Curso de artesanato para a Amiata. Foto: Robson Costa
No sul do Amazonas, o município de Tapauá, o quinto maior em extensão territorial do Brasil, destaca-se como uma ilha de resistência em meio à expansão do desmatamento na Amazônia. Com grande parte de seu território protegido por Unidades de Conservação e Terras Indígenas, o município é palco de iniciativas socioambientais que buscam equilibrar desenvolvimento econômico e preservação da biodiversidade.
Essas ações têm como alicerce a organização social e a governança territorial, pilares que fortalecem a autonomia das comunidades locais. Liderado pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), e com apoio da Rainforest Association, o projeto Governança Socioambiental Tapauá atua há três anos no município, promovendo capacitação em boas práticas produtivas, fortalecimento de associações comunitárias e acesso a políticas públicas.
Entre as iniciativas destaca-se o engajamento de jovens indígenas Apurinã, capacitados para monitorar territórios por meio de aplicativos e drones. Já a Associação das Mulheres Indígenas Artesãs de Tapauá (Amiata) vem promovendo o resgate cultural e a profissionalização do artesanato, com apoio de entidades como o Fundo Casa.
Além disso, por meio de um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) com a Secretaria de Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Sedect) e com a Secretaria Executiva do Trabalho e Empreendedorismo (Setemp), já foram cadastradas 18 artesãs para a emissão da Carteira Nacional do Artesão, que possibilita ao portador o reconhecimento formal da sua produção e a condição de mestre artesão.
“A ideia é ir além dos balaios, cestos e abanos com fibras amazônicas como na tradição dos mais antigos”, explica Sandra Batista, vice-presidente da Amiata, que abrange mais de 30 comunidades.
A comercialização de produtos como óleo de copaíba, mel e açaí de extrativismo desponta como alternativa viável para o fortalecimento econômico da região. Com uma área de 881 mil hectares, a Floresta Estadual (FES) Tapauá é rica em recursos como castanha e breu, mas carece de compradores e logística adequada.
Firmiano Silva, vice-presidente da Associação Agroextrativista dos Moradores da FES Tapauá (Aamfet), reforça que “só a valorização da sociobiodiversidade, sem desmatamento, poderá transformar a realidade da região”.
Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
O Instituto Escolhas, sediado em S. Paulo, é especializado no desenvolvimento de estudos e análises sobre temas fundamentais para o desenvolvimento sustentável. Em documento inédito, lançado na última quinta-feira, 6, mapeia o marco regulatório da piscicultura nos nove estados da Amazônia Legal e aponta o que deve ser feito para fortalecer o setor na região. Como prioridade máxima, inserir aspectos regulatórios nos debates sobre fomento a setores da bioeconomia dado seu papel fundamental na transição para uma verdadeira economia de baixo carbono. No caso da piscicultura amazônica, por exemplo, ajustar a legislação seria o primeiro passo para destravar e alavancar o potencial do setor, levando em conta como a legislação influencia o desenvolvimento da piscicultura em cada um dos nove estados da Amazônia Legal.
O foco central do trabalho leva em conta dois processos fundamentais na regularização de empreendimentos: o licenciamento ambiental e a obtenção da outorga de direito de uso dos recursos hídricos. Uma vez regularizados, os piscicultores podem acessar políticas públicas, como o crédito rural, pleitear desconto na fatura de energia elétrica e abrir oportunidades de comercialização em mercados institucionais. Em relação aos pequenos produtores, essas etapas básicas configuram-se os grandes desafios, posto serem eles, os pequenos, exatamente a imensa maioria do universo setorial diagnosticado. Mapeamento geoespacial inédito desenvolvido pela pesquisa identificou 61.334 iniciativas em viveiros escavados e em viveiros de barragem, sendo 95,8% de pequeno porte (até 5 hectares de lâmina-d’água), 4% de médio porte (de 5 a 50 hectares de lâmina-d’água) e apenas 0,2% de grande porte (mais de 50 hectares de lâmina-d’água).
“Nenhum setor produtivo cresce sem a devida atenção e o devido apoio da gestão pública, daí a necessidade de imediata de investimentos do governo federal e dos governos estaduais em apoio ao setor. Enquanto isso, os pequenos piscicultores da Amazônia Legal seguirão fazendo o possível, sem possibilidade de fortes avanços, alerta Rafael Giovanelli, gerente de pesquisa do Escolhas. Dados do estudo “Solução debaixo d’água: o potencial esquecido da piscicultura amazônica”, lançado pelo Instituto em 2024, revelaram que, se nenhuma atitude for adotada pelo governo para estimular a piscicultura regional imediatamente, o crescimento do setor não vai ultrapassar a marca de 4,6% até 2034.
Dentre as recomendações do estudo, destacam-se a atualização imediata de instrumentos jurídicos defasados, principalmente em nível estadual; a simplificação de processos de licenciamento ambiental – que devem prever licença única on-line consoante procedimentos autodeclaratórios válidos entre quatro e cinco anos – acompanhada da intensificação das ações de fiscalização com uso do georreferenciamento. O estudo também recomenda a implementação de forças-tarefas para orientar pessoal e individualmente pequenos piscicultores sobre processos on-line e autodeclaratórios de licenciamento ambiental, nos estados onde o sistema já se encpntra previsto em lei.
Com efeito, ajustar a legislação e estimular a regularização dos pequenos produtores são ações necessárias e urgentes para que o cultivo de peixes nativos na Amazônia possa ganhar tração e ocupar mais espaço no competitivo mercado nacional, dominado pela exótica tilápia. O fortalecimento dessa cadeia produtiva passa, ainda, pela oferta de capacitação técnica e a disseminação de pacotes tecnológicos de produção de alevinos, ração, manejo do ciclo de vida. Nada disso, contudo, terá efeito duradouro se a região não contar com instrumentos jurídicos adequados e atualizados. “É preciso resolver os impasses legislativos que atravancam essa cadeia importante da bioeconomia brasileira, que traz uma oportunidade de desenvolvimento socioeconômico com baixo impacto ambiental”, pondera Giovanelli.
