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Artista plástico de Rondônia vai expor obras no Carrousel do Louvre, em Paris

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Binho Pinheiro, pintor surrealista. Foto: Binho Pinheiro/Acervo pessoal

O artista plástico Binho Pinheiro, de Nova Mamoré (RO), vai levar a arte que representam a Amazônia e os traços da floresta até Paris. O morador de Rondônia foi selecionado para expor pinturas inéditas no Salão Internacional de Arte Contemporânea Carrousel du Louvre, em outubro de 2025.

Natural da Bahia, Binho é autor de obras espalhadas por diversos pontos da cidade de Nova Mamoré, como a pintura no muro da Câmara Municipal, que representa o município de forma abrangente, repleta de formas e cores, utilizando a técnica de aerografia.

Em entrevista ao Grupo Rede Amazônica, o artista falou sobre a grande oportunidade de estar em um dos principais palcos da arte mundial e compartilhou sua origem, trajetória de vida e trabalhos realizados em Rondônia.

Da escola para a vida

Binho nasceu na Bahia e, desde criança, percebeu que tinha uma sensibilidade maior para a arte. Os primeiros rabiscos e desenhos dividiam espaço com as letras de forma e os números primários durante a alfabetização.

“Na creche eu esboçava meus primeiros traços e isso continuou na escola. Lembro que o amor pela arte só foi surgir quando eu tinha entre 9, 10 anos”, conta Binho.

O nome “Binho Pinheiro” é artístico e surgiu ainda na infância, por influência de sua mãe, que cuidava de uma criança que tinha esse mesmo nome. Ela então passou a chamá-lo da mesma forma como apelido. Após anos, o artista acabou o adotando em sua carreira.

Ao longo do tempo, os amigos foram essenciais para que Binho não parasse de desenhar. Os colegas começaram a incentivar cada vez mais, promovendo competições de desenhos na escola, O que instigava o artista a sempre se manter aprimorando as habilidades.

“Era só uma brincadeira, algo que eu nunca imaginei que iria se tornar uma coisa concreta. Ao decorrer do tempo isso ficou sério e hoje virou meu trabalho”, relembra Binho.

Trabalhando com arte

Binho iniciou sua trajetória profissional em 2004, ainda na Bahia, pintando em diversos locais na cidade de Camacã. Um dia, enquanto pintava em uma escola de música, chamou a atenção de um artista experiente, que o convidou para trabalhar com ele. Foi nesse período que adquiriu experiência e passou a atuar por conta própria, transformando a arte em sua principal fonte de renda.

Em 2008, já consolidado como pintor, decidiu aprimorar suas técnicas de pintura a óleo e buscou aulas especializadas. Após apenas 10 aulas, recebeu a oportunidade de ensinar pintura para um grupo de cerca de 20 alunos, o que abriu novas portas.

Depois de temporadas morando em Espírito Santo e no Amazonas, Binho desembarcou em Porto Velho (RO), onde continuou vivendo de suas pinturas e ministrando cursos.

Foto: Binho Pinheiro/Acervo pessoal

Desafios de uma nova vida

Após dois anos na capital rondoniense, o pintor e sua esposa decidiram se mudar para Nova Mamoré (RO), cidade localizada a cerca de 281 km de Porto Velho. A mudança ocorreu devido a uma oportunidade de emprego para sua esposa na região.

Com o tempo, passou a ser reconhecido na nova cidade e passou a receber encomendas. Seu estilo preferido é o surrealismo, movimento artístico surgido em Paris, na década de 1920, que valoriza a fantasia e a liberdade criativa.

No entanto, o alto custo dos materiais e a baixa demanda por esse tipo de obra fizeram com que ele reduzisse a produção de telas.

“Eu parei de produzir telas já faz um tempo por conta do preço abusivo dos materiais e das encomendas, que são bem poucas. Então, eu parei de produzir porque ficava muito material empilhado”, desabafa.

Oportunidade surreal

Este ano, Binho recebeu a chance de expor suas obras justamente em Paris, berço do surrealismo, movimento que tanto o inspira. Ele soube da oportunidade pela internet e enviou seu portfólio para os curadores responsáveis. Sua arte foi selecionada entre diversos candidatos, mas as obras que estarão na exposição ainda estão em fase de produção.

“E eu tive essa honra de ser selecionado. Quanto às obras que foram serão expostas, ainda não podem ser divulgadas, até porque eu não finalizei ainda. Serão obras exclusivas”, diz Binho com ar de mistério.

Embora suas pinturas tenham sido escolhidas, os custos da viagem são de responsabilidade do artista. Ele precisa arcar com passagem e hospedagem durante os dias de exposição.

“Acredito que só o fato das minhas obras serem selecionadas para ir até Paris já é uma grande bênção e acredito que essa chance vai abrir muitas portas […] Penso que a ajuda dos meus amigos no início de tudo foi o que ajudou para que meu trabalho ter chegado nesse nível”, finaliza Binho.

*Por Mateus Santos, da Rede Amazônica RO

Pesquisa com bactérias na Amazônia pode desenvolver novos medicamentos

Foto: Ricardo Stuckert/PR

Parte da pesquisa de ponta em fármacos no Brasil se faz levando amostras de solo de Belém (PA) para um complexo de laboratórios maior que um estádio de futebol em Campinas, no interior paulista. Toda essa viagem é para colocar seres microscópicos no que é, grosso modo, o maior microscópio da América do Sul, o acelerador Sirius, parte do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). Com essa ferramenta, é possível entender como funcionam os genes das bactérias e quais substâncias elas conseguem criar. As equipes envolvidas buscam substâncias com potencial antibiótico e antitumoral, e os primeiros resultados foram publicados em dezembro em uma revista especializada internacional.

O motivo dessa viagem do solo amazônico é a parceria entre o CNPEM e a Universidade Federal do Pará (UFPA). O trabalho de campo começou recolhendo amostras de solo dos interiores do Parque Estadual do Utinga, reserva de conservação constituída em 1993 e que conta com áreas restauradas e áreas sem intervenção humana recente. O grupo investigou três espécies bacterianas das classes Actinomycetes e Bacilli isoladas, de solo da Amazônia, compreendendo bactérias do gênero Streptomyces, Rhodococcus e Brevibacillus.

