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Documento orienta sobre impactos da seca na região do Médio Solimões

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Fotos: Caroline Reucker/IDSM

Para orientar gestores sobre a chegada antecipada da seca extrema em 2024 na região do Médio Solimões, interior do estado do Amazonas, o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM) lançou um documento com recomendações, produzido a partir das Oficinas Pré-Seca, realizadas pela unidade vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, município de Maraã. O material foi elaborado em parceria com a Central das Associações de Moradores e Usuários da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã (CAMURA) e a Federação dos Manejadores e Manejadoras de Pirarucu da Região de Mamirauá (FEMAPAM).

O documento “Secas na Reserva Amanã: Soluções de comunitários para a crise climática no Médio Solimões – Orientações para gestores públicos” reúne 24 soluções para diminuir os impactos causados pela seca na região, abordando problemáticas como o acesso à água, infraestrutura, produção agrícola e pesqueira, saúde, alimentação e educação durante estiagens.

“A gente tem, nesse momento, centenas de milhares de pessoas afetadas em toda região amazônica em decorrência da estiagem severa e recorde”, pontuou o porta-voz em Mudanças Climáticas do IDSM, Ayan Fleischmann.

Fotos: Caroline Reucker/IDSM

Durante as oficinas, 51 lideranças comunitárias de seis setores da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã se reuniram para apresentar soluções. Dentre as ações propostas pelos comunitários, estão capacitação para tratamento emergencial de água do rio, distribuição de uma bomba d’água tipo sapo para cada comunidade, perfuração de poços artesianos em comunidades de terra firme.

Também entre as recomendações está a disponibilização, com antecedência, da cota de combustível fornecido por órgãos da administração pública para o período da seca, para ser usado no gerador de luz, a disponibilização de canoas de alumínio de 9 a 10 metros de comprimento, a solicitação de apoio do Exército e/ou Marinha (helicóptero e/ou lancha) para deslocar pessoas em estado grave de saúde e adaptação do calendário escolar para o período da seca.

“O nosso intuito com essa ferramenta é que ela seja uma voz, que a gente dê voz para os ribeirinhos, para que eles, nesse processo de cocriação de soluções, consigam incidir em políticas públicas para melhorar e para enfrentar os impactos da crise climática, não só neste ano, mas nos próximos anos que virão, enfatizou Ayan Fleischmann.

A seca de 2023 na região do Médio Solimões acarretou em dificuldades ao acesso à água, alimentos e à saúde,  escoamento da produção, entre outros desafios para os locais.

*Com informações do MCTI

Mudanças climáticas e segurança alimentar: para onde caminha a Amazônia?

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Foto: Mauro Neto/Secom AM

Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com

Impactos climáticos, aponta a ciência, são, por natureza, interdisciplinares e estão associadas a questões atinentes a temperaturas extremas, chuvas intensas ou ausência delas, tempestades severas, enchentes, secas, aumento do nível do mar ou derretimento do gelo, queimadas e incêndios ao longo da história e nas mais diversas regiões do globo. Questões expostas e que aguardam respostas dos nossos sistemas biológicos (agricultura, pesca, ecossistemas, saúde humana), dos sistemas tecnológicos (edifícios, transportes, indústrias e outros) e dos sistemas sociais (deslocamentos de comunidades, mudanças no uso da terra, competições por recursos).

O cientista Alex Ruane, pesquisador no Instituto Goddard de Estudos Espaciais da Nasa, a agência espacial norte-americana, onde codirige o Grupo de Impactos Climáticos, apresentou no final de agosto, na Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), a conferência “Mudanças Climáticas e Segurança Alimentar – dos Modelos às Avaliações e Soluções”. O Projeto de Intercomparação e Melhoria de Modelos Agrícolas foi criado para permitir o trabalho colaborativo que integre escalas e disciplinas com abordagens de profundidade, baseadas na força de uma rede coordenada de cientistas. Para ele, “grandes desafios resultantes das mudanças climáticas incluem a determinação de caminhos específicos para respostas aos impactos, em meio a riscos diversos. Por exemplo, entender como calor, seca, inundação e enriquecimento de CO2 afetam o milho, isoladamente e em combinação, o contraste entre os sistemas de milho e os aspectos únicos de outras culturas, como em relação à biodiversidade amazônica”.

Múltiplos estudos nos informam sobre os limites de tolerância, identificam pontos críticos de risco e fornecem metas e limites para a adaptação. Para Ruane, também precisamos entender como as comunidades responderão às mudanças climáticas: quantos anos ruins são necessários antes que ocorra uma mudança? Isso requer mais informações sobre valores, mecanismos para minimizar riscos (por exemplo, seguros, subsídios, cadeias de suprimentos diversificadas) e a psicologia da tomada de decisões sob incerteza. Quase todo tipo de aplicação climática resulta de um envolvimento antecipado e sustentado e da colaboração com as partes interessadas, assevera.

