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Chef Wapichana Kalu Brasil lança livro de receitas indígenas

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Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

Chef de cozinha, culinarista, matriarca e dona de uma simpatia singular, Kalu Brasil, indígena do povo Wapichana, é um dos maiores nomes da culinária roraimense. Em uma cerimônia na última terça-feira (3), data em que celebrou seus 83 anos, ela realizou um sonho antigo ao lançar o livro ‘Kalu Brasil – Da Aldeia Para o Mundo’.

A obra reúne receitas da rica gastronomia regional, temperadas com as memórias que Kalu acumulou ao longo de mais de oito décadas de vida e história.

O livro foi escrito por Kalu com o apoio do Serviço Social do Comércio (Sesc) em Roraima e em parceria com amigos próximos e cada um teve sua função no desenvolver da obra. O livro conta com 28 receitas diversas da cultura indígena como a damurida, o xibé e a carne de sol com farofa d’água.

Livro Kalu Brasil - Da Aldeia para o Mundo, lançado nesta terça-feira (3) — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

Assinam com ela a jornalista Gersika Nascimento; o fotografo Jorge Macedo; o designer Otávio Coelho, e a historiadora Clarice Gonçalves. Além disso, o filósofo, autor indígenas e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), Ailton Krenak, é quem escreve o prefácio da obra.

Kalu Brasil, do povo Wapichana, encontrou na culinária indígena uma forma de resgatar sua ancestralidade e valorizar os costumes de seu povo. O livro, fruto de cerca de um ano de trabalho, representa a realização de um sonho que ela acalentou por duas décadas.

Equipe que trabalhou com Kalu Brasil para o livro lançado nesta terça-feira (3) — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

Emocionada, Kalu não contém as lágrimas ao segurar um dos exemplares da obra, que registra de forma escrita as tradições e ensinamentos que ela aprendeu de maneira oral ao longo da vida.

Esse livro é um presente para Roraima, para minha família e para todos que nos acompanharam. É uma obra feita com muito amor e carinho. Kalu Brasil, chef de cozinha e culinarista Wapichana no lançamento da obra ‘Kalu Brasil – Da Aldeia Para o Mundo’

Kalu (para todo o) Brasil

O livro terá distribuição nacional por meio do Sesc para mostrar a cultura Wapichana para todo o Brasil. O fotografo Jorge Macedo, de 67 anos, amigo de longa de Kalu, foi um dos principais entusiastas do projeto. É dele a autoria das fotos presentes no livro.

Ele conta que conheceu Kalu viajando por Roraima nos mais 42 anos em que fotografa o estado. Embora o livro seja um retrato histórico e cultural de Roraima, para Jorge, o “tempero especial” é a história de Kalu.

Jorge Macedo, fotografo e um dos colaboradores no livro de Kalu Brasil — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

“A essência do livro está na história da Dona Kalu, desde quando ela saiu da comunidade indígena até os dias de hoje. É um trabalho que realmente vale a pena conhecer”, contou o fotografo ao Grupo Rede Amazônica.

Gersika Nascimento, uma das autoras do livro de Kalu Brasil, lançado nesta terça-feira (3) — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

A redação do livro ficou por conta da jornalista Gersika Nascimento, de 39 anos, que também é biógrafa de Kalu. Gersika revela que conheceu a chef ao trabalhar em ‘algumas pautas’ com ela e, desde então, desenvolveu uma profunda admiração por sua história e trajetória.

Para a jornalista, existe uma diferença marcante entre a chef Kalu Brasil e a dona Kalu: além de ser uma profissional excepcional, ela é ‘uma mulher maravilhosa, acolhedora, que conquista a todos com sua doçura’.

“Foi uma honra, porque estamos falando de um patrimônio cultural que poderia se perder sem esse registro. Esse livro permite eternizar essas receitas e histórias. São mais de 30 receitas da Dona Kalu, que agora estão documentadas para a posteridade”, conta a jornalista.

Clarice Gonçalves, historiadora e co-autora do livro de Kalu Brasil — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

A historiadora Clarice Gonçalves, de 43 anos, também assina a obra. Ela é amiga pessoal de Kalu há 17 anos e relata que compartilha com a chef o sonho de desenvolver um livro desde que a conheceu. No livro, ela atuou na busca por patrocinadores, na assessoria e também no trabalho prático na cozinha.

“Esse sonho, na verdade, compartilho com ela desde o início da nossa amizade. A história da Dona Kalu é muito singular. Ela nasceu em uma comunidade indígena, viveu na cidade e passou por uma busca profunda de identidade”.

Otávio Coelho, designer que assina o livro de Kalu Brasil — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

A obra foi diagramada pelo designer Otávio Coelho, de 51 anos, que também assina como autor. Ele conta que tudo aconteceu de forma inesperada uma conhecida o convidou para participar do livro da vizinha dela.

“Desde o primeiro encontro, me encantei com essa pessoa maravilhosa. Me apaixonei pelo sonho dela e decidi embarcar no projeto, convidando outros amigos para se juntarem a nós. Então, trabalhamos juntos para finalmente concretizar esse sonho. E, hoje, no dia do lançamento, é ainda mais especial por ser também o aniversário dela”.

83 anos de história

Kalu Brasil, chef de cozinha e culinarista no lançamento de seu livro nesta terça-feira (3) — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

Na cerimônia de lançamento, amigos e autoridades marcaram presença. Logo na entrada, um bolo com o topo enfeitado com uma figura de uma cozinheira mostra que também há outra coisa para ser comemorada além do lançamento do livro o aniversário de Kalu.

