As terras indígenas devem receber financiamento climático condizente com os esforços dos povos indígenas para a proteção e preservação do meio ambiente. Foi o que defendeu a presidenta da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Joenia Wapichana, na COP29, durante participação em evento a convite do Instituto Talanoa e da organização de advogados de mudanças climáticas na América Latina, LACLIMA.
O evento, realizado dia 13 de novembro, teve como objetivo debater a justiça climática. Joenia ressaltou a importância da Funai no processo de enfrentamento às mudanças climáticas.
“O financiamento climático deve ser um processo de fácil acesso para que chegue àqueles que já realizam ações de proteção ao meio ambiente, como os povos indígenas. Além disso, a Funai, que é o órgão governamental com a missão de demarcar e proteger as terras indígenas, deve ser reconhecida como um órgão estratégico neste processo e ser fortalecida”, pontuou Joenia Wapichana.
A Funai destacou que as vozes dos povos indígenas devem ser ouvidas nos processos de negociações nas COPs, considerando os conhecimentos tradicionais e as práticas de manejo sustentável utilizados por esses povos que contribuem de forma significativa para a preservação ambiental. De acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU), os indígenas representam 5% da população mundial e são responsáveis por proteger 80% da biodiversidade do planeta.
A Funai ressaltou ainda que a crise climática é uma realidade que não vai retroceder. Por isso, é necessário que o financiamento climático seja visto como um investimento permanente e não como uma despesa. A autarquia indigenista defendeu ainda a participação da sociedade nas discussões sobre o tema, de repercussão e impacto global, em especial dos povos indígenas, que historicamente são guardiões das florestas e da biodiversidade.
Neste contexto, a Funai reforçou também a importância da demarcação, gestão e proteção dos territórios indígenas como um mecanismo de mitigação dos efeitos climáticos extremos. Isso porque os povos indígenas possuem uma conexão espiritual com a terra que tradicionalmente ocupam, o que os leva a adotar um modo de vida sustentável em harmonia com o meio ambiente. Assim, as terras indígenas protegidas têm se tornado verdadeiras ilhas de vegetação nativa em meio a áreas degradadas e contribuído para o sequestro de carbono e enfrentamento às mudanças climáticas.
Nos primeiros 15 dias de novembro, o Acre registrou 151 focos de queimadas segundo o monitoramento feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O número significa que o estado chegou a 94% do total de todo o mês no ano passado, quando novembro encerrou com 160 queimadas segundo o Inpe.
Historicamente, o mês de novembro costuma dar sequência à redução das queimadas no estado registrada a partir de outubro. Em 2023, o número saiu de 1.675 em outubro para os 160 focos registrados. Em dezembro, o número voltou a cair e ficou em 4.
Já entre outubro deste ano e as primeiras duas semanas de novembro, a queda já é de 91%, considerando que o mês passado ficou em 1.876 focos. Com os números deste período, o total de queimadas em 2024 chegou a 8.619 focos. O montante é 31% maior que todo o ano de 2023, que encerrou em 6.562 queimadas.
Ainda de acordo com o Inpe, o município que mais registrou focos na primeira quinzena de novembro deste ano foi Tarauacá, com 28 queimadas (18,5%). Em seguida, estão Feijó, com 21 focos (13,9%) e Assis Brasil, com 19 queimadas (12,6%).
Já os três municípios com menor número de queimadas são Acrelândia, Mâncio Lima e Porto Acre, com 1 foco cada.
O governo dos Estados Unidos (EUA) anunciou na manhã deste domingo (17) a consolidação de um pacote de ajuda a iniciativas de conservação da Amazônia, como parte de seu programa nacional de combate às mudanças climáticas. O presidente americano Joe Biden visitou Manaus neste domingo.
Foi a primeira visita de um presidente estadunidense à Amazônia no exercício do mandato, onde foram anunciados acordos bilaterais, marcando os 200 anos de relação mútua entre Brasil e Estados Unidos; ações em conjunto com ONGs e empresas, inclusive bancos brasileiros e atuação no apoio ao combate ao crime organizado, especialmente a ação ilegal em mineração e derrubada de árvores e o combate a incêndios florestais.
As ações, segundo o anúncio, são para “ajudar a acelerar os esforços globais para combater e reverter o desmatamento e implantar soluções baseadas na natureza que reduzam as emissões, aumentem a biodiversidade e construam resiliência a um clima em mudança”.
Simbólica, a ação amplia o leque de iniciativas para o que a Casa Branca coloca como financiamento climático internacional, e se opõe a algumas posições públicas do presidente eleito Donald Trump, notório negacionista do impacto da ação humana sobre o clima.
Na nota sobre o pacote, o governo americano lembra que “desde o primeiro dia do governo Biden-Harris, a luta contra as mudanças climáticas tem sido uma causa definidora da liderança e da presidência do presidente Biden”.
“Nos últimos quatro anos, o governo criou um novo manual que transformou o combate à crise climática em uma enorme oportunidade econômica – tanto em casa quanto no exterior. Depois de liderar a ação doméstica mais significativa sobre clima e conservação da história e liderar os esforços globais para enfrentar a crise climática, hoje o presidente Biden está viajando para Manaus, Brasil, onde se reunirá com líderes indígenas e outros”, diz a nota.
A ação anunciada comemora a marca de US$ 11 bilhões anuais garantidos para ações de conservação em todo o mundo, aumento alegado por Washington de seis vezes em relação ao orçamento para financiamento bilateral no começo do governo Biden, quando sucedeu o primeiro mandato de Trump.
Parte das ações virá por meio do escritório federal Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos EUA (DFC) e do Banco de Exportação e Importação dos EUA (Exin). O primeiro doará US$ 3,71 bilhões e o segundo US$ 1,6 bilhão ainda este ano.
