultado, o número de mosquitos aptos a transmitir a malária, por exemplo, é maior por unidade de tempo.
O pirarucu é um peixe excepcional. Ele faz a respiração aérea, acima da superfície da água, por meio de uma bexiga natatória modificada. Um de seus projetos recentes comparou os efeitos das mudanças no clima sobre os peixes da Amazônia e da Mata Atlântica.
Quais as principais conclusões?
Adalberto Val: Analisamos peixes de água doce da região de Santos e São Vicente, no litoral paulista, e da reserva biológica Ducke, na Amazônia. Na reserva, por conta da mata preservada, há estabilidade térmica, com temperatura em torno de 25 oC. Na Mata Atlântica, varia naturalmente ao longo do ano. Vimos que os peixes da Mata Atlântica conseguem suportar um intervalo de temperatura maior que os da Amazônia. O segundo ponto está relacionado ao carbono orgânico dissolvido, que confere coloração preta às águas do rio Negro e aos corpos-d’água da Mata Atlântica.
As propriedades desse carbono variam conforme a época do ano e a região. Ele também é um protetor das taxas respiratórias dos organismos aquáticos, no que se refere a metais, principalmente os de ambientes ácidos, como são os peixes do rio Negro. Queríamos saber se o carbono orgânico dissolvido da Mata Atlântica, que é diferente do encontrado na Amazônia, também teria essas propriedades. Seu efeito é diferente lá e cá. Estamos monitorando e descrevendo essas diferenças.
A questão do carbono orgânico dissolvido é de interesse mundial. O aumento do gás carbônico no ambiente em escala global está provocando um escurecimento dos corpos-d’água em vários lugares do planeta, o que é preocupante. Com esse estudo comparando a Mata Atlântica e a Amazônia, tentamos entender melhor esse problema.
Como vê a possibilidade de exploração de petróleo na foz do Amazonas?
Adalberto Val: É algo muito preocupante. No caso de um vazamento, parte do óleo, que tem uma densidade menor que a da água, sobe para a superfície. Um estudo recente de nosso grupo mostrou que para as espécies de respiração aérea, facultativa ou obrigatória, o óleo é internalizado no corpo delas. Além disso, quando o petróleo sofre o efeito da radiação solar, ocorre a formação de compostos altamente tóxicos para os peixes, que causam altas taxas de mortalidade.
Na ocorrência de um acidente, dependendo das condições climáticas, dos ventos e de outras variáveis, o óleo localizado na superfície da coluna de água pode entrar para o interior da bacia amazônica e afetar profundamente os animais. As correntes marinhas podem levar o petróleo vazado para o norte, atingindo a costa de países vizinhos, causando problemas diplomáticos. E não podemos esquecer que na foz do Amazonas existem corais sensíveis às mudanças ambientais.
É verdade que já foi achado microplástico em peixes da Amazônia?
Adalberto Val: Sim. Infelizmente, a poluição por plásticos é intensa na Amazônia, por conta dos descartes inadequados de lixo sólido. Já se encontrou plástico na musculatura, nos ossos, no fígado e até no otólito, ossinho do interior do ouvido dos peixes. O otólito costuma formar anéis através dos quais se mede a idade do peixe. Quando os pesquisadores fizeram a raspagem para analisar esses anéis, viram plástico em alguns pontos. Se há plástico nos peixes, as pessoas que consomem esses peixes estão consumindo plástico.
O problema é agravado pela alta capacidade do plástico em absorver poluentes e medicamentos. Ele é um transportador dessas substâncias para dentro dos organismos. O desmatamento eleva a temperatura da água de rios e lagos. Como os peixes são vulneráveis a essa variação, ficam ameaçados.
Como seus estudos têm contribuído para a segurança alimentar da Amazônia?
Adalberto Val: Procuramos otimizar os processos de produção, para que os peixes cresçam mais num tempo menor. Temos também a perspectiva de produzir carne de peixe em laboratório. Outra meta é reduzir o impacto da temperatura e de metais, principalmente o cobre, nos processos de criação. Muito usado na agricultura, o cobre é lixiviado para tanques de criação. Estudamos novas composições de ração, criações consorciadas e administração de certos produtos em substituição a antibióticos. Esse é um problema sério nas estações de criação.
A água com antibiótico das estações cai nos ambientes naturais e causa um desastre, principalmente nos animais de pequeno porte, vitais para a cadeia trófica. Com base em informações fisiológicas, bioquímicas e genéticas dos peixes, podemos manipular as condições de criação.
Que transformações a Amazônia sofreu nesses 45 anos desde sua chegada à região?