São 83 anos de sabedoria ancestral e tradicional e, nada mais justo do que comemorar lançando um livro que mostra tudo isso.

Kalu Brasil é roraimense do povo Wapichana e culinarista — Foto: Samantha Rufino/g1 RR
Foto: Samantha Rufino/g1 RR

Filha de mãe indígena Wapichana e pai não indígena, Kalu cresceu em meio a proibição de viver a cultura originária. Ela foi criada pelos avós paternos e passou a conviver com a mãe somente aos 4 anos de idade, quando começou a morar no sítio em que a família vivia, na região do município de Amajari.

À época, ela podia acompanhar a mãe nos lugares, mas não podia comer comidas típicas indígenas, como a damurida ou sequer aprender o idioma falado pela família materna. Adulta, Kalu viu na gastronomia uma oportunidade de acabar com o estigma criado sobre a comida e uma forma de levar o conhecimento para além dos limites das terras indígenas de Roraima, dos estados e até das fronteiras do Brasil.

Em 1996, ela se especializou no preparo da Damurida típico prato indígenas e passou a ensiná-lo para os povos de outros estados brasileiros, além de aprender com eles.

Lançamento do ‘Kalu Brasil – Da Aldeia Para o Mundo’

O livro foi lançado pela editora do Sesc, e a diretora regional do Sesc em Roraima, Lisiane Carnetti, destacou a importância da obra. Segundo Lisiane ele representa uma iniciativa alinhada à missão do Sesc como apoiador cultural: resgatar, valorizar e promover ações que preservam a memória e a identidade do povo roraimense.

*Por Caíque Rodrigues, da Rede Amazônica RR

Obras de dragagem buscam garantir navegabilidade nos rios Amazonas e Solimões 

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Foto: Reprodução/DNIT

As obras de dragagem nos trechos Manaus-Itacoatiara e Coari-Codajás seguem em pleno andamento com o objetivo de assegurar a navegabilidade dos rios Amazonas e Solimões, no estado do Amazonas

O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) informou que os investimentos para essas intervenções chegam a R$ 400 milhões, e o projeto será executado ao longo de cinco anos, com foco em fortalecer a infraestrutura fluvial e garantir o transporte seguro e contínuo de mercadorias vitais para a economia local e regional.

O projeto foi viabilizado pelo Ministério de Portos e Aeroportos que, em setembro, assinou contratos com investimentos que somam aproximadamente R$ 280 milhões. O ministro Silvio Costa Filho destacou o trabalho do Governo Federal para amenizar os impactos da grave crise climática. 

No trecho Manaus-Itacoatiara, a dragagem está sendo executada pelo navio-draga Hopper Lindway, que partiu dos Estados Unidos e realiza os trabalhos em uma extensão de 200 km. Após cumprir os trâmites legais, como a admissão temporária junto à Receita Federal e a inspeção da Marinha do Brasil, o navio está retirando sedimentos de pontos críticos entre a foz do Rio Madeira e a Costa do Tabocal, com o objetivo de melhorar a navegação e garantir o fluxo contínuo de insumos para a Zona Franca de Manaus e outras regiões do interior do estado.

Já no trecho Coari-Codajás, a dragagem está sendo realizada por meio da técnica de sucção recalque, que utiliza bombas para remover os sedimentos do fundo do rio e assegurar a continuidade da navegação em pontos estratégicos.

Essas obras são ainda mais essenciais em função da seca severa que afetou a região entre 2023 e 2024, considerada uma das mais graves da história recente. As intervenções fazem parte do Plano Anual de Dragagem de Manutenção Aquaviária (Padma) e do Plano de Sinalização Náutica do estado do Amazonas, ambos com o objetivo de manter a navegabilidade em rotas vitais como Manaus-Itacoatiara, Tabatinga-Benjamin Constant, Benjamin Constant-São Paulo de Olivença e Coari-Codajás.

*Com informações do DNIT

Árvores são catalogadas em universidade portuguesa por meio de app criado em Manaus

Foto: Divulgação

O aplicativo Tree Earth, desenvolvido em Manaus (AM), foi selecionado por alunos de mestrado da Universidade do Minho, em Portugal, para integrar o projeto de reflorestamento do campus de Azurém, em Guimarães. A cidade portuguesa, que será a Capital Verde Europeia em 2026, busca soluções inovadoras para promover a sustentabilidade.

O plano de reflorestamento do campus foca na redução de emissões de carbono, aumento da eficiência energética e promoção de práticas sustentáveis. Mais de 600 árvores já foram catalogadas com a ajuda da ferramenta. A próxima etapa do projeto é o plantio de mudas para enriquecer a floresta entorno da universidade.

O projeto está sendo coordenado pelo professor doutor Rui Lima em conjunto com seis alunos do curso de Mestrado em Engenharia de Gestão de Operações (Mego). “O objetivo dos estudantes é catalogar as árvores existentes no campus e, posteriormente, desenvolver um plano de reflorestação”, explicou.

Focado nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), o trabalho tem uma abordagem que envolve professores, alunos e diversos parceiros, incluindo a startup amazonense que originou o nome do aplicativo, Tree Earth, uma climatech especializada em ações de plantios para recuperar áreas degradadas na Amazônia e em outros biomas, como, o Cerrado e Pantanal.