Leia também: Bactérias encontradas em áreas degradadas podem ser utilizadas na agricultura e combate de doenças

O passo seguinte se deu quando os pesquisadores do laboratório EngBio, da UFPA, liderados por Diego Assis das Graças, usou o sequenciador PromethION, da Oxford Nanopore (Reino Unido), “que se destaca por gerar leituras de alta qualidade, permitindo o sequenciamento de genomas complexos com alta produção de dados e baixo custo. A tecnologia de sequenciamento baseada em nanoporos permite a análise em tempo real e a leitura direta de DNA. Além disso, sua portabilidade e flexibilidade o tornam adequado para aplicações em laboratório e campo”, explicou Diego, que é um dos autores do primeiro artigo escrito a partir dessa fase da pesquisa.

Com esse sequenciamento, foi possível olhar para os genes e entender como eles atuam na construção de enzimas, e os caminhos que as tornam moléculas mais complexas. Metade delas era desconhecida.

“Estas moléculas são o foco dos nossos estudos, pois têm grande importância para desenvolvimento de fármacos e medicamentos. Por exemplo, mais de 2/3 (dois terços) de todos os fármacos já desenvolvidos no mundo têm origem em moléculas pequenas naturais, os metabólitos secundários ou metabólitos especializados”, explicou a pesquisadora Daniela Trivella, coordenadora de Descoberta de Fármacos do LNBio (Laboratório Nacional de Biociências).

A análise dos dados foi feita também no LNBio e utilizou o Sirius. Esse sequenciamento é muito mais acessível, em termos de custos e tempo, do que era há uma ou duas décadas. Com isso, é possível analisar o que Trivella explicou serem bactérias “selvagens”, ou seja, aquelas encontradas na natureza. A estimativa atual é que menos de 1 em cada 10 espécies de bactérias selvagens sejam cultiváveis em laboratório, e quando o são menos de 10% dos genes que carregam são expressos em laboratório. Todo o resto é “perdido” para a ciência, sem estes métodos de ponta. “Então, existem muitas bactérias que ainda não conhecemos e muitos produtos naturais que não conseguíamos produzir em laboratório, ou os produzíamos em baixíssimo rendimento”, completou Daniela.

Em resumo, o lugar importa, e muito. “Os agrupamentos de genes biossintéticos são responsáveis pela produção de substâncias com potencial biológico, como medicamentos. Mesmo em organismos já estudados, como as bactérias do gênero Streptomyces, vimos que ainda há muitas substâncias desconhecidas nos exemplares isolados do solo da Amazônia. Isso mostra como o ecossistema é essencial para novas descobertas. A Amazônia, nesse sentido, continua sendo uma área rica e pouco explorada para desenvolver novos produtos”, disse em nota outro dos participantes, o pesquisador Rafael Baraúna (EngBio-UFPA), que coordenou o trabalho pela UFPA.

O passo final foi levar a produção para uma escala de laboratório. Entendendo quais os genes que produzem cada substância, com uma técnica avançada chamada metabologenômica, os pesquisadores “convenceram” espécies de bactérias de manejo comum no laboratório a aceitarem esses genes e produzirem as substâncias, produzindo quantidades que possam ser testadas e trabalhadas.

“Com o DNA codificante alvo, a bactéria domesticada, que não produzia o metabólito de interesse, passa a produzi-lo, pois recebeu artificialmente a sequência de DNA que vimos na floresta. Assim temos acesso a esta molécula para desenvolver novos fármacos a partir dela. Ou seja, um acesso a novas moléculas a partir de uma rota biotecnológica”, disse Trivella.

Esse conjunto de testes não isola uma ou duas moléculas. Com toda a estrutura do CNPEN um laboratório dedicado, como o LNBio, pode realizar até 10 mil testes em um único dia. Essa velocidade compete com outra, voraz, a da devastação. O ano de 2024 teve o maior número de queimadas e incêndios na Amazônia nos últimos 17 anos. Para tentar ajudar na corrida, pelo lado da ciência, os investimentos para pesquisas no bioma, anunciados na última reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) estão no patamar de R$ 500 milhões nesta década, com potencial de ajudar a valorizar economicamente o território e sua cobertura original.

Como parte dos alvos são moléculas para tratar infecções e tumores, o retorno tem potencial superior ao dos investimentos.

“Todos estes métodos estão condensados na Plataforma de Descoberta de Fármacos LNBio-CNPEM. Esta plataforma realiza a pesquisa em novos fármacos, indo desde a preparação de bibliotecas químicas da biodiversidade e seleção de alvos terapêuticos para o desenvolvimento de fármacos, até a obtenção da molécula protótipo (a invenção), que então passa por etapas regulatória para chegar na produção industrial e aos pacientes na clínica”, ilustra Trivella.

Segundo ela as próximas fases da pesquisa levarão as equipes de campo longe até de Belém, para a Amazônia oriental. Lá esperam confirmar o potencial imenso de novas moléculas do bioma e comeár a entendê-lo ainda melhor.

Esse trabalho faz parte de um esforço maior para criar um centro de pesquisa multiusuário na UFPA, apoiado pelo CNPEM e por projetos nacionais como o Iwasa’i, recentemente implementado no contexto da chamada CNPq/MCTI/FNDCT Nº 19/2024 – Centros Avançados em Áreas Estratégicas para o Desenvolvimento Sustentável da Região Amazônica – Pró-Amazônia.

*Com informações da Agência Brasil

Pesquisadores desenvolvem métodos para auxiliar na reprodução artificial do pirarucu

A domesticação do pirarucu é um dos maiores desafios da ciência. Foto: Siglia Souza

Pesquisadores da Embrapa Pesca e Aquicultura (TO) deram um passo importante na reprodução artificial do pirarucu (Arapaima gigas), espécie amazônica ameaçada de extinção e altamente valorizada na gastronomia e até pela indústria da moda. Pela primeira vez, foi possível analisar e descrever as células espermáticas do peixe e comprovar a viabilidade de coleta de sêmen, avanço considerado essencial para garantir a oferta de alevinos e atender à crescente demanda do setor produtivo por uma reprodução artificial (fora do corpo do animal), como ocorre com outras espécies de peixe criadas em cativeiro.

