Por Julio Sampaio de Andrade – juliosampaio@consultoriaresultado.com.br
Carla é uma mulher na faixa dos seus trinta e poucos anos. Nasceu na Bahia em uma família de cinco irmãos, em que todos tiveram que trabalhar cedo para ajudar na casa. O estudo foi o básico. A escola era longe e o tempo de trabalho era a prioridade. Os pais de Carla eram semialfabetizados e, para eles, estudar não era tão importante quanto trabalhar bem na roça. Os irmãos mais velhos foram saindo de casa tão logo conseguiam, sendo as últimas, Carla, que era a caçula, e uma irmã, Maria, um pouco mais velha. Na adolescência, Carla viveu a fase mais difícil de sua vida. O pai, violento por natureza, agora sem os filhos homens em casa, dirigia toda a sua truculência para as mulheres. A terra dava cada vez menos, as dificuldades eram cada vez maiores e Jacinto, cada vez mais infeliz, descarregava na mulher e nas filhas todas as suas revoltas e frustrações. Carla, de temperamento forte, reagia e era a que mais apanhava.
Um dia Carla, Maria e a mãe, D. Rosa, fugiram para nunca mais voltar. Juntaram algum dinheiro para as passagens de ônibus, pegaram as suas trouxas, como elas diziam, e partiram para uma nova vida. Vida que não foi muito longa para D. Rosa, que não resistiu a uma forte virose da cidade grande.
Maria conheceu um pernambucano que também tentava a sorte em São Paulo, mas que não estava tendo sucesso. Ambos se apaixonaram e decidiram morar em Recife, onde ele era conhecido e conhecia gente, tendo mais chances de se estabelecer. Maria e Carla se despediram na rodoviária em prantos, algo dizendo a Carla, que elas nunca mais se veriam.
Sozinha, Carla seguiu vários caminhos, num processo de tentativa e erro, hora para cá, ora para lá, morando aqui e ali, trabalhando em um lugar ou em outro, “ficando” com este ou aquele homem que conhecia em algum baile, experimentando diferentes cidades, sem nunca fincar o pé. Carla vivia intensamente e a única coisa que sabia era que ela não queria criar vínculos. Nem com pessoas, nem com trabalho, nem com religião e nem com qualquer coisa. Carla entendia que ser livre e feliz era não ter vínculos. Os que tivera, a prenderam e a fizeram sofrer.
Mas Pedro chegou, uma criança fruto de um breve relacionamento, que seria abusivo, se Carla não reagisse imediatamente. Precisou de proteção da justiça, mas conseguiu afastar o homem, que nunca soube que Carla estava grávida. Melhor assim, pensou ela. Antes só do que mal acompanhada. Decidiu tornar-se a melhor mãe do mundo e oferecer a Pedro tudo o que a vida não a havia proporcionado.
Pedro agora tem 11 anos e o que mais Carla fez durante este período foi criar vínculos. Foi trabalhar em uma casa de família, onde teve condições de estudar. Pedro é tratado como um neto, com direito à festinha de aniversário e tudo mais. Carla se sente como da família, onde trabalhou por vários anos. Ela agora atua como cuidadora e sente-se realizada cuidando de pessoas, não se negando a criar vínculos emocionais com elas, mesmo quando sabe que não viverão muito tempo. Mora já há alguns anos com Carlos Eduardo e planejam oficializar o casamente na igreja que se filiaram e que são membros ativos.
O vínculo do filho mudou a vida de Carla e a fez criar outros elos fortalecedores. Somos seres que precisamos de raízes, de vínculos que nos sustentem em nossa jornada. Ao contrário do que nos diz uma cultura em que tudo é descartável, precisamos de tempo. Tempo de laços familiares, tempo de convívio, tempo de amizade, tempo de trabalho, tempo de fé, tempo de uma causa, tempo para formar um time, tempo para que as coisas se consolidem.
Sim, é verdade, tudo muda muito rapidamente, cada vez com maior velocidade, mas, quanto mais rápido as coisas mudam, mais valor tem o tempo e os vínculos por ele formados. Eles nos fortalecem e formam a nossa rede de proteção.
E você, já pensou quais são os vínculos que o fortalecem? Você investe em sua rede de proteção?
Sobre o autor
Julio Sampaio (PCC,ICF) é idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute, diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching e autor do livro Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital). Texto publicado no Portal Amazônia e no https://mcinstitute.com.br/blog/.
Acordo dos povos Munduruku e Apiaká. Foto: Túlio Paniago/OPAN
Quando precisam de palhas para cobrir suas casas, moradores da comunidade ribeirinha da Barra do São Manoel (AM) e de algumas aldeias da Terra Indígena (TI) Munduruku (PA) acessam a TI Apiaká do Pontal e Isolados (MT), afinal o babaçu não é tão comum em seus respectivos territórios. Além das folhas da palmeira, eles também costumam pescar, caçar e coletar ovos de tracajá. Eventualmente os Apiaká também acessam os territórios desses vizinhos em busca de recursos mais abundantes nessas áreas. Esse intercâmbio acontece há muito tempo e agora foi formalizado.
Elaborado e assinado por lideranças das três partes envolvidas, o “Acordo de pesca e uso tradicional em consenso na área da Terra Indígena Apiaká do Pontal e Isolados” engloba a região norte do território indígena e áreas adjacentes à foz do rio Juruena e à foz do Teles Pires (ou São Manoel), onde estão localizadas a comunidade ribeirinha e as aldeias Munduruku.
Na região abrangida, serão permitidas atividades de pesca, coleta de frutos e extração de recursos florestais, mas apenas por pessoas das comunidades envolvidas e exclusivamente para consumo local, sendo proibida a comercialização externa. O objetivo é conservar os recursos naturais necessários para garantir a soberania alimentar, qualidade de vida e tradicionalidade na região.
Povos indígenas e comunidade ribeirinha fazem acordo para uso de território – Foto: Adriano Gambarini/OPAN
“A gente entrou em consenso para trabalhar desta forma, um respeitando a situação e as necessidades do outro. Foi o melhor caminho que a gente encontrou junto com nossos parceiros e vizinhos. Esse acordo vai fazer parte do nosso PGTA (Plano de Gestão Territorial e Ambiental)”, explica Robertinho Morimã, cacique Apiaká da aldeia Matrinxã.
Com participação de lideranças Apiaká, Munduruku e da comunidade da Barra de São Manoel, o acordo foi firmado em março durante oficina para elaboração do PGTA da TI Apiaká do Pontal e Isolados, que não por acaso aconteceu na comunidade ribeirinha, região da tríplice fronteira entre Amazonas, Mato Grosso e Pará, justamente onde o Juruena e o Teles Pires convergem no Tapajós.
Como esses rios são as únicas vias de acesso ao território Apiaká em sua fronteira norte, o acordo também é importante do ponto de vista de vigilância e monitoramento territorial. “Algumas aldeias dos parentes Munduruku e, principalmente, a comunidade da Barra estão na porta de entrada do nosso território. Eles estão aqui há muito tempo e vão ser nossos olhos nessa região, por isso é importante a participação e inclusão deles no nosso PGTA”, ressalta Raimundo Paigo, liderança Apiaká da aldeia Pontal.
