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Duas secas: como falta de chuvas e baixa umidade do solo agravam incêndios na Amazônia

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Foto: Jader Souza/AL Roraima

O trabalho de um grupo de cientistas, com a colaboração do Instituto de Geociências (IGc) da USP, revela a maneira com que a combinação de duas formas de seca amplifica o risco de incêndios florestais na Amazônia. De acordo com a pesquisa, a seca meteorológica, marcada pela falta de chuvas, favorece o surgimento de focos de incêndio, ao mesmo tempo que a seca hidrológica, diminuindo a umidade do solo e da vegetação, cria um ambiente muito inflamável.

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Os pesquisadores também apontam que os eventos de El Niño, que mudam a circulação do ar, reduzindo as chuvas, aumentaram a área queimada em 244% no período entre 2015 e 2016, e que secas prolongadas comprometem o papel das águas subterrâneas de manter a umidade dos solos. Os resultados do estudo são relatados em artigo publicado na revista Science of The Total Environment, no último mês de dezembro.

A pesquisa abrangeu toda a Bacia Amazônica, que é a maior bacia hidrográfica do planeta, com aproximadamente 7,4 milhões de quilômetros quadrados (km²). “A seca meteorológica é caracterizada pela redução de precipitação em uma região durante um período específico”, declara ao Jornal da USP o professor Bruno Conicelli, do Instituto de Geociências (IGc) da USP, que integra o grupo de autores do artigo. “É uma resposta direta às variações climáticas e tem impactos imediatos no ciclo hidrológico superficial”.

“Já a seca hidrológica refere-se à redução da disponibilidade de água em corpos hídricos, como rios, lagos e aquíferos”, explica o professor. “Diferentemente da seca meteorológica, ela possui um efeito prolongado, pois depende do tempo necessário para que o solo e os aquíferos reajam às variações de precipitação”.

Na Amazônia está localizada a maior bacia hidrográfica do planeta, com 7,4 milhões de quilômetros quadrados (km²); variações na queda nos níveis de água subterrânea reforçam necessidade de estratégias localizadas de manejo e conservação. Imagem extraída do artigo.

Águas subterrâneas e El Niño

O trabalho teve como objetivo principal compreender como as secas meteorológicas e hidrológicas afetam os incêndios florestais na Amazônia, com destaque para o papel das águas subterrâneas e a influência dos eventos de El Niño. “Além disso, buscou avaliar a distribuição temporal da seca hidrológica em diferentes níveis de profundidade do solo, analisar a relação entre os indicadores de seca meteorológica e hidrológica e investigar o impacto dos eventos de El Niño no agravamento das condições de seca e no aumento da área afetada por incêndios florestais entre 2004 e 2016”, descreve Conicelli.

Os principais conjuntos de dados empregados na análise incluem indicadores de seca hidrológica (DI), obtidos do satélite GRACE (Gravity Recovery and Climate Experiment), e o Índice de Precipitação Padronizado (SPI), calculado a partir dos dados do satélite Tropical Rainfall Measuring Mission (TRMM). Dados sobre a fração mensal de área queimada foram fornecidos pelo Global Fire Emissions Database (GFED4), permitindo identificar padrões temporais e espaciais nos incêndios. A intensidade dos Eventos de El Niño (ENSO) foi avaliada usando o Oceanic Niño Index (ONI), que categoriza os episódios em fraco, moderado, forte e muito forte, a partir dos dados obtidos do Golden Gate Weather Service. O professor relata que todos os dados foram processados e analisados usando técnicas estatísticas e ferramentas computacionais avançadas, garantindo a confiabilidade dos resultados.

“Os indicadores de seca hidrológica (DI), derivados do GRACE, permitiram avaliar como as reservas de água subterrânea foram afetadas ao longo do tempo. No entanto, embora tenha considerado a bacia como um todo, os resultados destacaram padrões regionais específicos”, salienta Conicelli.

Segundo a pesquisa, os eventos de El Niño tiveram um impacto significativo na intensificação das condições de seca e no aumento dos incêndios florestais na Amazônia. “Durante períodos de El Niño muito intensos, como o de 2015 e 2016, a área queimada aumentou em até 244% em relação à média anual. Esse fenômeno climático reduz a precipitação na bacia amazônica ao alterar os padrões de circulação atmosférica, o que prolonga os períodos de seca. Como consequência, a vegetação se torna mais seca e suscetível ao fogo”, destaca o professor.

“As águas subterrâneas desempenham um papel crítico nesse contexto. Por serem reservas de água que respondem mais lentamente às mudanças na precipitação, elas sustentam a umidade do solo durante períodos de seca meteorológica. No entanto, quando os níveis de água subterrânea caem devido a secas prolongadas, a recuperação é lenta, aumentando a vulnerabilidade da região a períodos prolongados de aridez e, consequentemente, aos incêndios”.

Em condições climáticas normais, águas subterrâneas ajudam a manter umidade do solo, no entanto, eventos extremos como o El Niño, que reduzem as chuvas e levam a secas prolongadas, potencializam riscos de incêndios florestais. Imagem extraída do artigo.
Mapas indicam variação dentro da Amazônia do Indicador Hidrológico de Seca (DI), umidade superficial do solo (sfsm), umidade do solo na zona radicular (rtzsm), água subterrânea (gws) e fração de área queimada (bf), além da oscilação dos índices no período entre 2004 e 2016. Imagem extraída do artigo.

Gestão sustentável

De acordo com o professor do IGc, pesquisa revelou que ambas as formas de seca atuam de maneira sinérgica para aumentar significativamente a extensão e a gravidade dos incêndios na Amazônia. “A seca meteorológica, com sua rápida manifestação, pode desencadear condições favoráveis para o fogo”, aponta, “enquanto a seca hidrológica, ao reduzir a umidade do solo e da vegetação, cria um ambiente altamente inflamável”.

“Além disso, a gestão sustentável da terra deve ser priorizada, com medidas para reduzir o desmatamento e promover práticas agrícolas que conservem o solo e a vegetação nativa”, sugere o professor. “Outro ponto relevante é a necessidade de investir em educação ambiental para sensibilizar as comunidades locais sobre os impactos das mudanças climáticas e engajá-las em práticas de conservação”.

