A educação ambiental tem como objetivo formar indivíduos preocupados e conscientes das questões ambientais, a sustentabilidade e a preservação da natureza. Em um contexto em que nunca foi tão importante pensar nas formas de conservação do planeta, a discussão sobre o ensino de tópicos relacionados ao meio ambiente se faz essencial, especialmente para as crianças.
É na infância que acontece a fase mais importante de aprendizagem. E, com frequência, as crianças parecem estar mais antenadas que os adultos em questões essenciais do dia a dia. Não à toa, para 58% dos brasileiros, as crianças estão mais conscientes que seus pais sobre questões ambientais. É o que mostra uma pesquisa da Descarbonize Soluções, empresa especializada em soluções de energia limpa.
Este é um cenário em que a grande maioria dos entrevistados (78%) afirma que recebeu educação ambiental nos seus tempos de escola. Mesmo assim, os pequenos demonstram estar mais atentos para os tópicos de sustentabilidade, sendo não apenas uma geração que traz esperança para o futuro, como uma que pode inspirar e ensinar as gerações passadas.
Papo de gente grande (e dos pequenos também)
Sabendo da importância do tópico ambiental, é indispensável que o tema seja assunto entre adultos e crianças que integram o mesmo círculo social – sejam entre pais e filhos, sobrinhos, alunos. E, mesmo que essa troca parta, essencialmente, da ideia de que uma pessoa mais velha irá instruir uma criança, é nesse espaço que os pequenos também podem compartilhar o que sabem, criando um local de diálogo em que ambas as partes aprendem juntas.
Neste cenário, os brasileiros parecem estar atentos à relevância de tratarem de assuntos relacionados ao meio ambiente com crianças ao seu redor:
36% dos entrevistados afirmaram que conversam frequentemente sobre questões ambientais com crianças, tratando do assunto pelo menos uma vez por semana;
32% ainda disseram que tratam sobre o tema ocasionalmente, considerando algumas vezes no mês;
19% abordam a questão raramente, sendo uma vez a cada um ou dois meses;
e outros 5% nunca conversaram sobre o tema.
Tatiane Fischer, CMO da Descarbonize Soluções, reflete sobre a importância de o assunto estar cada vez mais presente entre os grupos sociais:
“Mostrar para as crianças os hábitos sustentáveis que devem ser construídos dentro de casa, por exemplo, pode ser feito de uma forma lúdica que os aproxime do assunto. Essa é uma forma de criar a participação e gerar o interesse para que elas também possam trazer e compartilhar aquilo que aprendem em outros lugares. É o ciclo da educação ambiental que, ao passar pelo ambiente familiar, pela escola e pelos amigos, se completa e forma cidadãos mais conscientes”.
É papel das escolas?
Mas de quem é, afinal, o papel primordial do ensino das questões ambientais para as crianças? Para 67% dos entrevistados, essa responsabilidade deve ficar principalmente com as escolas. Na sequência, aparece o papel dos pais, indicado por 62% dos respondentes, enquanto outros 59% destacam a função dos governos.
Indo ao encontro da expectativa dos brasileiros sobre o papel das escolas na educação ambiental infantil, eles também acreditam que as instituições estão acompanhando a evolução da pauta. Segundo o estudo, 61% dos entrevistados entendem que as escolas estão cada vez mais atentas às questões ambientais, enquanto, na mesma proporção, 19% acreditam que elas estão menos atentas ou que não variaram com o tempo em relação às questões do meio ambiente.
Já em relação a qual momento a educação ambiental deveria ser introduzida para as crianças, 51% dos respondentes da pesquisa entendem que o assunto deve ser apresentado quanto antes às crianças, no caso, ainda na educação infantil (até os cinco anos). Outros 28% acreditam que o tema deve ser tratado a partir do ensino fundamental I (entre 6 e 10 anos), e 14% entendem que o assunto deve entrar no ensino fundamental II (entre 11 e 14 anos).
“As escolas desempenham um papel crucial na difusão do conhecimento sobre questões ambientais, seja por meio de aulas, palestras, eventos ou atividades. Em um contexto onde nem todos os lares abordam o tema com as crianças, as instituições de ensino se tornam uma oportunidade para popularizar essa pauta. Além de temas tradicionais como reciclagem e mudanças climáticas, é importante que as escolas incluam tópicos como energias renováveis, mobilidade urbana limpa e economia circular, mostrando às crianças as diversas formas de transformar o futuro”, conclui Fischer.
Entre janeiro e setembro de 2024 o Brasil teve 22,38 milhões de hectares queimados pelos focos de incêndio que avançaram por todo país, mostrou o MapBiomas, no Monitor do Fogo divulgado nesta sexta-feira (11). Apenas em setembro foram 10,65 milhões de hectares – quase metade de toda a área atingida nos oito meses anteriores.
O total equivale ao tamanho do estado de Roraima e é 150% maior que no mesmo período de 2023, quando o fogo atingiu 8,98 milhões de hectares. A vegetação nativa representa 73% da área queimada, principalmente formação florestal. Áreas de uso agropecuário também foram atingidas representando 20,5%.
Os estados Mato Grosso, Pará e Tocantins somaram mais da metade do território queimado e tiveram respectivamente 5,5 milhões, 4,6 milhões e 2,6 milhões de hectares atingidos pelo fogo. O município paraense de São Félix do Xingu foi o que mais queimou, seguido de Corumbá, no Mato Grosso do Sul.
Amazônia
Dentre os biomas brasileiros, a Amazônia foi a mais afetada e representou 51% do total do que o fogo alcançou nos nove primeiros meses do ano. Foram 11,3 milhões de hectares queimados no período.
De acordo com a diretora de ciências do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), Ane Alencar, que coordena o MapBiomas Fogo, a crise dos incêndios na região em 2024 foi agravada por uma seca mais severa decorrente da intensificação das mudanças climáticas.
“Isso se reflete nos números de setembro, onde metade da área queimada na região foi em formações florestais”.
A exemplo do que ocorreu em todo o país, o bioma amazônico queimou mais em setembro. Foram 5,5 milhões de hectares, dos quais 2,8 milhões eram de formação florestal. Entre as áreas em que o solo já havia sido convertido anteriormente pelo homem, as pastagens foram as mais afetadas pelo fogo, tendo 1,8 milhão de hectares queimados.
Cerrado
Em nove meses, o Cerrado teve 8,4 milhões de hectares consumidos pelo fogo, dos quais 4,3 milhões queimaram em setembro, maior área afetada nos últimos cinco anos, para o mesmo mês.
“Setembro marca o pico da seca no Cerrado e isso torna o impacto do fogo ainda mais severo. Com a vegetação extremamente seca e vulnerável, o fogo se espalha rapidamente, resultando inclusive na baixa qualidade do ar nas cidades próximas”, explica Vera Arruda, pesquisadora no Ipam e coordenadora técnica do Monitor do Fogo.
