O Memorial Jorge Teixeira: espaço cultural esquecido. Foto: Divulgação
Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com
O Memorial Governador Jorge Teixeira, localizado na capital rondoniense, enfrenta um estado de abandono há cerca de um ano. O único responsável pela preservação do espaço cultural é o zelador Salomão Arlindo, que recebe um salário mínimo mensal. “Comprei uma roçadeira por conta própria e faço o que posso. Mas faltam recursos para produtos de limpeza e sacos de lixo”, relatou Salomão, que trabalha no local há duas décadas. Ele faz campanha para arrecadar doações por pix.
O Memorial, que integra o roteiro turístico da cidade, está aberto à visitação mediante agendamento. Sem os devidos cuidados, a manutenção do espaço depende inteiramente do dedicado funcionário, e corre o risco de ser fechado. Nas redes sociais, vídeos de Salomão realizando a manutenção do imóvel geraram elogios à atitudes, mas críticas às instituições públicas. Comentários apontam que as autoridades não dão a devida atenção ao patrimônio histórico de Rondônia.
Inaugurado na década de 1990, o museu abriga diversas relíquias relacionadas à biografia de Jorge Teixeira, o último governador do Território Federal de Rondônia e o primeiro do estado. Teixeirão, como era conhecido, governou de 1979 a 1985, e foi uma figura mítica na política local. Dois municípios, Teixeirópolis e Jorge Teixeira, além do Aeroporto Internacional de Porto Velho, foram nomeados em sua homenagem.
Salomão Arlindo: sacrifício pessoal para cuidar de um espaço público. Foto: Reprodução/Facebook
O Memorial GJT funciona na antiga residência oficial dos governadores, construída no final da década de 1940, à rua José do Patrocínio, 501, esquina com Euclides da Cunha; está no Centro Histórico, próximo ao antigo Palácio Presidente Vargas, sede do Poder Executivo estadual até 2015. O local possui uma estátua de bronze de Teixeirão no jardim frontal, de onde se avista o Rio Madeira e a Usina Hidrelétrica de Santo Antônio.
A historiadora Yêdda Borzacov e a jornalista Maria Aparecida de Souza, conhecida como Cida, se dedicaram à preservação do espaço enquanto puderam. Mantido por uma associação em convênio com o Governo Estadual, o Memorial foi sendo abandonado com a avançada idade de Yêdda e a morte de Cida, em 2020. Elas atuaram voluntariamente, mesmo aposentadas do serviço público, para garantir a preservação do local, por amor à história.
O acervo
Repleta de condecorações, indumentárias, objetos pessoais, obras de arte e documentos, o espaço onde está o Memorial Governador Jorge Teixeira foi habitado por governadores durante quase quatro décadas. Ângelo Angelim foi o último residente do casarão, em 1987.
Sobre o autor
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.
Público no Carnaboi 2024. Foto: Marcely Gomes/SECAM
O Carnaboi 2025 será realizado nos dias 7 e 8 de março no Studio 5 Centro de Convenções, na Zona Sul de Manaus, com entrada gratuita. A programação completa dos dois dias de festa foi divulgada nesta terça-feira (25). Confira as atrações e os horários das apresentações abaixo.
A 24ª edição do evento será promovido pelo Governo do Amazonas em parceria com a Fundação Rede Amazônica.
Pelo segundo ano consecutivo, o Carnaboi terá transmissão ao vivo pela Rede Amazônica, além do g1 e CBN Amazônia Manaus.
Confira abaixo a programação completa dos dois dias de Carnaboi 2025:
1ª noite – Sexta-feira – 7 de março
Exaltação Cultural: O Amazonas é Boi-Bumbá
19h00 – Grupo A Toada & Robson Jr 19h40 – Grupo Kboclos & Márcio do Boi 20h20 – João Paulo Faria & Carlos Batata 21h00 – Fabiano Neves & Klinger Jr 22h15 – Carnaboi 2025 – É Festa de Boi-Bumbá 23h45 – Sebastião Jr. & Leonardo Castelo 00h25 – Prince do Caprichoso & Júnior Paulain 01h05 – Israel Paulain & Carlinhos do Boi 01h45 – Edmundo Oran & Canto da Mata 02h25 – Toada de Roda & Felipe Júnior
2ª noite – Sábado – 8 de março
Exaltação indígena: Viva os Povos da Floresta
19h00 – Boi Brilhante / Boi Garanhão / Boi Corre Campo 19h45 – Márcia Novo & Curumins da Baixa 20h30 – Luanita Rangel & Jardel Bentes 21h15 – Márcia Siqueira & Mara Lima 22h00 – Edilson Santana & Paulinho Viana 22h45 – Tony Medeiros & P.A Chaves 23h40 – Carnaboi 2025 – É Festa de Boi-Bumbá 01h10 – Patrick Araújo & Arlindo Neto 01h50 – David Assayag & Helen Veras 02h30 – Gean Figueira & Adriano Aguiar
Horários das transmissões
Na sexta-feira (7) a transmissão será após o BBB 25 e no sábado (8) após o Altas Horas.
Animal na reserva biológica. Foto: Acervo NGI Cautário-Guaporé
Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com
O Ministério Público Federal (MPF) exige que o Estado de Rondônia apresente uma solução para o desequilíbrio ambiental registrado na Reserva Biológica Guaporé, onde vivem cerca de cinco mil búfalos selvagens. Os animais, que ocupam uma área equivalente a 60 campos de futebol, estariam desertificando a região devido à sua reprodução desenfreada.