Sobre o autor
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).
Mulher indígena com bebê em frente ao Hospital de Campanha Yanomami montado na Casa de Saúde Indígena (Casai). Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
A mortalidade de crianças e adolescentes com câncer é maior entre os indígenas, de acordo com a nova edição do Panorama de Oncologia Pediátrica, do Instituto Desiderata. O recorte dos dados obtidos com o Ministério da Saúde e com o Instituto Nacional de Câncer (Inca) mostram uma taxa de 76 óbitos a cada 1 milhão de indígenas por ano. Já entre as crianças e os adolescentes brancos essa taxa é de 42.6/milhão, caindo para 38.9/milhão entre os negros e 38.9/milhão entre aqueles identificados como amarelos, que têm origem oriental.
De acordo com o último Censo, quase 45% dos indígenas no Brasil vive na Região Norte, seguida pela Região Nordeste, onde vive 31,22% dessa população. Essas são as regiões que têm a menor incidência de novos casos: 111,1 a cada 1 milhão de crianças e adolescentes no Norte e 138,1 no Nordeste. Mas também são as duas com as maiores taxas de mortalidade: 47,5 e 44,5/milhão, respectivamente.
A coordenadora do Serviço de Oncopediatria do Hospital Oncológico Infantil Octávio Lobo, em Belém, no Pará, Alayde Vieira, não descarta que o número de casos possa ser maior e que haja subnotificação. De acordo com ela, múltiplos fatores podem estar contribuindo para essa alta mortalidade na Região Norte, a começar por questões geográficas que dificultam o acesso aos serviços de saúde:
“A gente tem muita dificuldade de locomoção. No estado do Pará, por exemplo, nós temos 144 municípios, e às vezes, no próprio município, como é o exemplo de Altamira, para me deslocar de uma comunidade ribeirinha indígena para a própria cidade de Altamira, eu levo 1 mil km de deslocamento. E isso não dá para ser feito a pé nem de carro, só de aeronave ou de barco”, detalha a coordenadora.
Atendimento
Os próprios serviços existem em menor quantidade na região. Atualmente, o Brasil tem 77 hospitais habilitados em oncologia pediátrica. Mais da metade deles – 36 – estão no Sudeste, apenas 3 deles estão no Norte. Como consequência, mais de 40% dos pacientes com até 19 anos precisam ser atendidos em hospital sem serviço especializado e mais de 20% têm que se deslocar para cidades diferentes das que moram para conseguir tratamento.
E essas dificuldades ainda se juntam a um cenário socioeconômico desfavorável. “A gente tem um abandono de tratamento superior ao que é encontrado na região Nordeste, Sul e Sudeste, porque nós temos uma criança que mora numa região ribeirinha, num quilombo, numa aldeia… E aquela mãe que tem uma baixa renda, que o pai precisa trabalhar, com quem vai deixar as demais crianças? Então nós já tivemos vários relatos de abandono de tratamento, não é porque a mãe não quer, não tem interesse, ou não ama seu filho, é pela condição socioeconômica”, complementa Alayde Vieira.
A oncologista explica ainda que o cuidado de crianças indígenas requer abordagem especial, porque alguns pacientes, por razões genéticas, metabolizam os medicamentos de forma diferente:
“A gente usava a mesma medicação, o mesmo volume, a mesma dose, e as nossas crianças evoluíam com toxicidades. E isso nos chamou muito a atenção. Então a gente fez um estudo de mais de 10 anos, e a gente começou a observar que a nossa população indígena, ou a população miscigenada, que é a maioria do nosso estado, quando ela tinha geneticamente a ancestralidade indígena acima de um determinado valor, ela começava a apresentar efeitos colaterais maiores. Elas têm 28 vezes mais chances de intoxicar e evoluir para infecções graves e severas do que outras crianças”, explica a especialista.
A solução foi criar um protocolo diferenciado, com maior hidratação, e administração de antígenos para proteger os órgãos dos efeitos colaterais, por exemplo, o que de acordo com a médica aumenta o desafio de tratar essa população.
O Panorama de Oncologia Pediátrica está disponível no site para consulta do público e de especialistas.
José da Silva Azevedo (pai), Maria Ferreira Bernardes (mãe) e José da Silva Azevedo (filho) aos 10 anos de idade. Foto: Acervo da família
Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br
Quando meditamos na grandeza da obra humana, estruturada na honestidade e no trabalho, encontramos a figura de José da Silva Azevedo. Ele faz parte da linhagem de nomes importantes da nossa história que deixaram seus legados. Homem de vida simples e, muitas vezes, heroica. Pois quando começamos a levantar o seu passado, nos vemos diante de quão importante fora a sua contribuição.
José da Silva Azevedo já nasceu em Manaus (AM), filho de um verdureiro do Mercado Adolpho Lisboa, que possuía o mesmo nome e, de Maria Ferreira Bernardes, lavadeira que ganhava a vida para auxiliar o marido lavando e passando.
Se buscarmos o passado, vamos lembrar da Rua Barão de São Domingos e do pequeno sobrado o qual servia como residência da família. Aliás, essa rua que se localizava no perímetro urbano e tinha no passado o Bairro de Calábria, o qual começava na Travessa Tabelião Lessa e terminava no litoral do Rio Negro. Na antiga Rua Ramalho Júnior, hoje Barão de São Domingos, estava o sobrado alugado onde a família ocupava a parte superior, sendo a parte inferior um pequeno comércio onde a visão principal era a Baía do Rio Negro.
