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Como famílias de artesãos do Acre sobrevivem usando técnicas milenares com cerâmica

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Carlos Afonso Januário de Souza chegou à Funbesa aos 11 anos e hoje é o artesão-mestre do local. Foto: Yuri Marcel/g1 Acre

Mãos habilidosas moldam o barro e com movimentos certeiros dão forma e vida a ele. A precisão é resultado de uma vida inteira dedicada a um ofício com aproximadamente dez mil anos de história.

Carlos Afonso Januário de Souza, 53 anos, é atualmente o artesão-mestre da Casa do Ceramista Funbesa, em Rio Branco. Quando ele chegou ao local, porém, era apenas uma criança.

“Eu vim para cá com 11 anos de idade. Antigamente aqui tinha de tudo, colônia de férias, área de lazer, tinha a parte de cursos e quando eu completei 12 anos comecei a fazer o curso de cerâmica e nunca mais parei”, conta.

Fundação de Bem Estar Social

Instalada em 1968, no bairro Estação Experimental, uma região histórica da capital acreana que renderia muitos contos à parte, a Fundação do Bem Estar Social (Funbesa) recebia originalmente menores infratores, internos da Fundação para o Bem Estar do Menor (Febem) em projetos de reabilitação e aprendizagem profissional.

O local era gerido pela Legião Brasileira de Assistência (LBA) um órgão assistencial ligado ao Ministério do Trabalho e Previdência Social, entre 1969 e 1977, e depois ao Ministério da Previdência Social, de 77 até 1990.

Com o passar dos anos, a Funbesa ampliou sua base de assistência social e passou a atender também famílias em situação de vulnerabilidade social em projetos que incluíam oficinas de artesanato, corte e costura, panificação, cabeleireiro, esportes e outros.

O ícone botafoguense e da Seleção Brasileira, Mané Garrincha, foi um dos atletas que chegaram a vir ao Acre para jogar na Funbesa em um evento promovido pela LBA.

E foi nesse contexto que Souza chegou à Funbesa em 1981. “Esse local acolhia muitas pessoas carentes, como era o caso da minha mãe, que trouxe a gente pra cá. E a gente foi ficando”, lembra.

O jogador Garrincha chegou a participar de evento na Funbesa. Foto: Reprodução

Com o passar dos anos, os antigos instrutores foram se aposentando e o governo acabou contratando os antigos alunos para assumir os cursos.

Apesar de ainda existir oficialmente até hoje. Desde meados da década de 90, a Funbesa passou a ter suas funções incorporadas por outras secretarias, como a de Assistência Social. No começo dos anos 2000, o coletivo de artesãos passou a atuar de forma independente. A procura pelos cursos da instituição, todavia, continuava.

“Tinha uma demanda grande de pessoas carentes, de bairros adjacentes e outros, procurando os cursos. Foi quando os artesãos tiveram a ideia de ajudar a viabilizar novos cursos”, conta Ana Cleide da Silva Paiva que é responsável por administrar o setor de artesanato da Funbesa há mais de 20 anos.

Ana Cleide trabalha com os artesãos da Funbesa há mais de 20 anos. Foto: Yuri Marcel/g1 Acre

O governo do Estado logo concordou com a ideia e os cursos foram retomados.

“Eu fui até acusada, na época, de separar casamentos. Porque tinham muitas mulheres que apanhavam dos maridos, passavam por mil e uma situações e chegavam aqui contando as histórias e eu dizia pra elas fazerem os cursos e ganharem o próprio dinheiro”, lembra.

Foto: Reprodução/Acervo Funbesa

De estudante a mestre


Embora eles não tenham certeza dos números, acreditam que mais de uma centena de pessoas tenham sido formadas nos cursos da Funbesa. Incluindo aí artesãos, que assim como os vasos de cerâmica, Afonso também ajudou a criar.

Parcerias foram feitas com prefeituras de Cruzeiro do Sul, Brasiléia, Sena Madureira e Feijó e galpões chegaram a ser construídos nessas cidades para formar novos artesãos.

Parte desses projetos, entretanto, acabaram não indo adiante para tristeza do artesão.

Carlos Gabriel, filho do artesão-mestre, quer seguir os passos do pai. Foto: Yuri Marcel/g1 Acre

Legado em casa

O legado do mestre, porém, está salvo dentro de casa. O filho dele, Carlos Gabriel, de 23 anos, que assim como o pai começou a frequentar a oficina de cerâmica desde a infância, agora trabalha junto com ele.

“Eu venho pra cá desde os oito anos. No começo era só para brincar, fazer bolas, bolinhas de cerâmica. Aí fui continuando, pegando gosto”, conta.

Ele sabe, no entanto, que tem um longo caminho pela frente para alcançar o nível de precisão do pai.

“Eu ainda tô na fase de desenvolvimento. É meio difícil, porque tem que ter a prática na mão. Tem que ter a mão leve. O cara se sente realizado quando uma peça dá certo, mas tem que ir praticando até uma hora conseguir”, diz ele, que espera um dia virar artesão-mestre como Souza.

