No controle da dengue, o segredo pode estar no olhar. É o que orienta Denise Valle, bióloga e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
“Precisamos aprender a enxergar o ambiente como a fêmea de Aedes aegypti enxerga. Para ela, qualquer local que acumule água parada — por menor que seja — é uma oportunidade de colocar seus ovos e garantir a continuidade da espécie”, diz.
De acordo com a pesquisadora, locais que parecem inofensivos, como um prato de vaso de planta, uma caixa d’água com tampa mal encaixada ou ralos pouco utilizados, podem ser berçários ideais para o mosquito.
“A fêmea não busca locais óbvios ou burocráticos. Ela procura ambientes protegidos, escuros e úmidos, onde seus ovos possam se desenvolver com segurança”, explica Denise. Por isso, inspecionar esses espaços, semanalmente, é fundamental para evitar que os ovos se transformem em mosquitos adultos.
Denise destaca que muitos criadouros não convencionais passam despercebidos no dia a dia, como vasos sanitários de banheiros pouco utilizados ou rachaduras em lajes e quintais, que acumulam água da chuva.
“Até mesmo o fundo do poço do elevador pode se tornar um criadouro se a drenagem não for adequada e a portaria for lavada com frequência. Ninguém presta atenção nesse tipo de local, mas ele oferece exatamente o ambiente que o mosquito precisa: protegido, escuro e com água parada”, ressalta a bióloga.
Nem sempre é descuido
A pesquisadora destaca que, em muitas situações, os criadouros não são resultado de negligência, mas de dificuldades socioeconômicas.
“Nem todo mundo consegue manter lajes e quintais nivelados ou evitar rachaduras, porque isso exige recursos que muitas famílias não têm. O mesmo vale para quem guarda recicláveis em casa para vender. Nesse contexto, o controle semanal do mosquito precisa ser uma responsabilidade compartilhada entre a população, o poder público e as autoridades de saúde”, afirma Denise.
Treinar o olhar é essencial
Segundo a pesquisadora, o principal passo no controle da dengue é mudar a forma como enxergamos o ambiente ao nosso redor.
“O que para nós pode ser apenas uma tampa de caixa d’água mal ajustada ou uma pequena depressão no piso, para o mosquito é o local perfeito para se multiplicar. Treinar o olhar para identificar esses criadouros não convencionais é fundamental. A rotina de inspeção semanal é simples, mas extremamente eficaz para reduzir o risco de transmissão”, orienta Denise.
A especialista ressalta ainda que, embora a população desempenhe um papel fundamental, o sucesso no controle da dengue depende de esforços conjuntos.
“Precisamos de campanhas de conscientização e apoio efetivo do poder público. O olhar atento e a ação rápida são nossas melhores aliadas contra a dengue”, conclui a pesquisadora.
Se você está em busca de uma experiência autêntica na Amazônia, os “hotéis de selva” na região amazônica oferecem uma oportunidade única de conexão com a natureza. Situados em meio à maior floresta tropical do mundo, esses estabelecimentos combinam conforto e aventura, permitindo que visitantes explorem a biodiversidade e a cultura local de maneira sustentável. A seguir, conheça algumas opções:
Manati Lodge(Amazonas)
Já pensou em entrar em contato com a natureza sem perder o conforto? Em Manacapuru, no Amazonas, o Manati Lodge leva os hóspedes para uma experiência ribeirinha. O hotel está situado em uma área que sofre anualmente o regime das cheias dos rios e sua área fica totalmente alagada durante alguns meses do ano, por isso as casas precisam ser construídas sobre palafitas. Com o Manati Lodge não foi diferente, exemplo disso, são os chalés que foram construídos à seis metros de altura.
Endereço: Lago do Acajatuba, S/N – Manacapuru Telefone: (92) 99525-6792 Email: reservas@manatilodge.com
Foto: Divulgação/Manati Lodge
Cristalino Lodge(Mato Grosso)
O Cristalino Lodge está comprometido em ajudar os visitantes a terem uma experiência rica, autêntica e singular na Amazônia. Localizado nas proximidades do rio Cristalino, dentro de uma enorme reserva florestal com 11.399 hectares, o hotel foi cuidadosamente desenhado para se integrar, harmoniosamente, com o entorno para que os visitantes possam vivenciar a floresta como em nenhum outro lugar do planeta.
O principal ponto de acesso ao Cristalino Lodge é o aeroporto de Alta Floresta, no Mato Grosso, com voos diários das principais capitais do Brasil. A partir daí, um breve traslado de 90 minutos leva você até o Cristalino Lodge.
O Pakaas Palafitas Lodge é um hotel de selva localizado em Guajará Mirim, Rondônia, bem na fronteira com a Bolívia e em frente ao encontro dos Rios Mamoré e Pacaás Novos, cercado pela floresta.
Suas 28 cabanas estão a 4 metros de altura do solo e são interligadas por passarelas elevadas, proporcionando interação com a natureza local. Externamente as cabanas parecem rústicas casas de ribeirinhos, mas internamente têm 36 metros quadrados e mais até 30 m2 de varandas, além de todo conforto de um hotel de luxo com decoração regional.
As passarelas mantêm o hóspede ao nível da copa das árvores e ligam também as cabanas ao Complexo Central, onde há um restaurante panorâmico para até 300 pessoas, além de uma piscina suspensa que se projeta sobre o encontro das águas dos rios. Há ainda ‘ecobar’, recepção, salas de TV e de jogos. Na área da recepção e piscina há internet Wi-Fi.
Endereço: Ramal Olho D’Água, acesso no km 12 (a partir da rotatória da av. 15 de Novembro com av. Duque de Caxias) – Guajará-Mirim Telefone: (69) 99209-7179
Foto: Divulgação/Pakaas Palafitas Lodge
Pousada Itapará(Roraima)
Curte pescar? A Pousada Itapará é o lugar ideal. Com mais de 100 lagos para explorar, o hóspede pode praticar a pesca esportiva e contemplar a beleza da natureza amazônica. A pousada conta com a própria pista de pouso (SWEO 1330) para aviões de porte médio.
Os quartos foram projetados para garantir conforto e acessibilidade a pessoas com deficiência, com espaços amplos e recursos adaptados, como rampas de acesso.
Endereço: A Pousada Itapará opera exclusivamente no Rio Itapará no sul de Roraima Telefone: (48) 99982-4057 Email: contato@itapara.com.br
Foto: Divulgação/Pousada Itapará
Ecoraguaia Jungle(Tocantins)
O Ecoaraguaia está localizado em um ecótono, ou seja, uma região entre dois ou mais biomas fronteiriços (Cerrado, Pantanal e Amazônia). Essas áreas são ricas em espécies, sejam elas provenientes dos biomas que o formam ou espécie únicas (endêmicas) surgidas nela mesma.
O Ecoraguaia fica às margens do Rio do Coco, no coração do Tocantins, e é vizinho ao Parque Estadual do Cantão. Os hóspedes contam com uma programação que contempla desde de belezas naturais até a gastronomia local.
Endereço: Rodovia To, 80 – Km 239, Caseara – TO Telefone: (11) 99187-6028
Foto: Divulgação/Ecoraguaia Jungle
E aí? Que outros locais poderiam estar nesta lista?
Realizada em parceria entre o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (ICMBio/Cecav) e a Sincrocine Produções Cinematográficas, a HQ conta a história dessa turma, com participação especial do personagem Mauro, o Morcego, descobrindo as curiosidades sobre as cavernas e os ambientes cársticos do Brasil.
O projeto é inspirado na série de TV ‘Tainá e os Guardiões da Amazônia’, uma produção audiovisual adaptada da trilogia de sucesso do cinema brasileiro, que tem como protagonista a indígena Tainá, que, junto de seus amigos, protege a Floresta Amazônica.