Para o cientista há, efetivamente, enorme necessidade de “mais pesquisas sobre como choques alimentares por exemplo, queda na produtividade devido à seca) surgem em uma determinada região e reverberam via mercados globais, afetando uma gama de consumidores vulneráveis”. E adverte: “há poucos modelos publicamente disponíveis de cadeias de suprimento do sistema alimentar, estoques e reservas de alimentos e estratégias de gerenciamento adaptativo, dado os alertas iniciais de choques alimentares, abrangendo intervenções de mitigação e adaptação climáticas que possam ser implementadas com sucesso, mantidas e apoiadas, para se tornarem aspectos permanentes de comunidades mais sustentáveis”.

Difícil, nas circunstâncias, obter respostas convincentes e pragmáticas sobre esses eventos sem estreita colaboração entre a comunidade de pesquisa, governos em múltiplos níveis, o setor privado e a sociedade civil. Problema que avulta na Amazônia pelo distanciamento, ausência de conectividade e de governança do sistema de ensino e pesquisa regional. Pesquisadores locais questionam se “o desenvolvimento social e econômico se sobrepõe ao ambiente, qual exatamente a explicação das mudanças climáticas ou se, a continuar o ritmo do desmatamento, caminhamos para um inevitável colapso?”. Evidentemente, as respostas a essas indagações cabem à própria ciência. E elas somente advirão vis-a-vis a capacidade de interconectividade e governança do próprio sistema, nas seguintes condições: coesos, agregados, confiantes no futuro, avançamos; dispersos, isolados, involuímos ou, no mínimo, estagnamos.

Sobre o autor

Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Museu da Associação Comercial do Amazonas: uma história que se perdeu no tempo

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Comendador J. G. Araújo assinando a Ata no lançamento da Pedra Fundamental da construção do edifício sede da Associação Comercial do Amazonas, 1939. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br

Em sociedades complexas, multiculturais e pluri étnicas, falar dos temas da cultura constituem um desafio enorme. Nessas sociedades, o desenvolvimento passa sempre necessariamente pelo respeito a construção dos museus e pelo exercício de novos direitos, dentre eles a responsabilidade da manutenção de uma história ali construída. E principalmente a memória, ao patrimônio e ao museu ali existente que fora abandonado e perdido em administrações anteriores lá atrás.

Os museus de origem particulares ou públicos são ou devem ser espaços preservados e privilegiados de uma Instituição. Naturalmente estou falando de um passado que não assumiu o desafio da manutenção daquela obra que era orgulho de nossa cidade. Pensá-los por este prisma significa também compreendê-los como lugar de direito de uma população e naturalmente como um lugar de inclusão cultural de nossa cidade.

Álvaro Botelho Maia assinando a Ata no lançamento da Pedra Fundamental da construção do edifício sede da Associação Comercial do Amazonas, 1939. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

É claro e evidente que falo das administrações que ficaram lá atrás. Entre os mais diferentes grupos culturais e sociais há uma nítida necessidade e uma vontade de preservação daquela memória, de patrimônio e de história não só da Associação Comercial do Amazonas, mas principalmente de uma cidade e de um povo.

Temos que entender que existe um publico exclusivo do turismo museológico. O Museu da Associação Comercial do Amazonas foi criado em sua época e mantido pela mesma instituição e naturalmente instalado no prédio da mesma.

Visita ao Museu da Associação Comercial do Amazonas, 1942. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Neste final de semana, ao remexer o meu acervo, fui reencontrar esse passado e naturalmente tentei encontrar respostas para as motivações que levaram naquela época essa respeitável instituição a desmontá-lo. Voltei ao passado com lembranças de velhas tardes ensolaradas aos meus dezenove anos quando trabalhava com propaganda médica lá buscava matar o tempo enquanto aguardava a chegada do Dr. Rayol dos Santos, cujo consultório era na mesma rua.

Para nós, o encontro desse universo é tecer lentamente os fios emaranhados e pacientemente trazidos à memória, procurando desatar os nós e reorganizá-los outra vez em formato de carretel que me transportava para dentro deste museu. Esse fato mostra a tessitura que passa cheias de recordações de um passado não muito distante que foram caminhos que atualmente percorremos e já não nos permite vislumbrar o mesmo espaço.

O lançamento da Pedra Fundamental da construção do edifício sede da Associação Comercial d Amazonas ocorreu no dia 21 de abril de 1939. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

O Museu da Associação Comercial do Amazonas era um acontecimento consagrado que rememorava sistematicamente a nossa Amazônia, projetando no imaginário social do seu visitante uma verdadeira viagem a tudo que se pudesse encontrar na Amazônia.

Associação Comercial do Amazonas 150 anos de História

O envolvimento do Brasil na Segunda Guerra Mundial como fornecedor de materiais estratégicos para os países aliados, trouxe para o primeiro plano dos interesses do governo de Getúlio Vargas uma economia de guerra. A Associação Comercial do Amazonas que por tantas vezes travou batalhas para a sustentação da nossa economia com o período do látex, via-se agora as voltas com o governo federal estimulando a emigração de nordestinos para a Amazônia, em especial para o Estado do Amazonas, fato que já houvera ocorrido tempos atrás.