Por beneficiar todos os envolvidos conforme suas necessidades, essa iniciativa baseada no diálogo e na construção coletiva tem potencial de se tornar um exemplo positivo para construção de planos de gestão mais robustos, que considerem a área, o entorno e os diferentes atores envolvidos numa mesma conjuntura socioambiental.
“A novidade é o espírito agregador com o qual os Apiaká estão trabalhando. Além de abarcar uma discussão entre os moradores da terra indígena, também estão estendendo esse debate para os que têm relações fronteiriças com eles, de forma que se crie um contexto mais regional de proteção e de compreensão pelos melhores usos que se pode fazer dos recursos”, avalia Rinaldo Arruda, antropólogo e indigenista responsável por conduzir as oficinas de facilitação para a elaboração do PGTA Apiaká.
O documento, que vinha sendo costurado há anos, é composto por 21 artigos especificando cada pactuação. “A gente vem fazendo isso há muito tempo, mas foi bom colocar no papel. Agora cada um sabe exatamente o que pode retirar da terra indígena. E não é uma coisa que vai retirar pra prejudicar e nem pra vender. É um uso consciente e em consenso” reforça Antônio Fernandes, uma das lideranças da comunidade da Barra de São Manoel.
Acordo dos povos Munduruku e Apiaká. Foto: Túlio Paniago/OPAN
Além das aldeias do povo Apiaká (Pontal, Kanindé, Matrinxã, Mayrowi, Três Marias lll) e da comunidade ribeirinha da Barra de São Manoel, também fazem parte do acordo aldeias da TI Munduruku mais próximas à foz do Teles Pires, no caso Patuazal, Santa Cruz, Primavera, Teles Pires, Restinga, Ariramba Teles Pires, Castanheira, Vista Alegre do Tapajós e Papagaio.
Em setembro de 2024, depois de mais de três décadas de mobilizações e articulações, a TI Apiaká do Pontal e Isolados foi oficialmente declarada pelo Estado brasileiro, embora ainda aguarde demarcação. Eles se orgulham de dizer que, durante essa longa luta pela retomada, nenhum Apiaká perdeu a vida.
Esse caráter diplomático tem pautado as relações dos Apiaká com seus interlocutores, sejam eles parceiros, vizinhos ou órgãos governamentais. Um bom exemplo é a gestão compartilhada com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), resultante da sobreposição entre as áreas da TI Apiaká do Pontal e Isolados (MT) e do Parque Nacional do Juruena (PARNAju).
Acordo dos povos Munduruku e Apiaká. Foto: Túlio Paniago/OPAN
Como as dimensões do Parque são bem maiores, a parte sobreposta representa praticamente a área total da terra indígena. Assim, os Apiaká e o ICMBio, responsável por gerir unidades de conservação federais, fazem a gestão compartilhada da área sobreposta.
“É o estilo de trabalho do Apiaká que possibilita essa gestão conjunta. E agora ainda estão incorporando o uso em consenso de parcelas do território por comunidades ribeirinhas e outros indígenas. É uma maneira de enfrentar as pressões externas sem se indispor com os vizinhos, mas conseguindo alianças para fortalecer esse monitoramento. Estão somando esforços”, comenta Rinaldo Arruda.
A elaboração do PGTA da TI Apiaká do Pontal e Isolados tem se caracterizado por essa proposta diplomática e dialética, prezando pelo diálogo e a construção coletiva. O ICMBio também tem participado e contribuído com as discussões, afinal o PGTA Apiaká e o Plano de Manejo do PARNAju devem estar alinhados.
Acordo dos povos Munduruku e Apiaká. Foto: Túlio Paniago/OPAN
“São dois instrumentos de planejamento e gestão para uma mesma área sobreposta. Eles têm muitas similaridades. Um PGTA não pode funcionar se não estiver alinhado ao Plano de Manejo da unidade de conservação. Da mesma forma, quando a gente for fazer a revisão do Plano de Manejo, é importante a participação dos indígenas. Afinal, como vamos atualizar sem consultar quem será diretamente afetado?”, pontua Juliana Carvalho Arantes, analista ambiental do ICMBio.
No que diz respeito ao processo de construção do PGTA, a gestão compartilhada do território e o termo de uso em consenso são temas relacionados aos eixos “Território e Ambiente” e “Organização Social e Governança”. Nos próximos encontros serão definidos os acordos dos três eixos temáticos restantes: Economia; Saúde e Segurança Alimentar; Educação e Cultura. O trabalho será concluído em 2026.
Os PGTAs refletem a gestão do território em aspectos sociais e ambientais. É um instrumento de luta política que reúne as principais diretrizes de cada povo no que diz respeito à história, organização social e política, cultura, educação, saúde, geração de renda, vigilância, monitoramento, alimentação e demais questões relevantes ao povo.
Acordo dos povos Munduruku e Apiaká. Foto: Túlio Paniago/OPAN
Além de uma série de acordos internos sobre diversos temas, os PGTAs reúnem instrumentos de gestão (etnomapeamento e etnozoneamento) dos territórios e constituem importante ferramenta política e de autonomia comunitária, afinal possibilitam que os povos projetem suas vozes em questões de soberania e conservação ambiental.
A elaboração do PGTA da TI Apiaká do Pontal e Isolados e a implementação do PGTA do povo Rikbaktsa são eixos estruturantes do Berço das Águas, projeto realizado pela Operação Amazônia Nativa (OPAN) junto aos povos Apiaká e Rikbaktsa, com patrocínio do Programa Petrobras Socioambiental.
Em meio ao inverno intenso, o número de queimadas reduziu quase 100% nos primeiros quatro meses de 2025 no Acre, segundo o painel de queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Por meio da plataforma, é possível verificar que foram 8.551 focos detectados pelos satélites do órgão no segundo semestre do ano passado. Já no primeiro quadrimestre deste ano, que coincide com a época de chuvas em todo o estado, conhecida como inverno amazônico, foram apenas 43 queimadas. A redução é de 99,5%.
O ano começou com a maior quantidade de registros para o mês de janeiro na série histórica no Acre, com 43 focos de calor detectados. Até então, no monitoramento que começou em 1998, o maior número detectado havia sido de 24 queimadas em 2022.
A partir de fevereiro, quando começaram as chuvas intensas em vários pontos do estado, o número começou a cair. Ainda nos quatro primeiros meses do ano, pelo menos 10 municípios do Acre ficaram em situação de emergência por conta da elevação de rios e igarapés.
Na capital, pelo menos 169 famílias chegaram a ficar em abrigos da prefeitura.
Historicamente, o período endêmico dos focos de calor costuma ser durante o verão amazônico, nos meses após a incidência de chuvas, já que costumam ser provocadas para a limpeza de terrenos e pastagens, além da incineração de lixo.
Ainda pelo painel do Inpe, é possível perceber que, a partir de maio, os números começam a subir gradualmente.
Os piores períodos costumam ser no segundo semestre. O índice alcançado nos últimos seis meses de 2024 equivale a 99% do acumulado no ano, que foi de 8.658 queimadas, maior número desde 2022, com aumento de 32% na comparação com 2023.