O objetivo desse trabalho é promover a educação ambiental para as crianças, estimulando a conscientização e sensibilização sobre os problemas ambientais, buscando o aumento do interesse em relação ao cuidado com o meio ambiente.
Educação Ambiental: pilar essencial diante das mudanças climáticas aceleradas
Segundo estudos globais da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), embora 95% dos professores de ensino fundamental e médio entrevistados acreditam que o ensino da mudança climática é importante, menos de 30% têm recursos suficientes para ensiná-lo.
Além disso, 70% dos jovens afirmaram ter dificuldades para explicar o que é mudança climática. Diante desse cenário, iniciativas que buscam promover o conhecimento, a conservação e a disseminação de informações tornam-se importantes ferramentas para o desenvolvimento de jovens e crianças e para a construção de um futuro mais consciente, preparado para lidar com uma nova realidade ambiental e para fazer uso caminhar rumo a uma utilização de recursos naturais de forma mais sustentável.
Segunda edição terá como cenário o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu
Potencial turístico, histórico e arqueológico, laboratório natural de diversas pesquisas científicas, que trazem respostas e que alertam sobre a necessidade de novos rumos. O Vale do Peruaçu, localizado no norte de Minas Gerais, enfrenta um longo período de seca, que já dura mais de 40 anos. Segundo pesquisadores, a região é uma das que mais aquecem em todo o planeta, com alta na temperatura média de 2.5ºC, que está acima da média global, de 1.5ºC.
Na segunda edição da história em quadrinhos, Tainá e os guardiões da Floresta Amazônia embarcarão rumo à região, mais precisamente ao Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, candidato à Lista do Patrimônio Mundial Natural pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). A nova aventura pretende mostrar as belezas e a relevância dessa unidade de conservação federal tão importante e rica em biodiversidade.
A estudante amapaense Ana Clara Rodrigues, de 16 anos, será uma das representantes brasileiras na International Science and Engineering Fair (Isef), a maior feira estudantil do mundo, que acontece em maio, nos Estados Unidos. O projeto que será apresentado por ela já obteve mais de 15 premiações em oito feiras de todo o país.
O projeto ‘K+: análise da farinha do processamento da carcaça do caranguejo-uçá, como uso orgânico para fertilizantes na sojicultura’ foi desenvolvido visando o seu uso sustentável por produtores e moradores de zonas rurais e áreas isoladas que fazem uso do crustáceo para venda ou alimentação.
A ideia surgiu a partir de um programa estudantil da Escola Estadual Irmã Santina Rioli, onde Ana Clara estudou até 2023. Atualmente aluna da Escola Estadual Alexandre Vaz Tavares, a estudante prosseguiu sua pesquisa, tendo seu projeto reconhecido pela originalidade e importância científica e social.
Foto: Israel Cardoso/GEA
“Percebemos que o caranguejo é muito consumido, mas que sua carcaça não era tão utilizada, mesmo sendo rica em nutrientes. Então, resolvemos aplicar no projeto. Hoje é tudo muito gratificante porque estudar em uma escola pública e conseguir o primeiro lugar em várias feiras não acontece sempre. Gostaria que outros alunos tivessem o mesmo sonho e também buscassem isso”, afirma a estudante.
Para o orientador do projeto, professor Aldeni Melo, o alcance da pesquisa mostra o potencial científico dos alunos e das escolas da educação pública amapaense. Junto com a Secretaria de Estado da Educação (Seed), há uma proposta para levar o programa para outras escolas, ampliando a chance de descobrir novos talentos.
“Desenvolvo esse trabalho com os alunos desde 2012, antes sem acreditar muito, mas seguindo pela curiosidade. Ao todo, já conquistamos mais de 500 prêmios e 81 alunos já conseguiram bolsas científicas através dele. Então, é um reflexo do trabalho que está dando certo e a rede está abraçando essa proposta”, afirma Aldeni.
Extrativista conversa com professor Raimundo Maciel, da Ufac, diante de árvore de seringueira, em visita de pesquisadores à Resex Chico Mendes em setembro de 2024. Foto: Reprodução/GT Socioeconomia
Um consumidor paga, no varejo em São Paulo, algo em torno de R$ 100 pelo quilo da castanha-do-brasil (chamada também de castanha-do-pará). O valor pode levar a pensar que coletar castanha seja um ótimo negócio. Acontece que, no Acre, um dos estados amazônicos de onde a planta é nativa, o quilo da castanha in natura é vendido pelos extrativistas por volta de R$ 4,50, quase 22 vezes menos do que chega para o consumidor no Sudeste.
O preço é um contraste com outro produto amazônico que, pelo menos na Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, alcançou um valor sustentável tanto do ponto de vista social e ambiental quanto econômico, como aponta um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Acre (Ufac), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDAF).
“O valor pago pelo quilo da borracha nativa na Resex, de R$ 24, é quase oito vezes superior ao preço de mercado, graças a um convênio com uma empresa que compra toda a produção e paga pelo serviço socioambiental que os extrativistas prestam, mantendo a floresta de pé”, conta Lucas Ferreira Lima, pesquisador colaborador no Instituto de Economia (IE) da Unicamp e um dos coautores do estudo.
“Em compensação, a lata de 11 kg da castanha é vendida a um valor 2,8 vezes aquém do que seria ideal, levando em conta os mesmos critérios econômicos e socioambientais considerados no cálculo do preço da borracha”, completa.
O trabalho integra projeto apoiado pela FAPESP no âmbito da iniciativa Amazônia+10 e que conta também com apoio da Fapespa (Pará) e Fapac (Acre) (leia mais em: agencia.fapesp.br/41824).
“O valor praticado pela castanha é inviável para o que chamamos de reprodução social dessas populações, que é se manter naquela área com dignidade, conservando a floresta e evitando o êxodo para as áreas urbanas”, esclarece Ademar Romeiro, professor do IE-Unicamp e coordenador do projeto.
Produtividade e renda
Em um estudo anterior, os pesquisadores avaliaram a sustentabilidade ambiental e socioeconômica da Resex Chico Mendes.
Seguindo a chamada Análise de Decisão Multicritério (MCDA, na sigla em inglês), que envolveu entrevistas e conferências, os pesquisadores chegaram ao Índice Multicritério de Sustentabilidade (IMS). A análise classifica a Resex como sustentável, ainda que em diferentes graus, nas cinco dimensões avaliadas: governança, agronômico, ambiental, econômico e social.
Os indicadores sociais e econômicos foram os que apresentaram os maiores pontos de atenção, pois estão próximos a uma escala considerada moderadamente sustentável. Por isso, os pesquisadores buscam alternativas para as famílias, como a valoração socioambiental da castanha e da borracha e o uso de Sistemas Agroflorestais (SAFs).
Neste segundo, podem ser produzidas frutas, legumes e hortaliças juntamente com espécies florestais, como o mogno e a castanha, mantendo a floresta de pé. A atividade tem-se mostrado mais rentável do que a criação extensiva de gado. Os pesquisadores agora vão avaliar a sustentabilidade dessa prática e se ela pode ser uma alternativa ao gado de corte na região.
“A produtividade e a renda obtidas com a criação de gado são pequenas na Resex. Basicamente, vendem-se novilhos para serem engordados no estado vizinho de Rondônia. O gado é tido como uma reserva de valor, uma poupança, algo que se pode vender rápido para levantar dinheiro para alguma emergência”, contextualiza Lima.
A Resex Chico Mendes foi criada em março de 1990, pouco mais de um ano após o assassinato do líder seringalista. A unidade de conservação federal de uso sustentável tem uma área de pouco mais de 970 mil hectares, distribuídos entre Xapuri e outros seis municípios do Acre. Atualmente, vivem na Resex cerca de 2 mil famílias.