Para o CEO da Tree Earth, Vicente Tino, a iniciativa coloca a Amazônia e o Amazonas no radar de grandes universidades europeias, que podem contribuir com as ações de recuperação de áreas degradadas.

Foto: Divulgação

A Tree Earth é uma startup nascida em Manaus, com um braço em Portugal. A empresa é uma spin-off da TecMinho, da Universidade do Minho, e tem parcerias internacionais, como o Pacto Brasil, da ONU, além de atuação junto a parceiros da iniciativa privada, institutos de pesquisa e órgãos públicos.

Com projeto de reflorestamento, voluntários retiram toneladas de lixo do rio Guaporé

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Foto: Gabryel Biavatti

Pescadores, ribeirinhos e voluntários participaram de uma expedição para remover o lixo acumulado ao longo do rio Guaporé, em Pimenteiras do Oeste (RO). A ação tem como objetivo reflorestar cerca de 40 quilômetros de vegetação que foi destruída por incêndios na região.

Com mais de 1,7 mil quilômetros de extensão, o rio Guaporé é um dos afluentes da bacia amazônica. Além disso, o Guaporé banha os estados de Rondônia e Mato Grosso e forma a fronteira do Brasil com a Bolívia.

O projeto “Somos Todos Guaporé” existe há mais de 20 anos. Durante a jornada, os voluntários percorrem cerca de 80 acampamentos de pesca e vilarejos, coletando o lixo para iniciar o reflorestamento.

De acordo com Amilton Souza Brito, presidente da associação Somos Todos Guaporé, o projeto teve início após o período de estiagem, quando ele observou que o reflorestamento seria necessário para a sobrevivência dos animais.

Foto: Iury Lima/Rede Amazônica RO

Cerca de 2,5 toneladas de lixo foram retiradas por voluntários do rio Guaporé. Após a coleta, o material é levado para a cidade de Cerejeiras (RO), onde recebe o tratamento adequado. Segundo Marcos Antônio, voluntário do projeto, além de ajudar os animais, a expedição também é importante para incentivar os pescadores locais.

Foto: Iury Lima/Rede Amazônica RO

Na segunda etapa do projeto, cem mil mudas serão plantadas, em cerca de 27 quilômetros de extensão. Segundo Tatiane Rufatto, engenheira florestal, trinta espécies de árvores serão plantadas na área e todas elas foram escolhidas por meio de uma pré-seleção.

Queimadas causaram o atraso na desova de tartarugas no rio Guaporé

As queimadas em Rondônia causaram o atraso de quase dois meses na formação dos ninhos de tartarugas às margens do rio Guaporé, entre os municípios de Costa Marques e São Francisco do Guaporé, em Rondônia, na fronteira com a Bolívia. As equipes de monitoramento temem que os filhotes ainda não estejam prontos quando as chuvas começarem a cair e o nível do rio voltar a subir.

Normalmente a desova das tartarugas-da-amazônia ocorre entre agosto e setembro. O período até a eclosão dura, em média, 60 dias. Com o atraso na desova, o risco, agora, é que o nascimento dos filhotes coincida com o período de chuvas e os ovos, enterrados na areia, fiquem soterrados e os filhotes não consigam subir até a superfície para respirar.

Segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o tabuleiro de desova do rio Guaporé é o maior do país. As tartarugas se espalham por quatro praias: Ilha, Alta, Suja e Tartaruguinha.

Deyvid explica que a fumaça alterou a temperatura e a luminosidade do ambiente, impossibilitando a criação do “cenário ideal” para a desova das tartarugas no período regular.

Somente com a redução dos focos de calor, em outubro, as tartarugas se deslocaram até a praia para depositar os ovos. Com o período de cheias dos rios se aproximando, existe o risco de que a água alcance os ninhos antes que os filhotes estejam prontos.

*Por Iury Lima e Amanda Oliveira, da Rede Amazônica RO

Relatório destaca estratégias para transformar o setor madeireiro da Amazônia em modelo sustentável

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Foto: Divulgação/Imaflora

O relatório inédito “O manejo de florestas naturais e o setor madeireiro da Amazônia brasileira: situação atual e perspectivas” apresenta uma análise abrangente e estratégica sobre o setor madeireiro da região, aponta desafios históricos, oportunidades e recomendações para alinhar a exploração madeireira às necessidades de conservação e desenvolvimento sustentável. Elaborado pela iniciativa Amazônia 2030, em parceria com Imaflora e Instituto Floresta Tropical (IFT), o estudo é um alerta e um chamado à ação para governos, empresas e sociedade civil.

O setor madeireiro amazônico, que já foi um dos pilares da economia da região, enfrenta uma crise prolongada. A produção de madeira em tora despencou de 28 milhões de m³ no final da década de 1990 para apenas 10-12 milhões de m³ nos últimos anos. Cerca de 92% da madeira é destinada ao mercado interno, sobretudo à construção civil, enquanto apenas 8% é exportada.

Ele ressalta que práticas predatórias e a exploração ilegal continuam predominando, com 30% a 40% da exploração ocorrendo sem autorização.

