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Desafio anual: relatos de moradores do sul do Amazonas ao enfrentar o verão amazônico

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Foto: Reprodução/Observatório BR-3-19

Olhos irritados, dificuldade para respirar, tempo seco, navegação prejudicada, falta de alimentos e água para beber. Essas são algumas das situações enfrentadas pelos amazonenses durante o verão de 2024. A combinação de crimes ambientais e mudanças climáticas impôs a moradores das sedes municipais e das zonas rurais desafios extremos de sobrevivência. O cenário é reflexo do aumento geral dos focos de calor na Amazônia Legal, apesar da redução no desmatamento, o que sugere que as queimadas continuam a ser uma prática preocupante na região, tanto em áreas já desmatadas, como em áreas de floresta. 

O depoimento de Pedro faz parte da série “Entre a fumaça e a seca: vozes do sul do Amazonas”, produzida pelo Coletivo Jovens Comunicadores do Sul do Amazonas (Jocsam) para dar visibilidade aos desafios enfrentados pelos moradores da região durante o verão, ano após ano. 

“Bom, quando a gente fala de Humaitá, o perímetro urbano tá sofrendo com a fumaça, muita gente passando mal, em hospitais, muitos idosos e crianças precisando de atendimento de saúde. E quando a gente fala da parte ribeirinha de Humaitá, da parte rural, muitas as pessoas estão com dificuldade pra escoar produção, para conseguir o acesso à escola, então é algo que tá bem complicado. A gente vê que os produtos estão aumentando o valor para quem está consumindo aqui na cidade e muitas vezes não está conseguindo chegar. E para o produtor que está lá, escoar também não está fácil porque tem muita praia, muita distância para carregar, muita coisa”, contou Del Belfort de Moraes, membro do GT Desmatamento e Queimadas da Aliança para o Desenvolvimento Sustentável do Sul do Amazonas e articulador da Rede Transdisciplinar da Amazônia (Reta). 

Del avalia que a abertura de áreas de pasto contribuiu para a situação vivida pelos moradores de Humaitá nos últimos meses. “A gente notou que esse ano teve muitas pessoas da região contribuindo, muitos empreendimentos da região. Então, assim, as queimadas no Apuí, em Lábrea, no próprio território de Humaitá para abrir espaço para o agronegócio, também é um grande contribuidor nesse desastre que a gente está vivendo nesse momento”, disse. 

Os municípios do sul do Amazonas estão entre os que mais desmatam e mais queimam na Amazônia. O próprio estado está entre os que mais destroem a floresta. A região fica na área de influência da rodovia BR-319, que, hoje, é o maior catalisador de desmatamento, focos de calor e degradação florestal no Amazonas. 

“Bom, o principal causador de queimadas na região, principalmente no sul do Amazonas, é a expansão da fronteira agrícola aqui nessa região, que é principalmente chamada de Arco do Desmatamento. A gente tem visto nos últimos anos o avanço dessa fronteira agrícola, juntamente com o avanço das queimadas. E esse aumento das queimadas aqui na região acontece principalmente próximo às rodovias. A gente percebe, também, que áreas ambientais, como unidades de conservação e terras indígenas, freiam um pouco o avanço tanto do desmatamento quanto das queimadas na região do sul do Amazonas”, disse Hildeberto F. Macedo Filho, engenheiro e mestrando em Ciências Ambientais pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). 

O manejo inadequado do solo e a falta de controle efetivo das queimadas podem estar agravando a situação, que se converte em impacto no bem-estar e no cotidiano da população. 

“A nossa motivação ao pensar na criação da série “Entre fumaça e seca: vozes do sul do Amazonas” está não somente em uma, mas em várias razões”, declara o Jocsam. “Queremos dar voz às comunidades dos nossos territórios, que muitas vezes são ignoradas nas discussões sobre queimadas e seca. Isso ajuda a valorizar cada experiência e as vivências sobre os impactos. Buscamos, também, a conscientização, aumentando o despertar da consciência sobre os impactos, pois mostramos como esses fenômenos afetam a vida cotidiana das pessoas, a biodiversidade e o ambiente. Além disso, destacamos, ainda, o impacto político, ao dar visibilidade aos problemas enfrentados pelas comunidades. Acreditamos que a série pode influenciar políticas públicas e chamar a atenção de autoridades para a necessidade de ações efetivas na região”, explicam os jovens.

“Essas motivações refletem um compromisso com a justiça social, a preservação ambiental e o fortalecimento da identidade comunitária, queremos mostrar que tudo o que vivemos nunca, jamais será esquecido”, concluíram. 

Assista todos os depoimentos da série no perfil do Jocsam nas redes sociais.

Contexto 

Entre setembro de 2023 e setembro de 2024, a Amazônia Legal registrou um aumento expressivo no número de focos de calor, que passou de 33.247 para 41.463, o que representa um aumento de 24,71%. “Esse crescimento no número de focos de calor é um indicativo de que, embora o desmatamento tenha diminuído no período, a prática de queimadas, frequentemente associada ao manejo de áreas já desmatadas, intensificou-se, potencialmente devido a atividades agropecuárias ou à limpeza de áreas já convertidas para outros usos”, avalia o especialista em geoprocessamento e analista do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), Heitor Paulo Pinheiro. 

Já no Amazonas, houve uma leve redução no número de focos de calor, de 6.990 em setembro de 2023 para 6.879 no mesmo período de 2024, representando uma diminuição de 1,59%. Segundo Heitor, essa redução é pequena, mas relevante, considerando a vasta extensão florestal do estado e a importância de manter baixos níveis de focos de calor. “Visto que esses focos estão diretamente relacionados à degradação florestal e à emissão de gases de efeito estufa”, destaca. “Vale ressaltar que mesmo com a diminuição no número de focos de calor, os números gerais ainda permanecem altos, e preocupantes, principalmente para saúde da população, devido à fumaça e também aos impactos a longo prazo na degradação de espaços naturais”. 

Humaitá encoberta por fumaça entre setembro e outubro de 2024. Foto: Hildeberto F. Macêdo Filho/Jocsam

Em Rondônia, o cenário é diferente, com um pequeno aumento de 3,36% nos focos de calor, passando de 2.650 em setembro de 2023 para 2.739 em setembro de 2024. O estado é historicamente afetado pela expansão agropecuária e desmatamento e continua a apresentar desafios no controle das queimadas, que são muitas vezes usadas como técnica de manejo agrícola. “O aumento, embora pequeno, reflete a persistência de práticas que contribuem para a degradação ambiental”, diz Heitor. 