A criação da Resex garante tanto a posse da terra pelas populações tradicionais quanto a conservação dos recursos e serviços ecossistêmicos, por meio do fortalecimento das atividades extrativistas tradicionais e a geração de renda adequada.
Nos últimos 28 anos, as famílias são acompanhadas por um projeto de pesquisa, atualmente capitaneado pelo Centro de Ciências Jurídicas e Sociais Aplicadas (CCJSA) da Ufac. O projeto ASPF (Análise Socioeconômica de Produção Familiar Rural do Estado do Acre) é coordenado por Raimundo Cláudio Gomes Maciel, professor na instituição e primeiro autor do estudo.escala
Desde 2006 em escala experimental, e desde 2018 em larga , toda a produção de borracha nativa da Resex é vendida para a empresa Veja, que faz o solado de seus tênis com o produto comprado dos extrativistas. No Brasil, a companhia francesa chegou em 2014 com a marca Vert, mas em 2024 passou a usar o mesmo nome utilizado nos mais de cem países em que atua.
Mais do que o preço de mercado, de aproximadamente R$ 3 por quilo, os seringueiros recebem subsídios municipais, um estadual e outro federal, além de R$ 10,50 da empresa como Pagamento por Serviços Socioambientais (PSSA). O cálculo foi feito pela primeira vez pelo grupo da Ufac em 2019 e atualizado em 2023.
“Não adianta querer manter as pessoas no território e a floresta de pé sem incentivos. O preço de mercado não garante, sozinho, a vida digna das pessoas. O pagamento por serviços socioambientais é algo que tem se mostrado interessante, mas é preciso uma política pública consistente para garantir a conservação da natureza e a dignidade das pessoas”, encerra Romeiro.
Durante o verão, os casos de dengue aumentam consideravelmente. Isso acontece devido à alta incidência de chuvas em grande parte do país, já que o acúmulo de água faz com que a proliferação do mosquito Aedes aegypti se intensifique. Somado ao calor intenso, o ambiente fica ainda mais propício para que os ovos colocados pelas fêmeas eclodam e deem origem a milhares de novos mosquitos.
O secretário adjunto da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA), Rivaldo Cunha, explica porque acontece uma escalada de casos neste período:
“Durante o verão, nós temos dois fenômenos que estão diretamente associados com a biologia do Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue: as elevadas temperaturas e um maior volume de água. Esses dois fatores, juntos, contribuem para acelerar a proliferação do vetor da dengue, encurtando, inclusive, aquele período entre ovos e mosquito adulto”, observa. “Ao intensificar a atividade biológica do mosquito, nós temos um maior número de pessoas sendo infectadas, porque há um maior número de mosquitos nesse período”.
O cuidado por parte dos moradores é a principal medida de prevenção contra o mosquito: limpeza dos quintais para evitar água empoçada, vedação das caixas d’água, limpeza dos vasos de plantas e calhas. Também é essencial receber os agentes de saúde para fazer a vistoria em possíveis focos do Aedes aegypti.
“Recomenda-se, para este período do verão, intensificar os cuidados e dedicar uns 10 minutinhos para cuidar do seu ambiente, do seu domicílio, ver se tem algum objeto que possa acumular água, cuidar dos terrenos baldios, dos quintais, conversar com os seus vizinhos e cobrar que o poder público também faça a sua parte, recolhendo rotineiramente o lixo produzido pelos domicílios”, recomenda o secretário adjunto.
Ciclo de vida do mosquito tem quatro fases
Assim como diversos insetos, o Aedes passa por metamorfose completa durante seu desenvolvimento. Isso significa que as fases jovem e adulta são completamente diferentes e, portanto, ocupam nichos distintos, vivendo em ambientes diferentes e com hábitos particulares em cada etapa do desenvolvimento.
Assim como as borboletas e mariposas, a transição de larva para adulto depende de uma etapa de desconstrução dos tecidos larvares e a reconstrução das estruturas do adulto, fase chamada de pupa. Diferentemente das crisálidas das borboletas, as pupas de Aedes aegypti são capazes de se movimentar.
Porém, as pupas não se alimentam e, por isso, são muito pouco vulneráveis a compostos vindos do meio externo, como é o caso dos inseticidas.
Todo o processo de desenvolvimento, de ovo a adulto, é muito influenciado por condições ambientais. O tempo de duração do desenvolvimento completo, até a fase adulta, e da longevidade da vida do inseto adulto, pode variar muito, dependendo de fatores como umidade, temperatura, disponibilidade de alimento, necessidade de deslocamento, entre outros.
O desenvolvimento de Aedes de ovo, passando por larva e pupa, até a fase de mosquito adulto, geralmente dura de 7 a 10 dias, dependendo das condições ambientais.
No Pedral do Lourenção, no Rio Tocantins, a ribeirinha Eva Moraes perto de sua casa, na Vila Praia Alta. Foto: Tiffany Higgins
O Brasil está prestes a investir dezenas de bilhões de reais na construção de mais de 2 mil km de novos canais de navegação em rios da Amazônia – o que, segundo especialistas, pode resultar na conversão de terras de povos tradicionais à agricultura com alta emissão de carbono.
Em outubro de 2022, o governo de Bolsonaro, que deixava o cargo, emitiu uma licença preliminar atestando a suposta viabilidade socioambiental dos primeiros 500 km de uma hidrovia Araguaia-Tocantins na Amazônia oriental, há muito sonhado, que pode chegar a ter entre 2 mil a 3 mil km de extensão.
Em agosto, promotores federais entraram com uma ação civil pública pedindo que a licença da era Bolsonaro, que continha falhas “graves”, fosse anulada e que o Ibama fosse impedido de emitir a licença de instalação. Eles apontaram várias ilegalidades na licença prévia: “A licença nunca comprovou a viabilidade socioambiental”, disse o promotor Sadi Flores Machado.
Emitida com 27 estudos “pendentes”, sem os quais era impossível avaliar a viabilidade, a licença do trecho da hidrovia Araguaia-Tocantins nunca deveria ter sido concedida, constituindo “desvio de finalidade do Ibama”, acusam os promotores.
“O número [de estudos que faltam] nessa fase é alto”, disse a ex-diretora do Ibama, Suely Araújo. “Você pode deixar algumas pendências na licença prévia, mas não estruturais, que sejam importantes o suficiente para mudar a viabilidade ambiental do empreendimento”.
Por causa desses estudos, que há muito precisam ser feitos, em março de 2022, o então diretor de licenciamento do Ibama, Jônatas Souza da Trindade (ex-aluno de Araújo), assinou um documento declarando a “inviabilidade ambiental das obras”.
Meses depois, após a intervenção do Ministério da Economia, Trindade voltou atrás, sem apresentar justificativa técnica, e emitiu uma licença prévia, excluindo o despacho com suas conclusões anteriores do processo oficial da obra no Sistema Eletrônico de Informações.
“Isso é irregular”, disse Araújo. “Você pode mudar de posição, mas tem que ter a coragem de explicar: estou mudando de posição, e as razões são essas. Mas eu não posso sumir com a minha primeira posição no processo [oficial]”.
Audiência pública sobre os planos para a hidrovia no Rio Tocantins, realizada pelo Ministério Público Federal em Tucuruí, Pará, em novembro de 2023. Centenas de pessoas compareceram, muitas classificadas pelo DNIT como “não na área de impacto direto”, embora vivam ao longo do rio, onde sofrerão os impactos da passagem das barcaças e das operações do canal. Foto: Tiffany Higgins.
A licença exclui ilegalmente milhares de pessoas de povos tradicionais que vivem naquele trecho do Rio Tocantins e dependem dele para pesca e navegação, e os classifica sumariamente, sem evidências, como “não na área de impacto direto” para cortar custos. A licença também “está subdimensionando os danos, e isso é muito grave”, diz o promotor Machado. Trindade se recusou a exigir o diagnóstico de um ano de desembarque pesqueiro pelos pescadores, um “marco zero do licenciamento”, de acordo com Machado. Sem isso, as consequências são “muito graves”, pois é impossível avaliar futuros danos à renda e à segurança alimentar dos pescadores.