Adalberto Val: Primeiro, diria que houve uma revolução populacional. Quando cheguei, Manaus tinha perto de 500 mil habitantes; hoje são mais de 2 milhões. Uma cidade com esse porte demanda uma infraestrutura e uma série de produtos e processos que pressionam o ambiente. Houve também uma ampliação da mineração, inclusive em terras indígenas, que levou à contaminação do ambiente aquático por mercúrio, entre outros metais. Aumentou a contaminação dos rios por medicamentos, outra decorrência do aumento populacional.
Mas houve também mudanças positivas. Quais?
Adalberto Val: Na área da ciência, por exemplo. Quando cheguei aqui, contava-se nos dedos o número de doutores em Manaus. Não havia uma fundação de amparo à pesquisa em nenhum estado amazônico; hoje todos têm. O único curso de pós-graduação no Inpa era o de botânica, herdado do Museu Emílio Goeldi, no Pará. Rapidamente outros três – ecologia, entomologia e biologia de água doce e pesca interior – foram instalados.
No Pará, havia na UFPA a pós-graduação em geociências, um curso fantástico que gerou informações relevantes para processos de produção mineral na região. Depois de um tempo, o mundo inteiro passou a ter um interesse muito grande pela Amazônia. Com isso, houve um aumento da demanda por cooperação científica na região, infelizmente não inteiramente atendida de forma simétrica.
A conscientização sobre a necessidade de conservação ambiental na região se avolumou de forma significativa, mas tem sido difícil traduzi-la em ações. Contudo, há projetos que merecem destaque, como o Semear Leitores, da Fundação Bunge, que socializa práticas regenerativas na agricultura familiar.
O que mais deveria ser feito?
Adalberto Val: O governo brasileiro precisa entender que é preciso fazer um investimento estratégico em ciência e tecnologia na região, ou seja, fortalecer a pesquisa e a capacitação pessoal em universidades e institutos de pesquisa e abrir espaços para a cooperação internacional. O investimento em ciência e tecnologia na Amazônia não passa dos 3% ou 4% do total destinado ao setor no país. Isso se traduz na frágil produção de informações para o desenvolvimento e a conservação da Amazônia. É preciso que tenhamos investimentos estratégicos na região e não a manutenção de taxas históricas de dispêndios.
O que você gosta de fazer nas horas livres?
Adalberto Val: O problema é ter essas horas livres. Mas tem duas coisas que eu aprecio muito. Primeiro, caminhar. Eu caminho bastante, ainda no clarear do dia. A segunda é a leitura. No momento, estou relendo Arrabalde – Em busca da Amazônia, de João Moreira Salles. É um livro que discute o problema do desmatamento e os desafios da conservação ambiental da região.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Revista Pesquisa Fapesp, escrito por Yuri Vasconcelos
Aplicativo mede emissão do gás carbônico. Foto: Marcos Vicentti/Secom AC
O Acre é o primeiro estado do país a lançar o aplicativo AC Net Zero, que mede a emissão de carbono de um turista que chega para visitar o estado.
O aplicativo foi criado pela Companhia de Desenvolvimento de Serviços Ambientais (CDSA) S/A, ligada à Secretaria de Estado da Fazenda, e pode ser baixado nos sistemas iOS e Android, permitindo que a pessoa possa compensar a emissão por meio de compras de crédito de carbono.
“O aplicativo traz um conceito inovador. Ele vai permitir aos usuários fazer um cálculo das suas emissões de gás carbônico. Imaginemos uma jornada na qual uma pessoa vem ao estado para visitar ou para realizar alguma missão. E, desde que tomou o avião até chegar em Rio Branco, ele vai poder fazer esse cálculo. Tanto da parte aérea, quanto do transporte interno e da sua estadia também, durante o tempo que ficar no estado. Mas não apenas fica nas pessoas físicas, também há uma opção para pessoas jurídicas”, explicou Victor Hugo Rondon, gestor da CDSA, responsável por desenvolver a plataforma.
Dessa forma, em eventos como fóruns e congressos, os organizadores que estejam visitando o Acre podem querer calcular o quanto emitiram de gás carbônico e compensar. “Essa compensação pode ser feita com o próprio estoque que o estado tem. E o principal: de todos esses recursos que entrarão por conta dessa venda, a maior parte é destinada para as comunidades tradicionais, para os povos indígenas, para ações que de fato fazem a mudança no clima”, ressaltou.
A expectativa é ter três divisões: a primeira é começar pelo Estado, a segunda é tratar de enxergar o âmbito nacional e a terceira é no âmbito internacional e em eventos que o Estado do Acre participa.
“Sempre com o espírito de pioneirismo, o Acre está na vanguarda e as pessoas têm muita atenção quando o Acre lança alguma nova ação; então esta é mais uma dentro de seu espírito vanguardista nas políticas de sustentabilidade. É a primeira unidade da Federação que tem um aplicativo jurisdicional, próprio do Estado, que permite fazer uma medição correta das emissões de gás carbônico”, explicou Rondon.
