Região da Amazônia em Mato Grosso. Foto: Marcos Vergueiro
Estudos envolvendo pesquisadores de diversas instituições acadêmicas buscou integrar o conhecimento tradicional dos coletores de sementes da Amazônia com o conhecimento científico para promover a restauração ecológica da região, identificando as espécies vegetais mais adaptadas às mudanças climáticas previstas para as próximas décadas.
O projeto faz parte da iniciativa do Amazônia +10, que apoia projetos de pesquisa voltados à conservação da biodiversidade e adaptação às mudanças climáticas. Em Mato Grosso, o programa é fomentado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat), com parcerias nacional e internacional.
O projeto se concentrou na Rede de Sementes do Portal da Amazônia (RSPA), investigando quais espécies utilizadas na restauração florestal são mais promissoras para o futuro. Para isso foram construídos modelos de distribuição de espécies permitindo verificar sua adequabilidade ambiental em diferentes cenários climáticos, onde foram analisados a caracterização biométrica, atributos anatômicos, fisiológicos e ecológicos das espécies para identificar aquelas com maior resiliência.
Os resultados dos estudos impactam diretamente na estratégia de restauração da floresta, fornecendo subsídios para a escolha eficiente de espécies e otimizando o processo de recomposição vegetal. Foram atualizados o mapeamento das matrizes de coleta, garantindo uma cadeia de produção de sementes mais eficiente e adaptada ao novo cenário climático.
“A equipe de pesquisadores da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), desempenhou o papel central nas partes fundamentais da execução do projeto, colaborando na modelagem da distribuição das espécies e na disseminação dos resultados por meio da plataforma WebAmbiente. Paralelamente a equipe do Rio de Janeiro, da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) realizou os estudos morfoanatômicos e fisiológicos das espécies, enquanto a equipe do Distrito Federal, da Universidade de Brasília (UnB) e Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), investigaram técnicas de restauração ecológica, com ênfase na semeadura direta”, destacou o coordenador, professor doutor Pedro Vasconcellos Eisenlohr, da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat)
A integração entre cientistas e coletores de sementes foi um diferencial do projeto. Foram promovidas palestras e rodas de conversa para validar e compartilhar o conhecimento gerado. Como produto final, cartilhas foram desenvolvidas para facilitar o acesso às informações sobre as espécies mais indicadas para a restauração ecológica da região.
“Esperamos que os resultados da pesquisa contribuam significativamente para a preservação da Amazônia, tornando-se uma referência na seleção de espécies resilientes e na formulação de políticas ambientais voltadas à restauração florestal”, enfatizou Eisenlohr.
Foto: Renan Landau Paiva de Medeiros/Acervo pessoal
Proporcionar um futuro mais sustentável e eficiente com a geração de energia em regiões isoladas da Amazônia, usando novas tecnologias e treinando estudantes de Engenharia Elétrica, sãos os objetivos da pesquisa ‘Estabilização robusta e tolerante a falhas em Microrredes com Inserção de Geração Distribuída usando Estratégias de Controle baseada em dados’.
A pesquisa foi coordenada pelo doutor em Engenharia Elétrica, Renan Landau Paiva de Medeiros, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Amparada via Programa de Apoio à Pesquisa–Universal Amazonas da Fapeam, edital Nº 006/2019 a pesquisa consta no Portfólio de Investimentos e Resultados de Pesquisas do Amazonas – Vol.04, organizado pela Fapeam.
O projeto estudou como as microrredes (pequenas redes de energia elétrica) funcionam em lugares com energia solar e geradores com sistemas de energia elétrica de Corrente Alternada (CA) para Corrente Contínua (CC). Durante a pesquisa, foram realizadas simulações de como essas redes se comportam, o que possibilitou o desenvolvimento de ‘modelos matemáticos’ para garantir o funcionamento estável do sistema, mesmo quando há falhas ou imprevistos.
Segundo o pesquisador, uma microrrede consiste em um sistema que integra diversos geradores distribuídos de energia e cargas elétricas operando autonomamente como rede única, seja isolada ou conectada à rede de distribuição externa. O conceito de microrrede é antigo, mas o seu desenvolvimento passou a ser estimulado na última década devido à crise econômica e a consciência ambiental promovida pelo aquecimento global que motivou o investimento em fontes alternativas de energia.
Imagem: Renan Landau Paiva de Medeiros/Acervo pessoal
Estabilização de microrredes
A pesquisa devolveu dois modelos matemáticos para sistemas de microredes, sendo um modelo para a microrrede CA e um para microrrede CC. Além disso, desenvolveram-se simuladores em ambiente computacional que conseguem descrever adequadamente o comportamento dinâmico de cada um dos sistemas.
O projeto desenvolveu um controle de malha suplementar robusto baseado em conceitos de Desigualdades Matriciais Lineares para garantir estabilidade do sistema dinâmico frente a oscilações eletromecânicas. Esses dois sistemas experimentais foram testados e desenvolvidos pelos alunos de graduação e pós-graduação.
No decorrer da pesquisa, também foram criados dispositivos para melhorar o controle e a operação dessas, além de conversores para justar a energia gerada.
Renan Landau, coordenador da pesquisa, ressalta que há poucas localidades no mundo que possuem um sistema de emulação de um sistema de hidrogeração, e que o estudo abre um leque de oportunidades para o desenvolvimento de pesquisas, treinamentos e uma melhor capacitação de profissionais para o mercado de trabalho.
O resultado da pesquisa foi apresentado em um trabalho de conclusão de curso, duas orientações de mestrado e quatro publicações em conferências e periódico internacional.
A expectativa de longo prazo para o projeto é pavimentar a construção e desenvolvimento de arquiteturas sustentáveis de microrredes que possam ser aplicadas para proporcionar uma solução tecnológica longínqua e sustentável em comunidades isoladas de todo o Amazonas, de modo que estas localidades carecem de uma fonte confiável de abastecimento de energia elétrica, impactando diretamente na qualidade de vida das pessoas que ali residem.
O estudo teve o apoio do Governo do Amazonas, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).
Perdeu o desfile das escolas de samba dos grupos de Acesso e Especial do Amapá? Os desfiles aconteceram na sexta-feira (28) e no sábado (1º), no Sambódromo de Macapá.
Confira alguns dos melhores momentos:
Grupo de acesso
Embaixada de Samba Cidade de Macapá
Solidariedade
Emissários da Cegonha
Unidos do Buritizal
Grupo Especial
Império da Zona Norte
Piratas Estilizados
Império do Povo
Boêmios do Laguinho
Maracatu da Favela
Piratas da Batucada
*As fotos são de Mariana Ferreira, Isadora Pereira e Rafael Aleixo, da Rede Amazônica AP
Carnaval Amazônico – Amapá
O Carnaval Amazônico é um projeto realizado pela Fundação Rede Amazônica, correalizado pelo Grupo Rede Amazônica, com o apoio do Governo do Amapá, Coca-Cola e Rodrigues Colchões.