Artesãos fabricam cerâmica na Funbesa há mais de 40 anos. Foto: Yuri Marcel/g1 Acre

Produção

Apesar dos avanços tecnológicos, o processo de produção de objetos de cerâmica não mudou muito desde o período Neolítico. Assim como faziam os artesão da Mesopotâmia, onde estão os registros arqueológicos mais antigos do uso do material, os artesãos da atualidade ainda dependem da argila, do fogo e da própria habilidade e criatividade.

O material que os artesãos usam na Funbesa é coletado na região do Barro Alto, também em Rio Branco. Depois de separado e amassado, a argila precisa descansar por ao menos uma semana e o processo todo até o produto ser finalizado leva ao menos duas semanas.

“Mas tem artesão que faz até 100 peças por dia, dependendo do tamanho delas”, explica.

Mas a produção também tem desafios. Durante a seca histórica de 2024, os artesãos perderam parte da produção, já que o tempo seco prejudicava a secagem da peças. “Eles tinham que jogar água no chão da oficina para manter a umidade. Às vezes, de 50 peças se salvavam 20, porque secavam de forma errada e se quebravam”, explica Ana Cleide.

Na oficina são fabricados vasos, utensílios domésticos, pratos e até mesmo lembranças para festas de aniversário.

Ana Cleide ressalta ainda que toda a produção é sustentável, já que toda a madeira para a fornalha é reciclada. Além disso, o forno, construído de forma especial, libera poucos gases poluentes na atmosfera. “Um fiscal do Instituto de Meio Ambiente já veio aqui checar e emitiu um laudo comprovando que não há poluição”, salientou.

Artesãos compram madeira descartada para alimentar fornalha. Foto: Yuri Marcel/g1 Acre

Artesanato pelo mundo: Canadá, China e até Japão

E as peças que podem custar de R$ 8 a até mais de R$ 100, dependendo da complexidade, ganharam o mundo.

Como o espaço é administrado pelo governo do Acre tem espaço cativo nos eventos produzidos por ele. Além disso, o material e os expositores são sempre incentivados a participar de feiras de artesanato Brasil afora.

“Meu serviço já me levou em muitos cantos. Já tive em Vitória, em Brasília e em um bocado de locais através da cerâmica”, enfatiza.

Construídas de forma especial, chaminés da oficina são menos poluentes. Foto: Yuri Marcel/g1 Acre

As peças produzidas por Carlos Afonso já atravessaram até o mesmo continentes. “Tem material meu que está no Japão. Eu acho legal, mas não me sobe muito a cabeça isso não” conta ele.

Todo o lucro obtido pela venda das peças produzidas é dividido entre os artesãos. Segundo o mestre, em média cada um deles consegue receber até um salário mínimo e meio.

“A gente não pode deixar de dar essa ênfase para o Estado porque estamos aqui nesse espaço. Os artesãos têm total sustentabilidade para sobreviver desse material e 100% das vendas é repassado para eles”, enfatiza.

Atualmente sete artesãos trabalham no local de forma fixa e sustentam as famílias com o ofício. Há ainda outros que atuam no local de forma esporádica.

E o artesão-mestre é enfático quando questionado se gostaria de ter outra carreira. “Eu gosto mesmo. Não tem outra profissão, eu escolhi essa”, finalizou.

Sete famílias vivem da renda do artesanato produzido na Funbesa atualmente. Foto: Yuri Marcel/g1 Acre

*Por Yuri Marcel, da Rede Amazônica AC

Aumento global das temperaturas ameaça ecossistemas como a Amazônia e pode provocar colapso, aponta relatório

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Foto: Divulgação/Future Earth

O aumento das temperaturas globais torna nosso planeta cada vez mais inabitável e está perturbando processos vitais nos oceanos, levando a Amazônia ao limite de um colapso em grande escala e colocando em risco uma geração ainda não nascida, aumentando as chances de complicações na gravidez e até mesmo de perdas. Essa é uma das conclusões do relatório anual ‘10 Novos Insights em Ciência Climática’, lançado no dia 28 de outubro pela The Earth League, um consórcio internacional de cientistas e especialistas em clima.

O trabalho revela o impacto avassalador das mudanças climáticas, que podem reverter décadas de progresso em saúde materna e reprodutiva, contribuir para eventos de El Niño mais extremos e causadores de prejuízo, além de ameaçar a Amazônia, um dos mais importantes sumidouros naturais de carbono, juntamente com outros sete insights climáticos cruciais.

O relatório abrange uma gama de pesquisas climáticas e foi elaborado para subsidiar os formuladores de políticas com o conhecimento mais recente disponível. As informações científicas foram sintetizadas para destacar as implicações políticas que podem orientar as negociações na COP29, que ocorre em novembro, no Azerbaijão, e direcionar as políticas nacionais e internacionais.

“O relatório revela o alcance dos impactos da mudança do clima em diferentes sistemas ecológicos, econômicos e sociais. Com menos ambientes habitáveis, a migração de populações pode se intensificar. Também existe um impacto importante na saúde materna, que pode perdurar por gerações”, afirma Mercedes Bustamante, professora da UnB (Universidade de Brasília) e membro do conselho editorial da publicação.

