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Novas técnicas de cultivos sustentáveis na agricultura familiar recebem fomento no Pará

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Foto: Divulgação/Emater

A Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Pará (Emater) tem incentivado a utilização de técnicas sustentáveis para o cultivo de hortaliças folhosas na agricultura familiar, com foco na maior produtividade das áreas. A opção é o sistema hidropônico, que evita a utilização do solo e utiliza uma solução de água enriquecida com nutrientes.

A técnica faz baixo uso de terra e água, e, por isso, é uma opção mais sustentável em relação à agricultura tradicional e vem sendo implantada em áreas urbanas. Um exemplo dessa boa prática pode ser constatado na Ilha de Outeiro, com atendimento de cerca de  80 agricultores atendidos pela Emater.

A hidroponia é um sistema que permite combater as mudanças climáticas, a degradação do meio ambiente, a superexploração do solo e garante a economia da água. A técnica consiste no cultivo das plantas em área suspensa do chão. As raízes recebem nutrientes, por meio de solução balanceada com água suficiente para o seu desenvolvimento. 

A técnica também proporciona maior rendimento aos agricultores, produzindo entre três e dez vezes mais quantidade de alimentos do que na agricultura tradicional, e isso com a utilização do mesmo espaço.

Os extensionistas da Emater auxiliam os agricultores na adaptação para o cultivo. O agricultor Edson Luis é um dos que recebe a assistência da Emater em Outeiro. Ele contou que há três anos, deixou o emprego formal para colocar em prática o sonho de cultivar uma  horta utilizando a nova técnica.

Foto: Divulgação/Emater

Edson Luis criou a Hidroponia Anjo Azul em homenagem ao filho mais velho que tem autismo. “O trabalho da Emater tem sido de fundamental importância, pois iniciei com base em estudos que já fazia, mas quando a gente monta, coloca na prática, fica faltando muita coisa e com a assistência da Empresa, suas orientações e auxílio, nos ajudam a melhorar e a produzir melhor”, destacou o agricultor familiar. 

O agricultor cultiva mais de 600 maços de alface por semana e 100 de jambu. Suas produções são comercializadas na feira local e para uma rede de supermercado que possui contrato. Além disso, seu Edson cultiva também suas próprias mudas na espuma fenólica, chegando a produzir de 10 mil a 12 mil mudas por mês. 

Além da assistência técnica, a Emater oferece cursos de aprimoramento para que os agricultores possam administrar suas produções, e isso inclui o empreendedorismo,   comercialização e inovação de produtos no mercado regional ou local, e, também, a criação de sistemas agroflorestais, compostagem, entre outras iniciativas.

Florada Premiada: Rondônia conquista pódio completo em concurso nacional de cafés canéforas

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Florada Premiada 2024 – campeã da categoria canéfora. Foto: Reprodução

Mais uma vez Rondônia dominou o pódio da competição nacional de cafés “Florada Premiada”, na categoria canéforas. A cerimônia de premiação aconteceu nesta sexta-feira (22) durante a Semana Internacional do Café em Belo Horizonte (MG).

Leia também: Café Robusta Amazônico de Rondônia conquista nota máxima em concurso e alcança feito inédito

Todos os locais de produção vencedores fazem parte da área classificada como “Matas de Rondônia”, que compreende 15 municípios de Rondônia. A região recebeu a concessão da Indicação Geográfica (IG), na espécie Denominação de Origem (DO) em 2021.

🥇 Sueli Berdes, Chácara Santo Antônio: 90.44 pontos
🥈 Josiele Werneck, Sítio Bella Vista: 88.86 pontos
🥉Angélica Alexandrino, Sítio São Sebastião: 88.25 pontos

A grande vencedora da noite, Sueli Berdes, participou da competição pela primeira vez e chegou já ocupando o primeiro lugar no pódio.

Produtores são capacitados para combater praga que pode estragar mais de 40 espécies de frutas no Acre

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Foto: Reprodução/Rede Amazônica AC

Técnicos e engenheiros agrônomos, produtores e representantes de indústrias trocam experiências e técnicas de como identificar e até capturar possíveis insetos que são responsáveis por uma praga que pode dizimar dezenas de plantações: a mosca da carambola.

O Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Acre (Idaf) montou uma caravana para passar em plantações de 14 municípios acreanos para capacitar e levar conhecimento técnicos aos produtores. Ainda não há registros da praga no Acre, porém, além de capacitação, a caravana faz um levantamento mais detalhado em relação a possíveis ocorrências.

A mosca da carambola é uma doença presente em três estados da Região Norte: Roraima, Amapá e Pará. A praga causa queda na produção e acaba impedindo a importação, ocasionando inúmeros prejuízos sociais, ambientais e até econômicos.

A coordenadora do Programa Estadual de Monitoramento da mosca da carambola, GabrielaTangui, o inseto adulto coloca os ovos no interior do fruto, esses ovos se transformam em larvas e consomem todo o produto, além de apodrecê-lo.

“Onde há registro, os produtores ficam impossibilitados de comercializar seus frutos para outros estados. Então, cria-se um ambiente que a gente chama de quarentena, quando os frutos não podem ser comercializados para outros locais e isso causa um grande impacto econômico. Além disso, causa perda na produção e na qualidade dos frutos, que ficam apodrecidos. Há ainda prejuízos sociais porque afeta diretamente na renda, na geração de emprego e também ambientais, porque dentro do seu controle envolve muitos agrotóxicos, o que afeta, de certa forma, o ambiente e as pessoas”, destacou.

Apesar de receber esse nome, a mosca da carambola pode afetar mais de 40 espécies de frutas e frutos, entres eles:

  • Manga
  • Acerola
  • Laranja
  • Mamão
  • Tomate

Armadilhas

Durante as ações, os técnicos vão colocar 40 armadilhas em pontos estratégicos, a fim de capturar os insetos. Essas armadilhas serão monitoradas em um intervalo de 14 dias. Caso seja encontrada alguma mosca da carambola, o local é isolado e passa por análises do Idaf.