Leia também: Manejo sustentável de pirarucu implementado nos rios amazônicos salvou a espécie da extinção

Frutos de quase uma década de estudos, os resultados foram publicados na revista científica Fishes e se deram no âmbito do projeto internacional Aquavitae, o maior consórcio científico mundial voltado à aquicultura, e que abrange o Atlântico e regiões banhadas por esse oceano.

“Esse é mais um marco em uma pesquisa que já dura nove anos e agora foca na criopreservação de material genético para a conservação e reprodução artificial da espécie”, relata Lucas Torati, pesquisador que lidera o estudo.

Diferentemente da tilápia (Oreochromis niloticus), por exemplo, cuja reprodução em cativeiro já está consolidada há anos, a domesticação do pirarucu é um dos maiores desafios da ciência. Ainda hoje boa parte do setor produtivo realiza a sua reprodução de forma natural. Estima-se que, em um universo de 10 a 15 casais formados em uma propriedade, apenas três ou quatro irão se reproduzir a cada ano.

Com olho nesse cenário, os cientistas pretendem consolidar um protocolo para a reprodução artificial da espécie, de modo que a oferta de alevinos seja constante ao longo do ano, uma antiga demanda do setor produtivo. O primeiro desafio foi encontrar um método para identificar machos e fêmeas. Torati explica que a dificuldade de diferenciar os sexos da espécie faz os criadores povoarem os viveiros aleatoriamente na tentativa de formar casais. Quando um casal se formava, era colocado em um viveiro menor, mais fácil de se manter o controle dos peixes.

Como resposta ao problema da sexagem, os pesquisadores desenvolveram um método de canulação. Um tubo estreito é inserido no “oviduto” do animal permitindo distinguir o sexo e ainda verificar o grau de maturidade das fêmeas. “Um piscicultor que trabalhou conosco nessa pesquisa obteve margens muito superiores de sucesso na reprodução do pirarucu, só pelo fato de ele utilizar a canulação”, conta Torati.

Peixe sendo canulado. Foto: Moisés Zorzeto/Acervo pessoal

Salto de duas para sete reproduções anuais

O piscicultor em questão é Moisés Zorzeto Neto, dono da Piscicultura Raça, em Canabrava do Norte (MT). Depois que ele aprendeu a técnica de canulação, sua produção de alevinos aumentou consideravelmente.

“Antes, conseguíamos uma ou duas reproduções por casal por ano. Com a técnica, esse número subiu para até sete”, relata Zorzeto, que há 18 anos produz alevinos de cinco espécies de peixe. A inovação o ajuda a organizar as matrizes reprodutoras e aumenta a eficiência do manejo em cativeiro.

Reprodução de peixes nativos: um desafio científico

Embora tecnologias para a reprodução de espécies como tilápia e salmão estejam bem estabelecidas, o mesmo não ocorre com peixes nativos brasileiros. Espécies como o tambaqui, por exemplo, dependem da terapia hormonal para ovular em cativeiro.

No caso do pirarucu, até 2010 poucos métodos conseguiam distinguir machos e fêmeas, pois não havia uma ferramenta segura e disponível para confirmar o sexo dos peixes.

“Àquela época, nem se falava em reprodução artificial do pirarucu. Mesmo porque procedimentos corriqueiros em outras espécies, como a coleta de gametas, era algo considerado impossível para o Arapaima”, conta Torati.

Um dos grandes empecilhos para a reprodução induzida do pirarucu estava na falta de tecnologias para a realizar a biópsia ovariana na espécie, algo fundamental para se avançar com as desejadas terapias hormonais. Para resolver o problema, foram feitos estudos de anatomia do peixe com a utilização de um ureterorrenoscópio, endoscópio utilizado para a remoção de cálculo renal em seres humanos.

Durante os estudos, os cientistas perceberam que a anatomia do pirarucu é diferente de outros peixes, os quais possuem um oviduto propriamente dito. “Em certo momento, depois de entender a anatomia do peixe, conseguimos substituir o ureterorrenoscópio por uma cânula endurecida com um arame dentro dela. Com essa cânula endurecida conseguimos acessar a cavidade celomática do animal, onde fica o ovário. Isso possibilitou que conseguíssemos distinguir machos e fêmeas com um acerto entre 80% a 100% e viabilizou identificar quais fêmeas estão maduras e aptas para receber o hormônio e induzir sua reprodução”, detalha o pesquisador da Embrapa.

O desafio da coleta do sêmen do pirarucu

No início do projeto Aquavitae, em 2019, o maior desafio era coletar o sêmen do pirarucu. “Nas primeiras coletas, começamos a encontrar problemas de contaminação com urina. Ao coletar sêmen de qualquer espécie, não pode ter água ou urina junto, pois o espermatozoide é ativado. Por isso, precisávamos desenvolver uma técnica para bloquear o canal urinário a fim de fazer uma coleta adequada”, pontua Luciana Ganeco-Kirschnik, pesquisadora da Embrapa, que participou do trabalho.

Após vários testes, a equipe conseguiu publicar o trabalho Possibilidade de coleta de sêmen do pirarucu e descrição das células espermáticas, no qual são descritos, pela primeira vez, a anatomia do espermatozoide – que possui dois flagelos –, rico em mitocôndrias; o tempo de motilidade e a técnica de coleta do sêmen sem contaminação com urina.

“Esse foi o principal resultado do projeto Aquavitae. O próximo passo é conseguir pegar o timming da ovulação das fêmeas, para conseguir coletar ovócitos (foto à esquerda) e realizar a fertilização artificial com a nova técnica de extração de sêmen do macho”, revela Torati. “Futuramente, abriremos uma nova linha de pesquisa: a criopreservação do sêmen do pirarucu, tal como é feito com outras espécies”, acrescenta Ganeco.