Segundo ela, no Brasil, há uma articulação entre as ações do país para reduzir o desmatamento e a degradação da Amazônia e as iniciativas internacionais para diminuir as emissões de gases de efeito estufa, que afetam o bioma de forma sinérgica. Apesar dos desafios globais em intensificação, ela ressaltou que há um conjunto de políticas e soluções que podem ser implementadas para enfrentar as mudanças climáticas de maneira eficaz. Diante das ameaças à saúde materna, essas soluções integram, por exemplo, ações de equidade de gênero e justiça climática.

O relatório também destaca dois grandes desafios para o mundo natural. O aquecimento dos oceanos persiste e os recordes de temperatura da superfície do mar continuam a ser quebrados, levando a eventos de El Niño mais severos do que se compreendia anteriormente. Segundo o relatório, as perdas econômicas globais adicionais projetadas devido ao aumento na frequência e intensidade do El Niño, resultante do aquecimento global, podem chegar a quase 100 trilhões de dólares ao longo do século 21.

A série ‘10 Novos Insights em Ciência Climática’, lançada com a UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas) nas COPs desde 2017, é uma iniciativa colaborativa da Future Earth, da The Earth League e do Programa Mundial de Pesquisa Climática, sintetizando os principais desenvolvimentos recentes na pesquisa sobre mudanças climáticas. O relatório deste ano representa o esforço coletivo de mais de 80 pesquisadores de destaque, provenientes de 45 países.

Veja os 10 insights:

Metano: Desde 2006, os níveis de metano aumentaram drasticamente. Já existem soluções econômicas, mas políticas rigorosas são necessárias para reduzir suas emissões nos setores de combustíveis fósseis, resíduos e agricultura.
Poluição do ar: A redução da poluição atmosférica melhora a saúde pública, mas afeta o clima de forma complexa, exigindo que as estratégias de mitigação e adaptação levem isso em consideração.
Calor extremo: Temperaturas e níveis de umidade crescentes estão tornando partes do planeta inabitáveis. Planos de ação contra o calor precisam priorizar os grupos mais vulneráveis.
Saúde materna e reprodutiva: Extremos climáticos estão prejudicando a saúde materna, ameaçando décadas de progresso. Soluções precisam integrar equidade de gênero e justiça climática.
Mudanças nos oceanos: O aquecimento dos oceanos agrava eventos de El Niño e ameaça a estabilidade de sistemas marinhos, podendo causar perdas econômicas globais massivas.
Resiliência da Amazônia: A diversidade biocultural ajuda a Amazônia a resistir às mudanças climáticas, mas essas ações locais precisam ser complementadas por reduções globais de emissões.
Infraestruturas críticas: Infraestruturas estão cada vez mais vulneráveis a desastres climáticos. Ferramentas de IA podem ajudar a torná-las mais resilientes.
Desenvolvimento urbano: Poucas cidades integram mitigação e adaptação em seus planos climáticos. Uma abordagem que combine fatores sociais, ecológicos e tecnológicos pode ajudar no desenvolvimento resiliente.
Minerais de transição energética: A demanda por minerais de transição está aumentando, assim como os riscos na cadeia de suprimentos. Melhor governança é essencial para uma transição justa.
Justiça climática: A aceitação pública das políticas climáticas depende de sua percepção de justiça. A exclusão dos cidadãos no processo de formulação pode gerar resistência.

*Com informações da Agência Bori

Protótipo de carro elétrico é desenvolvido por estudantes no Mato Grosso

Foto: Reprodução/UFMT

Já circula pelos corredores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) o protótipo de carro elétrico desenvolvido pelo projeto de extensão OHMEGA, vinculado ao departamento de Engenharia Elétrica, vinculado a Faculdade de Arquitetura, Engenharia e Tecnologia (FAET), que tem como principal finalidade promover a eletromobilidade na região com o desenvolvimento do protótipo como seu principal foco.

Na parte elétrica o dimensionamento ocorreu por meio de um alternador doado por um professor do curso de engenharia elétrica, mas que passou por modificações internas para funcionar como um motor.

O desenvolvimento do protótipo foi realizado por discentes em sua maioria do curso de Engenharia Elétrica sob a orientação da docente Camila Fantin e de outros professores do curso que ajudaram nas decisões.

O principal obstáculo no início foi financeiro, com a realização através da doação de uma metalúrgica, de um professor e de rifas promovida pelos envolvidos para arcar as despesas.

Fantin destaca a importância de projetos como este na Engenharia Elétrica:

Segundo Fantin, o projeto serve como plataforma de aprendizado aos estudantes. A professora explica que“o projeto tem o plano de continuar aprimorando o protótipo com a meta de torná-lo competitivo na Fórmula SAE Brasil (competição voltada para os estudantes de Engenharia).