O trabalho foi realizado por uma equipe interdisciplinar de pesquisadores, incluindo Naomi Toledo, Gabriel Moulatlet, Gabriel Gaona, Bryan Valencia, Ricardo Hirata e Bruno Conicelli, que assinam o artigo. As instituições participantes foram a Universidad Regional Amazónica Ikiam (Equador), a University of Arizona (EUA) e o Centro de Pesquisas de Águas Subterrâneas (CEPAS-USP), do IGc (Brasil).

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, escrito por Júlio Bernardes

Fogo teve alta de 64% em florestas públicas não destinadas em 2024

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Imagem de satélite mostrando a área queimada na Amazônia em 2024. Fonte: Sentinel 2 MSI e Monitor do Fogo. Imagem: Vera Laísa/IPAM

O fogo teve alta de 64% em florestas públicas não destinadas na Amazônia em 2024, na comparação com o ano anterior, indica uma análise do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) divulgada no dia 17 de janeiro.

A área queimada nestas florestas em 2024 foi de 2.460.082 hectares, enquanto que, em 2023, ficou em 1.498.320 hectares. Setembro passado foi o mês que mais concentrou o fogo, queimando 756,3 mil hectares – foi a maior área queimada já registrada em florestas públicas não destinadas em um único mês desde 2019 pelo Monitor do Fogo, iniciativa coordenada pelo IPAM na rede MapBiomas.

Os números reforçam a alta dos incêndios mesmo com a queda no desmatamento registrada em todo o bioma – e que repercute em florestas públicas não destinadas. Nestas áreas, o desmate em 2024 somou 109.411 hectares, 20% a menos do que os 136.602 hectares desmatados em 2023.

Área queimada em setembro de 2024, mês com mais focos em florestas públicas não destinadas. Fonte: NASA. Imagem: Rebecca Maranhão/IPAM

Grilagem

Segundo o IPAM, mais de 20 milhões de hectares de florestas públicas não destinadas correm o risco de grilagem, pois estão sendo autodeclaradas como área privada, via registro irregular de CAR (Cadastro Ambiental Rural), por pretensos proprietários.

“O avanço das declarações fraudulentas no CAR representa uma bomba relógio de desmatamento futuro. Estes CARs, que representam um instrumento importante para regularização ambiental das propriedades, estão sendo utilizados como documento de posse da terra, o que é totalmente ilegal. Ainda mais falando de um patrimônio dos brasileiros como as florestas públicas não destinadas”, acrescenta Moutinho.

Se o avanço da grilagem continuar esgotando estas florestas, o IPAM calcula como consequência a emissão de cerca de 8 bilhões de toneladas de carbono, volume igual a 1 ano de emissões globais de gases do efeito estufa. Tamanha emissão agravaria impactos na regulação do clima, na biodiversidade, na produção de alimentos e na saúde da população em escala local e regional.

Como a análise foi feita

Uma base de dados própria do IPAM contendo as áreas de florestas públicas não destinadas na Amazônia foi combinada com dados do Monitor do Fogo, iniciativa coordenada pelo IPAM na rede MapBiomas, para obter a área queimada, e com dados do sistema Deter, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), para obter a área desmatada. Este cruzamento de dados é atualizado no Observatório de Florestas Públicas, coordenado pelo IPAM e pela Amazônia de Pé.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM, escrito por Bibiana Alcântara Garrido

Halo solar? Arco-íris circular no sol chama atenção de moradores em Macapá

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Arco-íris circular ao redor do sol em Macapá. Foto: Andressa Karolaine/Arquivo Pessoal

Moradores de Macapá (AP) registraram na última semana o aparecimento de um arco-íris em torno do sol. O fenômeno se forma se o disco solar estiver envolto numa camada de nuvens altas, do tipo cirrostratus.

Segundo o meteorologista do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá (Iepa), Jefferson Vilhena, o arco-íris é formado por gotículas de água. O pesquisador também destacou a diferença do fenômeno registrado nesta terça para um halo solar.

O fenômeno pode acontecer em qualquer época do ano, desde que as condições meteorológicas ideais estejam presentes.

*Por Rafael Aleixo, da Rede Amazônica AP

Engajamento de jovens e mulheres é chave para desenvolver a bioeconomia na Amazônia

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Foto: Sant Film Studios/IDESAM

Investimentos na gestão e infraestrutura de organizações comunitárias, promovendo empreendedorismo e geração de renda, têm sido estratégicos para o fomento de uma economia sustentável na Amazônia. No desafio de valorizar a floresta em pé, o apoio técnico para extração, beneficiamento e comercialização mais justa de produtos da sociobiodiversidade contribui não só para ampliar negócios de impacto socioambiental. O modelo demonstra o potencial de atrair jovens e mulheres – ribeirinhas e indígenas – para novas alternativas econômicas e melhor qualidade de vida, com redução do êxodo para as cidades.

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É o caso da iniciativa “Conexão Amazônia”, realizada pelo Idesam com R$ 2,5 milhões da seguradora francesa CNP Assurances, visando à estruturação de cadeias produtivas em cinco associações comunitárias de diferentes municípios do Amazonas. Ao promover apoio técnico e de gestão, o projeto prevê o fortalecimento social de pelo menos 500 famílias em Unidades de Conservação e Terras Indígenas. O alvo principal está no extrativismo e beneficiamento de óleos vegetais, castanhas e movelaria de pequenos objetos de madeira, além do plantio de mais de 5 mil árvores para restauração de áreas impactadas nas comunidades.

As associações parceiras integram a empresa de origem comunitária Inatú Amazônia, com o diferencial de garantir a compra antecipada da produção comunitária em melhores condições de preço, com menor dependência de intermediários, e fazer a revenda no mercado da bioeconomia. Em apenas 06 meses de operação, foram comercializadas 7,2 toneladas de produtos do extrativismo, com receita de R$ 1,66 milhão, no total de 319 famílias de produtores. Até julho de 2025, a meta é ultrapassar R$ 2 milhões de vendas.

O modelo tem permitido a presença da marca coletiva em grandes eventos nacionais, como a feira de aromaterapia Conaroma Experience, em Santa Catarina, com maior visibilidade no mercado. E novidades estão por vir, no próximo ano, a partir da extração de subprodutos de óleos nativos hoje não aproveitados.

Foto: Sant Film Studios/IDESAM

Junto ao suporte para novos produtos, a estratégia do projeto “Conexão Amazônia” inclui o plantio de árvores em sistema agroflorestal no objetivo de recuperar áreas desmatadas para pequenos roçados nas comunidades, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã (AM), conforme permitido no plano de gestão da unidade.