Entre os anúncios formalizados em Manaus, os Estados Unidos doarão US$ 50 milhões para o Fundo Amazônia, dobrando a contribuição do país a esse instrumento internacional de financiamento; lançarão uma coalização de investidores, em parceria com o banco BTG Pactual, para restauração de terras e apoio à bioeconomia, que pretende conseguir US$ 10 bilhões até 2030, focados em projetos de remoção de emissões e apoio às comunidades locais; o apoio a iniciativas de geração de créditos de carbono com reflorestamento de áreas convertidas em pastagens, sob responsabilidade da empresa Mombak; a entrada do país no Fundo Florestas Tropicais para Sempre (FFTS), proposto pelo presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e em fase de modelamento e instalação, com uso de capital privado.
Estão previstos investimentos diretos, como o de US$ 180 milhões junto à Coalizão Redução de Emissões por meio do Avanço do Financiamento Florestal (Leaf), para ações de reflorestamento no Pará; a ampliação de um acordo de investimento e cofinanciamento entre o DFC e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), ampliando acordo assinado mês passado; o financiamento para o Laboratório de Investimentos em Soluções Baseadas na Natureza (SbN), com US$ 2 milhões do fundo Usaid para a iniciativa, do Instituto Clima e Sociedade e de financeiras; o investimento de US$ 2,6 milhões no projeto Rainforest Wealth, do Imaflora e do Instituto Socioambiental (ISA), além de pouco mais de US$ 10 milhões em investimento a outros projetos em bioeconomia, cadeias de suprimentos de baixo carbono e outras modalidades de produção local, e outros cerca de US$ 14 milhões em financiamento direto à atuação de comunidades indígenas.
O anúncio do pacote também incluiu três pontos críticos na proteção do bioma: o combate à extração ilegal de madeira,o combate à mineração ilegal e a assistência para o combate ao fogo.
Contra a extração de madeira haverá treinamento em tecnologia para identificação de origem da madeira, a partir da técnica de Espectrometria de Massa (Dart-Tofms: Análise Direta em Espectrometria de Massa em Tempo Real de Voo), para identificar de onde partem as madeiras fiscalizadas com precisão.
O pacote anunciado destaca a participação dos Estados Unidos no financiamento do combate a atividades criminosas com atuação em mineração ilegal e tráfico de mercúrio, com doação de US$ 1,4 milhão.
Contra as queimadas, destacam-se a parceria de 15 anos com o Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais (Inpe), por meio da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA), que atua com a rede de satélites de monitoramento dos Estados Unidos. Também haverá treinamento do Serviço Florestal dos EUA para “o manejo inclusivo do fogo, capacitando mulheres e comunidades indígenas, incluindo a primeira brigada de incêndio indígena só de mulheres no Tocantins e no Maranhão.
Repercussão
A Agência Brasil ouviu o movimento Amazônia de Pé, que congrega 20 mil ativistas e cerca de 300 organizações. Sua porta-voz e diretora, Daniela Orofino, declarou que recebeu “com muita alegria a notícia dada pelo presidente Biden hoje (17), de que os EUA irão apoiar o Fundo Floresta Tropical para Sempre, uma proposta encabeçada pelo governo brasileiro para financiamento multilateral da proteção das florestas tropicais. Essa é uma demanda que os povos tradicionais e a Amazônia de Pé estão levantando há algum tempo, para que o Fundo efetivamente saia do papel”.
“Um país como os EUA, que produz impactos que têm relação direta com as mudanças climáticas, têm também a responsabilidade de investir em ações globais de mitigação, e a Amazônia está no centro das políticas da mudança climática”, disse Orofino.
“A questão da terra é chave para o combate à crise climática. Demarcar territórios indígenas e de comunidades tradicionais na Amazônia e garantir recursos para a sua proteção é o caminho. Precisamos fazer o dinheiro chegar nos povos da floresta, que são guardiões desses espaços, e nas estruturas de proteção, como o Ibama e o ICMBio. Por isso, ficaremos atentas para que esse apoio seja implementado, ainda que com os desafios que virão com a mudança de governo norte-americano”, disse Daniela Orofino.
O secretário executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, disse que o anúncio é positivo e pode consolidar políticas públicas que estão sendo estruturadas na região.
“São anúncios extremamente importantes, e a maioria deles relacionados à proteção da Amazônia, à defesa da biodiversidade e combate ao desmatamento. O desmatamento é um dos principais fatores hoje de emissões de gás de efeito estufa no Brasil. Zerar o desmatamento é algo absolutamente possível. O atual governo, inclusive, vem diminuindo de forma bastante substancial as taxas de desmatamento, nos dois últimos anos, cerca de 45% de redução, e esses investimentos vão permitir que essas políticas de combate ao desmatamento continuem fortalecidas e também que uma economia de floresta seja colocada no local, nos lugares que hoje você tem o desenvolvimento de uma economia de destruição. Portanto, a preservação se torna uma forma de gerar renda, de gerar benefícios, para a população, e é isso que a gente precisa, combater o crime, gerar renda através da proteção da floresta. Esse tipo de anúncio que está sendo feito vai nessa direção e por isso da importância”.
O secretário executivo da organização não governamental dedicada à redução de emissões, ressaltou o “destaque bastante especial vai para a questão do Fundo Amazônia”.
“Os Estados Unidos chegaram a já depositar cerca de US$ 50 milhões no Fundo Amazônia nesse último período. Pelo anúncio parece que a gente vai ter mais um depósito de US$ 50 milhões e o Fundo Amazônia tem demonstrado ao longo do tempo que é um instrumento fundamental para o combate ao desmatamento e combate ao crime ambiental, uma vez que quase todos os desmatamentos da Amazônia acontecem na ilegalidade”.