A vida é um desafio, uma travessia marcada por provações, sonhos, frustrações e esperanças. Poucos chegam à outra margem, ao ponto onde a existência se completa e podem colher os frutos das realizações. Só os fortes e persistentes vencem a inconstância, as intempéries e as incertezas da condição humana. A história deste homem simples, nascido no dia 10 de julho de 1910, no dia de Nossa Senhora do Carmo, no velho sobrado da Barão de São Domingos, é a afirmativa desses atributos que caracterizaram a trajetória desse vencedor.
(À esquerda) José da Silva Azevedo (patriarca) aos dois anos de idade./ (À direita) José da Silva Azevedo e sua mãe Maria Ferreira. Fotos: Acervo da família
Sua vida foi ilustrativa da trajetória que haveria de construir, muito especialmente, com Maria, uma jovem portuguesa, que conheceu por acaso do destino.
Há homens predestinados para grandes realizações, eles constroem e dão exemplo de vida que ficam marcados para posteridade. O sonho do jovem luso-brasileiro, que fora acalentado por tanto tempo, que seria conhecer Portugal, estava realizado, porém jamais imaginava daquela forma, com o pai doente no leito de morte.
Mas o tempo haveria de escrever sua história. Lá em Portugal, trabalhou por um longo período como professor, trabalho diário percorrido sempre pelo mesmo caminho. Certa vez, conduzindo sua bicicleta em estrada de chão batido, nas Frias de Cima, em frente a casa da família Laranjeiras, sofreu um acidente ao bater em uma pedra. Essa casualidade lhe permitiu conhecer a jovem Maria, com quem, mais tarde, haveria de casar-se, trazendo ao mundo dois filhos: José dos Santos da Silva Azevedo, ele comendador e ex-cônsul Honorário de Portugal falecido recentemente, e Maria da Conceição dos Santos da Silva Azevedo, empresária já falecida.
Seu retorno ao Brasil, especificamente a Manaus, foi com a esposa gestante de Maria e o filho pequeno. Aqui trabalhou duro como auxiliar de carpinteiro, em companhia de seu tio Manuel Ferreira Bernardes. Afinal, seu tio era um carpinteiro já reconhecido em Manaus e foram anos duros de trabalho, inclusive prestando serviço como carpinteiro na sede do Luso Sporting Club.
Os mitos permanecem no ar, como é o caso da família Azevedo, sobrevoando a vida de seus descendentes, pois fora ancorado no trabalho por dias melhores. Definitivamente, aquele jovem luso-brasileiro antevia já naquela época que não fora em vão toda vontade de lutar.
Amealhou algumas economias e montou um botequim, chamado Botequim Lusitano, com vendas de alimentos e bebidas na esquina das ruas Independência, hoje Frei José dos Inocentes, paralela à Rua São Vicente, hoje Bernardo Ramos, esquina com a Rua Beco José Casimiro. Trabalho árduo e cansativo, ele no atendimento ao público e ela na cozinha.
Em fevereiro de 1936, sua esposa gestante passa a ter complicações e vem a falecer. Posteriormente, vende o Botequim Lusitano e compra uma estância à Rua Henrique Martins n.º 407, passando a residir com sua mãe e os dois filhos, José e Maria, onde o endereço passou a funcionar a sua oficina de carpintaria.
José da Silva Azevedo, pai de José dos Santos da Silva Azevedo. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
Com algumas economias arrendam um barco e dá início a uma nova vida profissional, a de regatão, subindo e descendo os rios, comprando e vendendo produtos regionais. Esse novo trabalho, acabou criando um distanciamento entre o pai e seus filhos. Ficando sua mãe Maria Ferreira Bernardes responsável pela criação dos netos, com o aluguel de alguns pequenos quartos, lavando e passando roupa para fora.
[…] Condenados a um terrível isolamento, os habitantes dessas circunscrições durante muitas décadas suportavam as dificuldades irremovíveis da navegação fluvial, único meio de que dispunham para se comunicarem com outros centros de interesse social. A despótica via natural roubava-lhes o mais precioso dos bens da vida econômica: o tempo.
Arrastavam-se os dias, os meses, os anos, arrebatados pela tortuosidade dos rios, pelos verões inclementes, pelos empeços do paralelismo hidrográfico.
Fonte: TOCANTINS, Leandro. O rio comanda a vida: Uma interpretação da Amazônia. Manaus: Valer, 2000. Pág. 35.
José da Silva Azevedo (pai), Maria Ferreira Bernardes (mãe) e José da Silva Azevedo (filho) aos 10 anos de idade. Foto: Acervo da família
Anos mais tarde, seu filho José dos Santos da Silva Azevedo, já estabelecido como pequeno empresário e também apaixonado pelas belezas da região, ajuda-o a comprar uma propriedade nas proximidades de Manaus, onde passou a exercer a profissão de pecuarista.
[…] Homem acostumado a navegar pelos nossos rios, aprendeu a amar o vai e vem das águas e o bojo e rebojo que sempre se desenvolviam provocando mutações coloridas nas águas. Esta homenagem em que nós da família recebemos com muito orgulho, conduzirá o espírito do meu avô a continuar a navegar nas águas do tempo, dos rios deste barco escola que será também missionário do saber. Tenho certeza que, a cada viagem, a cada paragem, seus sonhos e devaneios estarão presente a iluminar o hoje e o amanhã. Este barco do saber será desdobramento de uma parte de sua vida, em busca de pessoas simples para partilhar conhecimento muito além de nossos próprios horizontes, porém, mais do que pode ser alcançado com nossos próprios olhos. Este barco lançado pelo Sesc-AM, que levará seu nome.
Fonte: BAZE, Abrahim. A saga de um imigrante português. Manaus: Valer, 2004. Pág. 35.