Sobre o Aquavitae

Orçado em oito milhões de euros oriundos majoritariamente do programa Horizon 2020, da União Europeia, o Aquavitae reuniu 29 instituições de 16 países americanos, africanos e europeus com o objetivo de aumentar a produção aquícola por meio de pesquisas no prazo de quatro anos.

Segundo o pesquisador Eric Arthur Routledge, da Gerência Geral de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, o consórcio internacional é uma valiosa conquista. “Ele é fruto de dez anos de articulações que envolveram o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) com a participação da Embrapa e algumas universidades brasileiras de referência em aquicultura”, conta.

Routledge relata que essas articulações geraram os subsídios para que o governo brasileiro e a Comunidade Europeia formalizassem, em julho de 2017, o acordo de cooperação em pesquisa e inovação do Atlântico, o “Belém Statement”, assinado por Brasil, África do Sul e União Europeia. Isso viabilizou pela primeira vez a participação do Brasil no consórcio internacional que aprovou, no fim de 2018, o projeto Aquavitae, cuja primeira reunião ocorreu em junho daquele ano, na Noruega.

As pesquisas sobre protocolos para a reprodução do pirarucu foram realizadas em parceria com a Universidade Estadual Paulista (Unesp) e o Instituto Norueguês de Pesquisa Alimentar (Nofima), que coordenou o Aquavitae.

Uma das principais características do Aquavitae foi a expressiva participação do setor produtivo em todos os países em que o projeto foi executado. No Brasil, houve sete parceiros da indústria, como a Primar Aquacultura, e a Associação Brasileira de Piscicultura (Peixe BR), representada no projeto pela Piscicultura Fazenda São Paulo, em Brejinho de Nazaré (TO). “Essa proximidade permitiu que as pesquisas fossem realizadas em sintonia com as demandas do setor produtivo”, ressalta Torati.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Embrapa

MPF pede plano para controle de búfalos em Rondônia e alerta para riscos ambientais

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Foto: Reprodução/Acervo NGI Cautário-Guaporé

O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou ação civil pública, com pedido liminar, para que seja determinado o controle e a erradicação de búfalos na região da Reserva Biológica Guaporé (Rebio Guaporé), no oeste rondoniense. Na ação, o MPF lembra que o crescimento desordenado da espécie já traz danos ambientais e pode trazer riscos econômicos e sanitários.

Leia também: Quase 5 mil búfalos selvagens vivem sem monitoramento em reservas indígenas de Rondônia

A população de búfalos, que soma mais de 5 mil animais e ocupa 12% da reserva, não é vacinada e nem está submetida a controle sanitário. Nesse sentido, o procurador da República autor da ação, Gabriel Amorim alerta que, “a existência descontrolada desses animais, inclusive, pode manchar a credibilidade da cadeia da pecuária de Rondônia, prejudicando gravemente a economia local”.

O MPF pede que o um plano de controle utilize métodos que causem o menor sofrimento possível aos animais e danos colaterais ao meio ambiente.

De acordo com a ação, os búfalos exóticos foram introduzidos, em 1953, na antiga Fazenda Pau D’óleo, de domínio do então Território Federal do Guaporé, hoje domínio do estado de Rondônia. Contudo, a fazenda foi abandonada e 36 animais se reproduziram livremente em um habitat com farto alimento e nenhum predador. Estima-se que, até 2030, essa população chegue a 50 mil e ocupe mais da metade da área da Rebio.

Impactos ambientais

Além dos riscos sanitários e econômicos, o MPF adverte que a presença desses animais na Rebio Guaporé coloca em risco o meio ambiente. Segundo a ação, a presença dos animais vem compactando o solo, causando desertificação e desviando cursos hídricos. Os búfalos também disputam recursos com o cervo do pantanal, uma espécie ameaçada de extinção.

O MPF mostra que os ambientes alagados foram reduzidos em 48% nos últimos 34 anos em decorrência do pisoteamento e abertura de canais com erosão e compactação do solo, causados pelos búfalos.

A situação é conhecida desde 2008, quando o Ministério Público do estado e outros órgãos locais visitaram a área para atender a uma denúncia de que estavam sendo realizadas intervenções em sítios arqueológicos na região. Os agentes não encontraram sinais de intervenções humanas, mas foi possível constatar a presença de vestígios de búfalos selvagens, fato que poderia causar danos ao sítio arqueológico em razão de suas pisoteadas, da consequente erosão, desvio de corpos hídricos, entre outros problemas. Desde então foram feitas várias reuniões e tratativas para tentar solucionar a questão.

Pedidos

A ação civil pública pede que a Justiça Federal determine ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e ao Estado de Rondônia uma série de medidas. Se condenado, o órgão deverá apresentar, em até dez meses, um plano de controle e erradicação dos búfalos na Rebio Guaporé e região, utilizando métodos que causem o menor sofrimento possível aos animais e danos colaterais ao meio ambiente.

Já o estado de Rondônia deverá executar o plano usando recursos financeiros, humanos (servidores públicos) e equipamentos, sob comando do ICMBio. Por fim, o governo rondoniense deverá dispor de recursos para a elaboração e execução de um plano de recuperação de área degradada, mediante aprovação e gestão da autarquia federal.

Inicialmente, a ação foi endereçada à 2ª Vara de Ji-Paraná, mas o MPF solicitou a redistribuição para a 5ª Vara da Seção Judiciária de Rondônia, que trata de questões ambientais no estado.

Acesse a íntegra da ACP 

*Com informações do MPF

Estudantes conhecem o maior manguezal contínuo do planeta por meio de projeto nacional

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O projeto Escola Vai ao Mangue, promovido pelo Instituto Peabiru com apoio da Petrobras, leva estudantes para vivências práticas no maior manguezal contínuo do planeta, localizado na costa amazônica.

A região traz benefícios ambientais, como lembra Marcos Fernandes, coordenador do Laboratório de Ecologia dos Mangues da Universidade Federal do Pará (UFPA):

“Essa região é de grande importância ecológica, ela é de grande importância socioeconômica e de grande importância cultural. Do ponto de vista ecológico, eles servem como berçários para diversas espécies marinhas e terrestres. Nas espécies marinhas, inclui os peixes, os crustáceos, todos os mariscos que a gente pode observar em áreas de manguezal e é essencial para a biodiversidade e da pesca local”.