Há mais de três décadas que Edithe Pereira, pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi, se apaixonou pela arte rupestre amazônica ao percorrer os sítios arqueológicos de Monte Alegre. Desde então, se tornou a maior referência no assunto e divulgadora da riqueza encontrada em pedras e grutas. Conhecimento e paixão que estimulou para que fosse apropriada em salas de aulas, nos mais diversos objetos por designers e artesãos, virou tema de carnaval e ganhou um lugar nas roupas.
A marca de moda paraense Madame Floresta lançou recentemente uma coleção inspirada nas pesquisas sobre a arte rupestre de Monte Alegre, no Pará. A exibição ocorreu no lançamento do preview do Amazônia Fashion Week, maior evento de moda do norte do Brasil. Idealizada pela estilista Graça Arruda, a marca trabalha com confecções que remetem a elementos da cultura e da identidade amazônica.
O planejamento e produção da coleção especial iniciou após um convite de Edithe, consumidora da marca, para que a designer se debruçasse sobre os estudos arqueológicos de Monte Alegre. A história da concepção da coleção demonstra como Edithe Pereira trabalha na sensibilização de criadores para que conheçam, se inspirem e divulguem o patrimônio arqueológico da Amazônia.
Assista ao final do desfile da coleção de Madame Floresta:
E esse trabalho de décadas foi reconhecido pelo Governo do Pará, que, na sexta-feira, 8, concedeu à pesquisadora do Museu Goeldi a Comenda Eneida de Moraes na categoria Gestão do Patrimônio Cultural / Políticas Públicas.
Criação e Assessoria
“Eu recebi uma instigação: ‘Você faz tantas coleções temáticas sobre o Pará, por que não faz uma sobre arte rupestre na Amazônia?’”, conta Graça Arruda. Após o questionamento, a estilista relata que Edithe Pereira lhe deu um dos seus livros para contribuir com o processo de pesquisa.
“Li o livro dela várias vezes e também fui pesquisar na internet. Fiquei pensando: o que eu posso tirar da arte rupestre para estampar a minha coleção? Olha, todas as figuras podem ser transformadas em estamparias, [tanto] para coleções [de moda], para sapatos, para chapéus, [como] para produtos de casa. Tudo dá para fazer”, completa a designer de moda.
Graça conta que a pesquisadora do Goeldi foi uma grande orientadora durante o processo, sugerindo determinadas figuras para servirem de base. Muitas não possuem traços visualmente perfeitos, o que foi importante para a estilista manter durante a produção. “Eu procurei passar essa imperfeição para a estamparia. Quem não conhece, vai ver que eu bordei torto, que tem linhas tortas, mas eu tentei me aproximar ao máximo das figuras que ela [Edithe Pereira] enviou para mim. Foi muito gratificante ter esse apoio”, enfatiza Graça.
Além das roupas, foram produzidos acessórios baseados nos equipamentos que os arqueólogos utilizam no seu trabalho de campo, como chapéus, mochilas, bolsas e sapatos, todos confeccionados com sobras e retalhos da coleção. Desde a sua fundação em 1999, a Madame Floresta tem como proposta trabalhar com a sustentabilidade através da moda, reaproveitando peças em produções com tecidos de fibras vegetais. “Nós trabalhamos para um público com preocupação ambiental”, ressalta a estilista.
A coleção baseada no patrimônio de Monte Alegre foi idealizada fazendo referência a tons terrosos e à cor vermelha, marcante nas pinturas encontradas nas rochas. A produção das peças teve pouca costura e mais amarrações, aludindo à forma como os habitantes originais da Amazônia utilizavam as suas vestimentas há milênios. Algumas das peças passaram por um tingimento natural obtido através de uma mistura de açaí, folhas e sementes para atingir o tom terroso.
A arqueologia de Monte Alegre
Localizado na mesorregião do Baixo Amazonas, no oeste paraense, o município de Monte Alegre possui um amplo patrimônio arqueológico que consiste de pinturas e gravuras rupestres, cerâmicas e artefatos dispostos em mais de 30 sítios arqueológicos.
O trabalho de Edithe no município teve início em 1989, durante o seu mestrado acadêmico, e se concentra na investigação das figuras presentes nas rochas datadas de cerca de 12 mil anos atrás.
Em 2001, a arqueóloga participou da criação do Parque Estadual de Monte Alegre (PEMA), idealizado para salvaguardar o patrimônio da região e cujo estudos de implementação foram coordenados pelo Museu Goeldi. O PEMA é uma das unidades de conservação (UCs) mantidas sob a administração do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade (Ideflor-Bio), do governo do Pará.
Outra política pública que a pesquisadora participou ativamente foi o projeto do Complexo de Musealização do PEMA, em 2018, que contempla no seu circuito dois dos principais sítios arqueológicos da região, o da Serra da Lua e da Pedra do Mirante. Este projeto foi viabilizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), mas a implantação e manutenção é do governo estadual. Todavia, o complexo inaugurado está vulnerável, pois foi apenas parcialmente executado e ainda aguarda a continuidade pelo estado do Pará.
“O centro foi pensado para ser um local de difusão das informações sobre o PEMA. Existe uma estrutura muito boa, mas não tem ali uma exposição, não tem profissionais que possam trabalhar. Tem auditório, área para que sejam promovidas oficinas, mas nada disso é feito”, alerta a pesquisadora.
Nesses 35 anos de estudos, a pesquisadora foi totalmente financiada com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) até que em 2022 o trabalho da arqueóloga chamou a atenção de uma figura pouco vista na ciência brasileira – uma empresária mecenas. Sobre essa história, que envolve também a descoberta de 14 novos sítios arqueológicos fora do Parque Estadual, a gente conta mais adiante.