Visita ao Museu da Associação Comercial do Amazonas, 1942. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Era novamente a descoberta do ouro negro que levara novamente e mão de obra nordestina para o seringal. A Batalha da Borracha, conforme ficou conhecido esse episódio, for administrada pela Comissão de Mobilização Econômica, organismo criado pelo presidente Getúlio Vargas para organizar a economia brasileira no período da guerra e, mediante o Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para Amazônia (Semta), serviço encarregado de garantir a migração para os seringais.

Esta instituição, criado na década de 1940, teve sua sede financeira instalada do Rio de Janeiro. Inicialmente sua sede de recrutamento instalou-se em São Luís do Maranhão e, mais tarde, em Janeiro de 1943, foi transferida para Fortaleza, no Ceará.

[…] As atividades de propaganda de Semta como órgão do governo encarregado do recrutamento e do encaminhamento de nordestinos para a Amazônia, tem como determinantes primários a economia de guerra, na qual a borracha, alçada a categoria de bem estratégico, sofre um processo brusco de valorização. A ocupação demográfica da Amazônia com intensidade em busca da mão de obra de nordestinos, cuja razões principais que incentivavam essa prática eram as secas constantes e a fragilidade e sua economia agrária. Essas bases constituem o cenário da Batalha da Borracha como episódio de guerra.¹

Visita ao Museu da Associação Comercial do Amazonas, 1942. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Em meio a tantos problemas que vivíamos no Estado do Amazonas, ainda em decorrência da queda da borracha, nossa economia procurava sua estabilidade por meio da exportação da sorva, breu virgem, resina de jutaicica, sarrapilha, piaçava, timbó, sumaúma munguba, guaraná, cumaru, cacau, jarina, puxuri, juta, artefatos de fibras, cipó titica, couros e peles, madeiras, em geral, andiroba, babaçu, bacaba, buriti copaíba e, etc.

Vivíamos, naquela época, com forte domínio da Associação Comercial do Amazonas liderando o empresariado local na tentativa das exportações de nossos produtos. Tempo em que a convivência empresarial era extremamente importante no contexto da nossa economia, com destaque para O Jornal encarregar um jornalista especialmente para cobrir os fatos diários e seu papel informativo, contribuindo sobremaneira para solidificar o empresariado local e as exportações.

Apesar de todas as dificuldades a Associação Comercial do Amazonas não limitava-se a conduzir suas ações comerciais que caracterizavam o mundo dos negócios em nossa região, tendo como compromisso um futuro seguro e próspero. Isso explica o intenso trabalho realizado por sua diretoria.

Sede da Associação Comercial foi projetada pelo engenheiro e arquiteto Aluysio Araújo. Rua Guilherme Moreira, esquina com a Rua Quintino Bocaiúva. Foto: Acervo Instituto Durango Duarte

A Associação Comercial neste período já não mais promovia exposições internacionais, no entanto mantinha um trabalho de relevância social, com destaque para o seu museu, com um departamento de Propaganda e Museu Comercial, Departamento de Estatística, Departamento de Informações Comerciais e Publicidade, Serviço de Assistência à Agricultura, Serviço de Beneficiamento de Cereais, Serviço de Imprensa e Divulgação, Serviço de Pesquisa, Revista da Associação Comercial.

Tudo isso, dedicado especialmente as atividades de difusão e conhecimento. Seu museu mostrava a preservação e a riqueza da nossa diversidade, mantendo inclusive um catálogo comercial do que produzia na época e exportava o Amazonas.

O lançamento da Pedra Fundamental da construção do prédio próprio da Associação Comercial do Amazonas ocorreu no dia 21 de abril de 1939. Foi uma festa, com nomes importantes presentes com discurso, brindes e a esperança da instalação de sua sede própria. Localizada a Rua Guilherme Moreira esquina da Rua Quintino Bocaiuva a sede nova, foi projetava pelo engenheiro e arquiteto Aluysio Araújo, propiciando acomodações modernas e de funcionalidade, sede em a mesma se encontra até os dias atuais.

Sobre o autor

Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Censo 2022 aponta que índice de alfabetização entre indígenas sobe, mas segue preocupante

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Ivo Yanomami, liderança local, conversa com funcionário da Funai na Maloca de Xerimifique, em Surucucu. Foto Fernando Frazão/Agência Brasil

Quase 85% da população indígena brasileira (1 milhão das 1,2 milhão de pessoas indígenas de 15 anos ou mais de idade) sabiam ler e escrever um bilhete simples, no idioma que conhecem – ou seja, eram consideradas alfabetizadas. O índice representa um aumento na comparação com 2010, quando foi de 76,6%. A taxa de alfabetização entre indígenas, entretanto, segue abaixo da média nacional, de 93%.