Nos municípios localizados na área de influência da rodovia BR-319, houve uma redução de quase 10% nos focos de calor, caindo de 3.936 em setembro de 2023 para 3.544 em setembro de 2024. “Essa redução de 9,96% é um dado positivo, especialmente considerando o potencial de impacto ambiental dessa área sensível, onde a pressão por expansão agrícola e pecuária, além da grilagem de terras é elevada. A redução dos focos de calor pode indicar uma maior eficiência nas políticas de prevenção e combate às queimadas, agregada ao aumento de chuvas na região”, avalia. 

Brigada Indígena 

Em Lábrea, município que está em terceiro lugar no ranking de focos de incêndio em 2024, o povo Apurinã criou a Brigada Indígena de Incêndio da Terra Indígena Caititu, que desempenha um papel fundamental na proteção do território. Composta por 23 indígenas que receberam treinamento do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), através do projeto Raízes do Purus, realizado pela Operação Amazônia Nativa (Opan), a brigada atua no combate a incêndios florestais e na prevenção de queimadas ilegais em um território que sofre com a intensificação do desmatamento. A criação da brigada foi motivada pela necessidade de proteger os sistemas agroflorestais (SAFs), que são essenciais para a subsistência da comunidade. 

Os SAFs, que produzem alimentos como frutas, feijões e tubérculos, têm sido ameaçados por incêndios que se alastram para dentro da terra indígena. A brigada, formada por meio de um processo que envolveu treinamento técnico e a aquisição de equipamentos, atua em ações emergenciais e em atividades de prevenção, como a realização de queimadas controladas. A atuação da brigada tem sido crucial para evitar a perda de plantações e garantir a segurança alimentar do povo Apurinã. 

O processo de criação da Brigada da Terra Indígena Caititu começou em 2022. Na época, Francisco Padilha, indígena do povo Apurinã que já tinha formação na área de combate a incêndios, ofereceu uma formação básica a um pequeno grupo. “Eram sete pessoas e já fizeram um bom trabalho. Agora são 23 brigadistas que estão atuando dentro da nossa terra”, conta Tata Apurinã. No mesmo ano, os Apurinã também fizeram a aquisição de equipamentos necessários para o trabalho, como abafadores, bomba costal, rádio comunicadores e equipamentos de proteção individual. 

Apesar dos desafios, como a alta demanda por trabalho e a necessidade de lidar com incêndios que se alastram rapidamente, os brigadistas demonstram grande comprometimento com a proteção do seu território. A brigada é vista como um exemplo de como as comunidades indígenas podem se organizar para enfrentar os desafios do desmatamento e das mudanças climáticas, contribuindo para a conservação da Amazônia. Saiba mais acessando este link.

Texto produzido em parceria com o Coletivo Jovens Comunicadores do Sul do Amazonas (Jocsam). 

Com informações de texto produzido pela jornalista Talita Oliveira, do projeto Raízes do Purus, executado pela Operação Amazônia Nativa (Opan).

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Observatório BR-319

COP 29: Pará apresenta novo Parque Estadual das Árvores Gigantes da Amazônia

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Foto: Fernando Sette/Agência Pará

O fortalecimento da proteção ambiental e do protagonismo do Pará na preservação da Amazônia, serão demonstrados pelo Governo do Estado, por meio do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade (Ideflor-Bio), na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 29), em Baku, no Azerbaijão, no dia 20 de novembro.

O Instituto estadual vai participar do painel “Unidades de Conservação da Natureza do Pará – Um Santuário Florestal”, e dará destaque ao projeto de criação do Parque Estadual Ambiental das Árvores Gigantes da Amazônia, uma iniciativa inovadora para conservação de áreas florestais com exemplares raros de árvores gigantes.

A palestra do Ideflor-bio será conduzida pelo assessor técnico da presidência do órgão ambiental, Thiago Valente. Ele vai apresentar um panorama abrangente da Amazônia Legal Brasileira, com foco nas áreas protegidas do Pará.

O Estado abriga algumas das maiores áreas de preservação da região, e a criação do novo Parque visa expandir ainda mais a proteção às espécies raras e aos ecossistemas críticos. A proposta também ressalta a importância das Unidades de Conservação (UCs) do Pará para a sustentabilidade e o combate às mudanças climáticas.

Foto: Fernando Sette/Agência Pará

A apresentação incluirá um histórico detalhado da descoberta das árvores gigantes na Amazônia, que estão entre as maiores já registradas no mundo. Entre elas, um angelim-vermelho com 88,5 metros de altura, que equivale a um prédio de 30 andares.

A preservação das árvores gigantes é vista como um ponto essencial no combate ao desmatamento e à degradação ambiental na região amazônica.

Escuta

Para garantir uma gestão inclusiva e participativa, o Ideflor-Bio realizou uma Consulta Pública no Distrito de Monte Dourado, município de Almeirim, próximo à área proposta para o Parque. Segundo Thiago Valente,

O Parque Estadual Ambiental das Árvores Gigantes da Amazônia tem como um de seus principais objetivos a proteção dos recursos hídricos, da flora e da fauna, além de incentivar a pesquisa científica e o ecoturismo sustentável. O local é um laboratório natural para estudiosos de várias áreas e uma oportunidade de desenvolvimento para as comunidades locais. 

O Parque se destaca como uma das maiores iniciativas de conservação ambiental promovidas pelo estado do Pará em décadas. Outro ponto abordado no painel serão os próximos passos para a implementação do Parque, que incluem o fortalecimento da infraestrutura para visitantes e pesquisadores, além de políticas específicas para gestão e fiscalização do território.

Comitiva

A delegação do Ideflor-Bio na COP29 é composta por Nilson Pinto, Thiago Valente e da diretora de Gestão de Florestas Públicas de Produção do Ideflor-Bio, Ana Claudia Simoneti. Juntos, eles buscam captar apoio internacional e firmar parcerias para reforçar as políticas de preservação ambiental do Pará. A participação do Pará na COP29 reforça o compromisso do estado com as agendas climáticas globais e reafirma a importância da Amazônia na regulação climática do planeta.