Conhecimento popularizado
Conheça rapidamente as múltiplas produções inspiradas pelos muitos anos de pesquisa e divulgação realizadas por Edithe Pereira e parceiros na busca de tornar conhecido e valorizado o patrimônio que os mais antigos moradores humanos da Amazônia deixaram registrados em pedra. A trajetória da arqueóloga ilustra como a pesquisa científica impacta a vida das pessoas, de um lugar e cria referências na cultura da região, ao tornar seus resultados algo próximo e palpável.
Em 1999, Edithe Pereira produziu o primeiro artigo de divulgação para além do meio acadêmico no livro “Arte da Terra – resgate da cultura material e iconográfica do Pará”, editado pelo Museu Goeldi em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Esse trabalho inspirou uma geração de designers, como Lídia Abrahim, que cria jóias baseadas na arqueologia amazônica.
A primeira exposição sobre arte rupestre é Retratos na Pedra, em 2004, cuja abertura aconteceu junto com o lançamento do livro Arte Rupestre na Amazônia – Pará, finalista em duas categorias do prêmio Jabuti em 2005 – melhor livro e melhor projeto gráfico -, e também recebeu o prêmio de melhor livro de história da Academia Paulistana de História. Acesse aqui a versão digital do livro no portal do Museu Goeldi.
Em 2008, a pesquisadora e parceiros reúne acadêmicos e pessoas interessadas no passado da Amazônia no I Encontro Internacional de Arqueologia Amazônica (EIAA), em Belém. As pesquisas, antes debatidas em vários lugares do mundo, menos na Amazônia, são apresentadas e discutidas na região possibilitando acesso à professores, alunos e público em geral. O evento incluiu também o II Fórum de Arqueologia e Turismo na Amazônia e uma exposição sobre os signos astronômicos. A coletânea “Arqueologia Amazônica”, de dois volumes, editado pelo Museu Goeldi, apresenta os artigos do primeiro EIAA.
Outros produtos surgiram entre 2012 e 2013, através do projeto “Arte rupestre de Monte Alegre: difusão e memória do patrimônio arqueológico”, financiado por recursos da Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB) e da Petrobras, com o objetivo de divulgar amplamente o patrimônio arqueológico brasileiro, especialmente, a arte rupestre. Foram publicados o livro “Arte rupestre de Monte Alegre”, de autoria da Edithe Pereira, e a obra literária infanto-juvenil “Itaí – a carinha pintada”, escrita pelo célebre autor paraense Juraci Siqueira e ilustrada por Mario Baratta.
Em 2013, a exposição “Visões: a arte rupestre em Monte Alegre”, exibida em Monte Alegre e Belém, propôs um diálogo entre ciência, arte e sociedade. A exposição contou com obras em aquarelas assinadas pelo artista Mario Baratta e o vídeo-documentário “Imagens de Gurupatuba”, do cineasta Fernando Segtowick, da Marahu Filmes, os visitantes puderam ter contato com representações em painéis imensos das pinturas e gravuras rupestres de Monte Alegre.
Ainda em 2013, Edithe propõe o selo postal “A história contada na pedra – a arte rupestre na Amazônia” com arte gráfica do aquarelista, arquiteto e professor Mário Baratta, e que concorre em 2014 ao prêmio “Melhor Selo do Ano de 2013.
Ao final de 2013, Edithe Pereira recebe o título de Honra ao Mérito da Assembleia Legislativa do Pará – ALEPA por seu trabalho e ações de difusão em Monte Alegre
Foto: Reprodução/Museu Goeldi
Novos produtos didáticos surgem em 2018, como resultado da parceria entre Edithe e colegas professores universitários no âmbito do programa de extensão “Arqueologia nas Escolas: Histórias da Amazônia”, da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) e Museu Goeldi.
No ano seguinte, 2019, Edithe Pereira juntou duas paixões: a arqueologia e a filatelia, e estabeleceu uma parceria com os Correios para realizar uma exposição sobre os selos que circularam de 1966 a 2013 e cujo tema foram a Arqueologia Brasileira e as Artes Rupestres. Assim nasceu a exposição “Postado: Arqueologia brasileira nos selos”.
Acompanhando a exposição, foi realizada a oficina “Arte Postal”, ministrada por Júlia Pinho, em parceria com a Sociedade Philatélica Paraense (Sophipa) e os Correios, direcionada aos alunos de 4 escolas públicas de Belém, que elaboraram desenhos estimulados pelo que viram na exposição “Postado”. Em 2020, o público do Museu Goeldi pode conhecer esse trabalho e participar da escolha dos melhores selos criados pelos alunos na oficina.
Em 2022, Edithe se une ao cineasta e curador Adriano Espínola Filho, da DDK Digital, para planejar a exposição “Arte Rupestre Amazônica e Realidade Virtual”.
Ainda em 2022, a arqueóloga do Museu Goeldi se junta novamente ao arqueólogo Claide Morais, da Ufopa, e à plataforma Cipó, e propõem a candidatura do Parque Estadual de Monte Alegre para integrar a lista dos 25 monumentos mundiais de valor cultural inestimável pelo World Monuments Fund. E conseguem.
Em 2023, Pereira amplia seus estudos em Monte Alegre com recursos do CNPQ e o apoio de uma mecenas mineira. Em 2024, a pesquisadora anuncia a descoberta de um conjunto de 14 novos sítios arqueológicos no município paraense em uma área particular, que estava sob ameaça do fogo e da agropecuária. Marcela Soares, a primeira mecenas da arqueologia amazônica, além de financiar os estudos científicos, comprou o terreno onde sítios se encontram para protegê-los.