O projeto une tradição, cultura e entretenimento, levando a Amazônia para o público de toda a Região Norte. Campanhas educativas e socioambientais também fazem parte do projeto.
O Carnaboi já virou uma das datas mais aguardadas do calendário manauara e, em 2025, o evento acontece nos dias 7 e 8 de março, no Studio 5 Centro de Convenções, na Zona Sul de Manaus (AM). Uma festa que tem como objetivo preservar a cultura e tradição amazonense, e faz parte do Carnaval Amazônico, uma realização da Fundação Rede Amazônica (FRAM).
E que também mantém o compromisso social com uma série de ações no âmbito educativo e socioambiental. Matheus Aquino, especialista de projetos da FRAM, relata que o Carnaboi é uma manifestação cultural gigantesca no Amazonas e que as ações realizadas pela Fundação, além de promoverem a cultura amazonense, também ajudam a conscientizar a população sobre sua responsabilidade em grandes eventos como este.
“A gente vai ter campanhas educativas na temática do combate a infecções sexualmente transmissíveis e também a questão da ingestão do álcool e atenção na direção, que a gente sabe que nesse período de carnaval, infelizmente, os acidentes acabam aumentando”, relatou.
No campo socioambiental, Aquino explicou que as ações irão compensar ambientalmente todos os gases de efeito estufa que serão emitidos durante o projeto Carnaval Amazônico. Será feito o inventário do que foi feito de emissões em relação a questão de eletricidade, gasolina e o uso de papel.
“O inventário será feito e, posteriormente, a gente vai fazer essa compensação através do plantio de mudas em áreas desagradadas, aqui próximo da capital”, informou.
Cerca de 40 mil pessoas participaram ano passado nas duas noites de espetáculo. Segundo o especialista, a expectativa para esse ano é entregar melhor qualidade de transmissão e receber o público com uma “festa que só as galeras dos bois Caprichoso e Garantido sabem fazer”.
Boi Caprichoso. Foto: Marcely Gomes / Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do AmazonasBoi Garantido. Foto: Marcely Gomes / Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas
Carnaval Amazônico
O Carnaval Amazônico é um projeto realizado pela Fundação Rede Amazônica, correalizado pelo Grupo Rede Amazônica, com o apoio da Associação Amazonense de Desenvolvimento Cultural (AADC), Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas, Governo do Amazonas e Prefeitura de Parintins.
O projeto visa resgatar a importância histórica das tradicionais bandas e blocos de Carnaval de Manaus, unindo tradição, cultura e entretenimento, levando a Amazônia para o público de toda a Região Norte. Campanhas educativas e socioambientais também fazem parte do projeto.
Áreas da Floresta Amazônica convertidas em pastos e cidades têm maior amplitude térmica, menor umidade, maior reflexão da luz solar e perda de eficiência na regulação do clima. Essas são algumas das conclusões obtidas pelo estudo ‘Microclima no Cenário de Floresta, Pastagem e Cidade no Sudoeste da Amazônia’, publicado no dia 21 de fevereiro na ‘Revista Brasileira de Meteorologia’.
O trabalho, realizado em colaboração entre o Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas (INPA), a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal de Rondônia (UNIR), indica que é preciso equilibrar os efeitos das atividades humanas para reduzir os impactos negativos dessas transformações.
Para avaliar se mudanças no uso e na cobertura do solo podem afetar as variáveis micrometeorológicas em florestas, os pesquisadores coletaram dados sobre temperatura, radiação solar, chuva e umidade do ar em três ambientes distintos: florestas, pastagens e cidades. As medições ocorreram em Rondônia, sudoeste da Amazônia, em 2017. Com base nas informações amostrais e em estudos anteriores, a equipe calculou possíveis diferenças nos parâmetros entre os tipos de cobertura e comparou os resultados por meio de análises estatísticas.
Entre os principais resultados, destacam-se a redução da umidade nos ambientes antropizados e uma diferença de 2°C na amplitude térmica diária, ou seja, na diferença entre as temperaturas máximas e mínimas do dia. Pastagens e cidades apresentaram uma variação térmica maior.
“O processo de remoção das florestas em Rondônia vem sucedido por pastagens e cidades, que são paisagens homogêneas e modificam toda a dinâmica local; elas acabam contribuindo menos com a evapotranspiração e aquecendo mais, tornando o local mais seco e mais quente”, alerta Bárbara Antonucci, primeira autora do estudo. O conceito de evapotranspiração abrange tanto a evaporação de água do solo e a transpiração das plantas
A conversão de florestas em pastagens e áreas urbanas também elevou a capacidade de reflexão da luz solar, um fenômeno conhecido como albedo. A maior variação foi observada na substituição da floresta pela cidade, resultando em um aumento de 264%. “O albedo indica o quanto de luz é refletida, como em um espelho”, diz a pesquisadora.
Ela explica que, nas florestas, a luz solar é absorvida e utilizada, principalmente, em três processos: aquecimento do ar, fotossíntese e evapotranspiração. No entanto, nas áreas urbanas analisadas, apenas uma pequena fração é aproveitada na fotossíntese e o restante se converte em calor. “Vimos que as cidades e pastagens, superfícies com maior albedo, refletem mais luz, acumulam menos energia e tendem a ser mais quentes”, complementa.
Segundo Antonucci, além de alterar o microclima, as mudanças identificadas podem ter impactos importantes na biodiversidade local e nas atividades econômicas que dependem do clima e do solo, por exemplo. “A interrupção dos serviços ecossistêmicos fornecidos pelas florestas, como evapotranspiração, regulação térmica e sombreamento, pode levar ao agravamento de extremos climáticos”, diz a autora.
“Ainda, a maior vulnerabilidade dessas áreas pode comprometer a agricultura, tornando as atividades produtivas mais suscetíveis a secas, ondas de calor e mudanças nos regimes de chuvas, o que também afetaria a segurança alimentar e a economia local”, acrescenta.
Para ela, ações de mitigação e preparo são urgentes para lidar com os possíveis impactos da conversão florestal em ambientes antropizados. “Uma medida essencial é a adoção de estratégias para cidades mais resilientes, como a arborização, e o reconhecimento dos serviços ambientais prestados historicamente por populações tradicionais — como ribeirinhos, extrativistas e comunidades indígenas”, sugere Antonucci.