*Com informações da UFMT

Agricultura familiar é foco do Projeto Gaia, que promove alimentos agroecológicos no Mato Grosso

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Foto: Divulgação/Projeto Gaia

No norte de Mato Grosso a agricultura familiar e a agroecologia movem o trabalho de professores alunos que atuam no Projeto Gaia que é iniciativa de vários órgãos públicos e privados. O projeto iniciou no ano de 2019 com o propósito de realizar ações para o consumo, produção e comercialização de alimentos orgânicos e agroecológicos voltados para a agricultura familiar em locais urbanos e periféricos da cidade de Sinop no Mato Grosso.

O Gaia é um projeto de extensão no Instituto de Ciências Naturais, Humanas e Sociais (ICHS), que além do desenvolvimento do projeto pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), tem a Universidade Estadual de Mato Grosso (UNEMAT), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa-MT). A Escola Técnica Estadual de Sinop (ETE) apoia o desenvolvimento do projeto, coordenado pela professora, Rafaella Teles Arantes Felipe, do ICNHS.

É premissa do projeto levar comida saudável para as pessoas, deste modo o Gaia busca oferecer a produção de alimentos de forma sustentável e assim criando uma rede de cooperação para a produção dos alimentos e principalmente a melhoria da alimentação no campo e na cidade. “Um dos seus objetivos é colaborar na disseminação das práticas agroecológicas junto à comunidade interna e externa da UFMT, como alternativa para a redução das desigualdades sociais, para produção de alimentos saudáveis e melhoria da saúde e da qualidade de vida no campo e na cidade”, enfatizou a professora.

Dentro do campus da UFMT em Sinop, o projeto está presente na grade acadêmica o Gaia é vinculado ao ensino na disciplina optativa de Agroecologia. No que se refere às outras áreas que o projeto atua, se destaca a Unidade de Aprendizagem em Sistema Agroflorestal e Agroecológico. “Essa área visa atuar com acadêmicos e a comunidade externa, com atividades práticas de manejo, de plantio e produção de bio-insumos”, explica Rafaella Felipe.

Projeto atua no apoio a agroflorestas com planejamento participativo

Existe outra área de atuação do projeto que é Unidade de Referências Tecnológica em Sistema Agroflorestal. “Nessa unidade é desenvolvido o projeto de pesquisa, um projeto multidisciplinar com vários professores que estão envolvidos com atividades de análises de solo, irrigação e também parte de pós-colheita, essa é a parte que trabalhamos com os três critérios com ensino, pesquisa e extensão”, ressalta a professora .Atualmente são atendidas 13 famílias pelo projeto. Os agricultores são atendidos fora da UFMT.

Além das famílias assistidas em Sinop existe um assentamento em Cláudia-MT, na cidade de Cláudia são atendidas 6 famílias.

Para a preparação dos plantios primeiramente é realizado um planejamento participativo. De acordo com a coordenadora do projeto “a partir desse planejamento é feito um levantamento e ver como é a cultura da família, a rotina e o que ela gostaria de produzir, então é feito um modelo de sistema agroflorestal para aquela família e depois realizamos a análise de solo, se necessário fazemos a correção com calagem (atividade para diminuir a acidez do solo e melhorar o desenvolvimento da planta) e os insumos usados nos plantios são apenas os liberados para agricultura orgânica”.

Os agricultores além de produzir para o sustento, também vendem uma parte da produção. A professora explica que “a agroecologia não vive sem a parte financeira e que é necessário desmitificar isso, a produção é comercializada em feiras e para a merenda escolar, através da política pública do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA)”.

Ela ainda enfatizou que “o esforço do Gaia foi de sempre fortalecer a comercialização desses produtos para que as famílias tenham uma renda digna”.

O projeto tinha apoio do Programa REM-MT, como ação do governo da Alemanha e do Reino Unido, com intermédio do Banco Alemão de Desenvolvimento (KfW), para o estado do Mato Grosso devido à redução de desmatamento no estado. Segundo Rafaella Felipe, “o apoio financeiro do REM-MT iniciou em novembro de 2020 e encerrou em novembro de 2023 e o aporte financeiro ao Gaia foi de R$1,5 milhões”. “Atualmente o projeto tem apoio de uma emenda federal da ex-deputada federal, Rosa Neide (PT), explicou a professora”.

Algumas atividades realizadas pelo Projeto Gaia desde 2019

O portfólio do projeto Gaia de 2019, 2020 e 2021 aponta atividades do projeto como o atendimento a agricultores familiares, urbanos e periurbanos; fortalecimento da Rede de Cooperação para a produção, comercialização e consumo de alimentos saudáveis através de novas parcerias de âmbito regional. O projeto também atua no auxílio na implantação e manutenção de hortas escolares; atividades educacionais com foco na sensibilização de crianças, jovens e adultos sobre a importância da alimentação saudável; formação de acadêmicos como multiplicadores das práticas sustentáveis de produção de alimentos.

Também está no rol de atividades do projeto a implantação de um Sistema Agroflorestal na UFMT, Campus de Sinop, para capacitação de acadêmicos, agricultores e da comunidade em geral; Atendimentos na área de agricultura de base agroecológica junto às famílias agricultoras (rurais, periurbanas e urbanas) e a sensibilização dos consumidores sobre a importância da alimentação saudável e de produção local. O Gaia atua ainda no fortalecimento da Rede de Cooperação para a produção, comercialização e consumo de alimentos saudáveis através de novas parcerias de âmbito regional; auxílio na implantação e manutenção de hortas escolares e da primeira Horta Comunitária de Sinop; entre outras atividades.