Cinco cidade entre as mais poluídas
Com o município de Sena Madureira em segundo lugar, pelo menos cinco cidades acreanas apareceram no ranking das 10 mais poluídas do país em 2024, de acordo com um levantamento da plataforma IQ Air, que mede a qualidade do ar em vários pontos do planeta e disponibiliza os índices online.
O monitoramento utiliza o Índice de Qualidade do Ar (AQI, na sigla em inglês), métrica usada internacionalmente no acompanhamento da poluição do ar no mundo todo. O AQI consiste nos microgramas de partículas por metro cúbico (µg/m³).
Confira o ranking:
Porto Velho (RO) – 29,5 µg/m³
Sena Madureira (AC) – 27.3 µg/m³
Rio Branco (AC) – 23.6 µg/m³
Osasco (SP) – 22,1 µg/m³
Rio Claro (SP) – 20,8 µg/m³
Ribeirão Preto (SP) – 19,9 µg/m³
Carapicuiba (SP) – 19,4 µg/m³
Xapuri (AC) – 19,1 µg/m³
Manoel Urbano (AC) – 18,7 µg/m³
Santa Rosa do Purus (AC) – 18,7 µg/m³
Um dos principais fatores que contribuíram para a poluição do ar de cidades acreanas foram as queimadas. O ano de 2024 fechou com 32% de aumento na comparação com 2023.
Durante o verão, período em que o estado também enfrentou a seca de rios e igarapés devido à falta de chuvas, os números de incêndios urbanos e rurais foram alarmantes, e fizeram com que a qualidade do ar fosse prejudicada.
Rio Branco chegou a ter a pior qualidade entre as capitais e as aulas chegaram a ser interrompidas em municípios do estado por conta do avanço da fumaça.
O geógrafo da organização não-governamental (ONG) SOS Amazônia, Hugo Monteiro, destaca que o cenário das queimadas foi preocupante em todo o país. Ainda segundo Monteiro, as cidades do Norte ocuparam a maior parte das posições do ranking de cidades mais poluídas graças aos altos índices de queimadas registrados na região.
“A região que mais registrou focos de queimada, de acordo com o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais)- e o bioma amazônico foi o mais atingido – registrou mais de 140 mil focos de queimada. E aí, mesmo com a queda do desmatamento, a gente sabe que teve uma queda no desmatamento. Mas o número de desmatamento ainda é muito grande, e a gente sabe que essa queda não tem muito o que comemorar, porque mesmo que não haja desmatamento, se há queimada, não tem como a árvore se recuperar após o fogo”, afirma.
Carcaça de peixe no leito seco do Lago Tefé durante a estiagem de 2024. Foto: Alessandro Falco/INCT Adapta
Em setembro de 2024, a paisagem no Médio Solimões, no estado do Amazonas, contrastava com sua exuberância habitual. “Quando estávamos chegando em Tefé, e o avião se preparava para pousar, fui impactada ao ver tudo muito seco, com bancos de areia se multiplicando por entre as águas”, descreve a bióloga Susana Braz-Mota.
O Lago Tefé integra a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá, uma área de 1,12 milhão de hectares formada por florestas de várzea, alagadas sazonalmente pelos rios Solimões e Japurá. Toda a região é, normalmente, um mosaico de águas com grande importância ecológica.
Durante a cheia, o Rio Solimões traz consigo sedimentos e nutrientes que fertilizam as terras alagáveis, sustentando toda a fauna e a flora. A abundância de recursos nessas áreas reguladas pelos ciclos naturais de inundação favorece a diversidade de peixes na reserva: 541 espécies catalogadas, o que corresponde a 20% de toda a diversidade da bacia amazônica.
Mas a seca histórica de 2023, seguida por uma enchente fraca em 2024, alterou drasticamente o ambiente, forçando os peixes a sobreviver em águas rasas e mais quentes que o habitual.
Susana viajou de Manaus a Tefé com o também biólogo Rafael Duarte para investigar os impactos da estiagem sobre os peixes da Amazônia. Cientista amazonense, ela está habituada à imensidão dos rios, mas ouviu dos pescadores frases que se tornaram comuns no período: “já havíamos visto secas antes, mas nunca uma tão forte como essa”.
A baixa histórica dos rios expôs os peixes a múltiplos riscos: desde os efeitos do calor em seus organismos até impactos na reprodução e na cadeia alimentar dos habitats. Embora essas pressões afetem todas as espécies, há a preocupação de que peixes de interesse pesqueiro para as comunidades amazônicas estejam entre os mais sensíveis às mudanças nos pulsos de inundação.
Paisagem do Lago Tefé em setembro de 2024, durante seca história. Foto: Alessandro Falco/INCT Adapta
Lago Tefé: antes e depois
A Amazônia já está entre 0,6 ºC e 0,7 ºC mais quente, segundo acompanhamento dos últimos 40 anos. Com o planeta caminhando para um aquecimento de 2 °C em relação à era pré-industrial, as temperaturas na região podem subir ainda mais neste século, chegando a aumentar entre 3 °C e 4 °C, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
Temperaturas elevadas já alteram o ciclo de chuvas na Amazônia. Em 2023, a bacia enfrentou uma combinação de seca intensa com ondas de calor sem precedentes, resultando na perda de 3,33 milhões de hectares de superfície de água – o equivalente a três vezes a área de Manaus ou a 22 vezes a da cidade de São Paulo.
O Lago Tefé tornou-se um exemplo contundente dessa transformação. Entre setembro e outubro de 2023, sua área encolheu em 75%, passando de 379 km2 para 95 km2, com apenas meio metro de profundidade nos pontos mais rasos. No mesmo período, a temperatura da água atingiu a máxima de 41 ºC, permanecendo acima de 37 ºC por dias consecutivos — acima da média usual para a mesma época do ano, entre 29 ºC e 30 ºC.
Nos últimos dois anos, os baixos níveis dos rios dominaram a agenda de pesquisas e reuniões de Ayan Fleischmann, especialista na dinâmica das águas do Instituto Mamirauá e residente de Tefé. Segundo ele, os ribeirinhos costumam dizer que, após uma seca extrema, vem uma cheia igualmente extrema. “De fato, quando chegamos em janeiro, o rio começou a subir muito. Mas, em fevereiro, estagnou”, relata.
Em junho de 2024, período que costuma marcar o auge da cheia, os rios estavam abaixo da média, deixando muitos igapós sem alagamento no Lago Tefé. Como referência de comparação, o nível do Rio Solimões, em Coari, chegou a 16,14 metros em 30 de junho, abaixo dos 17,83 metros registrados em 2023 e dos 18,8 metros de 2022, nas mesmas datas.
Tefé, a maior cidade do Médio Solimões, tem 73.669 habitantes, segundo o censo de 2022. Assim como a fauna e a flora, as comunidades locais dependem dos pulsos de inundação dos rios para pesca e transporte. Com a seca, esse equilíbrio foi rompido, revelando um cenário de insegurança alimentar e dificuldade de acesso a serviços básicos.
Carcaça de peixe na beira do Lago Tefé durante a estiagem de 2024. Foto: Alessandro Falco/INCT Adapta
A temperatura da água ameaça a biodiversidade dos peixes?
“Compreender o limite térmico dos peixes é essencial para prever quais espécies são mais resistentes ao aumento da temperatura”, explica Rafael, que há mais de 20 anos estuda os peixes amazônicos.