Isso é necessário para a indenização, segundo o princípio do poluidor-pagador que está na legislação ambiental, ou seja, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) deve pagar por qualquer dano que causar. O DNIT alega que não é responsável pelos danos das operações do canal de navegação comercial.
No Pedral do Lourenção, os pescadores usam a técnica tradicional de caceia no meio do rio, que seria impedida pela passagem das barcaças. Remando rio abaixo, eles jogam várias redes amarradas umas nas outras e depois retornam rio acima, capturando os peixes. Sendo povos tradicionais cujo conhecimento é passado de geração a geração, eles conhecem as fases da lua, as épocas de migração e o tamanho da malha da rede para cada espécie. Foto: Tiffany Higgins.
Nilton Lopes de Melo, da Vila Tauiry, disse que o plano do DNIT de “dar um salário mínimo por 30 meses” após as detonações do rio é totalmente insatisfatório. “Os nossos poços envenenados, porque bebemos a nossa água do rio, e os peixes envenenados pela dinamite, que ninguém vai querer comer” durarão muito tempo após as explosões acabarem, deixando os moradores sem sua principal fonte de renda. Eles exigem indenização por família e acusam o DNIT de “violar [nossos] direitos como povos ribeirinhos tradicionais”.
O licenciamento do canal significa que “a gente está criando a pobreza e os refugiados climáticos por obra do próprio Estado”, diz o promotor Machado. Esses danos e custos recairão não apenas sobre os contribuintes brasileiros, mas também, devido ao aumento das emissões do desmatamento incentivado pelo canal, “sobre a sociedade como um todo”.
Mesmo assim, o Ibama está prestes a permitir que a licença de três anos para as explosões do Rio Tocantins comece a valer em 2025.
Na Vila Tauiry, pescadores tradicionais protestam contra o canal. Foto: Tiffany Higgins.
“Para o Ministério Público Federal, qualquer licença expedida será ilegal”, diz uma mensagem enviada pelos promotores. “A ação foi apresentada à Justiça Federal em 16 de agosto de 2024 e, desde então, aguarda decisão judicial”.
O DNIT tenta, ilegalmente, licenciar apenas um trecho da proposta da hidrovia Araguaia-Tocantins para evitar a revisão completa de sua viabilidade socioambiental em todos os trechos planejados, descumprindo uma decisão de 2009, acusam os promotores.
Esse trecho de 500 km é um Cavalo de Troia, e abre a porta para um canal Araguaia–Tocantins que pode chegar a ter entre 2 mil e 3 mil km, exigindo a construção de várias megabarragens, sem que se avaliem os impactos “sinérgicos” sobre comunidades e ecossistemas nos estados do Maranhão, Tocantins, Mato Grosso e Goiás, e sem consulta a essas comunidades, diz Machado.
“Dividir o licenciamento, pressionar o licenciamento intencionalmente para simplificar o processo é ilegal”, diz Araújo.
“É a velha prática de consumar um megaprojeto através da realização de partes de sua obra, de modo que o conjunto se torne mais tarde irreversível”, escreveu o senador Jorge Kajuru.
Os procuradores federais Sadi Flores Machado e Felício Pontes, com Jaqueline Damasceno, membro da coordenação estadual do Movimento dos Atingidos por Barragens do Pará, no Dia da Amazônia, 5 de setembro, discutindo a proposta da hidrovia Araguaia-Tocantins. Foto cedida pelo MPF.
No trecho de 500 km entre Marabá e Barcarena, o DNIT usa um “artifício” para “reduzir artificialmente os custos. A premissa deles é que eles não estão licenciando a operação da hidrovia. Eles estão licenciando só a obra de dragagem e derrocagem”, explica Machado. O DNIT considera “impactado” apenas um trecho de 212 km para ribeirinhos tradicionais, em um raio de 3 km, e, para indígenas e quilombolas, em um raio de 10 km das “intervenções”. Esses limites, “sem embasamento técnico ou jurídico, violam a Convenção 169 da OIT”, leis internacionais e nacionais, bem como a missão institucional do Ibama de analisar os impactos em primeiro lugar, sem descartar de antemão as comunidades.
“O posicionamento do Ministério Público Federal é que todas as comunidades ribeirinhas que utilizam, de forma tradicional, as águas da bacia hidrográfica Tocantins-Araguaia para a pesca e para a navegação são impactadas”, diz Machado.
A Terra Indígena Mãe Maria, do Povo Indígena Gavião – a 11 km da área planejada para dragagem de um canal e do futuro porto de Marabá – foi excluída dos estudos do DNIT usando uma regra de 10 km para classificar comunidades como não impactadas, descumprindo a legislação internacional e nacional. A cacique Katia Akrãtikatêjê diz que a hidrovia levará a “mais invasões de territórios e roubo de caça e madeira”. Uma megabarragem de Marabá, que faz parte dos planos do canal do DNIT para controlar os níveis de água e permitir a circulação de barcaças, inundaria parte da TI Mãe Maria. Devido ao fatiamento ilegal do licenciamento da hidrovia, o Ibama nunca avaliou esses impactos. Foto: Tiffany Higgins.
Transporte pela hidroviaaumenta emissões de carbono
Tentar abrir novos canais para atender à ilusão de um transporte hidroviário mais barato de commodities agrícolas para exportação é uma “proposta com custo-benefício ruim” para a sociedade brasileira, pois os gastos com esse transporte aumentam devido à redução do nível dos rios, disseram especialistas. “Diferentemente de uma hidrelétrica, não existe uma previsão de distribuição equitativa do produto da hidrovia com a sociedade”, afirma Machado.
Carlos Souza, diretor da MapBiomas Água, escreveu: “O projeto reflete uma visão de desenvolvimento que desconsidera os danos ao meio ambiente e privatiza recursos naturais escassos para o lucro de poucos, sem a devida consulta às comunidades afetadas. Há também uma falta de monitoramento adequado dos impactos futuros, e questiona-se para quem realmente esse empreendimento trará benefícios: se ao povo brasileiro ou aos interesses de grandes produtores e mineradores, sugerindo uma lógica de desenvolvimento que não prioriza o bem comum.”
O Ministério dos Transportes afirma que as hidrovias são “o transporte mais sustentável” e que eles “vão reduzir as emissões e tirar carros das estradas”. Especialistas refutam essas alegações, afirmando que são lavagem verde. Araújo, diretor do Observatório do Clima, adverte que, ao determinar a sustentabilidade, “Não dá para olhar só para as emissões. Tem que olhar para todos os impactos ambientais”, lembrando que a Hidrelétrica de Belo Monte prometeu produzir grande quantidade de energia sustentável, mas entregou muito menos, causando desmatamento indireto, o que a tornou uma grande região emissora de carbono.
Rodovias e ferrovias próximas não serão fechadas, de forma que uma hidrovia no Tocantins vai aumentar as emissões, em vez de reduzir. “Para que esse argumento do DNIT tivesse algum sentido, seria preciso presumir que a operação da hidrovia vá fazer com que as rodovias não sejam mais utilizadas para escoamento dos grãos. E não é o que vai acontecer”, diz Machado.
Desde 2023, a Ferrovia Norte-Sul (linha rosa) transporta commodities do interior do Brasil para o Porto de Itaqui, com uma extensão já aprovada até Belém. Esse é o mesmo objetivo da hidrovia no Rio Tocantins (trajeto projetado em amarelo e laranja). Os dois projetos são paralelos (em alguns pontos, a 1 km um do outro), de forma que o canal seria redundante em relação ao trajeto da ferrovia, acrescentando bilhões em custos e emissões de gases de efeito estufa. Mapa: Edir Augusto Dias.
