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Luta indígena enfrenta marco temporal e tenta “aldeamento do Estado”

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Indígenas descem a Esplanada dos Ministérios em direção ao STF em manifestação contra o marco temporal. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

O dia 7 de fevereiro é Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas. O evento ocorre neste ano alguns dias antes da comissão especial instituída pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), iniciar a discussão de modificações de cada artigo da Lei do Marco Temporal (Lei 14.701) para demarcação de terras indígenas.

Leia também: Portal Amazônia responde: Entenda o que é o ‘marco temporal’ para terras indígenas

Segundo o STF, o marco temporal é inconstitucional. A lei aprovada em 2023 pelo Congresso Nacional, que não está em vigor, estabelece que só podem ser demarcadas as terras indígenas ocupadas pelos povos originários no momento da promulgação da Constituição Federal (outubro de 1988).

Kleber Karipuna, coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), teme que as discussões da comissão especial resultem no que chama de “desconstitucionalização da nossa Carta Magna”, com o esvaziamento dos direitos dos povos indígenas para atender interesses econômicos.

“O que estão tentando fazer agora é mediar discussões para negociar flexibilização do direito à demarcação das terras indígenas, flexibilização sobre a exploração dos territórios indígenas, que é o caso da proposta sobre mineração e outros projetos econômicos produtivos, para avançarem sobre os territórios”, disse em entrevista à Rádio Nacional, emissora da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

Para o coordenador, o momento é de “resistência”, pois existe “ameaça” de que a tese do marco temporal possa vir a ser votada na Câmara dos Deputados e no Senado como emenda à Constituição (PEC 48/2023).

Postos decisórios

Apesar dos temores e da constante necessidade de resiliência, as lideranças indígenas não estão passivas. Além da luta por direitos, elas tentam ocupar mais espaços no campo decisório das políticas públicas. A estratégia é batizada como aldeamento do Estado.

“Estamos vivendo um momento inédito no país, com o protagonismo indígena em diferentes postos na administração pública. Esse novo cenário vem garantindo que as decisões sobre os direitos e as necessidades dos mais de 300 povos indígenas brasileiros sejam tomadas por quem realmente compreende suas pautas e seus desafios”, declara Sonia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas.

A pasta que ela comanda vai aproveitar o Encontro de Novos Prefeitos e Prefeitas, que será realizado em Brasília de 11 a 13 de fevereiro, para estimular a criação de secretarias de povos indígenas nos municípios em substituição a coordenações e diretorias com menor alcance administrativo e menor orçamento.

De acordo com o Censo 2022 (IBGE), há população indígena em 4.833 cidades brasileiros (86,7% do total). Em 76% desses municípios há alguma terra indígena demarcada, mas apenas 22 de todas localidades (menos de 0,4%) têm secretarias específicas “para provimento de políticas públicas para os povos indígenas”, conforme levantamento publicado em setembro do ano passado pela Confederação Nacional de Municípios (CNM).

“É ampliando a diversidade nos muitos espaços da sociedade que ampliamos também as perspectivas contempladas pelas políticas públicas e que conseguimos vislumbrar estratégias para solucionar os muitos desafios que enfrentamos hoje”, defende a ministra Sonia Guajajara.

Lei revogada

Enquanto buscam maior participação em postos decisórios, os indígenas atuam para influenciar políticas locais e reverter decisões que possam afetar suas condições de vida. É o caso do estado do Pará, onde lideranças dos povos tradicionais, após 20 dias de mobilização, conseguiram fazer o governo do estado revogar a Lei 10.820/2024, sobre a rede de ensino onde estava prevista a substituição do ensino presencial por ensino a distância em regiões remotas.

Na avaliação dos indígenas, a mudança prejudicaria a qualidade da educação oferecida à população. “Quando se mexe com a educação, temos que sair de casa. A gente vem sofrendo vários ataques, mas direito à educação, não tem como não sair do silêncio”, defende Alessandra Korap Munduruku em entrevista ao programa Natureza Viva da Rádio Nacional da Amazônia.

O Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas foi instituído pela Lei 11.696/2008. A data marca o dia do genocídio de cerca de 1,5 mil indígenas, entre eles a liderança guarani Sepé Tiaraju, durante a Batalha de Caiboaté, no Rio Grande do Sul, em 7 de fevereiro de 1756, em levante contra colonizadores espanhóis e portugueses na região.

*Com informações da Agência Brasil

Mais da metade dos municípios da Amazônia passou 2024 inteiro em seca 

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Crianças ribeirinhas brincam em blocos de areia, junto com seus cães, onde antes havia o rio Solimões para se banharem. Foto: Jullie Pereira/InfoAmazonia

Mais da metade dos municípios da Amazônia Legal esteve sob seca durante todo o ano de 2024. Uma análise exclusiva da InfoAmazonia, baseada nos dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), sendo responsável por emitir os alertas de desastres naturais para todo o país, revela que, dos 772 municípios da região, 459 (59,5%) sofreram com o problema climático de 1º de janeiro a 31 de dezembro no ano passado.

Em setembro, auge do verão na Amazônia, quase todas cidades estavam em algum grau de seca: 759 (98,3%). Na época, a reportagem navegou o rio Solimões entre os municípios de Tefé e Uarini, no Amazonas, e acompanhou Ernan Pereira, piloto que apoia organização científica Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, e levou os pesquisadores até as comunidades ribeirinhas impactadas pela falta d’água.

“A gente vive uma realidade [mais surpreendente] a cada ano que se passa, principalmente para quem navega e para as populações ribeirinhas que vivem nessas comunidades, que sofrem bastante com essa estiagem e não estão preparadas”, disse Pereira.

Grandes bancos de areia ocuparam o lugar onde deveria estar o rio, um dos sinais evidentes da falta de chuva. Em menor ou maior intensidade, isso se repetiu em 2024 por toda a região. O Cemaden utiliza uma classificação de acordo com a gravidade da seca (veja os detalhes da metodologia abaixo). Os piores índices são “severa”, “extrema” ou “excepcional”, sendo a última a mais grave de todas. As versões mais “leves” da seca são a “fraca” e a “moderada”.

Saiba mais: Secas e cheias devem tornar-se mais intensas e frequentes na Amazônia, aponta pesquisador

Um único município da Amazônia chegou ao nível de seca excepcional: Tarauacá, no noroeste do Acre. Segundo os dados do Cemaden, a região estava com limites de precipitação, de água disponível no solo e de saúde da vegetação em seus piores níveis.