Pantanal
Na média dos últimos cinco anos, o Pantanal foi o bioma que observou maior aumento de área queimada nos nove primeiros meses do ano. O crescimento foi de 2.306% em 2024, na comparação com a média.
Foram1,5 milhão de hectares consumidos pelo fogo, dos quais 318 mil hectares foram atingidos no mês de setembro, quando 92% da área queimada foram de vegetação nativa.
Outros biomas
De todo o território afetado pelo fogo, a Mata Atlântica queimou 896 mil hectares, sendo a maioria, 71%, de área agropecuária. Já a Caatinga e os Pampas tiveram redução na área atingida por incêndios de janeiro a setembro de 2024, com respectivamente 151 mil hectares e 3,1 mil afetados.
Peças feitas a partir da fibra de tucum pelas mãos de artesãs indígenas do Amazonas ganharam as passarelas durante as semanas de moda em Nova York, nos Estados Unidos, e em Milão, na Itália, duas das mais importantes vitrines fashion do mundo. Confeccionadas por artesãs do projeto ‘Parentas que Fazem’, as criações fazem parte da coleção ‘Muiraquitã’, do estilista manauara Maurício Duarte, do povo Kaixana, um dos nomes brasileiros mais promissores no mundo da moda atualmente.
As peças foram confeccionadas por artesãs da Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro – Numiã Kura (AMARN), Associação das Mulheres Indígenas Sateré-Mawé (AMISM), Associação de Mulheres Indígenas da Região do Alto Rio Negro (AMIARN) e Associação dos Artesãos Indígenas de São Gabriel da Cachoeira (ASSAI).
Integradas a outros elementos naturais da Amazônia – como a fibra do buriti, escamas de pirarucu e sementes de açaí – as fibras de tucum, tiradas de uma palmeira amazônica, compuseram as peças autorais do estilista, unindo sofisticação e valorização da cultura dos povos indígenas.
Em Nova York, Maurício estreou sua nova coleção em um desfile no último dia 11 de setembro, em seguida partiu para Milão, para um showroom de marcas. Uma faixa de arumã usada pelo estilista, outra fibra natural confeccionada a partir do artesanato indígena, chamou a atenção da modelo Naomi Campbell, que posou para fotos usando a peça.
“Fico muito feliz de poder vir para cá trazer a nossa arte, a história que a gente acredita. Falar sobre moda autoral, sobre Brasil, sobre o Amazonas e o pertencimento. Quero agradecer às associações de mulheres indígenas que produziram com a gente por meio do projeto Parentas que Fazem. É sempre muito prazeroso reunir o que a gente constrói no têxtil com as fibras naturais”, agradeceu Maurício em suas redes sociais, ao falar sobre a estreia de sua coleção em Nova York.
Peças criadas pelo estilista com as artesãs da Amazônia. Fotos: Júlio Pontes
As associações que criaram algumas peças do desfile de Maurício Duarte compõem o projeto Parentas que Fazem, que é implementado pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS), com apoio do Google.org, instituição filantrópica do Google, e em parceria com a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e Makira-E’ta – Rede de Mulheres Indígenas do Amazonas.
Maurício também participou de ações do projeto Parentas que Fazem a convite da FAS. O estilista atuou numa oficina de teçume de arumã na aldeia Yabi, do povo Baré, em São Gabriel da Cachoeira (distante 852 quilômetros de Manaus), onde trocou técnicas e saberes com as artesãs. Ele também visitou a sede da AMARN, em Manaus, onde encomendou as peças e aprendeu mais sobre o processo de grafismo e tecelagem com a fibra de tucum.
“Partilhar as nossas simbologias, saberes ancestrais, produção colaborativa com propósito para o mundo, já precisa nascer com proteção e com a certeza de vida próspera para todos que acreditam nessa ideia”, escreveu Maurício sobre a coleção Muiraquitã, que leva o nome de um amuleto de proteção indígena, simbolizando a valorização das culturas e saberes ancestrais dos povos originários.
A coordenadora da Agenda Indígena da FAS, Rosa dos Anjos, do povo Mura, conta que a parceria do projeto Parentas que Fazem, com o estilista Maurício Duarte, é extremamente importante porque está proporcionando uma grande troca de saberes e valorização das artesãs indígenas. “O Maurício (Duarte) é muito talentoso, um fenômeno que vem voando e ainda vai voar muito alto. Estamos muito felizes por ele ter esse olhar especial e ainda escolher algumas peças das nossas ‘parentas’ para inserir em seu desfile”, comenta.
A seca esvaziou rios próximos à Terra Indígena (TI) do Vale do Javari e já impede os povos originários que vivem na região de circular normalmente entre as 74 aldeias. Além disso, indígenas adoecem pela falta de acesso à água potável e ficam sem atendimento, uma vez que dependem do transporte fluvial. A TI do Vale do Javari fica nos municípios de Atalaia do Norte e Guajará, no Oeste do estado do Amazonas.
Esse foi o alerta emitido pela União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), no início de outubro. No comunicado, a entidade reclama providências do governo federal, que teria falhado em apresentar uma resposta para os problemas agora encarados na região.
Há solicitações mais urgentes e pontuais, como a disponibilização de helicópteros, a transferência de indígenas adoecidos para a zona urbana, onde poderiam receber atendimento, em especial, um homem da comunidade de São Sebastião, que necessita de soro antiofídico. A organização indígena também destaca que recebeu notícias da morte de pessoas em virtude do contexto, e de crianças que apresentam quadros de vômito e diarreia.
A gravidade da situação chegou ao conhecimento da organização há alguns dias, quando soube que os rios se tornaram intransitáveis. A Univaja informa, ainda, que chegou a se reunir com representantes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) para avaliar o quadro e tentar encontrar soluções para os problemas que se impuseram.
“Essa conjuntura não apenas impede a movimentação das pessoas como provoca a elevação considerável dos preços de insumos básicos para a sobrevivência das populações locais, tais como gasolina, água potável e remédios”, esclarece.
“O nível de preocupação é alto, pois a Univaja, até o momento, não identificou junto às instituições de atenção aos povos indígenas uma resposta adequada para as dificuldades – que põem em risco a vida dessas populações e sua cultura ancestral, atingindo de maneira mais direta indígenas que necessitam de atendimento médico”, acrescenta.
Homologada em 2001, a TI Vale do Javari tem 8,5 milhões de hectares, dimensão que faz dela a segunda maior do Brasil, atrás somente da Terra Indígena Yanomami, que tem 9,6 milhões de hectares. O território está localizado nos municípios de Atalaia do Norte e Guajará, no oeste do estado do Amazonas, e fica na fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru.
