Aliado a estratégias sustentáveis, o plástico pode se tornar a peça-chave para ajudar a natureza e servir como ferramenta para empreendimentos inovadores que enxergam o potencial do material por meio da reciclagem. Foi assim, ao observar a grande quantidade de plástico gerada pelos trabalhadores de uma obra de construção civil, vinda do consumo de refrigerantes nas garrafas PET, que o empreendedor Almir Ribeiro, de Roraima, teve uma ideia que faria a diferença: a utilização do material granulado para compor blocos de construção.
“O pessoal da construção tomava refrigerantes todos os dias. Observando aquilo, vi um monte de garrafas e comecei a pensar: essas garrafas vão para o lixo; quanto tempo elas ficarão na natureza? Foi então que tive a ideia de criar um material que utilizasse essas garrafas PET. A primeira criação surgiu disso, mas, hoje, já conseguimos reciclar todo tipo de plástico para incorporar nossos blocos”, conta.
Mas a ideia arrojada precisava de mais investimentos para sua execução e foi nesse momento que o Ribeiro teve conhecimento sobre o Programa Centelha, que visa estimular a criação de empreendimentos inovadores e disseminar a cultura empreendedora no Brasil.
“A importância de ser contemplado no Centelha foi saber que eu poderia contar com a ajuda de um sistema para que eu pudesse colocar o meu projeto em execução. Eu já havia pensado em desistir desse projeto, mas quando eu vi o Centelha e que eu me inscrevi foi muito importante porque eu vi uma condição de desenvolver o tão sonhado projeto”, conta Almir.
Foto: Divulgação/PlastBloc
A parte técnica do projeto era o desafio para atender as especificidades e adequação para uso do material. “Eu não tinha condição de pagar um profissional para poder adequar o material dentro das normas técnicas brasileiras da construção, então o Centelha contribuiu para eu colocar o meu projeto de acordo com essas normas. Estamos fazendo estudos laboratoriais, pois antes eu não tinha condições financeiras para isso”, acrescenta.
O Plasbloc, como foi batizado o novo bloco, é fabricado com cimento, areia, água e catalisador com diferencial no uso do plástico granulado reciclado como agregado graúdo. Além de sua produção envolver matérias-primas recicladas de postos de coleta e de sucatas, o design do bloco tem papel fundamental na eficácia de sua utilização nas construções residenciais, comerciais ou industriais.
“Eu fui um dos pioneiros a criar esse sistema construtivo, um projeto criado há 18 anos, mas somente aqui em Boa Vista eu consegui desenvolver. Foi bastante penoso porque eu não tinha condições financeiras para poder pagar o laboratório para poder desenvolver a liga do material, a resistência da qual a gente precisa”, conta o empresário.
Hoje a empresa é especializada na produção e comercialização de blocos de construção ecológicos fabricados a partir de materiais reciclados. Os blocos são fabricados com foco na redução do impacto ambiental e na promoção da construção sustentável de forma a baratear o custo e promover a rapidez nos processos dentro do canteiro de obras. O carro chefe é o plasbloc com design pensado para otimizar recursos e zerar desperdícios, produzido a partir da reutilização do plástico que iria para o lixo.
Centelha Roraima
O Programa Centelha estimula a criação de empreendimentos inovadores e disseminação a cultura empreendedora em Roraima. A iniciativa oferece capacitações, recursos financeiros e suporte para transformar ideias em negócios de sucesso.
O programa é promovido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), Fundação CERTI e, em Roraima, é executada pelo Governo do Estado, por meio, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Roraima (Faperr).
A Região Norte teve uma forte participação no Prêmio Multishow realizado nesta terça-feira (3). A ex The-Voice, Gabriê, esteve presente como participante do corpo técnico e usou uma roupa criada por uma artesã indígena rondoniense exclusivamente para a ocasião.
Shirley Arara, ativista e liderança do seu povo, é a “mente” por trás da obra. Moradora da Terra Indígena Igarapé Lourdes, em Ji-Paraná (RO), ela é fundadora da primeira grife indígena de Rondônia, criada com o objetivo de ressaltar a cultura do povo Arara.
“Temos mulheres e jovens fortalecendo a cultura, o nosso território, com a força da nossa cultura, dos nossos grafismos, fortalecendo ainda mais a nossa arte, os nossos artistas, os nossos empreendedores indígenas, a bioeconomia e a renda sustentável”, reforça.