No Carnaval de 2024, os estudos de Edithe e o PEMA inspiraram o samba-enredo da escola Boêmios do Morro, agremiação carnavalesca de Monte Alegre. Ouça o samba-enredo na animação abaixo:
“[Essa homenagem] é o reconhecimento do público em geral. Quando você tem um alcance, um reconhecimento popular da sua pesquisa, no sentido de que a população do local compreende a importância dos sítios arqueológicos e mostra isso através do samba, para mim, não tem preço”, conta a pesquisadora do Museu Goeldi – instituição que já foi homenageada por duas escolas tradicionais do Carnaval em Belém (Rancho Não Posso Me Amofiná e Piratas da Batucada).
Por sua contínua produção e colaboração com o município, Edithe Pereira também foi laureada com o título de Cidadã Montealegrense na Câmara de Vereadores da cidade.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Museu Goeldi, escrito por Luiz Henrique Pimenta e Joice Santos
Victor Garcia, conhecido no meio artístico como Victor Xamã, é um rapper e produtor musical manauara que ganhou bastante destaque na cena do hip hop nacional com suas rimas que celebram a cultura da região Norte do Brasil. “De certa forma, venho de uma família musical”, diz ele.
“Minha avó cantava no coral da Igreja Católica, minha mãe gostava muito de cantarolar em casa e nas festas folclóricas, meu tio disputava campeonatos de karaokê de bairro, meus primos cantam. Porém, a música, e principalmente o rap, entraram na minha vida de uma forma interessante. Desde criança, tenho problema de disfluência de fala, gagueira. Tinha muita dificuldade de me expressar e de fazer as pessoas prestarem atenção à minha fala quando era mais novo, muitas vezes era interrompido. Então comecei a escrever bastante. Escrevia poesia, minhas ideias, expressava coisas que eu pensava. Nesse caminhar, conheci o rap bem garoto. Daí fui colocando meus escritos, e principalmente os trabalhos de escola, em ritmos. Eu apresentava as tarefas escolares fazendo rimas. Assim começou minha aproximação com o rap”.
Inspirado por artistas como Black Alien, Marcelo D2, Racionais MC’s, 509-E e outros, Xamã começou a construir sua trajetória no Rap dentro das possibilidades que Manaus oferecia para o estilo naquele momento.
“Além de ser um polo industrial, Manaus é uma cidade muito desigual e desequilibrada na questão econômica. É muito dual a sensação que a cidade causa. Porque, num certo momento, você está no centro, com prédios e tudo muito desenvolvido, como em qualquer cidade grande do Brasil. Mas você pega o carro, roda por 1h30 e já está embrenhado na mata em meio ao Amazonas. Essa dualidade sempre me atravessou muito, pois creio que não exista algo assim em nenhum outro lugar do país. E, por incrível que pareça, Manaus sempre teve muito incentivo para o hip hop. Eu me apresentei em inúmeros lugares, participei de muitos projetos sociais, criei grupos com amigos. Tudo era motivador e desafiador. Quando assisti o filme sobre a vida do Marcelo D2, me identifiquei muito, pois a gente criava situações para se apresentar. Havia várias batalhas de rimas no centro da cidade, foi um movimento incontrolável. O rap no Brasil virou um mecanismo de investimento, muitos shows passaram a acontecer fora do eixo Rio – SP e os grupos começaram a se apresentar em Manaus. E, antes dos shows, havia batalhas de rimas com os MCs regionais. Esse foi o principio”, relembra.
Ele diz que o nome artístico que adotou possui alguns significados. “Além de a palavra Xamã representar um símbolo de onde eu vim, diz também sobre a minha forma de fazer música, compor. Eu busco tranquilizar ou questionar usando sentimentos sinceros. No meu caso, Xamã significa ter uma visão mais ampla”, explica Victor.
Xamã estreou com o álbum Janela de 2015. Na sequência vieram V.E.C.G, em 2017 e Garcia, em 2023. “Meu primeiro disco, Janela, nasceu quando estava morando em Salvador. Minha mãe havia arrumado um emprego novo, e nós mudamos para lá. A Janela significa meu conflito e a minha cura. Significa a saudade que se transformou em observação. O processo de construção e criação foi pouco planejado, gravado de forma caseira, porém feito com muita dedicação. O disco foi escrito em Salvador, gravado em Manaus e lançado em São Paulo. Confesso que não esperava uma projeção tão ampla como a que alcancei, por ser um rapper da região da Amazônia”, diz.
O trabalho de Victor Xamã se projetou também por meio das principais plataformas digitais, como Spotify, Deezer e YouTube, nas quais suas canções registram milhares de acessos.
“A tecnologia quebrou barreiras em relação à produção e a divulgação de trabalhos independentes. Vejo que tem espaço para todo mundo, desde os grandes nomes do rap até as novas gerações. Existem diferentes nomenclaturas dentro do rap. Por exemplo, existe rap focado para quem gosta de anime. A indústria ainda é viciada em uma fórmula padrão. Entretanto, tem espaço para todo mundo com criatividade.”
A estética de Xamã combina seu timbre grave, beats sombrios e rimas recheadas de críticas e reflexões sobre a necessidade da preservação do meio ambiente, discrepância sociais e paixões. Victor diz ter consciência da relevância de abordar temáticas que sejam importantes para sua região de origem.
“Particularmente, acho muito importante trazer a minha cosmovisão. Acredito que as ‘Amazônias’ são plurais. Às vezes, os estereótipos subestimam e tentam colocar todo mundo dentro de uma mesma caixa caricata, uma visão colonial. A gente atravessa um período de total descaso. Não se trata somente da questão ambiental, mas de total descaso com a vida. A gente vive um tempo muito hostil. Então, cantar sobre onde nasci me alimenta. Isso é um combustível para mim”.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da Unesp, escrito por Renato Coelho
Biocurativo (fitoterápico) para tratamento de feridas na pele. Foto: André Torres/Acervo pessoal
Um projeto de pesquisa está desenvolvendo um biocurativo fitoterápico a partir do óleo de copaíba associado ao hormônio melatonina, para tratamento de feridas na pele. O projeto é financiado pelo Governo de Mato Grosso, por meio do Programa Centelha II, que é executado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado (Fapemat), em parceria com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
O protótipo avançou nos testes in vivo, quando foram comprovadas suas propriedades físicas e químicas, como a viscosidade, a resistência ao calor, o pH, a condutividade da eletricidade, o tamanho das partículas e a distribuição delas na fórmula, características desejáveis para o tratamento de feridas.