“A armadilha é do tipo Jackson, formada por uma estrutura triangular de casinha e na base dela tem um adesivo que é composto por uma cola onde o inseto vai ficar capturado. Também na armadilha vai uma isca atrativa que é uma mistura de paraferomônio, que é uma substância criada por pesquisadores e tem a função de atrair os machos da espécie. A isca mita o feromônio produzido pelas fêmeas”, explicou a coordenadora.

A especialista afirma que na mistura também tem inseticida. Quando o inseto procura o alimento, acaba encontrando a armadilha que fica sempre instalada nas plantas que possuem os frutos. Ao morrer, a mosca fica na base adesiva e, quando o técnico chega para fazer o monitoramento, consegue fazer a captura e levá-lo para análise em laboratório.

O fiscal agropecuário de Roraima, Guilherme Ferreira, veio ao Acre participar da caravana e contar sua experiência com esse problema. Ele explica que Roraima tem casos da praga desde 2010 e a situação é difícil de controlar. Por conta disso, o estado é proibido de vender os frutos para outras regiões.

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), é quem controla a entrada e saída desses alimentos e decretou estado de emergência fitossanitária nos locais que possuem a praga na fruticultura. Para evitar que o inseto se propague para outras regiões do país, a orientação é evitar transportar frutos hospedeiros dos estados que já estão afetados.

O chefe da Divisão de Defesa Agropecuária do Mapa no Acre, Gustavo Ferreira, disse que o maior vetor e colaborador para a dispersão da praga são as ações humanas.

“Trazer frutos de regiões onde a praga ocorre para regiões onde a praga não ocorre. Esse transporte realizado pelas pessoas, seja como uma lembrança, isso acaba vendo que ela está com uma broca e descartando a fruta. Aí você introduz o inseto onde a praga não ocorre, ele se desenvolve e acaba atacando as frutas existentes”, orientou.

*Por Jardel Angelim, da Rede Amazônica AC

Pioneiro no ensino de música no Amapá, Nonato Leal é anunciado ‘Patrono da Educação em 2025’

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Cerimônia ‘Patrono da Educação em 2025’. Foto: Divulgação/GEA

Musicista nato e um dos primeiros professores do Centro de Educação Profissional de Música Walkíria Lima, aos 97 anos, Nonato Leal foi anunciado como ‘Patrono da Educação em 2025‘ no Amapá.

O anúncio foi feito no dia 22 de novembro durante a celebração em homenagem aos servidores públicos aposentados que se dedicaram ao ensino no Estado.

Para Leal nada mais simbólico, afinal, nesta sexta também foi comemorado o ‘Dia do Músico’, apesar disso, o Mestre – como é conhecido- disse ter ficado surpreso com a homenagem.

A escolha do patrono é realizada pela gestão da Secretaria de Estado da Educação (Seed). Essa foi uma forma que a instituição encontrou para reconhecer as contribuições dos profissionais para o ensino da arte.

“Pensamos que seria a ocasião perfeita para anunciar o Patrono da Educação de 2025, que também é um servidor aposentado, certamente reconhecido por todos aqui presentes”, destacou a secretária de Estado da Educação, Sandra Casimiro.

Raimundo Nonato Barros Leal

Nonato Leal tem 97 anos e chegou ao Amapá com 25 anos. Foto: Reprodução

Nascido em Vigia de Nazaré, no Pará, aos 8 anos, o Mestre iniciou sua trajetória musical, incentivado pelo pai. Aos 18 anos, já tocava violino, banjo, bandolim, viola, cavaquinho, guitarra e violão.

Como Leal diz, ‘ele adotou o Amapá como casa’, já que chegou ao Estado em março de 1952, com 25 anos. Na cidade, ele foi o primeiro professor de violão no então Conservatório Amapaense de Música, atual Centro de Educação Profissional de Música Walkíria Lima.

Entre seus feitos como educador se destacam a notoriedade da música amapaense no cenário nacional e internacional. Além disso, Nonato Leal é autor de 22 composições.

O patrono da educação de 2024, o professor Manoel Batista, também esteve presente na celebração para repassar de forma simbólica o título.

*Por Mariana Ferreira, da Rede Amazônica AP

Seção Braille da Fundação Cultural do Pará celebra 50 anos de história

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A Seção Braille da Biblioteca Pública Arthur Vianna (BPAV), em Belém (PA), completou 50 anos no dia 20 de novembro. O espaço da Fundação Cultural do Estado do Pará (FCP) busca garantir a inclusão social com diferentes serviços com acessibilidade e formação para as pessoas com deficiência visual. A seção fica no segundo andar do Centur, na avenida Gentil Bittencourt, no bairro de Nazaré, e é aberta ao público de segunda-feira a sexta-feira, das 9h às 18h.

São diversos serviços disponíveis para as pessoas com diferentes graus de deficiência visual, entre eles estão: empréstimo de livros e periódicos em Braille, assim como livros falados, cabine adaptada de computadores com acesso à internet e sintetizadores de voz que permitem às pessoas cegas o acesso independente, digitalização de textos, leitura oral, impressões em braille, dentre outros.

Além dos livros em Braille a FCP oferece, desde 2022, os óculos “Orcam MyEye” que permitem a leitura instantânea de materiais como livros, revistas, apostilas e código de barras. Os óculos apresentam uma câmera acoplada que reconhece os objetos e cores situados a sua frente. Além disso, a fundação oferece diversas oficinas para pessoas que querem aprender a mexer em computadores e também oficinas que ensinam a ler em braille.

Foto: Divulgação

Para Dailton Conceição, pedagogo da Seção Braille da Biblioteca Pública Arthur Vianna, !é uma felicidade” estar comemorando os 50 anos da seção.

Aproximadamente 120 pessoas passam por mês no local. Além do presencial, a biblioteca disponibiliza serviços via e-mail, onde o documento é enviado e impresso em Braille, atingindo outros municípios do Estado.

Marina Moda acrescenta que a biblioteca foi sua escola e agora é seu segundo lar. “Para mim é como se fosse a minha segunda casa, porque eu chego aqui as pessoas me recebem bem, a gente conversa, a gente brinca, troca confidências com as pessoas que trabalham aqui. Temos um ciclo de amizades muito bom, aqui é um espaço acolhedor”, finaliza Marina.