“É muito raro ver uma seca excepcional, porque a gente faz uma média dos valores dos índices e, no final, essa média suaviza. A gente pega a chuva, pega o solo, calcula os desvios da normalidade e verifica as classes. Em janeiro [de 2025], a previsão é que a precipitação seja dentro do normal, mas, nessa região de Tarauacá, as chuvas ainda podem ser abaixo do esperado”, explica Ana Paula Cunha, pesquisadora do Cemaden que é responsável por fazer o monitoramento da seca.

Leia também: Seca recorde deixa cicatrizes no coração dos amazonenses por dois anos consecutivos

Tarauacá está entre os municípios da Amazônia que passaram o ano todo em seca, com variações entre os níveis, mas sem interrupção. Em janeiro, já estava em seca moderada. A partir de junho, severa; em julho, foi para extrema; em agosto, chegou ao nível excepcional. Depois, voltou para o nível extremo até outubro. Em novembro, recuou para seca severa. Mas em dezembro voltou para seca extrema. Pelo menos uma vez, as cidades sentiram a seca 

Quase todos os municípios amazônicos vivenciaram a versão moderada do problema pelo menos uma vez em 2024: 747 (96,7%). Já a seca severa foi sentida por 486 municípios (63%) e, a extrema, por 74 (9,5%). Em Feijó, no Acre, onde vivem 35 mil pessoas, a população enfrentou, por dez meses, variações de seca entre moderada, severa e extrema.

Cunha afirma que 2024 foi o pior ano para o Brasil em termos de seca: “A vegetação seca, com um solo seco, temperatura alta, baixa umidade. Essas áreas estão mais suscetíveis ao fogo, a propagação dele é mais rápida, a mobilidade também é muito impactada e o abastecimento dos rios leva muito tempo”, explica.

Adolescente deitado na rede às margens de praia que se formou após a seca do rio Solimões. Foto: Jullie Pereira/InfoAmazonia

Em 2024, o déficit de chuvas foi tão grande que os principais rios da bacia do Amazonas tiveram o menor nível da história. A temperatura média da Terra ultrapassou, pela primeira vez, 1,5°C em relação à época pré-industrial, um marco histórico que os cientistas alertam ser fundamental evitar desde o Acordo de Paris, assinado em 2015.

Segundo Cunha, o país não dispõe de um sistema de gestão de risco específico para a Amazônia, o que compromete a eficácia e a rapidez das respostas. A InfoAmazonia buscou analisar qual deve ser o posicionamento dos novos prefeitos eleitos nas cidades que enfrentaram a seca de 2024, a fim de compreender se há perspectivas de uma gestão mais ágil nos próximos anos.

Assim, o levantamento trouxe os dados do Índice de Convergência Ambiental total (ICAt) do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), que avalia o comprometimento de parlamentares em relação ao meio ambiente, com uma posição favorável ou não às pautas sobre o tema. Das cidades que enfrentam seca severa, extrema ou excepcional, 117 (89%) elegeram prefeitos com índice péssimo, ou seja, pessoas contra a causa ambiental. Os resultados também mostraram que os prefeitos pró-meio ambiente reeleitos passaram por secas mais fracas.

Jacaré morto fica preso em galhos de árvore no rio Solimões seco, em setembro de 2024. Foto: Jullie Pereira/InfoAmazonia

O cientista político Marcos Woortmann, diretor adjunto do IDS, explica que há uma falta de gestores públicos capacitados para debater, planejar e executar ideias que criem ações a curto prazo contra a seca. Nos últimos dois anos, a população amazônica ficou à mercê de propostas como distribuição de alimentosenvio de brigadistas e drenagem dos rios, sem projetos que realmente reduzissem definitivamente os impactos dos eventos extremos.

Woortmann afirma, ainda, que é necessário um plano de adaptação em nível municipal para cada um deles. “A Constituição, no seu artigo 170, traz o direito ao meio ambiente saudável como um direito previsto naquela Carta Magna. Essas pessoas estão ali fazendo precisamente o contrário, atuando contra a melhor ciência e contra também os saberes tradicionais, porque populações indígenas, populações ribeirinhas, também têm as suas leituras do meio ambiente”, diz.

E 2025

climatologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden, disse que em 2025 há a previsão de a região sentir os efeitos do La Niña, fenômeno que resfria as águas do oceano Pacífico, mas que ainda não é possível afirmar como ele irá se comportar. “Quando se tem a La Niña, existe uma tendência de seca no Sul e chuvas na Amazônia, mas temos o oceano Atlântico muito quente, que não está favorecendo as chuvas”, diz. O especialista explica que, por isso, a tendência do aumento da temperatura na Amazônia vai continuar.

Urubus invadem praia onde antes havia o rio Solimões, em busca de peixes mortos Foto: Jullie Pereira/ InfoAmazonia

Até julho do ano passado, um outro fenômeno influenciou o clima na região: o El Niño, fenômeno que gera o aquecimento das águas do oceano Pacífico. No entanto, Marengo explica que a seca que ocorreu na Amazônia não é consequência de um único evento isolado.

“A estação seca está ficando mais quente. Durante o El Niño fica pior, mas não é o El Niño a causa. Isso está sendo comprovado por diferentes pesquisas. Algumas das causas são, por exemplo, a variabilidade interdecadal do Pacífico e as oscilações multidecadal do Atlântico. Mas o pano de fundo é o aquecimento global”, diz.

Esta reportagem foi produzida pela Unidade de Geojornalismo InfoAmazonia, com o apoio do Instituto Serrapilheira.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela InfoAmazonia, escrito por Jullie Pereira

Reaprendendo a sonhar

Por Julio Sampaio de Andrade – juliosampaio@consultoriaresultado.com.br

Eu não sei se você concorda comigo, mas percebo que, com o passar do tempo, vamos, aos poucos, desaprendendo a sonhar. As crianças costumam sonhar com tanta facilidade que são capazes de viver maravilhosas fantasias com seus super-heróis, elas mesmas ocupando o papel de super-homens e supermulheres. Algumas criam até um amiguinho invisível com quem conversam e brincam, e que depois desaparece.

Quando jovens, nossos sonhos são outros. Qual é o seu sonho? Fizemos esta pergunta para uma turma do programa “Jovem, o que te fará feliz?” do MCI, em uma escola pública com alunos entre 14 e 16 anos. “Meu sonho é ser um jogador de futebol, rico e famoso”, disse um. Uma menina respondeu: “meu sonho é ser a primeira pessoa da família a me formar”. Houve até um menino que nos emocionou quando falou: “meu maior sonho é dar para a minha mãe tudo que ela merece e que nunca teve”. Em um outro grupo, de crianças vulneráveis, os sonhos custaram a aparecer. A realidade deles era dura e não aprenderam a sonhar. Ou melhor, desaprenderam antes mesmo de aprender.