Sobre a mudança de vida das pessoas com relação ao projeto, a professora indicou o vídeo, Projeto Gaia – Pela perspectiva dos camponeses e das camponesas. Para ela, essa perspectiva mostra o quanto o Gaia pode ter mudado a vida com a agroecologia.

Projeto Gaia – Pela perspectiva dos camponeses e das camponesas:

*Com informações da UFMT

COP 16: quilombolas comprovam papel de territórios para conservação da Amazônia

Foto: Ester Cezar/ISA

Durante participação na 16ª Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade (COP 16), em Cali, Colômbia, a Coordenação Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) apresentou dados que comprovam o papel dos territórios dessas populações tradicionais na conservação da diversidade biológica da Amazônia.

De acordo com eles, de 2003 a 2022 os quilombos perderam apenas 1,4% de florestas, ou 82% a menos que o entorno, segundo análise do Instituto Socioambiental (ISA). A conservação e a regeneração da vegetação nativa nessas áreas também são maiores do que nas áreas privadas.  

Atualmente existem 112 territórios quilombolas que estão localizados em áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade, segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

Clique aqui e baixe o material produzido pelo ISA em parceria com a Conaq

Foto: Reprodução/ISA

Os dados foram apresentados na mesa de debates “Territórios Quilombolas na Defesa da Vida e da Biodiversidade na Amazônia”, no dia 21, que também contou com a participação do ISA e do Processo de Comunidades Negras da Colômbia (PCN). O evento aconteceu na chamada “Zona Verde” da COP, onde ocorreram atividades paralelas da sociedade civil. 

Para ela, o espaço da COP 16 é essencial para expor as agressões ao bioma e aos seus povos tradicionais. 

Titulação garante mais proteção

Ainda de acordo com a análise do ISA, a regularização fundiária é essencial para garantir a preservação dos territórios quilombolas e da biodiversidade na Amazônia. As áreas tituladas, ou seja, com a regularização concluída, apresentaram 12% de carbono florestal a mais do que as não tituladas.

No entanto, dos 506 territórios quilombolas com limites oficialmente reconhecidos em toda a Amazônia brasileira, apenas 116 estão titulados e 390 estão em alguma das fases anteriores à titulação. Os dados são do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), do  Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural (Sicar). 

(E-D) Kátia Penha, da coordenação da Conaq; Raquel Pasinato, do ISA; e Valéria Carneiro, da coordenação da Conaq. Foto: Ester Cezar/ISA

“Se as comunidades ainda não têm o domínio fundiário dos territórios, eles ficam ameaçados pelo agronegócio, exploração minerária, pecuária extensiva e tantos outros usos que ameaçam a biodiversidade, exaurindo os recursos naturais e trazendo impactos socioambientais para nossa sociobiodiversidade. Por isso, titular é proteger!”, enfatizou. 

Quilombos ainda são invisíveis

Os territórios quilombolas titulados somam 8,9 mil km², o que representa apenas 30% dos 28 mil km² desse tipo de área protegida já oficialmente identificado na Amazônia brasileira ‒ 1 km² é igual a mais ou menos 100 campos de futebol. Para se ter uma ideia, os quilombos oficialmente identificados representam apenas 0,4% dessa região, que soma cerca de 5 milhões km². 

É preciso ressalvar ainda que 79% desses territórios não tiveram limites reconhecidos oficialmente na Amazônia brasileira, ou seja, permanecem invisíveis nas bases de dados oficiais e, logo, impedidos de se beneficiar com políticas públicas e ainda mais vulneráveis a pressões e ameaças, como o desmatamento ilegal e o roubo de terras.

“Não existe população quilombola sem território, sem biodiversidade”, afirmou Fran Paula, quilombola do Pantanal de Mato Grosso, integrante do coletivo de Meio Ambiente e Agricultura da Conaq e pesquisadora em agrobiodiversidade.

Fran destacou que o reconhecimento dos povos quilombolas para a conservação da biodiversidade “não é só como sujeitos de direitos, mas da nossa trajetória de luta, de resistência, de organização social. Há muito processo de articulação e mobilização de todos nós que estamos aqui, mas também de todas as pessoas que vieram antes da gente e que lutaram, inclusive, para que a gente pudesse estar hoje ocupando esse espaço na COP16”, finalizou. 

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo ISA, escrito por Ester Cezar

Atraso na desova de tartarugas em Rondônia por causa das queimadas pode fazer filhotes se afogarem

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Foto: Reprodução

As queimadas em Rondônia causaram o atraso de quase dois meses na formação dos ninhos de tartarugas às margens do rio Guaporé, entre os municípios de Costa Marques e São Francisco do Guaporé, na fronteira com a Bolívia. As equipes de monitoramento temem que os filhotes ainda não estejam prontos quando as chuvas começarem a cair e o nível do rio voltar subir.