O convite para desenhar a roupa de Gabriê surgiu depois de várias conversas e espera pela oportunidade perfeita. Tudo aconteceu muito rápido: o convite chegou na quinta-feira (28) e no dia seguinte ela recebeu a peça para pintar.
“Foi uma loucura tanto da minha parte como da dela. Loucura dela de ter me dado esse voto de confiança. Loucura da minha parte, porque peguei com um dia a peça pra poder pintar”, revela. Mas a “loucura” deu certo e levou um pedaço de Rondônia e dos povos indígenas para todo o Brasil. O grafismo, feito no vestido branco, carrega uma mensagem de resistência.
“É uma arte, um grafismo onde foi feito, realizado exclusivamente para ela, para que ela brilhe muito mais nesse local, nesse espaço, nesse evento, levando não só a cultura dos povos indígenas, mas levando a força e a luz da Amazônia, da Região Norte, dos territórios dos povos indígenas, a luz e a força das mulheres Arara”, relata a artesã.
Os acessórios que compõem o look também são de arte indígena, produzidos pelo artesão Tiago Karitiana. Nas redes sociais, a cantora destacou a importância da representatividade.
“Me vesti de cultura e história. Meu vestido carrega a força ancestral dos indígenas com a arte da querida Shirley Arara. Além disso, os brincos e os braceletes produzidos pelo amigo Tiago Karitiana também contam esse enredo de resistência dos povos indígenas”, publicou Gabriê.
Um livro produzido pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) une conhecimento científico e tradicional indígena sobre a biodiversidade amazônica. A parceria intercultural entre pesquisadores não indígenas e indígenas deu origem a obra ‘Espécies de Aves da Região do Rio Cubate – Terra Indígena do Alto Rio Negro’, guia com o registro de 310 espécies da comunidade indígena de Nazaré do Rio Cubate, no município de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas.
A obra é escrita em Nheengatu, Baniwa e Português. Para cada espécie de ave, a edição traz os alimentos consumidos e o ambiente onde é encontrada. O livro foi produzido em conjunto com a comunidade, Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e Instituto Socioambiental (ISA), como fruto de pesquisa financiada pelo Edital Biodiversa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).
“Será um material para a comunidade usar na escola e para estimular a troca de conhecimento sobre as aves da região para que eles mantenham o conhecimento dos nomes e histórias das espécies e passem para as próximas gerações”, explica a pesquisadora do Inpa e coordenadora do projeto, Camila Ribas, destacando que o conhecimento reunido no livro também pode ser aplicado em futuras atividades, como o turismo de observação de aves.
Foto: Divulgação/Equipe do projeto
Segundo Ribas, o projeto de reunir o conhecimento sobre as aves avistadas na região surgiu em 2019, a partir de uma solicitação da comunidade indígena de Nazaré do Rio Cubate. A demanda foi feita pelos representantes institucionais Isaías Pereira Fontes (Foirn) e Juvêncio Cardoso, nome não-indígena de Dzoodzo Baniwa (Organização Baniwa e Koripako Nadzoeri).
A obra foi desenvolvida dentro do projeto ‘Biogeografia de aves para conservação e desenvolvimento sustentável na Bacia do Rio Negro’ realizado de 2022 a 2024, na região do Rio Cubate financiado pela Fapeam. Além de Ribas, colaboram com a obra o pesquisador do Inpa e curador da Coleção de Aves, Mario Cohn-Haft, e os pesquisadores Fernando Horta e Ramiro Melinski, bolsistas vinculados ao Inpa durante a execução do projeto.
“Este projeto mostra que a parceria intercultural para o estudo da biodiversidade Amazônica é possível e necessária para que o conhecimento sobre biodiversidade seja cada vez melhor e mais relevante para a gestão, valorização e proteção dos territórios”, ressaltam os pesquisadores na apresentação do livro.
Foto: Priscilla Diniz
Intercâmbio de conhecimentos
Os comunitários participaram de forma direta na produção do livro em colaboração com cientistas nas diversas fases da iniciativa, indo do levantamento das espécies à tradução do conteúdo para as línguas indígenas. A professora de Língua Indígena e moradora de Nazaré do Rio Cubate, Gracilene Florentino Bittencourt, trabalhou na tradução para o Nheengatu, idioma falado pelos povos indígenas Baniwa, Baré e Warekena.