O óleo de copaíba possui diversas propriedades terapêuticas como antibacteriana, anti-inflamatória e atividade na cicatrização, e o hormônio melatonina tem como função regular o sistema imunológico, protegendo as células seus efeitos antioxidante, fatores importantes para o tratamento de feridas.
Foto: André Torres/Acervo pessoal
O diferencial inovador do protótipo frente aos curativos existentes no mercado é a liberação modificadas das substâncias ativas (óleo de copaíba e melatonina), que são liberadas gradativamente no local da ação, garantindo uma janela terapêutica por um longo período de tempo com o número de aplicações reduzidas.
O projeto ‘Biocurativo: a cura das feridas com fitoterápico e melatonina’ é coordenado pelo pesquisador André Henrique Furtado Torres, da empresa Biolife Hub Ltda.
“As feridas na pele são muito frequentes durante a vida humana e geralmente são decorrentes de acidentes traumáticos, podendo ter como resultado o paciente imobilizado podendo ocasionar também infecções, afetando diretamente a qualidade de vida do paciente”, explica o coordenador do projeto.
Ele explica que atualmente o tratamento de feridas é um problema social e econômico para o sistema de saúde pública no Brasil e no mundo.
O óleo de copaíba, destaca o pesquisador, é extraído da árvore denominada Copaifera spp., encontrada em todo o Brasil e possui uma abundante comercialização, com baixo custo.
“Todos os anos bilhões de dólares são gastos no mundo todo com tratamento de feridas, afetando os cofres públicos e empresas privadas. Nesse sentido, o desenvolvimento de novas alternativas de tratamento de feridas, tem sido muito importante para a qualidade de vida dos pacientes, com o custo de produção reduzido é um caminho promissor para a economia de empresas privadas e a saúde pública em todo o mundo”, destacou André Torres.
A pesquisa intitulada ‘Gramáticas sociais das águas por crianças da comunidade quilombola Tauerá-Açú, Abaetetuba, Pará‘, desenvolvida pela professora Eliana Campos Pojo Toutonge, do Campus Universitário de Abaetetuba, da Universidade Federal do Pará (UFPA), foi contemplada na última edição do ‘Prêmio pela Primeira Infância‘. A iniciativa busca valorizar os pesquisadores e divulgar o conhecimento científico obtido com suas reflexões.
Com enfoque inspirado nas vozes e na vida sociocultural de crianças quilombolas da região amazônica (Baixo Tocantins), o estudo teve o propósito de pautar discussões acerca da garantia dos direitos à população infantil quilombola na Amazônia. Sob o olhar de uma pesquisadora amazônida, a pesquisa proporciona importantes reflexões científicas desde a Amazônia, ao fazer ecoar as vozes de crianças quilombolas silenciadas.
“Trata-se de um projeto que articula cultura e educação, questões étnico-raciais e educativas. Traz como centralidade as vozes, a vida sociocultural de crianças quilombolas, especialmente focado no convívio com as águas. Logo valida a importância de serem respeitadas em sua origem e tradição afro-amazônida. Ainda, a pesquisa irrompe as fronteiras do proposto na lógica colonizadora, de única territorialidade amazônica”, afirma a professora Eliana Pojo.
Segundo a professora, os próximos passos a serem desenvolvidos com a premiação serão: divulgar os resultados na comunidade junto aos moradores e, principalmente, com as crianças que participaram da pesquisa; realizar a devolutiva da pesquisa no campus da UFPA e para a comunidade externa da universidade, por meio da participação de eventos, entrevistas e outros canais; e desenvolver outras produções científicas em diferentes perspectivas, como a criação de um produto didático/educativo a ser entregue para a escola da comunidade.
Sobre o Prêmio
O Prêmio Ciência pela Primeira Infância é uma iniciativa do Núcleo Ciência pela Primeira Infância (NCPI) criada em 2022, com o intuito de promover o conhecimento científico, a fim de sensibilizar agentes da gestão pública para programas e ações direcionadas a crianças de até 6 anos e suas famílias. Assim, a premiação busca reconhecer pesquisas locais, estaduais e nacionais no âmbito da primeira infância sobre a realidade brasileira, principalmente aquelas que refletem sobre a identidade, diversidade e pluralidade das infâncias.
Em 12 de agosto de 2023, uma equipe liderada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) fazia um levantamento sobre comunidades ribeirinhas e indígenas nas proximidades do rio Uatumã, no município de Itapiranga (AM), quando, segundo relatório da entidade, se deparou com uma cena surpreendente: na mata, a princípio oculto, um indígena despido, com cerca de 30 anos e 1,60 metro de altura, acompanhava à distância os passos da equipe.
Em seguida, conforme o relatório, apareceram mais quatro pessoas: um menino, com cerca de 14 anos, uma menina, 10 anos, uma mulher, 50 anos, e um outro homem, 60 anos. O grupo foi considerado como indígena em isolamento voluntário – possivelmente, segundo indicações coletadas pelos pesquisadores junto a moradores da região, há outras famílias na mesma região ainda não avistadas.
A equipe da CPT tentou conversar com os indígenas em algumas línguas conhecidas na região. Um dos indígenas, contudo, bateu o pé com força no chão, o que foi interpretado como sinal para que todos se afastassem do local. O homem parecia interessado num terçado que a equipe levava. O objeto foi então desinfetado com álcool e deixado para trás, enterrado no chão, como presente. À distância, depois a equipe viu que a ferramenta foi levada pelo indígena.