A constatação faz parte de um suplemento do Censo 2022, divulgado no dia 4 de outubro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O levantamento apurou informações de alfabetização, registro de nascimento e características de domicílios de 1.694.836 pessoas indígenas (0,83% da população brasileira), sendo 622.844 vivendo em terras indígenas (TIs) e 1.071.992 fora de território demarcado.

O critério usado pelo IBGE para uma pessoa ser considerada indígena foi a autodeclaração, ou seja, a forma como a pessoa se reconhece.

“A gente tem duas perguntas para capturar o pertencimento indígena. A primeira: ‘sua cor ou raça é branca, preta, amarela, parda ou indígena?’. E aí, caso a pessoa esteja em uma localidade indígena e tenha respondido que a cor ou a raça dela é branca, preta, amarela ou parda, a gente faz uma pergunta de cobertura, que é ‘você se considera indígena?'”, explica a coordenadora do Censo de Povos e Comunidades Tradicionais, Marta Antunes.

Analfabetismo

Enquanto a população brasileira como um todo tem taxa de analfabetismo de 7%, entre os indígenas é mais que o dobro, 15,05%.

Nas terras indígenas, o índice sobe para 20,80%. Isso representa um em cada cinco indígenas moradores dessas localidades.

No censo anterior, de 2010, a taxa era maior em todos os grupos: 9,62% para o total da população, 23,40% para os indígenas e 32,30% para os que viviam em TI.

Os dados de 2022 revelam que – em todos os grupos – quanto maior a faixa etária, maior a proporção de analfabetismo.

Na população indígena, enquanto a faixa etária de 15 a 17 anos tem índice de 5,55%, entre os com mais de 65 anos alcança 42,88%. Dentro das TIs, os percentuais são 9,13% e 67,90%, respectivamente.

Outro destaque apontado pelo Censo 2022 é que os indígenas que vivem nas regiões Norte (15,27%) e Nordeste (18%) apresentam taxa de analfabetismo superior à média de todos os indígenas do país (15,05%).

O mesmo comportamento regional se observa em relação aos indígenas que vivem em TI. A taxa nacional é 20,80%, contra 23,01% no Norte e 23,74% no Nordeste.

Habitação

Em todo o país, o Censo 2022 contabilizou 72,4 milhões de domicílios particulares permanentes ocupados. Desses, 630.428 têm pelo menos um morador indígena, o que corresponde a 0,87% do total.

De todos os moradores desses mais de 630 mil endereços, 73,44% são indígenas, ou seja, há coabitação com pessoas de outras cores e raças.

O IBGE identificou que dos domicílios com ao menos um indígena, 91,93% são casas, patamar superior à média da população brasileira (84,78%). Em apartamentos são 3,51%, enquanto na população geral a proporção é 12,51%.

Nas terras indígenas, 8,15% dos domicílios foram classificados como “habitação indígena sem paredes ou maloca”. As malocas, também conhecidas como palhoça, choupana, entre outras denominações, podem ser feitas de taquaras e troncos, cobertas de palmas secas ou palha e outros materiais e podem ser utilizadas como habitação por várias famílias.

Para avaliar as características dos domicílios indígenas, o IBGE apurou detalhes sobre abastecimento de água; existência de banheiro; esgotamento e destino do lixo. Os recenseadores buscaram informações se a água chega aos endereços por rede de abastecimento ou poço, por exemplo; se havia coleta regular de lixo ou se era queimado ou enterrado; e se o esgoto era coletado pela rede geral, fossa ou despejado precariamente.

A análise não foi feita em relação às habitações indígenas sem paredes ou malocas. “A gente não espera encontrar banheiros de uso exclusivo e alguns tipos de soluções de saneamento básico. Esses domicílios demandam soluções muito diferenciadas”, justifica Marta Antunes.

Precariedades

Em relação ao abastecimento de água, 93,97% da população brasileira tinham distribuição até dentro do domicílio, seja por rede geral, poço, fonte, nascente ou mina encanada. Entre os indígenas, o percentual cai para 63,21%. Nas terras indígenas, a redução é ainda maior, ficando apenas 30,76% dos moradores com abastecimento dentro de casa.

A pesquisa censitária revela que apenas 0,5% dos domicílios do país não tinha sanitário. Entre os domicílios indígenas, eram 5,06%. Especificamente em terra indígena, 18,46%.

Crianças nos arredores da Casa de Saúde do Índio, que presta acolhimento aos indígenas. Foto Fernando Frazão/Agência Brasil

Nas terras indígenas, 85,42% dos moradores tinham esgotamento por fossa rudimentar, buraco, vala, rio, córrego, mar ou outra forma inadequada. Entre o total de indígenas, a marca era 60,17%, enquanto na população geral se reduzia a 23,82%.

Cerca de 90% dos brasileiros contavam com coleta direta ou indireta de lixo. Entre os indígenas essa proporção recuava para 55,27%. Nas terras indígenas o número era ainda menor, 13,78%.