Em fevereiro de 2025, serão plantadas mais de 12 mil árvores, sendo 5 mil com apoio do Conexão Amazônia.

O objetivo é fortalecer a gestão da organização comunitária como um empreendimento, com maior participação de jovens e mulheres, mantendo as características da origem florestal. “Esse engajamento tem aumentado a capilaridade das ações, principalmente com o atrativo do uso de tecnologias e aplicativos de celular nas atividades”, reforça Biazatti.

“Buscamos fortalecer a produção e a defesa do território”, ressalta Laureni Flores, presidente da Associação dos Produtores Agroextrativistas da Assembleia de Deus do Rio Ituxi (APADRIT), no município de Lábrea (AM). No projeto Conexão Amazônia, além de consultoria para a gestão institucional, cerca de 140 famílias receberam capacitação técnica no manejo florestal, como a extração de óleo de copaíba. Os produtores vendem o produto a cerca de R$ 60 o quilo para a marca coletiva Inatú Amazônia – o dobro do valor pago por atravessadores.

A organização social mais estruturada tem favorecido, também, o manejo do pirarucu e novos bioprodutos na Reserva Extrativista (Resex) do Rio Ituxi. Em fevereiro de 2025, será inaugurada uma movelaria comunitária, com apoio do Idesam e Fundo Vale, para o beneficiamento de objetos de madeira sustentável.

Com a parceria do Idesam, a associação planeja realizar o levantamento de toda a produção da Resex, abrangendo também castanha, buriti e açaí, além da copaíba. “Com a organização fortalecida, queremos abrir novas frentes de comercialização”, conta Flores, otimista com a maior valorização do trabalho feminino na floresta – referência para que outras mulheres ocupem espaços de liderança.

*Com informações do Idesam

Uma aventura nas alturas: curiosidades e desafios do Pico da Neblina

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Foto: Divulgação/SGB

Você sabia que a maior montanha do Brasil está no Amazonas? Sim, o Pico da Neblina – ou Yaripo (Montanha dos Ventos), como é chamado pelos Yanomamis – atinge 2.995 metros e é um símbolo de desafios, beleza e cultura.

Saiba mais: O ponto mais alto do Brasil fica na Amazônia

Localizado no coração da Amazônia – dentro do Parque Nacional Pico da Neblina e Terra Indígena Yanomami, no município de Santa Isabel do Rio Negro -, o Yaripo é muito mais do que uma paisagem deslumbrante, é uma verdadeira jornada de superação.

A recente expedição ao Yaripo, organizada e financiada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – Núcleo de Gestão Integrada (ICMBio – NGI) Pico da Neblina -, reuniu pesquisadores e cientistas, entre eles o geólogo Gilmar Honorato, do Serviço Geológico do Brasil (SGB). Ele compartilhou histórias e momentos marcantes dessa missão.

“Foi uma trilha difícil, com trechos de rochas, raízes, lama e frio intenso, mas também cheia de aprendizados e reconexões”, contou.

Desafios e superação

A expedição de 11 dias, sendo nove dias de trilha, começou com deslocamento por rios e estradas de terra, pernoite na comunidade indígena Maturacá, onde ocorreu ainda o benzimento pelos Patapë (anciões Yanomamis), até finalmente alcançar o início da trilha na foz do igarapé Tucano.

Daí em diante, o grupo enfrentou mudanças drásticas de clima — calor sufocante e umidade extrema nos primeiros dias, e temperaturas abaixo de 10ºC durante as madrugadas nas partes mais elevadas. “Carregar um mochilão de 12-15 kg, enquanto a chuva não dava trégua foi desafiador, mas cada passo valia a pena”, lembrou Honorato.

Além das dificuldades, a viagem revelou curiosidades fascinantes: a região abriga quatro das vinte maiores montanhas do Brasil, incluindo o Pico Phelps (31 de Março), Pico da Cadorna e o MF BVBB/4. E, apesar da constante neblina que dá nome ao local, o grupo pôde contemplar o horizonte nas poucas horas de abertura – entre 7h e 9h e entre 17h e 19h.
Contato com povos originários

Mas a aventura não foi apenas sobre paisagens e esforço físico. O contato com os Yanomamis foi um dos pontos altos da missão. Os indígenas, que guiaram a equipe desde o porto de Yá Mirim, foram fundamentais para o sucesso da expedição. “Nossa equipe tinha 17 Yanomamis como guias, carregadores e cozinheiras. Sem eles, nada disso seria possível”, ressaltou o geólogo, que já conhece a comunidade desde 2014.

Relevância científica

A missão teve também um importante papel científico. Amostras de rochas foram coletadas para análise em laboratório, com o objetivo de desvendar a idade de formação das montanhas e enriquecer o escasso conhecimento geológico sobre a região.

Leia também: Pesquisadora revela processos de formação do Pico da Neblina

Além disso, os pesquisadores identificaram riscos geológicos, como um grande deslizamento recente na Serra do Baruri, que causou perdas significativas para uma comunidade próxima.

No fim das contas, o Pico da Neblina é mais do que um desafio físico ou um destino turístico. É um lugar onde a ciência se encontra com a cultura, onde cada passo é uma conexão mais profunda com a natureza e com as pessoas que ali vivem.

“Voltei cansado, mas grato. Essa montanha tem o poder de unir pessoas e nos lembrar do quanto somos pequenos diante da grandiosidade da natureza”, concluiu Honorato.

*Com informações do SGB

Indígenas protestam contra lei que inviabiliza educação presencial nas aldeias do Pará

Foto: Raimundo Paccó/Agência Pública

Uma lei aprovada no fim do ano passado no Pará está gerando intensos protestos de lideranças indígenas de diferentes etnias e regiões do estado. Eles acusam o governo de desmantelar o sistema de educação indígena. Os manifestantes ocupam, desde o dia 14 de janeiro, a sede da Secretaria de Estado de Educação (Seduc), em Belém, pedindo a revogação imediata da Lei 10.820/2024. 

A Polícia Militar foi acionada para tentar dispersar os manifestantes, cortou energia e água do prédio, jogou spray de pimenta nos banheiros e impediu a entrada da imprensa, de representantes do Ministério Público Federal (MPF) e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), mas os indígenas continuam no local, depois de forçarem o portão e ocuparem as estruturas da Seduc. 

Há cerca de 300 indígenas no local, incluindo caciques das etnias Munduruku, Wai Wai, Tembé, Arapiun e Tupinambá, que afirmam representar os mais de 55 povos indígenas presentes no território paraense.