O MPF acionou o Governo Estadual e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), exigindo a erradicação dos búfalos e aplicando uma multa de R$ 20 milhões ao Estado pelos supostos danos causados.
Originalmente, apenas 36 búfalos asiáticos, das raças Carabao e Jarafabadi, foram introduzidos na antiga Fazenda Pau d’Alho em 1953, como parte de um projeto estatal de expansão da pecuária na região.
O abate dos búfalos para consumo foi cogitado, mas descartado devido à ausência de controle de zoonoses no rebanho. Em 2014, uma audiência pública na Assembleia Legislativa discutiu até a “caça turística” como forma de mitigar o impacto ambiental. No entanto, a ação ficou no discurso.
Em 2016 o então governador Confúcio Moura (MDB) sancionou a Lei 3771 permitindo o abate desses animais para se evitar mais prejuízos à fauna e à flora. Na prática, porém, nada ocorreu de lá para cá.
A falta de acesso à área isolada de 96 mil hectares onde os búfalos vivem torna o controle populacional inviável.
48% da área alagada foram reduzidos devido ao hábito dos búfalos de chafurdar na lama e desviar os leitos de água. Espécies nativas, como onças-pintadas e cervos-do-cerrado foram praticamente extintos pelos “invasores”.
Agora, o MPF determina que os búfalos devem ser abatidos com o menor grau possível de sofrimento, e o plano de extermínio deve ser apresentado pelo Governo Estadual, sob fiscalização do órgão federal e acompanhamento do ICMBio. A probabilidade é de que o abate seja a tiros e de que ps corpos sejam incinerados no próprio local.
O ICMBio divulgou uma nota afirmando que “estuda tecnicamente a melhor alternativa para a retirada dos búfalos, considerando as dificuldades logísticas para a destinação desses animais selvagens, diante da geografia do local”.
Possível exagero nos números
O MPF alerta que, sem uma solução imediata para a dizimação dos búfalos, a população poderá chegar a 50 mil animais até 2030. No entanto, os números parecem exagerados. Mesmo que se mais da metade do rebanho for composta por fêmeas – e não há exatidão sobre esse dado – e 100% delas se reproduzissem, a quantidade de búfalos dobraria em cinco anos, no máximo. Normalmente, apenas animais confinados e submetidos à inseminação artificial e manejo específico conseguem parir com menos de dois anos de vida.
Outro lado da história – o olhar de um defensor da causa animai
As propostas até agora ventiladas enfrentam resistência das políticas de defesa da vida animal. Um cidadão, que prefere não ser identificado por ser servidor do Estado, questiona: “Qual o bem natural de maior valor: uma família de búfalos ou uma árvore? Quem pode aquilatar?” Ele diz, ainda, que “não existe abate a tiro sem sofrimento”. Órgãos ambientais estão de olho na questão
Tratando os animais como “gigantes gentis do Guaporé”, o naturalista chama-os de “majestosos, de olhos profundos e movimentos serenos”.
Segundo ele, “os búfalos selvagens do Guaporé não são predadores, não representam ameaça. Eles pastam silenciosamente, banham-se nos rios e protegem seus filhotes com um instinto que só os mais nobres seres possuem: o amor.
Eles não escolheram estar ali. Foram trazidos, esquecidos, mas nunca perderam sua docilidade. Quem já os observou de perto sabe: há uma beleza tranquila neles, uma força que não se impõe pela violência, mas pela presença serena.
O olhar poético prossegue: “Exterminá-los não é apenas apagar vidas, mas silenciar para sempre uma parte da natureza que encontrou seu próprio equilíbrio. Eles não merecem ser punidos pela sua existência. Eles merecem ser protegidos pelo que são: seres vivos que só pedem para continuar respirando”.
Sobre o autor
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.
A Universidade Federal do Amazonas (Ufam), por meio do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção (PPGEP), desenvolveu o Software Maturidade na Indústria 4.0 IFES. Trata-se de uma ferramenta inovadora voltada para a avaliação e o aprimoramento da maturidade digital das indústrias no contexto da Indústria 4.0. O Software foi desenvolvido pelos pesquisadores Sandro Breval Santiago e Stanley Soares de Souza e registrado oficialmente no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), sob o número BR512021001482-0.
De acordo com o professor Sandro Breval Santiago, com o avanço da transformação digital e a crescente necessidade de adaptação às novas tecnologias industriais, o Maturidade Ind4.0 IFES surge como uma solução estratégica para empresas que desejam mapear, diagnosticar e otimizar seus processos de transição para um modelo de manufatura inteligente. “É um programa computacional desenvolvido com base em metodologias avançadas para avaliar o grau de maturidade das empresas na adoção de tecnologias da Indústria 4.0”, explicou.
Entre as funcionalidades do Software estão: avaliação de maturidade digital, diagnóstico baseado em indicadores estratégicos, relatórios automatizados e recomendação de melhorias, planejamento da transformação digital. O Maturidade Ind4.0 IFES pode ser adotado por empresas de setores como: manufatura e produção em larga escala, automação industrial e mecatrônica, setor automobilístico e metalúrgicos, indústrias químicas e farmacêuticas, empresas do setor de logística e supply chain, startups e empresas emergentes na área de tecnologia. Além da possibilidade para colaborações com órgãos públicos, associações industriais e instituições de pesquisa, ampliando seu alcance e contribuindo para o avanço da digitalização na indústria nacional.
