Home Blog Page 336

COP16 cria órgão para indígenas e reconhece ação de quilombolas na preservação da natureza

Plenária de encerramento da COP16 da Biodiversidade, em Cali, na Colômbia. Foto: Reprodução/ONU Biodiversidade

A COP16 da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) aprovou na madrugada de sábado (2/11) a criação de um órgão subsidiário permanente para tratar dos direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais. Os quase 200 países reunidos em Cali, na Colômbia, também reconheceram pela primeira vez o papel das comunidades afrodescendentes, que no Brasil incluem os quilombolas, na preservação e no uso sustentável da natureza.

Leia também: COP 16: quilombolas comprovam papel de territórios para conservação da Amazônia

“Adotamos uma decisão histórica e inédita que finalmente tira da invisibilidade as comunidades afrodescendentes que, com seus costumes, nos ajudam tanto a preservar a biodiversidade e a natureza, os bosques, os rios, e tudo aquilo de que dependemos”, disse a diretora de Meio Ambiente do MRE, Maria Angelica Ikeda, ao lado da ministra Marina Silva e do secretário-executivo do MMA, João Paulo Capobianco.

A ministra de Meio Ambiente da Colômbia e presidente da COP16, Susana Muhamad, destacou a parceria das delegações brasileira e colombiana, duas das principais responsáveis pelas negociações sobre o tema.

“Este é o segundo gol desta parceria da COP16 em Cali com a COP30 em Belém. Não estamos competindo como no futebol, mas estamos fazendo gols juntos”, afirmou a ministra colombiana.

O Brasil também coliderou os debates para a criação do órgão subsidiário para povos indígenas e comunidades locais, o que garantirá maior representatividade e participação aos grupos na conferência. A COP da Biodiversidade têm outros dois órgãos similares: um científico e outro focado na implementação de decisões.

Os acordos reforçam o Artigo 8(j) da CDB, que aborda conhecimentos tradicionais, inovações e práticas, e terá um novo plano de trabalho, com medidas para reforçar sua implementação.

Fundo de Cali

A COP16 aprovou ainda a criação do Fundo de Cali, mecanismo voluntário para a repartição de benefícios gerados pelo uso de recursos genéticos e da correspondente informação de sequência digital. O acordo também “convida” os países a tomarem medidas legislativas ou recorrerem a outros recursos para demandar as contribuições.

Na prática, o fundo servirá para compartilhar os benefícios de um determinado conhecimento com quem o originou. As regras aprovadas indicam que companhias farmacêuticas, de cosméticos e de suplementos alimentares, entre outras empresas que se beneficiam comercialmente do uso desses materiais, devem contribuir com 1% do lucro ou 0,1% da receita.

O mecanismo abre exceções para pesquisas acadêmicas, de instituições públicas e organizações que usam as informações de sequência digital, mas não se beneficiam financeiramente delas. A expectativa é que ao menos metade dos recursos do fundo apoie povos indígenas e comunidades locais, seja por meio de governos ou por pagamentos diretos via instituições selecionadas por povos indígenas e comunidades locais.

Entre outros pontos, a conferência decidiu também adotar um novo processo para a identificação de áreas marinhas ecológica ou biologicamente significativas (EBSAs, na sigla em inglês), que são as partes mais críticas e vulneráveis do oceano. A resolução ajudará no processo de reconhecimento de áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade marinha com base nas informações científicas mais recentes.

Houve também acordo para que os países enviem propostas e temas de interesse para programas de trabalho conjunto entre as COPs da Biodiversidade, do Clima e de Combate à Desertificação. O secretariado da CBD irá compilar as sugestões para que sejam avaliadas e debatidas pelos países em reuniões futuras.

Sem acordo para novo fundo

A COP16, contudo, foi interrompida após os países ricos bloquearem a discussão sobre um novo fundo para a biodiversidade depois de mais de 20 horas de plenária final. A criação do mecanismo foi acordada há 32 anos, quando a CDB foi criada junto com as convenções do Clima e de Combate à Desertificação na Rio 92.

Até que o fundo para a biodiversidade, sob administração da COP fosse implementado, concordou-se que o Fundo Global de Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês), exerceria provisoriamente este papel. O arranjo, contudo, permanece há três décadas.

Países em desenvolvimento, que concentram a biodiversidade do planeta, demandam a criação de um novo instrumento, mais representativo de suas demandas e com governança paritária. No GEF, países em desenvolvimento precisam fazer rodízio de assentos, enquanto as nações doadoras têm assentos fixos. Dezesseis países africanos têm um voto, por exemplo, e Brasil e Colômbia — os dois países com mais biodiversidade no planeta — dividem uma cadeira com o Equador.

Além disso, os países em desenvolvimento defendem o cumprimento do compromisso dos países desenvolvidos de doar US$ 20 bilhões ao ano até 2025 para a proteger a biodiversidade e reverter sua perda. O valor doado até o momento não chega a 2% do prometido.

A delegação brasileira pediu a palavra após representantes de países e blocos desenvolvidos rejeitarem o texto apresentado pela presidência da COP.

A diplomata questionou o porquê de discussões relacionadas ao orçamento da CDB e indicadores de monitoramento quando os países ricos recusam-se a debater os meios necessários para implementar as metas da convenção:

“Tínhamos que começar a fazer essas discussões no começo da COP. Temos que ter decisões que garantam, pela primeira vez, os recursos que precisamos. E depois podemos discutir as obrigações”, disse Ikeda. “Minha delegação não está pronta para discutir nada mais até tivermos uma solução para isso”, completou, sob aplausos de países em desenvolvimento.

A delegação panamenha, em seguida, pediu uma contagem do quórum, que não chegou aos dois terços necessários para que a COP continuasse. A conferência foi suspensa até uma data futura.