No meu caso, lembro que, desde cedo, sonhava em ter uma namorada e isto era uma coisa muito importante, muito séria. Depois, sonhei em ser um médico bem-sucedido, andar de jaleco branco e ser chamado de doutor. Também sonhava em salvar vidas, mas isto vinha em segundo plano. Sonhei em ser um escritor e viver disso, começando a escrever um livro aos 12 ou 13 anos, que nunca foi concluído. Depois o sonho era entrar em uma faculdade pública, montar o meu próprio negócio e ser independente. Quando me casei, o sonho era mais da noiva do que meu, mas sonhava em sermos felizes juntos com nossas filhos ou filhas. Como executivo, o sonho era crescer na carreira, liderar milhares de pessoas e gerar muitos empregos. Quem sabe um dia estar na capa da Revista Exame? Senti o gosto de ajudar pessoas e sonhei fazer diferença para bastante gente, milhares ou milhões de pessoas. Sonho que o movimento Felicidade Consciente ganhe força e contribua significativamente para um mundo melhor.

Alguns sonhos que tive nasceram e morreram. Vários se tornaram realidade. Outros ficaram pelo caminho ou foram sendo transformados em outros sonhos. Todos foram importantes porque ajudaram a manter acesa a chama que somente o sonho é capaz de fazer. Sem o sonho, tudo fica cinza, sem sabor, sem cheiro, sem beleza.

Saber disso me ajuda a, conscientemente, combater o excessivo realismo que nos faz desaprender a sonhar. Sinto que o tempo me fez ser mais realista. A razão é positiva, mas ela não pode reinar absoluta. É como a combinação das forças de Yang e Yin. Neste caso, racionalidade e imaginação ou realidade e esperança.

A idade, por exemplo, pode nos levar a pensar que há pouco tempo para realizar alguma coisa, mas o sonho pode nos lembrar que é possível e que podemos fazer a nossa parte e confiar no Universo. Que coisas mágicas ocorrem quando conseguimos fazer isto. Lembrar que cada um de nós já viveu a experiência de sonhos que se transformaram em realidade, contrariando tudo o que parecia lógico. A propósito, você seria capaz de se lembrar de algumas destas situações em sua vida?

É no invisível mundo dos sonhos onde as coisas mais importantes começam a existir. É preciso reaprender a sonhar.

Sobre o autor

Julio Sampaio (PCC,ICF) é idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute, diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching e autor do livro Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital). Texto publicado no Portal Amazônia e no https://mcinstitute.com.br/blog/.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Apenas 3% do Fundo Amazônia são destinados a organizações indígenas 

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Foto: Edgar Kanaykõ/Apib

Apenas 3% dos 119 projetos aprovados (4 no total) em 17 anos do Fundo Amazônia foram geridos por organizações indígenas. Criada em 2008, a iniciativa investiu um total de R$ 2,9 bilhões em ações de prevenção, monitoramento e combate ao desmatamento, com foco nos estados da Amazônia Legal. Desse montante, menos de 2% (R$ 56,7 milhões) foram destinados diretamente a entidades lideradas por povos indígenas.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que é o Fundo Amazônia?

A principal política orientadora do fundo é o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), cujo objetivo é criar um modelo de preservação ambiental mais efetivo. As organizações indígenas já cumprem esse papel, fortalecendo a proteção dos territórios. Apesar disso, sentem dificuldade em acessar os recursos.

Com base nos dados públicos divulgados pelo Fundo Amazônia, a InfoAmazonia analisou a distribuição dos recursos até 2024. Organizações do terceiro setor tiveram 70 propostas financiadas e receberam a maior parte dos recursos: R$ 1,4 bilhão (48% do total), sendo R$ 760 milhões investidos nos últimos dois anos. No entanto, as associações indígenas receberam apenas 4% desse total destinado à filantropia.

O gestor ambiental Kleber Karipuna, coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), afirma que o principal motivo para o baixo acesso das associações aos investimentos está ligado à documentação exigida: “as regras estabelecidas foram muito complexas, a ponto de bloquear o acesso das organizações indígenas”, diz.

Existem cinco etapas a serem cumpridas para ter uma proposta aprovada: solicitação de apoio, pré-avaliação, elegibilidade, análise, aprovação e contratação. Logo na primeira etapa, é necessário preencher um documento de 26 páginas e entregar uma planilha orçamentária para os custos dos produtos, recursos humanos e cronograma de execução. Já a segunda inclui, por exemplo, a apresentação de certidões negativas de irregularidades fiscais e a necessidade de experiência comprovada na gestão de valores altos.

Toya Manchineri, coordenador-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), diz que entende que o “Estado tem a política dele”, mas que também precisa “incorporar essas realidades [indígenas], porque, senão, a gente não vai conseguir desenvolver projetos que realmente possam fortalecer as iniciativas dos povos”.

Como uma possível solução, Adriana Ramos, secretária executiva do Instituto Socioambiental (ISA), que foi representante da sociedade civil no Fundo Amazônia por 14 anos, propõe a criação de um mecanismo específico para alcançar as comunidades indígenas. “Como um instrumento financeiro de uma política pública, esse acesso deveria estar dentro, talvez, de um guarda-chuva em que algum outro recurso, fosse do próprio BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], fosse do Poder Público, apoiasse diretamente o fortalecimento dessas instituições”, defende.

A reportagem procurou o BNDES, responsável pela administração do fundo. O banco ressaltou a presença das organizações indígenas, mencionando a entrada do Ministério dos Povos Indígenas (MPI) no Comitê Orientador do Fundo Amazônia (COFA), que ocorreu em 2023, e a permanência da Coiab. Também explicou que houve ampliação do acesso das organizações indígenas após a chamada pública de projetos para implementação da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI).

Leia também: BNDES e BID firmam convênio para investir em restauração de florestas estaduais na Amazônia

Também informou que, nos últimos dois anos, R$147 milhões foram destinados a projetos com foco em povos indígenas. No levantamento da InfoAmazonia, no entanto, foi levado em conta apenas o dinheiro diretamente gerido pelas comunidades, por isso a diferença entre os valores. O banco não respondeu se deve criar novos mecanismos de acesso às organizações, nem explicou a necessidade das medidas burocráticas no processo de seleção. Veja a resposta completa aqui.

Onde estão as organizações indígenas contempladas?

 As quatro organizações indígenas que tiveram projetos aprovados estão localizadas nos estados do Acre, Pará, Mato Grosso e Rondônia. São elas: Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ); Associação Floresta Protegida (AFP), do povo Kayapó; Associação Ashaninka do Rio Amônia (Apiwtxa); e Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé.