*Com informações da Fundação Cultural do Pará

Pesquisador conta como é o desafio de planejar uma expedição científica à Amazônia

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Dia da retirada dos 80 baldes, utilizados nas armadilhas de interceptação e queda para captura de animais. O pesquisador Felipe Augusto Zanusso Souza é o último à direita. Foto: Jordana Ferreira/Inpa

Uma expedição científica começa muito tempo antes do dia de embarque. No caso da missão à Estação Ecológica (Esec) de Maracá, em Roraima, realizada no âmbito do projeto “Mudanças climáticas e a sociobiodiversidade amazônica: perspectivas da herpetofauna”, da Iniciativa Amazônia+10, foram ao menos seis meses de planejamento conjunto.

A seguir, Souza descreve com detalhes as etapas de organização do trabalho de campo, que reuniu mais de 28 pessoas, entre elas 20 pesquisadores, e teve duração de 28 dias em uma área isolada de Roraima, a Ilha de Maracá, a cerca de 130 quilômetros de Boa Vista.

Imagem: Agência FAPESP/montagem feita com imagens do Google Maps

Licenças e autorizações

O primeiro passo de qualquer expedição deve ser a articulação com as instituições responsáveis pela gestão da área onde se pretende realizar a pesquisa, para poder dar entrada nos processos de autorizações e licenciamentos necessários. Como nossa missão aconteceria em uma unidade de conservação sob gestão federal, a primeira conversa ocorreu com os analistas responsáveis pela realização das pesquisas na Estação Ecológica de Maracá. Também foi necessário o registro da expedição no SISBiO [sistema de atendimento a distância que permite a pesquisadores solicitar autorizações para coleta de material biológico e realização de pesquisa em unidades de conservação federais e cavernas] e no Comitê de Ética no Uso de Animais (Ceua) do Inpa, bem como solicitar a autorização para transporte desses indivíduos para a Coleção Científica de Anfíbios e Répteis do Inpa.

É importante destacar o caráter técnico-científico da expedição e a importância dessa dimensão burocrática, que precisa ser encaminhada o quanto antes para garantir que a equipe envolvida na expedição esteja devidamente autorizada em tempo.

Enquanto as autorizações eram solicitadas, foi feita a articulação com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que administra e fiscaliza a Esec Maracá e nos apoiou em todas as etapas da expedição. Foram realizadas diversas reuniões de alinhamento tanto do ponto vista técnico quanto logístico, para garantir aspectos como as datas de entrada e troca de equipes, a reserva do alojamento nas datas da expedição, apoio da equipe local e no contato com fornecedores.

A articulação com o ICMBio foi fundamental para o desenho das próximas etapas da expedição, que envolveu a definição dos objetivos e a dimensão dos trabalhos de pesquisa e da equipe de pesquisadores que estaria em campo. Também foi importante a indicação de contatos de assistentes de campo locais, com experiência e conhecimento da realidade da região, para dar apoio durante os trabalhos da expedição. Os assistentes são moradores da região que já atuam em atividades de pesquisa e monitoramento desenvolvidas pelo ICMBio. Nesse tipo de missão, é fundamental contar com o apoio de pessoas que conhecem o local e o contato antecipado foi fundamental para garantir que estivessem disponíveis na data. Nesse período, também foi realizada a articulação com a equipe responsável por garantir o funcionamento da cozinha durante a expedição.

Ao mesmo tempo, identificamos e entramos em contato com fornecedores de materiais e prestadores de serviços necessários antes, durante e depois do campo. Isso envolveu, por exemplo, a compra de suprimentos ainda em Manaus, o transporte das equipes até Boa Vista, a hospedagem até a saída para a Esec, o transporte até a Esec, compra de reagentes [como álcool e formol] para o desenvolvimento das pesquisas, empresas de fretes para envio dos materiais e equipamentos de pesquisa etc.

Reconhecimento do terreno

Os assistentes de campo são peça fundamental em qualquer expedição. Os que envolvemos na missão à Esec Maracá moram na Terra Indígena Boqueirão. Diversos moradores têm um histórico de atuação na Esec a partir de outras iniciativas do ICMBio, o que faz com que conheçam bastante as características e dinâmica da Unidade de Conservação. Hoje essa atividade é uma alternativa de renda para muitos deles.

Dois ajudantes de campo acompanharam a expedição ao longo dos 28 dias. Nos momentos mais intensos, de montagem e desmontagem das armadilhas – os três primeiros dias e os dois últimos –, foram contratados mais quatro auxiliares. Esse incremento da equipe foi importante para otimizar o processo de instalação das armadilhas, já que a captura dos animais era ponto de partida para o começo dos experimentos e pesquisas durante a expedição.

Chegamos no dia 4 de setembro de 2024 na Esec e fizemos o reconhecimento do local; no dia 5, instalamos as armadilhas de interceptação e queda, que são enterradas no solo; e, no dia 6, podemos dizer, a captura de animais já estava sendo iniciada, garantindo tão logo o começo da pesquisa. Foi importante garantir essa agilidade no começo do trabalho de campo.

Meses antes, as equipes de pesquisa já tinham feito o reconhecimento prévio da região, com estudo das áreas ideais e as espécies de anfíbios e répteis que poderiam ser encontradas na Unidade de Conservação.

A proposta era instalar uma linha com armadilhas em um ambiente de terra firme e outra mais próxima da área de vegetação aberta, conhecida como lavrado.

Pelas imagens de satélite, foram identificadas algumas áreas potenciais e interessantes. Porém, ao chegar a campo, identificamos que uma das áreas de interesse ainda estava bastante alagada, o que inviabilizaria a instalação de armadilhas no local. Os assistentes apontaram uma alternativa: outra trilha, um pouco mais longa, mas que atendia aos interesses da pesquisa.

Esse tipo de troca aconteceu o tempo inteiro durante a viagem.