A delegação brasileira na COP16 foi liderada pela ministra Marina Silva e, além do MMA, teve participação de representantes dos ministérios das Relações Exteriores, dos Povos Indígenas, da Igualdade Racial, entre outros órgãos federais.

*Com informações do MMA

6 artistas que são amazônidas e você nem imagina

0

A sonoridade amazônica é única e a região é berço de diversos talentos da música brasileira. Esses artistas mostram um pouco do caldeirão musical que vem da Amazônia.

Conhecidos nacionalmente, alguns são amazônidas e muita gente nem imagina! Confira:

Lorena Simpson

Com mais de 15 anos de carreira, Lorena é conhecida pelo ‘Pop Amazônico’, que une músicas internacionais e eletrônicas com ritmos e sonoridades da região amazônica. A cantora, que nasceu em Manaus (AM), já realizou diversas apresentações musicais dentro e fora do país.

Lorena já participou de diversos festivais e eventos de música no Brasil, América Latina, Europa e Estados Unidos, levando uma geração inteira às pistas de dança ao redor do mundo. É considerada uma pioneira e responsável por mudar o mercado de shows no Brasil, ao mesmo tempo em que cria um grande impacto dentro da comunidade LGBTQIA+.

Foto: Divulgação

Fernanda Takai

Fernanda Takai nasceu em Serra do Navio, no Amapá, mas viveu parte da vida no Estado de Minas Gerais. Vocalista da banda mineira Pato Fu há 31 anos, há 16 lançou a carreira solo com repercussão nacional e internacional, chegando a gravar um CD de inéditas com o guitarrista Andy Summers (The Police) em 2012.

Já se apresentou no Japão, Inglaterra, Portugal, Nova Zelândia, Austrália, Argentina, Colômbia e Estados Unidos. Participou como convidada de projetos de Rita Lee, Zélia Duncan, Roberto Menescal, Maki Nomiya, João Donato, Gilberto Gil, Erasmo Carlos, Marcos Valle, Duran Duran, Renato Russo, entre outros.

Foto: Luci Judice Yizima/Divulgação

Jaloo

Jade de Souza Melo nasceu em Castanhal. A artista que é mais conhecida pelo nome artístico Jaloo, é uma cantora, compositora, DJ e produtora musical brasileira. É considerada uma das expoentes da música indie e eletrônica paraense. Após um período de hiato entre 2022 e 2023, a artista retornou às redes sociais afirmando sua identidade não-binária, passando a utilizar pronomes femininos.

Jaloo começou a carreira em 2010 realizando remixes e mashups especialmente entre artistas internacionais e nacionais, vislumbrando valorizar a música do país ao mesclá-la com sucessos do momento da música estrangeira, ganhando destaque com “Trouble Pretin“, mistura de “Pretin” e “Double Boubble Trouble“, de Flora Matos e M.I.A..

Foto: Reprodução

Vitória Falcão

A cantora Vitória nasceu em Araguaína, no Tocantins. A artista teve a música presente em sua casa desde cedo e cita seu pai como uma influência. Cantora desde a infância, aos 12 anos de idade ela começou a cantar na igreja.

Chegou a cursar direito por um ano e meio, mas desistiu e se mudou para São Paulo para seguir carreira artística ao lado de Ana Caetano, criando o duo Anavitória em 2013.

Foto: Reprodução/Instagram

Ella

Ella Viana de Holanda é de Guajará-Mirim, em Rondônia. Iniciou sua carreira muito cedo, aos 6 anos de idade na música gospel, em 2003, com o álbum “Sou Um Milagre”. Em 2020, a cantora anunciou sua saída da música gospel para se lançar na música pop e reggaeton.

Já no ano de 2022, Ella revelou através das redes sociais que é uma mulher transexual e começou o processo de retificação de nome de registro e de gênero.

Foto: Reprodução/YouTube

Vanessa da Mata

Vanessa da Mata é natural da cidade de Alto Garças, no interior do Mato Grosso. É uma artista completa, canta, compõe, é modelo e escritora. Nascida em 1976, desde pequena teve como influências musicais grandes nomes da música brasileira, como Gonzaguinha, Milton Nascimento e Tom Jobim.

O ano de 1997 foi um divisor de águas na vida de Vanessa. Ela conhece o cantor e compositor Chico César, com quem passa a compor.

Em 1999, a faixa “A Força Que Nunca Seca”, composta por Vanessa e melodia de Chico César, é gravada por Maria Bethânia e dá nome ao álbum da cantora, que é indicado ao Grammy Latino, no ano seguinte. Aos 21 anos, Vanessa concorre Grammy Latino como melhor música, tendo uma letra como nome do disco.

Foto: Divulgação

E aí? Conhece mais artistas que poderiam entrar para essa lista?

Projeto de estudantes paraenses ganha prêmio internacional no Cazaquistão

0

Foto: Divulgação/Time Enactus UFPA

O Time Enactus UFPA participou da Enactus World Cup em Astana, no Cazaquistão, e teve o Projeto Biolume, que trabalha com energia limpa em território ribeirinho, premiado em 2º lugar na categoria de projetos inovadores em estágio inicial. O time foi representado pela graduanda em Engenharia Química Luise Lima, e pelo professor conselheiro José Augusto Lacerda (FAAD/UFPA).

Criado a fim de atender diferentes Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, o Biolume tem como missão a solução do descarte incorreto do óleo de cozinha, captando e transformando-o em biodiesel, em parceria com o Laboratório de Biossoluções da Amazônia (LABA), um combustível agradável ao meio ambiente o qual é levado às comunidades ribeirinhas como uma alternativa sustentável para suas locomoções diárias de barco. 