Como funciona
O Software utiliza uma metodologia sistemática para identificar o estágio atual da empresa na jornada rumo à Indústria 4.0 e mapeia níveis de automação, conectividade e digitalização em diferentes áreas produtivas. Além de apontar lacunas tecnológicas e operacionais, facilitando a formulação de planos de melhoria. É feito um diagnóstico, a partir da análise de dados estruturais e operacionais, utilizando um modelo de maturidade validado cientificamente, juntamente, com uma avaliação de níveis de integração entre equipamentos, processos e sistemas de gestão, possibilitando uma classificação do nível da empresa dentro de categorias de maturidade, desde a fase inicial até um estágio avançado de digitalização.
A partir daí, o Software gera relatórios detalhados sobre o estado atual da indústria e sugestões para adoção de tecnologias emergentes. As recomendações são customizadas conforme a infraestrutura disponível, o orçamento e os objetivos estratégicos da empresa, permitindo a comparação com empresas do mesmo setor, fornecendo insights valiosos para benchmarking e inovação.
O pesquisador, professor Sandro Breval Santiago, explica que todos esses passos permitem apoiar os gestores e engenheiros de produção na elaboração de roadmaps estratégicos para implementação gradual das soluções da Indústria 4.0.
“O Software fornece um plano de ação estruturado, destacando investimentos prioritários em automação, IoT, inteligência artificial e outras tecnologias, além de ajudar a alinhar projetos de digitalização às metas de eficiência operacional e sustentabilidade corporativa”, enfatizou.
Diferencial
Utilizando JavaScript e C#, o software se diferencia por fornecer uma avaliação personalizada, baseada em indicadores-chave de desempenho, possibilitando que gestores e tomadores de decisão adotem medidas concretas para elevar sua competitividade e eficiência no cenário global da manufatura inteligente. O professor Sandro explicou também que a ferramenta proporciona um ambiente de análise robusto e dinâmico, permitindo que empresas de diferentes portes e setores realizem um diagnóstico detalhado sobre sua estrutura digital, operacional e estratégica.
“A experiência foi muito interessante pois conseguimos fazer o link entre a teoria, conceitos e modelagem com a prática aplicando o modelo na IFES. O que podemos perceber é a sua usabilidade e efetividade na demonstração dos resultados coletados. Fizemos o app e executamos na Ufam para fins de estudo de caso”, destacou o docente.
Impactos e Benefícios para a Indústria
O desenvolvimento do Maturidade Ind4.0 IFES representa um avanço significativo para empresas que buscam elevar sua competitividade e adotar práticas inovadoras na produção industrial. A ferramenta tem impactos direto na tomada de decisão baseada em dados, redução de custos e aumento da eficiência, melhoria na qualidade da produção, capacitação e desenvolvimento tecnológico e apoio à sustentabilidade industrial, já que está alinhada à Indústria 4.0, que favorece práticas mais sustentáveis, como redução do consumo de energia, otimização de recursos e menor impacto ambiental.
De acordo com o coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção (PPGEP), professor Marcelo Albuquerque de Oliveira, pesquisas como essa reafirmam o engajamento do PPGEP com a inovação e o desenvolvimento tecnológico, impulsionando a transformação digital no setor industrial.
“O Maturidade Ind4.0 IFES representa um passo essencial para que empresas brasileiras possam competir em um cenário global cada vez mais digitalizado, preparando-as para os desafios e oportunidades da Indústria 4.0. O projeto reflete a missão da Ufam em promover pesquisas aplicadas, soluções tecnológicas inovadoras e impacto direto na economia e na sociedade. A Universidade segue investindo em parcerias estratégicas e projetos de ponta para consolidar Manaus e a Amazônia como polos de referência em inovação industrial”, enfatizou.
Albuquerque falou ainda que a coordenação e o colegiado do PPGEP reiteram seu compromisso com a pesquisa aplicada, o desenvolvimento tecnológico e a inovação, promovendo soluções que impactam diretamente a sociedade e a indústria.
“Cada projeto desenvolvido no Programa reflete a missão de fomentar avanços científicos, tecnológicos e metodológicos, preparando profissionais qualificados e contribuindo para a transformação de setores estratégicos. O PPGEP/Ufam segue investindo em parcerias estratégicas, colaborações interinstitucionais e projetos inovadores, consolidando sua posição como referência em Engenharia de Produção e inovação tecnológica. As iniciativas do Programa buscam não apenas aprimorar processos e produtos, mas também fortalecer o desenvolvimento econômico e social, alinhando-se às necessidades da Amazônia e do Brasil”, finalizou.
Comunidade Três Unidos no estado do Amazonas. Foto: Rodolfo Pongelupe
Promover uma transição energética justa, ampliando o acesso à energia sustentável e eficiente nas comunidades da região amazônica. Estes são os principais objetivos do “Polo de Soluções Energéticas Sustentáveis para a Amazônia”, que será implementado até setembro de 2025 em duas comunidades: a comunidade indígena Três Unidos e a comunidade ribeirinha Tiririca, no Amazonas. A iniciativa é liderada pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e pela Schneider Electric, líder global na transformação digital da gestão de energia e automação. Assinada na Casa G20, no Rio de Janeiro, a parceria terá duração de dez anos.
O novo polo funcionará no Núcleo de Inovação e Educação para o Desenvolvimento Sustentável (Nieds) Assy Manana. Seu enfoque será em promover tecnologias de gestão energética e estratégias inteligentes, sustentáveis, eficientes e acessíveis, priorizando o consumo consciente e justo, além de reduzir desperdícios. A finalidade é apoiar as comunidades locais na transição a um modelo de consumo mais equilibrado, em harmonia com a biodiversidade e o desenvolvimento local e a diminuição das emissões.