Foto: Fernando Sette/Agência Pará

O novo Parque será uma referência em preservação ambiental e um símbolo do compromisso do Pará com a biodiversidade. “Este novo Parque representa um verdadeiro santuário florestal e marca uma nova fase para a política ambiental do Pará, mostrando ao mundo o papel essencial que as UCs desempenham na proteção da Amazônia e na mitigação das mudanças climáticas”, concluiu Nilson Pinto.

*Com informações da Agência Pará

Conferência Estadual do Meio Ambiente chega à 5ª edição em 2025 no Acre e abordará emergência climática

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Foto: Reprodução/Secom AC

Com o tema “Emergência Climática: os desafios da transformação ecológica”, o Acre sediará a 5ª Conferência Estadual do Meio Ambiente (Cema), entre os dias 3 a 14 de março de 2025. O Decreto nº 11.586 foi publicado pelo governador Gladson Cameli na edição extra do Diário Oficial do Estado (DOE) do dia 14 de novembro, em consonância com a Portaria do Gabinete da Ministra do Ministra do Meio Ambiente e do Clima (GM/MMA), Marina Silva, no âmbito da 5ª Conferência Nacional do Meio Ambiente (CNMA).

A Conferência Estadual tem como objetivo promover diálogos sobre a emergência climática, a fim de contribuir para elaboração de proposições sobre emergência climática que irão subsidiar a implementação da Política Nacional sobre Mudança do Clima.

A Cema terá os seguintes eixos temáticos:

  • I – mitigação;
  • II – adaptação e preparo para desastres;
  • III – transformação ecológica;
  • IV – justiça climática;
  • V – governança e educação ambiental. 

Os eixos temáticos, que devem acolher as características regionais, com o objetivo de nortear a elaboração das propostas a serem encaminhadas à 5º Conferência Nacional do Meio Ambiente (CNMA), do MMA. 

No Acre, a Cema será realizada, em etapas preparatórias, obedecendo os seguintes calendários: Conferências Municipais/Intermunicipais: 11 de junho de 2024 a 25 de janeiro de 2025; Conferências Livres (facultativas, a serem definidas pela Comissão Organizadora Estadual (COE): 11 de junho de 2024 a 25 de janeiro de 2025; Etapa estadual: entre os dias 3 e 14 de março de 2025. 

A Etapa Estadual da 5ª Cema será realizada na cidade de Rio Branco, em local a ser definido pela comissão organizadora e divulgado na página da Agência de Notícias do Estado do Acre, por meio da Secretaria de Estado de Comunicação (Secom) e da Secretária de Estado do Meio Ambiente (Sema).

A organização e a avaliação do processo da 5ª Cema serão realizadas pela comissão organizadora, composta pela Comissão Tripartite Estadual, juntamente a outros representantes do Poder Público, do setor empresarial e de organizações da sociedade civil. 

As organizações da sociedade civil serão selecionadas, por meio de chamamento público de edital, a ser publicado no Diário Oficial do Estado do Acre. 

A Coordenação Executiva Estadual (CEE) da 5ª Cema será composta por representantes dos seguintes órgãos e entidades da Administração Pública: Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema); Secretaria de Estado da Casa Civil (SECC); Secretaria de Estado da Fazenda (Sefaz); Secretaria de Estado de Planejamento (Seplan); Instituto de Mudanças Climáticas e Regulação dos Serviços Ambientais do Acre (IMC) e o Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac).

*Com informações da Agência Acre

Dentes molares de mastodontes são doados para a Ufam em visita ao interior do Amazonas

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Foto: Reprodução/Ufam

O setor da Paleontologia, ligado ao Departamento de Geociências do Instituto de Ciências Exatas da Universidade Federal do Amazonas (ICE/Ufam), recebeu doação de material fossilífero encontrado às margens do Rio Juruá, na cidade de Eirunepé, a sudoeste do estado. A entrega ocorreu entre os dias 26 e 29 de outubro, durante a visita da geóloga, paleontóloga e professora da Ufam, Rosemery Rocha da Silveira, a cidade.

Segundo a docente, a ação resultou na doação de dois dentes molares de distintos mastodontes (ancestrais de elefantes) que parecem ter sido muito comuns naquela região, a julgar pelo número de achados, considerando os anteriores a essa fase, tendo registro desde formas juvenis até indivíduos adultos.

Tratativas

A professora Rosemery Rocha destacou que assim que soube do interesse dos comunitários em realizar a doação intensificou os diálogos com os doadores.

“Em geral, quando se acha um fóssil, costuma-se ser tomado por um grande entusiasmo, o que por vezes pode levar a perda total do material, ou seja, por curiosidade e tomado pelo anseio de encontrar uma grande novidade, tenta-se mobilizar o máximo dos objetos. Isso acaba retirando as informações dos detalhes das fases que aquele fóssil foi submetido até ser soterrado e transformado em rocha, que poderia ajudar a entender o paleoambientes que vivia, a idade relativa do fóssil, e mesmo se ele morreu ali ou foi transportado”, diz a professora.

Foto: Reprodução/Ufam

Rosemery Rocha explica também a necessidade de intensificar as ações paleontológicas na região, tanto do ponto de vista científico quanto no que se refere ao trabalho de conscientização sobre a proteção do patrimônio paleontológico, e lembra ainda, que a comercialização de fósseis é crime.

O Departamento de Geociências, no âmbito do Laboratório de Paleontologia e Museu de Geociências solicitam àqueles que encontrarem material fóssil, comunicar-nos por e-mail rrsilveira@ufam.edu.br e/ou WhatsApp (92)98155-0560, ou diretamente no Departamento de Geociências, Bloco 7, ICE.

Como ocorreu?

A enorme vazante deste ano promoveu ampliação de áreas contendo rochas passíveis de visualização direta. Apesar de ser um período de inúmeras dificuldades para as pessoas e demais organismos, representa uma condição que favorece o achado de novos fósseis de organismos antigos, o que pode ajudar a revelar parte da história da região onde foi encontrado.

A professora explicou o fenômeno destacando que embora não seja comum encontrar fósseis, alguns locais são mais comuns que outros para que condições propícias aconteçam, principalmente se você mora em uma bacia sedimentar e próximo a cursos de rios.