Sobre o autor
Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.
O artista plástico Binho Pinheiro, de Nova Mamoré (RO), vai levar a arte que representam a Amazônia e os traços da floresta até Paris. O morador de Rondônia foi selecionado para expor pinturas inéditas no Salão Internacional de Arte Contemporânea Carrousel du Louvre, em outubro de 2025.
Natural da Bahia, Binho é autor de obras espalhadas por diversos pontos da cidade de Nova Mamoré, como a pintura no muro da Câmara Municipal, que representa o município de forma abrangente, repleta de formas e cores, utilizando a técnica de aerografia.
Em entrevista ao Grupo Rede Amazônica, o artista falou sobre a grande oportunidade de estar em um dos principais palcos da arte mundial e compartilhou sua origem, trajetória de vida e trabalhos realizados em Rondônia.
Da escola para a vida
Binho nasceu na Bahia e, desde criança, percebeu que tinha uma sensibilidade maior para a arte. Os primeiros rabiscos e desenhos dividiam espaço com as letras de forma e os números primários durante a alfabetização.
“Na creche eu esboçava meus primeiros traços e isso continuou na escola. Lembro que o amor pela arte só foi surgir quando eu tinha entre 9, 10 anos”, conta Binho.
O nome “Binho Pinheiro” é artístico e surgiu ainda na infância, por influência de sua mãe, que cuidava de uma criança que tinha esse mesmo nome. Ela então passou a chamá-lo da mesma forma como apelido. Após anos, o artista acabou o adotando em sua carreira.
Ao longo do tempo, os amigos foram essenciais para que Binho não parasse de desenhar. Os colegas começaram a incentivar cada vez mais, promovendo competições de desenhos na escola, O que instigava o artista a sempre se manter aprimorando as habilidades.
“Era só uma brincadeira, algo que eu nunca imaginei que iria se tornar uma coisa concreta. Ao decorrer do tempo isso ficou sério e hoje virou meu trabalho”, relembra Binho.
Trabalhando com arte
Binho iniciou sua trajetória profissional em 2004, ainda na Bahia, pintando em diversos locais na cidade de Camacã. Um dia, enquanto pintava em uma escola de música, chamou a atenção de um artista experiente, que o convidou para trabalhar com ele. Foi nesse período que adquiriu experiência e passou a atuar por conta própria, transformando a arte em sua principal fonte de renda.
Em 2008, já consolidado como pintor, decidiu aprimorar suas técnicas de pintura a óleo e buscou aulas especializadas. Após apenas 10 aulas, recebeu a oportunidade de ensinar pintura para um grupo de cerca de 20 alunos, o que abriu novas portas.
Depois de temporadas morando em Espírito Santo e no Amazonas, Binho desembarcou em Porto Velho (RO), onde continuou vivendo de suas pinturas e ministrando cursos.
Foto: Binho Pinheiro/Acervo pessoal
Desafios de uma nova vida
Após dois anos na capital rondoniense, o pintor e sua esposa decidiram se mudar para Nova Mamoré (RO), cidade localizada a cerca de 281 km de Porto Velho. A mudança ocorreu devido a uma oportunidade de emprego para sua esposa na região.
Com o tempo, passou a ser reconhecido na nova cidade e passou a receber encomendas. Seu estilo preferido é o surrealismo, movimento artístico surgido em Paris, na década de 1920, que valoriza a fantasia e a liberdade criativa.
No entanto, o alto custo dos materiais e a baixa demanda por esse tipo de obra fizeram com que ele reduzisse a produção de telas.
“Eu parei de produzir telas já faz um tempo por conta do preço abusivo dos materiais e das encomendas, que são bem poucas. Então, eu parei de produzir porque ficava muito material empilhado”, desabafa.
Oportunidade surreal
Este ano, Binho recebeu a chance de expor suas obras justamente em Paris, berço do surrealismo, movimento que tanto o inspira. Ele soube da oportunidade pela internet e enviou seu portfólio para os curadores responsáveis. Sua arte foi selecionada entre diversos candidatos, mas as obras que estarão na exposição ainda estão em fase de produção.
“E eu tive essa honra de ser selecionado. Quanto às obras que foram serão expostas, ainda não podem ser divulgadas, até porque eu não finalizei ainda. Serão obras exclusivas”, diz Binho com ar de mistério.
Embora suas pinturas tenham sido escolhidas, os custos da viagem são de responsabilidade do artista. Ele precisa arcar com passagem e hospedagem durante os dias de exposição.
“Acredito que só o fato das minhas obras serem selecionadas para ir até Paris já é uma grande bênção e acredito que essa chance vai abrir muitas portas […] Penso que a ajuda dos meus amigos no início de tudo foi o que ajudou para que meu trabalho ter chegado nesse nível”, finaliza Binho.
Parte da pesquisa de ponta em fármacos no Brasil se faz levando amostras de solo de Belém (PA) para um complexo de laboratórios maior que um estádio de futebol em Campinas, no interior paulista. Toda essa viagem é para colocar seres microscópicos no que é, grosso modo, o maior microscópio da América do Sul, o acelerador Sirius, parte do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). Com essa ferramenta, é possível entender como funcionam os genes das bactérias e quais substâncias elas conseguem criar. As equipes envolvidas buscam substâncias com potencial antibiótico e antitumoral, e os primeiros resultados foram publicados em dezembro em uma revista especializada internacional.
O motivo dessa viagem do solo amazônico é a parceria entre o CNPEM e a Universidade Federal do Pará (UFPA). O trabalho de campo começou recolhendo amostras de solo dos interiores do Parque Estadual do Utinga, reserva de conservação constituída em 1993 e que conta com áreas restauradas e áreas sem intervenção humana recente. O grupo investigou três espécies bacterianas das classes Actinomycetes e Bacilli isoladas, de solo da Amazônia, compreendendo bactérias do gênero Streptomyces, Rhodococcus e Brevibacillus.