“As fontes limpas representam uma abertura de novos horizontes na fomentação da bioeconomia e da educação. A energia é um facilitador capaz de criar condições para o desenvolvimento sustentável e gerar esperança por uma Amazônia próspera, com melhoria de renda e indicadores sociais, mantendo a floresta em pé”, afirma o superintendente geral da FAS, Virgilio Viana.
“A transição energética justa é um ponto importante quando falamos em promover o desenvolvimento sustentável. Na Schneider Electric, acreditamos que todos devem ter acesso a soluções que tornem o consumo de energia mais inteligente, eficiente e sustentável, especialmente em comunidades com menos acesso à energia, como as da Amazônia”, afirma Rafael Segrera, presidente da Schneider Electric para a América do Sul.
A Schneider Electric e a FAS já colaboram desde 2012 em projetos de fontes renováveis para a Amazônia e agora expandem esse trabalho para oferecer alternativas inovadoras para o uso responsável do recurso gerado na região.
Comunidade indígena Três Unidos, no Amazonas. — Foto: Divulgação/FAS
Foco na educação e no uso consciente e responsável da energia
O Polo de Soluções Energéticas Sustentáveis terá um foco educacional robusto, oferecendo treinamentos e qualificação profissional às comunidades para capacitá-las na implementação e no gerenciamento de sistemas energéticos inteligentes e eficientes. Além disso, o espaço será uma vitrine para práticas de uso responsável da energia e sediará eventos e visitas de campo que promovam a troca de conhecimentos.
“Acreditamos que o acesso à energia é um direito humano básico, assim como o seu uso responsável – e existem soluções para isso. Também neste sentido, a educação é fundamental. Por isso, a Schneider Electric tem como meta treinar um (1) milhão de pessoas em gestão de energia até o fim de 2025 em todo mundo, e a Amazônia faz parte desse universo. Essa capacitação vai além da transferência de conhecimento técnico – ela busca empoderar as comunidades locais para que possam aplicar soluções práticas no dia a dia, contribuindo para sua autonomia energética e melhoria na qualidade de vida”, acrescenta Segrera.
Visando gerar resultados de impacto socioambiental, como a redução do desmatamento e o fortalecimento do posicionamento do Brasil na COP30 rumo à Agenda 2030, o Polo engloba temas transversais como educomunicação, acesso à cultura, conservação da biodiversidade, qualificação profissional e enfrentamento da emergência climática. Com isso, estima-se beneficiar 28 comunidades localizadas na APA Rio Negro e RDS Puranga Conquista, atendendo mais de mil famílias.
“Energia, água e comunicação são essenciais para a prosperidade na Amazônia e estão interligadas. O número de pessoas sem acesso à energia na região é significativo, chegando a quase um (1) milhão”, diz a superintendente de Desenvolvimento Sustentável de Comunidades, Valcléia Lima Solidade. “Quando temos empresas como a Schneider Electric empenhadas em implementar soluções energéticas, ficamos felizes em contribuir. Acreditamos que, por meio desse projeto, daremos ainda mais visibilidade à energia limpa para o bem da Amazônia e levaremos dignidade às populações locais.”
A parceria entre a Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e a Schneider Electric foi fortalecida pela Aliança de Empresas Francesas pela Amazônia Viva, firmada em março de 2024 pela FAS e pela Câmara do Comércio França-Brasil. O objetivo dessa aliança é facilitar o engajamento de empresas francesas em projetos de desenvolvimento sustentável na Amazônia.
Clara Martins Pandolfo: química, ambientalista, professora e pesquisadora, foi a segunda mulher a receber o título honorífico de Professora Emérita da Universidade Federal do Pará (UFPA) e uma das maiores conhecedoras dos problemas ambientais amazônicos, uma cientista que uniu a teoria à prática, atuando decisivamente em questões ligadas ao planejamento do desenvolvimento da região.
Seu pioneirismo no uso de satélite para mapear áreas degradadas por fazendeiros e madeiros e as medidas adotadas, inicialmente na SPVEA, depois na Sudam, para conter o mau uso da terra lhe valeram o epíteto de “a dona da selva”, como os opositores a chamavam. Era não apenas uma ironia, mas também o reconhecimento da sociedade à importância do trabalho que realizou em defesa da Amazônia.
Clara nasceu em 12 de junho de 1912, exatamente no ano em que a economia da borracha entrou em crise na Amazônia, quando o mercado internacional se voltou à borracha produzida em seringais plantados pelos ingleses na Malásia e no Ceilão. A crise se estendeu por décadas e afetou os negócios do pai, o comerciante Albano Augusto Martins, proprietário da Casa Albano, que viria a se tornar uma das mais tradicionais casas comerciais de Belém.
Ressentindo-se financeiramente com a crise e as despesas da educação dos filhos, os pais apoiaram a caçula de cinco irmãos, quando, concluído o ensino secundário, em 1926, aos 14 anos de idade, decidiu cursar Química Industrial em uma escola recém-fundada em Belém, a Escola de Química do Pará, então sob responsabilidade da Associação Comercial (ACP), que oferecia ensino gratuito. Por ser de menor idade, a adolescente foi admitida como aluna ouvinte, mas, graças ao seu bom desempenho, no ano seguinte, tornou-se aluna regular. Para Sérgio Pandolfo, filho e biógrafo de Clara, a escolha da mãe foi menos por vocação e mais por contingência financeira.