Outras entidades indígenas, embora não sejam as principais gestoras dos projetos, são beneficiadas por parcerias com instituições da sociedade civil. A Coiab, por exemplo, colabora em uma iniciativa aprovada pela Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) e outra pela The Nature Conservancy do Brasil (TNC Brasil). Ambos os projetos têm o objetivo de contribuir para a Política Nacional de Gestão Ambiental e Territorial de Terras Indígenas.

Dessa forma, mais projetos indígenas passam a ter acesso aos recursos, mas eles defendem a importância do financiamento direto às comunidades. “As parcerias muitas vezes são necessárias e as utilizamos para mostrar aos financiadores que também somos capazes e temos condições de administrar. É uma forma de consolidar nossa presença com eles”, explica Toya Manchineri.

Na tentativa de seguirem suas próprias metodologias, as organizações indígenas também criam, elas mesmas, os seus fundos. O Podaáli – Fundo Indígena da Amazônia Brasileira– foi criado pela Coiab, mas hoje é administrado por uma diretoria independente, que faz a captação de recursos para, depois, destiná-los aos projetos apresentados por coletivos menores de comunidades em todas as Terras Indígenas da Amazônia.

“Com o Podaáli, a gente facilita mais a comunicação com os povos, ensina como construir os projetos, orienta como gastar o recurso. Realmente, torna mais acessível. Foi essa a maneira que a gente encontrou de facilitar para que todos os parentes consigam construir propostas”, explica Toya Manchineri.

Em Roraima, Josimara Baré tenta estruturar o Fundo Rutî dentro do Conselho Indígena de Roraima (CIR), que tem 54 anos de existência, mas que só agora está construindo uma ferramenta própria de captação de recursos. Antes, Josimara dedicou três anos do seu tempo à consolidação do Fundo Indígena do Rio Negro (FIRN), da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN).

“Os fundos indígenas, para mim, significam um grande avanço, uma grande conquista do movimento em relação a esse empoderamento, a essa valorização dos profissionais e às demandas indígenas também. São fundos pensados, elaborados, executados e geridos por indígenas. Então, esse é um grande diferencial. Nós estamos fazendo, nós pensamos, nós criamos, nós estamos colocando em prática aquilo que a gente planejou”, diz.

Para estruturar o Fundo Rutî, Josimara está fazendo uma série de visitas às comunidades indígenas de Roraima, entendendo os projetos que são possíveis, as demandas das populações, os pontos fortes e as capacitações que ainda são necessárias. O objetivo do fundo é garantir a autonomia dos povos e a preservação do território. É a partir desses projetos que os indígenas propõem ações de conservação, seja para impedir o desmatamento, seja para restaurar florestas degradadas.

“Estamos protegendo o território através dessas iniciativas, estamos fazendo ações para o bem-estar, para o bem-viver das pessoas. Então, é outra visão de mundo. Para eles [não indígenas], eu imagino que só veem números, números e números. Para nós, não. A gente vê vida. É muito diferente”, explica.

Investimento fora da sociedade civil 

A União, municípios, estados, universidades e instituições internacionais dividiram o restante do valor não destinado à sociedade civil: R$ 1,5 bilhão.

O projeto mais caro foi proposto pela União. O Plano Amas – Amazônia: Segurança e Soberania, do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), recebeu o maior valor desde a criação do fundo. Aprovado em 2023, ele tem um apoio de R$ 318 milhões, com execução até 2027. Seu objetivo é fortalecer autoridades policiais nos nove estados da região, incluindo a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e a Força Nacional.

O Fundo Amazônia também financia propostas de combate ao desmatamento fora da Amazônia Legal. Ao longo da sua história, isso ocorreu cinco vezes. Os estados da Bahia, Mato Grosso do Sul, Ceará e Paraná receberam, juntos, R$53,7 milhões, usados para a implementação do Cadastro Ambiental Rural (CAR), política nacional de registro de propriedades rurais. A Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), que reúne países amazônicos, entre eles a Bolívia, Equador, Colômbia, Guiana, Peru, Suriname, Brasil e Venezuela, recebeu R$ 23,6 milhões.

Fortalecimento do terceiro setor 

O Fundo Amazônia passou por um baque inédito durante o governo de Jair Bolsonaro. No primeiro ano, em 2019, recebeu o menor recurso desde a sua criação: R$ 39,1 milhões. Depois, ficou suspenso entre 2020 e 2022, com os trabalhos sendo retomados no atual governo Lula. Em 2023, o terceiro setor foi a única categoria a receber recursos, somando R$ 131,9 milhões. Em 2024, parte do dinheiro também foi destinada a outros dois setores: os estados e a União, totalizando R$ 1,1 bilhão.

“Os Estados democráticos são pensados para ter uma atuação conjunta. Nos países mais desenvolvidos, a sociedade civil é mais ativista, no sentido de cobrar do Estado, mais do que executar esse trabalho. No Brasil, temos outro contexto. Quando falamos de áreas mais remotas e de temáticas como meio ambiente, não há políticas estruturantes e universalizantes pensadas para essas regiões. Então, de fato, a própria sociedade precisa se organizar para que isso aconteça, para reivindicar”, explica Ramos.

Entre as entidades que mais tiveram acesso estão a Conservation International do Brasil (CI-Brasil), com R$ 198,2 milhões, o Instituto Brasileiro de Administração Municipal (Ibam), com R$ 168,8 milhões, e a Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), com R$ 150 milhões — todas com sede no Rio de Janeiro.
 

Esta reportagem foi produzida pela Unidade de Geojornalismo InfoAmazonia, com o apoio do Instituto Serrapilheira

*O conteúdo foi originalmente publicado pela InfoAmazonia, escrito por Jullie Pereira

Boi Caprichoso se une a projeto de conservação do Ministério do Meio Ambiente, PNUD e Ipaam

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Foto: Pitter Freitas

O Boi-Bumbá Caprichoso reforçou seu compromisso com a Amazônia ao apoiar uma iniciativa que valoriza aqueles que ajudam a manter a floresta em pé. No dia 16 de fevereiro, o bumbá participará do lançamento do mutirão de regularização ambiental e da inscrição de 368 agricultores familiares parintinenses no edital do Projeto Floresta + Amazônia. A ação assegura incentivos financeiros a quem protege a vegetação, com valores que variam entre R$ 1.500,00 e R$ 28 mil.

O presidente Rossy Amoêdo e membros do Conselho de Arte receberam, no dia 31 de janeiro, o coordenador de Planejamento Estratégico do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), Sheron Vitorino, e a coordenadora do Centro Multifuncional de Parintins, Fabiana Campelo. Durante a visita, foi discutida a organização do mutirão de regularização do Cadastro Ambiental Rural (CAR), que acontecerá de 16 a 23 de fevereiro.