O passo seguinte se deu quando os pesquisadores do laboratório EngBio, da UFPA, liderados por Diego Assis das Graças, usou o sequenciador PromethION, da Oxford Nanopore (Reino Unido), “que se destaca por gerar leituras de alta qualidade, permitindo o sequenciamento de genomas complexos com alta produção de dados e baixo custo. A tecnologia de sequenciamento baseada em nanoporos permite a análise em tempo real e a leitura direta de DNA. Além disso, sua portabilidade e flexibilidade o tornam adequado para aplicações em laboratório e campo”, explicou Diego, que é um dos autores do primeiro artigo escrito a partir dessa fase da pesquisa.
Com esse sequenciamento, foi possível olhar para os genes e entender como eles atuam na construção de enzimas, e os caminhos que as tornam moléculas mais complexas. Metade delas era desconhecida.
“Estas moléculas são o foco dos nossos estudos, pois têm grande importância para desenvolvimento de fármacos e medicamentos. Por exemplo, mais de 2/3 (dois terços) de todos os fármacos já desenvolvidos no mundo têm origem em moléculas pequenas naturais, os metabólitos secundários ou metabólitos especializados”, explicou a pesquisadora Daniela Trivella, coordenadora de Descoberta de Fármacos do LNBio (Laboratório Nacional de Biociências).
A análise dos dados foi feita também no LNBio e utilizou o Sirius. Esse sequenciamento é muito mais acessível, em termos de custos e tempo, do que era há uma ou duas décadas. Com isso, é possível analisar o que Trivella explicou serem bactérias “selvagens”, ou seja, aquelas encontradas na natureza. A estimativa atual é que menos de 1 em cada 10 espécies de bactérias selvagens sejam cultiváveis em laboratório, e quando o são menos de 10% dos genes que carregam são expressos em laboratório. Todo o resto é “perdido” para a ciência, sem estes métodos de ponta. “Então, existem muitas bactérias que ainda não conhecemos e muitos produtos naturais que não conseguíamos produzir em laboratório, ou os produzíamos em baixíssimo rendimento”, completou Daniela.
Em resumo, o lugar importa, e muito. “Os agrupamentos de genes biossintéticos são responsáveis pela produção de substâncias com potencial biológico, como medicamentos. Mesmo em organismos já estudados, como as bactérias do gênero Streptomyces, vimos que ainda há muitas substâncias desconhecidas nos exemplares isolados do solo da Amazônia. Isso mostra como o ecossistema é essencial para novas descobertas. A Amazônia, nesse sentido, continua sendo uma área rica e pouco explorada para desenvolver novos produtos”, disse em nota outro dos participantes, o pesquisador Rafael Baraúna (EngBio-UFPA), que coordenou o trabalho pela UFPA.
O passo final foi levar a produção para uma escala de laboratório. Entendendo quais os genes que produzem cada substância, com uma técnica avançada chamada metabologenômica, os pesquisadores “convenceram” espécies de bactérias de manejo comum no laboratório a aceitarem esses genes e produzirem as substâncias, produzindo quantidades que possam ser testadas e trabalhadas.
“Com o DNA codificante alvo, a bactéria domesticada, que não produzia o metabólito de interesse, passa a produzi-lo, pois recebeu artificialmente a sequência de DNA que vimos na floresta. Assim temos acesso a esta molécula para desenvolver novos fármacos a partir dela. Ou seja, um acesso a novas moléculas a partir de uma rota biotecnológica”, disse Trivella.
Esse conjunto de testes não isola uma ou duas moléculas. Com toda a estrutura do CNPEN um laboratório dedicado, como o LNBio, pode realizar até 10 mil testes em um único dia. Essa velocidade compete com outra, voraz, a da devastação. O ano de 2024 teve o maior número de queimadas e incêndios na Amazônia nos últimos 17 anos. Para tentar ajudar na corrida, pelo lado da ciência, os investimentos para pesquisas no bioma, anunciados na última reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) estão no patamar de R$ 500 milhões nesta década, com potencial de ajudar a valorizar economicamente o território e sua cobertura original.
Como parte dos alvos são moléculas para tratar infecções e tumores, o retorno tem potencial superior ao dos investimentos.
“Todos estes métodos estão condensados na Plataforma de Descoberta de Fármacos LNBio-CNPEM. Esta plataforma realiza a pesquisa em novos fármacos, indo desde a preparação de bibliotecas químicas da biodiversidade e seleção de alvos terapêuticos para o desenvolvimento de fármacos, até a obtenção da molécula protótipo (a invenção), que então passa por etapas regulatória para chegar na produção industrial e aos pacientes na clínica”, ilustra Trivella.
Segundo ela as próximas fases da pesquisa levarão as equipes de campo longe até de Belém, para a Amazônia oriental. Lá esperam confirmar o potencial imenso de novas moléculas do bioma e comeár a entendê-lo ainda melhor.
Esse trabalho faz parte de um esforço maior para criar um centro de pesquisa multiusuário na UFPA, apoiado pelo CNPEM e por projetos nacionais como o Iwasa’i, recentemente implementado no contexto da chamada CNPq/MCTI/FNDCT Nº 19/2024 – Centros Avançados em Áreas Estratégicas para o Desenvolvimento Sustentável da Região Amazônica – Pró-Amazônia.
A domesticação do pirarucu é um dos maiores desafios da ciência. Foto: Siglia Souza
Pesquisadores da Embrapa Pesca e Aquicultura (TO) deram um passo importante na reprodução artificial do pirarucu (Arapaima gigas), espécie amazônica ameaçada de extinção e altamente valorizada na gastronomia e até pela indústria da moda. Pela primeira vez, foi possível analisar e descrever as células espermáticas do peixe e comprovar a viabilidade de coleta de sêmen, avanço considerado essencial para garantir a oferta de alevinos e atender à crescente demanda do setor produtivo por uma reprodução artificial (fora do corpo do animal), como ocorre com outras espécies de peixe criadas em cativeiro.