O encontro casual deixou indigenistas espantados porque o grupo não constava da base da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) que lista 114 registros de indígenas isolados no país em três qualificações principais: informação em qualificação, referência em estudo e referência confirmada. O registro no igarapé já foi incorporado à base da Funai.
A grande preocupação agora gira em torno do futuro e da segurança dos isolados. O ponto na floresta em que os indígenas foram avistados é uma área de manejo explorada por uma empresa madeireira, a Mil Madeiras, e está a cerca de 30 km dos limites de blocos de uma empresa de óleo e gás, a Eneva.
Até o momento, contudo, a Funai não publicou portaria de restrição de uso nem montou uma base de monitoramento para prevenir eventuais ataques aos isolados. A presença dos indígenas poderia contrariar interesses econômicos na região.
O ponto na floresta em que os indígenas isolados foram avistados é uma área de manejo explorada pela Eneva. Foto: Divulgação
Portarias de restrição de uso já foram usadas no país em diversos outros casos ao longo dos anos a fim de assegurar a integridade física da população isolada.
“O risco é grande. Os isolados estão dentro da área explorada por uma madeireira e de uma área conhecida como Grilagem Paulista e perto de atividades de blocos de extração de gás. É uma área muito extensa do município. A área é muito vulnerável para os isolados e por isso cuidamos de informar ao Estado sobre a situação”, disse, sob reserva, um ativista da CPT à Agência Pública.
“A CPT, o Ministério Público Federal, o Cimi [Conselho Indigenista Missionário], temos tentado de alguma forma fazer com que a Funai se manifeste de uma maneira que venha a promover a proteção dos isolados ou tome outra medida de proteção, mas ainda não temos essas medidas. Há evidências fortíssimas de os isolados estarem ali”, disse o ativista.
Perguntados pela Agência Pública, a Eneva colocou em dúvida a presença de isolados na região: “Não há comprovação de indígenas isolados em área próxima a atividades da Eneva”. A empresa pertence ao BTG Pactual, o maior banco de investimentos da América Latina e a diversos outros acionistas.
A empresa chamou a “hipótese” da presença dos isolados de “absolutamente remota, por se tratar de área altamente antropizada [modificada por ação humana], com atividades como a extração sustentável de madeira, fazendas e sítios com agropecuária, diversas concentrações de residências ao longo da rodovia AM-262 e das margens dos rios da região, incluindo vastas áreas desmatadas para extrativismo por estas populações, e presença de subestações de energia elétrica e cidades de porte razoável nas proximidades”.
Além da Eneva, a Procuradoria-Geral do governo do estado de Roraima também colocou em dúvida, em março, a presença de isolados na área, ao dizer que “a única prova trazida aos autos” é “um relatório produzido unilateralmente pela Comissão Pastoral da Terra (CPT)”. O procurador Marcelo de Sá Mendes fez a afirmação em ofício dirigido ao juiz federal da 7ª Vara Ambiental e Agrária do Amazonas, onde tramita uma ação civil pública.
A ação, que é acompanhada pelo Ministério Público Federal em Manaus, foi ajuizada em maio de 2023 pela Associação de Silves pela Preservação Ambiental e Cultural (Aspac) e por representante do povo indígena Mura. Ela questiona a ausência de estudos sobre os impactos das atividades da Eneva na região e pede, entre outras medidas, que o órgão ambiental do governo do Amazonas, o IPAAM, seja declarado incompetente para licenciar o empreendimento.
No final de março de 2024, a Funai resolveu então investigar, por meio de uma expedição que durou até o início de abril, o relato do avistamento feito pela equipe da CPT. O trabalho da fundação chegou a uma conclusão bastante diferente das dúvidas levantadas pela Eneva e pelo governo de Roraima.
A Funai informou que “a ação [expedição] levantou indicativos da provável presença do povo indígena isolado na localidade, inferindo pela necessidade de novas expedições de localização para qualificação desta existência, de modo a constituir um acervo informacional”.
O órgão indigenista, contudo, não indicou que irá imediatamente publicar uma portaria de restrição de uso ou montar uma base de proteção etnoambiental na região. Citou que ainda fará mais estudos. “Informa-se que a Fundação dará prosseguimento às atividades na região, de modo a aferir pela necessidade de estabelecimento de restrição de acesso a seguir qualificando a presença de indígenas isolados no baixo rio Uatumã”, disse o órgão na nota.
Em ofício enviado ao Ministério Público Federal, embora admita não ter conseguido visualizar os indígenas nem ter confirmado a presença “de maneira inequívoca”, a Funai antecipou que “a possibilidade de confirmação é alta”. Trechos da manifestação da Funai foram divulgados no início deste mês pela revista eletrônica Cenarium.
O novo registro, que mais uma vez demonstra a imensa e surpreendente riqueza socioambiental da Amazônia, foi comunicado pela CPT à Funai extraoficialmente ainda em 2023 e oficializado em janeiro deste ano, com a apresentação da fotografia do indígena. A Funai reconheceu que “o relato sobre presença de grupo em isolamento em Itapiranga (AM) é inédito, não havendo quaisquer registros históricos ou documentais consolidados que indiquem a presença de um povo isolado na região até então”.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Pública, escrito por Rubens Valente
Em 2022, o Produto Interno Bruto (PIB) do Amazonas registrou crescimento de 3,27%, superando a média nacional de 3,02%. Os dados, divulgados pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (Sedecti), no dia 14 de novembro, têm uma defasagem de dois anos devido ao tempo necessário para consolidar as informações.