Em 342 mil domicílios particulares permanentes onde vivem 69,12% dos indígenas (1,1 milhão), havia ao menos uma precariedade ligada a abastecimento de água, destinação de esgoto ou destinação do lixo.

No conjunto total da população, a proporção era 27,26% convivendo com alguma das três inadequações. Dentro das terras indígenas, a proporção chegava a 95,59%.

Ao contabilizar moradores que conjugam as três formas de inadequações, o IBGE encontra 107.463 domicílios, onde residem 470 mil pessoas indígenas (28,82% dos indígenas do país). Nas terras indígenas, o percentual sobe para 62,23% dos moradores. No total da população brasileira, são 2,97%.

Registro de nascimento

O IBGE coletou também informações sobre o registro de nascimento, procedimento burocrático que oficializa a pessoa como cidadã. O instituto perguntou aos indígenas se os moradores com até 5 anos foram registrados em cartório ou pelo Registro Administrativo de Nascimento Indígena (Rani), emitido pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

Entre os indígenas, 89,12% têm registro em cartório, 4,97% têm Rani, 5,42% não são registrados e 0,49% não souberam responder ou ignoram.

Nas terras indígenas, o percentual de moradores com registro em cartório recua para 85,53%, enquanto 5,51% têm Rani, 8,34% não foram registrados e 0,63% não sabem ou ignoram.

Na população brasileira como um todo, há praticamente uma universalização, com 99,26% registrados em cartório.

*Com informações da Agência Brasil

Eu Amazônia: Rede Amazônica lança nova ferramenta de interação com telespectadores

Foto: Divulgação

O Grupo Rede Amazônica lançou uma nova ferramenta de interação com telespectadores, o aplicativo Eu Amazônia“. A plataforma visa criar um ambiente onde todos os espectadores possam participar e interagir, com mensagens que vão desde saudações até denúncias.

De acordo com o diretor de Tecnologia do grupo, Eduardo Lopes, a ideia surgiu após observar o aumento da interatividade onde a população, por muitas vezes, compartilha opiniões que refletem o que outros também pensam sobre as notícias.

“Muitas pessoas participam dos nossos telejornais e programas, mas nem sempre conseguimos colocar tudo no ar por conta do tempo limitado. Então criamos essa rede social para conectar a Rede Amazônica com nosso público”, explicou.

Foto: Reprodução/Google


O diretor de Tecnologia também ressaltou a importância do aplicativo para ampliar a cobertura de notícias.

Pelo aplicativo, será possível enviar textos, fotos e vídeos. Ainda conforme o diretor, o diferencial é que todo o conteúdo enviado será verificado pela equipe de jornalismo, garantindo que as informações compartilhadas sejam reais e checadas.

O aplicativo “Eu Amazônia” já está disponível para Android e iOS.

Rio Amazonas chega ao menor nível já registrado em Itacoatiara, no Amazonas

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Seca em Itacoatiara é a maior desde o início do registro, em 1996. Foto: Liam Cavalcante/Rede Amazônica AM

O Rio Amazonas chegou a 32 centímetros no município Itacoatiara, no Amazonas. Nesta sexta-feira (4), o nível das águas secou 9 centímetros e o rio já registra a pior seca da cidade em 26 anos de medição.

O nível das águas é monitorado no município pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM) desde 1998, e nunca havia chega a um nível tão baixo. A cota recorde superou a seca do ano passado, quando o rio atingiu 36 centímetros, no dia 26 de outubro de 2023.

A estiagem no município já afeta mais de 28 mil pessoas, cerca de 7 mil famílias, de acordo com o Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID).

Segundo a Coordenadoria da Defesa Civil de Itacoatiara, mais de 100 comunidades estão isoladas devido a seca histórica. Os moradores enfrentam dificuldades para se locomover, e principalmente ter acesso a água potável.

Seca no Amazonas

Além de Itacoatiara, a seca também atingiu níveis históricos em Manaus. Na quinta-feira (3), o Rio Negro bateu o recorde ao ultrapassar a cota mínima de 12,70 metros, registrada em 2023. Na manhã do dia 4, o rio marcou 12,66 metros.

Leia também: Pior seca da história: Rio Negro atinge 12,66 metros em Manaus

Em Tabatinga, na região do Alto Solimões, o Rio Solimões está em -1,98 metros. O registro é de quinta-feira (3). Dados da Defesa Civil apontam que o rio tem descido, em média, 5 centímetros por dia, no último mês. A cidade vive sua pior seca da história.

Na cidade de Coari, na região do Médio Amazonas, o rio mede 1,54 metros. O registro é do dia 17 de setembro, última atualização da Defesa Civil do local.

Em Parintins, no Baixo Amazonas, o Rio Amazonas está em -2,05 metros. O cenário também é crítico na região, segundo o estado.