Frutos de quase uma década de estudos, os resultados foram publicados na revista científica Fishes e se deram no âmbito do projeto internacional Aquavitae, o maior consórcio científico mundial voltado à aquicultura, e que abrange o Atlântico e regiões banhadas por esse oceano.
“Esse é mais um marco em uma pesquisa que já dura nove anos e agora foca na criopreservação de material genético para a conservação e reprodução artificial da espécie”, relata Lucas Torati, pesquisador que lidera o estudo.
Diferentemente da tilápia (Oreochromis niloticus), por exemplo, cuja reprodução em cativeiro já está consolidada há anos, a domesticação do pirarucu é um dos maiores desafios da ciência. Ainda hoje boa parte do setor produtivo realiza a sua reprodução de forma natural. Estima-se que, em um universo de 10 a 15 casais formados em uma propriedade, apenas três ou quatro irão se reproduzir a cada ano.
Com olho nesse cenário, os cientistas pretendem consolidar um protocolo para a reprodução artificial da espécie, de modo que a oferta de alevinos seja constante ao longo do ano, uma antiga demanda do setor produtivo. O primeiro desafio foi encontrar um método para identificar machos e fêmeas. Torati explica que a dificuldade de diferenciar os sexos da espécie faz os criadores povoarem os viveiros aleatoriamente na tentativa de formar casais. Quando um casal se formava, era colocado em um viveiro menor, mais fácil de se manter o controle dos peixes.
Como resposta ao problema da sexagem, os pesquisadores desenvolveram um método de canulação. Um tubo estreito é inserido no “oviduto” do animal permitindo distinguir o sexo e ainda verificar o grau de maturidade das fêmeas. “Um piscicultor que trabalhou conosco nessa pesquisa obteve margens muito superiores de sucesso na reprodução do pirarucu, só pelo fato de ele utilizar a canulação”, conta Torati.
Peixe sendo canulado. Foto: Moisés Zorzeto/Acervo pessoal
Salto de duas para sete reproduções anuais
O piscicultor em questão é Moisés Zorzeto Neto, dono da Piscicultura Raça, em Canabrava do Norte (MT). Depois que ele aprendeu a técnica de canulação, sua produção de alevinos aumentou consideravelmente.
“Antes, conseguíamos uma ou duas reproduções por casal por ano. Com a técnica, esse número subiu para até sete”, relata Zorzeto, que há 18 anos produz alevinos de cinco espécies de peixe. A inovação o ajuda a organizar as matrizes reprodutoras e aumenta a eficiência do manejo em cativeiro.
Reprodução de peixes nativos: um desafio científico
Embora tecnologias para a reprodução de espécies como tilápia e salmão estejam bem estabelecidas, o mesmo não ocorre com peixes nativos brasileiros. Espécies como o tambaqui, por exemplo, dependem da terapia hormonal para ovular em cativeiro.
No caso do pirarucu, até 2010 poucos métodos conseguiam distinguir machos e fêmeas, pois não havia uma ferramenta segura e disponível para confirmar o sexo dos peixes.
“Àquela época, nem se falava em reprodução artificial do pirarucu. Mesmo porque procedimentos corriqueiros em outras espécies, como a coleta de gametas, era algo considerado impossível para o Arapaima”, conta Torati.
Um dos grandes empecilhos para a reprodução induzida do pirarucu estava na falta de tecnologias para a realizar a biópsia ovariana na espécie, algo fundamental para se avançar com as desejadas terapias hormonais. Para resolver o problema, foram feitos estudos de anatomia do peixe com a utilização de um ureterorrenoscópio, endoscópio utilizado para a remoção de cálculo renal em seres humanos.
Durante os estudos, os cientistas perceberam que a anatomia do pirarucu é diferente de outros peixes, os quais possuem um oviduto propriamente dito. “Em certo momento, depois de entender a anatomia do peixe, conseguimos substituir o ureterorrenoscópio por uma cânula endurecida com um arame dentro dela. Com essa cânula endurecida conseguimos acessar a cavidade celomática do animal, onde fica o ovário. Isso possibilitou que conseguíssemos distinguir machos e fêmeas com um acerto entre 80% a 100% e viabilizou identificar quais fêmeas estão maduras e aptas para receber o hormônio e induzir sua reprodução”, detalha o pesquisador da Embrapa.
O desafio da coleta do sêmen do pirarucu
No início do projeto Aquavitae, em 2019, o maior desafio era coletar o sêmen do pirarucu. “Nas primeiras coletas, começamos a encontrar problemas de contaminação com urina. Ao coletar sêmen de qualquer espécie, não pode ter água ou urina junto, pois o espermatozoide é ativado. Por isso, precisávamos desenvolver uma técnica para bloquear o canal urinário a fim de fazer uma coleta adequada”, pontua Luciana Ganeco-Kirschnik, pesquisadora da Embrapa, que participou do trabalho.
Após vários testes, a equipe conseguiu publicar o trabalho Possibilidade de coleta de sêmen do pirarucu e descrição das células espermáticas, no qual são descritos, pela primeira vez, a anatomia do espermatozoide – que possui dois flagelos –, rico em mitocôndrias; o tempo de motilidade e a técnica de coleta do sêmen sem contaminação com urina.