A TI Vale do Javari é o local onde vive o maior número de povos indígenas em isolamento voluntário do mundo . O Instituto Socioambiental (ISA) estima um total de 25, número que pode variar, por preferirem se manter distantes dos não indígenas e, às vezes, até de indígenas de outros povos.
A Agência Brasil antecipou dados que constam do relatório ‘Amazônia à Beira do Colapso – Boletim Trimestral da Seca Extrema nas Terras Indígenas da Amazônia Brasileira’, da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab).
O documento aponta que a seca extrema afetou, somente em julho deste ano, 42 territórios e 3 mil domicílios indígenas, além de 15 povos originários, sendo um deles isolado. A Coiab também registrou que o cenário de aridez severa também prejudicou o funcionamento de 110 escolas e 40 unidades de saúde dentro dos territórios.
A reportagem questionou o Ministério dos Povos Indígenas e a Funai sobre medidas tomadas ou planejadas e aguarda retorno.
Trecho de floresta amazônica na Reserva Florestal Adolpho Ducke, perto de Manaus, que está sendo usada pelo projeto Gigante para estudar as árvores de grande porte da Amazônia. Foto: Dado Galdieri/Hilaea Media
Dois pesquisadores, vestindo camisas e calças de mangas compridas para resistir aos mosquitos e botas de cano alto para evitar picadas de cobras, olham para uma árvore destruída. Está no chão, coberta por folhas de palmeira, que se estendem por toda a floresta. Até pouco tempo atrás, ela se elevava sobre a maioria das outras árvores dessa vasta floresta tropical.
“É óbvio que foi um raio”, diz Evan Gora, declarando a causa da morte da árvore. Ele é um cientista da equipe do Cary Institute of Ecosystem Studies em Millbrook, Nova York (EUA).
“É possível ver folhas queimadas na parte superior”, concorda Adriane Esquivel Muelbert. Ela é professora da Universidade de Birmingham, na Inglaterra. Adriane aponta para a folhagem enegrecida que está pendurada em dezenas de árvores que circundam o perímetro do enorme toco. As folhas estão queimadas apenas nos lados voltados para a abertura da copa, deixada quando a grande árvore tombou — evidência de uma descarga elétrica.
Como Sherlock Holmes desvendando um mistério de assassinato, os especialistas em ecologia de florestas tropicais apresentam seu raciocínio a dois pós-doutorandos de sua equipe. Quando um raio atinge uma árvore, diz Evan, a alta tensão flui através da folhagem entrelaçada para as árvores vizinhas, matando os galhos e criando um padrão distinto. Evan desenvolveu esse método para determinar o raio como causa da morte de árvores enquanto trabalhava em uma floresta tropical do Panamá. Hoje, ele identificou o mesmo padrão de vegetação morta e queimada em torno desse gigante caído na Amazônia brasileira. Nenhuma outra causa de morte de árvores tem esse aspecto.
“Às vezes, é possível ter muitas árvores mortas juntas, mas não com esse dano centralizado [queimado]”, comenta Adriane. “É como uma investigação da cena do crime”, diz Evan, com entusiasmo crescente.
Pode parecer estranho que dois cientistas de alto nível passem tanto tempo investigando a morte de uma única árvore em uma vasta floresta. Mas as implicações são importantes. Seu projeto de pesquisa, chamado “Gigante”, está explorando as causas da mortalidade das maiores árvores de florestas tropicais no mundo. O estudo pode ajudar a responder a uma questão importante da ciência da mudança climática: A floresta tropical intacta continuará absorvendo muito mais dióxido de carbono do que libera?
As regiões intocadas da Amazônia ainda estão armazenando uma quantidade considerável de CO2 e retardando o acúmulo atmosférico do gás que aquece o planeta e que os seres humanos liberam quando queimam combustíveis fósseis. No entanto, se a absorção de carbono cair significativamente na Amazônia e em outras florestas tropicais do mundo, as temperaturas globais poderão aumentar mais rapidamente do que sugerem os modelos atuais, tornando ainda mais difícil para a humanidade desacelerar as mudanças climáticas.
Pronto para voar
Os dois cientistas, junto com as pós-doutorandas Vanessa Rubio e Gisele Biem, reuniram-se aqui, na Reserva Florestal Adolpho Ducke, no Brasil, pela primeira vez. Seu projeto de pesquisa global, que durará três anos, só começou recentemente.
A Reserva Ducke, nos arredores de Manaus, abrange um quadrante de 93 quilômetros quadrados de floresta tropical antiga, reservada pelo governo federal para pesquisa. Os visitantes, como esta equipe e um elenco variado de estudantes e colaboradores, pernoitam em dormitórios caiados de branco e comem em um refeitório sem paredes, área que frequentemente compartilham com queixadas, urubus, gatos selvagens e jararacas — uma das cobras mais venenosas do mundo.
Os pesquisadores vieram para responder a essas perguntas cruciais sobre a absorção de carbono e também para aprimorar as habilidades de observação, praticar a coleta e o registro de dados e desenvolver o espírito de equipe. No primeiro dia, a equipe se concentrou na identificação de relâmpagos. No dia seguinte, o tópico serão as árvores derrubadas pelo vento.
Evan está ansioso para mostrar seu mais recente dispositivo de pesquisa. Em uma clareira perto de um prédio baixo de estuque que serve como sala de aula, laboratório e sede da reserva, ele abre o zíper de uma enorme mala coberta de tecido.
Ansioso como uma criança desembrulhando um presente de Natal, Evan coloca as metades da mala na horizontal e retira a fuselagem de um drone do tamanho de um skate. Ele trouxe esse drone Trinity Pro da Quantum Systems da Alemanha. A equipe o observa enquanto ele o monta.
“É o brinquedo mais legal de todos!”, exclama Evan. Então, como se estivesse oferecendo um peru de Natal, ele pergunta a Vanessa: “Você quer pegar uma asa?” Evan e Vanessa prendem a cauda de plástico e isopor e as asas de um metro.
As asas leves como penas e as pernas semelhantes a galhos fazem com que o drone pareça frágil. Mas Evan diz que se trata de uma ferramenta de pesquisa séria a um preço acessível. Esse modelo será lançado verticalmente, como um helicóptero — útil em uma floresta. Com uma única carga, ele pode voar horizontalmente como um avião e de forma autônoma por uma hora e meia a quase 64 quilômetros por hora. Sua câmera de alta resolução distingue objetos tão pequenos quanto uma moeda a 300 metros de altura. Sem ele, o projeto Gigante não poderia ser realizado.