A escola era dirigida pelo naturalista francês Paul Le Coint, diretor do Museu Comercial da ACP. Os professores eram igualmente franceses, trazidos da Sorbonne, o que tornava o francês a língua dominante em sala. Clara Martins, ainda sem o sobrenome Pandolfo que receberia do marido Rocco Rafael Pandolfo, venceu a dificuldade linguística e se tornou a primeira mulher formada em Química, na Amazônia, algo que diz muito da sua personalidade nada afeita a seguir o papel de submissão feminina na sociedade das primeiras décadas do século XX.
Essa característica pode ser medida também por sua efetiva participação na campanha feminista de defesa do direito ao voto das mulheres, liderada por Bertha Lutz no início da década de 1830, no Brasil. Durante todos os quatro anos de curso, Clara se destacou como estagiária de Paul Le Coint. Em 14 de setembro de 1929, graduou-se. Tinha somente 17 anos quando apresentou a tese Contribuição ao estudo químico de plantas medicinais da Amazônia, logo publicada na única edição do Boletim daquela escola.
Mesmo com o fechamento da Escola de Química do Pará, em 1930, por Getúlio Vargas, Sérgio Pandolfo conta que sua mãe manteve a colaboração com o naturalista francês em pesquisas tecnológicas e análises de matérias-primas regionais. Segundo ele, essa fase teve profunda influência na formação técnico-científica da mãe, “levando-a a adquirir o gosto pelo estudo dos recursos naturais da Amazônia, a que dedicou, desde então, a maior parte de seus esforços no desempenho profissional”. Em 1931, ela tornou-se servidora pública estadual, ao trabalhar como química dos Laboratórios de Bromatologia e de Hipodermia da Diretoria de Saúde Pública do Pará, tornou-se assistente química e, depois, diretora do Laboratório de Biologia da Santa Casa de Misericórdia.
Foto: Reprodução/UFPA
Voz em defesa da Amazônia
Sobre Clara Pandolfo, o jornalista Lúcio Flávio Pinto disse: “A química foi a base científica para voos mais altos e amplos da sua inteligência”. Primeiro, na antiga Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA), em 1953, a convite do superintendente Artur Cesar Ferreira Reis, depois, na Sudam, em que foi diretora-geral do Departamento de Recursos Naturais, cargo que exerceu até a aposentadoria compulsória, em 1990.
Em relação à atuação, disse o jornalista: “Ao longo de 40 anos a voz da doutora Clara se manteve firme, respeitada e temida. Ela não devia sua posição a nenhum pistolão. Podia exigir que a convencessem através de argumentos. Se não, defenderia sua própria posição”. Lúcio cita, como exemplo, a posição contrária de Clara Pandolfo à disposição do superintendente Elias Sefer de fazer aprovar três projetos agropecuários no Acre, por estarem localizados em área de floresta densa, o que contrariava resolução da própria Sudam.
Durante mais de 25 anos, ela trabalhou como docente dos ensinos secundário e superior, tendo sido professora de vários colégios de Belém, da Escola de Enfermagem e da Escola de Química da UFPA, da qual se aposentou como professora titular. Para além da atividade em sala de aula e laboratórios, Clara Pandolfo teve intensa participação em palestras, seminários e congressos no Brasil e no exterior, e foi autora de uma extensa bibliografia relatando suas pesquisas sobre a Amazônia, região da qual foi uma das maiores conhecedoras.
Em reconhecimento a este trabalho técnico e científico desenvolvido em defesa da Amazônia e do uso sustentável de seus recursos naturais durante mais de seis décadas, a UFPA concedeu à Clara Martins Pandolfo o título honorífico de Professora Emérita, em sessão do Conselho Superior de Ensino e Pesquisa realizada em 2 de janeiro de 1989, conforme Resolução nº 1.713, assinada pelo reitor, à época, José Seixas Lourenço.
Dr. Joaquim Ferreira Marinho. 1° administrador da Beneficente Portuguesa, contratado em Portugal exclusivamente para esta função – 1952. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br
Nascido na cidade do Porto, em Portugal, no dia 7 de fevereiro de 1912, Joaquim Ferreira Marinho foi o primeiro administrador do Hospital Beneficente Portuguesa, assumindo essa função em abril de 1953, exercendo-a por aproximadamente 6 anos, a convite do então Presidente Antônio Reis Páscoa. Contratado que fora por Francisco Vieira da Rocha, Jaime dos Anjos Páscoa e Joaquim Carvalho, que o convidaram quando de uma viagem, dos mesmos, a Portugal, em 1952.
Antigo Alferes da Guarda Miliciana Portuguesa, era formado em Matemática pela Universidade do Porto e foi administrador do Hospital Geral de Santo Antônio no Porto.
Através de relações político-administrativas com os Governos da época, os de Gilberto Mestrinho e Plínio Coelho, conseguiu uma série de convênios com os mesmos, que permitiam a construção do prédio da rua Guilherme Moreira com a Theodoreto Souto e conclusão da ala direta do edifício-sede da Joaquim Nabuco com a construção de novas áreas, em Manaus, no Amazonas.