A professora conta que estar integrada ao projeto ampliou seus conhecimentos sobre os pássaros que observa na região onde mora e permitiu o aprofundamento de seu conhecimento da língua Nheengatu, falada na comunidade. O processo de tradução foi executado durante um mês por Bittencourt em Manaus usando o aplicativo de teclado de línguas indígenas Linklado, que está entre os finalistas do Prêmio Jabuti 2024.
“Essa iniciativa partiu da própria comunidade com o objetivo de conhecer e estudar sobre as aves tanto na língua portuguesa quanto no Nheengatu. Esse livro representa a valorização da cultura local e valorização da nossa língua materna, sendo muito significativo”, conta Bittencourt.
Foto: Divulgação/Equipe do projeto
“A pesquisa reavivou a mitologia, a nossa crença, e que as futuras gerações possam entender que realmente a mitologia local existe. Nossos avós e mães, eles têm essas histórias na mente, mas às vezes não é contada e muito menos escrita, mas através desse livro, muitos jovens e crianças vão poder ler”, completa a professora.
Além das informações científicas de identificação e hábitos, a obra reúne curiosidades e histórias contadas por comunitários sobre as espécies catalogadas.
A professora Gracilene Florentino Bittencourt aponta que a possibilidade de compartilhamento de conhecimentos com os pesquisadores do Inpa vem se somar aos saberes populares da comunidade.
“O projeto foi muito importante devido ao intercâmbio de conhecimentos que tivemos, tanto científico como no conhecimento geral sobre as aves. No projeto com os pesquisadores do Inpa pudemos colocar no livro os significados dos cantos, que tem um certo sentido, dos chamados, que têm outros sentidos, e agora, com o livro, esses conhecimentos estão aprofundados e de fácil acesso”, enfatiza Bittencourt.
Uma das aves encontradas na região da comunidade é o Galo-da-Serra (Rupicola rupicola) também chamado de Galu iwitera pura, em Nheengatu; ou Makama, em Baniwa, e foi a partir do avistamento dessa espécie que surgiu o projeto. Dzoodzo Baniwa conta que a parceria das comunidades indígenas de São Gabriel da Cachoeira com o Inpa é antiga e que o trabalho que resultou no livro veio da necessidade da comunidade de Nazaré do Rio Cubate entender sobre a potencialidade e a diversidade de aves daquela região, pensando na atividade econômica de observação de aves.
“A região do rio Cubate apresenta características específicas da paisagem, com vegetação baixa dominada por campina, coloração da água do rio escura, com formação de muitos lagos e solo arenoso. Isso dificulta apontar uma potencialidade associada à agricultura e de recursos florestais não madeireiros. Conversando mais particularmente com os diretores da Associação da Comunidade Indígena do Rio Cubate (AIRC) sobre as particularidades daquela região, relataram que existe um ambiente perto da comunidade frequentado pelas aves, com destaque para o galo-da-serra”, declara.
Para os organizadores da obra, o levantamento das espécies e as oficinas realizadas no contexto do projeto reforçam a missão do Inpa de gerar e sintetizar conhecimentos sobre a biodiversidade da Amazônia.
“A oportunidade de realizar esse estudo colaborativo solicitado pela comunidade de Nazaré do Rio Cubate reforça o papel institucional e sua relação com a sociedade Amazônica. O contato continuado entre pesquisadores indígenas e não indígenas é essencial para construir um entendimento em que sejam possíveis o diálogo e a construção de conhecimento conjunto”, ressaltam.
Fotografias registradas ao longo de 25 anos na Amazônia através das lentes do fotógrafo Serginho Silva estão expostas em Macapá. A exposição ‘Essência Amazônica’ inicia nesta quarta-feira (4) e segue até sábado (7) no Tribunal de Justiça do Amapá (Tjap), no Centro de Macapá.
A mostra conta com 30 fotos e retrata paisagens naturais dos municípios amapaenses e personagens característicos do contexto amazônico do estado, como indígenas, quilombolas e ribeirinhos.
Para o fotógrafo, a exposição destaca a importância da preservação da identidade e cultura amazônidas, além de reforçar que cada imagem carrega a assinatura de quem aprendeu a observar com o coração e a alma da Amazônia amapaense, em composições precisas e cheias de vida.