Porém, “a hidrovia não vai substituir as rodovias [e a Ferrovia Norte-Sul] para o escoamento de grãos”, diz Machado. O objetivo dos órgãos do governo é aumentar o escoamento. Sendo assim, as atuais emissões decorrentes do uso de combustível nas rodovias serão somadas às emissões das operações da hidrovia.
Na verdade, o transporte hidroviário interior causa mais emissões de carbono do que o transporte ferroviário, segundo um estudo europeu de 2018 (os ministérios dos transportes do Brasil costumam citar duas tabelas, de 2009 e 2015, promovendo a eficiência das hidrovias; o climatologista José Marengo diz que estudos sobre o tema “precisam ser refeitos” com dados atuais sobre a água).
Desde então, as emissões das hidrovias, mais elevadas, aumentaram ainda mais, assim como o uso de combustível e os custos da tonelada/km no Rio Mississippi, como nos disse Mike Steenhoek, diretor-executivo da U.S. Soy Transportation Coalition. Em 2024, terceiro ano de seca grave no Meio-Oeste dos Estados Unidos, apesar da dragagem, os custos das hidrovias e as emissões de carbono por tonelada de grãos transportados são maiores, pois as barcaças precisam reduzir a carga e o número de embarcações por comboio. Os custos do transporte hidroviário em outubro foram 55% maiores do que a média de cinco anos. As quantidades de grãos transportados caíram.
“Cada pé de profundidade de água ou calado que se reduz é o equivalente a carregar 7 mil bushels [190 toneladas] a menos de soja por barcaça”, diz Steenhoek. Como consequência, mais comboios são enviados para deslocar a mesma quantidade, reduzindo a eficiência, “levando a congestionamentos e gargalos”, “embarcações paradas por dias” e viagens mais longas, com extensões de rota para chegar a um canal suficientemente profundo. Os resultados: mais combustível e mais emissões.
“Os agricultores são forçados a absorver custos mais altos de transporte hidroviário.” Portanto, os produtores obtêm “preços mais baixos para a soja e lucros menores”, enquanto lucram as exportadoras de grãos, como Cargill, Bunge e Louis Dreyfus. (O uso e o investimento dos agricultores em ferrovias mais confiáveis em termos de clima aumentaram).
As emissões de carbono dos novos canais também aumentam com o desmatamento causado pelos grãos brasileiros, devido à mudança no uso da terra, que se acelerará em toda a bacia do Araguaia-Tocantins, alerta Carlos Souza. O diretor da MapBiomas Água disse que um novo canal visando “expandir o escoamento aumenta o desmatamento. Então se vai ter também uma região que vai ter uma expansão agrícola muito grande, pode afetar as comunidades que já vivem lá com outro tipo de uso da terra [e que mantêm a maior parte da floresta em pé]. E aí pode haver uma substituição da agricultura de pequenos produtores pela agricultura industrial.”
Faixas em protesto na Vila Tauiry, que o DNIT planeja transformar em um canteiro de obras para começar a explodir o leito rochoso do rio a partir de março de 2025. Foto: Tiffany Higgins.
“Algumas comunidades [estão] sendo expulsas dos seus territórios em decorrência da especulação imobiliária às margens do rio, decorrência desse projeto, [já que] a ação da hidrovia vai tender a potencializar ou valorizar aquelas áreas”, diz Machado, gerando “pressões territoriais sobre estes povos, que estão sendo obrigados a se deslocar das suas terras”.
“Esse deslocamento não é nada sutil”, diz o promotor. “É com ameaça, é com pistolagem, é com intimidação.” Segundo Machado, o DNIT não conseguiu protegê-los nem “impedir o desmatamento por meio da elaboração de um plano de mitigação com base no Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal”.
Questionado sobre esse problema, o DNIT respondeu por e-mail: “Não temos informações sobre desmatamento relacionado à obra.”
“Isso tudo às vésperas da COP 30, sediada no estado do Pará”, diz o promotor. “É muito grave e muito contraditório e é muito triste também sob a perspectiva dos direitos humanos das populações que vão ser impactadas caso essa derrocagem e dragagem aconteça sem esse dimensionamento.”
Ainda não construída, a hidrovia Araguaia-Tocantins está causando “danos ambientais climáticos, reconhecidos pela recente ação judicial da Advocacia-Geral da União (AGU)”, diz o promotor, “pagos pelo Estado Brasileiro e pelos contribuintes brasileiros, suportados por toda a comunidade global”. O DNIT deixou de fazer “estudos de risco climático e impacto climático”, incluindo cálculos de aumento de emissões, ignorando a Política Nacional sobre Mudança do Clima do Brasil.
“Então, o Estado brasileiro, a estrutura do Estado brasileiro, com o licenciamento deficitário quanto à essa previsão dos impactos e agora, inclusive, o impacto climático, e não dimensiona isso, mesmo havendo essa previsão na legislação, vai gerar um dano climático que vai ser sentido por todos nós”, conclui Machado.
Seca na Amazônia põe em dúvida a viabilidade da hidrovia
Os planos da hidrovia Araguaia-Tocantins ignoram dois anos de seca agravada no Brasil em 2023 e 2024, quando a Amazônia perdeu mais de 5 milhões de hectares de água superficial, diz Souza. Durante a temporada das cheias, “os aquíferos não se recarregaram adequadamente. Dois anos consecutivos de seca, está contando realmente que tem um alarme, dando um sinal muito forte.”
Em 2023 e 2024, os rios brasileiros perderam muita água. Em comparação com a superfície média mensal da água no país entre 1985 e 2023 (em amarelo), a água superficial diminuiu em 2023 (em azul), de forma que a superfície de 2024 (em preto) caiu mais acentuadamente. Mas os dados sobre água dos estudos do canal do Tocantins pararam em 2017.
Em outubro, o nível do rio Tocantins estava em 2 metros, de acordo com a Agência Nacional de Águas (ANA), observa Souza. “No período de seca, ele [geralmente] fica em torno de três metros e três metros e meio. Então na seca, já é esperado que vai reduzir, vai baixar mais um pouco.” Isso tornaria difícil a navegação para barcaças com calado de 2,5 metros, conforme planejado pelo DNIT, sugerindo que seria preciso dragar uma área muito maior do que apenas “passos críticos” em um trecho de 177 km, conforme planejado. Segundo Souza, “para esse projeto, os propositores do DNIT têm que incluir, para os planos de adaptação e mitigação às mudanças climáticas, esses modelos.”
De 1985 a 2023, o Alto Rio Tocantins perdeu 42 mil hectares (29%) de sua água superficial natural.
A sub-bacia do Alto Tocantins “perdeu 42 mil hectares de água superficial natural desde 1985”, observa Souza. A vazão do Rio Tocantins será reduzida em 50% a partir de 2050, disse Rodrigo Paiva, hidrólogo do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade do Rio Grande do Sul. “O que aconteceria é que, para o Rio Tocantins, na média, ele ficaria mais seco. Isso prejudicaria um projeto de navegação. Então essa proposta do DNIT tem que levar em consideração esse cenário futuro.”
O maior afluente do Tocantins, o Araguaia, perdeu de 40% a 67% da vazão desde 1980 e perderá mais 40% até 2040, diz Ludgero Vieira, professor da Universidade de Brasília. Vieira e Souza afirmam que a construção da hidrovia Araguaia-Tocantins incentivará mais conversão de terras à agricultura irrigada na bacia superior do rio, aumentando a perda de água, o que impediria a passagem de barcaças.