Em dois momentos, o grupo de pesquisadores fez o que chamamos de “Laboratórios de Portas Abertas”. Convidamos todas as pessoas que estavam na base, equipes do ICMBio, da Força Nacional, das frentes de fiscalização, os assistentes de campo e de cozinha, para apresentar as pesquisas que estávamos desenvolvendo. Nesses momentos, apresentamos o contexto e a importância da pesquisa focada nos impactos das mudanças climáticas nos anfíbios e répteis, como funcionavam as armadilhas instaladas nas trilhas e os experimentos ecofisiológicos realizados nos laboratórios. Foi uma oportunidade interessante de intercâmbio de conhecimento com as pessoas com as quais estávamos convivendo diariamente na base e que tinham curiosidade de saber sobre as pesquisas desenvolvidas pela equipe.

Esse intercâmbio foi bastante interessante com os assistentes de campo, que não tinham trabalhado com anfíbios e répteis antes. Ao final dos trabalhos, eles já estavam encontrando animais na vegetação e identificando algumas espécies pelo nome. Isso demonstra o envolvimento e a proatividade dessas pessoas, que levarão esse conhecimento para outras missões a serem desenvolvidas na região. É incrível observar o comprometimento deles com a conservação daquele lugar!

Segurança

A base do ICMBio na Esec Maracá é protegida pela Força Nacional de Segurança Pública. Por isso, as entradas e saídas das equipes do ICMBio são escoltadas por policiais armados. A cada 15 dias, o ICMBio tem um sistema de troca de equipe da base, tanto de seus funcionários como os da Força Nacional. Por recomendação do ICMBio, nos organizamos para entrar e sair da Esec junto com essas trocas. Por isso, tivemos alguns membros da equipe que permaneceram na Esec os 14 primeiros dias da expedição, outros que chegaram na segunda quinzena e alguns que permaneceram os 28 dias de missão.

Duas equipes se revezaram durante 28 dias na Esec Maracá, sempre com escolta da Força Nacional de Segurança Pública. Na foto, time que conduziu a expedição nas primeiras duas semanas. Foto: David Ayronn/BIOTA Cerrado

O comboio saiu em 4 de setembro, às 7 horas da manhã, de Boa Vista em direção a Maracá. Todas as vezes em que foi necessário utilizar a balsa para atravessar o rio que dá acesso à estação, houve o acompanhamento dos profissionais da Força Nacional. Em alguns dias realizamos a busca ativa de espécies de lagartos na região do entorno da Esec.

No âmbito da equipe, adotamos outras medidas de segurança, como nunca sair sozinho para as trilhas, sempre avisar alguém da coordenação para onde estava indo e, sempre que possível, ir acompanhado pelos assistentes de campo. Como não havia sinal de celular, foram utilizados radiocomunicadores para facilitar a interação das equipes tanto em campo como na própria base. A comunicação externa foi garantida por uma internet a rádio mantida pelo próprio ICMBio.

A coordenadora da expedição também providenciou uma caixa de primeiros socorros para garantir que, em situações de problemas, como sintomas de resfriados, as pessoas pudessem ser medicadas.

Outro aspecto que envolveu a segurança foi a manutenção de um veículo 4×4 alugado, disponível durante toda a expedição. Apesar da dinâmica da Esec não demandar a presença de um veículo, optamos por garantir essa estratégia de modo que, em caso de alguma urgência ou de necessidade logística, como a compra de algo, estivesse disponível.

Alimentação

Não é qualquer profissional que consegue dar conta da alimentação diária de uma equipe de mais de 25 pessoas por quase 30 dias. O cozinheiro que nos acompanhou é considerado um dos melhores da região. Ele nos ajudou com a lista de compras, fez a estimativa da quantidade de alimentos, elaborou o cardápio, levando sempre em conta as restrições alimentares dos membros da equipe. E ainda nos acompanhou no mercado e na feira livre dois dias antes de embarcarmos.

Tudo precisa ser pensado, desde a compra das frutas e vegetais, que não poderiam estar muito maduros para durar o maior tempo possível, até o armazenamento das carnes para garantir sua qualidade.

A alimentação foi composta de alimentos básicos, para garantir a energia necessária da equipe, mas com toques de criatividade do grupo de cozinheiros, que caprichou e incrementou com receitas regionais com açaí e o tradicional “Peixe à Delícia”, prato tradicional de peixe frito ao molho branco e queijo. Além de sobremesas e bolo para os aniversariantes do mês!

Na bagagem

Numa viagem para uma área isolada, todos os equipamentos, alimentos, materiais precisam estar previstos na bagagem, já que, no lugar, não há a opção de sair para comprar ou buscar algo.

Dessa forma, além da compra dos alimentos, também levamos muitos equipamentos de laboratório, câmeras fotográficas, baldes para as armadilhas, ferramentas, balanças de precisão, álcool, formol, produtos de limpeza, caixas de isopor e um gerador reserva. Cada equipe também trouxe os seus próprios materiais para experimentos, além das bagagens pessoais.

Não à toa, ao verificar o volume de material a ser carregado, optamos por alugar um caminhão para viabilizar o transporte. No total, fomos em um carro 4×4, uma van para o transporte de passageiros e um caminhão para o transporte dos materiais e mantimentos.

Ao chegar ao rio Uraricoera, que faz o limite da Ilha de Maracá, carregamos a balsa e, do outro lado do rio, fizemos o transbordo em inúmeras viagens de carro para conseguir levar todos os materiais até a base. Em virtude de a estrada de acesso até a base estar muito ruim, o caminhão não pôde atravessar a balsa.

Travessia de balsa sobre o rio Uraricoera para chegada na Ilha de Maracá. Equipamentos, material de pesquisa, suprimentos, pessoas e veículos foram embarcados para travessia. Foto: Jordana Ferreira/Inpa

Experiência para a vida

Para alguns pesquisadores, esta expedição foi a primeira oportunidade de estar na Amazônia. Então, semanas antes da viagem, encaminhamos documentos com orientações e recomendações, como vestimentas adequadas, botas, repelente e protetor solar. Também sugerimos que levassem lanterna, roupas de cama e redes, além de seus próprios medicamentos.