Normalmente a desova das tartarugas-da-amazônia ocorre entre agosto e setembro. O período até a eclosão dura, em média, 60 dias. Com o atraso na desova, o risco, agora, é que o nascimento dos filhotes coincida com o período de chuvas e os ovos, enterrados na areia, fiquem soterrados e elas não consigam subir até a superfície para respirar.

Segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o tabuleiro de desova do rio Guaporé é o maior do país. As tartarugas se espalham por quatro praias: Ilha, Alta, Suja e Tartaruguinha.

Deyvid explica que a fumaça alterou a temperatura e a luminosidade do ambiente, impossibilitando a criação do “cenário ideal” para a desova das tartarugas no período regular.

Somente com a redução dos focos de calor, em outubro, as tartarugas se deslocaram até a praia para depositar os ovos. Com o período de cheias dos rios se aproximando, existe o risco de que a água alcance os ninhos antes que os filhotes estejam prontos.

“O fenômeno de mortalidade de filhotes já ocorre em períodos normais, mas costuma afetar apenas uma pequena quantidade. No entanto, neste cenário atual, o atraso na desova causado pelas mudanças climáticas pode resultar em um aumento significativo dessas mortes”, revela o biólogo.

Foto: Divulgação

O ciclo das tartarugas e seus desafios

As tartarugas que desovam às margens do rio Guaporé, entre os munícipios de São Francisco do Guaporé e Costa Marques, na fronteira com a Bolívia, e se espalham pela região em busca de alimento, mas sempre voltam ao mesmo local para reproduzir. Segundo o biólogo Deyvid Muller, esse comportamento é vital para a preservação da espécie.

“Elas retornam ao local onde nasceram, assim como as tartarugas marinhas. Se o ambiente mudar, como com o avanço da civilização, isso pode comprometer a desova”, explicou.
Segundo o especialista, o atraso deste ano pode resultar, inclusive, no desequilíbrio da proporção de machos e fêmeas.

A ONG Ecovale, com apoio de prefeituras e instituições locais, segue monitorando os ninhos até o fim de dezembro. Além do trabalho de monitoramento, a ONG promove ações de conscientização, como eventos de soltura de filhotes, que visam sensibilizar a população sobre a importância da preservação das tartarugas da Amazônia.

*Por Caio Pereira, da Rede Amazônica RO

Rio Amazonas volta a secar e registra novo recorde histórico em Itacoatiara

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Foto: Liam Cavalcante/Rede Amazônica AM

Após um período de leve subida, entre os dias 13 e 24 de outubro, o nível do Rio Amazonas baixou 46 centímetros nos últimos sete dias, chegando a marca de -17 centímetros na quinta-feira (31). Este é o menor nível já registrado na história pela Defesa Civil no município de Itacoatiara, interior do Amazonas.

O estado vive a pior seca em termos de impactos econômicos e sociais. Segundo a Defesa Civil do Amazonas, mais de 800 mil pessoas estão sendo afetadas pelo baixo nível dos rios e os prejuízos já ultrapassam R$620 milhões em 2024. Todas as cidades do estado estão em situação de emergência.

Em Itacoatiara, o recorde anterior havia sido registrado em 13 de outubro deste ano, quando o rio atingiu -0,11 metros, de acordo com o Serviço Geológico do Brasil (SGB). Desde então, o nível oscilou devido ao fenômeno conhecido como ‘repiquete’, típico dos rios da região amazônica, em que as águas sobem e descem, como uma espécie de efeito sanfona.

Leia também: Rio Amazonas chega ao menor nível já registrado em Itacoatiara, no Amazonas

A seca deste ano tem afetado fortemente a zona rural do município, onde dezenas de comunidades estão em situação de isolamento. De acordo com a Defesa Civil do Amazonas, mais de 28 mil pessoas foram impactadas pela seca em Itacoatiara. O órgão também informou que segue enviando ajuda humanitária aos ribeirinhos.

Foto: Liam Cavalcante/Rede Amazônica AM

Cenário do estado

No contexto hidrológico, as calhas dos rios Alto, Médio e Baixo Solimões, Médio e Baixo Amazonas, Madeira, Purus e Rio Negro apresentam níveis baixos e municípios registram cotas mínimas históricas entre setembro e outubro.

Nesta quinta-feira (31), em Manaus, o Rio Negro atingiu a marca de 12,18 metros. Este ano, a capital registrou o nível mais baixo do rio, quando as águas atingiram a marca de 12,11, no dia 9 de outubro.

O registro de subida do nível dos rios nas principais localidades do estado nos últimos dias, no entanto, não representa o fim da seca, afirma o Serviço Geológico Brasileiro (SGB), atribuindo o fato ao repiquete.

Ainda segundo o SGB, para que o ciclo de cheia seja iniciado é necessário que haja chuvas consistentes e bem distribuídas, tanto nas regiões de cabeceira quanto na parte central da Bacia Amazônica. A previsão é que isso ocorra nas próximas semanas.