Diferentemente de nós, humanos, os peixes dependem de fontes externas de calor para regular a temperatura corporal. Por isso, quando a temperatura do ambiente muda, seu organismo precisa se ajustar para sobreviver a condições mais adversas.
“Em águas mais quentes, os peixes gastam mais energia para manter funções básicas, como se alimentar, reproduzir e nadar”, explica Susana. “Esse esforço extra os torna mais vulneráveis a problemas como parasitas e até danos ao material genético.”
As mudanças climáticas podem tornar as condições da bacia amazônica ainda mais extremas. Temperaturas elevadas reduzem a quantidade de oxigênio dissolvido na água, ao mesmo tempo que aumentam a necessidade de mais oxigênio para os peixes, dificultando a respiração e comprometendo seu metabolismo. Isso pode desacelerar o crescimento dos juvenis e aumentar o estresse fisiológico.
No auge da estiagem de 2023, Susana esteve no Lago Janauacá, na região metropolitana de Manaus, onde registrou níveis de oxigênio de apenas 0,5 mg por litro — perigosamente próximos de zero. Em condições como essa, o calor extremo e a baixa oxigenação tornam-se letais, como ocorreu em Tefé e Janauacá, onde comunidades relataram alta mortalidade de peixes.
Os biólogos Rafael Duarte e Susana Braz-Mota capturam peixes em Tefé para seus experimentos. Foto: Alessandro Falco/INCT Adapta
Espécies diferentes de peixes reagem de formas distintas às variações de temperatura no ambiente. Estudos conduzidos por Susana e Rafael em Tefé mostraram que o aracu (Schizodon fasciatus), com potencial de produção pesqueira de 4.660 toneladas, é particularmente vulnerável. Quando exposto a temperaturas próximas ao seu limite, a espécie sofre um estresse que altera a estrutura celular, podendo danificar o DNA e causar mutações.
Já o tambaqui (Colossoma Macropomum), cujo consumo no Amazonas chega a 60 mil toneladas por ano, demonstrou tolerar temperaturas acima de 40°C em testes experimentais. No entanto, essa resistência não representa uma margem de segurança: exposições prolongadas ao calor podem causar efeitos deletérios antes mesmo de provocar a morte.
Diante dessas evidências, a pesquisa sobre a tolerância térmica dos peixes tem um potencial preditivo: em um futuro mais quente, ou com mais secas, é possível presumir que as espécies mais sedentárias terão mais chances de sobreviver, pois gastam menos energia para manter suas funções básicas em meio à adversidade.
Mas ainda que essa previsão se confirme, restaria a dúvida: sobreviver em que condições? Tendo em vista os efeitos que a temperatura acarreta nos animais, ainda assim estaríamos diante de um cenário de peixes menores e vulneráveis a doenças.
Secas recorrentes como a de 2023 representam um grave risco à biodiversidade dos peixes da Amazônia. Essas espécies evoluíram ao longo de milhões de anos em vastas áreas, com recursos abundantes e temperaturas estáveis.
Eventos extremos, porém, alteram drasticamente essas condições, podendo levar à seleção de algumas espécies e à redução das mais de 2.300 já descritas.
“Para a Amazônia, menor biodiversidade também significa perda de qualidade de vida para quem vive aqui”, destaca Susana.
No entanto, Rafael destaca que transpor as conclusões obtidas no ambiente controlado de um laboratório para o ambiente natural é um desafio. Afinal, diversos fatores de risco presentes em um habitat podem influenciar a resposta dos peixes à temperatura. “Em Tefé, por exemplo, há intenso tráfego de barcos, e estamos investigando se a contaminação por óleo dos motores afeta negativamente sua capacidade térmica”, aponta.
Pescador procura por peixes em lago reduzido no Parque Nacional de Anavilhanas, em novembro de 2023. Foto: Tiago da Mota e Silva/ INCT Adapta
Lagos rasos e quentes: uma tendência pelo mundo
O que aconteceu na Amazônia chamou a atenção de pesquisadores ao redor do mundo. Um deles é Priit Zingel, da Estônia. Em 2023, ele visitou a região pela terceira vez para conduzir estudos em dois lagos: Janauacá e Lago do Prato, este situado no Parque Nacional de Anavilhanas, a nove horas de barco de Manaus pelo Rio Negro.
“Presenciar aquela seca foi um grande impacto para mim”, recorda Zingel. “Quando conheci a Amazônia, a imensidão das águas me trouxe uma sensação de liberdade, de possibilidades infinitas. Sabíamos antecipadamente que a situação era extrema, mas vê-la de perto foi deprimente”.
Zingel estuda lagos ao redor do mundo, com foco nos chamados “lagos rasos”. Assim como muitos lagos amazônicos, esses ecossistemas possuem profundidade suficiente para que a luz solar alcance o fundo, geralmente até 5 metros, permitindo o crescimento de plantas aquáticas.
Na Amazônia, lagos conectados a rios, como o Tefé, também permitem a migração de peixes entre habitats. Durante a estiagem, esses lagos oferecem refúgio e alimento aos animais, graças à abundância de plantas aquáticas. No entanto, variações intensas no nível da água podem transformar o habitat, afetando a disponibilidade de nutrientes e a competição por recursos.
Outros lagos ao redor do mundo enfrentam desafios semelhantes. No continente africano, o Lago Chade encolheu de 25 mil km² nos anos 1960 para apenas 2,5 mil km² nos anos 1980, mas vem se recuperando desde então. Na Bolívia, o Lago Poopó secou completamente em duas ocasiões, em 2015 e 2021.
Diante desses desafios, Zingel investiga os impactos de longo prazo das oscilações no nível da água sobre os peixes, comparando a relação entre tamanho e peso em 10 espécies diferentes. As amostras foram coletadas em duas secas amazônicas: uma típica, em 2019, e a extrema de 2023. Os resultados são contundentes: com a seca severa, as proporções entre tamanho e peso dos peixes ficaram menores, tanto os sedentários quanto os mais ativos, como as piranhas.
Mesmo que algumas espécies tolerem águas mais quentes, as variações no nível dos lagos criam desafios para os peixes de maneira geral. “Todos esses fatores afetam a dinâmica das populações. Com eventos como esse se tornando frequentes, é razoável presumir que as espécies mais resistentes se tornem dominantes”, pondera Zingel. “Mas, se muitas espécies forem perdidas, as populações remanescentes se tornam mais vulneráveis e o ecossistema como um todo perde resiliência.”
Quais espécies de peixes podem ser mais vulneráveis a eventos de seca extrema?
Características principais
Por quê?