Outro grande benefício da ferramenta é orientar formas e estilos de como se pode diminuir suas emissões. “Às vezes a gente só tem muita informação referente ao clima, mas não tem boas práticas, e é isso que também o aplicativo irá construir durante sua jornada”, salientou.
Para a secretária de Estado dos Povos Indígenas, Francisca Arara, esse é um passo para garantir um retorno financeiro às comunidades tradicionais, que vão poder se reestruturar.
“A gente recebe com muita alegria. Estima-se que 90% dos créditos de carbono do Estado do Acre estão no nosso território. Então, é muito importante, porque a gente pode ver essa nova tecnologia. Futuramente, quem sabe, possa beneficiar nossos povos, que estão enfrentando tantos problemas, inclusive essa seca severa, os eventos extremos, a falta de água, o impacto na segurança alimentar. Então é o Acre mais uma vez saindo na frente com essa nova tecnologia”, destacou.
O secretário de Estado da Fazenda, Amarísio Freitas, disse que tem uma meta para alcançar. “Queremos fazer 20 mil cadastros. Se conseguirmos, a gente vai fazer sorteio de um festival indígena ou plantar árvores, para poder dar a nossa resposta para a sociedade também”, destacou.
O governador Gladson Cameli enfatizou que se orgulha de ver o estado acreano sendo destaque nacional. “Eu sempre reforço que o Acre tem que estar no protagonismo e iniciativas como essa mostram o potencial que temos. Mais do que isso, fortalece nosso desenvolvimento sustentável, unindo progresso com consciência ambiental”, afirmou.
A temperatura do planeta ultrapassou no mês de agosto deste ano 1,51 graus Celsius (°C) acima do nível pré-industrial, pelo 13º mês nos últimos 14 meses. Foi o agosto mais quente da Terra da série histórica do Serviço Copernicus para as Alterações Climáticas da União Europeia, com uma temperatura média do ar na superfície 0,71 °C acima da média do período 1991 a 2020.
A média na temperatura global, de setembro de 2023 a agosto de 2024, foi a maior registrada para qualquer período de 12 meses 0,76 °C acima do período entre 1991 e 2020 e 1,64 °C acima da média pré-industrial de 1850 a 1900.
A temperatura média da superfície do mar para agosto de 2024 foi 20,91°C, considerando as zonas Temperadas e Intertropical, a cerca de 10 metros de profundidade. De acordo com Serviço Copernicus para as Alterações Climáticas, esse é o segundo valor mais alto já registrado para o mês, e apenas 0,07°C abaixo de agosto de 2023.
De acordo com o Boletim Agosto de 2024, publicado pela instituição no dia 6 de setembro, é provável que o ano de 2024 supere as temperaturas registradas em 2023.
“Essa sequência de temperaturas recordes está aumentando a probabilidade de 2024 ser o ano mais quente já registrado. Os eventos extremos relacionados à temperatura testemunhados neste verão só se tornarão mais intensos, com consequências mais devastadoras para as pessoas e o planeta, a menos que tomemos medidas urgentes para reduzir as emissões de gases de efeito estufa”, afirmou a diretora adjunta do Copernicus Climate Change Service, Samantha Burgess.
Na análise hidrológica, a instituição constatou ainda que agosto foi mais seco do que a média na maior parte da América do Sul e registrou a incidência de incêndios florestais no Brasil.
Financiado pela União Europeia, o Copernicus é o principal programa de observação da Terra que utiliza medições de satélites, navios, aeronaves e estações meteorológicas em todo o mundo, para produzir análises de dados sobre da atmosfera, marinho, Terra, alterações climáticas, segurança e emergência.
O programa é coordenado e gerido pela Comissão Europeia e implementado em parceria com Estados-Membros, Agência Espacial Europeia (ESA), Organização Europeia para a Exploração de Satélites Meteorológicos, Centro Europeu de Previsões Meteorológicas em Médio Prazo, entre outros.
Com o aumento das queimadas na Amazônia e o período de clima seco e quente que assola a região, a preocupação com a saúde respiratória das crianças torna-se ainda mais urgente.
A Prefeitura de Porto Velho, juntamente com a Secretaria Municipal de Saúde (Semusa), em Roncônia, divulga informações e promove ações de conscientização para reduzir os impactos das queimadas e do clima seco na saúde da população.
“Com cuidados simples e prevenção, é possível enfrentar este período com mais segurança e saúde”, aponta a médica pediatra Lidiane Cavalcante, da UPA José Adelino, que aponta os principais cuidados que devem ser adotados para evitar o adoecimento.