“É necessário entender que fósseis são considerados restos (por exemplo: ossos, dentes, troncos, folhas) ou vestígios (pegadas, marcas de repouso, perfurações, predações) de organismos, e que não podem ser confundidos como vestígios humanos (relacionados à arqueologia). Por anos a região de Eirunepé (AM) já atravessou estiagens significativas, uma delas em 1998, que resultou na doação para o Laboratório de Paleontologia do (DEGEO/ICE/Ufam), de diversas vértebras, dentes de diversas categorias de vertebrados, inclusive de grandes mastodontes, taxodontes, fragmentos de mandíbulas (jacarés gigantes, mastodontes, taxodontes), fragmentos de plastrão de tartarugas, ossos de patas de preguiças-gigantes”, finalizou.

*Com informações da Ufam

Felicidade dos filhos, além do bem-estar

Por Julio Sampaio de Andrade – juliosampaio@consultoriaresultado.com.br

Recebi significativos comentários sobre o artigo anterior em que defendia que os pais de hoje parecem ter maior preocupação com o bem-estar do que os pais da minha geração, mas que bem-estar não significa felicidade. Argumentei que para serem felizes de uma forma mais consistente, nossas crianças precisam ser estimuladas a desenvolver um modelo mental de gratidão e de altruísmo. Em todos os estudos da psicologia positiva sobre felicidade, os dois componentes aparecem com destaque.

A maior parte dos comentários era de pais que hoje vivem um estilo de vida sacrificante, mas que entendem que estão oferecendo o melhor para os seus filhos. Ao ouvi-los, eu me sinto estimulado a reforçar ainda alguns outros pontos essenciais para os pais que querem oferecer mais do que bem-estar.

Antes disso, porém, registro que reconheço, nos pais das novas gerações, um nível de consciência elevado sobre a sua responsabilidade na educação dos filhos. Há mais informações disponíveis e o interesse não ocorre apenas por parte das mães, como era comum no passado. Para começar, trocar fraldas do bebê atualmente é dever de mãe e de pai. Depois vêm o acompanhamento das notas, as festinhas da escola, a ida ao médico, a ajuda de lições de casa ou os horários de brincar. O senso comum hoje nos diz que pai e mãe devem estar juntos nesta jornada. Parece óbvio, mas não foi assim em outros tempos. É preciso comemorar estas conquistas, que não são pequenas. No entanto, como é natural em uma fase de mudanças, tende-se a adotar um extremo contrário. Neste caso, pais sacrificados, valorizando mais a condição de amigos do que de pais. Costumo brincar com as minhas filhas, mesmo já adultas, dizendo que sou amigo, mas que pai não é coleguinha. Não que elas precisem ser lembradas disso, ao contrário.

É na infância o momento mais favorável para o desenvolvimento de atitudes gratas e altruístas. Um adulto com um modelo mental egoísta, ingrato e pessimista terá muito mais dificuldades de se transformar e assim se aproximar de uma vida mais feliz, independentemente de fatores externos.

Uma pessoa que cresce acostumada a ter tudo, sem esforço, não desenvolverá resiliência e poderá tornar-se alguém que desiste facilmente de seus objetivos. Lidar com obstáculos e aprender que as coisas precisam ser conquistadas ajuda a desenvolver resiliência, ao mesmo tempo que conduz à luta pela superação de metas. Resiliência e conquista de metas são elementos importantes para a construção da felicidade.

Aprender a desfrutar da alegria e da leveza servirá como um grande antídoto contra o hábito do mau humor, do ver tudo com um excessivo peso e da dificuldade de viver o presente, sem apego ao passado ou a preocupações desnecessárias com o futuro. Ajudará também a vivenciar melhor a beleza e a arte, nas suas diversas formas.

A existência de um sentido para a vida contribui para a saúde mental e é a melhor prevenção contra diversos tipos de doenças, dentre elas, a depressão e o vazio existencial. Ter um sentido é buscar a consciência de uma missão, desenvolver um propósito e trabalhar um legado. Isto costuma vir mais tarde, numa fase mais adulta. Para começar, podemos estimular as crianças a ter sonhos e a fazer movimentos neste sentido. Podemos ajudá-las a sonhar sonhos construtivos, benéficos para mais pessoas.

A consciência de que somos responsáveis pelas nossas escolhas e pela construção de nosso próprio destino estimula a autorresponsabilidade. Há muita força quando este pensamento se soma à crença na existência de uma Força Superior que promove a Felicidade, quando seguimos as Suas Grandes Leis.

Que todos possam oferecer bem-estar aos seus filhos, mas que não deixem de cuidar da Felicidade!

Sobre o autor

Julio Sampaio (PCC,ICF) é idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute, diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching e autor do livro Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital). Texto publicado no Portal Amazônia e no https://mcinstitute.com.br/blog/.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Esses rios ainda são nossas ruas? Estudo avalia condições dos terminais hidroviários paraenses

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Foto: Alessandra Serrão/Comus

Águas barrentas, com tons cinza, além de refrescarem, carregam histórias, banham culturas e deságuam no oceano. Rasgando cidades e vilarejos, os rios, sempre associados à  biodiversidade, na Amazônia são também vias de acesso. O vaivém das águas carrega consigo animais, pessoas e produtos por uma via de transporte que é considerada sustentável e de baixo custo: as hidrovias.

Sabendo do potencial que a Região Norte apresenta nesse modal de transporte (meio pelo qual pessoas ou mercadorias são movidas de um lugar para o outro), o engenheiro de produção Guiler Oliveira Garcia Júnior desenvolveu a dissertação ‘Preposição de um instrumento para avaliação dos terminais hidroviários de passageiros: estudo de caso no estado do Pará‘.

O estudo teve como objetivo avaliar os terminais hidroviários paraenses, aplicando questionários que mediam o grau de satisfação em relação aos serviços ofertados. “Investigar os problemas e buscar soluções pode contribuir, significativamente, para melhorar a infraestrutura e os serviços de transporte fluvial, promovendo, assim, o desenvolvimento da região e melhorando a qualidade de vida da população dependente desse meio de transporte”, enfatiza Guiler Garcia, que, em seu estudo, analisou três terminais, sendo dois em Belém – Terminal Hidroviário do Porto de Belém Luiz Rebelo Neto e Terminal Hidroviário Ruy Barata –, e um em Salvaterra – Terminal Hidroviário de Camará.

Hidrovias desempenham importante papel na Amazônia

Por apresentar uma vasta rede hidrográfica, a Amazônia é considerada uma das regiões com potencial elevado para o desenvolvimento do transporte hidroviário, visto que este apresenta uma série de vantagens, como transporte de cargas e pessoas, integração regional, acesso a áreas remotas, redução de custos e preservação ambiental.