“Esse foi o principal resultado do projeto Aquavitae. O próximo passo é conseguir pegar o timming da ovulação das fêmeas, para conseguir coletar ovócitos (foto à esquerda) e realizar a fertilização artificial com a nova técnica de extração de sêmen do macho”, revela Torati. “Futuramente, abriremos uma nova linha de pesquisa: a criopreservação do sêmen do pirarucu, tal como é feito com outras espécies”, acrescenta Ganeco.
Sobre o Aquavitae
Orçado em oito milhões de euros oriundos majoritariamente do programa Horizon 2020, da União Europeia, o Aquavitae reuniu 29 instituições de 16 países americanos, africanos e europeus com o objetivo de aumentar a produção aquícola por meio de pesquisas no prazo de quatro anos.
Segundo o pesquisador Eric Arthur Routledge, da Gerência Geral de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, o consórcio internacional é uma valiosa conquista. “Ele é fruto de dez anos de articulações que envolveram o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) com a participação da Embrapa e algumas universidades brasileiras de referência em aquicultura”, conta.
Routledge relata que essas articulações geraram os subsídios para que o governo brasileiro e a Comunidade Europeia formalizassem, em julho de 2017, o acordo de cooperação em pesquisa e inovação do Atlântico, o “Belém Statement”, assinado por Brasil, África do Sul e União Europeia. Isso viabilizou pela primeira vez a participação do Brasil no consórcio internacional que aprovou, no fim de 2018, o projeto Aquavitae, cuja primeira reunião ocorreu em junho daquele ano, na Noruega.
As pesquisas sobre protocolos para a reprodução do pirarucu foram realizadas em parceria com a Universidade Estadual Paulista (Unesp) e o Instituto Norueguês de Pesquisa Alimentar (Nofima), que coordenou o Aquavitae.
Uma das principais características do Aquavitae foi a expressiva participação do setor produtivo em todos os países em que o projeto foi executado. No Brasil, houve sete parceiros da indústria, como a Primar Aquacultura, e a Associação Brasileira de Piscicultura (Peixe BR), representada no projeto pela Piscicultura Fazenda São Paulo, em Brejinho de Nazaré (TO). “Essa proximidade permitiu que as pesquisas fossem realizadas em sintonia com as demandas do setor produtivo”, ressalta Torati.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Embrapa
O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou ação civil pública, com pedido liminar, para que seja determinado o controle e a erradicação de búfalos na região da Reserva Biológica Guaporé (Rebio Guaporé), no oeste rondoniense. Na ação, o MPF lembra que o crescimento desordenado da espécie já traz danos ambientais e pode trazer riscos econômicos e sanitários.
A população de búfalos, que soma mais de 5 mil animais e ocupa 12% da reserva, não é vacinada e nem está submetida a controle sanitário. Nesse sentido, o procurador da República autor da ação, Gabriel Amorim alerta que, “a existência descontrolada desses animais, inclusive, pode manchar a credibilidade da cadeia da pecuária de Rondônia, prejudicando gravemente a economia local”.
O MPF pede que o um plano de controle utilize métodos que causem o menor sofrimento possível aos animais e danos colaterais ao meio ambiente.
De acordo com a ação, os búfalos exóticos foram introduzidos, em 1953, na antiga Fazenda Pau D’óleo, de domínio do então Território Federal do Guaporé, hoje domínio do estado de Rondônia. Contudo, a fazenda foi abandonada e 36 animais se reproduziram livremente em um habitat com farto alimento e nenhum predador. Estima-se que, até 2030, essa população chegue a 50 mil e ocupe mais da metade da área da Rebio.
Impactos ambientais
Além dos riscos sanitários e econômicos, o MPF adverte que a presença desses animais na Rebio Guaporé coloca em risco o meio ambiente. Segundo a ação, a presença dos animais vem compactando o solo, causando desertificação e desviando cursos hídricos. Os búfalos também disputam recursos com o cervo do pantanal, uma espécie ameaçada de extinção.
O MPF mostra que os ambientes alagados foram reduzidos em 48% nos últimos 34 anos em decorrência do pisoteamento e abertura de canais com erosão e compactação do solo, causados pelos búfalos.
A situação é conhecida desde 2008, quando o Ministério Público do estado e outros órgãos locais visitaram a área para atender a uma denúncia de que estavam sendo realizadas intervenções em sítios arqueológicos na região. Os agentes não encontraram sinais de intervenções humanas, mas foi possível constatar a presença de vestígios de búfalos selvagens, fato que poderia causar danos ao sítio arqueológico em razão de suas pisoteadas, da consequente erosão, desvio de corpos hídricos, entre outros problemas. Desde então foram feitas várias reuniões e tratativas para tentar solucionar a questão.
Pedidos
A ação civil pública pede que a Justiça Federal determine ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e ao Estado de Rondônia uma série de medidas. Se condenado, o órgão deverá apresentar, em até dez meses, um plano de controle e erradicação dos búfalos na Rebio Guaporé e região, utilizando métodos que causem o menor sofrimento possível aos animais e danos colaterais ao meio ambiente.
Já o estado de Rondônia deverá executar o plano usando recursos financeiros, humanos (servidores públicos) e equipamentos, sob comando do ICMBio. Por fim, o governo rondoniense deverá dispor de recursos para a elaboração e execução de um plano de recuperação de área degradada, mediante aprovação e gestão da autarquia federal.
Inicialmente, a ação foi endereçada à 2ª Vara de Ji-Paraná, mas o MPF solicitou a redistribuição para a 5ª Vara da Seção Judiciária de Rondônia, que trata de questões ambientais no estado.
O projeto Escola Vai ao Mangue, promovido pelo Instituto Peabiru com apoio da Petrobras, leva estudantes para vivências práticas no maior manguezal contínuo do planeta, localizado na costa amazônica.