“Se alguém cogita fazer canais de navegação no Rio Tocantins ou no Rio Madeira agora, vão dizer que está louco, porque o Madeira está com níveis extremamente baixos, principalmente devido às secas de 2023 e 2024. É muito arriscado”, disse José Marengo, climatologista e especialista em hidrologia.
Segundo apuração da Mongabay, os estudos do DNIT sobre novos canais no Madeira e no Tocantins usaram antigos dados “históricos” sobre a água. “Este projeto [do Tocantins] foi submetido à análise com base em dados hídricos até 2017”, o Ibama disse por e-mail à Mongabay. “No entanto, as mudanças climáticas e os impactos ambientais dessas alterações no regime de vazão não foram incluídos nas avaliações de viabilidade até o momento.”
O uso de dados ultrapassados põe o Brasil em risco de não obter retorno sobre os investimentos no canal e “criando um desperdício de recursos públicos, que são escassos”, disse Luiz Fragoso, auditor sênior do Tribunal de Contas da União (TCU).
Rochas obstruem a passagem de barcaças no Rio Tocantins, ao sul de Marabá, em julho de 2022. O agronegócio do estado do Tocantins espera que a explosão do Pedral do Lourenção, no Pará, abra um canal para levar barcaças ao norte, até o Oceano Atlântico. Cientistas dizem que isso é impossível sem detonar pedrais em grandes extensões e dragar grandes trechos, o que pode nem garantir um canal navegável. Foto: Tiffany Higgins.
Destacados especialistas em climatologia e hidrologia, Marengo, Souza e a ex-presidente do Ibama Suely Araújo disseram que o DNIT deve atualizar os estudos do canal com projeções de disponibilidade hídrica. Caso contrário, corre o risco de “desperdiçar bilhões de recursos públicos”, como diz Fragoso.
Dragagem não garante água suficiente para a passagem das barcaças
Em função da aceleração da evapotranspiração nos rios brasileiros, prevista pela ANA, o calor extremo pode fazer evaporar a água do canal. “Você pode ter chuva (cai pouca chuva, mas cai), mas quando tem temperatura muito alta, a evaporação é muito alta”, diz Marengo, Diretor de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
Pesquisas de janeiro de 2024 da Agência Nacional de Águas (ANA) mostram a perda futura de água devido à evapotranspiração. A linha cinza representa os níveis históricos, comparados à evapotranspiração acelerada segundo vários modelos de mudanças climáticas.
“Tem um céu claro, tem um sol intenso, então, muita dessa água do rio evapora, então diminui mais a vazão. Então se aí se aplica dragagem, vai ser muito caro, mas ninguém garante que vá ter água suficiente para passar um barco ou uma barcaça, ainda com dragagem. Você pode cavar mais profundo o seu rio. Fica mais profundo, mas se tem pouca água, vai ter o mesmo problema. Os barcos não conseguem andar, porque é muito raso e simplesmente ficam presos na areia. Imagina manter um comércio todo o ano, um transporte todo ano, quando há água e não há garantias, todo ano, aí que vira um problema.”
“Pensar em hidrovias somente com dragagem, acho que é um tiro no pé, como dizem aqui, não?”, diz Marengo. “Porque se não chove, não adianta fazer dragagem, e vai ter dinheiro gasto, vai a ser uma obra abandonada como tantas outras aqui no Brasil.”
O estudo de viabilidade econômico-técnica (EVTEA) sobre a hidrovia Araguaia-Tocantins nunca foi concluído, embora tenha sido iniciado, com R$ 5,18 milhões pagos a um consórcio que incluía a DTA Engenharia (questionado sobre o motivo, o DNIT mencionou “conversas internas”, sem dar detalhes). A empresa recebeu R$ 1,4 bilhão em contratos federais relacionados ao canal e tem um contrato de quase R$ 1 bilhão para explodir uma área rochosa de 43 km de extensão, o Pedral do Lourenção.
O fato de nunca ter sido feito um estudo de viabilidade para um canal em um rio que o Brasil quer começar a explodir em março de 2025 é “preocupante e, potencialmente, um desperdício para os cofres públicos”, diz Fragoso.
“É absurdo, ilegal e antiético”, afirma Machado. Sem estudos de viabilidade, os canais podem “criar ruínas” de leitos de rios.
“Não há garantia de que dragagem e derrocagem caras vão funcionar” em grande escala e a alto custo, alerta Marengo, do Cemaden. “Ferrovias podem ser uma solução bastante viável, porque a ferrovia, de certa forma, polui menos, mas não depende assim de água. Só que esses governos no Brasil muitas vezes não pensam muito em ferrovias.”
Fragoso diz que o Brasil deveria pensar em ferrovias. Ele observa que a Ferrovia Norte-Sul (FNS), já em operação, corre paralela ao Rio Tocantins. Portanto, o canal proposto para o Tocantins e a FNS são projetos “concorrentes”, com o mesmo objetivo, no mesmo corredor logístico. No Plano Nacional de Logística 2035, que o TCU auditou, Fragoso diz: “O Ministério dos Transportes não fez uma análise de custo-benefício nem uma avaliação de alternativas.” O Ministério não conseguiu justificar por que, depois que o Brasil pagou R$ 15 bilhões pela Ferrovia Norte-Sul, os contribuintes deveriam gastar bilhões a mais para construir um projeto paralelo, em alguns lugares, sobreposto, sem estudo de viabilidade.
“Não só vamos destruir quase 500 quilômetros de rio, mas também vamos gastar milhões anualmente com dragagem. Por que vamos fazer tudo isso? Não podemos encontrar uma alternativa para alcançar o mesmo objetivo logístico?”, pergunta André Ferreira, do Instituto de Energia e Meio Ambiente. Dragar um Rio Tocantins que está mais seco pode custar bilhões por ano, com base em contratos de dragagem em portos do sul.
“Eu excluiria essa hidrovia do corredor logístico do Tocantins-Araguaia, e buscaria outras formas de viabilizar, com a Ferrovia Norte-Sul e a Ferrovia Paraense”, disse Ferreira. “Sem essa hidrovia, o país não vai parar por causa disso.”
As comunidades temem que o canal interrompa seu modo de vida, detonando e dragando locais de reprodução de peixes, bloqueando a chegada de canoas até áreas de pesca, erodindo margens de rios, degradando a vegetação, interrompendo o fluxo para cursos d’água secundários, tirando sua pesca, forçando-os a se mudar para as cidades.
“É a invasão do nosso território”, dizem ribeirinhos
As lideranças ribeirinhas tradicionais do Pedral do Lourenção acusam o DNIT de violar seus direitos, entrando na aldeia Tauiry “sem o nosso consentimento”, pressionando-as a assinar documentos para forçar a aprovação da licença. Segundo o líder Ernandes Soares da Silva, em 12 de dezembro, o DNIT e a DTA Engenharia entraram na Vila Tauiry, apesar de as lideranças locais terem se recusado oficialmente a participar de uma reunião sem a presença dos promotores federais. Ele afirmou que os ribeirinhos foram ameaçados “de que, se não assinassem documentos” aceitando uma indenização menor e limitada por danos futuros à pesca, “não receberiam nada”, de forma que muitos pescadores, assustados, assinaram. “Essa reunião tem que ser derrotada”, diz Silva.
Em um e-mail à Mongabay, o DNIT disse que tinha “autorização da Prefeitura Municipal de Itupiranga” e apenas “teve como objetivo o DNIT e o Ministério de Portos e Aeroportos dialogarem com a comunidade” no que alegou ser um “espaço público”.
Representando um coletivo de 23 vilas ribeirinhas do Pedral do Lourenção, o líder ribeirinhos Ronaldo Macena Barros disse: “Eles estão passando em cima de tudo, desrespeitando o nosso protocolo de consulta”, que proíbe reuniões com eles sem permissão prévia, “infringindo o OIT 169 e o Decreto Presidencial 6.040”, que protege os direitos de povos tradicionais culturalmente diferenciados. “Quando se trata de grandes empreendimentos, nós temos que ser consultados.”