O pesquisador analisou os terminais da Ilha do Marajó, local de grande fluxo na região, para compreender o funcionamento do sistema de transporte hidroviário no Pará. Em seguida, realizou visitas técnicas nos terminais selecionados para a dissertação, levantando dados e avaliando a infraestrutura e a qualidade dos serviços prestados, por meio de entrevistas e aplicação de dois questionários. O primeiro foi elaborado pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) e direcionado aos gestores dos terminais. O segundo foi elaborado pelo autor e respondido pelos usuários desses espaços.

Dessa maneira, o questionário Antaq permitiu conhecer a estrutura dos terminais, a logística operacional do setor portuário e os fatores que influenciaram a qualidade dos serviços ofertados. “O terminal de Belém, segundo os estudos da Antaq de 2013 e 2018, foi o melhor avaliado entre os terminais pesquisados na Amazônia. Nesta pesquisa, ele também foi o melhor avaliado, até porque é o terminal que realiza viagens intermunicipais e interestaduais, também é de onde saem as linhas com as maiores concentrações de passageiros”, explica o engenheiro.

Terminais não atendem a requisitos dos usuários

Os terminais de Belém, Combu e Camará obtiveram avaliações distintas dos usuários, mas enfrentam problemas semelhantes. “Os usuários consideraram bom o serviço ofertado pelo terminal hidroviário de Belém’. Já o terminal do Combu, reformado recentemente, foi classificado como ‘regular’, isto é, ele não está preparado para atender à população. O de Camará foi considerado ‘ruim’ pelos usuários. Existem elementos para o funcionamento normal do terminal, porém a estrutura não apresenta um padrão de qualidade satisfatório”, afirma o pesquisador.

Itens como segurança, estacionamento, organização no embarque e desembarque, entre outros, foram mencionados pelos passageiros. “O último item dos questionários pede uma sugestão: ‘o que pode ser melhorado? Qual sua sugestão?’ Os três terminais obtiveram resultado semelhante, como falta de segurança e policiamento, falta de capacitação dos prestadores de serviço e falta de informação, principalmente para os turistas”, enfatiza Guiler Garcia.

Ampliação de estacionamentos, disponibilização de funcionários para o auxílio no embarque e desembarque e criação de um site com informações atualizadas para os passageiros são algumas das ações apontadas, na dissertação, como forma de melhorar os serviços prestados. Guiler Garcia afirma, ainda, que a classificação dos transportes hidroviários na região amazônica vai mudar de acordo com o aspecto que está sendo avaliado. Para o pesquisador, o investimento em infraestrutura é essencial para garantir maior eficiência dos terminais.

“A condição dos portos na Região Norte do Brasil varia consideravelmente. No Pará, o governo do estado vem investindo na infraestrutura hidroviária, fazendo a readequação e construção de novos terminais. Embora já exista uma preocupação com o cumprimento de parâmetros de segurança e qualidade, ainda falta fiscalização e transparência dos órgãos reguladores”, finaliza o engenheiro.

Transporte hidroviário

Vantagens

Baixo nível de perdas e danos
Maior vida útil da infraestrutura portuária
Tráfego 24 horas/dia
Menor congestionamento de tráfego

Desvantagens

Baixa velocidade de operação
Rotas limitadas
Mais burocracia para documentação de mercadorias
Investimento inicial em veículos elevados

Fonte: Garcia Júnior, 2023.

Sobre a pesquisa

A dissertação Preposição de um instrumento para avaliação dos terminais hidroviários de passageiros: estudo de caso no estado do Pará foi defendida por Guiler Oliveira Garcia Júnior, em 2023, no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Naval (PPGNAV/Itec), da UFPA, com orientação do professor Mounsif Said.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, edição 172, da UFPA, escrito por André Furtado

Amazônia Central perdeu 8% de cobertura de água nos últimos dois meses de 2023 em relação à média mensal

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Redução na cobertura da água traz dificuldade de acesso a alimentos e água potável na Amazônia. Na foto, Lago Tefé na seca de 2023. Foto: Ayan Fleischmann/Acervo Pesquisadores

A região central da Amazônia enfrentou uma redução histórica na área de águas abertas entre 2023 e 2024. Segundo um estudo publicado nesta quarta (13) na revista “Environmental Research Letters”, a cobertura hídrica da região diminuiu 8% nos últimos dois meses de 2023 em relação à média mensal.

O estudo, conduzido por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) em parceria com a instituições como a Universidade de Brasília (UnB), o Institut de Recherche pour le Développement (IRD), da França e a Universidade Tecnológica do Uruguai, alerta para um cenário crítico para 2024 e reforça a necessidade de medidas urgentes de mitigação.

O artigo alerta para uma estiagem ainda mais extrema em 2024. Os dados de outubro de 2024 já mostram uma diminuição de cerca de 18% na área de lagos maiores que 10 hectares em relação ao mesmo período do ano anterior. Setembro de 2023 registrou 57.624 km² de águas abertas na Amazônia Central, enquanto o mesmo mês de 2024 contabilizou apenas 51.775 km², uma diferença de quase 6 mil km².

Para investigar os efeitos da seca do último ano sobre a extensão das águas abertas na Amazônia, incluindo reservatórios, rios e áreas alagadas, a equipe utilizou dados de sensoriamento remoto captados por Radares de Abertura Sintética, ou SAR.

Esses sensores coletam informações sob diferentes condições climáticas e mesmo na presença de nuvens, fornecendo retratos detalhados da região a cada 12 dias. Os pesquisadores analisaram mais de 1.500 imagens que abrangem o período entre 2017 a 2024 e observaram como as mudanças na cobertura de água se distribuíram e afetaram a área.

Algumas áreas experimentaram quedas ainda mais extremas, como o Rio Negro, que alcançou seu nível mais baixo em 120 anos. “A estiagem provém de uma combinação de fatores”, explica Daniel Maciel, autor do estudo.

Novembro e dezembro de 2023 registraram os menores valores da cobertura de água desde o início da coleta de informações, em 2017, e lagos isolados tiveram reduções de até 80% em comparação com a média geral da estação seca.

A redução da água disponível afeta gravemente a biodiversidade e a subsistência de mais de 30 milhões de pessoas na região amazônica. “A estiagem severa resulta em uma diminuição no acesso a alimentos, educação, remédios, transporte e água potável”, destaca Maciel.