A autora argumenta que políticas públicas devem priorizar incentivos à conservação e ao uso sustentável dos recursos naturais e defende que é imprescindível conciliar o desenvolvimento econômico com a preservação ambiental e os saberes locais. Nesse sentido, a equipe de pesquisadores visa, agora, aprofundar as análises micrometeorológicas da região, identificar padrões e tendências e integrar os estudos com as comunidades locais, visando contribuir para mudanças de paradigmas.
Maria Nazaré em momento festivo na avenida. Foto: Divulgação
Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com
O bloco ‘Us Dy Phora’, de Porto Velho, homenageia a veterana professora Maria Nazaré Figueiredo da Silva no Carnaval de 2025. O samba apresentado destacou o amor e a dedicação da educadora às causas da educação e cultura ao longo de 53 anos.
O sambista Edgley Queiroz cantou: “Este ano, o Carnaval é na Pinheiro. Mas ‘Us Dy Phora’ vem mantendo a tradição. Vem sacudindo esta avenida, com Nazaré, rainha da educação”, diz parte da letra do samba, cujo lema é: “Nazaré, Nazaré, o nosso bloco homenageia esta guerreira”.
Com espírito festeiro, aos 75 anos, Nazaré não perdeu a oportunidade de subir no trio elétrico e cair no samba na avenida Pinheiro Machado durante a homenagem. “Eu me sinto muito emocionada e agradecida pela lembrança”, destacou ela no sábado.
Conhecida como a dama da cultura rondoniense, Nazaré nasceu em 1949 na Ilha de Marajó (PA). Sua história está intimamente ligada a Rondônia, onde atua como educadora, ativista cultural e memorialista, desempenhando papéis fundamentais na construção da identidade local.
Após uma temporada em Belém, onde estudou e se formou em magistério no Instituto Estadual de Educação do Pará, Nazaré casou-se em 1968 com Miguel e mudou-se para Porto Velho em 1972. Ela lecionou língua portuguesa na Escola Murilo Braga, onde também foi diretora, e na Escola Araújo Lima.
Foto: Divulgação
Posteriormente, contribuiu em várias frentes: foi gerente de educação infantil na antiga Divisão de Educação e Cultura do Território de Rondônia, ajudou a implantar escolas no interior e ministrou treinamentos para professores na época do Território Federal de Rondônia, quando ainda não havia curso superior no estado.
Por volta de 1974, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul desenvolveu um projeto de formação em Rondônia. Nazaré aproveitou e cursou Letras; depois, fez Pedagogia pela Universidade do Pará, que também manteve uma extensão em Porto Velho.
Além de sua atuação exemplar na educação, Nazaré ajudou a fundar o Arraial Flor do Maracujá, o maior evento folclórico do estado. “Desde antes do Flor do Maracujá, que começou em 1982, fazíamos os arraiais e festas do folclore, os bois-bumbás, as quadrilhas, nas escolas Barão de Solimões, Carmela Dutra e Rio Branco. Sempre apreciei o folclore e depois começou o Arraial Flor do Maracujá, incorporado oficialmente à cultura rondoniense desde a década de 1980”, conta.
Ela também atuou no Centro de Documentação Histórica de Rondônia (CDH-RO), na Biblioteca Pontes Pinto e em todas as atividades para as quais foi chamada a contribuir ao longo de décadas de trabalho e dedicação, ao lado de colegas devotados à causa da preservação e da difusão da literatura, cultura popular, conhecimento científico, memória e história de Rondônia.
Dona Maria Nazaré articulou e coordenou diversos projetos voltados a bibliotecas e museologia, ministrando cursos e oficinas patrocinadas pelo Ibram (Instituto Brasileiro de Museus) e pela Biblioteca Nacional. Garantiu a doação de milhares de livros, além de móveis e kits multimídia para bibliotecas do estado, que ela pleiteava das instâncias de governo para ampliar a rede bibliotecária estadual.
Apesar do extenso conhecimento, disciplina, assertividade, empreendedorismo e honestidade que sempre a caracterizaram, a dama da memória, educação e cultura nem sempre ocupou posições de destaque na gestão pública. Trabalhou com muito esforço e foi movida pelo idealismo e boa vontade. O reconhecimento veio de seus alunos, colegas de trabalho e da sociedade que admiram a professora e a consideram uma personalidade notável e incontestável; uma dama a serviço das áreas mais importantes da administração pública: educação e cultura.
Foto: Divulgação
Sobre o autor
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.
Segundo alguns estudiosos como a professora Mary Del Priore, Professora de Pós-graduação da USP e autora da obra de Festas e utopias no Brasil Colonial, publicada em São Paulo pela Editora Brasiliense, assim destaca:
[…] Ao longo da Idade Média, os festejos com mascaradas eram mais definidas pelas estações do ano que por datas exatas. Entre Natal e Carnaval, multiplicavam-se as quermesses. O período de matança de porcos, para o preparo de embutidos a consumir na semana gorda, permitia aos jovens tingir o rosto com cinzas, encapuzar-se, vestir com sacos, roupas de mulher ou suas roupas ao avesso. Assim, vestidos, assustavam outras pessoas, entravam em casas, comiam, bebiam e beijavam as moças, que tentavam reconhecê-los. Na Quarta-Feira de Cinzas, um manequim figurando o carnaval fazia sua estrada no vilarejo seguido de um grande cortejo de mascarados. Ao fim do dia, era queimado num muro próximo à igreja, juntamente com as máscaras e, acompanhado de lamentos que anunciavam a chegada da Quaresma.
Em regiões do norte da Espanha, a festa permitia a inversão do papel das mulheres no dia 5 de fevereiro, dedicado a Santa Ágata, elas tomavam o poder em casa e nas ruas, desfilando com danças e cânticos. Na Grécia, a festa se celebrava no dia 8 de janeiro. As mulheres acorriam a casa da mais velhas parteiras, a babo, vestidas com suas mais belas roupas. Embaladas por músicas, confeccionavam um sexo masculino com legumes ou embutidos e, travestidos de homens, iam para as ruas onde perseguiam e maltratavam o sexo oposto. Para terminar, um banquete celebrava as concepções e os partos do novo ano.
Em outras regiões, as mulheres preparavam alimentos cujos restos eram usados numa grande batalha de comida na Quarta-Feira de Cinzas. Os homens, depois de comer exageradamente, imitavam a gestação das mulheres, dando a luz um bebê chorão (um dos membros do grupo). A brincadeira com a gravidez masculina retoma o tema da reprodução. A Festa dos loucos, representada na pintura do Renascimento, invertia a hierarquia clerical, com danças, sermões cômicos, cânticos religiosos com duplo sentido e padres fantasiados de mulheres. Ela desaparece no século XV.