Por meio dessa iniciativa, o Time Enactus UFPA tem atuado junto à Comunidade Rio Baixo Itacuruçá, em Abaetetuba-PA, com ações de conscientização ambiental e ecológica, bem como, nas doações de biodiesel. Por este motivo, o projeto representou o Brasil no ano de 2024 na categoria de negócios de impacto em estágio inicial com grande potencial de impacto socioambiental positivo, a Early Stage Project.

Na apresentação do projeto na Enactus World Cup, a vice-presidente da Enactus UFPA, Luise Lima, pontuou os principais objetivos e suas configurações enquanto negócio social, além de demonstrar sua potência no cenário paraense e amazônico.

Para ela, o Projeto Biolume é de suma importância, pois é uma ação promovida por jovens que buscam transformar inúmeras vidas e resolver perspectivas de grande preocupação na região.

Foto: Divulgação/Time Enactus UFPA

Além do projeto premiado, o Professor Conselheiro do Time Enactus UFPA, José Augusto Lacerda, membro do conselho científico da Enactus global, foi premiado como melhor paper do evento, com um estudo sobre os negócios de impacto na Amazônia e seus desdobramentos no contexto local.

Enquanto coordenador do Ateliê de Negócios Transformadores da Amazônia (ATENTA), gestor de Incubadoras com foco em bioeconomia e conselheiro da Enactus UFPA desde 2016, o professor aponta com orgulho a participação do time em mais uma competição global: 

Rede Enactus

Presente em 33 países, a Enactus – organização que engaja universitários em projetos de empreendedorismo social – completa 25 anos de atuação no Brasil. Unindo grandes empresas do país, estudantes e professores, a instituição já engajou mais de 3 mil estudantes em 127 times. Os mais de 185 projetos desenvolvidos movimentaram mais de R$1 milhão em seus respectivos setores e impactaram mais de 83 mil pessoas. 

Saiba mais sobre a Rede Enactus e outras iniciativas do Time Enactus UFPA.

*Com informações da UFPA

Indígena roraimense campeão brasileiro de boxe é convocado para treinar na sede da Confederação Brasileira

0

Foto: Reprodução/Confederação Brasileira de Boxe

A Confederação Brasileira de Boxe anunciou a convocação de atletas para uma etapa do projeto de desenvolvimento das categorias de base e, entre os escolhidos, está o roraimense macuxi Arrison da Silva Junior junto com sua treinadora Andressa Marques da Silva.

Arrison da Silva Junior, roraimense macuxi, campeão brasileiro de boxe categoria 15-16 anos — Foto: Arquivo pessoal
 Foto: Arquivo pessoal

A convocação ocorreu na última terça-feira (22). O plano de desenvolvimento para jovens será realizado entre os dias 10 e 17 de novembro, no centro de treinamento da confederação, localizado no bairro de Santo Amaro, zona sul da cidade de São Paulo.

O jovem boxeador de 15 anos, da equipe América Champion, competiu no Campeonato Brasileiro Cadete e Juvenil de boxe na categoria 63kg e conquistou a medalha de ouro, se tornando o primeiro indígena a chegar no lugar mais alto do pódio em uma competição nível nacional.

Andressa Marques, treinadora de boxe e medalhista de campeonato brasileiro como atleta — Foto: Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal

Como incentivo, a CBBoxe fornecerá a passagem aérea, estadia, alimentação e transporte interno na cidade neste período de treinamento do Arrison e da treinadora Andressa Marques da Silva.

*Por Sandro Marques, do GE Roraima

Forças que precisam ser libertadas

Por Julio Sampaio de Andrade – juliosampaio@consultoriaresultado.com.br

Daniel é um profissional de início de carreira, embora já com seus trinta e poucos anos. É jovem, mas poderia estar mais à frente, não tivesse ele percorrido mais de um caminho. Recomeçou algumas vezes e, mesmo naquele momento, ainda pensava qual carreira deveria seguir. Não sabia no que era bom e, principalmente, não sabia o que queria.

Separado e com um filho adolescente que morava com ele, Daniel levava uma vida apertada, uma vez que o salário mal dava para as despesas básicas. Não tinha muitas conversas com o filho, limitando-se ao básico. Para o filho, era o normal, já que foi criado assim mesmo, cada um do seu lado.

Daniel estava sem namorada e, os poucos amigos estavam mais distantes do que já foram, eles, como Daniel, alegando falta de tempo. Daniel sentia-se só e sem muitas perspectivas. Seu incômodo o levava a querer fazer algo para mudar o rumo da vida. Sabia que precisava de ajuda, mas não sabia onde começar.

Orientado por um familiar teve acesso a um coach profissional, que se propôs a ajudá-lo a encontrar alguma direção. Daniel estava um tanto cético. Não sabia o que era coaching, como a maioria das pessoas não sabe. Interessou-se ao saber que se tratava de um trabalho de parceria com o tal profissional, que o ajudaria a refletir e a pensar junto sobre questões importantes, cabendo a Daniel encontrar as suas próprias respostas. Daniel não gostava de ser direcionado por ninguém e, desde cedo, resistia sempre que alguém tentava lhe dar conselhos. Em geral, seguia pelo caminho oposto. No programa de coaching proposto, havia ainda questões relativas ao autoconhecimento, que Daniel sabia que poderia ajudá-lo. Seria um investimento de tempo e de dinheiro, o que exigiria um esforço adicional. Daniel relutou, mas decidiu ir em frente.

Os testes de perfil comportamental apontavam que Daniel tinha elevadas forças em planejamento e em análise, mediana em execução e um índice muito baixo em comunicação.