“Podemos ter uma mortalidade maior de peixes, a principal fonte de proteína animal nas comunidades mais remotas, e a seca também afeta a agricultura familiar, com a dificuldade de cultivar até a mandioca, cuja farinha é a base da alimentação de muitas pessoas”, continua o autor. Ele também explica que a diminuição do nível de água aumenta a ressuspensão de sedimentos pela ação do vento, o que pode ocasionar a floração de algas tóxicas.

O pesquisador Ayan Fleischmann, do Instituto Mamirauá, destaca que a seca extrema afeta grande parte da Bacia Amazônica em novembro de 2024, isolando milhares de ribeirinhos e exigindo ajuda humanitária emergencial.

Segundo Maciel, os resultados demonstram a urgência de medidas assertivas para redução de danos. “A redução do desmatamento, com controle, monitoramento e punição do desmatamento ilegal, o combate a incêndios florestais e o monitoramento em tempo real dessas ocorrências, o uso racional da água e a implementação de estratégias de longo prazo para combater as mudanças climáticas são algumas das ações importantes”, relata o autor. Os planos futuros da equipe incluem entender como a mudança na área alagada afeta a qualidade da água e como isso pode impactar a biodiversidade ao longo dos anos.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori

Ponto de não retorno: a Amazônia não tem tempo a perder

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Foto: Pedro Devani/Secom AC

Ainda nos anos 1990, estudiosos da Amazônia discutiam a possibilidade de que o desmatamento excessivo conduzisse o bioma a um ponto de não retorno, o que poderia comprometer a continuidade da floresta tropical tal como a conhecemos. Mas aquilo que já foi um debate largamente teórico tornou-se hoje uma questão urgente e desafiadora, num contexto em que os efeitos do desmatamento são turbinados pelas rápidas e intensas mudanças climáticas globais.

O pilar central do conceito de ponto de não retorno estipula que se os níveis de desmatamento e degradação da Amazônia atingirem certos patamares, a floresta perderá a capacidade de se sustentar, independentemente de quaisquer iniciativas posteriores no sentido de mitigar a perda de cobertura vegetal. Essa autodegradação poderia transformar vastas áreas da floresta tropical em áreas pobres em biodiversidade, o que traria implicações devastadoras não apenas para a região, mas também para o clima global. 

Para esboçar um quadro do aspecto que teria essa Amazônia sem a floresta, algumas pessoas recorrem ao termo savana. Mas não é uma descrição lá muito precisa: uma Amazônia sem floresta se mostraria muito mais pobre, tanto em termos de fauna quanto de flora, do que uma savana.

Uma das principais descobertas que fundamentam a preocupação com a possibilidade de que ponto de não retorno esteja se aproximando é a relação entre o desmatamento e a extensão da estação seca no sul da Amazônia. 

Nesta região concentra-se boa parte do chamado Arco do Desmatamento. Este nome foi proposto pelo movimento ambientalista, e se tornou internacionalmente reconhecido, para identificar um vasto segmento do bioma amazônico onde a devastação avança em ritmo mais acelerado há décadas

Estudos pioneiros indicaram que o desmatamento contínuo pode prolongar a duração da estação seca para além dos quatro meses habituais. Essa jornada estendida poderia inviabilizar a possibilidade de que a floresta tropical sobreviva às duras condições do período seco.

E, segundo o cientista Carlos Nobre, um dos maiores climatologistas brasileiros, que se dedica a estudar a resiliência amazônica há 30 anos, esse quadro já está acontecendo. 

Arte: Equipe de Arte ACI – Fonte: Mapbiomas

Os dados científicos recentes, gerados a partir de pesquisas conduzidas em diversas áreas do bioma, delimitam um cenário ainda mais perigoso, porque a combinação de desmatamento e aquecimento global exacerba os problemas.

O desmatamento afetou cerca de 18% da área da floresta. Quando se somas também as áreas degradadas já afetou um pouco mais de 20% da área do bioma. Os estudos multidisciplinares mostram que, se o desmatamento alcançar 25% da área, e o aquecimento global ultrapassar a média global em 2°C, grande parte da floresta entrará no ciclo de autodestruição. Se estas condições se verificarem, as previsões apontam para o ponto de não retorno sendo alcançado até 2050, ou seja, em menos de 30 anos.

E as pesquisas sugerem que os efeitos extremamente danosos não se limitarão apenas à Amazônia, espalhando-se por toda a América do Sul, como um efeito dominó. Em especial, por meio da interrupção do fenômeno conhecido como “rios voadores”, os fluxos de vapor d’água que circulam da Amazônia para outras regiões do continente. A floresta, nas regiões onde ainda está preservada em sua exuberância, funciona como uma bomba d’água ativa, que exala umidade para a atmosfera. Esses grandes canais aéreos de vapor são responsáveis por levar umidade para o Cerrado e a Mata Atlântica. O impacto chega ao sudeste do Brasil e partes da Argentina, do Paraguai e do Uruguai.

Arte: Equipe de Arte ACI – Fonte: Mapbiomas

Sem essa umidade, os demais biomas do continente se tornarão mais secos, enfrentando estações sem períodos de chuvas prolongadas e temperaturas mais altas. Essas alterações colocariam sob ameaça não apenas a biodiversidade do país como também sua agricultura. Todo o agronegócio brasileiro, concentrado no Cerrado, estaria, portanto, sob risco.

Perda de biodiversidade já é alarmante

Quando a análise passa do ponto de vista macro para processos mais regionais, é como se a tese do ponto de não retorno ganhasse ainda mais nitidez.

Em Rondônia, onde o grupo realiza as suas pesquisas, região onde o desmatamento e a degradação da maior floresta tropical do planeta é alto, a situação é classificada como “alarmante” pelo cientista da Unesp, por causa da perda de condições climáticas adequadas para a manutenção da biodiversidade aquática.

Brejão cita um estudo da International Union for Conservation of Nature, uma das mais reputadas ONGs ambientalistas, divulgado em 2023, que mostrou que um quarto das espécies de peixes de água doce do mundo estão ameaçados de extinção, principalmente devido às mudanças climáticas, à pesca excessiva e à poluição. 