Exemplos de espécies
Peixes de média migração
São peixes que desovam em lagos, várzeas ou canais secundários. Suas larvas dependem da segurança e dos nutrientes que essas áreas proporcionam. 1, 2
Pacu, tambaqui
Peixes de longa migração
São espécies que percorrem longas distâncias rio acima para desovar, com ovos e larvas transportados pela correnteza até áreas de crescimento. Secas intensas podem interromper esse ciclo ao reduzir a conectividade entre rios e lagos. Além disso, são espécies que costumam apresentar taxas metabólicas mais elevadas, e por isso, são mais vulneráveis ao aumento da temperatura. 1, 2
Dourada, piramutaba, piraíba, jaraqui, curimatã
Peixes que vivem nos limites de sua tolerância à temperatura
Peixes que já vivem em ambientes de temperatura elevada e podem atingir seu limite térmico durante secas extremas, tornando-se mais vulneráveis ao estresse e à mortalidade. 3, 4, 5
Aracu, matrinxã, sarapó
Peixes de metabolismo mais intenso
Vivem mais próximos à lâmina d’água e dependem de alta disponibilidade de oxigênio para sustentar seu metabolismo acelerado. 6, 7
Tucunaré, bicuda, piranha
Pesca ameaçada
Três fatores são cruciais para entender o impacto das estiagens extremas sobre a pesca: mortalidade, crescimento e reprodução dos peixes. A combinação de altas temperaturas da água e baixa oxigenação já impõe um risco iminente nessas três frentes.
Como as pesquisas indicam, mesmo os peixes que sobrevivem a esse ambiente alterado não encontram condições ideais para crescer. Além disso, o estresse térmico pode comprometer a reprodução, afetando a qualidade do esperma e o desenvolvimento das larvas. Por fim, a desconexão entre lagos e rios impede a migração, um processo essencial para os ciclos reprodutivos de muitas espécies.
Carlos Edvar de Freitas, professor da Universidade Federal do Amazonas, engenheiro ambiental e especialista em pesca, alerta que todos os peixes com ciclos reprodutivos sincronizados aos pulsos dos rios estão em risco. Entre eles estão espécies de grande interesse pesqueiro, incluindo migradores de longas distâncias, como a piraíba e a dourada, e peixes que desovam em lagos no início da enchente, como o tambaqui e o pacu.
Pescadores do Lago Tefé durante a seca em setembro de 2024. Foto: Alessandro Falco/INCT Adapta
“Há uma palavra-chave para quem trabalha com pesca: recrutamento. É o momento em que os peixes jovens se juntam ao estoque de adultos”, explica Carlos. “Uma seca extrema pode atrasar a desova de muitas espécies amazônicas. Em outros casos, a desova ocorre, mas as larvas se tornam presas fáceis no leito do rio, sem conseguir alcançar os lagos. Tudo isso reduz o recrutamento, um impacto que só será percebido na próxima temporada de pesca”.
Por isso, leva tempo para compreender plenamente o impacto de uma seca na população de peixes. Um estudo publicado em 2024 analisou dados de pesca no Baixo Amazonas e confirmou que a produtividade é diretamente influenciada por eventos climáticos que alteram os habitats. No entanto, a pesquisa utilizou dados coletados entre 1993 e 2005, o que evidencia o hiato entre a pesquisa de campo e a publicação dos resultados — que ainda não considera os impactos das secas extremas deste século.
Ainda há poucos estudos que relacionam a produtividade da pesca com variáveis ambientais e fisiológicas dos peixes. Como destaca Carlos, os estudos existentes são, em sua maioria, conduzidos por universidades, com financiamentos pontuais, e não integram uma política pública regional de monitoramento.
“Faltam dados de captura para modelar os estoques pesqueiros. Mas essa não é uma tarefa que os pesquisadores podem realizar sozinhos”, defende Carlos. “A estatística deve ser conduzida pelos governos estaduais, com apoio do governo federal. Essa precisa ser uma informação de Estado.”
Eventos extremos mais frequentes: e agora?
Para Carlos, ignorar esses riscos é preparar o terreno para uma crise futura. Na Amazônia, a pesca de pequena escala é fundamental para a segurança alimentar e a redução da pobreza, gerando receitas de aproximadamente 465 milhões de dólares por ano e mais de 160 mil empregos. Em uma região onde o consumo de peixes está entre 130 e 180 kg por pessoa anualmente, a atividade pesqueira sustenta milhares de famílias e a economia local.
Desde que voltou de Tefé, Susana tem percorrido congressos para alertar sobre a gravidade da seca e o risco de sua repetição. No entanto, mesmo com a paciência necessária para explicar, repetidamente, um problema de importância crucial, sua decepção é evidente.
“Eventos extremos como o que vivemos não são isolados e tendem a se repetir com consequências cada vez mais graves. A maior parte das discussões e das estratégias de mitigação ainda está concentrada nas regiões Sul e Sudeste, enquanto o Norte, que desempenha um papel crucial no equilíbrio climático global, permanece subrepresentado”, desabafa. “Precisamos de políticas e investimentos que considerem as particularidades da região e a urgência da situação”.
Solo rachado do Lago do Prato, no Parque Nacional de Anavilhanas, durante a seca histórica de 2023, em novembro. Foto: Tiago da Mota e Silva/INCT Adapta
Carlos Freitas integra um grupo que lançou um documento com recomendações para políticas públicas diante da seca. No curto prazo, o documento propõe mudanças na política do defeso, ajustando o período de proibição da pesca de certas espécies quando há previsão de estiagens severas. Além disso, sugere a inclusão de novas espécies na lista de proibição, caso sua vulnerabilidade a eventos extremos seja comprovada. O documento também reforça a necessidade de intensificar a fiscalização contra a pesca ilegal, evitando a captura de peixes imaturos antes de seu recrutamento.
Em médio prazo, recomenda-se o investimento na aceleração da coleta de dados e no aprimoramento das ferramentas de previsão dos impactos nos estoques pesqueiros. Em um cenário de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, a informação é a melhor forma de prevenção. “Além disso, a Amazônia precisa de canais de comunicação entre a universidade, os tomadores de decisão e as comunidades ribeirinhas”, defende Carlos.
Referências
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*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Tiago Mota e Silva
A piscicultura em Roraima vem ganhando força e está se consolidando como uma das principais atividades econômicas do estado. A produção de pescado no estado chegou a 23.100 toneladas em 2024, um salto de 20% em relação às 19.200 toneladas em 2022, conforme dados do Anuário 2025 da Peixe BR, a Associação Brasileira da Piscicultura que monitora o setor no país.
A principal espécie criada em Roraima é o tambaqui, que responde pela maior parte da produção. Atualmente, o estado tem 6.634 hectares de lâmina d’água, o que corresponde a de 5.191 viveiros em operação.
Todos são utilizados para a criação de peixes em sistemas semi-intensivos e intensivos. Municípios como Amajari, Alto Alegre, Cantá, Boa Vista e Mucajaí lideram o ranking estadual de produção, com destaque para a infraestrutura e a organização dos produtores nessas regiões.
Outro fator que tem contribuído para a consolidação da piscicultura é o fortalecimento do cooperativismo. A Cooperativa Agrícola de Roraima (COPARR), por exemplo, reúne dezenas de piscicultores que atuam juntos na produção e comercialização do tambaqui.
Um dos cooperados é o piscicultor Luiz Rodrigues, que também atua como diretor tesoureiro da COPARR. Segundo ele, o crescimento da criação de peixes está ligado a rentabilidade da atividade.
“O cenário é otimista. Muitos produtores passaram a investir na piscicultura por causa da rentabilidade do setor. Hoje, só na cooperativa, a produção cresceu 60% em dois anos. A creditamos que em 2025 vai aumentar, pois conseguimos novos cooperados”, destacou.