O presidente destacou a importância do projeto para o município e a sintonia da iniciativa com os valores defendidos pelo Caprichoso.

“São mecanismos e ferramentas que vêm somar à bandeira que o Caprichoso já leva para dentro da arena. Nada mais justo do que poder ajudar o trabalhador rural, que mantém a floresta em pé, tira o seu sustento e, ao mesmo tempo, preserva e cuida. São projetos como esse que merecem nossa total atenção e apoio, e o Caprichoso sempre estará disponível para contribuir com a comunidade e com a preservação ambiental”, afirmou Amoedo.

Foto: Pitter Freitas

O coordenador do Ipaam, Sheron Vitorino, celebrou a parceria com o Boi Caprichoso e reforçou o impacto do projeto. “Estamos sendo recebidos com muito carinho, e é um prazer ter o Boi como parceiro nesse projeto tão importante. O apoio financeiro aos produtores rurais que mantêm suas florestas preservadas é fundamental, e a participação do Boi, como ícone cultural, agrega um valor imenso a essa ação. O Caprichoso tem se destacado não só na questão ambiental, mas também na segurança do trabalho e outras áreas, e é um prazer contar com a sua generosidade e disponibilidade para essa pauta”, disse.

O Projeto Floresta + Amazônia é uma iniciativa do Ministério do Meio Ambiente e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), em parceria com a Prefeitura de Parintins, por meio da Secretaria Municipal de Produção Rural. Com a união de esforços entre todas as instituições envolvidas, a ação busca fortalecer a preservação ambiental e assegurar um futuro mais sustentável para a região amazônica.

Tradição e sustentabilidade marcam parceria de Marcelo Rosenbaum com indígenas Yawanawá

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Foto: Felipe Freire/Secom AC

A vivência e os conhecimentos das comunidades indígenas despertam fascínio em muitas pessoas ao redor do mundo, e com Marcelo Rosenbaum não foi diferente. O renomado arquiteto brasileiro esteve presente na 5ª Conferência Indígena da Ayahuasca, realizada na Aldeia Sagrada Yawanawá, no Alto Rio Gregório, no Acre, reafirmando seu compromisso com os povos originários e suas tradições.

Leia também: 5ª Conferência Indígena da Ayahuasca reúne lideranças para proteção de saberes tradicionais no Acre

Rosenbaum é também professor, designer, comunicador e palestrante. Fundador e presidente do Instituto A Gente Transforma, desde 2011 busca ressignificar espaços e valorizar saberes ancestrais. Seu trabalho já passou por diversas instituições e empresas, como a estruturação de ativações para o banco Itaú, no Rock in Rio, e a criação de lojas para a marca de moda Farm.

Projetos na Aldeia Sagrada

Sua contribuição para a Aldeia Sagrada Yawanawá é significativa, pois ele esteve envolvido na idealização de três importantes estruturas locais. A mais relevante delas é o shuhai, centro cerimonial situado no coração da aldeia, onde acontecem os principais encontros da comunidade. Construído em parceria com a ITA Engenharia, o espaço possui 855 metros quadrados e 33 metros de diâmetro.

 Foto: Felipe Freire/Secom AC

Além disso, Rosenbaum colaborou na concepção do Complexo Y, um espaço de hospedagem projetado para acolher 250 pessoas durante o evento. Com uma extensa área externa onde são preparadas e servidas refeições comunitárias, o local tem 1.877 metros quadrados e está destinado a se tornar a Universidade dos Saberes Ancestrais Yawanawá.

Foto: Felipe Freire/Secom AC

E outra obra trabalhada pelo olhar experiente de Rosenbaum na aldeia é a casa da filha do cacique, projetada com módulos replicáveis para facilitar sua expansão e aplicação em outras moradias. Cada uma dessas construções reflete um projeto mais amplo, que visa não apenas criar espaços físicos, mas também fomentar práticas sociais, culturais e econômicas que garantam um futuro promissor para as próximas gerações de Yawanawá.

A construção dessas estruturas foi um processo coletivo, no qual os próprios Yawanawás, organizados de maneira autônoma, trabalharam ao lado de arquitetos e engenheiros. O protagonismo indígena foi essencial: foram eles que construíram, exercendo e aprimorando seus conhecimentos arquitetônicos, acumulando saberes que serão transmitidos para as futuras gerações.

Foto: Felipe Freire/Secom AC

A arquitetura como ferramenta de transformação

Marcelo Rosenbaum destaca que esse trabalho é resultado de uma relação de 14 anos com a comunidade Yawanawá, especialmente com o cacique Biraci Brasil e sua família. Essa longa jornada permitiu o amadurecimento de ideias e experimentações até que se chegasse a um modelo ideal de construção para a aldeia. O arquiteto enfatiza a importância de aprender com os povos indígenas e de contribuir para a preservação não apenas de suas moradias, mas de todo o ecossistema em que vivem.

Foto: Felipe Freire/Secom AC

“Tenho trabalhado em muitos territórios indígenas e busco aprender sempre ao máximo. Nunca trago uma tese ou um conceito pronto. São os próprios povos que detêm o conhecimento e, a partir dele, construímos de maneira colaborativa. Eles são os verdadeiros guardiões da floresta. E em meio ao colapso ambiental e à crise climática, vejo essa troca como uma forma de aprendizado e contribuição”, diz Marcelo.

Foto: Felipe Freire/Secom AC

Seu trabalho é motivado pela máxima de arquitetura e design como ferramentas de transformação social, com uma atuação próxima a comunidades indígenas de todo o Brasil. Além do Acre, ele já desenvolveu projetos indígenas em outras localidades como um conjunto de edificações em Itarema, no Ceará, para o povo Tremembé. Ele também desenvolveu a sede do Conselho Indígena de Roraima, em Boa Vista.

Um espaço de valorização cultural e identitária

O líder Yawanawá e anfitrião da 5ª Conferência, cacique Biraci Brasil, destaca que toda a infraestrutura foi pensada para proporcionar um espaço digno e adequado ao evento, que é um momento fundamental de deliberação sobre os usos, costumes e compartilhamento de saberes das medicinas tradicionais. 

Ele levanta: “Fizemos essa frutífera parceria com Rosenbaum para proporcionar um local confortável de vivência, com uma estrutura que prova que conseguimos viver muito bem na floresta. Eu quis semear neste local de tanta importância um espaço de amor ao próximo e de resgate da autoestima para as novas gerações indígenas”.