Para mim, essa foi a maior expedição que já organizei, o que trouxe desafios e uma oportunidade incrível de aprendizado. Já tinha certa experiência com logística de campo, mas liderar uma operação de grande escala, envolvendo múltiplas instituições e uma equipe diversa, foi algo novo. Contar com a experiência da coordenadora Fernanda Werneck foi essencial para estruturar e garantir que tudo ocorresse conforme o planejado. Juntos conseguimos garantir o sucesso da missão.

No total, foram nove pesquisadores do Amazonas, uma de Roraima, dois de São Paulo, três do Paraná, quatro de Brasília e um da Paraíba, além dos seis mateiros, o cozinheiro e sua ajudante. É importante destacar que o trabalho de campo envolve, além da pesquisa, a logística e o trabalho colaborativo em equipe.

A desmobilização, por exemplo, começou quatro dias antes da saída da Esec, o que implicou a retirada das armadilhas, limpeza, organização, empacotamento em caixas, de modo a garantir que o retorno de todo o material ocorra em perfeito estado e possa ser utilizado nas próximas expedições.

E o mais importante: armazenar adequadamente os animais e as amostras biológicas coletadas, garantindo que cheguem a Manaus, possam ser tombados na Coleção Científica de Anfíbios e Répteis do Inpa e virar objeto de estudos e pesquisas futuras.

Prestação de contas

Cada Fundação de Amparo à Pesquisa [FAP] envolvida na Iniciativa Amazônia+10 possui estratégias distintas de prestação de contas. Como os pagamentos precisam ser realizados individualmente por pesquisador coordenador, é importante que os documentos fiscais que comprovem os gastos estejam adequados às exigências. Para isso, tinha sempre comigo as informações necessárias de cada FAP de forma a garantir que o prestador de serviço emitisse a nota fiscal de acordo com as exigências das instituições. A expedição contou também com cofinanciamento do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico].

Com base na nossa experiência, estas são algumas dicas para organizar expedições futuras:

– Definir data ou período ideal para a expedição, considerando as condições climáticas, bem como os objetivos e equipe a ser envolvida – Fazer o alinhamento institucional com os responsáveis pela gestão da área onde a expedição será realizada e parceiros importantes – Obter as licenças e autorizações necessárias – Planejar a expedição em etapas/blocos de prioridade: deslocamento da equipe, hospedagem, alimentação, fornecedores etc. – Garantir o envolvimento de assistentes locais e, se possível, capacitar jovens da comunidade para colaborar na pesquisa – Antecipar a contratação de alguns serviços que podem ser essenciais para a expedição, tais como transporte, locação de carros/barcos, hotéis etc. – Criar um checklist compartilhado de materiais e equipamentos para evitar esquecimentos. Essa lista deve ser a mais completa possível, incluindo as compras a serem realizadas [para pesquisa, alimentação, limpeza da base etc.] e os serviços que serão necessários durante a expedição; 
– Ter um núcleo de coordenação da expedição que possa compartilhar as dificuldades e pensar em soluções alternativas em caso de necessidade de mudanças de planos; 
– Garantir que, caso seja necessário, os responsáveis pela logística da expedição possam estar dedicados antecipadamente, inclusive com o deslocamento para a região alguns dias antes de modo a organizar previamente o que for possível – Ficar atento às rubricas de recursos disponíveis para a realização da expedição, às formas de pagamento disponíveis e às exigências de prestação de contas da agência financiadora; 
– Garantir que a alimentação seja suficiente e atenda às restrições da equipe. É fundamental que a equipe esteja bem alimentada para desempenhar os trabalhos da melhor forma possível – Antecipar possíveis problemas durante a expedição e propor soluções. Por exemplo, para o desenvolvimento das nossas pesquisas era essencial garantir o fornecimento de energia. A Esec é atendida pelo fornecimento de energia, além de possuir um gerador em caso de falha da rede. No entanto, caso as duas alternativas falhassem, tínhamos um gerador portátil que poderia manter o laboratório funcionando por horas caso a energia na estação acabasse; 
– Criar, na medida do possível, um ambiente harmônico entre as equipes, de modo a evitar conflitos interpessoais. Em expedições de longa duração, é normal que em alguns dias algumas pessoas estejam mais cansadas ou introspectivas; respeite e esteja atento a esses sinais; 
– Buscar dicas com pessoas que têm experiência nesse tipo de expedição. Elas são sempre bem-vindas e ajudam muito a antecipar possíveis imprevistos

Expedições como essa não apenas ampliam o conhecimento científico, mas também fortalecem laços entre pesquisadores e comunidades locais, promovendo uma conservação mais integrada e colaborativa na Amazônia.

A expedição em números

• 28 dias
• 28 pessoas
• 3 horas de distância de Boa Vista
• 285 quilos de carne
• 70 quilos de arroz
• 55 galões de 20 litros de água
• 5 bujões de gás
 20 pontos de armadilhas de interceptação e queda, totalizando 80 baldes
• 400 indivíduos, amostras biológicas e dados ecológicos associados coletados
• Mais de R$ 140 mil em custos totais aproximados.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por Bruna Bopp

Capacitação em boas práticas para manejo do pirarucu beneficia mais de 80 pescadores na RDS Mamirauá

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Foto: Rodolfo Pongelupe

Manejadores de pirarucu nos municípios de Fonte Boa e Juruá, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá, no Amazonas, receberam capacitação da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) sobre boas práticas de pesca, limpeza, armazenamento, transporte e comércio de pirarucu. O curso ocorreu em outubro, de 14 a 19, e capacitou 85 manejadores, de 10 comunidades ribeirinhas. 

A iniciativa faz parte do projeto “Sistema de rastreabilidade: inovação e inteligência de mercado na cadeia produtiva do pirarucu da RDS Mamirauá”, lançado em dezembro de 2023, em parceria com a Positivo Tecnologia e o Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio).

O primeiro curso, focado em “Boas Práticas de Pré-Beneficiamento do Pirarucu”, ocorreu na comunidade Tamanicuá, no município de Juruá. A iniciativa reuniu 67 manejadores das comunidades de Tamanicuá, Santa Luzia do Jussara e São Francisco da Mangueira. Já o segundo curso, sobre “Boas Práticas de Beneficiamento do Pirarucu”, foi realizado na unidade produtiva Salgadeira Cabocla, em Fonte Boa, e contou com 18 participantes de sete comunidades.