Nas cidades, durante a Idade Moderna, marchavam mascaradas as chamadas “nações” de estudantes, as confrarias e irmandades de artesãos. As cidades multiplicavam a sociabilidade das confrarias, graças às Abadias de alegria que reuniam artesãos e seus aprendizes. Nelas sucediam-se cavalgadas e um rei dos bobos era puxado em seu carro, numa entrada triunfal às avessas.
O modelo ideal se exprime no Carnevale das cidades italianas, onde o jogo entre a mascarada e o teatro refletia a vida de corte. Na Toscana, jovens aristocratas cavalgavam pelas cidades, magnificamente adornados, enquanto em Veneza multiplicavam-se os mascareri, artesãos que amoldavam máscaras de papelão, veludo, couro ou linho encerado. Surgem as figuras do arlequim e do polichinelo. O Carnaval se apropria dos elementos de teatro, tanto que Catarina de Médicis (1519-1589) contratou trupes da commedia dell’arte para animar as comemorações que introduziu na corte francesa.
A partir do século XVIII o uso da bauta-máscara – se torna obrigatório durante as festas e nos lugares públicos. Alguns elementos sobrevivem até hoje: o confetti era feito em Veneza com grãos açucarados, depois substituídos por papel colorido. Já a palavra corso vem da rua do mesmo nome na capital italiana, onde se realizavam as festas públicas.
O Carnaval seguiu os navegadores europeus pelo resto do mundo. Ao longo do tempo, carnavais rurais e urbanos se complementaram. Com duração variável, eles apostaram no papel maior ou menor das máscaras, ligadas à Quaresma ou a ritos agrários, como se vê no México ou nos Andes, no Mardi Gras de Nova Orléans ou no Carnaval das irmandades haitianas, em que as máscaras de vodu se confundem com as do Carnaval. Tempo de inversão, de revolta admitida, o Carnaval conjura os medos e exalta a folia. Desde as suas origens, ele se apresenta como um espaço para a revolta ritualizada, que se faz presente na detração da autoridade, na festa de ponta-cabeça, mas também, e sobretudo, no riso. Riso que ri da morte, riso inseparável da tristeza que começa na Quarta-Feira de Cinzas.
Fonte: Professora Doutora Del Priore Mary. Nossa História. Ano 2, n.º 16. Fevereiro de 2005. Editada com o Conselho de Pesquisa da Biblioteca Nacional.
Segundo o pesquisador Geraldo Xavier dos Anjos, as reminiscências do carnaval do passado são recheadas de fatos bastante interessantes. Tais manifestações do carnaval transcorriam nos principais clubes da cidade e de uma forma mais popular nas ruas de Manaus.
O pesquisador nos revela ainda que na época da Província do Amazonas esses acontecimentos de ruas eram feitos por brincadeiras como o “Entrudo e o Zé-Pereira”, além dos foliões mascarados que invadiam o centro antigo de Manaus, nesta época.
Por sua vez, o entrudo era uma prática proibida, por promover sujeira e imundície. O “Entrudo” foi uma manifestação introduzida no Brasil pelos colonizadores portugueses da Ilha de Açores.
A prática consistia em jogar nas pessoas “água de lama, tinta, lixo e tudo que fosse malcheiroso, até água podre e urina”. Tal comportamento provocou a proibição por meio de uma portaria da Câmara Municipal de Manaus publicada no código De Postura do Município.
O fiscal do primeiro Distrito desta cidade faz publicar a bem dos interesses o seguinte artigo:
Art. 82-É proibido andar-se pelas ruas e lugares públicos e jogar entrudo ou lançar alguma coisa sobre os transeuntes. Pena de dez mil – réis de multa ou três dias de prisão.
1º Permite-se as mascaradas danças carnavalescas de modo que não ofendam a moral e a tranquilidade pública e não contenham alusão às autoridades ou a religião.
2º Pelas ruas, praças e estradas da cidade não transitarão pessoas mascaradas depois do toque da Ave – Maria, Salvo as que tiverem para isso licença da autoridade policial. Os infratores incorreram na multa de cinco mil – réis ou dois dias de prisão.
Embora sob pena de pesar das multas e prisões, esse procedimento se estendeu até o início do século XX. Por sua vez, “O Zé-Pereira”, também trazido pelos portugueses, acaba por revolucionar o carnaval. Os brincantes transitavam pelas vias públicas tocando bumbas, zabumbas, esse costume perdurou até o ano de 1929.
As fantasias da época eram de palhaços, diabos, papas angus, etc. Por volta de 1855 eram publicados em jornais da época os bailes de máscaras, que aconteciam em residências dos barões da borracha e nos clubes, começa assim a prevalecer o carnaval de salão que eram frequentados por uma classe privilegiada e o de rua que contava com a participação popular.
Geraldo Xavier dos Anjos relata ainda que o comércio dessa época promovia vendas de artigos para a quadra momesca em especial na Rua do Imperador (hoje Marechal Deodoro). Nessa artéria funcionava uma loja denominada “Bazar de Paris”, especializada em artigos para o carnaval. Os jornais da época promoviam anúncios de interesses dos foliões, como por exemplo, a presença de um “Coiffeur” francês que se chamava George Petrus. O estabelecimento atendia seus clientes com os mais modernos penteados que eram moda na Europa.
Em 1889, época do último Carnaval da Província, aconteceu a “Batalha de Confete” na Praça Dom Pedro II. Com a chegada da República e a urbanização da cidade promovida na administração do governador Eduardo Ribeiro (1892-1896). Na principal artéria e a rua da Matriz (hoje Eduardo Ribeiro), o Carnaval toma conotação com o desfile do “Clube dos Coatyz”. Já em 1904, surgiram dois grupos importantes, “Cavalheiros Infernais” e o “Clube dos Terríveis”, que prolongaram sua participação até 1915.
Os Cavalheiros Infernais eram formados por foliões do Clube Internacional, cujas fantasias eram predominadas pela cor vermelha. O “Clube dos Terríveis”, porém, tinha como foliões algumas figuras de maior importância do contexto social da época como: o coronel José Cardoso Ramalho Júnior, o ex-governador Silvério Nery, o próprio governador Constantino Nery e os superintendentes municipais Adolpho Lisboa e Arthur César Moreira de Araújo.
Mocidade fez história no carnaval amazonense
Aqui em Manaus quando os desfiles eram na Avenida Eduardo Ribeiro, me parece que neste período o carnaval era mais popular, que naturalmente ostentava grandes fantasias, algumas com máscaras, a descer e subir Avenida Eduardo Ribeiro proporcionando ao povo que se acotovelava nas calçadas e meio-fio na referida avenida para se divertir e assistir a festa do povo. Tudo começava muito cedo, as 4 horas da tarde, com a famosa batalha de confete.