Logo de início, ao contar a sua própria história e ser levado a algumas reflexões, Daniel descobriu que possuía uma crença muito forte, a de que o mundo era hostil e que precisava se defender. Isto o levava a se retrair e a evitar vínculos mais profundos. No íntimo, quando alguém se aproximava, imaginava que ele queria tirar algum tipo de vantagem. Mas, de onde vinha esta crença e, o mais importante, o quanto ela era verdadeira? Era uma crença que fortalecia ou limitava o Daniel? Como ele agiria se acreditasse de forma diferente? Que o mundo é um lugar amigável, de fartura e de oportunidades e que, a princípio, as pessoas são boas, querem também ser felizes e tentam fazer o seu melhor? Como desenvolver este novo olhar? Como trazê-lo para o dia a dia, retirando o escudo que afasta as pessoas? Que exercícios poderiam ajudá-lo a criar um modelo mental que o libertasse e o aproximasse de uma vida mais próspera?

Não foi necessário muito tempo. Durante três meses, Daniel passou por um processo que poderia ser comparado ao de um atleta de alta performance ou a de uma superalimentação em um pós-cirúrgico. Daniel estava investindo tempo e dinheiro e não ia desperdiçá-los. Queria mudar o seu destino e sabia agora que tinha recursos para isto. Suas ações no dia a dia refletiam seu desejo de ser útil, sua gratidão e confiança nas pessoas e em si mesmo.

Não foi necessário muito tempo. Neste curto período, Daniel estabeleceu um novo diálogo com o filho; arranjou uma namorada; fez declarações às pessoas que ama; definiu a carreira que quer seguir, fazendo uso de suas forças e experiências acumuladas; fez novas amizades; recebeu reconhecimentos espontâneos; e, contra todas as expectativas, recebeu uma promoção na empresa em que trabalha, exercendo agora uma função plenamente alinhada aos seus novos objetivos.

Daniel mudou, e o mundo de Daniel mudou. Ele está fortalecido e feliz. O Universo não deixa de responder quando libertamos nosso potencial e nossas forças. E você, que forças ainda estão presas dentro de você e como libertá-las?

Sobre o autor

Julio Sampaio (PCC,ICF) é idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute, diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching e autor do livro Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital). Texto publicado no Portal Amazônia e no https://mcinstitute.com.br/blog/.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Estudo inédito indica potencial de contaminação por mercúrio em rios da Amazônia

0

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

A partir de uma modelagem que projeta a distribuição e bioacumulação de mercúrio nos rios, estudiosos apontam que sub-bacias dos Rios Tapajós, Xingu, Mucajaí e Uraricoera, que abrigam territórios indígenas sob ameaça do garimpo ilegal, apresentam um grande risco de contaminação por mercúrio acima dos níveis considerados seguros. As concentrações de mercúrio seriam mais baixas nas cabeceiras e aumentariam progressivamente ao longo do curso dos rios. Em todas as bacias analisadas, os principais cursos d’água e os rios mais longos possuem um maior potencial de bioacumulação de mercúrio. 

O estudo de modelagem foi realizado para os rios da bacia Tapajós – que abrangem os estados do Pará, Mato Grosso e Amazonas; bacia do Xingu, que banha os estados do Pará e Mato Grosso; e a bacia do Mucajaí e Uraricoera, presente no estado de Roraima, utilizando um modelo probabilístico desenvolvido pela Agência Ambiental Americana (US EPA).

A análise das sub-bacias em relação aos limites máximos de mercúrio estabelecidos pela legislação brasileira revelou a probabilidade de uma alta taxa de não conformidade. Os resultados destacam um risco extremamente alto de contaminação para homens e mulheres em mais de 50% das sub-bacias analisadas e números alarmantes para as populações indígenas e ribeirinhas, que estão mais próximas dos focos de contaminação. 

Das 3.791 sub-bacias do Tapajós, por exemplo, mais da metade (51,77%) não estaria em conformidade com a legislação ambiental brasileira. Uma análise mais detalhada revela uma maior inadequação nas subunidades da Bacia do Baixo Teles Pires, Rio Apiacás e Alto e Médio Teles Pires, todas com porcentagens acima de 59%. Como homens tendem a consumir mais peixes do que mulheres, as áreas de risco são muito altas para eles (49,4%), bem maior que a taxa para mulheres (45,1%). Esse percentual é ainda maior para populações indígenas, que têm nos peixes a principal fonte de ingestão de proteína: para eles, 49,6% das sub-bacias são consideradas territórios de risco muito alto.

Alto Alegre (RR), 10/02/2023 – Áreas de garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami vistas em sobrevoo ao longo do rio Mucajaí. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Para Vitor Domingues, analista ambiental e um dos pesquisadores responsáveis pelo estudo, “um dos grandes desafios de se estudar a Amazônia é a escassez de dados amostrais. O estudo de modelagem ajuda a enfrentar esse desafio, contribuindo com o entendimento da dinâmica do mercúrio em um bioma tão complexo e sensível através de outras fontes de informação.”

A análise foi  publicada na revista científica Toxics, em agosto deste ano, e oferece bases científicas para planejar e implementar intervenções eficazes nas regiões afetadas pela contaminação. “A pesquisa ressalta a importância de uma abordagem integrada para monitorar e mitigar os impactos do garimpo de ouro e de outras atividades que afetam a qualidade da água na Amazônia. É essencial considerar as complexidades dos ecossistemas e das populações locais e avaliar cuidadosamente as implicações ambientais e sociais desses  projetos, especialmente em regiões já afetadas pela poluição por mercúrio”, afirma Marcelo Oliveira, especialista em Conservação do WWF-Brasil.  