Manejo florestal

Desde a década de 1990, o manejo florestal tem sido uma tentativa de equilibrar a conservação da floresta com a geração de renda. Atualmente, apenas 8% a 9% da produção madeireira da Amazônia provém de áreas manejadas de forma responsável, como concessões florestais ou empreendimentos certificados. O manejo florestal reduz custos em até 20% em comparação com práticas convencionais, além de oferecer benefícios ambientais significativos, como a manutenção de biodiversidade e estoques de carbono.

No entanto, as concessões florestais, reguladas pela Lei de Gestão de Florestas Públicas de 2006, progrediram de forma lenta. Em 18 anos, apenas 1,3 milhão de hectares foram concedidos, muito abaixo dos 25 milhões de hectares necessários para atender à demanda e estabilizar a fronteira madeireira.

Principais desafios

O setor madeireiro da Amazônia enfrenta entraves estruturais e sistêmicos que limitam seu potencial econômico e comprometem sua sustentabilidade. Entre os maiores desafios está o predomínio da exploração ilegal. Dados do relatório apontam que entre 30% e 40% da madeira amazônica é explorada sem as devidas autorizações, muitas vezes por meio de fraudes no sistema de créditos florestais. “Os créditos fictícios permitem inflar a legalidade de madeira retirada de forma predatória, criando uma cadeia que dificulta a rastreabilidade e mina a credibilidade do setor”, explica Marco W. Lentini, coautor do estudo.

Além disso, a exploração concentra-se em poucas espécies, com apenas 20 das mais de 1.000 disponíveis sendo amplamente comercializadas. Essa dependência gera pressão excessiva sobre espécies como o ipê e o cumaru, enquanto outras permanecem subutilizadas. “O setor ainda não investe na diversificação de espécies, perdendo oportunidades de explorar de forma equilibrada a biodiversidade amazônica”, destaca Lentini.

Foto: Divulgação/Imaflora

A falta de modernização tecnológica é outro ponto crítico. Parques industriais obsoletos e a ausência de inovação mantêm o setor dependente de processos ineficientes e com baixo valor agregado. Além disso, a baixa rastreabilidade compromete a confiança de consumidores e investidores, mesmo com avanços como a plataforma Timberflow, que ainda precisa de maior adesão e integração para garantir transparência total na cadeia produtiva.

Propostas para o futuro

O relatório apresenta um caminho claro para transformar o setor madeireiro amazônico em um modelo de sustentabilidade econômica e ambiental. A expansão das concessões florestais é uma das principais recomendações. “As concessões florestais não apenas garantem a origem legal da madeira, mas também contribuem para a conservação, gerando benefícios sociais e econômicos para as comunidades locais”, afirma Maryane B. T. Andrade, coautora do estudo.

Outra proposta é fortalecer o manejo florestal comunitário e familiar, que pode se tornar uma alternativa viável para pequenas comunidades. No entanto, isso exige políticas públicas mais robustas, financiamento adequado e suporte técnico.

A diversificação da produção é outro eixo estratégico. Incentivar o uso de espécies pouco exploradas, por meio de estudos de viabilidade e incentivos econômicos, pode aliviar a pressão sobre espécies ameaçadas e aumentar a competitividade do setor. Paralelamente, o investimento em tecnologia, como drones e inteligência artificial, é essencial para modernizar processos e aumentar a eficiência produtiva.

O relatório também propõe integrar o setor madeireiro a sistemas de pagamento por serviços ambientais, como o REDD+, criando uma fonte de renda adicional para produtores que mantêm a floresta em pé. Além disso, sugere medidas para fomentar o uso sustentável da madeira em mercados externos e internos, como políticas de compras públicas que priorizem produtos de origem certificada.

Oportunidades para transformação

Apesar dos desafios, o setor madeireiro da Amazônia tem um potencial significativo de se tornar um exemplo global de bioeconomia. A transição para práticas sustentáveis pode gerar ganhos econômicos expressivos, atraindo investidores e consumidores preocupados com a origem dos produtos que consomem. “A madeira amazônica pode ser um insumo estratégico para a construção sustentável, substituindo materiais de alto impacto, como cimento e aço, em projetos inovadores”, ressalta Lentini.

A Amazônia também pode liderar o mercado de carbono, integrando o setor madeireiro a iniciativas de compensação ambiental. “A floresta em pé tem valor, e precisamos criar mecanismos que reflitam isso na economia global. As oportunidades estão aí, mas demandam planejamento e coordenação”, conclui Maryane.

Com a implementação das propostas apresentadas no relatório, o setor madeireiro não apenas pode superar sua crise, mas também se consolidar como um pilar da bioeconomia amazônica, promovendo desenvolvimento social e conservação ambiental.

A publicação está disponível para download no site do Amazônia 2030 e serve como base para discussões futuras sobre o papel da Amazônia na bioeconomia global.

Cafeicultura familiar em Apuí poderá produzir mais de 300 mil unidades de mudas em novo viveiro

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Foto: Henrique Saunier/Imprensa Idesam

A cafeicultura no município de Apuí, sul do Amazonas, vivencia uma nova etapa com a abertura do Viveiro de Mudas da Iniciativa Café Apuí Agroflorestal, uma estrutura moderna que promete alavancar a qualidade da produção de café e fortalecer os sistemas agroflorestais na região.

O viveiro traz benefícios diretos para os cafeicultores familiares ao garantir mudas de alta qualidade, com maior resistência e adaptabilidade, além de ampliar as perspectivas de mercado para o café de alto padrão produzido na Amazônia. 