Uma das lideranças da Comunidade Portuguesa, foi o primeiro português a se tornar advogado pela Faculdade de Direito do Amazonas em dezembro de 1958, com o prêmio de melhor aluno, sendo a ele outorgado o 1º anel simbólico daquela casa. Posteriormente foi professor e diretor da extinta Faculdade de Ciências Econômicas, Diretor da Penitenciária Central do Estado e Procurador Jurídico do Amazonas, tendo optado pela cidadania brasileira para poder exercer tais funções.
Dr. Plínio Ramos Coêlho recebendo o diploma de sócio honorário – 1956. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
Casado desde 1942 com Maria Celeste, teve ainda em Portugal, os filhos: José Joaquim, Maria de Fátima, Maria de Lourdes, Francisco e Maria Teresa. E ainda Maria Regina, que já nasceu em terras brasileiras. Todos trabalhando e vivendo na terra que adoraram.
Joaquim Ferreira Marinho era filho de José Joaquim e Albina Ferreira Marinho e faleceu prematuramente em Vizeu, Portugal, em 31 de agosto de 1972, curiosamente no mesmo dia em que sua família chegou a Manaus, 18 anos antes. Fumante inveterado, morreu de edema agudo do pulmão como diriam, oficialmente, os médicos com quem tanto tempo conviveu e que foram grandes companheiros seus de trabalho.
Os homens e as mulheres que lograram êxitos em suas histórias, tiveram como principal atributo a coragem e o espírito empreendedor. Foram sobretudo, seres que acreditaram em seus sonhos e projetos movidos pelo entusiasmo e pelos ideais e, assim, legaram à sociedade uma história de feitos e conquistas.
A maior herança desses espíritos esclarecidos e altivos é o exemplo que deixam para seus descendentes e a comunidade. Este é o caso do imigrante português Joaquim Ferreira Marinho aos seus descendentes e a comunidade, especialmente para os jovens, de que transformar sonhos em realidade não é impossível. A história exemplar de Joaquim Ferreira Marinho é ilustrativa da capacidade de superação e realização do ser humano.
Dr. Joaquim Ferreira Marinho. 1° administrador da Beneficente Portuguesa, contratado em Portugal exclusivamente para esta função – 1952. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
A vida é uma aventura em que os justos e os bons, apesar das provas e desafios, afirmam com a força de seu caráter e com suas ações, as marcas de sua singularidade e da grandeza de suas atitudes. Eis aí o diferencial que distingue as almas nobres daqueles que vivem nas sombras ou se contentam com a pequenez de seus sentimentos. Joaquim Ferreira Marinho faz parte dessa linhagem de homens que construíram uma história baseada na dignidade no compromisso com valores humanos e sociais.
Sua trajetória é reveladora de seus múltiplos compromissos com a vida, com a Sociedade Beneficente do Amazonas e com sua amizade ao Comendador José Cruz, tudo isso é revelador de seus múltiplos com a vida e com a possibilidade de construção de uma sociedade fundada no respeito e nos valores humanos, naturalmente com uma profunda consciência do valor da cidadania escudada na justiça social. Sua existência, enquanto viveu entre nós foi prova do poder de transformação de dedicação ao hospital português. Sua vida vitoriosa foi alicerçada na crença de seus pais de que o maior patrimônio que poderia legar aos seus filhos era o conhecimento e ele assim o fez.
A verdade é que são muitos os portugueses que aqui aportaram e deram seus ossos para Manaus, para reconhecer-se em toda sua extensão, em todo seu significado e em todas suas minúcias, o que tem sido a ação dos portugueses que imigraram para a Amazônia e muito especialmente para Manaus, é fundamentalmente indispensável saber como eles aqui chegaram como se aclimataram e de que forma exerceram sua natural acomodação entre nós.
Cumpre ver como eles aqui trabalharam e continuam trabalhando especialmente seus descendentes concorrendo para o desenvolvimento social e econômico do nosso estado.
A visita do Presidente de Portugal Francisco Igino Craveiro Lopes
Data magna para quantos vivem em Manaus, entregues aos labores de todos os dias, foi a de 22 de junho de 1957, quando e Exmo. Sr. General Francisco Higino Craveiro Lopes, acompanhando de brilhante comitiva e de altas autoridades brasileiras, transpôs os umbrais da Real e Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Amazonas, em visita que se tornou histórica.
O senhor Presidente da Assembleia Geral da Beneficente, Comendador Agesilau de Araújo, entrega uma lembrança ao General Craveiro Lopes em nome da Diretoria – 1957. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
Ao alvorecer desse dia inesquecível para os portugueses aqui fixados acordou o hospital com vistoso tapete de flores, que tornava ainda mais suntuosa a frontaria do Edifício, cujas janelas ostentavam galhardamente as bandeiras das duas pátrias.
Formaram em derredor da custosa e florida passarela, em uniformes de gala, como guardas de honra, praças dos Bombeiros Voluntários de Manaus e da Polícia Militar do Estado. No portão principal, além do Exmo. Sr. Governador do Estado, secretários, o Ministro das Relações Exteriores e o Embaixador de Portugal, aguardando o ilustre visitante, encontravam-se os Corpos Dirigentes, a Comunidade das Filhas de Sant’Anna, o Corpo Clínico e os escalões de Enfermeiras e demais auxiliares do hospital.
Após os cumprimentos de estilo, liderados pelo Comendador Agesilau de Araújo, Presidente da Assembleia Geral e pelo Sr. Antônio Páscoa, Presidente da Diretoria, foram as insignes autoridades conduzidas até ao Salão Nobre, onde teve início a sessão solene.