Bacia do Tapajós

Apresenta valores de contaminação acima de 0,36 µg g-1 para peixes não-piscívoros e 6,46 µg g-1 para peixes piscívoros em várias sub-bacias. De acordo com a Resolução RDC Anvisa 42, de 29 de agosto de 2013, os limites máximos de mercúrio em peixes não piscívoros é de 0,5 mg kg-1, enquanto para peixes predadores, o limite é de 1,0 mg kg-1. 

O sudoeste da Macrobacia do Juruena, que inclui o Rio Camararé e seus afluentes, apresenta muitas sub-bacias com projeções elevadas de contaminação, o que pode ser explicado pela presença de áreas alagadiças que estão associadas a um maior potencial de bioacumulação de mercúrio, mesmo em áreas com presença limitada de garimpos, como o Alto Juruena. 

Já as melhores condições foram projetadas na montante da Bacia do Alto Tapajós, onde há presença predominante de cursos hídricos de menor ordem. 

Bacias do Uraricoera e Mucajaí

Apresentam valores acima de 0,31 µg g-1 para peixes não-piscívoros e 1,79 µg g-1 para peixes piscívoros em várias sub-bacias. Além dos rios principais, destacam-se os Rios Parima, Uraricaá e Amajari, e afluentes como Auaris, Trairão e Ereu na bacia do Rio Uraricoera.

Na bacia do Rio Mucajaí, além do Rio Apiaú, o Rio Couto de Magalhães também demonstra alto potencial de bioacumulação. Na Bacia do Rio Uraricoera, os resultados ressaltam a importância das áreas alagáveis nos processos de metilação de mercúrio e na sua bioacumulação em peixes. A dinâmica de transformação, especialmente na área alagável conhecida como Lavrado, pode ter influenciado fortemente as projeções de contaminação no nordeste da bacia. 

Das 540 sub-bacias analisadas, uma média de 56,7% não atenderia aos padrões estabelecidos na legislação ambiental brasileira. Na bacia do Uraricoera, esse número chegou a 57,87%, enquanto na do Mucajaí foi de 53,94%. Esses resultados indicam uma preocupante prevalência de contaminação por mercúrio, com implicações diretas para as comunidades que dependem da pesca como fonte de subsistência. Para as populações ribeirinhas, todas as sub-bacias representam alto risco para as mulheres. Já 50,2% das unidades representam risco muito alto para homens. Os resultados também são alarmantes para populações indígenas, com 51,1% das sub-bacias classificadas como risco muito alto para mulheres e 53,7% para homens. 

Bacia do Xingu

Apesar de uma menor presença de garimpo, a bacia do Xingu também apresenta níveis preocupantes de bioacumulação de mercúrio em peixes. A emissão de vapores metálicos pode ser um fator importante na dinâmica da contaminação. Nesta bacia, os valores de contaminação estão acima de 0,092 µg g-1 para peixes não-piscívoros e 0,7017 µg g-1 para peixes piscívoros em várias sub-bacias. 

As sub-bacias na Macrobacia do Rio Fresco e Macrobacia do Rio Iriri destacam-se por suas projeções significativas de concentração de mercúrio em peixes. Os resultados podem estar associados à maior atividade garimpeira na região. Já, o sul da Bacia do Xingu, que inclui as Macrobacias do Rio Ronuro e Nascentes do Xingu, apresenta projeções expressivas mesmo em cursos hídricos de menor ordem. Na Macrobacia do Rio Iriri, mesmo as projeções dos afluentes Curuá, Carajari e Novo se destacam. As melhores condições foram modeladas na Macrobacia do Baixo Xingu, em cursos hídricos de menor ordem.

As áreas alagadiças estão associadas a projeções elevadas de concentrações de mercúrio em peixes, mesmo em áreas com presença limitada de garimpos. É importante salientar que as nascentes do Rio Xingu, o Alto Xingu e as Bacias do Rio Ronuro e do Rio Suiá-Miçu são repletas de planícies de inundação de importância ecológica. Outra região repleta de áreas úmidas é a Volta Grande do Xingu, na Macrobacia do Baixo Xingu, nas redondezas da UHE Belo Monte. 

Embora a bacia do Xingu apresente uma média de conformidade com os parâmetros legais, a bacia não está isenta de preocupações. Apesar de os resultados médios de concentração de mercúrio em peixes não ultrapassarem os limites regulatórios, as projeções causam apreensão. 

O estudo traz várias recomendações, dentre elas, a implementação de um programa de monitoramento de contaminação amplo, adaptado às condições das diferentes sub-regiões; o aprimoramento da legislação brasileira, substituindo os limites fixos atualmente estabelecidos por parâmetros baseados em análise de risco que considerem o alto consumo de peixe na região; a criação de um sistema padronizado de informações e  complementação das bases de dados existentes, como o Observatório do Mercúrio, para apoiar o planejamento governamental e guiar a tomada de decisões.

Nota Técnica

O estudo empregou o modelo SERAFM (spreadsheet-based ecological risk assessment for the fate of mercury), desenvolvido pela U.S. EPA, para avaliar o risco ecológico a partir do destino ambiental do mercúrio. A concentração do metal em peixes e humanos foi analisada com base nos dados do Observatório do Mercúrio, uma plataforma desenvolvida pelo WWF-Brasil em parceria com outras instituições, que foram fundamentais no ajuste dos resultados e na sua comparação.

*Com informações da WWF-Brasil

COP 16: comunidades indígenas peruanas realizam iniciativas ligadas à mitigação das mudanças climáticas

0

Foto: Divulgação/Agência Andina

No âmbito da COP 16, realizado na cidade de Cali, na Colômbia, o Ministério do Meio Ambiente peruano (Minam) assinou um acordo de cooperação interinstitucional com as organizações representativas das comunidades indígenas nativas do país, por meio do qual serão desenvolvidas ações conjuntas contra os impactos das mudanças climáticas.