*Por Liam Cavalcante e Juan Gabriel, da Rede Amazônica AM

Amazônia Protege: Justiça aceita pedidos do MPF e condena réu a pagar R$ 1,2 milhão por desmatamento no Pará

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A Justiça Federal aceitou pedidos do Ministério Público Federal (MPF) e obrigou o réu Antônio José Junqueira Vilela Filho a pagar R$ 1,2 milhão em indenizações por desmatamento em Altamira, no Pará. O condenado foi processado judicialmente a partir de dados obtidos pelo projeto Amazônia Protege, iniciativa do MPF que alia tecnologia e ações jurídicas.

A condenação foi pela degradação de 134 hectares (cada hectare equivale a um campo de futebol), detectada por imagens de satélite em 2018. Outro condenado, Zelino Batisti, terá que pagar R$ 354 mil pelos danos.

Ambos também terão que recuperar a área desmatada, que teve o Cadastro Ambiental Rural (CAR) suspenso até que a recuperação seja concluída. Os condenados recorreram contra a sentença e aguardam decisão da Justiça Federal no Pará sobre os recursos.

Antônio José Junqueira Vilela Filho é réu também em outros processos, decorrentes da Operação Rios Voadores, realizada em 2016.

Amazônia Protege

O Amazônia Protege é um projeto idealizado pelo MPF que pretende combater o desmatamento ilegal na floresta amazônica brasileira. A iniciativa se destaca ao adotar uma metodologia de trabalho que utiliza imagens de satélite e classificações de dados públicos para identificar e combater desmatamentos ilegais. O projeto conta com a parceria do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e da Universidade Federal de Lavras (UFLA).

Por meio do uso de dados fornecidos pelo Projeto de Monitoramento do Desflorestamento na Amazônia Legal (Prodes), realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o MPF consegue identificar desmatamentos ilegais que ultrapassam 60 hectares. A partir dessas informações, instaura ações civis públicas contra os responsáveis e busca responsabilizá-los por danos ambientais e inibir a prática de novos desmatamentos.

Nas ações, o MPF pede o pagamento de indenizações relativas aos danos materiais e morais difusos causados pelo ilícito, com a reversão dos valores da condenação para os órgãos de fiscalização, além de recomposição da área degradada. Até o momento, já foram mais de 650 condenações obtidas.

*Com informações do MPF

COP16: integração é chave para converter desmatamento em conservação

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Foto: Reprodução/IPAM

Para transformar realidade de desmatamento em prática sustentável que conserva e restaura, é preciso integrar agendas, segundo perspectiva da Diretoria de Florestas, em especial da secretaria de Biodiversidade, do Ministério do Meio Ambiente e Mudanças do Clima do Brasil.

A fala foi dita durante o painel “O caminho para a COP30: criar um ambiente político favorável para desbloquear novas ações a nível da paisagem”, realizado na COP16 da Biodiversidade pelo WBCSD (World Business Council for Sustinable Development).

A diretora de florestas mencionou o PlanaVeg (Plano Nacional de Vegetação Nativa), lançado durante a Conferência, como uma política pública que exemplifica essa integra agendas. “Trouxemos o PlanaVeg e o programa de conversão de pastagens degradadas que também olha a propriedade rural como uma propriedade funcional, trazendo essa abordagem sistêmica e setorial de uso da terra do Plano Clima de Mitigação que é realmente isso: como reunir não desmatamento, restauração de 12 milhões de hectares com boas práticas”, explicou.

Para Gabriela Savian, diretora adjunta de Políticas Públicas do IPAM, uma governança territorial fortalecida conecta a implementação das políticas públicas, investimentos do setor privado e traz maior segurança para os investimentos nos territórios.

Richard Smith, Diretor Executivo do Instituto PCI (Produzir, Conservar, Incluir), de Mato Grosso, contribuiu com a perspectiva de governança nos territórios. “O PCI trabalha, justamente, estruturando e fortalecendo a governança no nível subnacional e também no nível local para que essas políticas públicas possam chegar nos municípios e na ponta”.

O Instituto trabalha no Estado de Mato Grosso com fortalecimento da política jurisdicional de REDD+, com venda de créditos de carbono de alta integridade, segundo Smith.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM, escrito por Sara Leal

COP16 cria órgão para indígenas e reconhece ação de quilombolas na preservação da natureza

Plenária de encerramento da COP16 da Biodiversidade, em Cali, na Colômbia. Foto: Reprodução/ONU Biodiversidade

A COP16 da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) aprovou na madrugada de sábado (2/11) a criação de um órgão subsidiário permanente para tratar dos direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais. Os quase 200 países reunidos em Cali, na Colômbia, também reconheceram pela primeira vez o papel das comunidades afrodescendentes, que no Brasil incluem os quilombolas, na preservação e no uso sustentável da natureza.

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“Adotamos uma decisão histórica e inédita que finalmente tira da invisibilidade as comunidades afrodescendentes que, com seus costumes, nos ajudam tanto a preservar a biodiversidade e a natureza, os bosques, os rios, e tudo aquilo de que dependemos”, disse a diretora de Meio Ambiente do MRE, Maria Angelica Ikeda, ao lado da ministra Marina Silva e do secretário-executivo do MMA, João Paulo Capobianco.