Depois que eles entraram, o portão foi novamente fechado e ninguém mais conseguiu entrar. As lideranças dizem que só negociam com a governadora em exercício, Hana Ghassan (MDB) o governador Helder Barbalho (também do MDB) está em viagem ao exterior –, ou com o titular da Seduc, Rossieli Soares, que teriam autonomia para revogar a lei. Ao fim do terceiro dia de protesto, Soares foi à secretaria no fim da tarde de quinta-feira, mas até o fechamento desta reportagem não havia ocorrido diálogo.

Em apoio à demanda indígena, o Sindicato dos Trabalhadores de Educação Pública do Pará (Sintepp) decidiu entrar em greve geral, com início em 23 de janeiro.

Foto: Raimundo Paccó/Agência Pública

A lei, aprovada em 19 de dezembro, no fim do ano legislativo, em votação fechada – e marcada pela repressão da Polícia Militar, que usou balas de borracha e spray de pimenta contra os professores estaduais, altera o plano de gratificações do Sistema Modular de Ensino (Some) e de sua versão para os povos indígenas (Somei). 

Redução de gratificações inviabiliza ensino presencial; governo quer educação à distância

A medida reduz as gratificações fixas de R$ 7 mil para valores que podem variar entre R$ 1 mil e R$ 7 mil, de acordo com quatro níveis de complexidade que variam de acordo com cada território onde o Some é implementado. A mudança, porém, não foi regulamentada, e os critérios para estabelecer os graus de complexidade e a gratificação correspondente permanecem incertos. 

Para os indígenas e sindicalistas, isso, na prática, pode inviabilizar a educação indígena nas aldeias e em locais mais remotos. O recurso é necessário para a logística de viagens dos professores às comunidades indígenas, do campo ou ribeirinhas. É com ele que os professores pagam deslocamento, hospedagem, alimentação, combustível e até confecção de materiais pedagógicos.

Em substituição, o governo do estado já implementa na rede de ensino o Centro de Mídias da Educação Paraense (Cemep), modalidade de ensino à distância que funciona com uma televisão e um modem da empresa Starlink. Cada aula, transmitida a partir da sede da Seduc, em Belém, é acessada simultaneamente por até 80 salas de aula em diferentes municípios do estado. Nesses locais fica apenas um professor mediador, de qualquer disciplina, para reunir dúvidas dos alunos. 

Os indígenas argumentam que o sistema é incompatível com várias aldeias, muitas das quais não possuem energia elétrica e dependem de geradores a diesel para necessidades do dia a dia.

O Some funciona no Pará há mais de 40 anos. Foi concebido para que o ensino médio chegasse às localidades mais remotas do estado, como zonas rurais, ribeirinhas, aldeias indígenas e territórios quilombolas, onde o Executivo estadual tinha dificuldade em manter um professor fixo. 

O programa é organizado em módulos de três meses, com os professores visitando comunidades preestabelecidas semanalmente. Cada módulo funciona como um intensivo de uma disciplina, que terá todo o seu conteúdo ministrado durante os três meses. Ao fim de cada módulo, os professores atendem outras comunidades.

A logística dessas viagens normalmente envolve custos altos, motivo pelo qual os professores do Some recebem, além do salário, as gratificações. Mas, apesar de ser um modelo preferido pelas comunidades, a situação também é precária, como observou reportagem da Agência Pública.

Como o projeto não possui uma estrutura própria de escolas, os professores usam as salas de aula de escolas municipais de nível fundamental, não raro em péssimas condições de conservação.

Escola moderna vira sauna

No Pará, um dos municípios pioneiros na implementação do Some foi Igarapé-Miri, maior produtor de açaí do estado e do Brasil (em 2022 foi responsável por 21,7% da produção nacional, totalizando 422,7 mil toneladas). Em novembro de 2024, a reportagem da Pública esteve no município para visitar escolas onde o Some funciona. 

A primeira parada foi no rio Anapu, na Vila Menino Deus, distante mais de uma hora em lancha rápida da sede do município. Lá as aulas de ensino médio ocorrem na Escola Municipal de Ensino Fundamental Dom Antônio Macedo Costa.

Entregue em 2023, a escola conta com infraestrutura impecável: prédios novos, quadra esportiva, refeitório amplo e centrais de ar condicionado em todas as salas. Porém, a energia elétrica monofásica transformou a escola em um elefante branco, já que a energia fraca não dá conta dos aparelhos. As salas que deveriam ser climatizadas se transformam em saunas. Uma professora, que não quis se identificar, relatou ter presenciado, em duas oportunidades, alunos desmaiarem em sala de aula por causa do calor.

No dia em que a reportagem esteve no local, a maior parte das atividades de aula aconteceu no refeitório, que fica em um pátio amplo e um pouco mais arejado. Pelas condições de aula, porém, o regime de estudo é alterado, com alunos entrando no prédio às 13h e sendo liberados por volta das 15h30 para concluírem as atividades em casa.

O bigode ralo e alguns precoces cabelos brancos contrastam com a aparência jovial do estudante Nilmar Lima Barbosa. Ele tem 19 anos e voltou a estudar em 2024, após um ano afastado da escola (ele já havia passado um ano sem estudar em 2021 por causa da pandemia). 

Foto: Raimundo Paccó/Agência Pública

Seus dedos e unhas têm marcas da tinta arroxeada do açaí que coleta durante uma jornada de cinco horas pela manhã, antes de ir para a escola. A atividade é o sustento de sua família, como a de muitas outras da região, e um dos motivos de ter interrompido os estudos.

Ele voltou à escola por incentivo da mãe, mas relata que não tem sido fácil. “Tem que se empenhar muito para aprender. Em sala de aula já é complicado, por causa do calor. A gente passa três horas dentro da sala e já sai lavado [de suor]. Mas é pior estudar em casa com material, por não ter a explicação que o professor passa na sala de aula”, conta. 

Mesmo assim, ele não pensa em desistir e tem planos para o futuro. Após concluir o ensino médio, ele sonha em estudar agronomia, para juntar o conhecimento científico ao que adquiriu empiricamente na lida nos açaizais.

Mais próxima do centro da cidade, a Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental Bom Jesus I é uma típica edificação ribeirinha: construída toda em madeira sobre um palafita no rio Caji, possui salas de aula sem divisórias completas, o que permite que o som de uma aula seja ouvido por uma ou mais turmas. Como não dispõem de hospedagem, os professores vinculados ao Some costumam utilizar as dependências da escola para a estadia durante as semanas do módulo.