A pediatra destaca ainda que, com a chegada da primavera, a situação pode se agravar e aumentar os processos alérgicos. Por isso, é importante manter atenção redobrada aos sintomas de irritação nos olhos, nariz e garganta. Em casos de sintomas mais graves, como falta de ar, chiado no peito ou tosse persistente, os pais devem procurar atendimento médico imediatamente.
“Estamos passando por um período de grande quantidade de fumaça e de tempo seco, que se agrava ainda mais com a proximidade da primavera e o aumento dos níveis de pólen no ar. Tudo isso contribui para o aumento dos problemas respiratórios, especialmente entre as crianças, que são mais vulneráveis”, explica a pediatra.
Dicas para proteger as crianças
1. Manter a Hidratação
A médica enfatiza a importância da hidratação e reforça que é essencial que as crianças consumam bastante água ao longo do dia.
“A hidratação ajuda a manter as vias respiratórias umedecidas e a reduzir a irritação causada pela fumaça e pelo ar seco”, diz Lidiane.
2. Uso de inalação com soro fisiológico
Lidiane recomenda inalações frequentes com soro fisiológico para ajudar a aliviar os sintomas respiratórios. “A inalação com soro fisiológico ajuda a umidificar as vias aéreas, aliviando os sintomas de irritação”, esclarece.
3. Umidificação do ambiente
A pediatra também sugere métodos simples para melhorar a umidade do ar dentro de casa.
“Colocar toalhas molhadas ou bacias com água nos ambientes pode ajudar a umidificar o ar. Evitar o uso excessivo de ventiladores ou ar-condicionado, que resseca ainda mais o ambiente, é importante”, alerta.
4. Proteção para os olhos
Segundo Lidiane, o cuidado com os olhos é igualmente essencial. “Em um clima seco, o uso prolongado de telas, como celular e computador, pode causar irritações e até conjuntivite viral. O ideal é limitar o tempo de uso das telas conforme a idade da criança e utilizar lubrificantes oculares para evitar o ressecamento.”
5. Prevenção de queimadas
Além dos cuidados diretos com as crianças, Lidiane reforça a importância da conscientização comunitária. “Não podemos queimar lixo ou qualquer outro material, seja no quintal de casa ou no do vizinho. As queimadas agravam ainda mais a qualidade do ar e causam danos à saúde de todos, especialmente das crianças.”
A corrida pela exploração dos chamados minerais críticos à transição energética acentua os conflitos socioambientais existentes no setor mineral brasileiro. Esses elementos naturais são necessários para o desenvolvimento de uma economia de baixo carbono e a produção de componentes utilizados na fabricação de baterias, veículos elétricos, painéis solares, turbinas eólicas, entre outros itens. Além disso, eles também são aplicados majoritariamente em atividades não relacionadas com a transição energética.
No total, 101 mil pessoas em 15 estados foram impactadas pela extração de minerais da transição, que desencadeou 380 confrontos no país entre 2020 e 2023. A Amazônia Legal, composta por nove estados brasileiros, foi a região com mais disputas, concentrando 46,3% das ocorrências. Na avaliação individual por unidade da federação, Pará e Minas Gerais agruparam 66,7% dos embates. Os dados foram mapeados em estudo publicado em agosto pelo Observatório dos Conflitos da Mineração no Brasil, iniciativa composta por pesquisadores de instituições de todo o país, movimentos sociais e organizações não governamentais (ONG).
Outro levantamento elaborado pelo mesmo observatório em 2023 indica que, desde 2020, as atividades de extração legal e ilegal de todo o setor mineral têm ocasionado de 850 a 950 conflitos e afetado cerca de 1 milhão de pessoas por ano. O documento também mostra que Minas Gerais (37,5%), Pará (12%) e Alagoas (10,1%) concentraram em 2022 a maior parcela de pessoas atingidas por esses embates.
Um dos autores das pesquisas, o geógrafo Luiz Jardim Wanderley, da Universidade Federal Fluminense (UFF), esclarece que são considerados conflitos as reações dos atingidos pelos impactos socioambientais e pelas situações de violência, que incluem trabalho em condições análogas à escravidão, estupros, acidentes, ameaças, tentativas de assassinato e mortes.
“Durante a pandemia, o setor mineral registrou inúmeras violações trabalhistas por não ter adotado políticas eficientes para preservar a saúde de funcionários”, comenta. O “Relatório anual do Conselho Internacional de Mineração e Metais” indica que, no Brasil, 43 funcionários de empresas associadas à entidade morreram em razão de acidentes de trabalho, em 2021. Em 2019 e 2020, os números foram 287 e 44, respectivamente.
Wanderley explica que, para entrar nos mapeamentos, o conflito precisa ter suscitado reações na população, entre elas processos judiciais, manifestações, cartas de repúdio ou denúncias em jornais.