Ronaldo Barros Macena, presidente da Associação da Comunidade Ribeirinha Extrativista da Vila Tauiry (Acrevita). Seu neto é da 6ª geração da família na vila. Foto: Tiffany Higgins.
Macena contou que houve “pressão política” e táticas de intimidação. O coletivo do Pedral do Lourenção se recusou a aceitar o relatório de um suposto evento de Ação Participativa porque “não condiz com a nossa realidade”, omitindo algumas das 23 comunidades. O DNIT e a DTA “insistiram [que nós cumpríssemos], e fizeram essa reunião [de 12 de dezembro] sem a nossa autorização. É a invasão do nosso território sem o nosso consentimento”.
“Isso eu acho um desrespeito às populações ribeirinhas, que somos comunidades tradicionais, que ocupamos e moramos nessa região há várias gerações”, disse Macena. “Temos aqui nossas tradições, nossos modos de vida, que são totalmente diferentes da cidade. Então estão desrespeitando a nossa opinião, eles não estão acatando o que a gente tem feito”.
“O que a gente quer é a consulta prévia, livre, e informada de consentimento das comunidades ribeirinhas do território ribeirinho do Pedral do Lourenção. Mas até então, eles vêm não respeitando isso.”
O MPF disse que solicitou relatórios da Associação da Vila Tauiry (Acrevita), do DNIT e da DTA sobre a reunião polêmica. “Assim que tiver todas essas informações [relatos pedidos], o MPF vai se posicionar sobre a questão.”
Os líderes temem que a licença de instalação para explodir as rochas do Pedral do Lourenção e formar o canal seja concedida sem que as comunidades tenham participado da consulta exigida por lei e com ilegalidades pendentes na licença anterior, emitida por Bolsonaro.
Macena diz: “A ação civil pública, que o Ministério Público Federal fez, está protocolada na Justiça. A gente está aguardando, então, essa resposta”.
Cartazes no encontro no Dia da Amazônia, em 5 de setembro, sobre o licenciamento da Hidrovia Araguaia-Tocantins, promovido pelo Ministério Público Federal. Foto cedida pelo MPF.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Tiffany Higgins e traduzido por Roberto Cataldo
Desde pequeno o gosto diferente do Nico, um gato de 11 meses, tem chamado a atenção da dona dele, a biomédica Carol Marques, de 25 anos. É que o animal não pode ver um cacho de açaí por perto, que já pula para ‘roer’ os caroços do fruto. De acordo com Carol, que vive em Laranjal do Jari, no Sul do Amapá, o Nico também ama dormir em rede.
A biomédica disse que percebeu o amor do gato por açaí durante uma viagem para o interior.
“Foi impactante, como um pai vendo o filho andar. Fiquei em primeiro momento em choque, vendo aquela cena dele comendo e brincando com o açaí, virando um ribeirinho e aprendendo a viver bem. Todos que estavam no momento ficaram surpresos, ele comeu e depois deitou em cima dos cachos de açaí. Foi bem engraçado”, disse a dona.
Foto: Carol Marques/Arquivo Pessoal
Os perigos do açaí para os pets
De acordo com a médica veterinária Dagmar Oliveira Lima, embora muitas frutas possam ser consumidas pelos pets, nem todas são seguras. O açaí, por mais saboroso que seja, pode ser extremamente perigoso para cães e gatos.
“Esse fruto pode conter a teobromina (um tipo de metilxantina), uma substância alcaloide encontrada no cacau, cupuaçu, café e guaraná, que é altamente tóxica para os animais. A ingestão de teobromina pode causar sérios problemas de saúde, e em casos graves, pode até levar à morte”, explicou a veterinária.
Ainda segundo a especialista, os sintomas de intoxicação por teobromina incluem vômitos, diarreia, alterações cardíacas, respiratórias e neurológicas. Em situações mais graves, o pet pode sofrer de convulsões.
“Outro risco relacionado ao açaí, principalmente para aqueles que gostam de roer o próprio fruto, é a possibilidade de contaminação por doenças como a Doença de Chagas, que é uma zoonose (doença transmissível entre animais e humanos) e de difícil tratamento. Este é um outro aspecto que merece atenção e cuidado”, acrescentou.
Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
A despeito do pretenso “braço firme” da ministra Marina da Silva, do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), a floresta amazônica prossegue registrando números alarmantes, os maiores do século, em relação a focos de incêndio e desmatamento. A titular do MMA é recordista absoluta na ocorrência dos eventos. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ao longo dos governos do presidente Lula da Silva (PT), período de 2003 a 2008, foi contabilizado número extraordinário de queimadas, com pico de 186.463 focos em 2007. O vértice histórico foi registrado em 2004, segundo ano do atual mandato de Lula da Silva, quando ocorreram astronômicos 218.637 focos de incêndio. Marina da Silva, com apoio de importantes ONGs, no comando da política de meio ambiente e clima dos governos Lula. As justificativas para tais ocorrências são sempre as mesmas: origem criminosa.
Jamais reconhecem, contudo, a incapacidade de seu ministério em combater eficazmente as chamas destrutivas de importantes biomas da da Amazônia Legal, sobretudo nos estados do Pará, Tocantins, Mato Grosso e Amazonas. A região, em síntese, é vítima recorrente da inação dos governos brasileiros, sobretudo a partir da redemocratização, processo iniciado em 1979 e concluído em 1985, quando importantes leis para a retomada do regime democrático foram promulgadas: revogação do Ato Institucional Número 5 (AI-5); a Lei da Anistia, que concedeu perdão irrestrito aos opositores políticos e aos militares; e a Lei nº 6.767 de 1979, que permitiu a retomada do pluripartidarismo e a eleição indireta para presidência, marco final e definitivo do regime militar no país. Tancredo Neves, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro, foi o eleito, mas adoeceu, falecendo antes de assumir o cargo.
Retroagindo a 1966, o governo do presidente Castello Branco (1964/1967) deflagrou a “Operação Amazônia”, em ato realizado em Manaus, Amazonas. A intervenção pública foi concebida como processo moldado em formato de ação conjunta dos poderes federal, estaduais e municipais, tendo por fundamento questões de segurança nacional e a inadiável necessidade de integração da área ao projeto brasileiro de desenvolvimento. A operação, estruturada sobre um conjunto de alta complexidade, compreendendo leis de incentivo fiscal, investimentos em infraestrutura de transporte, telecomunicação, educação e saúde pública voltados a incentivar e viabilizar a ampliação da nova fronteira agrícola rumo ao Setentrião brasileiro; ainda mais, em nova política econômica para a borracha, na criação da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), do Banco da Amazônia e da Zona Franca de Manaus, em 1967. Medidas que os governos da redemocratização não conferiram o necessário e indispensável apoio de sorte a assegurar o pleno alcance dos resultados positivos em relação às metas propostas.
A base sedimentar das ações então empreendidas tinha por fundamento a segurança das fronteiras, o desenvolvimento econômico da região, a integração nacional e a cobertura do dramático e inexorável “vazio demográfico”. Desde a redemocratização, contudo, a presença do governo brasileiro na Amazônia foi se encolhendo num processo sem fim. Há de se ressaltar que uma das metas anunciadas pelo governo Lula da Silva é zerar o desflorestamento na Amazônia até 2030. Em novembro próximo será realizada em Belém, Pará, a COP30, principal evento da ONU (Organização das Nações Unidas) para o clima. Oportunidade auspiciosa para o governo anunciar ao mundo políticas públicas estruturantes e adequadas ao solucionamento do problemas de incêndio, do desmatamento e do desenvolvimento econômico regional. Do contrário, o evento cairá em descrença pública como as demais COPs já realizadas, sobretudo face às frustrações das medidas aprovadas e não cumpridas e aos recursos comprometidos e não liberados, transformados, com efeito, em falsas promessas, simples miragens ou ilusão de ótica que ofuscam e atraiçoam viajantes no deserto.