Foto: Felipe Freire/Secom AC

O trabalho de Marcelo Rosenbaum junto aos Yawanawá revela uma síntese entre arquitetura, sustentabilidade e respeito às tradições ancestrais. Seu projeto não apenas ergue estruturas, mas também fortalece identidades e possibilita que o conhecimento dos povos originários continue vivo e pulsante para as gerações futuras.

*Com informações da Agência Acre

Homenagem: rezadeira que se dedica a curar pessoas há 50 anos no Acre ganha curta-metragem

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Foto: Cleiton Lopes/Secom AC

Assim como em outros estados do país, o Acre tem em suas raízes e sua história mãos de rezadeiras, tradição cultural em que se envolve rituais de benzedura e cura para restabelecer e proteger uma pessoa. Com o intuito de retratar esse conhecimento tradicional e preservar essas memórias, o curta-metragem ‘Vou rezando e vou cantando’, em 11 minutos, homenageia Cândida de Oliveira Braga Rocha, que há 50 anos se dedica à reza, uma prática que aprendeu com seus pais e também com o mestre Irineu Serra, fundador da doutrina baseada no uso de Ayahuasca e princípios cristãos, aos quais ela também é seguidora há 60 anos.

Leia também: Pesquisas revelam benefícios do uso de Ayahuasca em tratamentos terapêuticos

Ela conta que hoje em dia a busca pela reza ainda é muito grande, principalmente porque os benzedores estão cada vez mais escassos. Meio século dedicado ao altruísmo de servir outras pessoas sem esperar nada em troca.

Por dia, ela atende cerca de seis pessoas, que buscam nos conhecimentos tradicionais o restabelecimento para algum mal, seja ele “quebrante”, “cobreiro” ou “vento caído”, segundo as expressões populares.

“Quase não existe mais rezador e, por isso, as pessoas procuram muito. É um conhecimento que passa de geração para geração, mas tentei passar para as minhas filhas e elas não quiseram, porque têm consciência da responsabilidade e também a reza é um dom”, explica dona Cândida.

Foto: Cleiton Lopes/Secom AC

Fé na cura e inspiração

Seguindo a crença popular, às margens do Igarapé São Francisco, munida com galhos de manjericão ou pinhão roxo, ela sussurra a reza e dá a bênção, e ali estabelece-se uma ligação espiritual.

“Rezo até 8h da noite. Depois disso, só se a pessoa está muito precisada, aí rezo. Outra coisa: reza não é paga. Deus nos deixou o dom e não podemos receber por ele”, completa.

No dia da exibição do filme no Acre (2 de fevereiro), dona Cândida completou 69 anos e comemorou o reconhecimento: “Fico muito feliz e estou muito animada”.

A jornalista Katiúscia Miranda Silva assina o roteiro e a direção do curta-metragem, que traz ainda o publicitário Marcus Ramon na direção fotográfica e a equipe da Imaginarium Company. O trabalho foi feito com recursos da Lei Paulo Gustavo em parceria com a Fundação de Cultura Elias Mansour (FEM).

Ela explica que a ideia surgiu com o intuito de ressaltar a relevância cultural das rezadeiras, valorizando uma herança rica e enraizada nas práticas de cura e espiritualidade.

“Uma coisa legal de se destacar é que esse projeto, financiado pela Lei Paulo Gustavo, foi inspirado também na história dele, que fez a passagem no ápice da covid, e dona Cândida passou pelo mesmo processo, os médicos chegaram a desenganá-la, mas ela se agarrou à sua fé e teve a oportunidade a mais para contar sua história”,  relembra.

Ao saber que a rezadeira completou meio século dedicado a ajudar as pessoas, ela não teve dúvida que queria registrar essa história. “Fui me aprofundando na história dela e achei justa essa homenagem para uma senhora que dedicou a vida a curar tantas pessoas”.

Tradições fundamentais

O presidente da FEM, Minoru Kinpara, destacou que em estados da Amazônia a figura do rezador sempre foi importante para a saúde como um todo, pois em comunidades mais distantes, às margens de rios, seringais ou até locais de difícil acesso, os curandeiros eram o alento dessa população.

Além disso, ele reforça que esse tipo de trabalho desenvolvido com incentivos culturais preservam a história do estado e fortalecem o sentimento de pertencimento.

“Nós ficamos imensamente felizes em colocar o recurso para poder exatamente fazer com que as pessoas conservem, que as pessoas divulguem, investiguem, as pessoas propaguem ainda mais a nossa cultura por meio de diversos segmentos, diversas manifestações culturais. E essas nossas tradições são fundamentais, até para que a nossa população, inclusive a população mais jovem ainda, que está em formação, possa conhecer”, disse.

Quando uma tradição é divulgada, a identidade está contida naquele contexto, fazendo com que a cultura seja revigorada, acredita ele.

“A cultura engloba a nossa fé também. A gente sabe que nem sempre tivemos hospitais à disposição e muitas vezes nossa população foi buscar esperança a cura nessas pessoas, que além de fazer suas rezas com esses rituais tradicionais, sempre demonstrou amor, muito carinho e respeito pela preservação da vida”, pontua.

Leia também: Mulheres da terra: Conheça o trabalho de benzedeiras, parteiras e rezadeiras em comunidades do Amazonas

Foto: Cleiton Lopes/Secom AC

Mestre da Cultura

No ano passado, Cândida de Oliveira Braga Rocha foi reconhecida pelo Prêmio Mestres da Cultura Popular do Acre, que destinou R$ 1,1 milhão para mestres e mestras por meio da Lei Paulo Gustavo (LPG). Ela foi beneficiada na categoria Mestre De Comunidades Tradicionais Ayahuasqueiras.

Começou a rezar aos 18 anos, e foi no Santo Daime que encontrou sua base para ajudar a curar doenças. Nos dias atuais, continua como fiel seguidora da doutrina fundada pelo Mestre Raimundo Irineu Serra e participa assiduamente dos trabalhos no Ceflimmavi. Na doutrina, recebeu um hinário composto por nove hinos que são cantados em trabalhos e festas da igreja.

Assista:

Vídeo: Reprodução/YouTube-Vou rezando e vou cantando

*Com informações Agência de Notícias do Acre

Ufam e museu de Chicago assinam acordo de cooperação técnica com foco em tecnologias de pesquisa

Foto: Valérie Chansigaud/Wikimedia Commons

A Universidade Federal do Amazonas (Ufam) firmou parceria interinstitucional com o Field Museum of Natural History, localizado em Chicago, no estado norte-americano de Illinois. Por meio desse acordo de cooperação técnica, as instituições executarão o projeto de pesquisa ‘Tecnologias de pesquisa novas e rápidas para capturar padrões e fatores que impulsionam a biodiversidade das florestas tropicais’, com atividades previstas até junho de 2029.