Leia também: “É um problema nosso”: especialista em manguezais fala sobre a importância de preservá-los

Durante as atividades de projetos nos mangues paraenses, os alunos têm a oportunidade de interagir diretamente com o ecossistema, conhecendo espécies como o mangue vermelho, o mangue preto e o mangue branco, além de animais como o caranguejo-uçá.

O manguezal da costa amazônica, que se estende por 679 quilômetros entre o Pará e o Maranhão, é o maior do mundo em extensão contínua. Esse ecossistema mistura água doce e salgada, abriga espécies como o turu, um molusco, e o ajuru, fruto, fundamentais para a cultura alimentar e economia local.

John Gomes, gestor do projeto Mangues da Amazônia, do Instituto Peabiru, comenta a necessidade de conhecer a realidade local.

“Conhecer esse ecossistema, conhecer as pessoas que interagem, como esse meio ambiente interage entre si, é muito importante. Então, estudar os manguezais antes mesmo de aplicar um projeto nessas comunidades e nessa região costeira é de suma importância, porque a gente vai ser assertivo no momento de fazer alguma intervenção nesse ecossistema”.

Em ano de COP30, projetos como o do Instituto Peabiru são importantes, visando a conservação e o diálogo da educação ambiental, como explica John Gomes.

“Quando você pensa em COP30 para o Brasil, já é bem amplo e muitas pessoas não entendem. Quando fala de Amazônia, filtra mais ainda. E aí quando a gente entra para as escolas e na questão da educação, é o momento de a gente apresentar para eles a importância do meio ambiente, de trabalhar em contexto ambiental, respeitando o ambiente, respeitando as pessoas, a gente vai estar contribuindo para as mudanças climáticas do mundo. Então, a importância dos projetos nesse sentido de educação ambiental é sensibilizar as pessoas para que a gente consiga recuperar, onde é preciso recuperar, e conservar, nas áreas ainda conservadas”.

*Com informações da Rádio Agência Nacional

Conservação florestal garante a produtividade do cacau no Pará e na Bahia, mostra estudo

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Foto: Jeser Andrade Arango/Pixabay

A conservação de florestas favorece a produtividade do cacau na Bahia e no Pará, estados líderes na produção brasileira do fruto, que é o principal ingrediente do chocolate. É o que aponta estudo publicado no dia 30 de janeiro, na revista ‘Environmental Conservation‘ por pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale (ITV) e das universidades federais do Pará (UFPA) e de Goiás (UFG).

No Pará, municípios que preservaram suas florestas tiveram aumento de cerca de 65% na produtividade do cacau desde a década de 80. Já municípios que sofreram forte desmatamento tiveram perdas de produtividade, alguns com reduções de mais de 40%. A maioria dos municípios baianos perderam produtividade ao longo do período de monitoramento, mas aqueles que recuperaram suas florestas tiveram perdas menos acentuadas.

Os pesquisadores reuniram dados históricos sobre a produção do fruto em 161 municípios da Bahia (101) e do Pará (60). A área analisada abrange cerca de 552 mil hectares, o que representa 93% da produção nacional. A equipe calculou a diferença na produtividade entre os períodos de 1985 a 1987 e 2019 a 2021, comparando métricas como variação da cobertura florestal, da extensão de terras cultivadas e do nível de fragmentação florestal, assim como as áreas totais municipais e a porcentagem dedicada ao cultivo.

“Independentemente do histórico de uso do solo nas regiões estudadas, nosso trabalho deixa claro que a perda de cobertura florestal é um fator determinante para a queda na produção”, ressalta Gustavo Júnior de Araújo, pesquisador do ITV e autor principal da publicação. “Os municípios da Bahia vêm sofrendo com a degradação da Mata Atlântica desde o século 18 e a conversão de florestas para agricultura nessa região foi muito intensa”, explica o pesquisador.

O estudo também revelou que os efeitos sobre as propriedades produtoras podem variar conforme o tamanho da área de cultivo. Em municípios paraenses nos quais o cacau não é o principal produto agrícola, a maior cobertura florestal beneficiou apenas grandes propriedades – aquelas com mais de 10 hectares –, possivelmente devido aos maiores recursos financeiros desses produtores. Florestas densas aumentam a distância até centros comerciais e dificultam o acesso a tecnologias, o que pode limitar a lucratividade das pequenas propriedades. Já na Bahia, a produtividade, em ambas as escalas, foi menor em municípios com maior fragmentação florestal.

As conclusões alertam para a necessidade de repensar as práticas agrícolas utilizadas. “Em busca de retornos financeiros mais rápidos, muitos produtores recorrem a monocultivos de cacau a pleno sol, com variedades clonais”, relata Araújo. “Além das incertezas sobre a sustentabilidade desse modelo, a expansão dos monocultivos pode reduzir as florestas naturais e os serviços ecossistêmicos essenciais à cacauicultura”, complementa.

Araújo explica que a conservação das florestas é essencial para a regulação climática natural, proteção do solo, polinização e controle biológico de pragas, por exemplo.

O autor defende a implementação de práticas que equilibram a produção e a conservação das florestas como passo fundamental para uma cacauicultura mais eficiente e ecológica.

“É necessário incentivar políticas públicas que promovam os benefícios dos sistemas agroflorestais, apoiar financeiramente os produtores na transição para sistemas mais sustentáveis e fomentar a pesquisa sobre a viabilidade e os impactos dos monocultivos de cacau”, aponta. Araújo e sua equipe devem continuar contribuindo com a investigação de questões como a influência da diversidade genética das plantas, do clima e dos microrganismos presentes no solo, atentando para a rentabilidade dos produtores de cacau aliada à conservação da floresta.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori

3 mulheres indígenas que representam a luta dos povos originários no Acre

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Foto: Aldo França

O Dia Mundial dos Povos Indígenas, celebrado em 7 de fevereiro, marca ainda um tempo de luta pelos seus direitos e representatividade. A data foi instituída em 2008 pela Lei n° 11.696. No Acre, três mulheres indígenas – Nedna Yawanawa, Soleane Manchineri e Gemina Shanenawa – estão à frente dessa batalha, ocupando cargos estratégicos na defesa de comunidades e na formulação de políticas públicas. É através de lugares de poder e liderança que garantem o fortalecimento das mulheres indígenas.