Cerca de 85% do peixe produzido em Roraima é destinado ao mercado de Manaus, no Amazonas. O restante atende à demanda local. A atividade é responsável pela geração de emprego e movimentação econômica em dez dos quinze municípios.
Mas, apesar a expansão, o setor enfrenta por alguns desafios. Conforme o piscicultor Luiz Rodrigues, a logística do estado tem afetado a criação de peixes. “Hoje, toda ração que alimenta os animais vem de fora, isso encarece o custo de produção. As condições das estradas não ajudam. No inverno, algumas propriedades tem dificuldade para transportar os peixes”, destacou.
Para manter o ritmo de crescimento nos próximos anos, o setor aposta na ampliação de mercados e em investimentos em tecnologia e capacitação.
Um dos projetos sustentáveis promovidos na região de Loreto, no Peru, são os bionegócios, como a extração de mel de abelhas sem ferrão. Este produto natural é desenvolvido por moradores da comunidade nativa Maijunas, localizada às margens do barranco Sucusari, um afluente do Rio Napo, na província de Maynas.
O mel é hoje consumido por mais pessoas devido aos seus nutrientes e à sua importância na melhoria da saúde, segundo estudos do Instituto de Pesquisas da Amazônia Peruana (IIAP).
As abelhas estão entre os insetos mais importantes do mundo porque são essenciais para a preservação do ecossistema e a produção de alimentos. Entre as diversas espécies de abelhas que habitam a vasta Amazônia, há uma que foi ignorada por décadas, apesar de guardar segredos enormes e pouco estudados: a abelha sem ferrão da Amazônia, espécie valorizada hoje por sua essência, que permite o desenvolvimento de produtos medicinais para consumo humano.
Cerca de 170 pessoas vivem na comunidade de Maijunas. Seu fundador, Dom Sebastián Ríos Ochoa, conta que a maioria das famílias se dedica à preservação das abelhas sem ferrão com o objetivo de melhorar o processo produtivo e artesanal de criação da espécie de forma natural no município citado e nas áreas rurais. Naquela época, a produção de mel na Amazônia era artesanal. Ao longo dos anos, o projeto também adquiriu um foco de sustentabilidade, com o apoio de especialistas na área.
Douglas Ríos é um dos principais coletores de mel de “caixas racionais”, utilizando seringas para evitar vazamentos e danos às estruturas da colmeia amazônica. A técnica tradicional usada pelos Maijunas para obter mel de abelhas nativas se baseia na busca por ninhos selvagens na selva, geralmente localizados no oco do tronco de uma árvore, viva ou morta, e no acesso à estrutura da colmeia onde o mel e o pólen são encontrados.
Atualmente, entre as comunidades indígenas e mestiças, o mel das abelhas nativas é vendido em mercados informais ou trocado por necessidades básicas. Também é usado para preparar bebidas alcoólicas que são consumidas em eventos sociais.
Através de estudos compilados pelo IIAP, esses usos deslocam o valor medicinal tradicional do mel, cujos benefícios ou “receitas” servem para curar ou tratar: gripe, problemas brônquicos, mulheres com infertilidade, reumatismo, coqueluche, tosse, anemia, artrite e também para fortalecer o sangue e fortalecer o corpo e o espírito.
O mel geralmente é vendido em garrafas plásticas recicladas de refrigerantes ou outras bebidas, normalmente com 625 ml de volume.
Com 391.000 hectares designados para conservação, o povo Maijuna agora sonha e luta para preservar e utilizar de forma sustentável os recursos naturais de seu habitat e da bacia do Rio Napo.
Se você nunca saiu do Brasil, é bem provável que nunca tenha visto um crocodilo na natureza. Isso porque, em território brasileiro, só existem espécies de jacarés. Mas você saberia dizer qual é a diferença entre eles e os crocodilos, dois animais frequentemente confundidos?
Segundo informações do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, ambos fazem parte do grupo dos crocodilianos, ao lado dos menos conhecidos gaviais. Esse termo abrange os membros de três famílias distintas: Crocodylidae (crocodilos), Alligatoridae (jacarés, aligátores e caimães) e Gavialidae (gaviais).
Apesar de apresentarem características em comum — como agilidade, habilidades de submersão e um sistema de comunicação surpreendentemente complexo — existem diferenças visíveis entre os principais representantes desse grupo. A seguir, confira três formas fáceis de distingui-los:
Focinho
A principal maneira de identificar crocodilos e jacarés está no formato da cabeça. Os jacarés possuem focinhos largos e arredondados, enquanto os crocodilos têm focinhos mais estreitos e compridos. Essa diferença está ligada à dieta e ao tipo de presa que cada espécie consome.
Foto: Reprodução/Prefeitura de Lençóis Paulistas/Marineland Crocodile Park
Dente visível
Uma característica bastante curiosa está na disposição dos dentes. Todos os crocodilianos possuem um quarto dente inferior proeminente. Nos jacarés, esse dente se encaixa em uma cavidade da mandíbula superior e fica oculto quando a boca está fechada. Já nos crocodilos, a ponta do dente fica visível mesmo de boca fechada, o que ajuda bastante na identificação.
Foto: Reprodução/Brendha Arruda/Marineland Crocodile Park
Comportamento defensivo
Embora todos sejam animais selvagens, os jacarés tendem a ser mais reclusos e menos agressivos que os crocodilos. Isso não significa que sejam inofensivos: ao se sentirem ameaçados — especialmente ao defenderem ninhos ou território — eles podem reagir com rapidez e força. Acidentes com humanos, no entanto, são raros e geralmente ocorrem por invasão de habitat natural, como rios e igarapés.
A Amazônia abriga uma das maiores diversidades biológicas do planeta, com espécies que desafiam nosso olhar sobre o que é comum ou previsível na natureza. Entre elas, há animais com adaptações tão peculiares em forma, cor e comportamento que se assemelham a criaturas de ficção científica.
Esses organismos são frutos de milhões de anos de evolução em ambientes complexos e variados, o que resulta em estratégias surpreendentes para sobreviver, se alimentar e se reproduzir. Neste texto, vamos conhecer cinco espécies amazônicas que, de tão extraordinárias, poderiam facilmente habitar outros mundos — mas, sorte nossa, são animais reais da nossa rica floresta.
Acari-zebra (Hypancistrus zebra): o stormtrooper dos rios
Com o corpo coberto por listras pretas e brancas em alto contraste, esse pequeno peixe de até 10 centímetros, também conhecido como zebrinha, é um verdadeiro stormtrooper dos rios amazônicos — e ainda tem aquela carinha simpática de quem jamais acertaria um tiro.
Endêmico do rio Xingu, o acari-zebra vive escondido entre as rochas em águas rasas, bem oxigenadas e de correnteza moderada a forte. É mais ativo durante a noite, quando sai para se alimentar de pequenos invertebrados e restos orgânicos.
Sua beleza e raridade fizeram dele um dos peixes ornamentais mais cobiçados do mundo, o que, somado à construção de barragens em seu habitat, o colocou entre as espécies ameaçadas de extinção.