Apesar de um ritmo mais lento em comparação a 2021 (5,56%) — influenciado pela desaceleração da recuperação pós-pandemia — o estado demonstrou força econômica, com o setor de serviços representando 46% do PIB estadual e a indústria somando mais de R$ 49 bilhões, impulsionada pela Zona Franca de Manaus. No total, o PIB do Amazonas alcançou R$145,14 bilhões em 2022.
Os setores de serviços e indústria foram fundamentais para o desempenho econômico do estado. O setor de serviços gerou R$67,1 bilhões, com destaque para a administração pública, que corresponde a 36,8% da atividade setorial, e o comércio, que ocupa 19,72%. Já o setor industrial somou R$49,01 bilhões, representando 33,77% do PIB. A indústria de transformação, liderada pela Zona Franca de Manaus, respondeu por 26,32% do PIB do estado, com uma produção de R$38,19 bilhões em 2022.
O titular da Sedecti, Serafim Corrêa, destacou o papel crucial das ações estratégicas do Governo do Amazonas para sustentar o crescimento contínuo do estado e explicou que a defasagem de dois anos na divulgação dos dados é devido ao tempo necessário para consolidar as informações. A expectativa é que o Amazonas mantenha números positivos em 2023 e 2024.
“Esses números são de 2022, mas posso garantir que de lá para cá, as coisas só melhoraram, mesmo com a estiagem. As medidas tomadas pelos governos Federal e Estadual permitiram que a economia não parasse e que as coisas continuassem acontecendo. Portanto, é uma boa notícia, mas novas e outras boas notícias estão a caminho”, revelou Corrêa.
Foto: Bruno Leão/Sedecti e Arquivo Secom
Agropecuária
Embora represente uma fatia menor, o setor agropecuário apresentou crescimento, atingindo R$5,69 bilhões. Esse avanço reflete o fortalecimento das atividades agrícolas no estado, impulsionado por um aumento de 5,51% no volume de produção. No contexto da Região Norte, o Amazonas permanece como a segunda maior economia, ficando atrás do Pará, que apresentou um PIB de R$236,14 bilhões. A Região Norte teve um crescimento de 1,88% em 2022, representando 5,7% do PIB nacional.
Comparativo nacional
O Amazonas manteve-se em 16º lugar no ranking nacional do PIB em 2022, enquanto São Paulo liderou com R$3,13 trilhões, seguido por Rio de Janeiro e Minas Gerais. Diversos estados, entretanto, enfrentaram retrações na economia, como Pará (-0,69%) e Espírito Santo (-1,7%). Esse cenário reforça a importância de políticas regionais específicas para o desenvolvimento sustentável e a competitividade das economias locais.
A análise do PIB é baseada no Sistema de Contas Nacionais, seguindo diretrizes das Nações Unidas e implementado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados consolidados, de 2022, refletem a complexidade das atividades econômicas em diferentes setores e suas influências no estado. Para os próximos anos, são aguardadas estimativas preliminares que poderão sinalizar tendências de recuperação ou novos desafios para a economia amazonense.
PIB dos municípios
Em nota, o IBGE anunciou que vai atrasar a divulgação do PIB dos municípios de 2022. Esse atraso é justificado porque o Instituto está mudando a base de cálculo de 2010 para 2021, uma atualização importante para refletir melhor a realidade econômica do Brasil. Assim, o PIB de 2022 será divulgado apenas em 2025, junto com os dados de 2023 e uma série histórica desde 2002.
Seca Rio Negro em 2024. Foto: William Duarte/Rede Amazônica AM
Em Manaus (AM), o Rio Negro pode ficar abaixo dos 16 metros até fim do ano. É o que aponta o 47º boletim hidrológico da Bacia do Amazonas divulgada pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) do dia 12 de novembro. Neste ano, o Rio Negro atingiu 12,11 metros, o menor nível já registrado em mais de 120 anos de medição. Esse fenômeno alterou o cenário do Encontro das Águas e levou a prefeitura de Manaus a fechar a Praia da Ponta Negra.
Na orla, bancos de areia surgiram no meio do rio, forçando as embarcações a se afastarem cada vez mais do local onde costumavam atracar, próximo à via pública. Essa situação também impactou o escoamento da produção das empresas do Polo Industrial da capital, que tiveram que instalar um píer flutuante em Itacoatiara para facilitar o recebimento de insumos e o envio de mercadorias produzidas pela indústria. Em todo o estado, mais de 800 mil pessoas foram impactadas pelo fenômeno.
Um levantamento do Grupo Rede Amazônica apontou que, após um período de repiquete, isto é, onde os níveis da água oscilam, subindo e descendo, como uma espécie de efeito sanfona, o rio voltou a subir em ritmo acelerado. Em uma semana, foram mais de 30 centímetros.
No entanto, o SGB apontou que o rio deve se manter abaixo da cota de segurança – que é de 16 metros – até a segunda quinzena de dezembro. Inclusive, a Praia da Ponta Negra só pode ser reaberta para banhistas após o rio ultrapassar a medida de 16 metros.
“O Rio Negro apresentou descidas em São Gabriel da Cachoeira e Tapuruquara, já em Barcelos apontou estabilidade e pequenas elevações. Em Manaus, o rio tem registrado comportamento de recuperação, voltando a apresentar subidas, contudo os níveis ainda são considerados muito baixos para a época”.
Veja o comportamento das demais bacias do estado:
Bacia do Rio Solimões: O Rio Solimões em Tabatinga registrou recuperação ao longo da última semana, com elevação de níveis, mas voltou a descer nos registros mais recentes, no entanto com variações diárias menores. O Solimões também já aponta subidas acentuadas em Itapéua, já em Manacapuru registra elevações regulares, na ordem de 16 cm ao dia.
Bacia do Rio Amazonas: O Rio Amazonas iniciou a semana com pequenas elevações em Parintins e Óbidos, já em Itacoatiara registra subidas regulares e indicando estabilidade do processo de vazante.