Foto: Raimundo Paccó/Agência Pública

Por se tratar de uma escola na beira do rio, nos primeiros meses do ano, considerados os de inverno na Amazônia, o local costuma sofrer com alagamentos e aparecimento de cobras e de outros animais silvestres. 

“Essa escola já teve sua estrutura inteira reprovada pelo Corpo de Bombeiros, e a prefeitura municipal sabe, mas não tomou providências. É um desafio a gente não surtar diante de tantos obstáculos. Porque é uma odisseia para chegar lá, outra odisseia permanecer. E, por fim, ensinar algo aos alunos. O que sobra de sanidade, a gente guarda para exercer nossa função”, se queixa um professor que já ministrou módulos nessa escola e pediu anonimato.

Mesmo nessas condições, a escola Bom Jesus I está incluída no edital para contratação de professores em cadastro de reserva para inclusão no sistema de educação à distância do Cemep. “A escola não tem nem condições de receber alunos com aula presencial, imagina com Cemep”, provoca o mesmo professor.

No ensino à distância, alunos não conseguem mostrar exercícios

Apesar da resistência da categoria contra a implantação do Cemep, o sistema já vigora em várias escolas do Pará. A reportagem visitou a Escola Emaús, situada na comunidade Novo Paraíso, também em Igarapé-Miri. Composta por um pavilhão com três salas de aula, um banheiro (que dispõe apenas de um vaso sanitário e não tem pia para higiene das mãos), leva em sua fachada a inscrição “Patrimônio da Assembleia de Deus”. Uma das salas de aula está cedida para o funcionamento do Cemep, atendendo o segundo ano do ensino médio.

Durante a visita da reportagem, oito alunos assistiam a uma aula de matemática em uma televisão de 60 polegadas. A transmissão é garantida a partir de um modem da Starlink instalado na escola. O mediador responsável por manter a dinâmica em sala era o professor Roberto de Cássio Viana, que assumiu a função em 30 de setembro e, originalmente, atua nas disciplinas de estudos amazônicos, história e geografia.

“Minha função como mediador é chegar antes do horário, ligar equipamentos, receber os alunos, fazer a chamada e aguardar o momento da aula. Como sou pedagogo, tenho conhecimento básico das áreas”, disse. As aulas vão das 13h30 às 17h.

Com mais de 20 anos de magistério, Viana conta que estava se adaptando ao novo formato, iniciado havia pouco mais de três meses, quando a reportagem esteve no local. Alguns hábitos, porém, fazem falta. “É uma adaptação. A gente chega aqui para dar aula, né? Tem hora que a gente fica meio se segurando, mas não pode intervir, porque a aula é do professor. Eu sou mediador”, explica. 

Como mediador, ele é responsável por reunir dúvidas e enviar para o professor de cada disciplina após as aulas e garantir que os alunos não se distraiam com os aparelhos celulares, já que se permite que acessem a mesma rede que transmite as aulas. Segundo o professor, no Cemep, até mesmo as aulas de educação física são transmitidas a partir da sede da Seduc, em Belém.

Durante a aula de matemática, o professor passou aos alunos uma equação e deu um tempo para resolução do problema. Para mostrar os resultados, cada mediador pede a vez na transmissão, e um aluno pode mostrar seu resultado: com os cadernos na mão, eles levam a folha junto à câmera para o professor avaliar se está correto ou não. 

Mas com mais de 80 salas de aula conectadas, era inexequível, pelo tempo de aula, que todas as classes tivessem alunos interagindo com o professor responsável pela transmissão. Em pelo menos uma ocasião, foi possível notar que o professor não conseguiu visualizar o resultado demonstrado pela resolução ruim de imagem. Com meia hora de aula, uma tela preta: o sistema caiu e demorou 20 minutos para a reconexão.

“Por incrível que pareça, isso não acontece com frequência”, disse, no entanto, o mediador.

Apesar dos problemas do Some, os moradores de Igarapé-Miri ainda preferem o ensino à distância. É o que ficou evidente em uma sessão realizada na Câmara Municipal da cidade para discutir a permanência do sistema nas zonas ribeirinhas do município. A sessão contou com a adesão de pais de alunos e professores do sistema, com direito à fala.

Chamou atenção o depoimento de Soraia Souza, moradora da Vila Boa União desde a infância. Hoje com 50 anos, ela conta ter interrompido os estudos aos 12 anos de idade devido à extinção da escola na localidade. Ela só conseguiu voltar à escola nove anos depois, com a implantação do Some. Foi quando conseguiu concluir os ensinos fundamental e médio. E logo partiu para fazer faculdade de pedagogia. 

Hoje diretora da Escola Municipal Neusa Rodrigues, que atende do maternal ao 5º ano, Soraia critica a ideia de substituir o regime presencial por educação à distância nos moldes do Cemep. “A realidade do interior é diferente. Temos muitos problemas de energia, às vezes passamos dois, três dias sem. Quando o tempo começa a fechar, o sinal de internet vai embora. Não acredito que assistir aula pela televisão daria certo aqui”, diz.

Secretaria nega mudanças

Em nota enviada à reportagem, a Seduc negou que o Some será encerrado. “As áreas que já contam com este sistema de ensino continuarão sendo atendidas por ele, no mesmo formato, e a continuidade do programa está garantida, conforme artigo 46 e anexo V, da Lei 10.820, de 19/12/2024.

A lei criou uma gratificação de até R$ 7 mil, adicional ao salário inicial do professor pago pelo governo do Pará, que hoje é de R$ 8.289,89, além de mais R$ 1,5 mil de vale-alimentação”, disse a secretaria por meio de nota. 

O Sintepp e representantes contestam essa afirmação da Seduc. Em nota publicada em suas redes sociais, o sindicato afirma que o texto da lei condiciona o pagamento da gratificação de acordo com quatro níveis de complexidade, que variam de acordo com cada unidade e têm critérios ainda a serem regulamentados pela Seduc.

Segundo o Sintepp, a nova lei exclui direitos como o pagamento dessas gratificações nas férias de janeiro e julho e em licenças superiores a 30 dias.

A Seduc disse ainda que “também não é verdade que o ensino médio presencial será substituído por educação à distância”. Na nota, a secretaria disse que não foi feito nenhum pedido oficial de reunião. “Depois da invasão, a Seduc fez um pedido para que as lideranças indicassem uma comissão, o que até o momento não aconteceu”, continuou.