Evan Gora, à esquerda, discute a montagem do drone Trinity Pro com membros da equipe do Gigante na Reserva Florestal Adolpho Ducke. Foto: Dado Galdieri/Hilaea Media
Legistas de florestas tropicais
Um estudo publicado na revista Nature em 2015 surpreendeu os cientistas. Ele constatou que a floresta amazônica intacta absorveu 30% menos dióxido de carbono na década de 2000 do que na década de 1990. Os autores sugeriram que a absorção de carbono das florestas tropicais do mundo — o sumidouro de carbono tropical — está falhando. Desde então, outros estudos confirmaram esse resultado e mostraram declínios semelhantes em florestas tropicais em outros lugares.
“Essas florestas estão proporcionando um enorme benefício gratuito à sociedade”, diz Simon Lewis, geógrafo da Universidade de Leeds, no Reino Unido, e coautor de vários desses artigos.
Como muitos pesquisadores, ele concorda que os impactos da mudança climática são a principal causa da queda na absorção de carbono pelas florestas. Se não pararmos com isso logo, diz ele, “as florestas podem aumentar o problema [climático] em vez de mitigá-lo”. Até agora, a floresta amazônica absorvia cerca de 12% de todo o carbono liberado na atmosfera pela humanidade, embora a quantidade exata seja motivo de debate.
Um dos motivos pelos quais o sumidouro tropical de florestas intactas está diminuindo, de acordo com muitos cientistas, é que mais árvores estão morrendo e/ou morrendo mais jovens. Mas os pesquisadores não sabem o suficiente sobre por que e quando essas árvores morrem. Portanto, não é possível modelar com precisão e prever como esses fatores mudarão no futuro, criando incerteza nas previsões climáticas.
Prognósticos robustos exigem estimativas de absorção de carbono florestal. E, sem previsões climáticas precisas, as pessoas não podem antever com exatidão a velocidade e a consequente gravidade da crise climática.
Adriane e Evan esperam esclarecer a vida e a morte das maiores árvores tropicais, geralmente aquelas com diâmetro de tronco maior do que o de uma pizza grande, como o angelim-vermelho (Dinizia excelsa). Isso é importante porque essas árvores são responsáveis por uma parcela imensa da absorção de carbono de uma floresta tropical.
Evan Gora aponta para um perímetro cercado por galhos queimados, que sugerem uma queda de raio como causa de morte de uma árvore. Foto: Dado Galdieri/Hilaea Media
Os pesquisadores estimam que as árvores de grande porte sugam cerca de metade do carbono que uma floresta tropical absorve. A eficácia futura do sumidouro tropical provavelmente depende da longevidade desses indivíduos. Se o aumento do aquecimento, a redução das chuvas ou outros impactos da mudança climática encurtarem suas vidas, toda a floresta se tornará mais jovem e absorverá ainda menos carbono do que hoje. O sumidouro de carbono tropical poderá diminuir ou desaparecer. E, à medida que a morte de árvores em florestas intactas se intensifica, as florestas tropicais remanescentes do mundo podem até mesmo se tornar fontes significativas de carbono.
O crescimento das temperaturas médias e extremas, os padrões de precipitação e a intensidade das tempestades poderiam determinar de forma significativa o que acontece com as árvores grandes das florestas tropicais. Mas Adriane diz: “Das árvores grandes, não sabemos quase nada”.
Eles sabem tão pouco em parte porque essas árvores são raras e morrem com pouca frequência. Um estudo de 2018 em um local próximo à Reserva Ducke constatou que, de 5.808 árvores observadas durante um ano, 67 morreram. Dessas, apenas uma árvore era grande. Não é possível fazer inferências sobre como uma população se comporta estudando uma única árvore. Esse problema é agravado na hiperdiversidade da Amazônia, com mais de 10 mil espécies de árvores, com uma infinidade de estratégias de vida distintas.
Para analisar um conjunto suficientemente grande de árvores de grande porte, os cientistas precisam coletar informações detalhadas de mais terras tropicais do que já foi examinado. No entanto, estudar o histórico de vida de cada árvore de uma floresta tropical pelos métodos atuais é trabalhoso e caro. Normalmente, os trabalhadores florestais marcam e registram estatísticas como o diâmetro do tronco e a espécie (se conhecida) de cada árvore em terrenos de estudo do tamanho de campos de futebol. Assim como os recenseadores, esses trabalhadores atualizam seus registros em visitas sucessivas.
Em um artigo de 2020, Adriane identificou 189 desses terrenos em uma rede de locais de pesquisa da Amazônia chamada RainFor, que ela considerou grande o suficiente para incluir em um estudo de mortalidade de árvores. A área combinada desses espaços totalizou 331 hectares, equivalente ao dobro do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. A partir dessa amostra de floresta, ela inferiu as causas da mortalidade de uma árvore amazônica média. Mas ela também concluiu que os dados da rede “não tinham a cobertura espacial e temporal necessária para fornecer informações sobre árvores grandes”.
Em outras palavras, até o momento, poucas árvores amazônicas de grande porte foram estudadas para determinar quanto tempo elas vivem e o que as mata. Adriane diz que a situação é pior nas outras florestas tropicais do mundo, na Ásia e na África.
É por isso que o orçamento da equipe incluiu o drone Trinity Pro de US$ 27 mil (aproximadamente R$ 148 mil). Com ele, o projeto Gigante pode estudar mais árvores grandes do que nunca. Estamos “mudando nossa abordagem de olhar no nível do solo, medindo os troncos das árvores, para usar um drone”, explica Evan.
Para o trabalho atual, eles irão monitorar um lote de 1.500 hectares dentro da Reserva Ducke. Isso pode não parecer muito extenso, mas a área contém cerca de 750 mil árvores mais grossas do que um poste de cerca e quatro vezes mais terra do que em todas as pequenas áreas estudadas no artigo de Adriane de 2020.
Em contraste com os terrenos do RainFor, que os pesquisadores de campo visitam uma vez a cada dois anos, o drone do Gigante pesquisará a área de estudo mensalmente. Além disso, a equipe do Gigante calçará repetidamente aquelas botas à prova de cobras e entrará em locais selecionados. Mais como legistas do que como recenseadores, eles só visitarão árvores grandes recém-mortas após a análise mensal das imagens do drone.
Durante a busca por árvores mortas, Evan Gora e Adriane Esquivel Muelbert olham para um galho queimado identificado pelo especialista em florestas tropicais Flamarion Prado Assunção. Foto: Dado Galdieri/Hilaea Media.
Burocracia e tentativa de sequestro
Mas há um problema. No acampamento-base da Reserva Adolpho, Evan desmonta o drone e coloca as peças de volta em seu estojo personalizado. Ele ainda não pode pilotá-lo. O Brasil, assim como os Estados Unidos, regulamenta os drones. Apesar de meses de tentativas, a equipe ainda não obteve permissão.