“Quando o embate não causa essa resposta, não entra em nossa contagem”, informa. Para fazer os levantamentos, os estudos analisaram dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que desde 1985 registra conflitos agrários, e do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), ambos órgãos da Igreja Católica. Também se valeram de dados sobre esse tipo de ocorrência registrados em documentos de ONGs, denúncias de movimentos sociais, notícias veiculadas pela imprensa, entre outros meios.
No estudo sobre minerais necessários à transição energética, foram abarcados conflitos envolvendo 31 elementos, entre eles alumínio, bário, boro, cádmio, cobalto, cobre, lítio, manganês, nióbio e níquel. De acordo com informações da Agência Nacional de Mineração (ANM), de 2013 a 2022, o valor da extração desses minerais passou de R$ 27,7 bilhões para R$ 38,6 bilhões, resultando em um crescimento real (descontada a inflação) de 39%. No mesmo período, os números correspondentes para o setor mineral como um todo subiram de R$ 243 bilhões para R$ 266 bilhões em valores deflacionados, o que representa um crescimento de 9,3%.
Os conflitos identificados nesse levantamento podem se sobrepor. O tipo mais prevalente abarca disputas pelo uso da terra, que abrangeram 59,2% das ocorrências, seguidos de embates relativos a acesso à água (39,4%), problemas de saúde (16,4%) e questões trabalhistas (12,4%), explica Wanderley. O cobre e a bauxita foram os minerais utilizados na produção de componentes necessários à transição energética que provocaram mais danos, com 25,3% das ocorrências cada um. Ao mesmo tempo, esses elementos apresentaram uma valorização de mercado entre 2020 e 2023.
“Os dados sugerem que há uma correlação entre a intensidade da extração do mineral, seu valor de venda e a incidência de conflitos”, diz.
Foto: Alessandro Falco/Bloomberg via Getty Images
Barcarena (PA), Canaã dos Carajás (PA) e Craíbas (AL) ocupam os três primeiros lugares da lista de cidades com maior número de disputas envolvendo a mineração associada a elementos importantes para equipamentos da transição energética.
“Como tendência geral, municípios com atividades de mineração apresentam crescimento em suas rendas per capita e receitas. Porém esses aumentos não são acompanhados por avanços no desenvolvimento social e na redução de desigualdades”, analisa o geógrafo João Marcio Palheta, da Universidade Federal do Pará (UFPA), que não participou do estudo.
Em Barcarena, predomina a extração e o processamento de bauxita, utilizada para a obtenção de alumínio. Em 2018, a população local denunciou o vazamento de rejeitos de uma barragem, que contaminou rios e igarapés. Já em Canaã dos Carajás, a principal atividade de mineração é a extração de minério de ferro e cobre, que tem causado o deslocamento de comunidades locais.
“A situação gera conflitos relacionados à perda da terra e impacta os modos de vida de comunidades, sobretudo indígenas e ribeirinhas”, diz Palheta. A cidade é também palco de embates trabalhistas associados às mineradoras. Na região está o maior projeto de extração de minério de ferro da história da Vale, com capacidade de produção de 120 milhões de toneladas anuais.
Palheta desenvolve estudo em quatro cidades paraenses que abrigam projetos de mineração: além de Canaã dos Carajás e Barcarena, Parauapebas e Paragominas. De acordo com ele, os municípios com maior Produto Interno Bruto (PIB) per capita do Brasil, frequentemente, abarcam localidades com grandes empreendimentos industriais ou extrativos, como é o caso de Parauapebas.
“No entanto, a exemplo do que ocorre com outras cidades com essas características, Parauapebas é marcada por situações de pobreza, o que inclui falta de saneamento básico”, relata.
Segundo ele, isso ocorre em razão da falta de transparência sobre o uso dos recursos provenientes da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), receita patrimonial cobrada sobre os ganhos obtidos com a atividade. “Os recursos obtidos com a CFEM só podem ser investidos nas áreas da saúde e de educação, mas faltam mecanismos de controle para identificar onde de fato o dinheiro é gasto”, afirma o geógrafo.
De acordo com os relatórios produzidos pelo Observatório dos Conflitos da Mineração no Brasil, o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) está abaixo da média nacional em 27 dos 50 municípios mais minerados do Brasil. Em relação ao Índice de Gini, que mede desigualdades, 34 dessas 50 cidades têm indicadores piores do que o 14º país mais desigual do mundo, a República do Congo.
Segundo a organização, os grupos mais afetados pela exploração de minerais associados à transição energética são pequenos proprietários rurais (envolvidos em 23,9% das ocorrências), trabalhadores das empresas de mineração (12,1%) e indígenas (9,8%). Do outro lado, mineradoras internacionais (46,3%) e nacionais de médio porte (33,6%) foram as principais organizações implicadas nos embates.