Ambos os cursos abordam temas fundamentais, como higiene pessoal, tipos de contaminação, evisceração e lavagem, uso de EPIs, legislação sanitária, técnicas de corte e filetagem, armazenamento e resfriamento do pescado. Muitos participantes destacaram que, embora atuem no manejo do pirarucu há anos, não haviam recebido uma capacitação tão completa.

Gracilvani Ferreira da Costa, morador da comunidade Tamanicuá e presidente do Acordo de Pesca São Sebastião, afirmou que a capacitação foi fundamental para garantir a qualidade do pescado.

Foto: Rodolfo Pongelupe

Outra participante, Sileia Pinheiro Lopes, moradora da comunidade Batalha de Baixo, destacou a importância de aplicar e compartilhar os conhecimentos adquiridos e observou o aumento da participação feminina no manejo do pescado. 

“Antes, tinha muito menos mulheres, mas com o tempo, vieram os cursos e as capacitações. Nós nos esforçamos e hoje temos um número muito maior. Na minha comunidade, as mulheres estão se envolvendo ainda mais no manejo. Agora, quando vamos fazer o manejo do pirarucu, a maioria é mulheres. Com certeza, eu participando desse curso vou estar incentivando outras mulheres”, conta.

Próximos passos

Iniciado em dezembro de 2023, o projeto “Sistema de rastreabilidade” busca melhorar a renda dos pescadores que, anualmente, recebem autorização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para o manejo sustentável do pirarucu na Amazônia.

O sistema de rastreabilidade digitaliza as etapas de pesca, pré-beneficiamento, beneficiamento e comercialização para hotéis e restaurantes. Embora toda a cadeia gere empregos e fortaleça a economia local, a maior parte dos lucros ainda se concentra fora da comunidade, com os pescadores ficando com aproximadamente 15% dos ganhos, conforme aponta um estudo da Universidade Notre Dame, de 2019.

Além do peixe comercializado in natura, após o beneficiamento, a pele do peixe é transformada em couro, servindo ao mercado da moda, utilizada para tecidos, sapatos, bolsas e acessórios. Esse aproveitamento de subprodutos contribui para a geração de empregos diretos e indiretos, dessa maneira reforça a competitividade do setor na região.

“Acreditamos que o pirarucu tem um enorme potencial para gerar renda e promover o desenvolvimento sustentável na Amazônia. Com o sistema de rastreabilidade e as ações de capacitação, estamos construindo um futuro onde pescadores receberão um retorno financeiro mais justo pela atividade do manejo”, afirma Elizeu Silva, analista de Empreendedorismo da FAS.

Incêndios na Amazônia queimaram área 10x maior do que a de desmatamento, aponta estudo

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Foto: Christian Braga/Greenpeace

O fogo consumiu cerca de 10 vezes mais área da Amazônia do que o desmatamento, entre janeiro e outubro deste ano, segundo o Monitor do Fogo, elaborado pela rede Mapbiomas, da qual o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) faz parte. Os dados foram divulgados durante a COP29, em Baku, no Azerbaijão.

Foram 6,7 milhões de hectares de floresta que queimaram bioma Amazônia no período, contra 650 mil hectares desmatados, segundo dados do Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Ao todo, 73% do fogo no país em outubro foi na região amazônica. Além disso, 64% de tudo que foi queimado ocorreu em áreas de vegetação nativa – as florestas representaram 45%. No mesmo período do ano passado, os incêndios devastaram 717 mil hectares, ou seja, houve um aumento de 7,5 vezes em apenas um ano. 

Cenário nacional 

Os incêndios consumiram 27,6 milhões de hectares em todo o Brasil – 55% na Amazônia ou 15 milhões de hectares. As áreas de pastagens representam 21% da área queimada ou 5,7 milhões de hectares – 4,9 milhões de hectares apenas na Amazônia, um aumento de 58%. 

Por tipo vegetação nativa, florestas (6,7 milhões de hectares), Campos (1,6 milhão de hectares) e Savana (209 mil) foram queimadas. Na comparação entre 2023 e 2024, o fogo na Amazônia representava 21% do total, mas agora atinge 52% do total este ano. 

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM

Cientistas avaliam como répteis e anfíbios lidam com mudança climática em ilha de Roraima

Para coletar os animais, a equipe instalou armadilhas em 20 pontos da Ilha de Maracá, em Roraima. Foto: Jordana Ferreira/Inpa

Um time de pesquisadores passou 28 dias na terceira maior ilha fluvial do Brasil, a Estação Ecológica (Esec) de Maracá, em Roraima. Na unidade de conservação federal, distante cerca de 130 quilômetros de Boa Vista, os membros da expedição coletaram cerca de 400 exemplares de répteis e anfíbios, além de dados morfológicos e ecológicos para avaliar as respostas fisiológicas dos animais ao aumento da temperatura.

A expedição é parte do projeto “Mudanças climáticas e a sociobiodiversidade amazônica: perspectivas da herpetofauna”, apoiado pela Iniciativa Amazônia+10.

Além da FAPESP, conta com financiamento de outras quatro Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (FAPs): Fapeam (Amazonas), Fundação Araucária (Paraná), Fapesq (Paraíba) e Fapt (Tocantins). A expedição também contou com fomento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Werneck lembra que outras expedições já ocorreram no âmbito do projeto em outras regiões amazônicas. Essa, porém, a primeira na Esec de Maracá, teve uma logística mais desafiadora.

A ilha abriga ambientes característicos da região, como os lavrados, formações abertas dentro da floresta amazônica, além das fisionomias florestais de terra firme. Apesar de ser uma unidade de conservação integral, onde só é permitida a visitação para estudos científicos, o entorno da Esec Maracá sofre com a caça e a pesca ilegais, além do garimpo. O local abriga uma base do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que administra e fiscaliza a área e que apoiou todas as etapas da expedição científica.

Foto aérea da base científica e de apoio da Estação Ecológica de Maracá. Entorno inclui ambientes florestais e áreas abertas naturais. Foto: Romério Briglia/ICMBio/NGI Roraima

Em maio de 2021, criminosos invadiram a base, mantiveram brigadistas reféns e levaram equipamentos que haviam sido apreendidos semanas antes de garimpeiros que atuavam na área.