Acari-zebra (Hypancistrus zebra): o pequeno acari-zebra, espécie endêmica do rio Xingu, com seu visual “stormtrooper” e comportamento noturno, é um dos peixes ornamentais mais cobiçados da Amazônia. Foto: Art Parola
Matamatá (Chelus fimbriata): o mestre Yoda dos igarapés
Se os Jedi tivessem um representante nos rios da floresta, seria com certeza a matamatá. Esse quelônio de aparência pré-histórica chega a medir 50 centímetros e pesar até 15 quilos, com uma carapaça irregular e uma cabeça triangular coberta por franjinhas que a ajudam a se camuflar entre folhas e galhos submersos.
Vive nos igarapés e áreas de águas calmas da Amazônia e do Orinoco, sendo ativa principalmente ao entardecer e à noite. Alimenta-se de peixes, que captura com um “golpe de sucção” surpreendentemente rápido, engolindo a presa inteira em um movimento só — quase como um truque da Força!
Apesar da aparência excêntrica, ela é inofensiva e extremamente bem adaptada ao ambiente aquático onde habita.
Matamatá (Chelus fimbriata): com seu visual pré-histórico e habilidades de camuflagem dignas de um mestre Jedi, a tartaruga matamatá é uma especialista em emboscadas nos igarapés amazônicos. Foto: Jan Richtr
Papa-vento-narigudo (Anolis phyllorhinus): um alienígena infiltrado
Esse pequeno lagarto amazônico, que nem chega a ultrapassar 10 centímetros (sem contar a cauda), parece ter sido escalado como figurante especial em algum episódio de Star Wars. Com um “nariz” alongado que mais parece uma antena sensorial alienígena, o papa-vento-narigudo habita o alto das árvores em florestas de terra firme no norte do Brasil.
É ativo durante o dia, quando sai em busca de pequenos insetos, e usa sua protuberância nasal em disputas territoriais ou como parte do ritual de acasalamento. Seu corpo esguio, olhos atentos e movimentos ágeis o tornam um verdadeiro espião camuflado no meio da floresta — um alienígena infiltrado que poucos têm a sorte de observar.
Papa-vento-narigudo (Anolis phyllorhinus): o curioso papa-vento-narigudo, com seu “nariz” alongado, é um lagarto amazônico que parece ter vindo de uma galáxia distante. Uma verdadeira raridade entre as folhas altas da floresta. Foto: Christopher Borges
Arraia-de-fogo (Potamotrygon motoro): a Millennium Falcon dos rios amazônicos
Com seu corpo em forma de disco e padrões circulares alaranjados distribuídos como luzes em uma nave espacial, a arraia-de-fogo parece uma versão subaquática da Millennium Falcon, cruzando as águas da floresta com discrição e elegância.
Habitando os fundos arenosos dos rios amazônicos, essa arraia passa boa parte do dia enterrada, ficando quase invisível, e ganha vida à noite, quando sai para caçar pequenos peixes, moluscos e crustáceos. Pode atingir um tamanho máximo de até 1 metro de diâmetro e possui um ferrão venenoso na cauda, usado apenas em situações de defesa.
Além do visual hipnotizante, que a torna uma verdadeira nave alienígena da natureza, ela é extremamente bem adaptada ao seu habitat e exerce papel fundamental no equilíbrio ecológico dos rios que percorre.
Arraia-de-fogo (Potamotrygon motoro): padrões psicodélicos e corpo em forma de disco: essa é a arraia-palhaço, uma espécie fluvial que parece uma nave espacial deslizando no fundo dos rios da Amazônia. Foto: Marcel Burkhard
Preguiça-real (Choloepus didactylus): a prima amazônica do Chewbacca
Com pelos longos, movimentos lentos e um olhar calmo que transmite sabedoria ancestral, a preguiça-real é a nossa versão amazônica do Chewbacca — e parece mesmo um primo distante do wookie mais querido da galáxia!
Vivendo nas copas das árvores das florestas úmidas da Amazônia, esse mamífero pode medir de 85 cm a 1 metro e pesar de 6 a 9 quilos. É principalmente noturno e passa a maior parte do tempo pendurado nos galhos, alimentando-se de folhas, brotos e frutos. Seus pelos grossos abrigam algas e pequenos invertebrados, formando um verdadeiro ecossistema ambulante.
Apesar da lentidão, é extremamente bem adaptada à vida nas alturas e quase invisível aos olhos dos predadores, mas não se deixe enganar, quando ameaçada a preguiça real usa todo o seu poder jedi para se defender com garras afiadas e muito fortes!
Preguiça-real (Choloepus didactylus): peluda, de aparência serena e de movimentos lentos, a preguiça-real parece mesmo um parente do Chewbacca. Um dos mamíferos mais carismáticos da floresta! Foto: Retirada do artigo “Candidiasis in Choloepus sp. – a Review of New Advances on the Disease”, autoria de Marina Sette Camara Benarrós e Felipe Masiero Salvarani, DOI: 10.20944/preprints202407.0375.v1
O fantástico, o estranho e o extraordinário
A Amazônia, com toda sua diversidade, é um lembrete de que o fantástico, o estranho e o extraordinário não estão só nas galáxias distantes. Eles vivem aqui, entre nós, em cada canto da floresta. Que a Força (da natureza) esteja com você até o próximo encontro com os seres incríveis da nossa galáxia amazônica! Abraços de sucuri pra vocês e feliz Star Wars Day!
Sobre a autora
Luciana Frazão é pesquisadora na Universidade de Coimbra (Portugal), onde atua em estudos relacionados as Reservas da Biosfera da UNESCO, doutora em Biodiversidade e Conservação (Universidade Federal do Amazonas) e mestre em zoologia (Universidade Federal do Pará).
Desmatamento na Amazônia Legal. Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace
Um estudo sobre desmatamento na Amazônia apresenta recorte temporal e abrangência de área territorial inédita sobre o impacto na região a partir das métricas de compacidade (como as áreas desmatadas se apresentam geograficamente) e raios equivalentes (manchas desmatadas, ou seja, áreas que foram removidas ou degradadas ao longo do tempo). O trabalho, publicado em abril na revista científica Forest Ecology and Management, evidencia o preocupante cenário de falhas na preservação de toda a Amazônia Legal.
Entre 1985 e 2021 as taxas de desmatamento atingiram níveis alarmantes de até 25.000 quilômetros quadrados por ano. A taxa média anual de desmatamento nas mais de três décadas de análise foi de 11.152 quilômetros. Com exceção de 2005 a 2012, as taxas não mostraram sinais de redução.
A redução do desmatamento em 2005 pode ser amplamente atribuída a iniciativas governamentais como o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal. Nesse período de 2005 a 2012, o Brasil reduziu as taxas de desmatamento na floresta amazônica em 84% quando comparado ao pico de 2004. No entanto, desde 2013, as taxas de desmatamento vêm aumentando. Por exemplo, em 2019, 10.129 km² da floresta foram desmatados, um aumento de 34% em relação ao ano anterior. Essa alta taxa de desmatamento compromete as metas de redução de gases de efeito estufa e está associada ao aumento das emissões de queima de biomassa, impactando negativamente a saúde respiratória e as comunidades vulneráveis.
Amazônia Legal registra média de 11 mil km² por ano de área desmatada. Foto: Polícia Federal/divulgação
Para chegar a esses números, um grande volume de dados foi analisado, abrangendo 36 anos de dados de uso e cobertura do solo e 3 milhões de quilômetros quadrados. A pastagem foi o tipo de uso da terra mais frequente nas manchas de desmatamento, representando aproximadamente 83% da área desmatada, seguida pela agricultura e silvicultura, juntas respondendo por 17%.