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“A valorização de minerais para a transição energética tende a atrair cada vez mais mineradoras menores para localidades que foram historicamente pouco exploradas pela mineração, complicando ainda mais esse cenário”, estima Wanderley, da UFF.
A observação é corroborada pela economista Beatriz Macchione Saes, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Com pesquisas sobre a relação entre desenvolvimento econômico, mineração e os conflitos deflagrados pela atividade, ela traz como exemplo a situação do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais.
Desde 1991, a região conta com projetos de exploração de lítio, metal utilizado em equipamentos como baterias de carros elétricos, mas há cada vez mais mineradoras interessadas em atuar com a atividade. “No momento, quatro companhias tentam aprovar iniciativas para explorar lítio na região e a eventual chegada delas pode acirrar os conflitos com as comunidades locais”, avalia.
Estudioso das corporações do setor mineral, o engenheiro de produção Bruno Milanez, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), explica que, após a década de 1990, essas empresas passaram a adotar práticas para mitigar impactos socioambientais. De acordo com o pesquisador, até 1989, por exemplo, as mineradoras que atuavam em Oriximiná, no Pará, jogavam os rejeitos diretamente nos rios, em um procedimento que, naquela época, era aceito pelo Estado brasileiro. “Até hoje, essas empresas tentam reparar os danos resultantes da atividade”, diz.
Nos anos 2000, as corporações criaram barragens para conter os rejeitos e, atualmente, é possível empilhar os resíduos a seco, utilizando sistemas de filtragem. “Porém, mesmo com a redução dos impactos, não há como escapar de efeitos socioambientais negativos”, afirma. Milanez conta que algumas mineradoras reconhecem o problema e, inclusive, abandonaram o uso do termo “mineração sustentável”. “Atualmente, o conceito mais utilizado pelo setor é o de ‘mineração responsável’.
Por meio dele, as companhias reconhecem que os impactos negativos são inerentes à sua atividade, mas sustentam que é possível adotar estratégias de redução de danos”, relata o pesquisador.
Em declaração enviada por e-mail, o Grupo Hydro, multinacional produtora de alumínio, destaca que as atividades de empresas que recebem seus investimentos no país são monitoradas e auditadas, com o compromisso ‘de serem boas vizinhanças às comunidades’. Uma delas é a Mineração Paragominas, no Pará, que adotou uma técnica capaz de devolver os rejeitos inertes da mineração de bauxita às áreas já exploradas.
Essa metodologia, afirma a empresa, permite reconstruir a topografia original do terreno e reduzir o risco de erosão, minimizando os impactos ambientais. Por sua vez, a Anglo American, multinacional focada na exploração de minerais como diamante, mercúrio, cobre e níquel, informa, por e-mail, que em 2019 criou um plano para melhorar os sistemas de educação e saúde das comunidades que recebem suas operações no país.
Para Saes, da Unifesp, o momento conhecido como o boom das comodities, entre 2000 e 2014, foi marcado por um acirramento na incidência de conflitos do tipo no país. Naquele período, o Brasil registrou um aumento acentuado na demanda por bens primários e matérias-primas, incluindo minerais.
“O minério de ferro foi um dos itens mais demandados pelo mercado internacional, com as exportações passando de 100 milhões de toneladas, em 2000, para 300 milhões de toneladas, em 2015”, comenta. Segundo a economista, os conflitos cresceram de forma proporcional à ampliação das atividades mineradoras.
Nas primeiras décadas do século XXI, o país registrou dois de seus maiores desastres ambientais causados pela extração de minério de ferro. Em 2015, o rompimento da barragem da empresa Samarco (controlada pela Vale e pela mineradora anglo-australiana BHP Billiton) na região de Mariana (MG) matou 19 pessoas e liberou por volta de 39 milhões de metros cúbicos de lama tóxica, que atingiu o leito do rio Doce e diversas comunidades em Minas Gerais e no Espírito Santo ao longo de mais de 600 quilômetros (km).
Segundo o Atlas do problema mineral brasileiro, publicado em 2023, o grupo constituído pela Samarco, Vale e BHP Billiton foi o que causou a maior quantidade de conflitos no campo entre 2004 e 2020, com um total de 462 ocorrências nesse período.
Já em 2019, o colapso de uma barragem da Vale em Brumadinho (MG) matou cerca de 270 pessoas e contaminou a bacia do rio Paraopeba, que se estende por 510 km. Em comunicado enviado por e-mail, a Vale esclareceu que estão previstos R$ 37,7 bilhões para reparação dos danos do desastre – 70% desse total já foi aplicado. A companhia afirma que, desde o começo de 2023, tem criado mecanismos para escutar as demandas das populações atingidas.