De modo específico, o projeto tem os objetivos de viabilizar o intercâmbio de dados e informações; promover cursos, treinamentos e eventos de capacitação de pessoas vinculadas às duas instituições; e realizar estudos técnico-científicos voltados à produção de dados e informações. Para a execução das atividades descritas, o acordo prevê o respeito mútuo das legislações vigentes e aplicáveis a cada entidade, em consonância com o Plano de Trabalho aprovado pela Ufam e pelo Field Museum para os 60 meses de vigência.

Os resultados da parceria técnico-científica, que poderão ser produtos e documentos, serão de propriedade da Ufam e do Field Museum, além outras instituições envolvidas nas ações. A professora Izeni Pires Farias, do Departamento de Genética do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) é a responsável por coordenar e acompanhar as atividades planejadas no âmbito da Universidade. Por outro lado, o pesquisador Lesley de Souza, vinculado ao Departamento Collections, Conservation and Research do museu norte-americano. Ambos devem orientar os trabalhos conjuntamente, avaliando os programas a serem desenvolvidos.

Segundo Izeni Farias, a nova colaboração representa um avanço significativo para a pesquisa científica, especialmente no que se refere ao estudo da biodiversidade das florestas tropicais.

“Com a utilização de novas e rápidas tecnologias de pesquisa, essa cooperação interinstitucional visa aprofundar o conhecimento sobre os padrões e fatores que impulsionam a diversidade biológica da Amazônia. Espero que vários alunos (graduação e pós-graduação) de ambas as instituições tenham projetos desenvolvidos no âmbito desta parceria. Pois a formação de recursos humanos qualificados é um dos principais objetivos”, explica ela.

Planejar, executar, avaliar e documentar

Como detalhado no documento, o escopo do projeto inclui o intercâmbio de dados e informações, a realização de estudos técnico-científicos e a promoção de cursos e treinamentos. “Dessa forma, o projeto interinstitucional permite não apenas a geração de conhecimento acadêmico, mas o fortalecimento de redes de pesquisa e o desenvolvimento de capacidades técnicas para estudantes e profissionais envolvidos”, afirma a docente do ICB.

“A minha atuação como coordenadora pela Ufam consiste em planejar, acompanhar e executar as atividades previstas no acordo. Isso inclui a supervisão dos estudos desenvolvidos para garantir a conformidade com os objetivos propostos e o cumprimento das normas legais aplicáveis. Estarei envolvida na organização de eventos de capacitação, como cursos e treinamentos, facilitando o intercâmbio entre pesquisadores das duas instituições. Além disso, participarei da elaboração de relatórios técnicos e científicos, com a missão de assegurar a documentação e o compartilhamento dos produtos e documentos resultantes entre as partes”, enumera.

O monitoramento contínuo das atividades e a avaliação dos resultados, segundo ela, é que garantirão o sucesso do trabalho, já que permitem observar de modo eficaz o alcance dos objetivos propostos e fortalecem o conhecimento e a pesquisa sobre a biodiversidade tropical, ponto central da iniciativa.

A professora recorda ainda que essa parceria também reforçará ainda mais a visibilidade internacional da Ufam como promotora de pesquisas sobre a biodiversidade da região amazônica. “Inclusive, esta relação que já rendeu excelentes resultados. Toda a equipe participou na competição do XPRIZE Rainforest, da qual foi vencedora”, finaliza a coordenadora.

*Com informações da Ufam

Educação ambiental aproxima estudantes do maior manguezal do planeta

Foto: Divulgação/Projeto Mangues da Amazônia

Ajuru, turu e caranguejo-uçá são espécies de frutos e animais que fazem parte da cultura alimentar e da economia da maior faixa contínua de manguezal do mundo. São tão presentes no dia a dia dos moradores de Bragança, no estado do Pará, que é bem comum receber um convite para tomar um caldo do molusco turu, ou para catar ajuru, um fruto rosado e doce, na praia.

Leia também: Conheça os manguezais da Amazônia, o maior cinturão de manguezais do mundo

Localizada na chamada Região do Salgado, no nordeste do estado, a cidade da Amazônia também está às margens do Oceano Atlântico e por isso mistura as paisagens da floresta com a vida marinha, resultando em uma natureza única no planeta: um manguezal que se estende desde a costa do estado do Pará até o Maranhão, por 679 quilômetros. É a maior extensão contínua desse ecossistema do planeta.

Segundo o pesquisador Marcus Fernandes, coordenador do Laboratório de Ecologia dos Mangues, da Universidade Federal do Pará (UFPA), a presença abundante desse ecossistema costeiro posiciona o Brasil como o segundo país com a maior área de manguezal do mundo, atrás apenas da Indonésia. E a costa amazônica, que inclui os estados do Amapá, Pará e Maranhão, concentra mais de 80% dessas áreas.

“É uma região extremamente diferenciada, porque tem uma bacia hidrográfica muito grande de água doce e aí diferencia muito dos outros manguezais da costa brasileira. Da costa Nordeste, que tem uma bacia fluvial menor, da costa Sudeste e da costa Sul”, explica.

De acordo com Fernandes, o grande volume de água doce carrega sedimentos e nutrientes que tornam esse ecossistema único na Região Norte do país.

Brasília (DF) 28/01/2025 - Educação Ambiental aproxima estudantes do maior manguezal do planeta.
Foto: Projeto Mangues da Amazônia/Divulgação
Foto: Divulgação/Projeto Mangues da Amazônia

“Aqui, a gente tem uma alta conectividade com diferentes sistemas. Conectividade tanto com os recifes de coral, os corais amazônicos que se descobriu desde a década de 70, conectividade com todo um outro tipo de floresta de novos ecossistemas como várzeas de maré, igapós, terra firme, restingas e outros sistemas que são florestados e são tão ricos também em diversidade, tanto de fauna quanto de flora”, destaca.

Vivência

Apesar de o Brasil estar entre os 15 países com as maiores zonas costeiras do mundo e ter mais da metade da população, 54,8%, vivendo no litoral, conhecer um mangue ainda é uma experiência para poucos. Aos 17 anos, Maria Eduarda Mendes mora no litoral, cresceu vendo o mar de Bragança, mas durante toda a infância só conhecia os manguezais pelas histórias que o avô e o tio pescadores contavam.

Em 2024, quando cursava o 1º ano no ensino médio, participou do Escola Vai ao Mangue, um projeto de educação ambiental promovido pelo Instituto Peabiru, uma organização da sociedade civil de interesse público (Oscip), e com apoio da Petrobras. Ao conhecer detalhes do ecossistema de água salobra, com uma biodiversidade diferente da floresta e também do mar, Maria Eduarda pôde sentir a textura da lama, ver as longas raízes da vegetação e aprender sobre os animais que trazia na memória de cada história ouvida.