O estudo é de autoria de pesquisadores da Universidade de São Paulo ligados ao Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG), Instituto de Física (IFUSP) e Escola Politécnica (EPUSP); Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). Diferentemente da maioria dos trabalhos anteriores sobre desmatamento na floresta amazônica, que investigaram pequenas áreas ou períodos limitados, este trabalho abrange 36 anos e toda a área da Amazônia Legal.
“Com as métricas que utilizamos, como o compactness e o raio equivalente, observamos quatro regiões distintas dentro da Amazônia, cada uma com sua característica única e consistente com as diferentes evoluções temporais. Essas descobertas ressaltam a utilidade de métricas geométricas relativamente simples para entender a evolução espacial e temporal do desmatamento, oferecendo insights valiosos sobre a estimativa da dinâmica do uso da terra na Amazônia e que isso pode ser uma base para estratégias de monitoramento e conservação mais eficazes”, explica Marco Aurélio de Menezes Franco, Professor do Departamento de Ciências Atmosféricas do IAG-USP e um dos autores do estudo.
Desmatamento na Amazônia Legal. Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace
Os pesquisadores realizaram a análise de dados de uso e cobertura do solo, caracterizaram as áreas desmatadas, agregaram clusters geográficos e apontaram distribuições de probabilidade e evolução. Esta metodologia se dividiu em uma análise de padrão espacial na qual se identificou áreas contíguas de desmatamento (manchas) com base nos mapas de uso do solo do projeto MapBiomas. Em segundo lugar, as características geométricas das manchas de desmatamento foram caracterizadas. Na sequência, foi aplicada a análise de agrupamento para identificar regiões com padrões de desmatamento semelhantes em suas características geométricas.
A floresta amazônica, embora ocupe apenas 0,5% da superfície terrestre, é um ecossistema notavelmente diverso, abrigando mais de 10% de todas as espécies vegetais e vertebradas conhecidas. A floresta tropical, por exemplo, regula criticamente o clima global e os ciclos da água e do carbono, contribuindo para cerca de 16% de toda a produtividade fotossintética terrestre. No entanto, atividades humanas como agricultura e pecuária resultaram em uma mudança significativa no uso da terra, afetando os ciclos biogeoquímicos e os serviços ecossistêmicos relacionados à regulação climática, biodiversidade e armazenamento de carbono.
Estudos recentes sugerem que a mudança no uso da terra, a degradação florestal e as mudanças climáticas transformaram áreas florestais de sumidouros de carbono em fontes de carbono para a atmosfera, especialmente no sudeste da Amazônia.
O Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo é um dos principais polos de pesquisa do Brasil nas áreas de Ciências Exatas e da Terra. A missão é contribuir para o desenvolvimento do país, promovendo o ensino, a pesquisa e a difusão de conhecimentos sobre as ciências da Terra e do Universo e aspirando reconhecimento e liderança pela qualidade dos profissionais formados e pelo impacto da atuação científica e acadêmica.
Com o objetivo de promover a sustentabilidade ambiental por meio de ações de manejo orientadas por critérios científicos, e ao mesmo tempo fortalecer a atuação integrada entre ciência, órgãos de fiscalização e gestão pública, o governo de Rondônia participou, no dia 29 de abril, por meio da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental (Sedam), de uma reunião em Brasília, no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Na ocasião, foram apresentados os resultados dos estudos sobre o manejo e o controle do Pirarucu (Arapaima gigas) em áreas onde a espécie é considerada invasora. A reunião teve como objetivo alinhar estratégias de gestão, controle e fiscalização, as quais irão definir diretrizes para a regulamentação da erradicação do Pirarucu nessas regiões.
Estiveram presentes o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho; o secretário-adjunto da Sedam, Gilmar Oliveira de Souza; a diretora executiva, Ana Gabriela Rover Freitas da Cunha; a coordenadora do Manejo do Pirarucu, Chirlaine Varão; o gerente de Pesca e Aquicultura, João Batista Cordeiro; a assessora Thais Azevedo; e a professora dra. Carolina Dória, da Universidade Federal de Rondônia (Unir). A reunião contou também com representação do Poder Legislativo de Rondônia, entre outros participantes.
Tratativas tem sido conduzidas ao longo dos últimos anos visando à regulamentação da pesca do Pirarucu, em áreas onde este é considerado invasor. A partir da apresentação dos estudos da Sedam em parceria com a Unir, o Ibama, através do presidente Rodrigo Agostinho, informou que já está elaborando uma portaria que regulamentará o reconhecimento do peixe Pirarucu como espécie exótica nas regiões onde for considerado invasor.
A professora Carolina Dória destacou os avanços nas pesquisas genéticas populacionais da espécie, que indicam a necessidade de controle em locais onde sua introdução tem provocado desequilíbrios ambientais significativos. A apresentação técnica reforçou a importância da adoção de práticas de manejo baseadas em evidências científicas, com vistas à preservação dos ecossistemas afetados.
O governador de Rondônia, Marcos Rocha, enfatizou o protagonismo do estado na formulação de políticas ambientais efetivas: “O estado avança na construção de uma agenda ambiental sólida, com reconhecimento nacional. Os dados apresentados mostram que os investimentos em soluções concretas estão sendo realizados com responsabilidade e seriedade. Esse manejo de controle do Pirarucu invasor pioneiro é uma prova de que políticas públicas bem executadas geram resultados reais para o meio ambiente e para as famílias que dependem da pesca sustentável”.
Responsabilidade ambiental
A coordenadora do manejo da Sedam, Chirlaine Varão, ressaltou a relevância da divulgação dos resultados.
“Apresentar esses dados é fundamental para demonstrar a seriedade do trabalho que vem sendo realizado. Isso fortalece parcerias, atrai novos apoios e dá visibilidade a uma estratégia eficaz. O manejo realizado na Reserva Extrativista (Resex) do Rio Cautário está se consolidando como modelo nacional no enfrentamento de espécies invasoras”, afirmou.
O secretário-adjunto da Sedam, Gilmar Oliveira de Souza, em tratativas com o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, informou que a referida portaria, mencionada anteriormente, será publicada em um prazo de 20 a 30 dias.
“Essas tratativas representam um avanço significativo na legalização do controle da espécie e consolidam uma resposta concreta aos estudos apresentados, que agora contarão com respaldo normativo, garantindo segurança jurídica e responsabilidade ambiental”, destacou.
Reunião com o ICMBio
Durante a agenda em Brasília, também foi realizada uma reunião no Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em que foram apresentados os resultados dos manejos conduzidos e dos estudos coordenados pela professora Carolina Dória. Houve consenso entre os participantes de que o Pirarucu é uma espécie invasora e tem provocado desequilíbrio nos estoques pesqueiros de diversas regiões.
Os dados obtidos na Resex do Rio Cautário foram amplamente discutidos e reconhecidos pelo ICMBio como um exemplo bem-sucedido de controle. O projeto foi classificado como piloto, com resultados positivos que atestam a eficácia do manejo aplicado, posicionando o estado de Rondônia como referência nacional no combate às espécies exóticas invasoras.