Os carros da época, de capotas arriadas, com belas jovens a desfilar, jogando serpentinas e confetes na população ali reunidas. Havia uma expectativa da passagem dos carros alegóricos sempre esperado com muita curiosidade pela população presente, protegidas na época pela sombra dos benjaminzeiros, como tratava-se de uma avenida mesclada de comércio e residências algumas famílias sentavam-se a porta para apreciar o carnaval.
Outro destaque ficavam pelos carros alegóricos da fábrica de Cerveja Miranda Correa, destacando a tão famosa XPTO, e outros carros da fábrica de saltos de borracha JG. Araújo que tinha o nome de Coroa, a Fábrica de Guaraná Andrade participava distribuindo o seu delicioso Guaraná, o Luso Sporting Club marcava sua presença, sempre preocupado em superar a União Esportiva Portuguesa, o Atlético Rio Negro trazia suas fantasias o que eram uma festa.
Não podemos esquecer do Nacional Futebol Clube que também promovia um famoso baile infantil de domingo a tarde e naturalmente se fazia presente na Avenida Eduardo Ribeiro. Temos que admitir que na simplicidade daquela época o carnaval era mais divertido e do povo.
É importante destacar que a Mocidade permaneceu desfilando por vinte e cinco anos, tendo a sua primeira vez em 1953, com o tema Branca de Neve e os Sete anões, caracterizado pelo Dr. Luís Cabral, conhecido para os íntimos como Lulu. Todo material utilizado para as confecções das fantasias dos anões, era comprada no Rio de Janeiro. Alguns temas foram destaques durante o longo período, tais como: O Cangaceiro, Ciganos, Lavadeiras, Ai Maria, Donas da Pensão, TV não era, O Circo, Babuínos, Só deve quem compra, Maternidade e outros tantos títulos que deram origem ao carnaval.
Ideal Clube. Família Tadros e família Sabbá. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
O desfile do Corso
Os foliões do passado jamais deixaram de se referir ao Corso quando recordavam os carnavais do seu tempo. E o fazem invariavelmente com um tom de saudade e lamentação “hoje não tem mais o corso”. Em nosso estado este desfiles começaram a acontecer no início do século e foram até anos 30. No ano de 1901, o primeiro carnaval do século XX, teve a participação do corso que foi comandado pelo Club dos Ceatys, numerosos grupos carnavalescos e mascarados avulsos percorriam as principais avenida de nossa cidade desde a tarde de domingo até o anoitecer.
Em 1904 é fundada a Sociedade Carnavalesca “Cavalheiros Infernais” e o Clube dos Terríveis que até 1905 passaram a comandar o Desfile do Corso no carnaval de Manaus. Os Cavalheiros Infernais era composto por um grupo de sócios do Club Internacional, tomaram como cor o Vermelho que era pintado pelo artista plástico Sílvio Centofanti. Para o desfile deste ano o clube organizou um desfile no qual os sócios iriam todos vestidos de cavalheiros e os seus familiares fantasiavam-se a gosto.
A organização da saída do desfile era a seguinte, na frente a bada de música, depois carruagem com as crianças levando o estandarte do clube e em seguida os carros dos demais familiares. Ao lado dos carros iam os sócios fechando desfile com a banda de música.
O Clube dos Terríveis considerado o mais animado era aguardado por todos. Tinha sua sede nos altos do Café dos Terríveis, pouco preferido da boemia elegante de Manaus, ficado na Praça 15 de novembro com a então rua de Demétrio Ribeiro (hoje Visconde de Mauá). Sua meta era comandar o carnaval, ora promovendo as folias de rua como o Entrudo ou Assustado e as batalhas de confete e serpentina ou promovendo bailes públicos. Deste clube faziam parte o Coronel José Cardoso Ramalho Júnior (ex-governador do Estado), o engenheiro Arthur César Moreira de Araújo, o Capitão dos Portos do Amazonas, Capitão de Fragatas Santos Lara e outros.
Para o desfile, os Terríveis contavam com 30 carruagens todas ornamentadas, cada carro com sua denominação. O carro Academia de Letras, por exemplo, era composto por membro desta Casa de Cultura e tinha como objetivo neste desfile distribuir extratos de seus anais para o público.
Este dois clubes e os demais grupos de mascarados seguiram o itinerário: Saiam da Praça de São Sebastião às 16 horas e percorriam as seguintes ruas: Rua de José Clemente, Av. Eduardo Ribeiro, Rua Municipal (atual Sete de Setembro), Praça da República (atual Praça Dom Pedro II), passavam frente ao Palácio do Governo (hoje sede da Prefeitura), Rua Municipal (Av. Eduardo Ribeiro), Rua Marquês de Santa Cruz, (hoje Praça de Adalberto Vale) Rua dos Remédios (atual Miranda Leão), Leovegildo Coelho, dos Andradas, Av. Silverio Nery, Praça São Sebastião, chegando em torno de 21 horas. Estes dois clubes fizeram grandes desfiles até o carnaval de 1915.
No carnaval de 1915 é fundado o Club Paladinos da Galhofa, composto de sócios do Ideal Club. Para o desfile do Corso compunham-se de onze carros, sete alegorias e quatro de críticas. Vinha em frente a guarda de honra, nos dorsos de belos cavalos seguido de carro precursor que apresentava enorme canhão 42, guarnecido por homens outros, dois carros alegorizando a Música, depois o carro japonês e fechando o desfile o carro Chave de Ouro.
João Bosco Fonseca (Arroz) e Antônio Lima de Souza (Mococa). Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
Os desfiles do Corso, a partir dessa data, passaram a ser feitos em automóveis de capotas conversíveis, onde as famílias usavam seus carros particulares ou de aluguel, todos desciam e subiam a Av. Eduardo Ribeiro, fantasiados e jogando confetes e serpentinas.
Esta brincadeira sem malícia e sem neurose do trânsito atual, veio a matar no final da década de trinta.
BAZE, Abrahim. Luso Sporting Club – A Sociedade Portuguesa no Amazonas. Manaus: Editora Valer, 2007.
Sobre o autor
Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.
Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
Ao completar 58 anos desde sua instituição pelo DL 288/1967, a sexagenária Zona Franca de Manaus acumula muitas histórias. Nem sempre de sucesso, que refletem, porém, os ousados esforços do governo federal de implantar, ao lado da SUDAM e do BASA, um modelo de desenvolvimento econômico em pleno coração da selva amazônica. E desde então, gestores da SUFRAMA deixaram marcas, algumas indeléveis, outras que o tempo logo se encarregou de suprimir. Cada um ao seu modo fez o melhor que lhe pareceu no cumprimento da espinhosa missão. Ao seu lado, técnicos de alto nível desempenharam funções estratégicas, quase sempre de alta complexidade na busca dos objetivos projetados pela instituição. Sob o comando de executivos públicos que ocuparam a superintendência do órgão, no início deslocados de Brasília para Manaus, e que responderam, em última instância, pela posta em marcha dos primeiros movimentos da ópera manauara.