No caso particular de Rondônia, os pesquisadores da Unesp estimam que as mudanças nos ecossistemas aquáticos vão afetar tanto espécies que são muito sensíveis ao desmatamento quanto aquelas que suportam esse tipo de impacto, sendo até beneficiadas por ele.

“Nos dois últimos anos, em que testemunhamos secas severas na Amazônia, já registramos impactos profundos sobre a biodiversidade aquática. Além disso, a própria malha de estradas acaba fragmentando a hidrografia e dificultando o deslocamento das espécies de peixes entre as diferentes manchas florestais”, analisa Brejão. O que mostra que, para além da questão climática, a ação direta do homem sobre o bioma também tem deixado marcas bastante negativas.

Como evitar o ponto de não retorno

Embora as previsões e cenários problemáticos sejam abundantes, a boa notícia é que há também alguns estudos científicos que sugerem que é possível impedir que o bioma afunde no buraco negro do ponto de não retorno. E essa perspectiva otimista é reforçada por iniciativas e projetos socioambientais já em andamento, que procuram manter a floresta em pé e gerar renda para os moradores da região.

Uma das possibilidades mais promissoras para reverter esse cenário, diz o climatologista Carlos Nobre,  é o plano conhecido como  “Arco da Restauração”, nome que indica o desejo de reverter o estrago feito no Arco do Desmatamento.

O plano foi  anunciado durante a COP28, no ano passado em Dubai, será liderado pelo Brasil e  visa restaurar, empregando recursos do BNDES, 240 mil km² de floresta até 2050, começando com 60 mil km² até 2030. O financiamento incluirá também recursos do Fundo Amazônia e do Fundo Clima, com R$ 550 milhões voltados para pecuaristas e pequenos agricultores. 

Os objetivos de longo prazo serão reverter os danos causados pelo desmatamento, reduzir a duração da estação seca e estimular uma nova economia sustentável baseada na floresta. Tais objetivos são realizáveis, ele diz, desde que a iniciativa ganhe a escala necessária.

Em paralelo, e essa é a grande menina dos olhos de alguns cientistas que buscam soluções para a Amazônia, inclusive de Carlos Nobre, quem começa a ganhar tração é o programa Amazônia 4.0. A meta é capacitar comunidades locais para produzir e comercializar produtos da biodiversidade, como cacau, cupuaçu e castanha.

Além disso, está em desenvolvimento um Instituto de Tecnologia da Amazônia, nos moldes do ITA, para impulsionar a pesquisa e inovação sustentável na região, com apoio de Brasil, Colômbia e Peru. O instituto será focado em áreas como biodiversidade, sistemas fluviais e restauração de áreas degradadas. O lançamento está previsto para a COP 30, no final de 2025, junto com cinco polos de inovação destinados a criar startups voltadas para essa nova socioeconomia da floresta em pé.

O manejo do pirarucu no médio Juruá e a plantação de café orgânico no Sul do Amazonas também são exemplos de como comunidades, cientistas e profissionais de várias áreas podem trabalhar de forma integrada em busca da preservação e geração de riqueza. No caso do município de Apuí, a pressão da expansão da agropecuária, com o desmatamento ligado ao gado e ao cultivo de soja, é uma realidade.

 No entanto, produtores locais estão tendo a chance de trabalhar com uma alternativa sustentável para a região, a partir de um projeto de produção de café orgânico. Com um aporte de R$ 11 milhões, o projeto-piloto, que envolvia cerca de 50 famílias, agora inclui 250 produtores.

Arte: Equipe de Arte ACI – Fonte: Mapbiomas

A iniciativa, liderada pela ONG Idesam, busca integrar a produção de café à preservação ambiental, cultivando o grão próximo à floresta, o que melhora a ciclagem de nutrientes no solo e reduz a necessidade de adubos. A expectativa é aumentar a produção em 5.000%, de 231 para 12 mil sacas de café, e expandir a área cultivada para mais de 600 hectares em dez anos. 

O café orgânico de Apuí já está sendo comercializado, com potencial de conquistar mercados internacionais. Além dos benefícios econômicos, o projeto visa a recuperação de áreas degradadas e a mitigação das emissões de carbono por meio do reflorestamento e da conservação ambiental.

O mesmo raciocínio é empregado no manejo do pirarucu, no interior do Amazonas. Uma das vitórias dos últimos anos da Associação de Produtores Rurais de Carauari (Asproc) é a abertura de um frigorífico na região de Manaus. A ideia dos associados, que estruturam a cadeia de produção há mais de uma década, sempre foi driblar os atravessadores. Por isso, todo o peixe pescado hoje é processado por parceiros, mas as receitas das vendas vão diretamente para os membros da associação, que fazem a divisão dos valores de acordo com as regras de cada comunidade.

Se a possibilidade de aumento de renda tem feito com que milhares de pessoas – mais de 2 mil segundo números oficiais da associação – aderissem ao manejo, isso não significa que o estoque pesqueiro do médio Juruá esteja em queda, muito pelo contrário. O número de famílias envolvidas com a pesca tem aumentado a uma taxa de 50% por ano. Isso porque o manejo, com regras definidas com base na ciência, controla o estoque de peixe de cada lago, ano a ano. Nos anos 1990, o pirarucu quase sumiu das águas amazônicas.

Da forma como é feita hoje, explica o cientista, com foco na proteção dos ecossistemas terrestres, apenas 22% da biodiversidade aquática está sendo efetivamente protegida. “Além disso é urgente que se contenha a degradação das florestas remanescentes no bioma e seja feito um planejamento para priorizar a restauração e recuperação das florestas ripárias (ou matas ciliares), reconectando a floresta e facilitando o deslocamento de fauna terrestre. Para os peixes, essa recuperação florestal e reconexão dos fragmentos pode conter o processo de perda de diversidade a que estamos assistindo em tempo real”, diz o professor do IB de Rio Claro.

O climatologista Carlos Nobre, outro que deixou de se restringir a elaborar diagnósticos para os grandes problemas da Amazônia e partiu para o encaminhamento de soluções, também não jogou a toalha.

Séries Jornal da Unesp

Este artigo faz parte da série Biomas do Jornal Unesp. Nesta série, o Jornal da Unesp mapeia os desafios ambientais presentes nos diferentes biomas do Brasil.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Unesp, escrito por Eduardo Geraque

COP 29: Amazonas defende agilidade para financiamento da agenda de mitigação e adaptação às mudanças climáticas

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Discurso de Secretário de Estado do Meio Ambiente do Amazonas. Foto: Magna Helena/Abema

Presente na COP 29, que acontece na cidade de Baku, em Azerbaijão, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (Sema) liderou, no dia 12, um painel sobre ‘Arquiteturas de Financiamento da Agenda do Clima a partir do Pagamento por Serviços Ambientais na Amazônia’.