As organizações signatárias do acordo interinstitucional são a Associação Interétnica para o Desenvolvimento da Selva Peruana (Aidesep), a Confederação de Nacionalidades Amazônicas do Peru (Conap) e a Associação Nacional de Executores do Contrato de Administração das Reservas Comunais da Amazônia Peruana (Anecap).

Esta iniciativa foi apresentada à comunidade internacional pelo Ministro do Meio Ambiente, Juan Carlos Castro, no Pavilhão do Peru instalado na sede da XVI Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP 16) que aconteceu em Cali.

Neste sentido, destacou que esta medida beneficiará as comunidades ao reconhecer e valorizar os esforços para reduzir o desmatamento e a degradação das suas florestas.

A iniciativa está enquadrada na Declaração Conjunta de Intenções (DCI), que é um acordo de cooperação voluntária assinado pelos governos do Peru, Noruega e Alemanha.

Por sua vez, a representante da Aidesep, Tabea Casique, destacou que a assinatura do acordo representa um trabalho conjunto para buscar “financiamento verde” para a Amazônia peruana.

Objetivo comum

O acordo de cooperação interinstitucional, válido por cinco anos, visa planejar, formular e implementar atividades conjuntas de formação para comunidades nativas no que diz respeito à gestão integral das mudanças climáticas para contribuir para a ação climática no país e aproveitar as oportunidades que proporcionam às florestas com alta cobertura florestal e baixo desmatamento.

De acordo com os compromissos estabelecidos, Minam prestará assistência técnica às comunidades nativas envolvidas e fortalecerá as competências das comunidades na formulação, implementação e monitorização de iniciativas, projetos ou programas relacionados com medidas de mitigação do ‘Uso e Mudança de Uso da Terra e Silvicultura’ (UTCUTS).

Para este último aspecto, um roteiro será desenvolvido conjuntamente no âmbito da regulamentação atual e alinhado com os compromissos do país. Entretanto, as organizações signatárias, entre outros acordos, comprometem-se a participar em espaços de discussão e análise de propostas de mitigação dos impactos ambientais e a promover a participação das suas bases descentralizadas.

*Com informações da Agência Andina

Seca extrema deixa balsa com centenas de motocicletas encalhadas no rio Madeira

0

Foto: Reprodução/Rede Amazônica RO

Uma balsa carregada com cerca de 400 motocicletas segue encalhada no rio Madeira há aproximadamente 40 dias. A seca extrema afetou o transporte de cargas no trecho entre Manaus (AM) e Porto Velho (RO) e um dos serviços prejudicados é o de venda dos veículos.

Segundo Natani Lima, gerente de uma das concessionárias que receberiam os produtos, a balsa saiu de Manaus com a previsão de chegar a Porto Velho no dia 24 de setembro. A viagem durava, em média, 15 dias.

Através da água do Madeira se forma um corredor logístico. De acordo com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), a hidrovia do rio é uma das mais importantes vias de transporte da região Norte: são mais de 1 mil km² de extensão navegável.

Desde julho, embarcações estão proibidas de navegar no período noturno, por causa da seca. Na época, o rio estava com 3,75 metros. Nesta quarta-feira (30), às 11h, ele estava em 76 centímetros. O menor nível já registrado foi de 19 centímetros, no dia 11 de outubro.

Balsas que transportam grãos, como milho e soja, e combustível, como gasolina e diesel, ficaram paradas ao longo do rio, à espera de melhores condições para navegação.

As operações no Porto de Porto Velho foram temporariamente paralisadas pela 1ª vez na história no dia 23 de setembro. Armadores e operadores portuários pararam suas atividades por causa das condições de navegabilidade no Rio Madeira.

O cenário de um rio “inavegável” obrigou as concessionárias a mudarem a rota de transporte dos veículos. O trajeto antes feito por rio, entre Manaus e Porto, mudou a rota para Belém e agora chega na capital de Rondônia por via terrestre, através da BR-364.

Foto: Divulgação/Defesa Civil

Seca histórica

Rondônia enfrenta a maior seca da história. O rio Madeira registrou uma sequência de níveis mínimos nunca observados desde 1967, quando começou a ser monitorado.

Historicamente, outubro e novembro são os meses em que o Madeira fica mais seco. No entanto, o nível do rio começou a bater mínimas históricas já no mês de julho; depois disso, o cenário foi se tornando ainda mais crítico.

Os moradores das comunidades ribeirinhas viram os poços amazônicos secos, assim como o rio. Sem acesso à água, eles dependem de carregamentos enviados pela Defesa Civil Municipal e as secretarias de assistência social de Porto Velho e do estado de Rondônia.

*Por Fábio Diniz e Jaíne Quele Cruz, da Rede Amazônica RO

Conservação da Amazônia: peruano e equatoriana recebem prêmio Thomas Lovejoy

0

Foto: Divulgação/Agência Andina

Por sua destacada carreira na conservação da Amazônia, a ecologista equatoriana María Belén Páez Cano e o agrônomo florestal peruano Marc Duorojeanni receberam o reconhecimento Thomas E. Lovejoy, no contexto da 16ª Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade (COP16), realizada na Colômbia.

O trabalho de Dourojeanni, professor emérito da Universidade Nacional Agrária La Molina e consultor independente, impacta a Amazônia peruana e brasileira. Ele é conhecido como o arquiteto do sistema de áreas protegidas do Peru e como mentor de duas gerações de conservacionistas nesta vasta região.