Sobre o autor
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).
O trabalho de um grupo de cientistas, com a colaboração do Instituto de Geociências (IGc) da USP, revela a maneira com que a combinação de duas formas de seca amplifica o risco de incêndios florestais na Amazônia. De acordo com a pesquisa, a seca meteorológica, marcada pela falta de chuvas, favorece o surgimento de focos de incêndio, ao mesmo tempo que a seca hidrológica, diminuindo a umidade do solo e da vegetação, cria um ambiente muito inflamável.
Os pesquisadores também apontam que os eventos de El Niño, que mudam a circulação do ar, reduzindo as chuvas, aumentaram a área queimada em 244% no período entre 2015 e 2016, e que secas prolongadas comprometem o papel das águas subterrâneas de manter a umidade dos solos. Os resultados do estudo são relatados em artigo publicado na revista Science of The Total Environment, no último mês de dezembro.
A pesquisa abrangeu toda a Bacia Amazônica, que é a maior bacia hidrográfica do planeta, com aproximadamente 7,4 milhões de quilômetros quadrados (km²). “A seca meteorológica é caracterizada pela redução de precipitação em uma região durante um período específico”, declara ao Jornal da USP o professor Bruno Conicelli, do Instituto de Geociências (IGc) da USP, que integra o grupo de autores do artigo. “É uma resposta direta às variações climáticas e tem impactos imediatos no ciclo hidrológico superficial”.
“Já a seca hidrológica refere-se à redução da disponibilidade de água em corpos hídricos, como rios, lagos e aquíferos”, explica o professor. “Diferentemente da seca meteorológica, ela possui um efeito prolongado, pois depende do tempo necessário para que o solo e os aquíferos reajam às variações de precipitação”.
Na Amazônia está localizada a maior bacia hidrográfica do planeta, com 7,4 milhões de quilômetros quadrados (km²); variações na queda nos níveis de água subterrânea reforçam necessidade de estratégias localizadas de manejo e conservação. Imagem extraída do artigo.
Águas subterrâneas e El Niño
O trabalho teve como objetivo principal compreender como as secas meteorológicas e hidrológicas afetam os incêndios florestais na Amazônia, com destaque para o papel das águas subterrâneas e a influência dos eventos de El Niño. “Além disso, buscou avaliar a distribuição temporal da seca hidrológica em diferentes níveis de profundidade do solo, analisar a relação entre os indicadores de seca meteorológica e hidrológica e investigar o impacto dos eventos de El Niño no agravamento das condições de seca e no aumento da área afetada por incêndios florestais entre 2004 e 2016”, descreve Conicelli.
Os principais conjuntos de dados empregados na análise incluem indicadores de seca hidrológica (DI), obtidos do satélite GRACE (Gravity Recovery and Climate Experiment), e o Índice de Precipitação Padronizado (SPI), calculado a partir dos dados do satélite Tropical Rainfall Measuring Mission (TRMM). Dados sobre a fração mensal de área queimada foram fornecidos pelo Global Fire Emissions Database (GFED4), permitindo identificar padrões temporais e espaciais nos incêndios. A intensidade dos Eventos de El Niño (ENSO) foi avaliada usando o Oceanic Niño Index (ONI), que categoriza os episódios em fraco, moderado, forte e muito forte, a partir dos dados obtidos do Golden Gate Weather Service. O professor relata que todos os dados foram processados e analisados usando técnicas estatísticas e ferramentas computacionais avançadas, garantindo a confiabilidade dos resultados.
“Os indicadores de seca hidrológica (DI), derivados do GRACE, permitiram avaliar como as reservas de água subterrânea foram afetadas ao longo do tempo. No entanto, embora tenha considerado a bacia como um todo, os resultados destacaram padrões regionais específicos”, salienta Conicelli.
“No nordeste da Amazônia, por exemplo, observou-se uma menor concentração de umidade em todas as camadas do solo analisadas, tornando essa região mais vulnerável a incêndios florestais. Por outro lado, no sul da bacia, houve uma tendência de redução da umidade em níveis mais profundos, como os aquíferos, indicando uma resposta mais lenta da água subterrânea às mudanças na precipitação. Esses padrões ressaltam a heterogeneidade ambiental da Amazônia e a necessidade de estratégias localizadas de manejo e conservação”.
Segundo a pesquisa, os eventos de El Niño tiveram um impacto significativo na intensificação das condições de seca e no aumento dos incêndios florestais na Amazônia. “Durante períodos de El Niño muito intensos, como o de 2015 e 2016, a área queimada aumentou em até 244% em relação à média anual. Esse fenômeno climático reduz a precipitação na bacia amazônica ao alterar os padrões de circulação atmosférica, o que prolonga os períodos de seca. Como consequência, a vegetação se torna mais seca e suscetível ao fogo”, destaca o professor.
“As águas subterrâneas desempenham um papel crítico nesse contexto. Por serem reservas de água que respondem mais lentamente às mudanças na precipitação, elas sustentam a umidade do solo durante períodos de seca meteorológica. No entanto, quando os níveis de água subterrânea caem devido a secas prolongadas, a recuperação é lenta, aumentando a vulnerabilidade da região a períodos prolongados de aridez e, consequentemente, aos incêndios”.
Em condições climáticas normais, águas subterrâneas ajudam a manter umidade do solo, no entanto, eventos extremos como o El Niño, que reduzem as chuvas e levam a secas prolongadas, potencializam riscos de incêndios florestais. Imagem extraída do artigo.
Mapas indicam variação dentro da Amazônia do Indicador Hidrológico de Seca (DI), umidade superficial do solo (sfsm), umidade do solo na zona radicular (rtzsm), água subterrânea (gws) e fração de área queimada (bf), além da oscilação dos índices no período entre 2004 e 2016. Imagem extraída do artigo.
Gestão sustentável
De acordo com o professor do IGc, pesquisa revelou que ambas as formas de seca atuam de maneira sinérgica para aumentar significativamente a extensão e a gravidade dos incêndios na Amazônia. “A seca meteorológica, com sua rápida manifestação, pode desencadear condições favoráveis para o fogo”, aponta, “enquanto a seca hidrológica, ao reduzir a umidade do solo e da vegetação, cria um ambiente altamente inflamável”.
“É essencial implementar sistemas de alerta precoce baseados no monitoramento contínuo de águas subterrâneas, índices climáticos e indicadores de seca hidrológica e meteorológica”, recomenda Conicelli. “Ferramentas tecnológicas, como os satélites GRACE e TRMM, desempenham um papel crucial ao fornecer dados em tempo real, permitindo a previsão de eventos críticos, como secas prolongadas e aumento do risco de incêndios”.
“Além disso, a gestão sustentável da terra deve ser priorizada, com medidas para reduzir o desmatamento e promover práticas agrícolas que conservem o solo e a vegetação nativa”, sugere o professor. “Outro ponto relevante é a necessidade de investir em educação ambiental para sensibilizar as comunidades locais sobre os impactos das mudanças climáticas e engajá-las em práticas de conservação”.
O trabalho foi realizado por uma equipe interdisciplinar de pesquisadores, incluindo Naomi Toledo, Gabriel Moulatlet, Gabriel Gaona, Bryan Valencia, Ricardo Hirata e Bruno Conicelli, que assinam o artigo. As instituições participantes foram a Universidad Regional Amazónica Ikiam (Equador), a University of Arizona (EUA) e o Centro de Pesquisas de Águas Subterrâneas (CEPAS-USP), do IGc (Brasil).
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, escrito por Júlio Bernardes