Comprometidos com uma administração técnica, os pioneiros Floriano Pacheco, Aloisio Campelo, Igrejas Lopes, Ozias Monteiro, Mauro Costa, Manoel Rodrigues, Flávia Grosso, Ruy Lins, Régis Guimarães, Delile Macedo, Hugo de Almeida, José Amado deixaram marcas importantes sobre o modelo industrial instalado. Ressalvo, porém, repetindo a gestão pública estadual, grave omissão de esforços para implantação do pólo agropecuário, igualmente previsto logo no Art.1º do DL 288/67. Dentre os nomes comprometidos com a implantação da ZFM, destaco:
Floriano Pacheco, o primeiro superintendente da Suframa, nomeado em 19 de abril de 1967 e empossado em 12 de maio seguinte pelo Ministro do Interior Affonso de Albuquerque Lima, em Manaus. Paulista e coronel da reserva do Exército brasileiro, permaneceu no cargo até 15 de agosto de 1972. Na sua gestão foi aprovado o primeiro projeto industrial, o da Beta S/A, e lançada a pedra fundamental do Distrito Industrial, em 30 de setembro de 1968. Quando deixou o cargo, as primeiras indústrias estavam se instalando no DI – a Companhia Industrial Amazonense (CIA) e a Springer, bem como a construção da sede da Suframa, projetada pelo arquiteto Severiano Porto.
Hugo de Almeida era chefe do Departamento Industrial da Sudene quando foi nomeado, em 15 de agosto de 1972, para assumir a Suframa. Durante a sua gestão foi inaugurada a primeira indústria no recém-criado Distrito Industrial de Manaus, local onde também foi inaugurada a nova sede da Suframa, projeto do arquiteto Severiano Mário Porto, premiado pela Associação dos Arquitetos do Brasil e que, até hoje, é citado como exemplo em cursos de arquitetura ao redor de todo o mundo. Face às mudanças promovidas pelo presidente Ernesto Geisel no Ministério do Interior, o novo ministro Maurício Rangel Reis indicou Hugo de Almeida para assumir a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), motivo pelo qual Almeida deixou a Suframa em 15 de março de 1974.
José Amado ocupava o cargo de secretário-executivo da Suframa (então número 2 no organograma do órgão) quando foi escolhido para substituir Hugo de Almeida. Permaneceu no cargo de 15 de março a 10 de dezembro de 1974. Durante a sua gestão o limite de compras para turistas na ZFM foi dobrado, de 100 para 200 dólares. Atuou junto ao governo federal para evitar que a Resolução 289 do Banco Central (taxação de bens supérfluos) atingisse os produtos da área de incentivos. No período à frente da Suframa, Amado recebeu uma homenagem da Empresa Brasileira de Telecomunicações (Embratel) pelo apoio da Autarquia na implantação do cabo Submarino Bracan I (que ligou o Brasil à Europa, via Ilhas Canárias) e participou das discussões com o governo do Amazonas para viabilizar a implantação do Distrito Agropecuário da Suframa. Com sua saída, a Suframa foi comandada interinamente pelo procurador jurídico José Roberto de Souza Cavalcante até a posse do novo titular, Aloysio Campelo.
Sobre o autor
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).
O sonho da primeira universidade do Brasil em território indígena está cada vez mais próximo de se tornar realidade. Nos dias 21 e 22 de feveriero, o povo Tenetehar participou da segunda escuta pública, um momento importante para a construção do Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) um passo importante para efetivação desta iniciativa pioneira.
A escuta é resultado da parceria entre o Governo do Maranhão e o Centro de Saberes Tenetehar, por meio Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema).
O evento ocorreu na Aldeia Zutiwa, localizada no território Arariboia, no município de Arame, cerca de 500 km de São Luís, com a participação de representação das regiões de indígenas Abraão, Angico Torto, Ponta D’água, Lago Branco e representantes do Governo do Estado, Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e da prefeitura de Arame.
“A educação é um direito de todos e o Governo do Estado está trabalhando para que os povos indígenas tenham acesso à formação acadêmica, dentro de seu próprio território, respeitando suas tradições e fortalecendo seus saberes ancestrais”, destacou chefe da Assessoria de Planejamento da Fapema, Adriana Carvalho.
A iniciativa representa um marco histórico para a educação superior no Brasil, garantindo aos povos indígenas um espaço de ensino e pesquisa, alinhado com suas realidades, saberes tradicionais e visões de mundo. Com essa escuta, lideranças, professores e jovens tenetehar tiveram a oportunidade de contribuir ativamente para o projeto, reforçando o compromisso com a autonomia e valorização de suas culturas.
O presidente do Instituto Tukàn, cacique Sílvio Santana da Silva, pontua que o projeto, idealizado há anos pelos caciques, ganhou impulso há uma década e, após apresentar a proposta ao governo, houve interesse e apoio, permitindo sua continuidade. “Entrou a Fapema, que passou a apoiar a iniciativa, fortalecendo esse movimento, garantindo a aproximação do governo e o incentivo às ações fundamentais, que estão sendo desenvolvidas dentro da comunidade. Recebemos essa iniciativa como grande alegria, vitória e a certeza que já demos um importante passo”, observou.
Para viabilizar essa construção, a Fapema firmou um acordo de cooperação com o Centro de Saberes Tenetehar, garantindo suporte para pesquisas, estruturação acadêmica e financiamento de iniciativas que fortaleçam o ensino e a produção de conhecimento dentro do território indígena. O governador Carlos Brandão tem demonstrado um compromisso sólido com essa política pública inovadora, reforçando o apoio do estado para garantir que esse sonho se torne realidade.
O professor Gustavo Pereira, da Universidade Estadual do Maranhão (Uema) e coordenador do programa da universidade, ressaltou o grande desafio para o Maranhão, liderado pelo governador Carlos Brandão, que delegou a ele, a Fapema e outras instituições, incluindo o Instituto Tukán, a coordenação da iniciativa.
“Essa proposta busca integrar os saberes tradicionais dos povos indígenas com o conhecimento científico das universidades, permitindo que jovens e lideranças indígenas contribuam para a formatação acadêmica institucional do programa. Esperamos que esta escuta forneça elementos necessários para estruturar a proposta, que em breve será apresentada ao Governo do Estado e, com certeza, implementada para atender os jovens indígenas do Maranhão”, frisou.