A Estação Ecológica é uma das últimas paradas antes de adentrar a Terra Indígena Yanomami, um histórico alvo do garimpo ilegal na Amazônia. Essa foi a primeira visita de pesquisadores à Esec desde a invasão de 2021 e contou com escolta da Força Nacional de Segurança Pública.

“Apesar do contexto prévio de tensão na região, em nenhum momento nos sentimos ameaçados e os trabalhos ocorreram dentro do programado”, conta Felipe Augusto Zanusso Souza, pesquisador do Inpa que coordenou o planejamento, a logística e a execução da expedição.

Junto com outros seis membros da equipe, Souza passou os 28 dias em campo. A maior parte do grupo, cerca de 50 entre pesquisadores e pessoal de apoio, se revezou em dois turnos de duas semanas.

Rotina

Depois de instalar armadilhas em 20 pontos na ilha, a equipe visitava diariamente os locais para coletar os animais capturados. Eram feitas ainda buscas ativas diurnas e noturnas, procurando os répteis e anfíbios no chão e na vegetação, como no caso de espécies arborícolas. Os indivíduos eram então levados até a base, onde passavam por uma série de testes no laboratório de campo montado durante a expedição.

Armadilhas de interceptação e queda. Método de coleta passiva consiste em interligar quatro baldes com lonas em formato de “Y”, realizando a revisão diária para coletar anfíbios e répteis. Foto: Jordana Ferreira/Inpa

Pesquisadores de pós-doutorado, bolsistas de apoio técnico e apoio à difusão do conhecimento e alunos de mestrado e doutorado das instituições envolvidas trabalharam juntos para coletar material e realizar os experimentos, que darão origem a trabalhos conjuntos e partes de suas dissertações e teses.

Foi o caso de Juliana Luzete Monteiro, que realiza doutorado na Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP) com bolsa da FAPESP. Seu objetivo é estudar a evolução do desenvolvimento sexual em lagartos do gênero Hemidactylus.

Entre os diversos experimentos realizados, os pesquisadores testaram as temperaturas preferenciais, o desempenho locomotor e a tolerância térmica dos répteis e anfíbios daquela localidade.

Em um deles, os animais eram colocados em uma caixa com oito subdivisões similares a pistas. A estrutura era submetida a um gradiente de temperaturas frias a quentes, entre aproximadamente 20°C e 40°C. Sua resposta corporal era então registrada a cada minuto por uma hora. A média encontrada é o que se chama de temperatura preferencial em laboratório, que dá um parâmetro do que seria ideal para cada espécie.

Experimento de temperatura crítica, onde é realizado o aquecimento ou resfriamento do indivíduo na câmara termal (à esquerda) e em seguida medida sua temperatura corpora. Foto: David Ayronn/Rede BIOTA Cerrado

Em outro experimento, depois de descansarem do anterior, os animais eram submetidos a temperaturas que variavam de 5°C abaixo da temperatura ambiente até 5°C acima e, depois, estimulados a correr em uma pista, sendo cada corrida gravada para posterior determinação da velocidade.

Experimentos de Desempenho Locomotor, chamados de “corrida”. Podem ser tanto na vertical (à esquerda) como na horizontal, a depender do tipo de hábito da espécie experimentada. As corridas são gravadas e as filmagens, depois, analisadas. Foto: Jordana Ferreira/Inpa

Por fim, os indivíduos eram submetidos a decréscimos e acréscimos de temperatura e colocados de barriga para cima, sendo os críticos mínimo e máximo (ou sua tolerância termal) determinados a partir da temperatura em que não tentavam mais se virar para corrigir a posição corporal.

Novas expedições devem repetir os procedimentos em outras regiões amazônicas. Nos laboratórios das instituições, serão analisados dados genéticos e da expressão de proteínas ligadas ao choque termal, entre outros fatores. As informações vão subsidiar trabalhos a serem publicados nos próximos anos.

Os animais coletados serão depositados na Coleção de Anfíbios e Répteis do Inpa (Inpa-H), onde estarão acessíveis a outros pesquisadores para realização de novos estudos. O projeto inclui ainda o monitoramento dos quelônios amazônicos nas bacias dos rios Araguaia-Tocantins e rio Negro.

Numa vertente socioambiental, o pesquisador Matheus Ganiko Dutra, vinculado à FFCLRP-USP, realiza uma análise de discurso de populações ribeirinhas a respeito das relações entre o ambiente e o clima.

Mitigação

De acordo com o relatório de 2023 do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU), o aumento da temperatura média no planeta até 2050 pode ser de 3,5°C a 5,7°C, a depender das emissões de gases de efeito estufa das próximas duas décadas.

“É essencial entender agora o que pode acontecer com essas espécies num cenário de aquecimento global, a fim de que se possa tomar medidas de mitigação a tempo e subsidiar estratégias de conservação da biodiversidade com base em dados biológicos robustos”, conclui Werneck.

A equipe contou com professores, pesquisadores, pós-doutorandos, mestrandos e doutorandos das cinco instituições que integram o projeto, dentro da Iniciativa Amazônia+10. Além de USP e Inpa, as universidades federais do Pará (UFPA), Paraná (UFPR) e Tocantins (UFT).

Outros parceiros incluem pesquisadores da Federal do Amazonas (Ufam) e da Universidade de Brasília (UnB). A expedição só foi possível graças a uma grande equipe de apoio, incluindo desde assistentes de campo a cozinheiros.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por André Julião

Pesquisadora descobre novo papel do peixe-boi: o de “jardineiro da Amazônia”

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Peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis). Foto: André Dib

Localizado próximo ao encontro dos rios Solimões e Japurá, o Lago Amanã (que significa “caminho da chuva”) é conhecido como a casa do peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis), no Amazonas. Durante a estiagem, quando o nível dos rios baixa, esse mamífero encontra ali refúgio e alimentação. Foi nas praias de Amanã que a bióloga Michelle Guterres fez uma descoberta surpreendente: fezes de peixe-boi com filetes de gramíneas germinando. Com essa observação, ela deu um passo importante para confirmar uma hipótese até então apenas especulada: o peixe-boi é capaz de dispersar sementes, ajudando na migração de plantas entre diferentes habitats.