Em Mariana, o processo de reparação estabelecido pela Samarco destinou R$ 37 bilhões para ações de reparação e compensação de danos decorrentes do rompimento da barragem. Do total, R$ 17,48 bilhões foram em indenizações e auxílio financeiro emergencial. A empresa informa, em comunicado enviado por e-mail, que 85% dos casos de reassentamento das comunidades impactadas foram concluídos.
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Apesar dos acordos, as vítimas seguem buscando reparação na Justiça inglesa, na medida em que uma das controladoras da Samarco, a BHP, tem procedência anglo-australiana. Em 2023, um escritório de advocacia em Londres entrou com um pedido de indenização de R$ 230 bilhões para 700 mil vítimas do desastre.
Com pesquisas sobre o desenvolvimento desse processo de reparação, a socióloga Raquel Oliveira, do Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirma que ele tem gerado tensões internas entre as comunidades afetadas. Oliveira explica que antes do desastre muitas famílias compartilhavam os terrenos entre os seus parentes. Assim, avós, pais e filhos, por exemplo, construíam suas casas no mesmo sítio, mantido como terra de herdeiros.
“No entanto, as medidas de reparação dificilmente contemplam a complexidade e a dinâmica desses arranjos, levando à revisão de acordos domésticos e trazendo dificuldades para o reconhecimento de novos núcleos familiares”, acrescenta.
Outro problema, segundo a antropóloga Gabriela de Paula Marcurio, que faz doutorado na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) com bolsa da FAPESP, é que as mineradoras implicadas nos desastres desconsideram perdas relevantes para as comunidades atingidas ao inventariar os danos causados por suas atividades. Entre elas, estão as alterações na forma de viver e o tempo gasto para gerenciar problemas ocasionados pelo rompimento da barragem, como a participação em reuniões.
No doutorado, Marcurio pesquisa a chegada de empresas para a exploração de minério de ferro, cobre e fosfato na região de Juazeiro, no sertão baiano, área de expansão da fronteira mineral. De acordo com ela, mesmo antes da instalação formal de uma mineradora no território, a população já começa a sentir seus impactos.
“Pequenos agricultores têm reclamado da presença de drones e de pessoas que não fazem parte da comunidade circulando por suas propriedades sem consultá-los”, exemplifica.
Milanez, da UFJF, destaca que o subsolo do país é um bem da União e, por causa disso, as pessoas podem ser desapropriadas de suas casas para viabilizar projetos do setor. Além disso, de acordo com a ANM, quem consegue autorização para instalar uma mina em determinado lugar, conquista exclusividade para explorar o território em questão. “Esses aspectos fazem com que os conflitos, em muitas situações, ocorram em um contexto caracterizado pela desigualdade de poder”, comenta o engenheiro.
Com a meta de articular e disseminar estratégias para restringir ou proibir a mineração em determinadas áreas, um grupo de pesquisadores, movimentos sociais, comunidades locais e organizações não governamentais criou a plataforma Territórios Livres de Mineração (TLM), em 2022. O repositório traz informações sobre medidas elaboradas a partir de legislações municipais, plebiscitos e consultas populares que conseguiram frear projetos indesejados em áreas vulneráveis.
Foi o que aconteceu em Muriaé (MG), onde os moradores da cidade impediram a instalação de um projeto de exploração de bauxita no distrito de Belisário, no entorno do Parque Estadual Serra do Brigadeiro.
“A pressão popular motivou os vereadores a aprovarem o Projeto de Lei nº 192, que classificou aquela região como patrimônio hídrico, impedindo atividades de mineração no local”, finaliza Milanez.
A reportagem acima foi publicada com o título “Territórios em disputa” na edição impressa nº 343, de setembro de 2024.
Projeto A memória da Comissão Pastoral da Terra de Juazeiro diante da mineração no semiárido baiano (nº 23/02480-1); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisador responsável Jorge Luiz Mattar Villela (UFSCar); Bolsista Gabriela de Paula Marcurio; Investimento R$ 342.357,84.
Para proteger a Amazônia e apoiar o bem-estar do seu povo, a sua economia precisa mudar de uma produção prejudicial ao meio ambiente, para um modelo construído em torno da biodiversidade, das populações indígenas e das comunidades tradicionais, visando a manutenção da floresta em pé.
Um grupo de pesquisadores do Brasil, incluindo a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Bolívia, Peru, Equador, EUA e Reino Unido afirmam que os atuais esforços de conservação e desenvolvimento nunca serão sustentados ou ampliados sem mudanças sistêmicas na forma como as economias são concebidas.
Apesar da extensa destruição da Amazônia em nome do desenvolvimento econômico, as comunidades amazônicas registraram poucas melhorias na renda, na expectativa de vida e na educação. Os pesquisadores sugerem um novo modelo e mudanças políticas associadas que poderiam criar um futuro justo e sustentável para a Amazônia e seu povo, melhorando a infraestrutura, as cadeias produtivas e as organizações sociais.