Foto: Divulgação
A implantação da universidade indígena Tenetehar reforça a posição do Maranhão como um estado pioneiro na inclusão e no respeito à diversidade cultural. A construção dessa instituição representa um avanço significativo na democratização do ensino superior e na valorização das comunidades tradicionais, criando um ambiente acadêmico que une ciência, tecnologia e os conhecimentos milenares dos povos originários.
Para Fabiana Guajajara, diretora do Instituto Tukán e liderança indígena, este momento simbólico e participativo é muito importante por envolver toda a comunidade, incluindo professores, gestores e lideranças, para essa construção coletiva, que será estabelecida dentro do território Arariboia.
“O plano de desenvolvimento institucional da futura universidade indígena está sendo elaborado de forma participativa, considerando as visões de mundo e as demandas das comunidades indígenas. O objetivo é que essa universidade reflita os interesses desses povos, oferecendo cursos e pesquisas que realmente os beneficiem”, ponderou a diretora Jurídica do Instituto Tukán, Isabele Peace. “Esta instituição pretende ter os povos indígenas como seus alunos, e seu primeiro núcleo será implantado no território Arariboia, com possibilidade de expansão para outros territórios, no futuro”, acrescentou.
Para garantir essa construção coletiva já foi realizada a primeira escuta pública, há cerca de dois meses, e ainda estão previstas mais duas, totalizando quatro encontros de consulta. Esta segunda escuta para a elaboração do Projeto de Desenvolvimento Institucional (PDDI) reúne as cinco regionais que compõem as macrorregiões do povo indígena local.
“As parcerias com a Fapema, Uema, Governo do Estado e parceiros institucionais, são fundamentais para garantir um maior volume de recursos e para ampliar a participação das comunidades no processo, conduzindo essa construção de forma colaborativa, ouvindo as vozes indígenas”, declarou Isabela Piece.
Na avaliação de Luís Carlos, membro da comunidade, essa iniciativa busca fortalecer a cultura do povo guajajara, oferecendo aos parentes a oportunidade de estudar, sem precisar deixar a comunidade, superando as dificuldades de acesso à educação. “A universidade será fundamental para o desenvolvimento educacional dentro das aldeias, promovendo conhecimento e sabedoria, permitindo que a liderança indígena e a comunidade expressem seus desejos e conduzam seu povo com autonomia”, avaliou.
Entre 2020 e 2024, à medida que os focos de calor aumentavam no Amazonas, pelo menos cinco rios no estado enfrentaram secas, com baixa contínua em sete das 13 estações de monitoramento do nível das águas nos rios Amazonas, Purus, Solimões, Negro e Paraná do Careiro. É o que revela uma análise exclusiva da InfoAmazonia, com base em dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e de estações hidrológicas do Serviço Geológico do Brasil (SGB), que monitoram os níveis na bacia amazônica.
Nos mesmos meses de secas nos rios, os dados do Inpe apontam uma tendência de aumento nos incêndios florestais também entre julho e outubro nos últimos cinco anos. Juntos, esses meses somaram 94% (90.998) dos focos de calor no estado na temporada. Nesse período, os boletins do SGB mostram queda contínua de água em cinco dos principais rios da bacia Amazônica. Todos registraram níveis de água abaixo do normal, o que causou escassez hídrica e prejudicou, principalmente, comunidades ribeirinhas.
Na avaliação do engenheiro ambiental e hidrólogo Ayan Fleischmann, que atua como pesquisador no Instituto Mamirauá, voltado para a conservação na Amazônia, a seca dos rios e o alto número de incêndios têm relação com um mesmo problema: a redução de chuvas por fenômenos associados às mudanças climáticas.
“Um ano mais seco, com menor quantidade de chuvas, tende a aumentar as queimadas e reduzir a umidade, criando condições favoráveis à propagação do fogo. Por isso, é comum que esses eventos ocorram simultaneamente”, explica.
A relação entre o aumento no número de incêndios e a seca na Amazônia é complexa e ainda não foi totalmente explicada pela ciência. No entanto, há estudos que indicam que a queima de áreas florestais tem efeito direto na formação de nuvens de chuva.
Fumaça e grande faixa de areia marcaram a paisagem do porto de Tefé em meses de seca. Cidade fica às margens do Rio Tefé, afluente do Amazonas. Foto: Reprodução/YouTube-Ribeirinhas da Amazônia
A pesquisa analisou imagens de satélites, dados de fotômetros solares, que são instrumentos utilizados para medir a radiação solar, e medições de partículas formadas pelas queimadas para mostrar como os resíduos de fumaça inibiam o desenvolvimento de nuvens de chuva.
“A fumaça de queimadas contém uma quantidade gigantesca de partículas de aerossol que, também estando presentes na atmosfera, podem influenciar como as gotas de nuvens são formadas e o processo de congelamento subsequente”, explica Alexandre Correia, um dos autores da pesquisa, em entrevista ao Jornal da USP.
Conforme o estudo, a temperatura de glaciação (ponto em que a água começa a congelar) média em nuvens convectivas na Amazônia depende da umidade e quantidade de aerossol presente na atmosfera. Em ambientes com muitas partículas de aerossol, as gotículas formadas são menores e demoram mais para se congelar — esse atraso promove o crescimento de nuvens mais altas e profundas, mas pode diminuir a eficiência do processo de precipitação porque as gotas menores têm menos probabilidade de coalescer e formar gotas de chuva maiores.
No período da análise, o ano de 2024 foi um dos mais severos no Amazonas. O estado enfrentou um conjunto de situações climáticas extremas: a seca histórica dos principais rios da região e o alto número de incêndios florestais. Entre julho e outubro, o estado acumulou 94% (24.005) focos de calor do ano, um recorde desde 1998, quando o Inpe iniciou a série histórica — à época, foram 737 focos no mesmo período.
Durante todo o ano passado, por exemplo, o Amazonas registrou 25.499 focos de calor. Três meses bateram o recorde histórico de toda temporada: julho (4.241), agosto (10.328), e até junho (258), que geralmente é um período com menor incidência de queimadas na Amazônia.
Os rios que mais perderam volume de água nos meses analisados foram: o Purus (queda de 1.407 cm, na estação de Beruri, equivale a 14 metros – aproximadamente a altura de um prédio de quatro andares), o Solimões (queda de 1.394 cm, em Manacapuru) e o Paraná do Careiro (queda de 1.306 cm).