“As fotos foram escolhidas com muito carinho, entre milhares de registros feitos no Amapá, ao longo da minha carreira nesse estado lindo. Fico feliz em acumular a experiência em capturar momentos que vão além do registro, e contam histórias que revelam a essência de um povo: o amapaense. Não é somente registro fotográfico, é também pertencimento. Pois são fotos de lugares, gente das localidades tradicionais e identitárias, presentes em todo o estado”, detalhou Serginho silva.
Sobre Serginho Silva
Fotógrafo Serginho Silva, no Amapá. Foto: Serginho Silva/Arquivo pessoal
Com 35 anos de profissão no audiovisual, Pedro Sérgio da Silva, de 59 anos, é pai de duas filhas. Nascido em Fortaleza (CE), já trabalhou em seu estado natal, no Rio de Janeiro, no Amazonas e adotou o Amapá há quase meio século. Atuou em TVs, agências de publicidade, produtoras e instituições públicas.
Numa roda de conversa promovida pela Secretaria Municipal de Educação (Semec) de Belém na tarde desta terça-feira (3), o líder indígena, escritor e ambientalista Ailton Krenak citou Carlos Drummond de Andrade, Oscar Niemeyer e Greta Thunberg para falar dos desafios nos tempos futuros, tanto para a educação como para o planeta Terra.
O encontro no Cine Dira Paes, no Palacete Pinho, reuniu dezenas de professores e técnicos e teve caráter formativo, aproveitando a presença do imortal da Academia Brasileira de Letras, que nesta quarta-feira (4) participa dos ‘Diálogos dos Saberes’, no campus da Universidade Federal do Pará (UFPA).
Krenak afirmou que os ancestrais sabiam viver o tempo presente e nem imaginavam que iríamos viver “a agonia do futuro, que é o sofrimento mental”.
Na sua avaliação, a preocupação com o clima no mundo provoca doenças. “Hoje nós estamos imersos numa realidade planetária, onde o diagnóstico mais recorrente no mundo inteiro é sofrimento mental. Então, habitar o mundo hoje é viver essa crise do clima, uma crise de paradigmas, onde a educação foi a primeira vítima”.
O escritor citou o poema ‘O homem; as viagens’, de Carlos Drummond de Andrade, escrito em 1973, que trata do insaciável desejo do ser humano de conhecer outros planetas, mas a tudo ele descarta. E que a verdadeira viagem que deveria fazer seria para dentro de si mesmo. “Uma parte de nós acredita que, se essa terra se tornar inabitável, podemos ir para outro planeta”, diz Krenak.
E logo em seguida lembrou de Oscar Niemeyer que afirmava que “todos nós tivemos origem junto com os outros animais”. E arremata: “o homem, bicho pequeno na Terra, enjoa da Terra. Quer dizer, enjoa desse planeta magnífico, maravilhoso”.
Krenak prestou homenagem ao líder quilombola Nego Bispo, que viveu no Piauí. “Eu acho maravilhoso alguém que vive uma situação de privação, que sofre racismo, preconceito, segregação e tudo, mas levanta a cabeça e fala, você não pode ter medo de pensar. É maravilhoso, porque pensar é a libertação. Para além de qualquer outra estratégia, primeiro a gente tem que pensar, ter coragem de pensar”.
O líder indígena afirmou que o impacto ambiental que o planeta experimenta aponta para um futuro muito sombrio.
“É mais ou menos como você criar uma dívida enorme e passar o calote para os seus filhos, para os seus netos. Então, é muita cara de pau da sociedade ampla, complexa, que nós nos constituímos no mundo hoje, passar essa conta do clima para as gerações que virão”.
Citou a líder ambientalista sueca, Greta Thunberg, que afirma: “os adultos roubaram o futuro da minha geração”. Ela convocou os seus colegas a não ir para a escola na sexta-feira. Então a semana escolar agora é de segunda a quinta, porque sexta-feira é o dia de fazer protesto. “Quer dizer, ela introduziu uma nova disciplina no currículo, que é protesto”.
Krenak aproveitou para explicar que: “se a gente pensar que vamos criar uma educação de excelência e preparar a próxima geração, isso é uma outra ideologia protelatória. Tipo assim, o planeta quando ficar ruim mesmo, quem vai sofrer com isso não sou eu, são os nossos descendentes. E a outra hipocrisia é dizer que esse período de agravamento do clima no planeta vai ser resolvido”.