Em Itacoatiara, o mesmo Rio Amazonas está medindo 0,41 centímetros. A cidade recebeu um porto flutuante, onde os navios cargueiros, que atendem as empresas do Polo Industrial de Manaus, transferem suas mercadorias para balsas que ainda conseguem chegar na capital amazonense.

No município de Humaitá, o Rio Madeira segue em 8,20 metros. O rio desceu uma média de -4 centímetros por dia.

*Por Liam Cavalcante, Rede Amazônica AM

‘Vem pra Amazônia’: videoclipe de artista acreano homenageia belezas naturais e povos ancestrais

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Foto: Manoelzinho do Acre/Arquivo pessoal

‘Vem pra Amazônia’. Este é o nome do videoclipe do artista acreano Manoelzinho do Acre, natural de Cruzeiro do Sul, no interior do estado. O vídeo, que estreou há quase duas semanas, busca trazer referências aos povos ancestrais, bem como homenagear a cultura e as belezas naturais do estado mais ocidental do Brasil.

O projeto, desenvolvido por meio de um fundo para a cultura e com apoio da Lei Paulo Gustavo, conta com a participação da banda Swing da Mata e do secretário municipal de Cultura, Aldemir Maciel e é inserido no contexto amazônico.

A letra aborda aspectos particulares da Amazônia e mais especificamente do Acre, além de estender o convite a todos os continentes para participar do ritual ahayuasca.

O artista, que adotou o codinome Uira para este primeiro trabalho, é autodidata, tem 45 anos e é artista há três décadas. Licenciado em Música pela Universidade de Brasília (UnB), é autor de mais de 100 canções autorais que retratam o dia a dia do acreano E vem da linhagem do Samba, Música Popular Brasileira (MPB), Bossa Nova e do Jazz.

*Por Renato Menezes, da Rede Amazônica AC

Meteorologista explica que tempestade no Amapá foi causada por alterações em furacão no Atlântico

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Foto: Reprodução/Rede Amazônica AP

A forte tempestade que atingiu Macapá (AP) na madrugada do dia 3 de outubro, estava prevista para acontecer. O que não se esperava era a intensidade de raios e trovões que assustaram os moradores por conta da grande proporção.

O fato aconteceu por conta de alterações no furacão ‘Kirk’ e na tempestade tropical ‘Leslie’ no Oceano Atlântico, que caminham para um encontro rumo à Europa. Apesar de irem para o sentido oposto, os furacões deixam consequências no Norte e Nordeste do Brasil, segundo a meteorologia.

A situação do furacão Kirk, pode ser acompanhada de forma online. Através do site, é possível visualizar a data de início do fenômeno e previsão para o fim. Meteorologistas afirmam que não há riscos da terra ser atingida, mas as proximidades vão sofrer as alterações climáticas.

Imagem: Accuweather Hurricane

Furacão Kirk

O furacão Kirk é o motivo da maior parte das alterações climáticas imprevistas que acontecem nas regiões Norte e Nordeste. Esse furacão pretende subir rumo à costa oeste da Europa, mas os ‘rastros’ que o fenômeno deixa por onde passa, causam inúmeros problemas para a população.

O meteorologista do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (IEPA), Jefferson Vilhena, disse que os ‘resquícios’ do furacão atingem as regiões Norte e Nordeste do Brasil, especificamente os estados do Amapá, Pará, e Maranhão.

O furacão iniciou há 836 quilômetros a sudoeste do extremo sul das Ilhas de Cabo Verde, e possuía ventos máximos sustentados de 64 km/h.

O meteorologista explicou ainda que os ventos que deveriam chegar ao Amapá através do oceano, agora são provenientes da Amazônia, o que resulta na propagação dos aglomerados que estão acontecendo no estado do Amazonas e Pará, facilitando os conflitos climáticos, como os dois redemoinhos de poeira registrados em interiores do Amapá, dentro de 48 horas.

Tempestade tropical ‘Leslie’

Outro fator contribuinte para a alteração é o fenômeno ‘Leslie’, que chega pela direção do Rio Grande do Norte, os dois fenômenos estão em proximidade.

“Ele tem a latitude de aproximadamente 5 a 6 graus. E ele está muito próximo do Kirk, então esses dois furacões, eles começam a influenciar bastante a configuração dos ventos do Nordeste”, disse o meteorologista.

Com os furacões indo de encontro um ao outro, os fenômenos seguem para o norte do planeta, o que influencia cada vez menos a região atualmente afetada no Brasil. Além disso, há a detecção de mais furacões aos redores dos Estados Unidos da América.

“Tem um sistema de frente fria e baixa pressão localizado mais ao norte ainda, já próximo dos Estados Unidos, que está se intensificando e provavelmente deve formar um outro furacão. Ele ainda está sendo classificado como tempestade tropical, mas esses sistemas estão para o hemisfério norte. O que nós temos aqui sobre a América, principalmente no Brasil, Suriname Guiana Francesa”, contou o meteorologista.