Eles já esperavam ter recebido as aprovações, mas Evan diz que há “algumas complicações”. No meio do processo de solicitação de licenças, o consultor que eles contrataram para ajudá-los com a papelada parou abruptamente de responder a mensagens de texto e ligações. Depois de um tempo, ele explicou que houve uma tentativa de sequestro. Ele não quis dar mais detalhes, mas disse que precisava de mais tempo para voltar ao trabalho. Semanas se passaram sem nenhuma outra comunicação, deixando a permissão para voar em um limbo.
“Podemos ter notícias dele a qualquer momento, ou talvez nunca mais”, diz Evan. “É preciso ter muita paciência”, explica ele.
Uma vez autorizada, a equipe voará com o drone sobre Ducke. O drone irá se deslocar para frente e para trás em um grande terreno retangular, fotografando a floresta em trilhas paralelas, como as faixas de um gramado meticulosamente cortado. Os pesquisadores juntarão as imagens, produzindo uma única renderização de toda a área. Com a ajuda de um programa de computador desenvolvido por colegas no Panamá, eles procurarão nessa composição as aberturas no dossel que apareceram desde os sobrevoos anteriores, cada uma delas sendo o sinal provável de uma ou mais árvores recém-caídas.
Em seguida, eles saem a pé e verificam cada um deles. Adriane chama cada uma dessas visitas de “necrópsia”. A equipe espera que de 10 a 20 novos locais de árvores mortas sejam abertos no dossel a cada mês — cerca de 500 árvores por ano, o dobro do que os cálculos mostram ser necessário para tirar conclusões estatisticamente significativas sobre a mortalidade de árvores grandes.
O que está em jogo
Com US$ 1,7 milhão em subsídios da National Science Foundation dos EUA e do Natural Environment Research Council do Reino Unido, Adriane e Evan também supervisionam uma pesquisa paralela no Panamá e, a partir do próximo ano, na Malásia, em Camarões e em um segundo local na Amazônia.
Cada equipe local usará métodos idênticos para coletar dados nesses locais, seguindo o que os pesquisadores chamam de “o protocolo”, para permitir comparações válidas entre os locais. Com o fervor dos que creem verdadeiramente, Adriane, Evan e seus acólitos, os pós-doutorandos, ensinarão o protocolo às equipes que estudam os outros locais nos trópicos.
Como o drone não pode ser pilotado hoje e a equipe do Gigante não pode coletar dados aéreos, os membros da equipe calçam botas e passam repelente de mosquitos. Chegou a hora do workshop de hoje sobre windthrow — termo técnico em inglês para árvores derrubadas pelo vento. Os quatro cientistas e um especialista florestal local percorrem vários quilômetros de trilhas na floresta tropical até chegar a um corte no dossel. Parece que uma mão gigante golpeou três árvores altas e largas, derrubando-as no chão e arrancando suas raízes do solo. Essas, por sua vez, esmagaram dezenas de árvores menores em um emaranhado traiçoeiro de galhos.
Evan vivenciou em primeira mão o momento em que uma árvore desse tamanho tomba. “É um som espetacular!”, diz ele. “Você ouve estalos quando as raízes são arrancadas do solo e as árvores ao redor são esmagadas.” Imagine um galho de uma polegada de espessura se partindo em dois, diz ele. “Agora multiplique esse diâmetro por alguns metros.”
Antes que a equipe consiga entender a confusão, uma chuva fraca se transforma em um aguaceiro. Encharcados, os pesquisadores amarram uma lona e esperam o tempo passar. Vanessa distribui um saco de paçocas. Eles comem e cantam músicas pop e a tempestade continua.
Em seguida, a equipe mede o diâmetro de cada tronco. Duas se qualificam como “gigantes” — para este estudo, árvores com mais de meio metro de diâmetro do tronco na altura do peito.
Enquanto Adriane e Evan observam com aprovação, Vanessa e Gisele notam que cipós se agarram às árvores derrubadas. Em suas planilhas de dados, as pós-doutorandas classificam a infestação de cipós em um fator de dois, indicando que a folhagem dos cipós cobre de 25% a 50% do dossel combinado. Essas trepadeiras impedem que a luz do sol chegue à copa da árvore e roubam a água de suas raízes. Às vezes, os cipós ficam tão pesados que arrastam as árvores para baixo.
A equipe observa que as folhas das árvores derrubadas ainda estão penduradas, mostrando que as árvores caíram enquanto estavam vivas. Indo para a base das árvores, eles observam que os pelos finos das raízes estão intactos. Essas estruturas delicadas se degradam rapidamente no calor e na umidade tropicais quando expostas ao ar. Com base nisso, eles concluem que as árvores caíram no último mês ou dois.
Se isso não fosse apenas um exercício de treinamento, a equipe também verificaria se as árvores caídas apresentavam danos causados pela podridão do seu miolo, sondando cada uma delas com uma ferramenta chamada Resistograph. O dispositivo parece uma arma de assalto; segurando-o por um cabo de pistola, os pesquisadores pressionariam a ponta do cano, que abriga uma agulha, contra um tronco e apertariam o gatilho. Uma queda na resistência à sonda sugere que a madeira está quebradiça devido a uma infecção fúngica, outra possível causa da morte da árvore.
Evan Gora e o drone que está sendo usado para coleta de dados pelo projeto Gigante sobre a mortalidade de árvores de grande porte em florestas tropicais. Foto: Dado Galdieri/Hilaea Media
Se uma árvore cai… o que a matou?
O vento claramente derrubou pelo menos uma dessas grandes árvores. Outras podem ter sido derrubadas por uma vizinha que tombou. Os pós-doutorandos marcam “W”, de wind (vento, em inglês) , em suas anotações. Mas será que o vento matou as árvores? O vento derruba árvores amazônicas com frequência; metade de todas as árvores que morrem por causas naturais é derrubada pelo vento, de acordo com Adriane. Por “naturais”, ela quer dizer que não foram mortas com uma motosserra. Mas, na verdade, está cada vez mais difícil traçar uma linha entre a morte natural e a antropogênica das árvores.
Um estudo recente estima que, até 2100, o aumento das tempestades na Amazônia, provocado pelas mudanças climáticas causadas pelo homem, gerará um aumento de 43% nas mortes por windthrow — queda causada por vento. E, embora os cientistas não saibam ao certo, o vento pode ter o maior impacto sobre as árvores maiores, uma vez que suas copas vulneráveis se elevam bem acima do dossel circundante, o que reduz a velocidade do vento.
Os pesquisadores têm a intenção de determinar se um fator, e não outro, “causa” a mortalidade. Evan explica que, embora o vento seja a provável causa imediata, ou próxima, da morte dessas árvores, pode não ser o que realmente as matou — a causa final. Investigar a morte de uma árvore é tão complicado do ponto de vista forense quanto encontrar uma pessoa morta na parte inferior de uma escada: ela morreu de uma pancada na cabeça ao cair ou do derrame que levou à queda?
A queda de um raio está entre os poucos diagnósticos de árvores mortas em florestas tropicais feitos com um alto grau de certeza. Evan descobriu que 40% das grandes árvores mortas que ele havia estudado em uma floresta tropical do Panamá haviam morrido imediatamente após a queda de um raio.
Se as quedas de raios aumentarem tanto quanto sugerem algumas projeções climáticas (um aumento global de até 50% até 2100), Gora e seus colegas estimam que a mortalidade de árvores de grande porte no Panamá poderá aumentar entre 9% e 18%. Essa mudança, por sua vez, reduziria a absorção de carbono pela floresta. Mas Evan adverte que os raios podem não desempenhar um papel semelhante em todas as florestas tropicais. A pesquisa do Gigante deve ajudar a determinar esse papel.
Para investigar as causas finais da mortalidade, o novo protocolo do Gigante exige a coleta de informações sobre vários fatores de risco — condições que podem levar uma árvore à beira da morte antes que outro fator dê o golpe final.
Por exemplo, Evan explica: “Poderíamos descobrir que toda árvore que morreu devido ao vento tem uma carga enorme de cipós. Descobriríamos que os cipós estão causando a mortalidade, mesmo que a causa próxima que anotamos tenha sido o vento”. Outros fatores de risco a serem considerados incluem a podridão do miolo, infestações de insetos e estresse hídrico (excesso ou falta de água), que podem ser intensificados pelas mudanças climáticas.
Adriane diz que, como é difícil atribuir uma causa final para a morte de uma árvore, sua pesquisa sempre terá algum grau de incerteza.
“Nunca chegamos à causa da morte. Chegamos à causa potencial da morte”.
Ainda assim, ela está motivada pela necessidade urgente de prever a eficácia do sumidouro de carbono tropical nas próximas décadas.
Muitas mudanças nas florestas tropicais que estão ocorrendo agora, ou que estão sendo projetadas, podem aumentar a mortalidade das árvores e degradar o sumidouro de carbono tropical. A mudança climática está alterando os padrões de precipitação, ventos extremos e relâmpagos, enquanto as lianas estão se tornando mais abundantes na Amazônia e em algumas outras florestas tropicais, à medida que aumentam as áreas de perturbação humana e a intensificação do calor.
A classificação de todos esses fatores exige dias de trabalho árduo. No final desse dia, a equipe volta em fila indiana pela trilha lamacenta e escorregadia até a sede da Reserva Ducke. Gotas de água brilhantes penduradas nas folhas refratam réplicas em miniatura da floresta escurecida. A folhagem exala aromas florais doces, estranhamente com notas de alho.
Ao se aproximarem do acampamento base, eles param em uma grande árvore viva que se ergue como um trovão acima do dossel circundante. Uma harpia está sentada em um ninho de gravetos grande como uma banheira, apoiado em uma curva da copa. As harpias (Harpia harpyja), a maior ave de rapina da Amazônia, empoleiram-se no topo das árvores e da cadeia alimentar. Quando vista, a ave gira a cabeça em direção aos pesquisadores. Entusiasmada, Adriane abandona sua serenidade científica. “É por isso que as árvores gigantes são importantes”, ela exclama.
Para realizar esta reportagem, a Mongabay obteve apoio do Pendleton Mazer Family Fund, Abby Rockefeller e Lee Halprin.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Daniel Grossman
Foram encontrados por pesquisadores, na praia do Goiabal, na costa do Amapá, quatro carcaças de animais marinhos do tipo golfinho. O trabalho faz parte do projeto ‘Caracterização e Monitoramento de Cetáceos nas bacias Pará, Maranhão e Foz do Amazonas (PCMC)’ e foi realizado entre os dias 5 e 6 deste mês.
Segundo a cientista ambiental Jéssica Melo, ainda não é possível identificar a espécie dos animais. O material coletado foi levado para a capital Macapá para passar pelo processo de maceração da pele e estudos do crânio. A maceração da pele é uma condição que ocorre quando o tecido da pele fica exposto a um fluido por um longo tempo.
Este é o oitavo monitoramento quinzenal em Calçoene com a colaboração de profissionais do Instituto Federal do Amapá (Ifap) em parceria com o Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá (Iepa).
A execução do Projeto é uma exigência estabelecida no processo de licenciamento ambiental federal, conduzido pelo Ibama.
Para Juliana Campos, pesquisadora do Iepa, o projeto tem impacto direto nas políticas de preservação do meio ambiente e, principalmente, na questão de troca de conhecimentos.
“Ao participar deste projeto, tenho a chance de estudar esses animais incríveis em seu habitat natural, contribuindo para a construção de um conhecimento mais sólido sobre suas populações, comportamentos e ecologia. Além disso, os dados coletados durante o projeto serão cruciais para a elaboração de estratégias de conservação mais eficazes para os cetáceos”, destacou Juliana.
“Ao identificar as principais ameaças que essas espécies enfrentam, poderemos propor medidas para mitigar seus impactos e garantir a preservação desses mamíferos marinhos para as futuras gerações”, destaca a pesquisadora.
Foto: Divulgação/PCMC
Fases do monitoramento
O projeto ocorre em três etapas. Na primeira fase, os pesquisadores trabalham percorrendo as comunidades para conscientizar pescadores e moradores da área costeira do Amapá e das ilhas do Pará sobre a importância de acionar os órgãos competentes caso localizem esses animais.
A segunda etapa envolve o monitoramento do período dos encalhes na praia do Goiabal. No local, foi encontrado em abril deste ano um filhote de baleia cachalote.
Na terceira fase, os trabalhos consistem no atendimento por meio do ‘Disque Encalhe’, a partir do chamado, uma equipe se desloca para o local e realiza o resgate. Entre em contato pelos números: (96) 99116-3712 e (96) 99206-3344.
Além disso, os pesquisadores repassam para a população noções básicas de primeiros socorros desses animais, caso eles estejam vivos, até a chegada das equipes.
Para os pesquisadores, as primeiras horas após encontrar o animal são cruciais para a observação das condições que ele vivia e o porquê que ele morreu.
No caso desses quatro animais encontrados na Praia do Goiabal, a partir das ossadas, serão traçados pelos profissionais relatórios sobre a saúde desses mamíferos, inclusive a identificação das espécies.
Estudos sísmicos
Os pesquisadores buscam monitorar os impactos de estudo sísmico – usado para detectar poços de petróleo -. O monitoramento é parte da exigência do Ibama para exploração na Bacia Pará-Maranhão, na Margem Equatorial.
O estudo de busca de petróleo abrange a área da bacia conhecida como Pará/Maranhão, que apesar de estar localizada na costa dos dois estados, tem influência no Amapá em razão de questões geográficas.
Até o momento, mais de oito animais foram encontrados sem vida. Entre eles, dois botos adultos, com quase 2 metros de comprimento, e um filhote.
A expectativa é uma ampliação dos estudos e monitoramento caso a exploração de petróleo seja liberada no Amapá também.
Relatório da organização não governamental (ONG) World Wide Fund for Nature (WWF), divulgado nesta quinta-feira (10), alerta para o “declínio catastrófico” de 73%, nos últimos 50 anos, do tamanho médio das populações de vida selvagem. Só a América Latina e Caribe viram cair 95% dessas populações. A organização de preservação da natureza adverte que os próximos cinco anos vão determinar o futuro da vida na Terra.
Desde elefantes em florestas tropicais a tartarugas-de-pente na Grande Barreira de Corais, as populações estão diminuindo de forma “catastrófica”, afirma a ONG, que desde 1961 trabalha na área de preservação da natureza e redução do impacto humano no meio ambiente.
Os maiores declínios nas populações de vida selvagem foram registrados na América Latina e no Caribe, de 95%. A África tem menos 76% e a Ásia-Pacífico, menos 60%.
O relatório Planeta Vivo, da WWF, deixa claro que, à medida que a Terra se aproxima de pontos perigosos de inflexão de ameaça à humanidade, maior esforço coletivo será necessário para enfrentar as crises climáticas e naturais. Porém, a margem é curta para inverter a tendência. A análise afirma que o futuro da vida na Terra depende do que acontecer nos próximos cinco anos.
O Índice Planeta Vivo (LPI), fornecido pela Sociedade Zoológica de Londres, inclui quase 35 mil tendências populacionais de 5.495 espécies – aves, mamíferos, anfíbios, répteis e peixes – registradas entre 1970 e 2020. O declínio maior ocorre nos ecossistemas de água doce que apresentam redução de 85%, seguido pelos terrestres, que decresceram 69%. A vida marinha caiu 56%.
A perda e a degradação de habitats têm sido impulsionadas principalmente pelo sistema alimentar humano e é a ameaça à vida selvagem mais relatada, indica o relatório. A exploração desenfreada de recursos naturais, as espécies invasoras, a poluição e as doenças estão também identificadas como causa do declínio.
Mike Barrett, principal autor e consultor científico do WWF, disse que, devido à ação humana, “particularmente a maneira como produzimos e consumimos nossos alimentos, estamos cada vez mais perdendo o habitat natural”.
“O declínio nas populações de vida selvagem pode atuar como indicador de alerta precoce do aumento do risco de extinção e da perda potencial de ecossistemas saudáveis”, explica o documento.
Para Kirsten Schuijt, diretora-geral da WWF Internacional, “a natureza emite um pedido de socorro. As crises interligadas de perda da natureza e mudanças climáticas estão a empurrar a vida selvagem e os ecossistemas para além dos seus limites”.
Quando os ecossistemas são prejudicados, deixam de fornecer à comunidade humana os benefícios dos quais todos dependem – ar limpo, água e solos saudáveis para alimentação. E por estarem danificados, esses ecossistemas se tornarão mais vulneráveis a momentos de mudança.
Essas alterações podem ser considerados pontos de inflexão e ocorrem quando um ecossistema é empurrado além de um limite crítico, resultando em mudanças substanciais e potencialmente irreversíveis.
A perda de espaços selvagens está “pondo muitos ecossistemas à beira do abismo”, reitera a diretora da WWF no Reino Unido, Tanya Steele, destacando que muitos habitats, da Amazónia aos recifes de corais, estão “à beira de pontos de inflexão muito perigosos”.
O potencial “colapso” da floresta amazônica, está em curso porque deixará de ter capacidade de reter o carbono que aquece o planeta e mitigar os impactos das alterações climáticas.
Em um dos exemplos do relatório, é apontado decréscimo de 60% dos botos cor-de-rosa ou golfinhos de rios da Amazônia devido à poluição e a outras ameaças, como a mineração.
Por sua vez, na Austrália, as tartarugas-de-pente estão em declínio, devido ao fato de as fêmeas nidificantes, no nordeste de Queensland, terem diminuído 57% em 28 anos.
O balanço da WWF é apresentado quando os incêndios na Amazônia atingiram, em setembro, o nível mais alto em 14 anos. Além disso, pela quarta vez, um evento global de branqueamento em massa de corais foi confirmado no início deste ano.
Caça ilegal na África
O relatório aponta fortes evidências de que a caça ilegal para alimentar o comércio de marfim, no Gabão e em Camarões, coloca em perigo crítico a população de elefantes da floresta do Parque nacional em Minkébé. O declínio drástico já atingiu as famílias de elefantes da floresta, aniquilando metade da espécie.
Na Antártida, “o declínio nas colônias de pinguins-barbicha pode estar ligado ao degelo das calotas polares e à escassez de krill (pequenos crustáceos), razões que, por sua vez, resultam das alterações climáticas e do aumento da pesca desse mesmo krill”, diz o documento.
As condições mais quentes, associadas a níveis mais baixos de cobertura de gelo marinho, resultam em menos krill, sendo esses crustáceos (semelhantes aos camarões) a principal fonte de alimento dos pinguins. Essas comunidades acabam por gastar mais tempo à procura de comida, “o que pode aumentar o risco de falha reprodutiva”.
Mike Barrett lembra que não se deve ficar triste apenas pela perda da natureza. E avisa: “Estejam cientes de que esta é agora uma ameaça fundamental à humanidade e realmente precisamos fazer alguma coisa e tem de ser já”.
“Não é exagero dizer que o que acontecer nos próximos cinco anos vai determinar o futuro da vida na Terra”, alerta a WWF.
O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), por meio da Defesa Civil Nacional, reconheceu, no início deste mês, a situação de emergência em 42 cidades afetadas por desastres. As portarias com os reconhecimentos foram publicadas no Diário Oficial da União (DOU).
No Pará, 34 municípios obtiveram o reconhecimento federal de situação de emergência devido a incêndios florestais. Estão na lista Abel Figueiredo, Acará, Altamira, Aurora do Pará, Bagre, Bonito, Bragança, Breu Branco, Cachoeira do Piriá, Cametá, Capitão Poço, Concórdia do Pará, Dom Eliseu, Eldorado dos Carajás, Goianésia do Pará, Itaituba, Jacareacanga, Maracanã, Marapanim, Moju, Muaná, Nova Ipixuna, Oriximiná, Ourém, Pacajá, Portel, Redenção, Rio Maria, Rurópolis, São Félix do Xingu, Tucuruí, Ulianópolis, Vitória do Xingu e Xinguara.