Ele prosseguiu dizendo: “se a educação é uma atribuição do mundo adulto, ao transmitir conhecimento para as novas gerações, a fim de darem conta do mundo, a gente falhou. Isso põe em xeque a nossa própria ideia de educação.Tem muita gente convencida ainda de que pode pegar as novas gerações, enquadrar as novas gerações e reproduzir no pensamento das novas gerações as ideologias extravagantes que nos deram sobrevivência até ontem”.
Krenak finalizou lembrando que “a secura dos nossos rios, a mudança dos climas regionais, o desaparecimento de alguns desses ecossistemas que a gente achava que era eterno, agora a gente está vendo que não é. Nós estamos vendo que não é porque temos a possibilidade de fazer o teste vivo, visual. Vocês sentem aqui a mudança da temperatura no corpo”.
O Serviço Geológico do Brasil (SGB) apresenta uma pesquisa sobre o potencial agromineral de Tocantins, destacando alternativas para reduzir a dependência brasileira de fertilizantes importados. O Informe de Recursos Minerais ‘Avaliação do Potencial Agromineral no Brasil – Área: Estado do Tocantins‘, que é parte do programa Mineração Segura e Sustentável, visa avaliar descartes da mineração ou de depósitos ainda não explorados, que possam ser usadas como fontes de nutrientes para a agricultura.
O estado foi escolhido devido à sua diversidade geológica e por integrar a fronteira agrícola Matopiba (que abrange Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), uma das regiões mais promissoras para o agronegócio. Tocantins é destaque na produção de grãos e frutas tropicais, além de abrigar empreendimentos minerários com potencial para o uso de rochas agrícolas.
Foram analisadas 326 amostras de rochas coletadas em diversas áreas do estado. Entre os destaques estão:
Garimpos de esmeraldas em Monte Santo: os biotita-xistos, associados às esmeraldas, contêm nutrientes como potássio (K), magnésio (Mg), cálcio (Ca), ferro (Fe), silício (Si) e manganês (Mn).
Mineração Rodolita, em São Valério da Natividade: rochas como biotititos e flogopititos são fontes de potássio, manganês, ferro e silício.
Basaltos do nordeste do estado (Filadélfia e Palmeiras do Tocantins): essas rochas fornecem nutrientes essenciais, como cálcio, magnésio, potássio, ferro, silício, níquel e manganês.
Paragnaisses da Formação Xambioá próximo a Araguaína: os finos do produto da lavagem do pó de brita dos biotita-xistos fornecem potássio, magnésio, cálcio, silício e ferro.
Além disso, há depósitos de rochas fosfatadas e de gipsita, utilizados como fertilizantes, além de pedreiras de calcário, que fornecem produtos para correção da acidez do solo. Essa etapa é fundamental para ser aplicada antes ou junto ao pó de rocha.
Redução da dependência de fertilizantes importados
De acordo com dados do Ministério da Agricultura e Pecuária, atualmente o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que usa. Os números indicam que esse quadro de dependência externa deve se manter por um bom tempo. O Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), lançado em 2022 pelo governo federal, tem como meta reduzir a importação de 85% para 45% até 2050.
O uso de remineralizadores é uma alternativa sustentável e econômica, capaz de fornecer macro e micronutrientes para o sistema solo/planta na agricultura.
Próximos passos
Embora os dados químicos e mineralógicos confirmem o potencial do Tocantins, estudos agronômicos, em parceria com outras instituições, ainda são necessários para confirmar sua eficiência em diferentes tipos de solos e culturas.
O informe representa mais uma fonte de informações indispensável para a atração de novos investimentos no uso de remineralizadores de solo a partir de descartes da mineração, fornecendo insumos não tradicionais para o setor agrícola, contribuindo para impulsionar as economias regional e nacional.
O Bloco Recreativo Carnavalesco Líbero-Musical e Antifóbico “Império Romano”, de Belém, foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado pela Assembleia Legislativa do Pará (Alepa). O reconhecimento ocorreu no dia 3 de dezembro, por meio do projeto de Lei Nº 600/2023, proposto pela deputada Lívia Duarte (PSOL).