A previsão é que nos próximos dias, haja menos estiagem e mais eventos fortes de chuvas, não somente na capital do Amapá, mas também nos interiores. Apesar da gravidade do fenômeno, os meteorologistas afirmam que não há risco de nenhum território ser atingido diretamente, e o furacão deve cessar ainda no Oceano Atlântico, antes mesmo de chegar à Europa.

Além dos furacões, a intensificação das chuvas se dá também pelo de fenômeno ‘La Niña’, um resfriamento anormal nas águas do oceano que altera a temperatura de vários locais no mundo. Até o final de outubro, o Amapá segue sofrendo com choques climáticos, devido ao fenômeno de ventos frios colidir com as altas temperaturas da estiagem.

*Isadora Pereira, da Rede Amazônica AP

Indígenas do Oiapoque criam cartilha para uso responsável do fogo

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Imagem: Reprodução/Cartilha ‘Fogo: Usos e Cuidados’

O fogo é um elemento importante e tradicional no cotidiano dos povos indígenas. É usado para a abertura de roças e de caminhos, para o preparo dos alimentos, para a produção de cerâmica e de canoas, entre outros exemplos. Mas controlá-lo é crucial para evitar incêndios que colocam em risco as comunidades, a fauna e os recursos naturais, como rios e florestas.

Em tempos de mudanças climáticas, o manejo do fogo torna-se mais desafiador. Sem contar com os casos de focos de incêndios criminosos perto das aldeias. Neste cenário foi publicada a cartilha ‘Fogo: Usos e Cuidados‘, iniciativa dos Agentes Ambientais Indígenas do Oiapoque-AP (conhecidos como Agamin), em parceria com a AMIM.

O objetivo é a sensibilização por meio de ilustrações, histórias e explicações de como o fogo é usado e como manejá-lo para evitar que se alastre. Além do português, está traduzido nas três línguas dos povos indígenas do Oiapoque (kheuól galibi marworno, kheuól karipuna e parikwaki).

“Traduzimos para acessar mais as crianças e jovens que não falam português. É importante falar na língua materna para entenderem bem”, conta Adilaudo dos Santos, Agamin do povo Karipuna.

Educação ambiental e informação sobre o fogo

A educação ambiental nas escolas é uma ferramenta importante no combate aos focos de incêndio. Portanto, as cartilhas serão entregues nas escolas indígenas das TIs do Oiapoque e os professores poderão usá-las como material didático. “Fizemos a cartilha para distribuir nas escolas e comunidades para mostrar como é preocupante esse tipo de queimada descontrolada. Os jovens estão crescendo e podem ajudar a evitar o fogo”, conta Adilaudo .

A cartilha também será apresentada em reuniões das comunidades para que as pessoas reflitam sobre os grandes impactos ambientais que o fogo pode causar na terra indígena.

“Hoje, nós Agamin precisamos do apoio de todas as comunidades indígenas da região do Oiapoque, para evitar os incêndios descontrolados, pois se o fogo continuar queimando, com certeza a fauna e a flora vão enfraquecer e isso é um grande problema. Não queremos perder nossa biodiversidade!”, diz um trecho do material.

Antes mesmo de ter a cartilha em mãos, Adilaudo vem se dedicando a visitar escolas e promover atividades de sensibilização. “Falei com os alunos sobre o fogo e o que ele traz de prejuízo. As professoras pediram para a gente voltar porque gostaram muito da atividade”, conta Adilaudo.

Atividades nas escolas, com explicações sobre a necessidade de respeitar o fogo. Foto: Agamin

Aumento nos focos de incêndio no Oiapoque

A ideia da cartilha surgiu durante o curso de formação dos Agentes Ambientais Indígenas, quando notaram o aumento dos focos de queimadas no Oiapoque. Em 2023, o fogo consumiu 48 mil hectares dentro das Terras Indígenas da região.

Rafael Monteiro Hortêncio, Agamin do povo Galibi Marworno, conta que acompanhou nos satélites as queimadas no verão. “Vimos que está aumentando. Muitas das aldeias estão em campos alagados, mas tem pessoas de fora [não-indígenas] que colocam fogo nas proximidades e o fogo alcança as aldeias”, conta.

Fazer o manejo do fogo é fazer o uso controlado dele. O Prevfogo indígena também deve ser parceiro para a queima controlada das roças e campos, para evitar que o fogo se espalhe.

Muitos focos de incêndio são de origem criminosa de pessoas que queimam áreas de fazenda ou para abrir caminhos perto da Rodovia BR 156, onde ficam várias aldeias no Oiapoque. Rafael se lembra de uma vez que presenciou um não indígena ateando fogo em uma área próxima à sua comunidade. “O fogo chegou na minha aldeia e deu o maior prejuízo. O igarapé até secou”, conta.

Rafael ressalta, no entanto, que é importante sensibilizar todas as pessoas porque alguns podem não saber os riscos de acender pequenas fogueiras e não tomar cuidado. “Eu mesmo não tinha esse conhecimento e hoje eu tenho. Às vezes um cigarro, um picnic que você faz para assar um peixe, pode virar fogo que descontrola”, diz Rafael.