Michelle coletou 96 amostras de fezes, sendo que em 19 delas já havia plantas germinando. Uma das maiores dificuldades da pesquisa era encontrar uma quantidade significativa de fezes, pois, logo que o peixe-boi defeca, elas ou se desmancham na água ou são consumidas por peixes. Por conta disso, a função de fertilizador das águas já era conhecida, mas o papel de dispersor de sementes foi uma descoberta inovadora.

A seca extrema de 2023 facilitou a coleta das amostras, que foram encontradas nas praias formadas pelo baixo nível da água. Em outubro, o Lago Amanã chegou a apenas 20 cm de profundidade.

Depois disso, as amostras precisaram ser desmanchadas com pinças, devido à sua textura fibrosa. Ao todo, foram encontradas 2.033 sementes, das quais 556 estavam viáveis com embriões.

Qual a importância dessa descoberta?

Na Amazônia, a dispersão de sementes e a distribuição de plantas estão intrinsecamente ligadas aos ciclos de cheia e seca dos rios. Maria Tereza explica que, durante as cheias, a água age como o principal dispersor, especialmente de plantas aquáticas e semi-aquáticas, nas várzeas e igapós.

“As plantas frutificam, e as sementes caem na água. Peixes as comem e as levam para outros habitats, rio acima ou em áreas próximas”, explica a pesquisadora, referindo-se a estudos que já documentaram sementes no trato digestivo de peixes.

Mas saber que o peixe-boi desempenha um papel semelhante é uma descoberta significativa. Pesando até 550 kg, o peixe-boi se alimenta de até 40 kg de plantas aquáticas por dia, e já foram registrados deslocamentos do animal de até 115 km entre os lagos Amanã e Mamirauá. Com um trato digestivo longo, as sementes podem permanecer em seu intestino por até uma semana, aumentando seu potencial como dispersor. “Além disso, ele já entrega a semente com adubo natural, um verdadeiro kit de jardinagem”, comenta Maria Tereza com bom humor.

Os padrões migratórios do peixe-boi sugerem que o animal desempenha uma papel vital para a dispersão de sementes entre habitats férteis, como as várzeas dos rios, e áreas mais pobres em nutrientes, como os igapós. “Durante as cheias, o peixe-boi fica nas várzeas, onde há abundância de alimento”, explica Miriam Marmontel, especialista em mamíferos aquáticos do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. “Quando o nível dos rios desce, eles procuram refúgio em lagos e áreas de igapós”, complementa.

Enquanto as várzeas dos rios são áreas produtivas, com cerca de 400 espécies de plantas, os igapós, com águas mais ácidas e solos pobres, abrigam apenas 10% desse total. Com isso, é possível supor que o peixe-boi transporte sementes de uma área para outra, aumentando a biodiversidade desses ambientes e garantindo sua própria fonte de alimento para a próxima seca.

Lago Amanã, no Amazonas. Foto: Miguel Monteiro

Um debate de décadas

Natural de Porto Alegre, Michelle Guterres tem uma longa experiência com a Amazônia e com os peixes-boi. Sua primeira estada em Tefé, no Amazonas, durou 10 anos, de 2000 a 2010, onde trabalhou no Instituto Mamirauá.

Em 2012, publicou seu primeiro trabalho sobre a ingestão de sementes pelo peixe-boi. Na época, com mais de 200 amostras coletadas, todas as sementes encontradas estavam inviáveis, sem embriões, o que levou à conclusão de que o peixe-boi não desempenhava o papel de dispersor.

Outros pesquisadores também investigaram essa possibilidade. Um estudo de 2020, que analisou o peixe-boi marinho no Caribe, não encontrou sementes viáveis em suas fezes. Mesmo trabalhos mais antigos, como o do biólogo Robin C. Best, nos anos 1980, especularam sobre essa função, mas sem comprovações.

Após mudar-se para Florianópolis e passar por uma pausa na carreira, para cuidar dos filhos, Michelle retomou a pesquisa em 2019, durante a pandemia, e voltou ao Lago Amanã. “Aquela pergunta nunca saiu da minha cabeça”, diz ela. “Mas este foi um resultado totalmente inesperado, que nasceu a partir da vivência em campo. A Amazônia permite encontrar coisas que ninguém jamais imaginaria.”

Praia durante a seca no Lago Amanã. Foto: Michelle Guterres

Necessidade urgente de conservação

Atualmente, o peixe-boi é classificado como espécie vulnerável pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). O maior risco para sua extinção vem da caça ilegal.

Na primeira metade do século 20, no auge da pesca até então legal, cerca de 19 mil peixes-boi foram mortos para a extração de couro, usado na produção de borracha. Sua carne também é apreciada por comunidades ribeirinhas. Em 1967, a caça foi proibida, mas ela ainda persiste em algumas regiões.

Publicada em 2019, uma pesquisa com populações ribeirinhas aponta que a caça ainda é a principal causa de morte dos peixes-boi na Amazônia, sendo confirmada por 62% dos entrevistados na região de Anavilhanas e 52% no Tapajós.

Secas severas, como as vividas em 2023 e 2024, também facilitam a captura desses animais. Em geral, o período de estiagem dura cerca de três meses, em que os animais permanecem nos lagos, onde são mais facilmente abatidos. Mas, com secas prolongadas, esse intervalo de maior vulnerabilidade também se torna mais extenso.

Para Michelle, sua descoberta é mais um argumento pela conservação do peixe-boi. “A gente sempre bate a tecla da educação ambiental, para sensibilizar as pessoas da relevância do peixe-boi para a Amazônia, inclusive para a saúde e bem-estar das comunidades que dependem das águas dos rios, das suas várzeas e florestas”.

Maria Tereza complementa: “Ao fertilizar as águas e transportar sementes, o peixe-boi contribui para a biodiversidade. Proteger essa espécie é proteger o ecossistema e as populações que dele dependem”.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Tiago Mota e Silva