Leia também: Luta indígena enfrenta marco temporal e tenta “aldeamento do Estado”

A diretoria indígena da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e das Políticas Indígenas (Semapi), Nedna Yawanawa, fala sobre a responsabilidade como representante no Estado e do sentimento de respeito.

“Porque nós estamos num momento diferente, que a própria cultura não é estática, ela é dinâmica. Então nós também passamos por esse processo de mudança, em que as mulheres, hoje, elas passam a ter essa visibilidade, porque a gente sempre contribuiu. Desde os serviços, desde os trabalhos de tarefa na aldeia, nós temos o nosso papel”, afirmou.

Essas mulheres são símbolos de força e resistência que preservam as tradições e histórias com desafios diários para que as gerações futuras possam continuar o legado ancestral para garantir que a voz dos povos originários ecoe cada vez mais longe.

A coordenadora da organização de mulheres indígenas do Acre, Gemina Shanenawa, relata o preconceito e falta de oportunidade para conseguir se inserir no mercado de trabalho.

“Eu encontrei muitas portas fechadas. A falta de oportunidades de ser inserida no mercado de trabalho aqui dentro de Rio Branco, sofrer muito preconceito, racismo também, então quando se trata da mulher indígena, nós temos esse desafio. Hoje eu tenho um cliente que relata assim pra gente, ‘me chamam de Xiu’ quando me falaram que a equipe de vocês era de mulheres indígenas, eu não dei muita credibilidade, por quê? Porque infelizmente existe uma sociedade ainda que deturpa a imagem de nós, povos indígenas’,” relembrou.

As mulheres indígenas enfrentam desafios ao longo da vida, superando obstáculos que vão desde o preconceito até a valorização das suas raízes.

A ouvidoria geral da Defensoria Pública do Acre, Soleane Manchineri, afirma que as mulheres não têm tantos espaços e dos preconceitos sobre a imagem da mulher indígena.

“A gente ainda perece muito em relação às questões econômicas, porque não tem tantos espaços que estão abertos para a população indígena, principalmente em relação às mulheres, e a gente tem um legado negativo que é a erotização da mulher, da imagem da mulher indígena, que foi construída na literatura. Então a gente precisa superar essa imagem erotizada, e nós mulheres indígenas, nós temos inteligência, a gente não é simplesmente um símbolo sexual, a gente é dotada de sabedoria, de querer, de conquista, de avanço. Nós somos mães, nós somos estudantes, somos mulheres que levam outras mulheres para frente, a gente faz esse papel de estar fazendo um acolhimento, e isso não é visto assim”, explicou.

*Por Melícia Moura, da Rede Amazônica AC

Manual técnico-científico propõe soluções para a arborização urbana na Amazônia

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Foto: Daniel Vilhena/AID/Alepa

Qual a importância de uma adequada arborização para as pessoas e para as cidades? Tanto em uma grande metrópole ou em municípios com população menor, a arborização urbana ocupa um lugar significativo no que se refere à saúde e ao bem-estar da população, além de ser uma aliada no combate às mudanças climáticas. No entanto, recorrentemente, a presença das árvores é subestimada ou vista apenas como um detalhe estético no planejamento urbano.

Muito mais que sombras e paisagens, as árvores contribuem para a redução da temperatura nas cidades frequentemente afetadas pelo chamado “efeito ilha de calor”, um fenômeno causado, entre outros fatores, pelo excesso de concreto e asfalto que retêm calor. Além disso, as árvores melhoram a qualidade do ar, pois absorvem gases poluentes, como o dióxido de carbono (CO₂), e liberam oxigênio. Também atuam como filtros naturais, capturando partículas em suspensão, como poeira e fuligem, que podem causar problemas respiratórios.

Para que os benefícios da presença de árvores nas cidades, ou seja, da arborização em espaços urbanos sejam plenamente aproveitados, é necessário que ocorra um planejamento de forma criteriosa, desde a escolha das espécies e o plantio, considerando as mais adequadas para cada ambiente urbano.

Publicação

O Brasil, que abriga uma das maiores biodiversidades do planeta, apresenta desafios no que se refere à arborização urbana. Essa realidade ganha ainda mais destaque na Amazônia, onde a abundância de espécies nativas contrasta com a preferência histórica por plantas exóticas em áreas urbanas. Buscando alternativas a esse cenário, os pesquisadores Rafael P. Salomão e Nélson A. Rosa (in memoriam) apresentam o Guia de Seleção de Árvores Ornamentais: Paisagismo Urbano para a Amazônia, um manual técnico-científico que propõe diretrizes para a escolha e manejo adequado de espécies em espaços urbanos.

Disponível no portal do Museu Goeldi, o guia destaca a importância das árvores não apenas como elementos estéticos, mas como agentes que podem impulsionar a qualidade de vida nas cidades. Na Amazônia, onde altas temperaturas e umidade são constantes, a arborização urbana pode ser uma solução eficaz para atenuar o desconforto térmico, melhorar a qualidade do ar e promover o bem-estar das populações. Contudo, como apontado pelos autores, o planejamento adequado e o uso de espécies nativas são fundamentais para alcançar esses objetivos.

O guia apresenta uma matriz de seleção que analisa diversos atributos de espécies arbóreas, com destaque para características como altura da árvore adulta, forma da copa, floração, folhagem e valor cultural ou legal. Esses critérios ajudam gestores públicos, paisagistas e ambientalistas a tomar decisões informadas sobre quais árvores plantar em diferentes espaços urbanos.

Análise da Arborização Urbana em Belém

O pesquisador Rafael Salomão destaca que analisou a arborização na capital paraense qualitativa e quantitativamente, examinando, também, a legislação municipal sobre o tema.