A reportagem questionou ainda de onde partiu a ordem para que a imprensa não acessasse o prédio, mas não obteve resposta.

Em entrevistas a emissoras de televisão, o secretário Rossieli Soares afirmou que o movimento se tornou “político” e que o governo negocia com entidades indígenas. As lideranças da ocupação, porém, negam.

“Queremos dizer ao secretário que não existe uma comissão negociando conosco. Se ele diz que há uma negociação, até agora ninguém veio sentar com a gente. Queremos a presença de quem tem autonomia para que possamos sair daqui com uma portaria assinada e publicada no Diário Oficial”, disse o cacique Dada Borari. 

Foto: Raimundo Paccó/Agência Pública

O MPF e o Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) movem ação na Justiça Federal para que cada um dos povos e comunidades tradicionais do Pará seja consultado de forma livre, prévia e informada, conforme estabelece a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), antes de qualquer tomada de decisão do Estado.

Até que essa consulta ocorra, o poder público deveria interromper qualquer medida de mudança do formato da educação indígena e deve garantir a manutenção da educação presencial, defendem o MPF e o MPPA na ação.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Pública, escrito por Alan Bordallo

Exposição ‘Encontros’ renova a mostra permanente do Museu do Círio após 15 anos

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Foto: Bruno Cecim/Agência Pará

O Museu do Círio, em Belém (PA), abriu uma nova exposição no dia 15 de janeiro. A mostra “Encontros” é dividida em cinco eixos que apresentam diferentes perspectivas sobre a celebração religiosa e profana, renovando a exposição permanente do museu, após 15 anos. Entre os destaques da montagem, as fotos de Jacques Huber, alguns dos registros mais antigos do Círio de Nazaré, retratam o “Círio Negro”. A disponibilização das imagens é fruto da parceria entre a Secretaria de Estado de Cultura (Secult), e o Museu Paraense Emílio Goeldi. 

De início, a mostra trata sobre a origem da devoção, a chegada de Nossa Senhora de Nazaré na Amazônia e uma coleção de mantos. As peças bordadas por Esther Paz França, interna no Colégio Gentil, fazem parte do acervo do museu e são alguns dos mantos mais significativos do século XX. 

As obras seguintes mostram as festividades de outros municípios pelo Pará. Depois, a proposta segue as expressões mais populares da festa, com ex-votos, com símbolos da cultura paraense como camisas dos times de futebol mais clássicos do estado. 

Foto: Bruno Cecim/Agência Pará

“Todos os objetos votivos foram selecionados do Acervo do Museu do Círio e todos possuem um registro de relato sobre a motivação desse objeto, qual foi a promessa, qual foi o pedido. Isso é um elemento muito específico dessa exposição, não só detectar o objeto, mas tentar entender as motivações”, explica Anselmo Paes, curador da exibição. 

Logo após, ganham destaque as fotografias de Jacques Huber, com curadoria do pesquisador do Museu Emílio Goeldi, Nelson Sanjad, e expografia de Karol Gillet.  As imagens dão destaque às pessoas que participam da procissão, pontuando características como raça e etnia dos devotos, entre outras particularidades. 

Por fim, a mostra aborda a história de Plácido e a identidade paraense a partir do Círio, com protagonistas que não foram visibilizados. 

O turista natural do Maranhão, Marcos Antônio, fala sobre a visita ao museu. “Minha curiosidade é ver como a exposição prestigia esse momento que é o Círio de Nazaré, já que a Igreja de Nazaré, daqui de Belém, doou uma estátua para São Luís do Maranhão, onde acontece a segunda maior procissão, que passa pelo bairro onde eu cresci”. 

“O que me chama a atenção é a preocupação com a montagem do espaço, essa demonstração da decoração do manto, entre outros objetos aqui que eu sei que vem muito de uma questão de pagamento de promessas. É muito bonito”, pontua Marcos. 

*Com informações da Agência Pará

Rio Negro segue com níveis normais em Manaus para a época

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Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia

De acordo com informações do 2º Boletim de Monitoramento Hidrológico do Serviço Geológico do Brasil (SGB), divulgado no dia 14 de janeiro, em Manaus (AM), o Rio Negro atingiu 20,66 m e está em processo de enchente, subindo numa média diária de 14 cm e estando com níveis dentro do esperado para a época.

Leia também: Portal Amazônia responde: como funcionam os processos de enchente e vazante dos rios?

Para Andre Martinelli, gerente de Hidrologia e Gestão Territorial em Manaus, os dados sobre os níveis dos rios, obtidos nas estações de monitoramento do Sistema de Alerta, comprovam a boa resposta da hidrologia ao “inverno amazônico”, como é conhecido o período chuvoso da região.

Ao longo de uma semana, o  Rio Branco inicialmente apontou elevações, mas nos registros mais recentes voltou a descer uma média diária de 12 cm em Boa Vista e de 11 cm Caracaraí.

O  Rio Solimões está em processo de enchente, registrando elevações diárias na ordem de 5 cm em Tabatinga e Fonte Boa, 11 cm em Itapéua e 13 cm em Manacapuru. As estações monitoradas apresentam níveis dentro do esperado para o período.

Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia

Nos últimos dias, o Rio Madeira apontou subidas acentuadas em Porto Velho, com elevações diárias da ordem de 73 cm e, mais a jusante, em Humaitá, também apresentou comportamento de enchente, com acréscimos diários da ordem de 46 cm. Os postos de monitoramento apresentam níveis considerados normais para a época.  

Já o Rio Amazonas apresentou pequena diminuição nas variações diárias, no processo de enchente, subindo uma média de 14 cm em Itacoatiara, 10 cm em Parintins e 7 cm em Óbidos e Santarém. As estações monitoradas apontam níveis no limite inferior da normalidade.

Os dados atualizados, obtidos nas estações de monitoramento que compõem o Sistema de Alerta da Bacia do Rio Amazonas, podem ser conferidos aqui.

Parceria 

O monitoramento dos rios é feito a partir de estações telemétricas e convencionais, que fazem parte da Rede Hidrometeorológica Nacional (RHN), coordenada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). 

O SGB opera cerca de 80% das estações, gerando informações que apoiam os sistemas de prevenção de desastres, a gestão dos recursos hídricos e pesquisas. 