Com capacidade de produção de 330 mil mudas por ano, incluindo café clonal e espécies nativas, o viveiro atende às demandas da iniciativa, reduzindo custos e perdas associados à logística.

Inauguração aconteceu no início de novembro, contando com produtores, estudantes, apoiadores e autoridades locais. Foto: Henrique Saunier/Imprensa Idesam

Vinda direto de Rondônia para compartilhar sua expertise com os produtores apuienses, a engenheira agrônoma Poliana Perrut, especialista em cafés canephora, destacou a importância da nova estrutura para o sucesso da cafeicultura local.

Além das mudas de café, o viveiro investe na produção de espécies nativas, como açaí, andiroba e jatobá, fundamentais para sistemas agroflorestais que combinam rentabilidade com conservação ambiental. A iniciativa ainda estuda a viabilidade da utilização de novas tecnologias na sua operação, como recipientes biodegradáveis que garantem mais sustentabilidade no cultivo. 

Poliana Perrut fala das boas práticas no manuseio e plantio das mudas. Foto: Henrique Saunier/Imprensa Idesam

Um marco para o futuro 

A iniciativa, liderada pela Amazônia Agroflorestal em parceria com o Idesam, também contempla um galpão de beneficiamento e armazenamento de insumos, além de espaços de apoio aos trabalhadores, como escritórios e dormitórios. Para o diretor técnico do Idesam, André Vianna, o viveiro é um verdadeiro divisor de águas.  

Produtores e associações de regiões vizinhas, como a ASAGA, acompanharam de perto a abertura do Viveiro. Foto: Henrique Saunier/Imprensa Idesam

“Essa estrutura representa um marco para a produção de café em Apuí. Além de melhorar a qualidade e a quantidade de produção, também é um passo importante para a adequação ambiental e o fortalecimento de outros sistemas produtivos na região”, destacou o diretor na inauguração da estrutura, em novembro deste ano. A iniciativa é resultado do esforço coletivo de vários parceiros, incluindo o Grupo Carrefour Brasil, a ERM e a Lush, que apoiaram a construção do viveiro.  

O secretário municipal de Meio Ambiente, Domingos Bonfim, ressaltou a importância do projeto para o município.

Equipe do Idesam e da Amazônia Agroflorestal com a consultora Poloana Perrut. Foto: Henrique Saunier/Imprensa Idesam

A estruturação do viveiro reflete diretamente na rotina dos produtores, que agora têm acesso a mudas mais vigorosas e suporte técnico especializado. Para Jonatas Machado, diretor comercial da Amazônia Agroflorestal, a iniciativa representa a realização de um sonho coletivo. “Essa estrutura nos permite atender mais famílias em menos tempo e reduzir a mortalidade das mudas. É o cartão de visitas do projeto, um símbolo do nosso compromisso com a cafeicultura e os sistemas agroflorestais”, comemorou Machado. 

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Idesam, escrito por Henrique Saunier

Você sabe quais tipos de café a Amazônia mais produz?

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Foto: Marcelo Casal Jr./Agência Brasil

Na Amazônia, existem duas espécies que se destacam quando se fala no cultivo de café: arábica (Coffea arabica) e robusta (Coffea canephora), cada uma com variedade diversa e ampla gama de condições ecológicas. O destaque vai para o arábica, que representa cerca de 70% da produção global, enquanto o robusta somente 30%. 

O arábica tem sido cultivado como “café de sombra”, em altitudes mais elevadas, enquanto o robusta é o “café de sol”, cultivado em altitudes mais baixas. Ambas são cultivadas na Amazônia.

Leia também: “Matas de Rondônia” recebe selo de indicação geográfica que garante qualidade do café

Robusta (Coffea canephora)

Popular pela variedade Conilon, tende a ser mais amargo e marcante. É uma espécie mais resistente a pragas e doenças e, diferente do arábica, não precisa necessariamente ser cultivado em regiões de alta altitude.

Arábica (Coffea arabica)

É apreciado por suas características únicas e marcantes, que o diferenciam de outras variedades de café, com sabor suave e complexo, muitas vezes descrito como “doce e frutado”, com notas que variam de caramelo a chocolate, e até mesmo toques florais e cítricos, dependendo da região de cultivo e do processo de torrefação.

Além do sabor, este café também é valorizado por sua menor quantidade de cafeína em comparação com o robusta, tornando-o uma escolha popular entre aqueles que buscam uma experiência mais suave.

Os cafés mais premiados da Amazônia são de Rondônia 

Rondônia é o estado reconhecido por ser um dos que possui os melhores cafés do país. E foi homenageado pelo Prêmio da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA Brasil Artesanal 2024), em Brasília, na categoria canéfora, em café especial torrado.

Leia também: Rondônia é o estado mais cafeicultor da Amazônia

O café diferenciado dos rondonienses ganhou destaque, pois levou para a Amazônia os cinco primeiros prêmios da categoria em nível nacional. 

Calor extremo na Amazônia tem alta de até 5,1ºC nas temperaturas máximas em 2024

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Orla do município de Tefé, no Amazonas, com seca no rio Solimões e forte exposição solar. Foto: Jullie Pereira/InfoAmazonia

Os moradores da Amazônia sentiram mais calor neste ano? A resposta, segundo uma análise exclusiva da InfoAmazonia, é sim. Na comparação com os 30 anos anteriores, as médias das temperaturas máximas registradas pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) na região ficaram, entre janeiro e outubro de 2024, até 5,1ºC acima do que era considerado normal para cada mês do ano.