“Durante esse processo de análise, verificamos que é de 78 o número de espécies que foram usadas na arborização de Belém. Dessas, apenas 10 espécies correspondem a mais de 90% do total de árvores plantadas e apenas duas são originárias da Amazônia”, pontua.

O Manual de Orientação Técnica da Arborização Urbana de Belém, publicação de 2013 coordenada pela Prefeitura de Belém e Universidade Federal Rural da Amazônia, recomenda 85 espécies, das quais 46 são da Amazônia e 39 exóticas. Considerando que grande parte das cidades do interior do Estado tende a seguir os projetos paisagísticos da capital, segundo o pesquisador, pode-se considerar que a composição e a densidade não se distanciam destes números.

Rafael destaca, ainda, a matriz de seleção de espécies ornamentais para uso urbano, relacionando 151 espécies com uso atual e potencial no paisagismo urbano, das quais 89 são adequadas às vias urbanas e 54 às áreas verdes. Entre estas, 32 foram consideradas como de extrema beleza, 49 como muito belas e 70 como ornamentais. Espécies com flores perfumadas somaram 26, e outras 15 proporcionam sombra abundante.

Atributos

Dentre as características arbóreas que o guia destaca, está a altura. A altura de uma árvore é um fator determinante para seu uso em áreas urbanas, especialmente sob redes elétricas. O guia classifica as árvores em três categorias: pequenas (até 6 metros), médias (entre 6 e 12 metros) e grandes (acima de 12 metros). Para áreas sob fiação elétrica, recomenda-se espécies de menor porte, enquanto árvores de grande porte são ideais para parques e praças. Essa avaliação previne conflitos com a infraestrutura urbana e reduz custos com manutenção, como podas frequentes.

A forma copa das árvores é fundamental por proporcionar sombra e conforto térmico, especialmente em regiões de altas temperaturas. O guia destaca tipos de copa, como as densas e largas, que oferecem excelente cobertura, e as ralas e estreitas, mais adequadas para espaços menores. Exemplos práticos incluem copas esféricas, como a do oitizeiro  (Licania tomentosa), e copas em forma de guarda-chuva, como a do visgueiro (Parkia pendula).

Além disso, as flores são um dos principais atrativos ornamentais das árvores. O manual valoriza espécies com florações vistosas, como o ipê amarelo (Handroanthus serratifolius) e o ipê roxo (Handroanthus impetiginosus), reconhecidos pela exuberância de suas cores. Apesar de muitas flores terem curta duração, seu impacto visual e ecológico, ao atrair polinizadores, as torna elementos essenciais no paisagismo urbano.

Por fim, o guia também destaca que muitas árvores têm importância cultural e legal, sendo símbolos de identidade local. O guia ressalta espécies como as mangueiras (Mangifera indica), indissociáveis da paisagem de Belém, conhecida como “Cidade das Mangueiras”. Além disso, algumas espécies, como o pau-brasil (Caesalpinia echinata) e a castanheira-do-brasil (Bertholletia excelsa), são protegidas por leis devido à sua relevância histórica, econômica e ambiental.

Leia também: Entenda porque Belém é chamada de “cidade das mangueiras”

Plantas para Belém

Os assuntos do Guia são relevantes para o debate sobre o processo de arborização na capital paraense e foram tópicos do evento “Plantas para Belém: estratégias para a arborização e jardinagem de Belém frente aos desafios urbanos e climáticos”, realizado em novembro de 2024, no Auditório Paulo Cavalcante – Campus de Pesquisa do Museu Goeldi, como resultado do acordo de cooperação técnica com a Prefeitura de Belém sobre a educação ambiental e arborização da cidade.

No decorrer do evento, os presentes participaram de palestras e dinâmicas de grupo com temáticas referentes à estrutura urbana de Belém; vulnerabilidades urbanas frente às mudanças climáticas; resiliência, sustentabilidade e conservação ambiental a favor da inclusão; e aproveitamento de espécies nativas da região amazônica.

A Coordenadora de Pesquisa e Pós-Graduação do Museu Goeldi, Marlúcia Martins, destacou a importância do debate e a busca de um consenso sobre espécies adequadas em função das características específicas de Belém.

O professor Sérgio Brazão, da Universidade Federal Rural da Amazônia, enfatiza a importância de uma abordagem técnica para a arborização urbana em Belém, considerando as especificidades geográficas da cidade. Durante a oficina, Brazão ressaltou que, por ser uma cidade plana, mas com áreas de baixa altitude e subsolos ricos em água, é essencial escolher espécies adaptadas a essas condições para garantir a sobrevivência das árvores. Ele também enfatizou a necessidade de selecionar espécies adequadas para as áreas de terra firme, visando criar uma arborização que reflita a identidade amazônica.

Na construção de uma cidade resiliente às mudanças climáticas, Marlúcia Martins destaca que a arborização urbana deve ser planejada como parte integrante da infraestrutura da cidade, contribuindo para a contenção do solo, amenização de temperaturas, absorção de carbono e manutenção da fauna, como polinizadores e aves. Além disso, a distribuição equitativa de áreas verdes no espaço urbano é essencial para garantir benefícios socioambientais em todas as regiões da cidade, promovendo maior justiça climática.Nelson Rosa

*Com informações do Museu Goeldi

Levantamentos geológicos na Bacia do Tacutu, em Roraima, avaliam potencial de óleo e gás

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Foto: Divulgação/SGB

A Bacia do Tacutu, que atravessa trecho da fronteira entre o Brasil e a Guiana, tem sido objeto de estudos que avaliam seu potencial para a geração de óleo e gás. Os trabalhos realizados na Guiana contribuíram para o reconhecimento de um meio-gráben (estrutura de uma fossa tectônica profunda e assimétrica), de idade jurássico-cretáceo e com uma espessura sedimentar e vulcânica estimada entre 1.200 e 6.000 metros.

No Brasil, o Serviço Geológico do Brasil (SGB) liderou as primeiras investigações geológicas de superfície na Bacia do Tacutu. Essas pesquisas indicaram a necessidade de estudos mais aprofundados, como poços estratigráficos para verificar o empilhamento sedimentar e a existência de camadas geradoras de hidrocarbonetos. As análises destacaram elementos estruturais associados ao meio-gráben, como blocos falhados, que podem funcionar como armadilhas para o acúmulo de óleo e gás.