Os Agamin pretendem colocar placas em pontos estratégicos da rodovia alertando sobre a irregularidade do fogo e para coibir invasões nas Terras Indígenas.

Mudanças climáticas

Os Agamin também destacam na cartilha que um perigo a mais em relação aos incêndios são as mudanças climáticas, que tornaram os verões mais quentes e secos, facilitando que o fogo se alastre sem controle.

Rafael lembra do estudo dos marcadores do tempo (LINK), em que explicam como perceberam que as estações estão mais descontroladas. “Não sabemos mais o dia que vai chover, então fica mais perigoso manejar o fogo e não conseguir controlar”, diz o Agamin marworno.

*Com informações do Iepé

Países vizinhos afetam eleição municipal nas fronteiras do Brasil; entenda como afeta a Amazônia

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Crianças brincam em marco da fronteira entre Brasil e Venezuela. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Para cerca de 11 milhões de brasileiros, a eleição municipal é também um assunto internacional, uma vez que essas pessoas vivem em cidades localizadas na chamada faixa de fronteira. A área representa 16% do território nacional, com largura de 150 quilômetros a partir da linha que divide o Brasil dos seus dez vizinhos sul-americanos.

Especialistas destacam que a realidade municipal da fronteira tem uma dimensão internacional que exige dos prefeitos e vereadores capacidade diplomática e boa articulação com os governos federal e estadual.

Existem 588 municípios dentro da faixa de fronteira. Desses, 124 cidades estão na linha que divide o Brasil da Venezuela, do Paraguai, da Bolívia, da Argentina, entre outras nações. Além disso, no Brasil há 33 “cidades-gêmeas”, que são municípios com forte integração com uma cidade do país vizinho.

São cidades-gêmeas, por exemplo, Guajará-Mirim (RO) e Guayaramerín, na Bolívia; Ponta Porã (MS) e Pedro Juan Caballero, no Paraguai; e Pacaraima (RR) e Santa Elena de Uairén, na Venezuela.

Leia também: Saiba quais cidades-gêmeas são encontradas na Amazônia Internacional

Por sua condição de vizinhos de outros países, os municípios de fronteira enfrentam desafios próprios como imigração, contrabando internacional, forte presença do crime organizado, ausência de projetos de desenvolvimento econômico local e alta evasão escolar.

Imigração e moradia

As políticas municipais para moradia popular podem resolver os problemas que a imigração trouxe ao estado de Roraima (RR), avalia a agricultora familiar Maria Ferraz de Matos, de 53 anos. Ela coordena a Cozinha Solidária no estado, projeto do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) que oferece refeições gratuitas para pessoas em situação de pobreza.

O intenso fluxo migratório tem acirrado os ânimos entre brasileiros e venezuelanos em Roraima. “O brasileiro fica chateado porque acredita que os venezuelanos têm mais direito do que ele. Muitas vezes tenho que mediar conflitos entre os dois grupos”, diz Maria Ferraz.

Para a coordenadora, as prefeituras devem promover políticas de moradia que ajudem tanto os brasileiros quanto os venezuelanos. “Tem muita terra aqui que poderia ser usada para política de moradias. Porém, como os venezuelanos não votam, parece que os candidatos não se preocupam com eles”, avalia.

Promover políticas para moradia é um dever constitucional que também é dos municípios, como determina o Artigo 23 da Constituição brasileira.

Integração latino-americana

O parágrafo único do Artigo 4º da Constituição, dispositivo que define os princípios das relações internacionais do país, afirma que o Brasil “buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações”.

O professor Tomaz Espósito destaca que a integração é diária nos municípios de fronteira e sugere que as prefeituras promovam projetos para que a população brasileira possa ser atendida no país vizinho e vice-versa.

“Na fronteira do Brasil com o Uruguai já vimos projetos em que há troca de oferta de serviços médicos, com brasileiras indo realizar tomografia no Uruguai e uruguaios realizando hemodiálises no Brasil. Pode-se criar arranjos para que a fronteira deixe de ser apenas um obstáculo e se torne de fato a integração. O Brasil começa na fronteira”, diz o especialista.

Para o presidente do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf), Luciano Stremel Barros, os municípios sozinhos não têm estrutura financeira e administrativa para enfrentar os graves problemas das fronteiras brasileiras e, por isso, as autoridades locais devem ter boa capacidade técnica e de gestão.

“O principal ponto é buscar gestores que tenham capacidade ou que possam, em conjunto com a sociedade, ter condições técnicas mínimas para trabalhar aspectos legislativos e administrativos. O tanto que o país perde em corrupção ele perde também com má gestão”, avalia o presidente do Idesf, com sede em Foz do Iguaçu (PR), na fronteira com o Paraguai.

*Com informações da Agência Brasil