FONTE: Informações cedidas pela família para o livro ‘Benefiicente Portuguesa’125 anos de história, 1873-1998: Real e Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Amazonas’, escrito por Abrahim Baze.
Sobre o autor
Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.
Secretário de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (Sedecti), Serafim Corrêa. Foto: Reprodução/Sedecti
Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
O secretário Serafim Corrêa, da Secretaria de Estado de Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (SEDECTI) anunciou, na última segunda-feira, 17, a assinatura do Termo de Cooperação Técnica com a ONG Fundação Amazônia Sustentável (FAS) abrangendo apoio técnico e de gestão para a elaboração do Plano de Bioeconomia do Amazonas. Liderado em conjunto Sedecti/FAS, contará com “a participação da sociedade civil organizada, coletivos, gestores públicos, gestores privados e especialistas”. O objetivo central do Plano é formular os termos adequados que possibilitem “legislar sobre as práticas de bioeconomia e influenciar melhorias incrementais com o objetivo de aumentar a participação da bioeconomia no PIB e a proteção dos ativos ambientais no Estado do Amazonas”.
A Cláusula Terceira do Acordo define as obrigações das partes, levando em conta que, à Sedecti competirá:
I. Coordenar as atividades acordadas entre as partes;
II. Арoiar na mobilização de recursos e parceiros para a elaboração do Plano;
III. Articular com atores governamentais (municipal, estadual e federal) sobre atividades relevantes para a construção do Plano;
IV. Convocar e convidar atores relevantes para contribuir técnica e institucionalmente com a elaboração do Plano;
e V. Validar e revisar conteúdo técnico do Plano.
À FAS, “conjuntamente”, caberá, dentre outros pontos:
I. Apoiar na coordenação técnica, administrativa e financeira da construção do Plano;
II. Liderar atividades de mobilização de recursos e parceiros;
III. Арoiar na articulação com atores governamentais (municipal, estadual e federal) para atividades relevantes;
IV. Convidar atores relevantes para contribuir técnica e institucionalmente com a elaboração do Plano;
V. Apoiar a elaboração de conteúdo técnico e documentos acessórios, por meio de consultorias especializadas ou corpo técnico institucional;
e VI. Contratar consultores, prestadores de serviços e demais aquisições alinhadas entre as partes e dentro do objeto deste instrumento, a partir de financiamento específico.
De acordo com o secretário Serafim Corrêa, “a bioeconomia tem se consolidado como um pilar estratégico para o desenvolvimento sustentável da Amazônia, unindo inovação tecnológica e conservação ambiental”. Para ele, o Plano de Bioeconomia do Estado do Amazonas surge como um instrumento fundamental para regulamentar práticas e fomentar melhorias incrementais no setor”. É, portanto, “uma grande alegria para nós avançarmos o processo. Temos desafios significativos, as responsabilidades são grandes, as tarefas são múltiplas e o tempo é curto. No entanto, com o empenho de todos, estamos progredindo consoante orientação do governador Wilson Lima”, destacou Serafim.
Certamente não passa despercebido ao secretário Serafim Corrêa o fato de que a exploração dos recursos da biodiversidade pressupõe a formulação de nova matriz econômica para o Amazonas a partir da integração PIM/Bioeconomia. Processo que exige priorizar a correção da crônica insuficiência de infraestrutura econômica, destacando-se a urgente necessidade de conclusão das obras da Rodovia BR 319, que contam com a aberta e inflexível oposição da ministra do Meio Ambiente, Marina da Silva, e a implantação do Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE).
Em relação à mobilização de recursos, pouco se pode contar com o Fundo Amazônia, mesmo que, desde sua criação tenha recebido mais de R$ 4,1 bilhões em doações, ainda mantém baixa presença na região. Segundo balanço do BNDES, gestor do Fundo, dos R$ 643 milhões recebidos em 2024, apenas 11% foram repassados a projetos. Não esquecendo, por fim, os trabalhos, os ensinamentos e teses consolidadas dos mestres que efetivamente entendem de bioeconomia na região, destacando-se Samuel Benchimol, Bertha Becker, Alfredo Homma, Niro Higuchi, Henrique Pereira, Adalberto Val, legítimos amazonólogos indutores da cosmologia amazônica.
Sobre o autor
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).
Mudanças climáticas intensificam eventos como a seca, que agravam o desgaste do solo e o acúmulo de sedimentos. Registro de erosão na comunidade de Coadi. Foto: Paula dos Santos Silva/Acervo pesquisadores
Mais de cinco mil ribeirinhos da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, a cerca de 600 quilômetros da capital amazonense, estão em situação de risco devido à erosão e ao acúmulo de sedimentos nos rios. O número representa cerca de metade da população localizada nesta região amazônica que é banhada pelos rios Amazonas e Japurá. É o que indica estudo liderado pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, em colaboração com as universidades de Brasília (UnB), do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) e de Toulouse, na França, publicado na quinta (20) na revista científica ‘Communications Earth & Environment‘.
A erosão (localmente conhecida como “terras caídas”) está relacionada à remoção de sedimentos por desgaste causado pelas variações no nível da água ao longo do ano – na região estudada, a diferença pode chegar a 11 metros. Já o assoreamento se refere à deposição de sedimentos no leito e nas margens do rio, o que pode alterar seu curso, formando praias. Enquanto terras caídas destroem construções e territórios, a criação de obstáculos para acesso da população ao rio em áreas de formação de grandes praias dificulta a locomoção e o acesso a serviços e alimentos. Os impactos são agravados em períodos de diminuição do nível das águas, como durante a seca prolongada que afetou a Amazônia em 2023 e 2024.