Sua longa carreira se reflete em sua atuação como vice-reitor da Universidade San Martín de Porres, presidente fundador da ProNaturaleza, vice-presidente da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), vice-presidente da Comissão Mundial de Áreas Protegidas (WCPA) e primeiro chefe da Divisão de Meio Ambiente do Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Ao receber o prémio Lovejoy na sua primeira edição, Dourojeanni expressou:

A primeira mulher a receber um prêmio

María Belén Páez Cano, com 28 anos de experiência na Fundação Pachamama, é a primeira mulher e a primeira latino-americana a receber este prêmio que ratifica sua liderança por propor uma nova visão para a mitigação das mudanças climáticas, por meio da conservação vista pelos povos e nacionalidades amazônicas.

A sua visão proposital alinhada com a “economia florestal” apela com um elevado sentido de urgência a relações colaborativas e harmoniosas entre os seres humanos e a natureza. Em seu discurso afirmou:

Além de diretora executiva da Fundação Pachamama do Equador, ela também atua como secretária geral da iniciativa Cabeceiras Sagradas da Amazônia. O seu foco nas alterações climáticas e nas transições subsequentes para a indústria extrativa repercutiu no Equador e no Peru.

Páez contribuiu para vitórias na proteção das florestas e dos direitos às terras indígenas na Amazônia equatoriana. Com a iniciativa Bacias Sagradas, há seis anos, suas propostas relacionadas às transições sistêmicas pós-extrativistas têm tido um impacto ecorregional na Amazônia andina. Na Fundação Pachamama implementou programas inovadores e eficazes para promover os direitos e meios de subsistência dos povos indígenas.

“Nestas florestas existe uma sabedoria que não devemos apenas ouvir, mas também seguir. Os povos amazônicos são os guardiões do conhecimento sagrado que pode guiar a humanidade em direção a um futuro em que possamos coexistir, não apenas como indivíduos humanos, mas como parte de uma comunidade de seres vivos interconectados”, disse Páez.

Prêmio Thomas E. Lovejoy

O Prêmio Thomas E. Lovejoy foi criado para homenagear o legado do Dr. Thomas Lovejoy, um renomado especialista em biodiversidade que foi um defensor apaixonado da conservação da floresta amazônica, que reuniu ciência, defesa e espírito de colaboração pela causa escolhida. honrando sua dedicação à Amazônia e reconhecendo as conquistas de pessoas que personificam esse mesmo espírito e dedicação.

O objetivo é fornecer uma plataforma para que outros possam aprender mais sobre as iniciativas e realizações do vencedor do prêmio e ajudar a inspirar uma nova geração de conservacionistas da Amazônia em um momento de urgência relacionado à necessidade de evitar atingir um ponto de inflexão ecológica no região.

Nesse sentido, especialistas da Amazônia, líderes conservacionistas e a família Lovejoy, o Global Environment Facility (GEF), a Conservation International (CI), a The Nature Conservancy (TNC), a Society for Wildlife Conservation (WCS) e o World Wildlife Fund no Os EUA (WWF-EUA) uniram forças para estabelecer o Prêmio Lovejoy.

*Com informações da Agência Andina

Pelo menos 11 espécies de pássaros não são mais avistadas ou escutadas em parque no Pará

0

Foto: Damilice Mansur/Arquivo pessoal

“No final da tarde, quando eu ia tomar banho de igarapé, eu escutava o uru-corcovado cantando. Era lindo ouvir o bicho”. O rosto do biólogo Danielson Aleixo se ilumina ao contar essa memória de infância no Parque Ecológico Gunma (PEG), localizado em Santa Bárbara, na região metropolitana de Belém (PA). O uru-corcovado é uma ave que remete vagamente a uma galinha, de plumagem marrom avermelhada, e que mora em bando na serrapilheira, camada de folhas em decomposição que cobre o chão das florestas.

Cercado pelo desenvolvimento urbano e pelas plantações de óleo de palma e de açaí, essa floresta de 540 hectares é um refúgio para a biodiversidade. O PEG é um dos últimos trechos de mata primária em terra firme na região metropolitana da capital paraense. Dados do Laboratório de Ornitologia e Bioacústica da Universidade Federal do Pará (Lobio | UFPA), de 2007 a 2020, indicam a existência de, pelo menos, 300 espécies de pássaros existentes no parque. Para comparação, o Pará abriga 965 espécies, de acordo com o site Wikiaves, quase um terço delas frequenta o PEG.

O Wikiaves é uma plataforma interativa voltada à comunidade brasileira de observadores de aves. Seu objetivo é promover a observação de aves e a ciência cidadã, oferecendo gratuitamente ferramentas para registro fotográfico e sonoro, identificação de espécies e comunicação entre observadores.

O levantamento do laboratório da UFPA também revela uma realidade preocupante, mas que é invisível aos olhos. No mínimo 11 espécies de aves não são mais avistadas ou são cada vez menos escutadas no PEG. O uru-corcovado, por exemplo, cujo canto costumava acompanhar as caminhadas de Danielson pela floresta, não é encontrado ou ouvido no parque desde 2007. Essa ave não está ameaçada de extinção, como aponta o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), já que ainda pode ser ouvida em outras florestas paraenses (como a Floresta Nacional de Carajás, por exemplo).

O monitoramento indica também que pelo menos três espécies de aves, além o uru-corcovado, não são mais avistadas na floresta há mais de 20 anos: o uirapuru-viado, o torom-do-pará e o tovacuçu. Outras sete espécies estão cada vez mais raras, tanto visualmente quanto auditivamente: o curica-urubu, o topetinho-do-brasil-central, o anambé-de-peito-roxo, o anambé-rabo-branco, a marianinha-de-cabeça-amarela, o papagaio-moleiro e o mutum-cavalo. Esses sinais indicam um declínio preocupante nas suas populações.

A situação do PEG é crítica e complexa: embora seja uma propriedade privada, a associação que o gere enfrenta recursos limitados em um contexto de rápido crescimento econômico e urbano. Sem reconhecimento como uma unidade de conservação ambiental, o parque não se beneficia de legislações ou políticas públicas específicas.