Os seus resultados, publicados na revista Nature Ecology and Evolution, centram-se na Amazônia, mas os pesquisadores afirmam que modelos econômicos semelhantes poderiam ser implementados em outros biomas se existir vontade política.
“Precisamos de uma visão diferente para a Amazônia se quisermos protegê-la”, disse a autora principal, Professora Rachael Garrett, do Departamento de Geografia da Universidade de Cambridge e do Instituto de Pesquisa em Conservação. “Meio século de desmatamento e exploração da Amazônia não resultou num desenvolvimento para toda a sua população, e agora o valor econômico das áreas desmatadas está ameaçado, para não mencionar as ameaças ao clima global e à segurança hídrica.”
O cerne da proposta é aproveitar o sucesso das comunidades indígenas e tradicionais para desenvolver novas economias, que poderiam proteger grande parte da Amazônia e, ao mesmo tempo, melhorar os meios de subsistência, a saúde e a segurança alimentar das muitas pessoas que aí vivem. Estes modelos econômicos são conhecidos como sociobioeconomias (SBEs), e já podem ser vistos em ação no Mato Grosso, de acordo com o pesquisador Oscar Zalla Sampaio Neto, da UFMT.
Desde em 2023, pesquisadores da área de ciência e tecnologia de alimentos da UFMT, em parceria com grupos de pesquisa de outras 06 universidades brasileiras, desenvolvem o projeto Fortalecimento da cadeia de valor da castanha-do-Brasil: uma abordagem focada na Cooperativa dos Agricultores do Vale do Amanhecer (Juruena/MT), aprovado no âmbito da Iniciativa Amazônia +10.
“A UFMT tem um histórico de 20 anos no desenvolvimento de tecnologias sociais, aquelas criadas no diálogo direto com as comunidades que devem tirar proveito delas. Dentre as iniciativas apoiadas pela Instituição está a da COOPAVAM, uma cooperativa na região de Juruena que coleta e processa castanhas para produção de óleo, utilizado em cosméticos, e de alimentos, com venda nacional e exportação”, afirmou.
O modelo SBEs é focado em usar e restaurar ecossistemas de forma sustentável, e apoiar populações indígenas e comunidades tradicionais. As SBEs vão desde o ecoturismo, a colheita e processamento sustentáveis de produtos produtos florestais não madeireiros em alimentos, bebidas, roupas e medicamentos.
“A COOPAVAM surgiu no assentamento Vale do Amanhecer, onde há uma reserva florestal comunitária. No início eles utilizavam apenas essa reserva para a coleta de castanha do brasil, mas com o crescimento da cooperativa, passaram a incluir as comunidades indígenas ao redor, que coletam em suas próprias terras. Isso faz com que a floresta em si gere renda para as comunidades, diminuindo a pressão sobre o desmatamento e mantendo a sustentabilidade do processo”.
Hoje, a operação da COOPAVAM envolve aproximadamente 400 pessoas, que têm como principal fonte de renda as atividades vinculadas à cooperativa, resultando em uma melhoria considerável em sua qualidade de vida.
“Pelo seu histórico de atuação, a UFMT tem papel central nesse projeto, tanto na articulação, para que houvesse apoio de outros parceiros, quanto na aproximação com a COOPAVAM. Tudo isso foi construído em diálogo constante, que é outro aspecto fundamental das SBEs, a salvaguarda dos processos decisórios das comunidades envolvidas”.
No artigo publicado na revista Nature Ecology and Evolution, os pesquisadores apresentam recomendações e salvaguardas para o desenvolvimento das SBEs. Sob um modelo de SBEs, os subsídios governamentais seriam direcionados para o desenvolvimento sustentável. Eles também descrevem como construir conexões entre políticas rurais e urbanas nas SBEs.
Outras mudanças políticas que poderiam dar suporte a um modelo SBEs incluem redirecionar o financiamento para atividades de conservação e restauração, apoiar empreendimentos comunitários e garantir processos participativos para garantir benefícios inclusivos e de longo prazo.
“É possível ter uma economia forte e que funcione para todos quando ousamos desenvolver novos modelos e visões que reconheçam a interconexão entre pessoas e natureza”, disse Garrett. “Ao popularizar essas ideias, investir em pessoas e empresas que estão fazendo a diferença e apoiar a pesquisa em inovação, podemos apoiar uma transformação tanto na conservação quanto no desenvolvimento na Amazônia”.
“O modelo SBEs pode ajudar a proteger a Amazônia e seu povo, evitando desastres climáticos e de biodiversidade, mas é preciso haver vontade política para que isso aconteça.”