O secretário da Sema, Eduardo Taveira, destacou a importância de acelerar o financiamento de agendas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas.

O painel foi dividido em duas mesas. Na primeira, participaram secretários de Estado do meio ambiente da região Norte amazônica, entre eles o secretário Executivo do Mato Grosso, Alex Marega; o Secretário de Tocantins, Marcello Lelis; o secretário de meio ambiente do Acre, Leonardo Carvalho; além dos secretários do Pará, Raul Romão, e o secretário da Sema Amazonas, Eduardo Taveira, como mediador.

O objetivo do encontro foi abordar experiências e novas possibilidades de financiamento climático, focado no Pagamento por Serviços Ambientais. A agenda de geração de créditos de carbono foi destaque do painel, tendo em vista o potencial de captação de recursos de maneira ágil, a partir da conservação da floresta, com benefício tanto para fundos climáticos como para as comunidades onde os créditos são criados.

“No Amazonas, essa repartição de benefícios é definida por Decreto: no máximo 15% vai para cobrir custos operacionais das instituições implementadoras e, do restante, metade de todo o recurso da venda dos créditos vai obrigatoriamente para a Unidade de Conservação que tiver projeto de carbono implementado. Ou seja, é garantia de que esses recursos voltam para as populações tradicionais, promovendo justiça climática e bem-estar social para os povos da floresta, com a prioridade e a urgência necessária”, completou.

A segunda mesa reuniu instituições financiadoras e órgãos de controle, com o objetivo de discutir a transparência e requisitos necessários para construir sistemas ágeis de inovadores de financiamento da agenda climática.

O encontro foi mediada pela CEO da FleishmanHillard Brasil, Ana Domingues, e contou com a participação do Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE/AM), Júlio Pinheiro; a Conselheira para Financiamento Climático do Banco Mundial, Svetlana Klimenko; o diretor GCF Task Force no Brasil, Carlos Aragon e o secretário Taveira.

*Com informações da Sema AM

Painel sobre ‘Soberania da Amazônia’ encerra temporada 2024 do projeto ‘Amazônia Que Eu Quero’

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A temporada 2024 do programa ‘Amazônia Que eu Quero’ chegou, oficialmente, ao fim das atividades com o tema ‘Soberania da Amazônia’. O evento que foi exclusivo para convidados ganhou transmissão no canal temático Amazon Sat e teve como objetivo criar um debate saudável sobre o futuro da região amazônica.

Entre os participantes que debateram sobre a soberania amazônica estavam o procurador-chefe da Advocacia Geral da União (AGU), André Petzhold Dias; o Comandante Militar da Amazônia (CMA), Ricardo Augusto Ferreira Costa Neves; o General de Brigada e Chefe do Estado-Maior do Comando Militar da Amazônia, Reinaldo Sótão Calderaro, e o Secretário-Geral de Inteligência do Tribunal de Contas do Amazonas (TCE-AM), Sérgio Fontes.

Durante o painel, os participantes destacaram a importância da soberania da Amazônia. O procurador-chefe da Advocacia Geral da União (AGU), André Petzhold Dias, afirmou que para alcançar a soberania o foco precisa ser no ser humano. “Tudo tem que ser voltado para que essa pessoa tenha seus direitos atendidos, dessa forma, ela ocupará o território e a soberania será exercida”, contou.

Outro ponto importante destacado no painel foi sobre a união dos amazônidas. “Problemas sempre existirão, eles vão se sucedendo. Solucionamos alguns, mas logo aparecem outros. Porém, se todos estiverem juntos com um propósito firme o problema será solucionado”, disse o Secretário-Geral de Inteligência do Tribunal de Contas do Amazonas (TCE-AM), Sérgio Fontes.

Ele explicou que para a Amazônia alcançar a soberania é necessário focar em quatro pontos: reforço da inteligência do país, integração de todos os órgãos, compartilhamento de experiência com os países vizinhos e investimento na ciência.

Foto: Reprodução/Rede Amazônica

A importância do debate

Este ano, o projeto trabalhou com o tema ‘Amazônia Continental’. Segundo a diretora executiva da Fundação Rede Amazônica (FRAM), Mariane Cavalcante, todas as capitais da região amazônica receberam debates que refletiam a importância de encontrar soluções para manter a Amazônia em pé.

“Este último painel foi uma grande celebração, afinal, o projeto está conosco há cinco anos. Durante o evento, falamos muito sobre soluções, mas também ressaltamos a importância de ter líderes que se transformem em protagonistas para pensar de dentro para fora”, disse.

De acordo com a coordenadora do projeto ‘Amazônia Que Eu Quero’, Debora Holanda, o painel final cumpriu o seu papel de promover um debate essencial sobre a defesa da Amazônia.

O CEO do Grupo Rede Amazônica, Phelippe Daou Júnior, afirmou que o projeto “tem todas as condições de continuar crescendo, pois trata de assuntos relevantes para a sociedade. A cada nova edição, mais pessoas nos procuram querendo conhecer mais do projeto. Vejo com um processo natural, quanto mais aprofundado for o tema debatido, mais relevante vai se tornar o evento”.

Foto: Reprodução/Fundação Rede Amazônica

Sobre o Amazônia Que Eu Quero

Concebido em 2019, o Programa ‘Amazônia Que eu Quero’ é uma iniciativa da Fundação Rede Amazônica e Grupo Rede Amazônica que tem por objetivo promover a educação política por meio da interação entre os principais agentes e setores da sociedade, além do levantamento de informações junto aos gestores públicos e da participação ativa da população, por meio de câmaras temáticas estabelecidas pelo programa, como foi o caso da edição de 2023 que discutiu três eixos centrais Educação, Turismo e Conectividade no contexto Amazônico.

Sobre a Fundação Rede Amazônica

A Fundação Rede Amazônica, é o braço institucional do Grupo Rede Amazônica, atua há 38 anos com os objetivos de capacitar pessoas, articular parcerias, desenvolver projetos e programas que contribuem para a proteção e desenvolvimento da Amazônia.