Florestas silenciadas e fuga de espécies


A bióloga Maria Luisa da Silva, docente da Universidade Federal do Pará (UFPA) e criadora do Lobio, ressalta que esse fenômeno é um dos primeiros sinais de uma ameaça à Amazônia como um todo, mas que é pouco ou nunca mencionado. Algumas florestas parecem estar em boas condições, com árvores verdes e em pé, mas, na verdade, estão ameaçadas, e a vida selvagem, especialmente os pássaros, já estão em perigo.

De acordo com a cientista, a biodiversidade sonora é fundamental para entender os ecossistemas. “Como cada pássaro tem seu próprio canto, eu sei qual é a biodiversidade de um local pela diversidade de sons que ele apresenta”, explica. Silva é a primeira mulher a integrar a International Bioacoustics Society (IBAC), destacando-se na pesquisa sobre a acústica ambiental e a preservação da biodiversidade.

Em 2005, a cientista estabeleceu um anexo do Lobio nos arredores de Gunma, projetado para facilitar o acesso à floresta e otimizar suas pesquisas de campo. O local permaneceu ativo até o início da pandemia. As gravações alimentaram o departamento de sons amazônicos do Arquivo Sonoro Neotropical, a maior biblioteca sonora da América Latina, criada por Jacques Vielliard e hospedada pela Universidade de Campinas (Unicamp).

Durante o período, Silva observou uma queda significativa na presença de diversas espécies no parque: “Nas minhas idas a campo, notei que várias espécies de aves, antes abundantes e com cantos frequentes, estão desaparecendo”. O casal de biólogos Danielson e Fernanda Freitas, que frequentam o parque diariamente, também notaram essa mudança.

Nas horas mais quentes, a maioria das aves do Parque Ecológico do Gunma se esconde nas copas das árvores, ficando invisível ao olho nu. Foto: Dany Neves/Arquivo Pessoal

Desde janeiro de 2023, o casal retornou às bordas do parque e fundou a Pará Birding Tour, uma empresa de ecoturismo focada na observação de aves. No entanto, tem notado mudanças preocupantes, incluindo o avanço urbano ao redor da área, que pode estar contribuindo para a fuga de algumas espécies.

O que está ocorrendo no Gunma não é incomum. É um fenômeno semelhante ao que já ocorreu na Mata Atlântica (em parte localizada no sudeste do Brasil) e no sul do Amazonas: o declínio da biodiversidade, que pode resultar na perda gradual de fauna e na diminuição da vida sonora.

Ação humana descontrolada

Além do desmatamento dentro dos limites do Parque Ecológico do Gunma (PEG), o nível de conservação também deve considerar o impacto das atividades em seu entorno. A cientista Maria Luisa alerta para o efeito de borda, que ocorre nas áreas adjacentes à mata. Mesmo sem intervenções diretas, o desmatamento pode se intensificar à medida que grandes árvores caem, formando clareiras e reduzindo a floresta ao longo do tempo.

O parque enfrenta uma pressão crescente, cercado ao sul e a leste pela rodovia PA-391 e pelas comunidades de Bom Jesus e Nova Santa Bárbara. A ocupação das bordas resultou em desmatamento, com florestas secundárias sendo derrubadas para dar lugar a moradias. Essa expansão urbana tem contribuído para a diminuição da biodiversidade, como evidenciado pela extinção do uru-corcovado, enquanto a comunidade de Bom Jesus se desenvolvia às custas da floresta.

O rio Araci define o limite norte do parque, enquanto seu último corredor ecológico se estende ao longo do Furo das Marinhas, que é o braço de rio que separa a Ilha do Mosqueiro do Continente. Entretanto, o parque corre o risco de se tornar uma ilha, já que a construtora MB Capital iniciou, em 2021, a construção de um grande terminal logístico e industrial nas proximidades, apoiada pela prefeitura de Santa Bárbara. O empreendimento ocupa uma área de 220 mil metros quadrados.

Enquanto a biodiversidade permanece invisível e sem avaliação adequada, iniciativas como as de Danielson e Fernanda, voltadas à observação de aves, buscam transformar a percepção local sobre o parque, promovendo uma maior valorização da natureza.

No contexto mais amplo, o geógrafo e pesquisador do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA), Tiago Veloso, enfatiza que o isolamento de uma unidade de conservação pode ser prejudicial a longo prazo para a fauna e flora, pois as espécies ficam restritas e a reprodução interna torna-se insuficiente. Entre 2019 e 2020, um estudo conduzido pelo IFPA abordou as unidades de conservação na região metropolitana de Belém, mas o PEG não foi incluído devido às restrições da pandemia. Contudo, a preservação efetiva depende do planejamento das áreas circunvizinhas para garantir conexões ecológicas.

Danielson e Fernanda acreditam que por meio do turismo é possível mudar a forma como a população local vê o parque, e assim participar da sua preservação. Mas não é uma pauta fácil: como Danielson explica, “o maior desafio é fazer com que acreditem que o turista está querendo contemplar. A contemplação da biodiversidade é um tabu para muitos de nós aqui”.

Esta reportagem foi realizada com o apoio do Programa Vozes pela Ação Climática Justa (VAC), que atua para amplificar ações climáticas locais e busca desempenhar um papel central no debate climático global. A InfoAmazonia faz parte da coalizão “Fortalecimento do ecossistema de dados e inovação cívica na Amazônia Brasileira” com a Associação de Afro Envolvimento Casa Preta, o Coletivo Puraqué, PyLadies Manaus, PyData Manaus e a Open Knowledge Brasil.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo InfoAmazonia, escrito por Igor Kloenckner