O rio Solimões, responsável pelo abastecimento de água potável de metade das 72.283 pessoas que vivem em Tabatinga, também está entre os mais impactados e registrou seca nas quatro estações monitoradas pelo SGB (Fonte Boa, Itapeuá, Manacapuru e Tabatinga). Em Tabatinga, o Solimões perdeu 529 cm de água e ficou em -79 cm (117,5%) entre julho e outubro.
Antes mesmo de encerrar, 2024 demonstrava ser o ano de seca sem precedentes para os principais rios da bacia do Amazonas. Em outra análise exclusiva, feita em outubro, a InfoAmazonia revelou que em 11 das 16 estações de monitoramento nos seis rios registraram os níveis mais baixos dos últimos 122 anos, desde o início do monitoramento do SGB. Na época, a reportagem identificou uma mudança no padrão da seca: os rios secaram mais cedo do que o previsto, entre o final de setembro e o começo de outubro, quando o esperado seria seca no final de outubro.
Entre os rios com níveis de água extremamente baixos em relação ao número de focos de incêndio está o Paraná do Careiro, que perdeu 102% do volume de água em apenas cinco meses. A diminuição do nível começou em julho, quando o rio registrava 1.324 cm de água, e atingiu -25 cm no início de novembro. Em 2023, no mesmo período, o volume de água era positivo, com 47 cm. A seca severa de 2024 ocorreu alguns meses após o estado enfrentar o recorde de 24 mil focos de calor registrados entre julho e outubro.
A falta de água impacta na vida da população e, principalmente, na sobrevivência dos peixes. O biólogo Guillermo Estupinan, que é especialista em recursos pesqueiros na Wildlife Conservation Society (WCS) Brasil, organização que atua com a conservação ambiental, explica que a seca nos rios faz com que a temperatura da água fique mais quente e peixes morrem por falta de oxigênio. Além disso, há casos em que esses animais encalham em bancos de areia e até ficam presos em pequenos lagos.
“Os peixes morrem afogados pela falta de oxigênio, principalmente. Com o baixo nível de água, a alta temperatura e muitos peixes concentrados no mesmo local, o consumo de oxigênio é mais alto do que o que está disponível na água”, afirma o biólogo.
Ele também aponta que, em alguns casos, peixes podem morrer mesmo em lagos com grande volume de água devido à contaminação causada pelas queimadas. “Parte da vegetação queimada se decompõe, liberando sulfato e outros compostos químicos. Esses elementos se misturam à água, levando à intoxicação e asfixia de muitos peixes que permanecem na região.”
Em 2023, morreram 209 golfinhos amazônicos — 178 botos-vermelhos e 31 tucuxis — devido ao superaquecimento das águas no lago Tefé, localizado a 14,7 km do rio Tefé, um afluente do Solimões.
À época, o caso foi revelado pelo Instituto Mamirauá, que se dedica ao estudo de aspectos biológicos, ecológicos e demográficos relativos a cinco espécies de mamíferos aquáticos da região amazônica: peixe-boi, tucuxi, boto vermelho, ariranha e lontra. O lago Tefé alcançou mais de 40°C naquele ano, segundo o instituto.
Seca muda rotina de ribeirinhos
Os impactos das mudanças climáticas nos rios e da degradação ambiental na Amazônia, agravados pelas queimadas, transformam a rotina das comunidades ribeirinhas. As irmãs Fabiane e Fabíola Pedrosa, moradoras da comunidade Santa Luzia do Baré, recordam que, em 2024, até mesmo a locomoção se tornou um desafio. A região fica localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, às margens do Lago Amanã, no médio rio Solimões, próximo à confluência com o rio Japurá, distante 527 km de Manaus.
Fabiane e Fabíola arrastam canoa por um pequeno rastro de água até o lago. Foto: Reprodução/YouTube-Ribeirinhas da Amazônia
As duas compartilham em um canal no YouTube, o “Ribeirinhas da Amazônia”, o dia a dia na comunidade, incluindo situações adversas como as causadas pela seca.
“A gente teve muita dificuldade para sair da nossa comunidade até a cidade mais próxima, Tefé, para comprar mantimentos. Muita gente nem conseguiu sair daqui até a cidade devido a ter ficado muito seco mesmo, muito difícil o acesso. Muitas passagens fecharam, ‘taparam’, como a gente diz aqui. Então, nem de canoa e de transporte menor estávamos conseguindo”, relata Fabíola.
Para Fabíola, a solução para diminuir as dificuldades nos meses de seca vai além de oferecer cestas básicas, como ocorreu em 2023, quando o governo do Amazonas distribuiu alimento e outros suprimentos a algumas regiões. Ela defende que o principal é garantir que as comunidades indígenas e ribeirinhas tenham acesso à água e energia:
“Para ligar a bomba d’água, tem que ter o gerador de luz. É uma coisa dependendo da outra. Se não tem diesel para abastecer o motor, para ligar a bomba d’água, não adianta de nada ter um poço. Então, o governo investir nisso, deixar bastante combustível para as comunidades, ou fazer a instalação de um painel solar só para usar no poço, para não ter esse gasto com diesel, com motor, seria mais prático”, pontua ela, que sugere também a perfuração de poços em comunidades que ainda não possuem água encanada.
Fabíola enfatiza, ainda, a necessidade de uma atenção maior à saúde, com doações de medicamentos, kits de primeiros socorros e a disponibilização de profissionais de modo contínuo para o atendimento básico.
Moradores de Santa Luzia do Baré, no lago Amanã, enfrentam jornada de até 2 dias para chegar à cidade mais próxima, Tefé. Foto: Google Earth/LandSat
Atualmente, os moradores de Santa Luzia do Baré contam com uma unidade básica de saúde em Boa Esperança, outra comunidade da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, onde os médicos ficam disponíveis para atender apenas metade do mês. Quando os profissionais não estão no local, a solução é se locomover até Tefé — caminho longo para alguém doente ou ferido, principalmente com os rios secos.
“Todos ficamos muito assustados com isso, deu muito medo, é uma situação muito difícil. Esse ano foi um dos anos que parei para refletir… A gente já tem consciência disso, mas esse foi um dos anos mais desafiadores para a gente que mora aqui dentro da reserva. Para sair tem que ter muita coragem”, desabafa a moradora que espera uma realidade diferente em 2025.
Esta reportagem contou com o apoio do Programa Vozes pela Ação Climática Justa (VAC), que atua para amplificar ações climáticas locais e busca desempenhar um papel central no debate climático global. A InfoAmazonia faz parte da coalizão “Fortalecimento do ecossistema de dados e inovação cívica na Amazônia Brasileira” com a Associação de Afro Envolvimento Casa Preta, o Coletivo Puraqué, PyLadies Manaus, PyData Manaus e a Open Knowledge Brasil.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela InfoAmazonia, escrito por Bárbara Aguiar