A análise considerou 41 estações com monitoramento do Inmet presentes na Amazônia Legal, sendo que a maioria está no Pará (10), Amazonas (7) e Maranhão (7).

No mês de fevereiro, entre 1991 e 2020, Boa Vista tinha uma temperatura média máxima de 34,1ºC. No entanto, neste ano, a capital de Roraima alcançou 39,2ºC, registrando 5,1ºC acima do normal para o mês. No mesmo estado, a cidade de Caracaraí, caso tivesse mantido os padrões das décadas anteriores, teria registrado uma temperatura média máxima de 33,8ºC em setembro, mas, em 2024, a média do mês chegou a 39,1ºC — uma alta de 4,3ºC.

O clima predominante na Amazônia Legal é o equatorial, caracterizado pelo forte calor e pela alta umidade, com apenas duas estações, a chuvosa e a seca. Esse tipo de clima é encontrado ao redor da Linha do Equador. No entanto, os climatologistas apontam que essa alta temperatura observada em 2024 é uma “anomalia”, quando os dados registrados não seguem a média do que era previsto historicamente, uma consequência das mudanças climáticas globais e também de fatores regionais.

O que é a normal climatológica? Para identificar uma anomalia climática, os pesquisadores utilizam como base a chamada “normal climatológica”, que corresponde à média das temperaturas calculada ao longo de um período de 30 anos. Na análise da InfoAmazonia, o período de 1991 a 2020 foi usado como referência para avaliar se o ano de 2024 foi mais quente ou não.

Boa Vista é a única capital do país acima da Linha do Equador, o que também explica a quentura. Apesar do aumento de 5,1ºC em fevereiro, a cidade também passou por altas temperaturas em outros meses do ano. Em março, o aumento foi de 4,8ºC em relação à média dos anos anteriores e, em maio, foi de 3,9ºC. Isso tem prejudicado pessoas como o motoqueiro Helibraldo Pimentel, que faz entregas e deslocamentos a serviço da Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Roraima (OAB-RR).

Os sintomas de Helibraldo são causados pelo calor extremo, de acordo com o Ministério da Saúde, e incluem exaustão, insolação, desidratação e queimaduras. Eles geram quadros de irritabilidade, fraqueza, sonolência, pele vermelha, tonturas, náuseas, dificuldade de atenção, cãibras e perda de consciência.

Para se proteger, o motoboy passou a usar, desde o ano passado, roupas que cobrem seu corpo durante as viagens, como luvas e blusas de manga longa, além dos óculos e do protetor solar. “Eu tento me cuidar, tomar as precauções, porque eu sei que isso pode dar até câncer de pele, mas o sol tá muito difícil”, diz.

O pesquisador Bruno Sarkis, do Laboratório de Hidrografia e Climatologia da Amazônia (Hidrogeo), da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), explica que Roraima passa por mudanças territoriais, como desmatamento, que aumentam o calor.

Já no Amazonas, onde Sarkis mora, há 6,6% de vegetação em áreas urbanas. Na capital Manaus, a média das temperaturas máximas do mês de setembro neste ano foi de 37,3ºC, 3,2ºC acima da normal climatológica, que é de 34,1ºC. O pesquisador afirma que as cidades amazônicas estão sendo afetadas pelas mudanças climáticas globais, mas também há um fator de influência local criado pela falta de arborização e desmatamento. 

Cidades que passam pelo calor extremo

Cuiabá é outra capital que registrou recordes de temperaturas mensais. Em setembro, a cidade deveria apresentar uma máxima média de 36,6ºC, conforme os padrões de 1991 a 2020, mas alcançou 40,2ºC, uma elevação de 4,6ºC.

Além disso, a cidade registrou o dia mais quente entre as 41 estações monitoradas da Amazônia Legal neste ano: 44,1ºC em 6 de outubro de 2024, contra uma média prevista para o mês de 35,1ºC, uma diferença de 9ºC. A cerca de 40 km dali, no município de Santo Antônio de Leverger, os moradores também enfrentaram um calor de 42,8ºC no mesmo dia — a segunda temperatura mais alta registrada pelas estações do Inmet em 2024, com uma diferença de 7,7ºC em relação ao esperado.

Trabalhadores expostos ao sol na feira do Ver-O-Peso, em Belém. Foto: Fábio Bispo/InfoAmazonia

Além de Boa Vista, Cuiabá e Caracaraí, completam o ranking das dez cidades com as maiores elevações de temperatura média máxima mensal em 2024: Zé Doca (MA), Carolina (MA), Balsas (MA), Diamantino (MT), Santo Antô­nio de Leverger  (MT), Manaus (AM) e Araguaína (TO). Todas elas tiveram elevações acima de 3,1ºC do que era previsto para o mês.

Setembro foi um dos meses mais quentes na Amazônia: das 20 maiores médias máximas de temperatura registradas nas 41 estações neste ano, sete ocorreram nesse mês. Em Cuiabá, a diferença de temperatura chegou a 4,6ºC em relação à média.

Belém, no Pará, que deve receber mais de 60 mil pessoas para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a COP30, em 2025, teve a média máxima de 36,1ºC em setembro, uma alta de 2,9ºC em relação à normal climatológica, que era de 33,2ºC para o mês. O dia mais quente da cidade ocorreu em 4 de setembro, quando a temperatura máxima foi de 37ºC – 3,8ºC acima da normal. 