*Com informações do SGB

Cartilha reúne orientações sobre o que fazer em casos de raios e vendaval em Porto Velho

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Foto: Leandro Morais/Prefeitura de Porto Velho

Com o objetivo de preservar vidas e também de reduzir danos materiais durante este período de inverno amazônico, a Prefeitura de Porto Velho (RO), por meio da Coordenadoria Municipal de Defesa Civil, iniciou a ‘Operação Inverno 2025’ em todo o município, e as ações se estenderão até o início de junho deste ano.

A equipe também montou uma cartilha que vai ficar disponível no site da Defesa Civil. A publicação traz informações sobre qual procedimento o cidadão deve seguir se estiver no carro, em casa, na rua, quando houver raios e vendaval. Confira:

Segundo o coordenador da Defesa Civil, Marcos Berti Cavalcanti, em Porto Velho serão intensificadas ações preventivas, de preparação, de resposta e recuperativas, visando prevenir ou minimizar as consequências típicas geradas pelas chuvas, haja vista que os eventos mais comuns desse período são: inundações, alagamentos, deslizamentos de terra, vítimas de raios, vítimas de choque elétrico zona rural, vítimas de vendavais, e prejuízos aos serviços essenciais (energia elétrica, água, saneamento, saúde e atendimento social).

Como funciona a Operação Inverno

As equipes municipais de Defesa Civil são preparadas para o desencadeamento de ações preventivas com o acompanhamento da previsão meteorológica, a medição dos volumes pluviométricos e as vistorias técnicas de campo em áreas de risco, desde Nova Califórnia/ Extrema até baixo Madeira, visando a remoção preventiva dos moradores das áreas em situação de risco iminente.

O objetivo é otimizar os recursos existentes e antecipar situações de risco, articulando a participação das Secretarias Estaduais e Municipais envolvidas, órgãos de atendimento emergencial (Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, Samu), equipes de Gerências da Defesa Civil do município, Brigadas e a própria comunidade.

Contatos em caso de emergência

Em caso de necessidade, os munícipes devem acionar a Defesa Civil pelos telefones 199 e (69) 98473-2112 ou os demais órgãos competentes como Polícia Militar (190), Samu (192) e Corpo de Bombeiros (193).

*Com informações da Prefeitura de Porto Velho

Com cachaçaria artesanal aberta há 20 anos, agricultora roraimense conquista liberdade financeira

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Licor mais antigo feito por Eunides completa 20 anos em 2025. Foto: Yara Ramalho/Rede Amazônica RR

Pinga, branquinha, cana ou caninha, aguardente, cachaça. Há duas décadas, no interior de Roraima, a bebida destilada exclusiva do Brasil é muito mais do que água para os cachaceiros. A “marvada” foi o que garantiu independência financeira a empreendedora Eunides Maria Alves, de 54 anos, por meio da produção artesanal que inclui sabores especiais e até licores afrodisíacos, que guardam segredos de produção.

Se cachaceiro é quem fabrica cachaça, então Eunides é cachaceira profissional, que inova para atender os consumidores que já estão espalhados pelo país e em 2025 planeja patentear os produtos.

Nas ruas da vila de Campos Novos, no município de Iracema, ao Sul de Roraima, a fama da empreendedora já é tão forte quanto o aroma adocicado de frutas tropicais misturado com álcool produzido na “Biróska Bakana”.

“Hoje é uma vitória ter essa cachaçaria, que é de uma mulher negra que tem 54 anos. Estourou, assim, de uma forma bem legal. É muito orgulho, muito trabalho também”, disse ela.

Leia também: Agricultora cria ‘viagra’ natural com gengibre e cachaça em Roraima

O primeiro contato com a produção das bebidas veio através de um curso gratuito do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), que ensinava moradores da região a reaproveitar a banana. Desse curso saiu a primeira bebida feita por Eunides: o licor de banana, que mantém guardado há 20 anos.

Hoje, ela também vende licores — o carro-chefe do empreendimento — de abacaxi, tamarindo, jabuticaba, açaí, coco, jenipapo, murici, cupuaçu, tangerina, caju, araçá-boi, manga, buriti, acerola e o de gengibre, conhecido como o viagra natural de Campos Novos e o mais popular entre os homens e as mulheres que são clientes da birosca.

No cardápio ainda há 14 sabores da “cachaça temperada”, uma bebida destilada com o aroma e o sabor de uma determinada fruta ou especiaria natural. Diferente da cachaça, o licor é uma bebida composta por água, álcool e açúcar, além de um ingrediente de origem vegetal, como as frutas.

Eunides comanda toda a produção e venda da birosca, que virou um ponto turístico de Iracema. O local já é visitado por pessoas que vão a região para conhecer e se aventurar nas cachoeiras Esmeralda, Davi e Evandro, localizadas na região entre Campos Novos e a vila Apiaú, no município de Mucajaí.

Birosca fica localizada na vila de Campos Novos, no município de Iracema, em Roraima. Foto: Yara Ramalho/Rede Amazônica RR

Produção artesanal

Eunides não produz a cachaça do zero, ou seja, não lida com o corte da cana-de-açúcar, preparação da garapa (caldo extraído da cana) e a fermentação. O produto já é comprado pronto nos supermercados da região e é misturado as frutas e especiarias — a maioria cultivada no quintal da casa dela.

O álcool é neutro, para não interferir no sabor final do produto. Frutas como jabuticaba, abacaxi, banana, manga, acerola e araçá-boi são colhidas das árvores cultivadas pela agricultora. As outras são compradas de vizinhos, agricultores familiares. A ideia dela é incentivar as produções locais.

A produção das bebidas é cuidadosa: as frutas sempre são higienizadas. Após isso, os frutos são amassados, cortados e dependendo do caso, descascados.

Depois, em um recipiente, o álcool é misturado aos frutos. A infusão dura ao menos 30 dias, tempo considerado por Eunides como o mínimo para que a bebida atinja o seu sabor ideal. No entanto, quanto mais tempo, melhor.

Preparada, a mistura é filtrada para retirar os resíduos mais grossos das frutas. No caso da cachaça temperada, esse é o último passo do preparo. O produto é armazenado em galões, depois engarrafado, rotulado e vai para as prateleiras.

Já no caso do licor, o preparo é um pouco mais complexo. Com a infusão finalizada, a empreendedora inicia a produção do xarope, feito a base de água e açúcar, que diferencia a cachaça temperada do licor.