A região traz benefícios ambientais, como lembra Marcos Fernandes, coordenador do Laboratório de Ecologia dos Mangues da Universidade Federal do Pará (UFPA):
“Essa região é de grande importância ecológica, ela é de grande importância socioeconômica e de grande importância cultural. Do ponto de vista ecológico, eles servem como berçários para diversas espécies marinhas e terrestres. Nas espécies marinhas, inclui os peixes, os crustáceos, todos os mariscos que a gente pode observar em áreas de manguezal e é essencial para a biodiversidade e da pesca local”.
Durante as atividades de projetos nos mangues paraenses, os alunos têm a oportunidade de interagir diretamente com o ecossistema, conhecendo espécies como o mangue vermelho, o mangue preto e o mangue branco, além de animais como o caranguejo-uçá.
O manguezal da costa amazônica, que se estende por 679 quilômetros entre o Pará e o Maranhão, é o maior do mundo em extensão contínua. Esse ecossistema mistura água doce e salgada, abriga espécies como o turu, um molusco, e o ajuru, fruto, fundamentais para a cultura alimentar e economia local.
John Gomes, gestor do projeto Mangues da Amazônia, do Instituto Peabiru, comenta a necessidade de conhecer a realidade local.
“Conhecer esse ecossistema, conhecer as pessoas que interagem, como esse meio ambiente interage entre si, é muito importante. Então, estudar os manguezais antes mesmo de aplicar um projeto nessas comunidades e nessa região costeira é de suma importância, porque a gente vai ser assertivo no momento de fazer alguma intervenção nesse ecossistema”.
Em ano de COP30, projetos como o do Instituto Peabiru são importantes, visando a conservação e o diálogo da educação ambiental, como explica John Gomes.
“Quando você pensa em COP30 para o Brasil, já é bem amplo e muitas pessoas não entendem. Quando fala de Amazônia, filtra mais ainda. E aí quando a gente entra para as escolas e na questão da educação, é o momento de a gente apresentar para eles a importância do meio ambiente, de trabalhar em contexto ambiental, respeitando o ambiente, respeitando as pessoas, a gente vai estar contribuindo para as mudanças climáticas do mundo. Então, a importância dos projetos nesse sentido de educação ambiental é sensibilizar as pessoas para que a gente consiga recuperar, onde é preciso recuperar, e conservar, nas áreas ainda conservadas”.
A conservação de florestas favorece a produtividade do cacau na Bahia e no Pará, estados líderes na produção brasileira do fruto, que é o principal ingrediente do chocolate. É o que aponta estudo publicado no dia 30 de janeiro, na revista ‘Environmental Conservation‘ por pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale (ITV) e das universidades federais do Pará (UFPA) e de Goiás (UFG).
No Pará, municípios que preservaram suas florestas tiveram aumento de cerca de 65% na produtividade do cacau desde a década de 80. Já municípios que sofreram forte desmatamento tiveram perdas de produtividade, alguns com reduções de mais de 40%. A maioria dos municípios baianos perderam produtividade ao longo do período de monitoramento, mas aqueles que recuperaram suas florestas tiveram perdas menos acentuadas.
Os pesquisadores reuniram dados históricos sobre a produção do fruto em 161 municípios da Bahia (101) e do Pará (60). A área analisada abrange cerca de 552 mil hectares, o que representa 93% da produção nacional. A equipe calculou a diferença na produtividade entre os períodos de 1985 a 1987 e 2019 a 2021, comparando métricas como variação da cobertura florestal, da extensão de terras cultivadas e do nível de fragmentação florestal, assim como as áreas totais municipais e a porcentagem dedicada ao cultivo.
“Independentemente do histórico de uso do solo nas regiões estudadas, nosso trabalho deixa claro que a perda de cobertura florestal é um fator determinante para a queda na produção”, ressalta Gustavo Júnior de Araújo, pesquisador do ITV e autor principal da publicação. “Os municípios da Bahia vêm sofrendo com a degradação da Mata Atlântica desde o século 18 e a conversão de florestas para agricultura nessa região foi muito intensa”, explica o pesquisador.
O estudo também revelou que os efeitos sobre as propriedades produtoras podem variar conforme o tamanho da área de cultivo. Em municípios paraenses nos quais o cacau não é o principal produto agrícola, a maior cobertura florestal beneficiou apenas grandes propriedades – aquelas com mais de 10 hectares –, possivelmente devido aos maiores recursos financeiros desses produtores. Florestas densas aumentam a distância até centros comerciais e dificultam o acesso a tecnologias, o que pode limitar a lucratividade das pequenas propriedades. Já na Bahia, a produtividade, em ambas as escalas, foi menor em municípios com maior fragmentação florestal.
As conclusões alertam para a necessidade de repensar as práticas agrícolas utilizadas. “Em busca de retornos financeiros mais rápidos, muitos produtores recorrem a monocultivos de cacau a pleno sol, com variedades clonais”, relata Araújo. “Além das incertezas sobre a sustentabilidade desse modelo, a expansão dos monocultivos pode reduzir as florestas naturais e os serviços ecossistêmicos essenciais à cacauicultura”, complementa.
Araújo explica que a conservação das florestas é essencial para a regulação climática natural, proteção do solo, polinização e controle biológico de pragas, por exemplo.
O autor defende a implementação de práticas que equilibram a produção e a conservação das florestas como passo fundamental para uma cacauicultura mais eficiente e ecológica.
“É necessário incentivar políticas públicas que promovam os benefícios dos sistemas agroflorestais, apoiar financeiramente os produtores na transição para sistemas mais sustentáveis e fomentar a pesquisa sobre a viabilidade e os impactos dos monocultivos de cacau”, aponta. Araújo e sua equipe devem continuar contribuindo com a investigação de questões como a influência da diversidade genética das plantas, do clima e dos microrganismos presentes no solo, atentando para a rentabilidade dos produtores de cacau aliada à conservação da floresta.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori