Arco-íris circular ao redor do sol em Macapá. Foto: Andressa Karolaine/Arquivo Pessoal
Moradores de Macapá (AP) registraram na última semana o aparecimento de um arco-íris em torno do sol. O fenômeno se forma se o disco solar estiver envolto numa camada de nuvens altas, do tipo cirrostratus.
Segundo o meteorologista do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá (Iepa), Jefferson Vilhena, o arco-íris é formado por gotículas de água. O pesquisador também destacou a diferença do fenômeno registrado nesta terça para um halo solar.
“Um halo solar tem o formato esbranquiçado e ele não possui a variação de cores. Esse em Macapá foi um arco-íris circular, já que ele possuía visivelmente a paleta de cores do arco-íris. As seis cores características do arco-íris que é o vermelho, laranja, amarelo, verde, azul e violeta”, explicou o meteorologista.
O fenômeno pode acontecer em qualquer época do ano, desde que as condições meteorológicas ideais estejam presentes.
Investimentos na gestão e infraestrutura de organizações comunitárias, promovendo empreendedorismo e geração de renda, têm sido estratégicos para o fomento de uma economia sustentável na Amazônia. No desafio de valorizar a floresta em pé, o apoio técnico para extração, beneficiamento e comercialização mais justa de produtos da sociobiodiversidade contribui não só para ampliar negócios de impacto socioambiental. O modelo demonstra o potencial de atrair jovens e mulheres – ribeirinhas e indígenas – para novas alternativas econômicas e melhor qualidade de vida, com redução do êxodo para as cidades.
É o caso da iniciativa “Conexão Amazônia”, realizada pelo Idesam com R$ 2,5 milhões da seguradora francesa CNP Assurances, visando à estruturação de cadeias produtivas em cinco associações comunitárias de diferentes municípios do Amazonas. Ao promover apoio técnico e de gestão, o projeto prevê o fortalecimento social de pelo menos 500 famílias em Unidades de Conservação e Terras Indígenas. O alvo principal está no extrativismo e beneficiamento de óleos vegetais, castanhas e movelaria de pequenos objetos de madeira, além do plantio de mais de 5 mil árvores para restauração de áreas impactadas nas comunidades.
As associações parceiras integram a empresa de origem comunitária Inatú Amazônia, com o diferencial de garantir a compra antecipada da produção comunitária em melhores condições de preço, com menor dependência de intermediários, e fazer a revenda no mercado da bioeconomia. Em apenas 06 meses de operação, foram comercializadas 7,2 toneladas de produtos do extrativismo, com receita de R$ 1,66 milhão, no total de 319 famílias de produtores. Até julho de 2025, a meta é ultrapassar R$ 2 milhões de vendas.
O modelo tem permitido a presença da marca coletiva em grandes eventos nacionais, como a feira de aromaterapia Conaroma Experience, em Santa Catarina, com maior visibilidade no mercado. E novidades estão por vir, no próximo ano, a partir da extração de subprodutos de óleos nativos hoje não aproveitados.
Foto: Sant Film Studios/IDESAM
Junto ao suporte para novos produtos, a estratégia do projeto “Conexão Amazônia” inclui o plantio de árvores em sistema agroflorestal no objetivo de recuperar áreas desmatadas para pequenos roçados nas comunidades, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã (AM), conforme permitido no plano de gestão da unidade.
Em fevereiro de 2025, serão plantadas mais de 12 mil árvores, sendo 5 mil com apoio do Conexão Amazônia.
“Além das práticas sustentáveis, busca-se como diferencial o protagonismo social das comunidades”, afirma Marcus Biazatti, líder de produção sustentável do Idesam.
O objetivo é fortalecer a gestão da organização comunitária como um empreendimento, com maior participação de jovens e mulheres, mantendo as características da origem florestal. “Esse engajamento tem aumentado a capilaridade das ações, principalmente com o atrativo do uso de tecnologias e aplicativos de celular nas atividades”, reforça Biazatti.
“Buscamos fortalecer a produção e a defesa do território”, ressalta Laureni Flores, presidente da Associação dos Produtores Agroextrativistas da Assembleia de Deus do Rio Ituxi (APADRIT), no município de Lábrea (AM). No projeto Conexão Amazônia, além de consultoria para a gestão institucional, cerca de 140 famílias receberam capacitação técnica no manejo florestal, como a extração de óleo de copaíba. Os produtores vendem o produto a cerca de R$ 60 o quilo para a marca coletiva Inatú Amazônia – o dobro do valor pago por atravessadores.
A organização social mais estruturada tem favorecido, também, o manejo do pirarucu e novos bioprodutos na Reserva Extrativista (Resex) do Rio Ituxi. Em fevereiro de 2025, será inaugurada uma movelaria comunitária, com apoio do Idesam e Fundo Vale, para o beneficiamento de objetos de madeira sustentável.
“Essas novidades já estão trazendo jovens de volta para a floresta, o que é muito importante, porque – além da oportunidade de renda – a permanência deles nas comunidades é essencial à proteção contra grileiros e posseiros que causam desmatamento”, explica Flores. Além disso, é crescente a participação de mulheres nas atividades produtivas do manejo florestal.
Com a parceria do Idesam, a associação planeja realizar o levantamento de toda a produção da Resex, abrangendo também castanha, buriti e açaí, além da copaíba. “Com a organização fortalecida, queremos abrir novas frentes de comercialização”, conta Flores, otimista com a maior valorização do trabalho feminino na floresta – referência para que outras mulheres ocupem espaços de liderança.
Você sabia que a maior montanha do Brasil está no Amazonas? Sim, o Pico da Neblina – ou Yaripo (Montanha dos Ventos), como é chamado pelos Yanomamis – atinge 2.995 metros e é um símbolo de desafios, beleza e cultura.
Localizado no coração da Amazônia – dentro do Parque Nacional Pico da Neblina e Terra Indígena Yanomami, no município de Santa Isabel do Rio Negro -, o Yaripo é muito mais do que uma paisagem deslumbrante, é uma verdadeira jornada de superação.
A recente expedição ao Yaripo, organizada e financiada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – Núcleo de Gestão Integrada (ICMBio – NGI) Pico da Neblina -, reuniu pesquisadores e cientistas, entre eles o geólogo Gilmar Honorato, do Serviço Geológico do Brasil (SGB). Ele compartilhou histórias e momentos marcantes dessa missão.
“Foi uma trilha difícil, com trechos de rochas, raízes, lama e frio intenso, mas também cheia de aprendizados e reconexões”, contou.
Desafios e superação
A expedição de 11 dias, sendo nove dias de trilha, começou com deslocamento por rios e estradas de terra, pernoite na comunidade indígena Maturacá, onde ocorreu ainda o benzimento pelos Patapë (anciões Yanomamis), até finalmente alcançar o início da trilha na foz do igarapé Tucano.
Daí em diante, o grupo enfrentou mudanças drásticas de clima — calor sufocante e umidade extrema nos primeiros dias, e temperaturas abaixo de 10ºC durante as madrugadas nas partes mais elevadas. “Carregar um mochilão de 12-15 kg, enquanto a chuva não dava trégua foi desafiador, mas cada passo valia a pena”, lembrou Honorato.
Além das dificuldades, a viagem revelou curiosidades fascinantes: a região abriga quatro das vinte maiores montanhas do Brasil, incluindo o Pico Phelps (31 de Março), Pico da Cadorna e o MF BVBB/4. E, apesar da constante neblina que dá nome ao local, o grupo pôde contemplar o horizonte nas poucas horas de abertura – entre 7h e 9h e entre 17h e 19h. Contato com povos originários
Mas a aventura não foi apenas sobre paisagens e esforço físico. O contato com os Yanomamis foi um dos pontos altos da missão. Os indígenas, que guiaram a equipe desde o porto de Yá Mirim, foram fundamentais para o sucesso da expedição. “Nossa equipe tinha 17 Yanomamis como guias, carregadores e cozinheiras. Sem eles, nada disso seria possível”, ressaltou o geólogo, que já conhece a comunidade desde 2014.
Foto: Divulgação/SGBFoto: Joana SanchezFoto: Jessica dos AnjosFoto: Divulgação/SGB
Relevância científica
A missão teve também um importante papel científico. Amostras de rochas foram coletadas para análise em laboratório, com o objetivo de desvendar a idade de formação das montanhas e enriquecer o escasso conhecimento geológico sobre a região.
Além disso, os pesquisadores identificaram riscos geológicos, como um grande deslizamento recente na Serra do Baruri, que causou perdas significativas para uma comunidade próxima.
No fim das contas, o Pico da Neblina é mais do que um desafio físico ou um destino turístico. É um lugar onde a ciência se encontra com a cultura, onde cada passo é uma conexão mais profunda com a natureza e com as pessoas que ali vivem.
“Voltei cansado, mas grato. Essa montanha tem o poder de unir pessoas e nos lembrar do quanto somos pequenos diante da grandiosidade da natureza”, concluiu Honorato.
Uma lei aprovada no fim do ano passado no Pará está gerando intensos protestos de lideranças indígenas de diferentes etnias e regiões do estado. Eles acusam o governo de desmantelar o sistema de educação indígena. Os manifestantes ocupam, desde o dia 14 de janeiro, a sede da Secretaria de Estado de Educação (Seduc), em Belém, pedindo a revogação imediata da Lei 10.820/2024.
A Polícia Militar foi acionada para tentar dispersar os manifestantes, cortou energia e água do prédio, jogou spray de pimenta nos banheiros e impediu a entrada da imprensa, de representantes do Ministério Público Federal (MPF) e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), mas os indígenas continuam no local, depois de forçarem o portão e ocuparem as estruturas da Seduc.
Há cerca de 300 indígenas no local, incluindo caciques das etnias Munduruku, Wai Wai, Tembé, Arapiun e Tupinambá, que afirmam representar os mais de 55 povos indígenas presentes no território paraense.
Depois que eles entraram, o portão foi novamente fechado e ninguém mais conseguiu entrar. As lideranças dizem que só negociam com a governadora em exercício, Hana Ghassan (MDB) o governador Helder Barbalho (também do MDB) está em viagem ao exterior –, ou com o titular da Seduc, Rossieli Soares, que teriam autonomia para revogar a lei. Ao fim do terceiro dia de protesto, Soares foi à secretaria no fim da tarde de quinta-feira, mas até o fechamento desta reportagem não havia ocorrido diálogo.
“A energia cortaram, a água [cortaram] e jogaram spray de pimenta. Estamos em cárcere privado. Tem criança, tem idoso, tem cacique que vieram de muito longe. E nós não vamos sair daqui, porque não saímos do nosso território para ficar de blá-blá-blá”, disse Alessandra Korap, liderança Munduruku, no primeiro dia de ocupação.
Em apoio à demanda indígena, o Sindicato dos Trabalhadores de Educação Pública do Pará (Sintepp) decidiu entrar em greve geral, com início em 23 de janeiro.
Foto: Raimundo Paccó/Agência Pública
A lei, aprovada em 19 de dezembro, no fim do ano legislativo, em votação fechada – e marcada pela repressão da Polícia Militar, que usou balas de borracha e spray de pimenta contra os professores estaduais, altera o plano de gratificações do Sistema Modular de Ensino (Some) e de sua versão para os povos indígenas (Somei).
Redução de gratificações inviabiliza ensino presencial; governo quer educação à distância
A medida reduz as gratificações fixas de R$ 7 mil para valores que podem variar entre R$ 1 mil e R$ 7 mil, de acordo com quatro níveis de complexidade que variam de acordo com cada território onde o Some é implementado. A mudança, porém, não foi regulamentada, e os critérios para estabelecer os graus de complexidade e a gratificação correspondente permanecem incertos.
Para os indígenas e sindicalistas, isso, na prática, pode inviabilizar a educação indígena nas aldeias e em locais mais remotos. O recurso é necessário para a logística de viagens dos professores às comunidades indígenas, do campo ou ribeirinhas. É com ele que os professores pagam deslocamento, hospedagem, alimentação, combustível e até confecção de materiais pedagógicos.
Em substituição, o governo do estado já implementa na rede de ensino o Centro de Mídias da Educação Paraense (Cemep), modalidade de ensino à distância que funciona com uma televisão e um modem da empresa Starlink. Cada aula, transmitida a partir da sede da Seduc, em Belém, é acessada simultaneamente por até 80 salas de aula em diferentes municípios do estado. Nesses locais fica apenas um professor mediador, de qualquer disciplina, para reunir dúvidas dos alunos.
Os indígenas argumentam que o sistema é incompatível com várias aldeias, muitas das quais não possuem energia elétrica e dependem de geradores a diesel para necessidades do dia a dia.
“Os alunos estão sendo abandonados, os professores também. Aula online não serve pra gente porque muitos alunos não falam português. Isso é violação de direito, é violação da nossa cultura”, disse Alessandra em um vídeo publicado nas redes sociais.
O Some funciona no Pará há mais de 40 anos. Foi concebido para que o ensino médio chegasse às localidades mais remotas do estado, como zonas rurais, ribeirinhas, aldeias indígenas e territórios quilombolas, onde o Executivo estadual tinha dificuldade em manter um professor fixo.
O programa é organizado em módulos de três meses, com os professores visitando comunidades preestabelecidas semanalmente. Cada módulo funciona como um intensivo de uma disciplina, que terá todo o seu conteúdo ministrado durante os três meses. Ao fim de cada módulo, os professores atendem outras comunidades.
A logística dessas viagens normalmente envolve custos altos, motivo pelo qual os professores do Some recebem, além do salário, as gratificações. Mas, apesar de ser um modelo preferido pelas comunidades, a situação também é precária, como observou reportagem da Agência Pública.
Como o projeto não possui uma estrutura própria de escolas, os professores usam as salas de aula de escolas municipais de nível fundamental, não raro em péssimas condições de conservação.
Escola moderna vira sauna
No Pará, um dos municípios pioneiros na implementação do Some foi Igarapé-Miri, maior produtor de açaí do estado e do Brasil (em 2022 foi responsável por 21,7% da produção nacional, totalizando 422,7 mil toneladas). Em novembro de 2024, a reportagem da Pública esteve no município para visitar escolas onde o Some funciona.
A primeira parada foi no rio Anapu, na Vila Menino Deus, distante mais de uma hora em lancha rápida da sede do município. Lá as aulas de ensino médio ocorrem na Escola Municipal de Ensino Fundamental Dom Antônio Macedo Costa.
Entregue em 2023, a escola conta com infraestrutura impecável: prédios novos, quadra esportiva, refeitório amplo e centrais de ar condicionado em todas as salas. Porém, a energia elétrica monofásica transformou a escola em um elefante branco, já que a energia fraca não dá conta dos aparelhos. As salas que deveriam ser climatizadas se transformam em saunas. Uma professora, que não quis se identificar, relatou ter presenciado, em duas oportunidades, alunos desmaiarem em sala de aula por causa do calor.
No dia em que a reportagem esteve no local, a maior parte das atividades de aula aconteceu no refeitório, que fica em um pátio amplo e um pouco mais arejado. Pelas condições de aula, porém, o regime de estudo é alterado, com alunos entrando no prédio às 13h e sendo liberados por volta das 15h30 para concluírem as atividades em casa.
O bigode ralo e alguns precoces cabelos brancos contrastam com a aparência jovial do estudante Nilmar Lima Barbosa. Ele tem 19 anos e voltou a estudar em 2024, após um ano afastado da escola (ele já havia passado um ano sem estudar em 2021 por causa da pandemia).
Foto: Raimundo Paccó/Agência Pública
Seus dedos e unhas têm marcas da tinta arroxeada do açaí que coleta durante uma jornada de cinco horas pela manhã, antes de ir para a escola. A atividade é o sustento de sua família, como a de muitas outras da região, e um dos motivos de ter interrompido os estudos.
Ele voltou à escola por incentivo da mãe, mas relata que não tem sido fácil. “Tem que se empenhar muito para aprender. Em sala de aula já é complicado, por causa do calor. A gente passa três horas dentro da sala e já sai lavado [de suor]. Mas é pior estudar em casa com material, por não ter a explicação que o professor passa na sala de aula”, conta.
Mesmo assim, ele não pensa em desistir e tem planos para o futuro. Após concluir o ensino médio, ele sonha em estudar agronomia, para juntar o conhecimento científico ao que adquiriu empiricamente na lida nos açaizais.
Mais próxima do centro da cidade, a Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental Bom Jesus I é uma típica edificação ribeirinha: construída toda em madeira sobre um palafita no rio Caji, possui salas de aula sem divisórias completas, o que permite que o som de uma aula seja ouvido por uma ou mais turmas. Como não dispõem de hospedagem, os professores vinculados ao Some costumam utilizar as dependências da escola para a estadia durante as semanas do módulo.
Foto: Raimundo Paccó/Agência Pública
Por se tratar de uma escola na beira do rio, nos primeiros meses do ano, considerados os de inverno na Amazônia, o local costuma sofrer com alagamentos e aparecimento de cobras e de outros animais silvestres.
“Essa escola já teve sua estrutura inteira reprovada pelo Corpo de Bombeiros, e a prefeitura municipal sabe, mas não tomou providências. É um desafio a gente não surtar diante de tantos obstáculos. Porque é uma odisseia para chegar lá, outra odisseia permanecer. E, por fim, ensinar algo aos alunos. O que sobra de sanidade, a gente guarda para exercer nossa função”, se queixa um professor que já ministrou módulos nessa escola e pediu anonimato.
Mesmo nessas condições, a escola Bom Jesus I está incluída no edital para contratação de professores em cadastro de reserva para inclusão no sistema de educação à distância do Cemep. “A escola não tem nem condições de receber alunos com aula presencial, imagina com Cemep”, provoca o mesmo professor.
No ensino à distância, alunos não conseguem mostrar exercícios
Apesar da resistência da categoria contra a implantação do Cemep, o sistema já vigora em várias escolas do Pará. A reportagem visitou a Escola Emaús, situada na comunidade Novo Paraíso, também em Igarapé-Miri. Composta por um pavilhão com três salas de aula, um banheiro (que dispõe apenas de um vaso sanitário e não tem pia para higiene das mãos), leva em sua fachada a inscrição “Patrimônio da Assembleia de Deus”. Uma das salas de aula está cedida para o funcionamento do Cemep, atendendo o segundo ano do ensino médio.
Durante a visita da reportagem, oito alunos assistiam a uma aula de matemática em uma televisão de 60 polegadas. A transmissão é garantida a partir de um modem da Starlink instalado na escola. O mediador responsável por manter a dinâmica em sala era o professor Roberto de Cássio Viana, que assumiu a função em 30 de setembro e, originalmente, atua nas disciplinas de estudos amazônicos, história e geografia.
“Minha função como mediador é chegar antes do horário, ligar equipamentos, receber os alunos, fazer a chamada e aguardar o momento da aula. Como sou pedagogo, tenho conhecimento básico das áreas”, disse. As aulas vão das 13h30 às 17h.
Com mais de 20 anos de magistério, Viana conta que estava se adaptando ao novo formato, iniciado havia pouco mais de três meses, quando a reportagem esteve no local. Alguns hábitos, porém, fazem falta. “É uma adaptação. A gente chega aqui para dar aula, né? Tem hora que a gente fica meio se segurando, mas não pode intervir, porque a aula é do professor. Eu sou mediador”, explica.
Como mediador, ele é responsável por reunir dúvidas e enviar para o professor de cada disciplina após as aulas e garantir que os alunos não se distraiam com os aparelhos celulares, já que se permite que acessem a mesma rede que transmite as aulas. Segundo o professor, no Cemep, até mesmo as aulas de educação física são transmitidas a partir da sede da Seduc, em Belém.
Durante a aula de matemática, o professor passou aos alunos uma equação e deu um tempo para resolução do problema. Para mostrar os resultados, cada mediador pede a vez na transmissão, e um aluno pode mostrar seu resultado: com os cadernos na mão, eles levam a folha junto à câmera para o professor avaliar se está correto ou não.
Mas com mais de 80 salas de aula conectadas, era inexequível, pelo tempo de aula, que todas as classes tivessem alunos interagindo com o professor responsável pela transmissão. Em pelo menos uma ocasião, foi possível notar que o professor não conseguiu visualizar o resultado demonstrado pela resolução ruim de imagem. Com meia hora de aula, uma tela preta: o sistema caiu e demorou 20 minutos para a reconexão.
“Por incrível que pareça, isso não acontece com frequência”, disse, no entanto, o mediador.
Apesar dos problemas do Some, os moradores de Igarapé-Miri ainda preferem o ensino à distância. É o que ficou evidente em uma sessão realizada na Câmara Municipal da cidade para discutir a permanência do sistema nas zonas ribeirinhas do município. A sessão contou com a adesão de pais de alunos e professores do sistema, com direito à fala.
Chamou atenção o depoimento de Soraia Souza, moradora da Vila Boa União desde a infância. Hoje com 50 anos, ela conta ter interrompido os estudos aos 12 anos de idade devido à extinção da escola na localidade. Ela só conseguiu voltar à escola nove anos depois, com a implantação do Some. Foi quando conseguiu concluir os ensinos fundamental e médio. E logo partiu para fazer faculdade de pedagogia.
Hoje diretora da Escola Municipal Neusa Rodrigues, que atende do maternal ao 5º ano, Soraia critica a ideia de substituir o regime presencial por educação à distância nos moldes do Cemep. “A realidade do interior é diferente. Temos muitos problemas de energia, às vezes passamos dois, três dias sem. Quando o tempo começa a fechar, o sinal de internet vai embora. Não acredito que assistir aula pela televisão daria certo aqui”, diz.
Secretaria nega mudanças
Em nota enviada à reportagem, a Seduc negou que o Some será encerrado. “As áreas que já contam com este sistema de ensino continuarão sendo atendidas por ele, no mesmo formato, e a continuidade do programa está garantida, conforme artigo 46 e anexo V, da Lei 10.820, de 19/12/2024.
A lei criou uma gratificação de até R$ 7 mil, adicional ao salário inicial do professor pago pelo governo do Pará, que hoje é de R$ 8.289,89, além de mais R$ 1,5 mil de vale-alimentação”, disse a secretaria por meio de nota.
O Sintepp e representantes contestam essa afirmação da Seduc. Em nota publicada em suas redes sociais, o sindicato afirma que o texto da lei condiciona o pagamento da gratificação de acordo com quatro níveis de complexidade, que variam de acordo com cada unidade e têm critérios ainda a serem regulamentados pela Seduc.
Segundo o Sintepp, a nova lei exclui direitos como o pagamento dessas gratificações nas férias de janeiro e julho e em licenças superiores a 30 dias.
“Não há regulamentação da lei aprovada. Não sabemos de nada do que iremos receber, pois a portaria de lotação de 2025 não foi divulgada pra nós, nem como será o nível de complexidade das localidades”, afirma um professor que pediu para não ser identificado.
A Seduc disse ainda que “também não é verdade que o ensino médio presencial será substituído por educação à distância”. Na nota, a secretaria disse que não foi feito nenhum pedido oficial de reunião. “Depois da invasão, a Seduc fez um pedido para que as lideranças indicassem uma comissão, o que até o momento não aconteceu”, continuou.
A reportagem questionou ainda de onde partiu a ordem para que a imprensa não acessasse o prédio, mas não obteve resposta.
Em entrevistas a emissoras de televisão, o secretário Rossieli Soares afirmou que o movimento se tornou “político” e que o governo negocia com entidades indígenas. As lideranças da ocupação, porém, negam.
“Queremos dizer ao secretário que não existe uma comissão negociando conosco. Se ele diz que há uma negociação, até agora ninguém veio sentar com a gente. Queremos a presença de quem tem autonomia para que possamos sair daqui com uma portaria assinada e publicada no Diário Oficial”, disse o cacique Dada Borari.
Foto: Raimundo Paccó/Agência Pública
“Estão tentando nos vencer no cansaço. Mal sabem eles que nossos antepassados estão aqui nos dando força. Mal sabem eles que a gente luta há mais de 500 anos e não vamos descansar. Portanto, saiam dos seus gabinetes e venham conversar com o povo”, disse Auricélia Arapiun.
O MPF e o Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) movem ação na Justiça Federal para que cada um dos povos e comunidades tradicionais do Pará seja consultado de forma livre, prévia e informada, conforme estabelece a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), antes de qualquer tomada de decisão do Estado.
Até que essa consulta ocorra, o poder público deveria interromper qualquer medida de mudança do formato da educação indígena e deve garantir a manutenção da educação presencial, defendem o MPF e o MPPA na ação.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Pública, escrito por Alan Bordallo
O Museu do Círio, em Belém (PA), abriu uma nova exposição no dia 15 de janeiro. A mostra “Encontros” é dividida em cinco eixos que apresentam diferentes perspectivas sobre a celebração religiosa e profana, renovando a exposição permanente do museu, após 15 anos. Entre os destaques da montagem, as fotos de Jacques Huber, alguns dos registros mais antigos do Círio de Nazaré, retratam o “Círio Negro”. A disponibilização das imagens é fruto da parceria entre a Secretaria de Estado de Cultura (Secult), e o Museu Paraense Emílio Goeldi.
“A exposição ‘Encontros’ convida a um passeio nesta manifestação que une fé, cultura e tradição. Reunimos nuances desta festa que é tão nossa, desde o início da devoção à Nossa Senhora, herdada dos portugueses, até o encontro de Plácido à imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Da arte de Dona Esther França, que inicia a tradição dos mantos de Nossa Senhora mantida até hoje, do olhar do naturalista Jacques Huber através de seus registros fotográficos traz o destaque da presença afroindígena nas celebrações, em uma parceria com o Museu Emílio Goeldi”, diz a diretora do museu, Márcia Yamada.
De início, a mostra trata sobre a origem da devoção, a chegada de Nossa Senhora de Nazaré na Amazônia e uma coleção de mantos. As peças bordadas por Esther Paz França, interna no Colégio Gentil, fazem parte do acervo do museu e são alguns dos mantos mais significativos do século XX.
As obras seguintes mostram as festividades de outros municípios pelo Pará. Depois, a proposta segue as expressões mais populares da festa, com ex-votos, com símbolos da cultura paraense como camisas dos times de futebol mais clássicos do estado.
Foto: Bruno Cecim/Agência Pará
“Todos os objetos votivos foram selecionados do Acervo do Museu do Círio e todos possuem um registro de relato sobre a motivação desse objeto, qual foi a promessa, qual foi o pedido. Isso é um elemento muito específico dessa exposição, não só detectar o objeto, mas tentar entender as motivações”, explica Anselmo Paes, curador da exibição.
Logo após, ganham destaque as fotografias de Jacques Huber, com curadoria do pesquisador do Museu Emílio Goeldi, Nelson Sanjad, e expografia de Karol Gillet. As imagens dão destaque às pessoas que participam da procissão, pontuando características como raça e etnia dos devotos, entre outras particularidades.
“A exposição ‘Encontros’ exibi os Círios de Fé, Resistência e Identidade na Amazônia, que trata de um eixo principal, pensar o encontro que se dá entre Nossa Senhora de Nazaré e o povo paraense, entre Nossa Senhora de Nazaré e todos os espaços que produzem fé, cultura e arte em Belém. Podemos pensar que esses encontros foram encontros frutíferos, mas também encontros que significam luta, significam resiliência, resistência cultural na Amazônia”, conclui Anselmo.
Por fim, a mostra aborda a história de Plácido e a identidade paraense a partir do Círio, com protagonistas que não foram visibilizados.
O turista natural do Maranhão, Marcos Antônio, fala sobre a visita ao museu. “Minha curiosidade é ver como a exposição prestigia esse momento que é o Círio de Nazaré, já que a Igreja de Nazaré, daqui de Belém, doou uma estátua para São Luís do Maranhão, onde acontece a segunda maior procissão, que passa pelo bairro onde eu cresci”.
“O que me chama a atenção é a preocupação com a montagem do espaço, essa demonstração da decoração do manto, entre outros objetos aqui que eu sei que vem muito de uma questão de pagamento de promessas. É muito bonito”, pontua Marcos.
De acordo com informações do 2º Boletim de Monitoramento Hidrológico do Serviço Geológico do Brasil (SGB), divulgado no dia 14 de janeiro, em Manaus (AM), o Rio Negro atingiu 20,66 m e está em processo de enchente, subindo numa média diária de 14 cm e estando com níveis dentro do esperado para a época.
Para Andre Martinelli, gerente de Hidrologia e Gestão Territorial em Manaus, os dados sobre os níveis dos rios, obtidos nas estações de monitoramento do Sistema de Alerta, comprovam a boa resposta da hidrologia ao “inverno amazônico”, como é conhecido o período chuvoso da região.
“Este evento trouxe um cenário de recuperação, e o que se observa agora são níveis dentro do esperado para a época”, destacou.
Ao longo de uma semana, o Rio Branco inicialmente apontou elevações, mas nos registros mais recentes voltou a descer uma média diária de 12 cm em Boa Vista e de 11 cm Caracaraí.
O Rio Solimões está em processo de enchente, registrando elevações diárias na ordem de 5 cm em Tabatinga e Fonte Boa, 11 cm em Itapéua e 13 cm em Manacapuru. As estações monitoradas apresentam níveis dentro do esperado para o período.
Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia
Nos últimos dias, o Rio Madeira apontou subidas acentuadas em Porto Velho, com elevações diárias da ordem de 73 cm e, mais a jusante, em Humaitá, também apresentou comportamento de enchente, com acréscimos diários da ordem de 46 cm. Os postos de monitoramento apresentam níveis considerados normais para a época.
Já o Rio Amazonas apresentou pequena diminuição nas variações diárias, no processo de enchente, subindo uma média de 14 cm em Itacoatiara, 10 cm em Parintins e 7 cm em Óbidos e Santarém. As estações monitoradas apontam níveis no limite inferior da normalidade.
Os dados atualizados, obtidos nas estações de monitoramento que compõem o Sistema de Alerta da Bacia do Rio Amazonas, podem ser conferidos aqui.
Parceria
O monitoramento dos rios é feito a partir de estações telemétricas e convencionais, que fazem parte da Rede Hidrometeorológica Nacional (RHN), coordenada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).
O SGB opera cerca de 80% das estações, gerando informações que apoiam os sistemas de prevenção de desastres, a gestão dos recursos hídricos e pesquisas.
Com o objetivo de preservar vidas e também de reduzir danos materiais durante este período de inverno amazônico, a Prefeitura de Porto Velho (RO), por meio da Coordenadoria Municipal de Defesa Civil, iniciou a ‘Operação Inverno 2025’ em todo o município, e as ações se estenderão até o início de junho deste ano.
A equipe também montou uma cartilha que vai ficar disponível no site da Defesa Civil. A publicação traz informações sobre qual procedimento o cidadão deve seguir se estiver no carro, em casa, na rua, quando houver raios e vendaval. Confira:
Segundo o coordenador da Defesa Civil, Marcos Berti Cavalcanti, em Porto Velho serão intensificadas ações preventivas, de preparação, de resposta e recuperativas, visando prevenir ou minimizar as consequências típicas geradas pelas chuvas, haja vista que os eventos mais comuns desse período são: inundações, alagamentos, deslizamentos de terra, vítimas de raios, vítimas de choque elétrico zona rural, vítimas de vendavais, e prejuízos aos serviços essenciais (energia elétrica, água, saneamento, saúde e atendimento social).
Como funciona a Operação Inverno
As equipes municipais de Defesa Civil são preparadas para o desencadeamento de ações preventivas com o acompanhamento da previsão meteorológica, a medição dos volumes pluviométricos e as vistorias técnicas de campo em áreas de risco, desde Nova Califórnia/ Extrema até baixo Madeira, visando a remoção preventiva dos moradores das áreas em situação de risco iminente.
O objetivo é otimizar os recursos existentes e antecipar situações de risco, articulando a participação das Secretarias Estaduais e Municipais envolvidas, órgãos de atendimento emergencial (Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, Samu), equipes de Gerências da Defesa Civil do município, Brigadas e a própria comunidade.
Contatos em caso de emergência
Em caso de necessidade, os munícipes devem acionar a Defesa Civil pelos telefones 199 e (69) 98473-2112 ou os demais órgãos competentes como Polícia Militar (190), Samu (192) e Corpo de Bombeiros (193).
Licor mais antigo feito por Eunides completa 20 anos em 2025. Foto: Yara Ramalho/Rede Amazônica RR
Pinga, branquinha, cana ou caninha, aguardente, cachaça. Há duas décadas, no interior de Roraima, a bebida destilada exclusiva do Brasil é muito mais do que água para os cachaceiros. A “marvada” foi o que garantiu independência financeira a empreendedora Eunides Maria Alves, de 54 anos, por meio da produção artesanal que inclui sabores especiais e até licores afrodisíacos, que guardam segredos de produção.
Se cachaceiro é quem fabrica cachaça, então Eunides é cachaceira profissional, que inova para atender os consumidores que já estão espalhados pelo país e em 2025 planeja patentear os produtos.
Nas ruas da vila de Campos Novos, no município de Iracema, ao Sul de Roraima, a fama da empreendedora já é tão forte quanto o aroma adocicado de frutas tropicais misturado com álcool produzido na “Biróska Bakana”.
“Hoje é uma vitória ter essa cachaçaria, que é de uma mulher negra que tem 54 anos. Estourou, assim, de uma forma bem legal. É muito orgulho, muito trabalho também”, disse ela.
O primeiro contato com a produção das bebidas veio através de um curso gratuito do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), que ensinava moradores da região a reaproveitar a banana. Desse curso saiu a primeira bebida feita por Eunides: o licor de banana, que mantém guardado há 20 anos.
“Um trator trazia [as bananas] e passava para um caminhão e nesse processo sobrava um monte de banana ali solta do cacho, estragando. E aí a gente fez esse curso do Senac para aprender a usar, reaproveitar essas bananas. A gente fez esse curso e assim eu aprendi a fazer o [licor] de banana”, contou.
Hoje, ela também vende licores — o carro-chefe do empreendimento — de abacaxi, tamarindo, jabuticaba, açaí, coco, jenipapo, murici, cupuaçu, tangerina, caju, araçá-boi, manga, buriti, acerola e o de gengibre, conhecido como o viagra natural de Campos Novos e o mais popular entre os homens e as mulheres que são clientes da birosca.
No cardápio ainda há 14 sabores da “cachaça temperada”, uma bebida destilada com o aroma e o sabor de uma determinada fruta ou especiaria natural. Diferente da cachaça, o licor é uma bebida composta por água, álcool e açúcar, além de um ingrediente de origem vegetal, como as frutas.
Eunides comanda toda a produção e venda da birosca, que virou um ponto turístico de Iracema. O local já é visitado por pessoas que vão a região para conhecer e se aventurar nas cachoeiras Esmeralda, Davi e Evandro, localizadas na região entre Campos Novos e a vila Apiaú, no município de Mucajaí.
Birosca fica localizada na vila de Campos Novos, no município de Iracema, em Roraima. Foto: Yara Ramalho/Rede Amazônica RR
Produção artesanal
Eunides não produz a cachaça do zero, ou seja, não lida com o corte da cana-de-açúcar, preparação da garapa (caldo extraído da cana) e a fermentação. O produto já é comprado pronto nos supermercados da região e é misturado as frutas e especiarias — a maioria cultivada no quintal da casa dela.
O álcool é neutro, para não interferir no sabor final do produto. Frutas como jabuticaba, abacaxi, banana, manga, acerola e araçá-boi são colhidas das árvores cultivadas pela agricultora. As outras são compradas de vizinhos, agricultores familiares. A ideia dela é incentivar as produções locais.
“O meu objetivo é trazer a maioria desses produtores, principalmente as produtoras rurais, para esse patamar, porque eu não acho justo eu estar aparecendo aqui hoje e ter uma irmã lá que não aparece”, disse.
A produção das bebidas é cuidadosa: as frutas sempre são higienizadas. Após isso, os frutos são amassados, cortados e dependendo do caso, descascados.
Depois, em um recipiente, o álcool é misturado aos frutos. A infusão dura ao menos 30 dias, tempo considerado por Eunides como o mínimo para que a bebida atinja o seu sabor ideal. No entanto, quanto mais tempo, melhor.
Preparada, a mistura é filtrada para retirar os resíduos mais grossos das frutas. No caso da cachaça temperada, esse é o último passo do preparo. O produto é armazenado em galões, depois engarrafado, rotulado e vai para as prateleiras.
Já no caso do licor, o preparo é um pouco mais complexo. Com a infusão finalizada, a empreendedora inicia a produção do xarope, feito a base de água e açúcar, que diferencia a cachaça temperada do licor.
A reportagem foi até a birosca e acompanhou só uma parte da produção dele. Isso porque Eunides guarda um segredo de preparo e não revela para ninguém. Mas o fato é: o xarope leva muito tempo para ficar pronto.
Em uma panela, a água e o açúcar são misturados e cozinhados por cerca de 12h, e por isso o trabalho começa cedo. Pronto, com uma consistência de calda, ele é misturada à cachaça, que já passou pela infusão de frutas.
Após isso, o licor é filtrado, colocado em garrafões onde fica em descanso e, por fim, engarrafado. Com o rótulo que contém informações sobre a data de fabricação, local onde foi fabricado e contatos, ele é colocado nas prateleiras da birosca ou levados para os clientes que já encomendaram o produto.
Eunides diz que licor é como vinho: quanto mais velho, melhor é. Segundo ela, um longo tempo de envelhecimento deixa o sabor da bebida mais apurado. Nas prateleiras, o mais velho é o primeiro feito por ela, o licor de banana, que tem 20 anos. Esse ela não vende, mas oferece para algumas pessoas.
Licores já foram vendidos para vários estados do Brasil. Foto: Yara Ramalho/Rede Amazônica RR
Busca por estabilidade
Nascida em Cassilândia, cidade no interior do Mato Grosso do Sul, Eunides deixou a terra natal há 22 anos para tentar uma vida com mais estabilidade no interior de Roraima. Ao lado do marido à época e com um filho pequeno, ela viu a oportunidade ter o próprio pedacinho de terra na nova cidade, em 2002.
Ela seguiu direto para a vila de Campos Novos. Após conquistar a casa própria, a empreendedora abriu um pequeno comércio no quintal da residência, onde vendia itens de alimentação e bebidas. O trabalho com a cachaça e os licores só começou três anos depois da chegada dela ao estado, em 2005.
As primeiras bebidas eram vendidas no próprio comércio e, aos poucos, foram conquistando o paladar das pessoas. O estabelecimento foi fechado, Eunides se divorciou e decidiu investir na produção dos licores e da cachaça temperada.
Com a base do conhecimento de produção do licor, Eunides começou a testar a bebida com novos sabores como o de jenipapo, fruta usada na produção de doces e até para dar cor as coisas, até chegar a 16 variedades do produto.
Vendas
Os licores e cachaças tem preços fixos: a garrafa grande, com 1 litro, é vendida a R$ 45 e a pequena, que tem 275 ml, custa R$ 15. Os produtos, inclusive, já colecionam apreciadores em várias partes do Brasil e até fora do país. Eundes já tem clientes na cidade de Boston, em Massachusetts, nos Estados Unidos.
As bebidas já foram vendidas para o Rio Grande do Sul, São Paulo, Pará, Amazonas e o estado natal de Eunides, o Mato Grosso do Sul. Ela afirma que os produtos ficaram conhecidas por meio de divulgações feitas em uma página numa rede social, além do boca a boca e a parceria dos amigos.
“Eu estou me preparando para mandar para todos os lugares do Brasil em 2025 e quem sabe para fora do Brasil porque eu gosto de sonhar grande, eu não gosto de sonhar pequeno não. Eu só sou pequenininha, mas gosto de sonhar grande”, disse.
A produção ainda é pequena e, por isso, a empreendedora não contabilizava a quantidade de bebida vendida e produzida por mês. Mas com a fama do trabalho, que ganhou força na Exposição Feira Agropecuária de Roraima (Expoferr) em novembro do ano passado, ela pretende calcular.
Aos longo de 20 anos de trabalho, Eunides conquistou a liberdade financeira, mas também enfrentou o preconceito ao conduzir o próprio negócio. Mulher negra, ela já foi alvo de situações de descriminação, como o racismo. Em uma das situações, ela que é a dona do estabelecimento, não foi vista como tal por clientes, e chegou a ser inferiorizada por eles.
“Ao longo da vida a gente sofre muito bullying com a cor da pele, muita discriminação. Chegam pessoas aqui que olham para mim e dizem: ‘pode chamar o dono?’. Outra vez eu fui trocar uma grade de cerveja e disseram: ‘seu chefe vai brigar contigo’. Eles não perguntam, eles olham para você e se sua pele é negra, você é o faxineiro. Não estamos descriminando os faxineiros, mas isso não está certo. Eles olham e já imaginam quem eu sou, mas não a dona”.
Fátima Afonso, membro da Associação de Mulheres Empreendedoras e Emponderadas de Campos Novos. Foto: Yara Ramalho/Rede Amazônica RR
“Mas eu fico feliz de olhar para eles dizer assim: ‘eu sou a dona’. Essa é a minha maior motivação, olhar para o cliente e dizer que eu sou a negra, velha, mas sou a dona. E eu não respondo essas pessoas de uma forma má, porque geralmente elas viram meus clientes depois”, ressaltou Eunides Maria.
Mesmo com esses obstáculos, ela seguiu com o sonho de empreender e os casos de descriminação se transformaram em força para ajudar outras mulheres da região que também buscam a liberdade financeira.
Eunides coordena a Associação de Mulheres Empreendedoras e Emponderadas de Campos Novos, onde ensina de forma gratuita como fazer uma diversidade de produtos, como doces, crochê, pinturas, costuras e bordados, conhecimentos e técnicas que ela aprendeu ao longo da vida.
Uma das 23 integrantes da associação é a artesã Fátima Afonso Sagica, de 65 anos. Morando em Campos Novos há cerca de dois anos, ela encontrou no grupo e na amiga, a mudança de uma realidade marcada pela dificuldade.
Na infância, Fátima não teve acesso a educação e por isso não sabia ler e escrever. Ela e Eunides se conheceram durante um culto religioso, em uma igreja localizada na frente da birosca. Foi na igreja, acompanhando os versículos bíblicos e com o incentivo da empreendedora, que ela aprendeu a ler.
“Recrutada” para a associação, Dona Fátima aprendeu a fazer bordados, doces e bonecas de crochê com Eunides. Hoje é da renda dessas produções artesanais que ela sobrevive e realiza alguns sonhos, como melhorar as condições da casa onde vive e comprar um celular.
“As pessoas me olhavam como uma ninguém, mas ela não, ela me olhou como se eu tivesse algo que saísse de dentro de mim e fosse capaz de conseguir fazer as coisas, trabalhar para ganhar o meu dinheiro e não ficar mendigando as coisas. Ela olhou o que tinha dentro de mim, força, coragem”, contou.
“Hoje eu sou uma mulher empoderada. Eu vivo desse trabalho, do crochê que eu faço. Eu criei uma força em mim mesma. Eu sei que eu posso, eu vou fazer e vou fazer fazendo. O meu trabalho é tudo, ele preenche a minha vida”, afirmou Fátima.
Para Eunides, são essas histórias que a motivam a continuar empreendendo e ajudando mais mulheres, que buscam o empreendedorismo por necessidade, mas que também podem encontrar uma mudança de realidade e a liberdade.
Pesquisadores indígenas autores do artigo publicado na Science: Justino Rezende, Clarinda Sateré-Mawé, Francy Baniwa, Silvio Barreto e João Paulo Barreto. Foto: Justino Rezende/Acervo pessoal
Um grupo de 14 cientistas brasileiros, entre eles seis indígenas, encarou a missão de provar para uma das revistas científicas mais importantes do mundo, a Science, que o saber indígena produzido na região do Alto Rio Negro, no Amazonas, é uma ciência a ser reconhecida, respeitada e incorporada em estudos de todas as áreas do conhecimento.
Para isso, foram dois anos de encontros e debates sobre o conceito principal da ciência indígena: a ideia de que existe uma rede cosmopolítica dividida em três domínios. São eles:
Aéreo, onde estão o clima e as constelações;
Terrestre, onde os humanos estão inclusos junto com o solo e a floresta;
Aquático, que inclui os rios e cursos d’água.
Na visão dos indígenas, essa rede é protegida pelos ‘waimahsã’, palavra da língua Tukano que, em português, significa os ‘outros-humanos’. Os outros-humanos são como espíritos imateriais e habitam os três domínios, mas apenas os especialistas indígenas conseguem vê-los.
Foi isso que os pesquisadores explicaram no artigo ‘Indigenizando as Ciências da Conservação para uma Amazônia Sustentável‘, publicado em 13 de dezembro de 2024 na Science, uma das principais revistas acadêmicas do mundo, reconhecida por publicar avanços significativos na ciência e na tecnologia.
Um dos autores e também incentivador dos debates foi o antropólogo indígena Justino Rezende, do povo Utãpinopona-Tuyuka. Rezende é filósofo, teólogo e pós-doutorando em Antropologia Social na Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Foi o pesquisador quem convidou os outros colegas para colocar no papel a cosmovisão indígena como ciência.
Além de Rezende, os pesquisadores indígenas do povo Tukano João Paulo Lima Barreto, Silvio Sanches Barreto, além de Francy Baniwa e Clarinda Sateré-Mawé assinam o artigo. Também são autores os não indígenas Fábio Zuker, Ane Alencar, Miqueias Mugge, Rodrigo Simon de Moraes, Agustín Fuentes, Marina Hirota, Carlos Fausto e João Biehl.
Em conversa com a InfoAmazonia*, Rezende lembrou que durante a construção do artigo até pensou em desistir, mas a vontade de compartilhar sobre o conhecimento indígena o motivou a continuar.
“Se não formos nós a dialogar com os cientistas, quem fará isso? Queríamos também construir essa ponte”, relembrou.
Nesta entrevista, o pesquisador indígena explica como funciona a rede cosmopolítica, quais foram as dificuldades encontradas para defender a ciência indígena na Science e o que é necessário para que se tenha mais espaço.
Leia a entrevista completa a seguir.
Como foi organizar esse trabalho e qual era o objetivo de vocês?
Justino Rezende – Foram mais de dois anos. Entre 2023 e 2024, dedicamos mais tempo, mesmo sendo todos nós muito ocupados. O Paulinho [João Paulo Barreto], por exemplo, estava fazendo pós-doutorado em sua área de pesquisa. Eu também estava fazendo o meu, o que me fazia ausentar muito da cidade para ir ao campo.
Nossa parte era fornecer material para que pudéssemos trabalhar melhor depois, produzir e oferecer nosso modo de ver: o que nossos pais falavam e o que os especialistas diziam sobre determinados temas. Com o tempo, começaram a participar mais professores, também das áreas de Antropologia, Biologia e Ecologia.
Esses professores ocidentais tinham uma visão científica muito diferente da nossa, o que gerava divergências entre o nosso modo de pensar e o deles. Além disso, havia outra instância, a revista Science, que era como um controlador do nosso trabalho. Todos tínhamos medo de que seria muito difícil avançar, mas apostamos que, explicando, conversando e respondendo às perguntas e dúvidas deles, conseguiríamos progredir no diálogo.
Houve tensões, sim. Às vezes, parecia que não iríamos avançar, já que a ciência ocidental está estabelecida, enquanto sentíamos que nossos conhecimentos sempre ficariam em segundo ou terceiro plano. Muitas vezes, pensei que era perda de tempo e considerei abandonar o projeto, porque não queria continuar debatendo sem avanços.
As exigências acadêmicas, vamos dizer, para conseguirmos créditos e preenchermos nossos currículos, já estavam bem estabelecidas para nós. Na academia, alcançamos níveis como doutorado e pós-doutorado. Só que, dessa vez, tratava-se de um artigo mais científico, uma verdadeira missão. Se não formos nós a dialogar com os cientistas, quem fará isso? Queríamos também construir essa ponte. Essa era, de certa forma, nossa missão. Sentíamos essa obrigação, mesmo quando discordamos ou pensamos em desistir. Sempre retomamos o trabalho.
Uma das ideias centrais que vocês estão propondo é que a ciência ocidental pare de separar contextos sociais e naturais. Essa separação se deu como a colonização?
Justino Rezende – A filosofia grega, de onde se origina todo o pensamento ocidental, sempre separou a cultura da natureza. Isso persiste até hoje. Os humanos fazem parte da cultura, da sociedade, das etnias, dos povos. E a natureza é considerada como uma realidade que está aí, à disposição dos humanos, por assim dizer.
Essa separação foi algo que discutimos muito. Para nós, indígenas do Alto Rio Negro, aquilo que a sociedade ocidental ou a ciência ocidental considera como natureza não é apenas natureza. Eles são outras ‘gentes’ também. As árvores, as pedras, os peixes, as estrelas, são gente. No patamar aéreo, o sol e a lua também são gentes. Por isso, se observarmos atentamente, existe uma grande interligação, uma conexão entre os nomes dos povos, os nomes das pessoas, os ciclos das festas, os ciclos do nascimento, da menstruação feminina, da procriação.
Assim, entendemos que são outras ‘gentes’ que precisam ser ouvidas também. Como podemos ouvir esses seres, essas outras gentes, que hoje em dia são chamados de “não humanos” ou, em outros contextos, de “mais que humanos”? Para nós, essa já era uma discussão aqui em Manaus, no programa de pós-graduação [de Antropologia Social, da Universidade Federal do Amazonas]. Queríamos superar essa divisão entre humanos e não humanos. Nós dizíamos: ‘Não, nossos avós nos ensinaram que eles são humanos também. São nossos primos, cunhados, nós somos os netos deles. As cobras são nossas avós, os peixes também.’
Na linguagem xamânica, isso é mais compreensível: eles são nossos parentes. É aí que entra o conceito de parentesco universal, que muitos antropólogos já discutiram ou tentaram entender. Nós dizíamos que, se não enxergarmos e não entendermos que aquilo que é considerado natureza pela sociedade ocidental precisa ser visto de outra forma, essa visão não mudará, e a exploração continuará.
Sem limites, né? Destruição, exploração de minérios sem controle, derrubada de florestas. Na visão deles, é algo que está ali para ser explorado mesmo. Também dizíamos que não queremos impedir o uso, porque nossos avós também faziam uso equilibrado dessas florestas. Com suas pequenas roças, eles circulavam conforme o ciclo de vida, permitindo que a própria floresta e os próprios pássaros e animais que ali vivem pudessem se regenerar.
Os humanos, nós, pessoas, não conseguimos cuidar das florestas sozinhos. A floresta consegue se regenerar por si mesma. Os pássaros ajudam a cultivar, ajudam a semear. As próprias abelhas e outros seres também têm esse papel. Dizemos que nós, que chegamos aqui, nem sabemos de onde viemos. Certamente viemos depois. Já existiam as florestas, os rios, esses grandes rios. Eles já estavam aqui antes de nós.
Por isso, existiam cerimônias para pedir permissão para entrar, para seguir mais um trecho, e assim por diante. Isso já era compreendido. Nossos avós sabiam que esses lugares têm seus donos também, que precisam ser respeitados, com quem é necessário dialogar e pedir permissão para entrar.
Tudo isso falamos para tentar ampliar um conhecimento mais aproximado, menos divisório entre cultura e natureza. A cultura também é um outro lado. Por isso, eles também são seres que interagem conosco. Os especialistas, homens e mulheres, através de seus sonhos e cerimônias, conseguem conversar com eles, escutar o que estão dizendo e depois transmitir essas mensagens para sua comunidade, aldeia, filhos e netos.
Figura mostra a rede cosmopolítica, conceito base da ciência indígena defendida no artigo. Ilustração: Denilson Baniwa
Vocês pedem que a ciência ocidental seja capaz de levar em conta algo que os indígenas já praticam, que é o entendimento da existência de uma rede de interações, uma rede cosmopolítica. Você pode explicar o que é essa rede e de que forma ela funciona?
Justino Rezende – Então, outro elemento é essa corporalidade. O mundo é o corpo, nós somos parte desse corpo. Então, as árvores têm seu corpo, têm suas raízes, têm seu corpo esbelto, têm seus cabelos. Eu fiz a tese sobre a festa das frutas, escrevi dizendo que as frutas são as filhas, as folhas são os cabelos das mães, por isso precisa cuidar.
Então, essa visão, de como compreender que existe a sua forma de organização, é importante, porque eles também cuidam de nós, ou eles também têm medo de nós. Ficam chateados também quando a gente agride, por isso que tem uma expressão que eu uso bastante, tem até nesse artigo, que a floresta, os rios, têm sua tolerância até certo ponto. Depois que ultrapassa o limite eles se revoltam, podem causar grandes danos, grandes desastres, grande enchente de rios que vai inundando tudo. Então, aí a tolerância diminui muito, ou pode ter grandes, secas, como tivemos mais recentemente.
O artigo foi uma brecha também para que nós conseguíssemos avançar na perspectiva de que existem outras formas de compreender o mundo que podem se tornar muito necessárias para que a política governamental possa levar em conta.
Durante o documento, vocês afirmam que não estão defendendo a incorporação de crenças religiosas na prática científica. Por que há a necessidade dessa afirmação?
Justino Rezende – Porque, segundo a compreensão da ciência ocidental, a religião, a crença e a espiritualidade não fariam parte, não seriam consideradas parte integrante [da ciência]. Mas há muito o que discutir sobre isso. Existe uma questão que, se você ler novamente, perceberá: a materialidade e a imaterialidade fazem parte de um mesmo conjunto.
Quer dizer, os bens materiais e os bens imateriais. Na linguagem religiosa, seriam a matéria e o espírito. Isso também existe na nossa compreensão. A árvore não é somente uma árvore; ela tem uma história que não enxergamos. Os rios, as águas, os peixes, também têm suas histórias, seus antepassados.
Essa nossa compreensão se torna visível na forma de danças, que representam ritmos; na bebida, que expressa sabores; nos gostos; e até no suor do corpo. Eu dizia que isso também é ciência. Poderíamos até dizer que, de forma muito leve, a espiritualidade também é ciência para nós. Ela não pode estar fora, porque, se não estiver integrada, sentimos que falta algo, como se uma parte do nosso ser fosse retirada.
Eles entenderam, no final, que esse ponto era crucial. Foi um dos principais temas discutidos nas revistas Science: a espiritualidade. A questão de como ela, assim como a religião, deve estar presente. Nós dizíamos: ‘Isso também é parte da ciência, porque dá sustentabilidade aos povos originários.’ Por isso existem as cerimônias, as músicas, os ritmos, as narrativas de histórias.
Esses elementos são ‘Ukunse, Masese’ — não dá para traduzir para o português. Quando falamos em espiritualidade, é algo mais amplo. Eu dizia a João Paulo Barreto, que é bastante crítico nessa área: ‘É importante que nós, indígenas, sejamos os primeiros a discernir como isso deve ser tratado. Não adianta apenas dizer que não pode estar presente.’
Então, como deve estar? É isso que precisa ser definido. Não dá simplesmente para tirar. Eu fazia esse apelo. Como sou mais velho e às vezes pratico o xamanismo, eu dizia: ‘Vou falar porque faço práticas xamânicas. Eu sei como isso funciona. Se você não praticar, não vai entender. Só critica, mas não propõe como isso pode ser.’
É como eu dizia: ciência. Ela tem sua forma de curar, como a vacina, por exemplo. Para nós, é proteção. Pode ser com cigarrão, defumação, brilho ou outros materiais. Já para a ciência ocidental, é com agulha, com vacina. Mas é um tema que ainda vai render. E é bom que renda. Esse é o ponto. Eles têm essa visão de querer separar a parte espiritual. Para a ciência, religião, crença, práticas curativas e proteção são todos termos religiosos, segundo a visão deles.
Mas, como você está dizendo, usamos isso como uma equivalência linguística. Não é exatamente isso. Se mantivéssemos a originalidade da língua Ttukano, que é falada pela maioria do grupo [dos autores indígenas], seriam usados outros termos. Já pensamos em manter essas palavras no original, para que quem quisesse aprender o significado pudesse ler uma nota explicativa. Mas o artigo ficaria muito extenso.
Havia limitações de tempo, tamanho do artigo, quantidade de notas. Nas nossas teses, conseguimos trabalhar melhor. Meu orientador dizia: ‘Use a original Tuyuka, explique na nota de rodapé, nem que ocupe meia página, mas explique.’ Ele era incentivador nesse sentido.
Acredito que tivemos avanços nessa discussão. Uma revista tão importante acolheu essa visão diferente, mais holística. Essa visão não é apenas tecnicista. Nossa visão é outra. Ela também é científica. Ela também garante a sustentabilidade do mundo e de muitos povos.
Uma revista tão importante acolheu essa visão diferente, mais holística. Essa visão não é apenas tecnicista. Nossa visão é outra. Ela também é científica.
No artigo vocês usam como exemplo os conhecimentos e conceitos vividos por indígenas aqui do Alto Rio Negro, no Amazonas. Esses são conceitos concebidos por culturas indígenas de outras regiões da Amazônia?
Justino Rezende – Esse é um desafio, mas, de forma geral, essa compreensão de que os outros seres interagem conosco é bastante ampla. Conheço bastante aqui na América Latina, participei de vários eventos dentro da compreensão das espiritualidades indígenas. Fiz também dois intercâmbios na Finlândia, onde estivemos ouvindo o povo Sámi.
Eles têm a mesma compreensão. Se você observar bem, a maioria dos povos indígenas, em suas festas, usa muitas plumas, né? Plumas que simbolizam essa conexão, mostrando que esses seres estão ali dançando com as pessoas. Mesmo os colares de pedra, de quartzo, de frutas, sementes, chocalhos, bastões de dança e flautas carregam essa simbologia.
Tenho refletido também sobre isso: que o nosso corpo e o corpo deles se interligam, se encontram em vários momentos. Como, por exemplo, na compreensão do trabalho da mulher na roça.
O corpo da mulher sente a necessidade de ir à sua roça. Mesmo que ela não vá trabalhar intensamente todos os dias, sente a necessidade de estar lá, porque é como se fosse a filha dela. E a roça, por sua vez, é como uma mãe para os seus filhos e filhas. Assim como os peixes, os rios, as águas da manhã, as águas do final do dia, tudo isso carrega uma simbologia.
Por isso, os rituais de purificação e limpeza do corpo são tão importantes. Tomar banho cedo faz bem para o corpo físico, e as plantas medicinais, usadas conforme o conhecimento de cada povo, contribuem para o bem-estar. Os povos da América Latina estão muito interligados às florestas e, nas regiões onde há montanhas e serras, chegam até a levar frutos como forma de devolver essa reciprocidade.
Quer dizer, a floresta, numa visão puramente material, não vai comer a banana que produzimos ou o milho. Mas os povos latino-americanos acreditam que, como produzimos muito milho, é hora de oferecê-lo à montanha, para que ela se alimente também desses milhos que ajudou a cuidar.
Acho que tudo isso é algo bastante comum entre os povos indígenas. Mas acredito que não se limita apenas a eles. Os povos interioranos, os ribeirinhos, os afrodescendentes, os seringueiros e outros que têm essa visão de conexão e também compartilham desse entendimento.
Vocês dizem que existe uma visão antropocêntrica e utilitarista da natureza nas sociedades de todo o mundo. Como isso está sendo reproduzido nas ciências e quais são os danos disso?
Justino Rezende – Eu penso que a própria ciência ocidental, como a biologia e a ecologia, ao fazer seus levantamentos de qualidade e quantidade, acaba chamando muita atenção para a questão das riquezas minerais, por exemplo.
Hoje em dia, não é mais necessário sair por aí caçando minérios. Já existem satélites que identificam ou mostram onde estão esses minérios, onde há grandes concentrações de florestas. Quando se localizam os recursos, como pedras e árvores — castanheiras, por exemplo, ou a diversidade de plantas —, tudo é registrado no GPS. Qualquer pessoa pode localizar. Ou seja, não existe mais segredo. O curioso busca, vê onde há o que procura e, a partir disso, cria-se uma missão.
Por isso, digo que o avanço da ciência tem uma dupla face. Ao mesmo tempo que pode ajudar a proteger, preservar e promover o uso equilibrado dos recursos, também pode despertar uma grande vontade de explorar e extrair.
Assim, penso que, ao conversarmos sobre isso, corremos o risco de sermos vistos como aqueles que entregam os conhecimentos indígenas. E aí entra outra questão: a ética indígena. Será que podemos falar tudo? Ou falamos apenas o necessário para que o mundo conheça, mas sem revelar tudo o que é nosso? Essa é uma outra discussão.
Porém, o que prejudica é justamente isso. Hoje, a ciência, com sua profundidade, tem se mostrado uma ferramenta para defender as diversidades de plantas e animais. Já foi constatado que em muitos lugares não existem mais como eram antes.
Ainda assim, muitos que querem usar a Amazônia como lugar de exploração argumentam que os cientistas são contra o progresso, que os pesquisadores são contra o progresso, que os indígenas são contra o progresso. Eles nos enquadram como se fôssemos contrários a qualquer avanço. Por isso, é importante que nós, como indígenas, expressemos nossas perspectivas. Muitos já falam sobre isso, mas não publicam em revistas científicas.
Ainda assim, muitos que querem usar a Amazônia como lugar de exploração argumentam que os cientistas são contra o progresso, que os pesquisadores são contra o progresso, que os indígenas são contra o progresso. Eles nos enquadram como se fôssemos contrários a qualquer avanço. Por isso, é importante que nós, como indígenas, expressemos nossas perspectivas.
No entanto, no dia a dia, os movimentos indígenas, as associações indígenas e os movimentos de mulheres que trabalham com artesanato, comida, alimentação e medicina mostram que existem outras perspectivas de uso equilibrado do meio ambiente.
As universidades brasileiras têm um papel crucial para estimular os alunos que estão se formando a ouvir e aprender com a ciência indígena. Esse papel está sendo cumprido?
Justino Rezende – Os indígenas, nos últimos 20 anos ou um pouco mais, vêm chegando às universidades. Eu mesmo trabalhei nas licenciaturas indígenas pela UFAM [Universidade Federal do Amazonas], em São Gabriel [da Cachoeira], Santa Isabel [do Rio Negro] e Maués. Lá, trabalhávamos muito essas questões. Cada estudante desenvolve temas relacionados, e por isso sei bastante sobre isso, porque também fui orientador de TCC [Trabalho de Conclusão de Curso] desses estudantes.
Acredito que o incentivo ainda é pouco, os recursos financeiros são limitados, mas eles têm muita vontade de se organizar, pois é algo que vivem em cada região e querem visibilizar. Essa questão da visibilidade ainda precisa ser mais trabalhada. Muitas vezes, o trabalho fica apenas no final do curso. Esses materiais poderiam se transformar em livros didáticos ou de leitura, para popularizar mais esse conhecimento dentro do estado do Amazonas e em outros estados também.
Outros estudantes indígenas pelo Brasil também estão se organizando e sistematizando seus conhecimentos. Cada região tem suas peculiaridades. O Nordeste tem um perfil de indígenas, o Sul e o Sudeste têm outro, e aqui no Norte, onde há a maior concentração de povos indígenas, o perfil é diferente.
Na antropologia, que é uma área que conheço bem, temos trabalhado muito sobre nossos temas. A academia, no entanto, costuma dizer que um antropólogo deveria estudar outra cultura. Eles criticam, dizendo: ‘Vocês ficam estudando a cultura de vocês mesmos.’
Mas, por outro lado, temos dito que foi justamente através da academia, da universidade, que sentimos curiosidade de estudar mais profundamente nossa própria cultura. É uma vontade de aprofundar, porque vemos que outras pessoas também estão estudando suas culturas.
Além disso, outras jovens, especialmente mulheres, têm chegado à universidade. Tenho incentivado que trabalhem mais temas femininos. Em geral, há um foco maior nos temas masculinos — tradições, danças —, mas as mulheres têm muito a organizar e a trazer, como os temas relacionados ao mundo feminino e à visão da mulher sobre esses aspectos.
A mulher participa dessa visão, mas ela tem uma perspectiva própria. Quem deve conversar melhor sobre isso é a própria mulher. O [antropólogo] Silvio Bará, por exemplo, fez um trabalho com a mãe dele. Ele dizia que ela comentava: ‘Meu filho, o que você quer trabalhar são temas de mulher. Não dá para eu contar para você.’ Mesmo assim, ele conseguiu fazer um trabalho bonito com a mãe, que foi sua principal interlocutora.
Hoje em dia, há muitos estudantes indígenas. É claro que existem pessoas que os incentivam e motivam, mas seria necessário investir melhor nas pesquisas científicas, com recursos financeiros adequados, incluindo estadia e viagens. Na Amazônia, por exemplo, para fazer pesquisa de campo na própria comunidade, são necessários muitos recursos. Uma bolsa de R$ 2.000 ou R$ 1.500 não é suficiente. Metade disso já vai para a passagem. Como você vai se alimentar.
Na Amazônia, por exemplo, para fazer pesquisa de campo na própria comunidade, são necessários muitos recursos. Uma bolsa de R$ 2.000 ou R$ 1.500 não é suficiente. Metade disso já vai para a passagem. Como você vai se alimentar?
No nosso grupo de pesquisa, que publicou recentemente, insistimos que não apenas nós, pesquisadores, deveríamos receber a bolsa, mas também nossos pais e parentes que estão na base. Eles também precisam de incentivo. Não basta dizer “Amazônia em pé”. Nossos sábios também precisam se manter em pé, vivos, para nos ensinar. São eles que nos mostram o que é importante saber.
O que é necessário para que a ciência indígena seja usada junto com a ciência ocidental?
Justino Rezende – Então, esse foi um dos pontos que a gente discutiu muito. Isso se discute também aqui na Universidade Federal do Amazonas, que os nossos conhecimentos locais são bem específicos, muitas vezes bem étnicos, de cada povo. Cada um está promovendo, no máximo, conhecimentos regionais. Seria importante que esses conhecimentos também ocupassem outros espaços, para que as sociedades ocidentais conhecessem outros saberes.
Então, é uma questão de ocupação de espaços. Nas outras universidades, eu sei que muitos acadêmicos, por exigência própria, já fazem isso: participam de seminários, apresentam seus trabalhos. Eles estão agindo, mas é preciso uma política maior, uma estratégia mais ampla.
Eu digo para os meus colegas: Vocês precisam abrir espaços para nós e para outros, para que possamos falar nas outras universidades, nos outros espaços científicos, e mostrar como realmente pensamos e como falamos nos nossos artigos.
Eu digo para os meus colegas: Vocês precisam abrir espaços para nós e para outros, para que possamos falar nas outras universidades, nos outros espaços científicos, e mostrar como realmente pensamos e como falamos nos nossos artigos.
Por isso, é necessário trazer os mais sábios, os mais especializados de cada povo. Não precisa ser apenas do Rio Negro. É importante dar espaço para que eles falem, incentivando também a educação das crianças desde as bases. Por isso, seria necessário ter uma educação indígena mais adequada, onde os pais possam transmitir seus conhecimentos, e onde a escola promova essa forma de cuidado com a floresta.
Já houve experiências muito boas e inovadoras. A Escola Tuyuka e a Escola Pamali dos Baniwa fizeram isso há algum tempo, incentivadas pela FOIRN [Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro] e pelo Instituto Socioambiental. Foi uma década muito promissora. Eles realizaram pesquisas astrológicas, sobre o funcionamento dos ciclos, e organizaram tudo muito bem. Eu uso bastante esses conhecimentos.
Portanto, é preciso investir. Investir nas pessoas que possam levar isso adiante. Eu dizia que é necessário mundializar os [nossos] conhecimentos, porque, se o mundo não conhece os nossos saberes, vão pensar que apenas os conhecimentos ocidentais são válidos.
Existem outros conhecimentos tão importantes quanto. Eu acredito que esses intercâmbios universitários são fundamentais. Eu estou participando do projeto Entrelaçando Conhecimentos Indígenas nas Universidades (EDIS). Isso é importante, mas o que acontece em muitos casos é que esses projetos têm o nome, mas não trazem indígenas.
A FOIRN está fazendo um esforço para levar indígenas a esses espaços, onde eles mesmos possam falar dos seus conhecimentos. Contudo, em outros países, ainda não estão avançando. São, muitas vezes, pesquisadores não indígenas que falam em nome dos povos indígenas, e, às vezes, falam de forma muito inadequada, cheia de preconceitos.
Por isso, é essencial mundializar os [nossos] conhecimentos, mas de forma que os próprios indígenas possam falar de si mesmos, dos seus saberes, das suas histórias e da sua forma de entender a ecologia, dependendo de cada espaço.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela InfoAmazonia, escrito por Jullie Pereira
Foto: Divulgação/Cáritas Arquidiocesana de Brasília
Indígenas do povo Warao, etnia venezuelana mais numerosa que vive no Brasil, agora contam com a publicação intitulada ‘Metodologia para Construção de Planos de Vida com Comunidades Indígenas Warao no Brasil’. Desenvolvida em diálogo com os Warao, a publicação é uma iniciativa lançada em parceria entre o Ministério dos Povos Indígenas (MPI), a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e a Organização Internacional para as Migrações (OIM Brasil), com apoio financeiro do Escritório para Populações, Refugiados e Migrações do Departamento de Estado dos Estados Unidos da América (PRM).
A ideia é que a publicação sirva de referência na elaboração de futuras atividades de consulta prévia, livre e informada, conforme disposto na Convenção nº169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O material é fruto de oficinas ocorridas em Belo Horizonte (MG) e Manaus (AM), em novembro de 2023, voltadas à construção de planos de vida a partir dos elementos cosmológicos da cultura Warao e de suas perspectivas de futuro.
Colaboraram para a realização dos diálogos comunitários a Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Defensoria Pública da União de Minas Gerais (DPU/MG) e a Diretoria de Ensino do Instituto Federal do Amazonas (Ifam).
Na publicação é detalhada a abordagem intercultural utilizada, a fim de trazer elementos informativos sobre direitos e a estrutura da política pública brasileira. E, com isso, proporcionar reflexões sobre as necessidades prioritárias, bem como os desejos das comunidades a longo prazo. A metodologia apresentada busca promover a garantia do protagonismo dos povos indígenas nos processos que impactam suas vidas.