“Quando a gente veio de lá, quando eu voltei, eu cheguei contando para todo mundo aqui de casa o quanto foi divertido e o quanto eu queria poder vivenciar isso cada vez mais”, lembra.

Brasília (DF) 28/01/2025 - Educação Ambiental aproxima estudantes do maior manguezal do planeta.
Foto: Projeto Mangues da Amazônia/Divulgação
Foto: Divulgação / Projeto Mangues da Amazônia

Segundo o coordenador do Escola Vai ao Mangue, Madson Galvão, o projeto é parte de um programa de educação maior chamado Mangues da Amazônia, que, somente em 2024, recebeu a visita de cerca de 2 mil alunos e 300 professores, de 29 escolas e duas instituições de ensino superior.

“Muitos desses estudantes veem a Amazônia só como uma floresta de terra firme. Mas não, a gente tem uma outra faixa, com outra feição, que é a Amazônia costeira, onde estão o ecossistema manguezal e o ecossistema marítimo. Então, quando eles chegam nessa Amazônia, eles veem as conexões dos nossos rios com a floresta, com o manguezal e o mar”, explica Madson Galvão.

Expansão

Em 2025, ano em que o Pará sediará a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), em Belém, em novembro, os organizadores do projeto esperam expandir a capacidade e alcançar mais estudantes.

Eles já planejam o encaminhamento de propostas de educação ambiental para a 1ª Conferência Internacional Infantojuvenil sobre Educação e Mudança do Clima, um encontro preparatório da COP, que também ocorrerá na capital paraense, entre 7 e 21 de março.

Imersão

Para Marcus Fernandes, as aulas a céu aberto são experiências sensoriais, científicas e de conscientização sobre a importância do manguezal para proteção da zona costeira, segurança alimentar da população local e capacidade de estocar carbono e proteger o planeta das mudanças climáticas.

“O manguezal tem a capacidade de estoque superior à da terra firme, de duas a três vezes mais. Isso é importante para o efeito de equilíbrio ambiental”, explica.

Na vivência, à medida que os estudantes interagem com o ecossistema, as espécies são apresentadas.

“A gente mostra como identificar as três mais dominantes: a Rhizophora mangle, o mangue-vermelho; a Avicennia schaueriana, o mangue-preto, e a Laguncularia racemosa, o mangue-branco. Então a gente trabalha a associação delas com o sedimento, e a partir daí a gente já vai entrando na fauna, porque é no mangue-vermelho, com solo mais lamoso e fácil de construir galerias e tocas, que o caranguejo tem uma maior distribuição associada”, detalha o coordenador do projeto.

Além de aprenderem sobre a distribuição dos manguezais na Amazônia e as espécies da fauna e da flora desse ecossistema, os estudantes participam do plantio de mudas para reflorestamento em áreas de manguezais degradadas.

“É muito incrível saber que a gente plantou coisas novas no mangue e quando eu passar de novo por lá, para ir à praia por exemplo, eu vou ver o quanto estará grande”, diz Maria Eduarda.

Brasília (DF) 28/01/2025 - Educação Ambiental aproxima estudantes do maior manguezal do planeta.
Foto: Projeto Mangues da Amazônia/Divulgação
Foto: Divulgação / Projeto Mangues da Amazônia

A partir das iniciativas de educação ambiental, o programa já recuperou 16 hectares de manguezal da Amazônia, onde o retorno dos caranguejos é monitorado e a variabilidade genética das espécies é estudada para identificação de sementes mais resistentes e que garantam maior sucesso em reflorestamentos futuros.

A interação com pescadores e extrativistas soma à experiência os saberes tradicionais, da economia e cultura alimentar regional.

“É uma atividade que traz aprendizagens que são interdisciplinares, porque a gente vai lidar com uma série de temas lá dentro. Ciências, geografia, cultura local. A gente vai lidar com conhecimento da relação entre o meio ambiente e as pessoas e a sociedade”, conclui Fernandes.

*Com informações da Agência Brasil

Planta anti-inflamatória, algodão roxo se adapta na Amazônia e ajuda parteiras

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Foto: João Medeiros/Flickr

O algodão roxo (Gossypium hirsutum L.) é uma espécie de arbusto da família Malvaceae, amplamente reconhecida por sua fibra felpuda branca e por suas propriedades medicinais. Originário de regiões tropicais e subtropicais, o algodoeiro roxo é uma planta exótica na Amazônia, onde é utilizado tanto para fins ornamentais quanto terapêuticos. A planta pode atingir até sete metros de altura e apresenta folhas grandes, geralmente com três, cinco ou sete lobos.

Em comunidades tradicionais, como na Vila do Areal, em Santa Maria do Pará (PA), o algodão roxo tem sido amplamente utilizado na medicina popular. O xarope feito das folhas é empregado para tratar catarro no peito, tosse e gripe. Há também relatos do uso das folhas, flores e cascas em conjunto como diurético e no combate à asma. Além disso, as sementes e folhas são conhecidas por suas propriedades contra a tosse.

Entre os princípios ativos da planta, destaca-se o gossipol, um aldeído triterpenoide com propriedades antitumorais, inseticidas e antimicrobianas.

Flor do Algodão Roxo. Foto: Reprodução/Amazon Sat

Principais Benefícios

  • Diurético
  • Digestivo
  • Anti-inflamatório
  • Antimicrobiano
  • Inseticida
  • Antitumoral

Auxilia na produção de leite materno

Sabe quem utiliza o algodão roxo? As parteiras. Em Tefé, no Amazonas, por exemplo, a planta é tão utilizada que serviu de inspiração para a criação da Associação de Parteiras Tradicionais do Estado do Amazonas Algodão Roxo.

Para as parteiras, as folhas do algodão roxo são consideradas diuréticas e digestivas e as profissionais recomendam o uso para hemorragias e inflamações em geral. Também serve para ajudar na produção de leite materno.

O algodão roxo pode ser consumido de diversas formas:

  • Sumo das folhas ingerido para alívio de problemas respiratórios;
  • Infusão de folhas, flores e cascas, utilizadas como diurético e para tratar asma;
  • Sementes e folhas, que combatem a tosse.

Efeitos colaterais e precauções

Apesar de seus benefícios, o algodão roxo pode ter efeitos colaterais. Estudos apontam que o gossipol pode reduzir a produção de espermatozoides nos homens e causar malformações no bebê durante a gestação. Por isso, o consumo deve ser feito com cautela e sob orientação de um profissional de saúde.