O bloco carnavalesco foi fundado em 1970 e é realizado sempre no dia 25 de dezembro, dia de Natal, nos bairros do Reduto e Umarizal. Aprovado por unanimidade, o PL deve ir para sanção do governo.
Em Manaus (AM), pesquisadores têm utilizado a biotecnologia para garantir mudas de espécies nativas da Amazônia de alta qualidade e uniformes para os setores agroflorestal, medicinal e ornamental. A iniciativa faz parte do projeto ‘Biotecnologia 4.0: Biofábrica de Plantas in vitro’ e visa produzir mudas com uma velocidade maior do que os métodos convencionais, para espécies de valor econômico como pau-rosa, copaíba, sucuuba e jucá. O projeto conta com o apoio do Governo do Amazonas, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).
Coordenado pelo doutor em Biotecnologia e Biodiversidade, Daniel da Silva, da empresa ‘Magnus Amazônia‘, a ação amparada pelo Programa Centelha Amazonas 2, utiliza uma técnica identificada como micropropagação, que consiste numa clonagem de plantas em escala industrial. A tecnologia de micropropagação pode produzir milhares de mudas geneticamente idênticas e livres de doenças em um tempo menor que os métodos tradicionais.
“A micropropagação é uma técnica de multiplicação de plantas em escala industrial em ambiente controlado. Pequenos fragmentos de uma planta mãe são cultivados em condições assépticas e em meio de cultura enriquecido com nutrientes e hormônios, o que estimula a formação de novas plantas”, disse Daniel, que também é pós-doutor em Ciências de Florestas Tropicais (área de concentração: Silvicultura Tropical) do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
Foto: Ayrton Lopes/Decon Fapeam
O pesquisador explica que a produção de mudas de alta qualidade, por meio da biotecnologia, contribui para a recuperação de áreas degradadas, a conservação da biodiversidade e a geração de renda para as comunidades locais. Além disso, a utilização de espécies nativas fortalece a economia regional e promove o desenvolvimento de produtos com alto valor agregado.
Benefícios
Entre os benefícios destacam-se a uniformidade, ou seja, todas as mudas produzidas por micropropagação são geneticamente idênticas à planta mãe, o que garante um crescimento uniforme e características homogêneas. As mudas também são livres de doenças e pragas, aumentando significativamente suas chances de sobrevivência após o plantio.
Por ser um processo mais rápido também permite a produção de um grande número de mudas em um curto período de tempo, dessa forma agiliza os processos de reflorestamento e recuperação de áreas degradadas. A técnica contribui ainda para a multiplicação de espécies ameaçadas de extinção, favorece a conservação da biodiversidade.
Parceria
A empresa Magnus Amazônia mantém parceria com instituições de ensino, como a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e o Inpa, por meio da integração de alunos de pós-graduação dos cursos de biotecnologia e ciências florestais, respectivamente, em seus projetos de pesquisa, o que fortalece a capacidade de inovação e a aplicação de novas tecnologias no setor de bioeconomia.
Amacro é o acrônimo dos estados do Amazonas, Acre e Rondônia. Assim como o Matopiba, acrônimo de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, se trata de uma região chamada de “zona especial de desenvolvimento sustentável”, criada em 2021 pelo governo federal, para o avanço das fronteiras do agronegócio, da mineração e de grandes empreendimentos. No caso da Amacro, o estado do Mato Grosso também faz parte.
Para tratar dos impactos deste avanço das fronteiras agropecuárias nos territórios ocupados por populações tradicionais e áreas de conservação, povos indígenas e pequenos agricultores dos estados que compõem a Amacro se reuniram em Porto Velho (RO), entre os dias 12 e 14 de novembro, para oficinas e discussões de estratégias com o objetivo de enfrentar a roda do desmatamento e destruição associada à Lei 14.701/23, a chamada Lei do Marco Temporal.
A “sustentabilidade” do projeto é questionada pelos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, sem terras e ambientalistas. Segundo levantamento do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), só em 2022, por 36% do desmatamento na Amazônia Legal. A abertura de áreas para a agropecuária cresceu em média 5,61% por ano de 2018 a 2022, mais que o dobro da média para o bioma no Brasil.
Uma análise exclusiva da InfoAmazonia, com base nos dados da rede MapBiomas, aponta que em 20 anos, de 2003 a 2022, a área destinada ao agronegócio na Amacro mais que dobrou de tamanho e chegou a 7,2 milhões de hectares, um território maior do que o da Irlanda. Atualmente, em 13 dos 32 municípios que compõem a região, a agropecuária já ocupa uma área maior do que a floresta.