O SGB tem ajudado no avanço dos estudos estratigráficos da Bacia do Tacutu. Na atividade de mapeamento geológico, assomam o reconhecimento da estratigrafia, do arcabouço estrutural, da geofísica terrestre e de subsuperfície, de estudos de palinologia (flora/fauna) e geocronologia. 

Recentemente, um acordo de cooperação técnica entre o SGB e a Guyana Geology and Mines Commission (GGMC) trouxe a integração de informes geológicos e da geodiversidade entre os dois países.

Esses esforços conjuntos colocam a Bacia do Tacutu como uma região promissora à exploração de óleo e gás, unindo ciência e cooperação internacional para o desenvolvimento sustentável dos recursos naturais.

Em décadas passadas, estudos exploratórios, conduzidos pela Petrobras no Brasil e pela canadense Home Oil Company na Guiana, contribuíram significativamente para identificar rochas geradoras e suas potencialidades.

Resultados promissores e novos desafios

Análises químicas revelaram altos níveis de carbono orgânico total (COT) em folhelhos negros de uma de suas camadas, registrando boa favorabilidade na geração de hidrocarbonetos e reforçando, por sua vez, o potencial da bacia na geração de óleo e gás. A descoberta de ocorrência subcomercial de óleo em basalto fraturado no poço Karanambo (Guiana) tem incentivado a continuidade das investigações exploratórias.

*Com informações do SGB

Ensino de geografia ajuda a promover inclusão digital no Amazonas

Foto: Flávio Teixeira Lima/Arquivo pessoal

Melhorar a qualidade do ensino a partir do uso de meios e ferramentas tecnológicas de geoprocessamento como forma de inclusão digital e incentivo ao mercado de trabalho, para alunos da rede estadual de ensino foi o objetivo de uma pesquisa apoiada pelo Governo do Amazonas, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).

O estudo amparado pelo edital n° 006/2021 – Programa de Desenvolvimento e de Inovação para Educação Básica – Prodeb/Fapeam teve como premissa encorajar o pensamento crítico dos estudantes e incentivá-los na entrada ao mercado de trabalho.

A pesquisa “Aplicações tecnológicas do geoprocessamento nos estudos ambientais como ferramenta de inclusão digital e preparação ao mercado de trabalho, direcionadas ao ensino médio da rede estadual de educação do Amazonas” foi coordenada por Flávio Teixeira Lima, mestre em Ciência e Engenharia de Materiais; doutorando em Geografia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), e professor da Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar.

O projeto multidisciplinar teve como base a disciplina de Geografia na análise espacial, e também integrou conhecimentos da Matemática, Física e Química no Sensoriamento Remoto; de Informática no contato com softwares especializados em Geoprocessamento; e da Língua Inglesa.

Com essa metodologia, foi possível identificar dados de componentes físicos, bióticos e antrópicos do espaço geográfico de uma determinada região. E dessa maneira, trouxe a possibilidade de contribuição para o debate sobre a relação da sociedade com o meio ambiente.

Para o coordenador, uma das formas de melhorar a qualidade de ensino é a partir da disponibilização de ferramentas tecnológicas em sala de aula ainda nos primeiros anos da vida escolar, especialmente para aqueles alunos com acesso limitado ao mundo digital.

“A inclusão digital permite a inserção de habilidades que possam ser melhoradas ao longo do tempo, além de criar uma cultura voltada ao mundo da tecnologia, uma vez que é uma área que traz imensas contribuições sociais”, disse.

Durante a pesquisa realizada na Escola Estadual Manuel Rodrigues de Souza, localizada no bairro Armando Mendes, zona leste de Manaus, foi apresentado aos estudantes o conjunto de técnicas que fazem parte da Geotecnologia, que cuida da coleta, da interpretação e da investigação dos dados reunidos, possibilitando acesso a softwares especializados como ArcGIS Dashboards e ArcGIS Pro, e a técnicas da aerofotogrametria com o uso de drones.

Flávio Lima espera que o projeto tenha despertado o interesse dos alunos para o mercado de trabalho na área de tecnologia, bem como para a investigação científica em geral. O pesquisador explica que, a depender do que faz parte da grade curricular, a escola também tem influência direta não só no desenvolvimento intelectual dos alunos, mas também no campo profissional.

“A tecnologia está presente em todas as áreas do conhecimento. Isso faz com que gere ampla possibilidade de escolha, permitindo que o indivíduo busque uma área que seja compatível com seus interesses profissionais”, pontuou.

Ele acredita que tem sido cada vez mais relevante que os métodos de ensino sejam repensados, para atrair a atenção dos estudantes, promovendo a autonomia e o trabalho colaborativo, integrando teoria e prática. Para isso, são necessárias atividades que estejam de acordo com as diretrizes da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) e que estimulem a curiosidade dos estudantes em um espaço de análise crítica e de criatividade.

“A aliança entre teoria e prática possibilita mais autonomia nos estudos. Facilita o aprendizado, uma vez que torna o aluno alguém mais crítico, desencadeando assim maior poder de busca do conhecimento e de situações do ambiente que o envolve”, declarou.

De acordo com o coordenador, a inclusão digital em sala de aula não se trata apenas da disponibilização de equipamentos, mas também da necessidade de mostrar aos estudantes de que maneiras a tecnologia pode contribuir no dia a dia, e quais oportunidades podem surgir a partir do domínio dessas ferramentas.

Resultados

O estudo gerou a produção do artigo científico “As Contribuições das Geotecnologias na Construção do Conhecimento Geográfico Frente aos Desafios da Consolidação do Pensamento Espacial e do Raciocínio Geográfico na Nova BNCC”, que foi publicado na Revista Presença Geográfica (RPGeo), da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), disponível no link: periodicos.unir.br

Além disso, imagens e vídeos foram produzidos a respeito da análise geográfica, bem como materiais cartográficos a partir dos estudos de Geoprocessamento.

*Com informações da Fapeam