A reportagem foi até a birosca e acompanhou só uma parte da produção dele. Isso porque Eunides guarda um segredo de preparo e não revela para ninguém. Mas o fato é: o xarope leva muito tempo para ficar pronto.

Em uma panela, a água e o açúcar são misturados e cozinhados por cerca de 12h, e por isso o trabalho começa cedo. Pronto, com uma consistência de calda, ele é misturada à cachaça, que já passou pela infusão de frutas.

Após isso, o licor é filtrado, colocado em garrafões onde fica em descanso e, por fim, engarrafado. Com o rótulo que contém informações sobre a data de fabricação, local onde foi fabricado e contatos, ele é colocado nas prateleiras da birosca ou levados para os clientes que já encomendaram o produto.

Eunides diz que licor é como vinho: quanto mais velho, melhor é. Segundo ela, um longo tempo de envelhecimento deixa o sabor da bebida mais apurado. Nas prateleiras, o mais velho é o primeiro feito por ela, o licor de banana, que tem 20 anos. Esse ela não vende, mas oferece para algumas pessoas.

Licores já foram vendidos para vários estados do Brasil. Foto: Yara Ramalho/Rede Amazônica RR

Busca por estabilidade

Nascida em Cassilândia, cidade no interior do Mato Grosso do Sul, Eunides deixou a terra natal há 22 anos para tentar uma vida com mais estabilidade no interior de Roraima. Ao lado do marido à época e com um filho pequeno, ela viu a oportunidade ter o próprio pedacinho de terra na nova cidade, em 2002.

Ela seguiu direto para a vila de Campos Novos. Após conquistar a casa própria, a empreendedora abriu um pequeno comércio no quintal da residência, onde vendia itens de alimentação e bebidas. O trabalho com a cachaça e os licores só começou três anos depois da chegada dela ao estado, em 2005.

As primeiras bebidas eram vendidas no próprio comércio e, aos poucos, foram conquistando o paladar das pessoas. O estabelecimento foi fechado, Eunides se divorciou e decidiu investir na produção dos licores e da cachaça temperada.

Com a base do conhecimento de produção do licor, Eunides começou a testar a bebida com novos sabores como o de jenipapo, fruta usada na produção de doces e até para dar cor as coisas, até chegar a 16 variedades do produto.

Vendas

Os licores e cachaças tem preços fixos: a garrafa grande, com 1 litro, é vendida a R$ 45 e a pequena, que tem 275 ml, custa R$ 15. Os produtos, inclusive, já colecionam apreciadores em várias partes do Brasil e até fora do país. Eundes já tem clientes na cidade de Boston, em Massachusetts, nos Estados Unidos.

As bebidas já foram vendidas para o Rio Grande do Sul, São Paulo, Pará, Amazonas e o estado natal de Eunides, o Mato Grosso do Sul. Ela afirma que os produtos ficaram conhecidas por meio de divulgações feitas em uma página numa rede social, além do boca a boca e a parceria dos amigos.

A produção ainda é pequena e, por isso, a empreendedora não contabilizava a quantidade de bebida vendida e produzida por mês. Mas com a fama do trabalho, que ganhou força na Exposição Feira Agropecuária de Roraima (Expoferr) em novembro do ano passado, ela pretende calcular.

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Ajudar outras mulheres

Aos longo de 20 anos de trabalho, Eunides conquistou a liberdade financeira, mas também enfrentou o preconceito ao conduzir o próprio negócio. Mulher negra, ela já foi alvo de situações de descriminação, como o racismo. Em uma das situações, ela que é a dona do estabelecimento, não foi vista como tal por clientes, e chegou a ser inferiorizada por eles.

“Ao longo da vida a gente sofre muito bullying com a cor da pele, muita discriminação. Chegam pessoas aqui que olham para mim e dizem: ‘pode chamar o dono?’. Outra vez eu fui trocar uma grade de cerveja e disseram: ‘seu chefe vai brigar contigo’. Eles não perguntam, eles olham para você e se sua pele é negra, você é o faxineiro. Não estamos descriminando os faxineiros, mas isso não está certo. Eles olham e já imaginam quem eu sou, mas não a dona”.

Fátima Afonso, membro da Associação de Mulheres Empreendedoras e Emponderadas de Campos Novos. Foto: Yara Ramalho/Rede Amazônica RR

“Mas eu fico feliz de olhar para eles dizer assim: ‘eu sou a dona’. Essa é a minha maior motivação, olhar para o cliente e dizer que eu sou a negra, velha, mas sou a dona. E eu não respondo essas pessoas de uma forma má, porque geralmente elas viram meus clientes depois”, ressaltou Eunides Maria.

Mesmo com esses obstáculos, ela seguiu com o sonho de empreender e os casos de descriminação se transformaram em força para ajudar outras mulheres da região que também buscam a liberdade financeira.

Eunides coordena a Associação de Mulheres Empreendedoras e Emponderadas de Campos Novos, onde ensina de forma gratuita como fazer uma diversidade de produtos, como doces, crochê, pinturas, costuras e bordados, conhecimentos e técnicas que ela aprendeu ao longo da vida.

Uma das 23 integrantes da associação é a artesã Fátima Afonso Sagica, de 65 anos. Morando em Campos Novos há cerca de dois anos, ela encontrou no grupo e na amiga, a mudança de uma realidade marcada pela dificuldade.

Na infância, Fátima não teve acesso a educação e por isso não sabia ler e escrever. Ela e Eunides se conheceram durante um culto religioso, em uma igreja localizada na frente da birosca. Foi na igreja, acompanhando os versículos bíblicos e com o incentivo da empreendedora, que ela aprendeu a ler.

“Recrutada” para a associação, Dona Fátima aprendeu a fazer bordados, doces e bonecas de crochê com Eunides. Hoje é da renda dessas produções artesanais que ela sobrevive e realiza alguns sonhos, como melhorar as condições da casa onde vive e comprar um celular.

“Hoje eu sou uma mulher empoderada. Eu vivo desse trabalho, do crochê que eu faço. Eu criei uma força em mim mesma. Eu sei que eu posso, eu vou fazer e vou fazer fazendo. O meu trabalho é tudo, ele preenche a minha vida”, afirmou Fátima.

Para Eunides, são essas histórias que a motivam a continuar empreendendo e ajudando mais mulheres, que buscam o empreendedorismo por necessidade, mas que também podem encontrar uma mudança de realidade e a liberdade.

*Por Yara Ramalho, da Rede Amazônica RR