Ainda no estado, os municípios de Curuá e Porto de Moz enfrentam um período de estiagem, assim como Arcoverde, Santa Maria de Boa Vista e Toritama, em Pernambuco, e Guapimirim, no Rio de Janeiro.
Por fim, Colniza, no Mato Grosso, e Caraúbas, no Rio Grande do Norte, registraram seca, que é um período de ausência de chuva mais prolongado do que a estiagem.
Agora, as prefeituras estão aptas a solicitar recursos do Governo Federal para ações de defesa civil, como compra de cestas básicas, água mineral, refeição para trabalhadores e voluntários, kits de limpeza de residência, higiene pessoal e dormitório, entre outros.
Como solicitar recursos
Cidades com o reconhecimento federal de situação de emergência ou de estado de calamidade pública podem solicitar ao MIDR recursos para ações de defesa civil. A solicitação pelos municípios em situação de emergência deve ser feita por meio do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD). Com base nas informações enviadas nos planos de trabalho, a equipe técnica da Defesa Civil Nacional avalia as metas e os valores solicitados. Com a aprovação, é publicada portaria no DOU com o valor a ser liberado.
Capacitações da Defesa Civil Nacional
A Defesa Civil Nacional oferece uma série de cursos a distância para habilitar e qualificar agentes municipais e estaduais para o uso do S2iD. As capacitações têm como foco os agentes de proteção e defesa civil nas três esferas de governo. Confira neste link a lista completa dos cursos.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) desembolsou no dia 8 de outubro, R$ 1,5 milhões em recursos não reembolsáveis do Fundo Amazônia para a compra de equipamentos de combate a incêndios florestais em Rondônia. Serão adquiridos 664 equipamentos de proteção individual (EPIs) e sete drones.
Os recursos recém-liberados fazem parte do projeto “Rondônia Mais Verde Fase II”, no valor total de R$ 34 milhões, que busca fortalecer a estrutura de prevenção e combate a incêndios florestais e queimadas não autorizadas do Estado de Rondônia. A iniciativa amplia o apoio já realizado pelo Fundo Amazônia ao Corpo de Bombeiros Militar estadual, em projeto anterior.
Desde a sua retomada em 2023, o BNDES destinou R$ 405 milhões do Fundo Amazônia para os estados da Amazônia Legal que apresentarem projetos para prevenção e combate a incêndios florestais. Os recursos devem ser usados para duas frentes: Aparelhamento e Estruturação dos Corpos de Bombeiros e Desenvolvimento das Ações de Prevenção, Combate, Monitoramento e Fiscalização.
A aplicação dos recursos cumpre as diretrizes do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), determinadas pelo Comitê Orientador do Fundo Amazônia (COFA), sob liderança do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).
Por Julio Sampaio de Andrade – juliosampaio@consultoriaresultado.com.br
Fico feliz em rever um amigo, que chamarei de Everton. Nós nos conhecemos há quase trinta anos. Inicialmente, era um cliente, depois um colega, companheiro de diversos trabalhos e, finalmente, a condição atual, amigos, uma palavra que diz tudo. Everton tem algumas características admiráveis. É uma pessoa de paz, amável no trato com as pessoas e que procura ser útil em pequenas coisas, sem fazer alardes do que faz. É uma pessoa humilde, no sentido positivo da palavra.
Desde que eu o conheci, ele dizia que o seu sonho era se aposentar. Queria ter tempo para praticar esportes, que sempre fora a sua paixão, assistir a filmes e outras atividades, que o trabalho diário não permitia. Gostava do que fazia e da empresa em que trabalhava, mas a aposentadoria, para ele, seria o grande prêmio. Quando o momento se aproximou, falava com entusiasmo, mesmo para seus chefes e colegas, sem se preocupar se isto poderia lhe trazer algum tipo de prejuízo. De tanto manifestar este desejo, acabou por fazer um acordo com a empresa onde trabalhara por mais de trinta anos. Saiu feliz, com direito a homenagens durante um concorrido almoço entre tantos amigos.
Ocorre que, por questões comuns da previdência social, a aposentadoria oficial demorou a sair. Seu discurso de que estava se aposentando não correspondia aos fatos, gerando preocupações e necessidade dele fazer um outro tipo de trabalho, um pouco mais leve e flexível do que o anterior, mas ainda assim, trabalho, o que não estava nos planos de Everton. Para quem já tinha sentido na boca o gostinho do que era o seu desejo, prolongar a espera tornou-se ainda mais difícil. Nesta época, este era o único assunto que interessava a Everton, a sua aposentadoria, que já deveria ter saído. Não era uma questão tanto financeira, já que ele recebera uma boa reserva, mas era a incerteza. E, naturalmente, ter que seguir trabalhando.
Sua alegria foi enorme quando veio a notícia. Everton estava aposentado. Parou tudo e foi curtir a vida, como sempre sonhara. Passeou com a mulher à tarde no shopping; fez pequenas viagens próximas com a família; assistiu a diversas séries e filmes; correu no parque em diferentes horários, terminando com uma água de coco, o que dava um grande prazer. A vida era um paraíso.
Isto no primeiro mês. No segundo mês, o sentimento não foi tão intenso, mas foi legal. No terceiro, a rotina já não era tão gratificante. No quarto mês, Everton se via à noite, olhando para o teto e pensando: “o que vou fazer amanhã? Como vou gastar o meu tempo?” Passou a acordar depois das dez horas e custava a dormir. E, alguns dias, não chegava a tirar o pijama e a barba ficava por fazer. Isolou-se dos amigos e sentiu-se esquecido. Era uma sensação de vazio.
Ouço este relato do próprio Everton, tendo se passado algum tempo. Ele está mais jovem, entusiasmado e, agora, trabalhando. O que o torna mais feliz é que está sendo útil, contribuindo com pessoas e com a empresa em que trabalha. Descobriu que esta é a sua maior realização: ser útil.
Ser útil e promover o bem estão na essência do ser humano, porque faz parte de sua missão maior, como afirma Mokiti Okada. Estudos da psicologia positiva, comandados por Martin Seligman, Miihaly Csikszentmihaly e vários outros pesquisadores não deixam dúvida quanto à relação entre felicidade e altruísmo. Há uma forte satisfação duradoura quando fazemos o bem, somos úteis e cumprimos a nossa missão. Esta satisfação vai além do prazer e é uma das dimensões da felicidade.
Saio do nosso encontro entusiasmado. Uma pizza, alguns chopes, mas sem excessos. Everton e eu temos trabalho no dia seguinte. Que bom que temos trabalho amanhã! Que bom que teremos o final de semana!
Sobre o autor
Julio Sampaio (PCC,ICF) é idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute, diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching e autor do livro Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital). Texto publicado no Portal Amazônia e no https://mcinstitute.com.br/blog/.