Maria do Socorro trabalha no Samu, de Belém, atendendo comunidades ribeirinhas Foto: Arquivo Pessoal

A partir de junho, a capital paraense esquentou consideravelmente, com subidas de 1,6º até chegar nos 2,9ºC, considerando a média esperada para o mês. O local é rodeado por ilhas pequenas, onde vivem populações ribeirinhas que trabalham com turismo, extrativismo, pesca e produção cultural. A técnica de enfermagem Maria do Socorro de Oliveira faz atendimentos na ambulancha

Lancha adaptada para estrutura de ambulância, com profissionais que  navegam os rios para fazer atendimento nas comunidades. do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), na ilha de Cotijuba, que fica a 30 minutos da cidade. Ela conta que, neste ano, começou a ter sintomas de doenças respiratórias, que atribuiu às mudanças repentinas do tempo. 

“Eu fico com o meu corpo muito mole, eu fico tossindo, eu fico com coriza, dá uma alergia em mim. Eu não tinha isso antigamente, agora eu tenho. É por essas mudanças de clima, esse sol muito forte, porque a gente fica fazendo ocorrência no sol. Às vezes, você tá na quentura fazendo um procedimento, aí cai um chuvisco do nada, você pega sol e chuva. Meus colegas sentem o mesmo”, conta. 

Nas ilhas, uma das ocorrências mais comuns que Socorro atende é de pessoas que caem das árvores. Isso porque os trabalhadores que colhem frutos, como o açaí, acabam por enfrentar desafios na escalada dos troncos. Quando ela está de plantão, na zona urbana, isso muda. Socorro conta que são muitos os casos de desmaios. “É mal súbito que a gente chama. Quase todo dia a gente atende esses casos. São idosos que precisam andar no calor e, quando vê, desmaiam. A gente mede a pressão, às vezes a pessoa é hipertensa, acontece muito”, diz. 

Sai El Niño e entra La Niña?

Neste ano, a Amazônia vivenciou os efeitos do El Niño, fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico, que reduz a formação de nuvens e intensifica a seca. A meteorologista Andrea Mendes, do Inmet, explica que, além disso, a região enfrentou duas ondas de calor em setembro de 2024: a primeira, entre os dias 2 e 9, e a segunda, entre os dias 22 e 28. Nesse período, 30 estações de monitoramento na Amazônia registraram médias de temperatura máxima acima da normal, a maioria no Pará (7), no Maranhão (6) e no Amazonas (5).

“Na média, é esperado até 1ºC de elevação, mas a partir de dois graus realmente caracteriza essa situação de ambiente muito seco e quente. No Mato Grosso, as chuvas pararam e houve queda na umidade, o que favoreceu também o que vimos dos incêndios ao longo do ano”, explica Mendes.

No final deste ano, há a possibilidade de mais um fenômeno atuando na região e que pode ter um impacto de alívio na temperatura: o La Niña. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), há 60% de probabilidade de ele ocorrer, o que pode provocar o resfriamento do Oceano Pacífico e um aumento na incidência de chuvas no território amazônico. O pesquisador Fábio Nunes, do Laboratório de Modelagem do Sistema Climático Terrestre (LabClim), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), explica que é esperada uma neutralização do calor na região, mas que o La Ninã deve ser de “intensidade fraca”. 

“Se ela [La Niña] entrar, pode ser que intensifique um pouco mais as chuvas. Após entrar nessa normalidade, as temperaturas tendem a ser normalizadas e acontecer dentro do esperado”, explica. 

O climatologista José Marengo também afirmou, durante reunião de Avaliação e Previsão de Impactos, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden),  em 22 de outubro, que “nos diferentes valores de temperatura do mar, observa-se um resfriamento muito pequeno” e que “a conclusão de alguns centros é que o La Niña pode se configurar no final do ano, com o pico possivelmente ocorrendo no próximo ano, mas os indicadores mostram uma La Niña bastante fraca”.

*Esta reportagem foi produzida pela Unidade de Geojornalismo InfoAmazonia, com o apoio do Instituto Serrapilheira, publicada originalmente pelo InfoAmazonia, escrita por Jullie Pereira

Pesquisadores investigam potencial tecnológico da fibra natural da aninga

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Foto: Reprodução/Arquiflora.org

Quem costuma observar a paisagem de Belém e visitar lugares como o Mangal das Garças, Portal da Amazônia e o Parque do Utinga já deve ter notado a presença de uma planta aquática que ocorre em abundância nas margens de rios, furos, igapós e igarapés da Amazônia. Trata-se da Montrichardia linifera, uma macrófita da família Araceae, popularmente conhecida como “aninga”.

O que muitos não sabem é que as fibras naturais desta planta possuem alto desempenho e potencial tecnológico. É o que revela o artigoCharacterization of the natural fibers extracted from the aninga’s stem and development of a unidirectional polymeric sheet‘, o estudo mais recente publicado por pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) na revista científica internacional ‘Scientific Reports‘, da Nature.

O artigo é de autoria de Jucelio Lima Lopes Junior, David Rodrigues Brabo, Everton Leandro Santos Amaral, André Wilson da Cruz Reis, Cristine Bastos do Amarante (COCTE/MPEG) & Carmen Gilda Barroso Tavares Dias (PPGEM/UFPA).

A aninga é foco de estudo da pesquisadora Cristine Bastos do Amarante (MPEG) há mais de 15 anos. Sob a orientação de Cristine, os autores Jucélio Lima Lopes Junior, David Rodrigues Brabo e Everton Leandro Santos Amaral começaram seus estudos como bolsistas de Iniciação Científica (PIBIC). Ao longo das suas trajetórias acadêmicas, os pesquisadores exploraram as propriedades e as potenciais aplicações tecnológicas dessa fibra. E percebendo a necessidade de avançar nas pesquisas em diversas frentes, Cristine Bastos buscou parcerias com outras instituições científicas.

Uma delas foi com a Universidade Federal do Pará e a professora e pesquisadora Carmen Gilda Barroso Tavares Dias, do Laboratório de EcoCompósitos do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Mecânica da UFPA. Durante o mestrado em Engenharia Mecânica, foi Jucélio Lopes que aprofundou os estudos sobre as características da fibra da aninga, sob a orientação da Profa. Carmen Gilda e a co-orientação de Cristine, evidenciando a cooperação técnico-científica entre Museu Goeldi e UFPA por meio deste estudo.

A dissertação de Jucélio resultou na elaboração de uma folha polimérica unidirecional com fibras da aninga e culminou na publicação do artigo e no depósito da patente intitulada “Compósito Termorrígido em Folha Reforçado com Fibra de Aninga e Método de Fabricação”.

Atualmente Jucelio Lima é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Florestais na UFRA; David Brabo é doutorando no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Everton é Mestre do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Materiais (PPGEM) da Escola de Engenharia de Lorena (EEL), da Universidade de São Paulo (USP); e André Wilson é doutorando no Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Recursos Naturais da Amazônia, da UFPA.

A aninga e suas características

Com características particulares, a aninga pode chegar até seis metros de altura e suas folhas podem medir de 45 a 66 centímetros de comprimento e até 63 centímetros de largura. As aningas formam florestas densas, chamadas de “aningais” e servem de alimento para alguns animais, como peixes, tartarugas e peixes-boi. Apesar de fazer parte da dieta alimentar desses animais, para os humanos a aninga é considerada uma planta com alto grau de toxidade e sua seiva é urticante, causando irritação e queimaduras ao entrar em contato com a pele.

Já o seu material fibroso possui propriedades mecânicas favoráveis para a utilização em indústrias, como reforço adequado na fabricação de materiais compósitos – que são os materiais formados pela combinação de dois ou mais componentes de propriedades físicas ou químicas diferentes e que resultam em um novo material de qualidade superior.

No estudo recém publicado, a fibra da aninga apresentou um índice de cristalinidade de 62,21%, indicando o alto teor de celulose na sua composição química. Isso indica que as fibras da aninga possuem uma alta resistência à tração, sendo duas vezes maior que a resistência das fibras de coco. É devido a essa resistência que podemos considerar as fibras da aninga como sendo de alto desempenho. A pesquisa também constatou que além da celulose, o carbono também é um dos principais componentes da fibra.

Outra característica é que na superfície de Montrichardia linifera é possível observar a presença de poros e estruturas em formato de favo de mel, o que aumenta a rugosidade da superfície da fibra e permite maior ligação e aderência aos materiais do compósito. A resistência térmica das fibras também foram analisadas. Os resultados revelaram uma estabilidade térmica de até 450 ºC, considerada de alta resistência.

O uso crescente de fibras naturais de origem vegetal, como as da aninga, em materiais compósitos destaca um avanço rumo ao desenvolvimento de materiais sustentáveis e biodegradáveis. Essas fibras estão substituindo cada vez mais alternativas sintéticas, particularmente em indústrias como a automotiva e aeroespacial, devido a suas excelentes propriedades físico-químicas.

O futuro das pesquisas

“Ainda temos um longo percurso. Queremos chegar a produtos com indicadores de tecnologia social partindo da preocupação com o manejo. No momento, além da publicação, o primeiro produto apresentado para a comunidade foi num concurso de ponte estudantil, em eventos simultâneos de Engenharia”, destaca a pesquisadora Carmem Gilda.

A pesquisadora Cristine Bastos também já desenvolveu diversos estudos com outros componentes da aninga e enfatiza o protagonismo do Museu Goeldi na continuidade das pesquisas. Atualmente, ela orienta um bolsista PIBIT de Engenharia Florestal que está desenvolvendo o papel da fibra da aninga de forma industrial, em parceria com pesquisadores da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) e um bolsista de Engenharia Mecânica que está trabalhando no aperfeiçoamento de uma viga confeccionada com a fibra da aninga. A viga já foi testada e suportou uma carga máxima de 1 tonelada sem apresentar flexão.

*Com informações do Museu Goeldi

Amazonas perde um dos fundadores da faculdade de medicina da Ufam

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Foto: Reprodução/Acervo da família

Faleceu na noite de quinta-feira (5), em Manaus (AM), o médico Wallace Ramos de Oliveira. Registrado pela Academia de Medicina do Amazonas com o número 10, Wallace atuou como médico por mais de 60 anos, tendo iniciado em 1958 e se aposentado em 2020.

O médico foi um dos fundadores da faculdade de medicina da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Além de médico ginecologista obstetra, Wallace também atuou como professor.

Natural do Maranhão, ele recebeu em 2016 o ‘Título de Cidadão do Amazonas’, por sua contribuição e feitos para benefício do estado e sua população.