A ministra de Meio Ambiente da Colômbia e presidente da COP16, Susana Muhamad, destacou a parceria das delegações brasileira e colombiana, duas das principais responsáveis pelas negociações sobre o tema.

“Este é o segundo gol desta parceria da COP16 em Cali com a COP30 em Belém. Não estamos competindo como no futebol, mas estamos fazendo gols juntos”, afirmou a ministra colombiana.

O Brasil também coliderou os debates para a criação do órgão subsidiário para povos indígenas e comunidades locais, o que garantirá maior representatividade e participação aos grupos na conferência. A COP da Biodiversidade têm outros dois órgãos similares: um científico e outro focado na implementação de decisões.

Os acordos reforçam o Artigo 8(j) da CDB, que aborda conhecimentos tradicionais, inovações e práticas, e terá um novo plano de trabalho, com medidas para reforçar sua implementação.

Fundo de Cali

A COP16 aprovou ainda a criação do Fundo de Cali, mecanismo voluntário para a repartição de benefícios gerados pelo uso de recursos genéticos e da correspondente informação de sequência digital. O acordo também “convida” os países a tomarem medidas legislativas ou recorrerem a outros recursos para demandar as contribuições.

Na prática, o fundo servirá para compartilhar os benefícios de um determinado conhecimento com quem o originou. As regras aprovadas indicam que companhias farmacêuticas, de cosméticos e de suplementos alimentares, entre outras empresas que se beneficiam comercialmente do uso desses materiais, devem contribuir com 1% do lucro ou 0,1% da receita.

O mecanismo abre exceções para pesquisas acadêmicas, de instituições públicas e organizações que usam as informações de sequência digital, mas não se beneficiam financeiramente delas. A expectativa é que ao menos metade dos recursos do fundo apoie povos indígenas e comunidades locais, seja por meio de governos ou por pagamentos diretos via instituições selecionadas por povos indígenas e comunidades locais.

Entre outros pontos, a conferência decidiu também adotar um novo processo para a identificação de áreas marinhas ecológica ou biologicamente significativas (EBSAs, na sigla em inglês), que são as partes mais críticas e vulneráveis do oceano. A resolução ajudará no processo de reconhecimento de áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade marinha com base nas informações científicas mais recentes.

Houve também acordo para que os países enviem propostas e temas de interesse para programas de trabalho conjunto entre as COPs da Biodiversidade, do Clima e de Combate à Desertificação. O secretariado da CBD irá compilar as sugestões para que sejam avaliadas e debatidas pelos países em reuniões futuras.

Sem acordo para novo fundo

A COP16, contudo, foi interrompida após os países ricos bloquearem a discussão sobre um novo fundo para a biodiversidade depois de mais de 20 horas de plenária final. A criação do mecanismo foi acordada há 32 anos, quando a CDB foi criada junto com as convenções do Clima e de Combate à Desertificação na Rio 92.

Até que o fundo para a biodiversidade, sob administração da COP fosse implementado, concordou-se que o Fundo Global de Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês), exerceria provisoriamente este papel. O arranjo, contudo, permanece há três décadas.

Países em desenvolvimento, que concentram a biodiversidade do planeta, demandam a criação de um novo instrumento, mais representativo de suas demandas e com governança paritária. No GEF, países em desenvolvimento precisam fazer rodízio de assentos, enquanto as nações doadoras têm assentos fixos. Dezesseis países africanos têm um voto, por exemplo, e Brasil e Colômbia — os dois países com mais biodiversidade no planeta — dividem uma cadeira com o Equador.

Além disso, os países em desenvolvimento defendem o cumprimento do compromisso dos países desenvolvidos de doar US$ 20 bilhões ao ano até 2025 para a proteger a biodiversidade e reverter sua perda. O valor doado até o momento não chega a 2% do prometido.

A delegação brasileira pediu a palavra após representantes de países e blocos desenvolvidos rejeitarem o texto apresentado pela presidência da COP.

A diplomata questionou o porquê de discussões relacionadas ao orçamento da CDB e indicadores de monitoramento quando os países ricos recusam-se a debater os meios necessários para implementar as metas da convenção:

“Tínhamos que começar a fazer essas discussões no começo da COP. Temos que ter decisões que garantam, pela primeira vez, os recursos que precisamos. E depois podemos discutir as obrigações”, disse Ikeda. “Minha delegação não está pronta para discutir nada mais até tivermos uma solução para isso”, completou, sob aplausos de países em desenvolvimento.

A delegação panamenha, em seguida, pediu uma contagem do quórum, que não chegou aos dois terços necessários para que a COP continuasse. A conferência foi suspensa até uma data futura.

A delegação brasileira na COP16 foi liderada pela ministra Marina Silva e, além do MMA, teve participação de representantes dos ministérios das Relações Exteriores, dos Povos Indígenas, da Igualdade Racial, entre outros órgãos federais.

*Com informações do MMA