A partir de informações de satélite, os pesquisadores consideraram os dados de água na superfície relativos ao período de 1986 a 2021 e combinaram os resultados a informações socioeconômicas da região para mapear o risco de 51 comunidades na região da Amazônia Central. Destas, pelo menos quatro estão sob risco muito alto (comunidades de Santa Domícia, Canariá, Boiador e Acapuri de Baixo) e sete estão sob risco considerado alto (Barroso, Porto Braga, Punã, Ingá, São Raimundo do Panauã, Triunfo e Caburini). Entre os fatores que aumentam a vulnerabilidade das comunidades, estão a maior distância até os serviços disponíveis nos centros urbanos, a ausência de estruturas de organização social e a falta de experiências prévias com desastres do tipo.
Além disso, foi possível mapear, com o uso de satélites, a ocorrência de perigo de terras caídas e formação de praias em 254 comunidades da Reserva Mamirauá. Do total de comunidades analisadas, 18,5% são afetadas por processos de sedimentação, com impactos importantes no transporte fluvial, 26%, pela erosão das margens fluviais, o que gera perdas diretas de áreas nos territórios, enquanto 55,5% estão em uma situação estável. Mais de 80% destas comunidades estão às margens dos rios e apenas 18% vivem em terras altas, mas que também são impactadas pelo desgaste do solo.
Para o pesquisador André Zumak, do Instituto Mamirauá, as condições da região analisada podem impactar na qualidade de vida dos povos tradicionais da região. Além de ficarem isolados devido à baixa do nível dos rios, eles podem sofrer com insegurança alimentar devido aos reflexos das mudanças no solo na produção agropecuária e na pesca, por exemplo.
O pesquisador alerta ainda que, em decorrência das mudanças climáticas, que intensificam eventos como as secas, os estragos podem ser ainda mais graves. “As secas extremas dificultam a mobilidade dessas comunidades que residem ao longo das margens dos rios. A exposição de algumas áreas durante a seca registrada em 2024, por exemplo, proporcionou eventos chamados de terras caídas, com mortes, inclusive. Isto é uma relação direta com as mudanças climáticas, mas são necessários mais estudos para entender melhor esta relação”, diz Zumak.
A pesquisa destaca o trabalho de mapeamento do Serviço Geológico Brasileiro (SGB) na região, mas alerta que ainda é preciso implementar mais estudos e ações preventivas de desastres. Para o pesquisador do Instituto Mamirauá, a investigação pode orientar políticas públicas voltadas para solucionar e mitigar os efeitos destes processos. “As informações geradas com esta investigação, principalmente a metodologia, que pode ser replicada em outras áreas, já podem ser utilizadas pelo SGB e Defesa Civil dos municípios, auxiliando na identificação de áreas de risco em comunidades ao longo dos rios na Amazônia”, conclui.
Terra do meio. Você já ouviu falar dessa região? Localizada na porção central do sul do estado do Pará, a região é um mosaico ambiental, parte de um vasto território de áreas protegidas. Entre os rios Xingu e Iriri, possui cerca de 8 milhões de hectares, área que equivale a dois estados do tamanho do Rio de Janeiro. É uma das maiores áreas preservadas de floresta amazônica na Amazônia Oriental.
O nome Terra do Meio surgiu exatamente por sua localização. Ela é formada por um complexo de reservas extrativistas (Resex) – do Rio Iriri, Riozinho do Anfrísio e Rio Xingu -, pela Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu, pela Estação Ecológica da Terra do Meio, pelo Parque Nacional da Serra do Pardo e ainda três terras indígenas (Xipaya, Kuruaya e Cachoeira Seca).
Alvo de exploração
Algo de garimpeiros e ocupações, a Terra do Meio já passou por intensos ciclos de exploração, que marcaram sua história: do extrativismo de látex e castanha à corrida do ouro. A região abriga ribeirinhos e indígenas que tem seus modos de vida ameaçados por conta dessas ações, além do processo de implantação de uma rodovia (BR-163).
De acordo com informações da Câmara dos Deputados, “cerca de 20 mil pessoas distribuídas em 125 comunidades vivem na zona rural de Porto de Móz, sobrevivendo de caça, pesca, agricultura familiar, extrativismo e comércio de produtos florestais. Um grande trecho de floresta entre os municípios de Porto de Móz e Prainha, na margem esquerda do Rio Xingu, tornou-se um campo de batalha entre essas comunidades, que vivem e dependem dos recursos florestais, e empresas madeireiras que ocupam e exploram a área irregularmente”.
Área de proteção de espécies endêmicas
Atualmente, a Terra do Meio abriga diversas espécies ameaçadas de extinção. Segundo o Atlas da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção do ICMBio (2011), algumas dessas espécies ameaçadas são: macaco-aranha (Ateles marginatus); ararajuba (Guarouba guarouba); gato-maracajá (Leopardus wiedii); onça-pintada (Panthera onça); ariranha (Pteronura brasiliensis) e cachorro-do-mato-vinagre ou cachorro-vinagre (Speothos venaticus).
Segundo o Ministério do Meio Ambiente na Estação Ecológica, há espécies de aves que só ocorrem naquela região (endêmicas), como: jacu (Penelope pileata), cujubi (Aburria cujubi), jacamim-das-costas-verdes (Psophia viridis), ariramba-da-mata (Galbula cyanicollis) e barbudo-de-pescoço-ferrugem (Malacoptila rufa).