“Nunca fomos consultados ou fizemos parte das discussões sobre Amacro. Sabemos o que é pelas organizações que nos apoiam, como o Cimi, nossos aliados nas universidades, professores e pesquisadores. Enquanto defendemos territórios para a vida, a Amacro quer a morte deles para colocar pasto, plantar soja. As invasões já começaram”, disse Fernandino Quazar Aikanã.
O mercado de carbono também foi abordado durante o encontro em análise sobre os impactos do dispositivo Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (Redd). “As terras indígenas passam a não ter mais usufruto exclusivo, são vigiadas, os desmatamentos não cessam e o povo acaba pagando a conta enquanto (indústrias) seguem poluindo. É uma enganação”, enfatizou Fernandino.
Ao término do encontro, os povos presentes redigiram um manifesto contendo suas mais destacadas motivações de resistência.
Leia na íntegra:
Manifesto contra as invasões dos nossos territórios, a mercantilização da natureza e a favor da vida
Nós, lideranças indígenas representantes dos povos: Nawa, Nukini, Huni Kuĩ, do estado do Acre; Apurinã, Jamamadi, Jaminawa, Mura e Munduruku, do estado de Amazonas; Arara, Oro Eu, Cassupá, Aikanã, Oro Waram, Oro Mon, Aruá, Karitiana e Canoé, do estado de Rondônia; Enawene Nawe, Rikbaktsa, do estado Mato Grosso; e comunidades tradicionais em conjunto com nossos parceiros: CIMI, CPT, Fundação Rosa de Luxemburgo, WRM e aliados da causa indígena, reunidos entre os dias 12 e 14 de novembro de 2024 na cidade de Porto Velho, estado de Rondônia, debatemos sobre as ameaças aos direitos e aos nossos territórios, tais como: a desconfiguração dos direitos dos povos originários, com aprovação da lei 14.701/2023 aprovado pelo Congresso, uma afronta à decisão do STF que julgou o RE 1.017. 365 contra a tese do Marco Temporal.
Reafirmamos a posição da APIB de se retirar da Câmara de Conciliação criada pelo Ministro Gilmar Mendes. Expressamos nossa indignação com o fato do ministro, após a retirada da APIB, ter intimado, por meio do Ministério dos Povos Indígenas, “representantes” para comporem a mencionada Câmara. Nós não consideramos a Câmara de conciliação o mecanismo apropriado para resolver um tema sensível como os direitos originários e fundamentais garantidos pela Constituição Federal nos Art. 231 e 232 como Cláusula Pétrea, os direitos humanos não são negociáveis.
Sabemos que a COP 30 vai acontecer no Brasil. O governo não representa as comunidades indígenas e tradicionais de base na COP 30 e as lideranças indígenas que estão vinculadas ao governo não representam as comunidades indígenas e tradicionais de base. Queremos ressaltar que as lideranças indígenas e povos tradicionais das aldeias e comunidades querem ter informações sobre a COP e nos posicionar nesse debate. Entendemos os REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal) e REM (programa do governo alemão para premiar “pioneiros do REDD”) como projetos de falsas soluções para a crise climática.
Denunciamos o avanço da nova fronteira agrícola chamada AMACRO (Amazonas, Acre e Rondônia) sobre os territórios indígenas e sobre a floresta trazendo grandes impactos aos povos indígenas e às comunidades tradicionais com o avanço da plantação de soja, milho, sorgo e uso abusivo de veneno nesses plantios causando doenças em nossas comunidades, poluindo os rios, lagos, igarapés e lençol freático, matando nossos peixes e contaminando todo o ecossistema.
Os grandes projetos de infraestrutura como hidrelétricas, BR 317, BR 319 Rodovia Binacional Cruzeiro do Sul a Pucallpa, no Peru, Ferrovia, ramais, portos impactando os povos indígenas, sobretudo as terras não demarcadas, violando direitos quando não são consultados conforme a Convenção 169 da OTI, que garante a consulta livre, prévia e informada.
Denunciamos o descaso do governo brasileiro e da Funai em relação aos povos indígenas isolados. O governo tem falhado em reconhecer, demarcar e proteger adequadamente os territórios desses povos, enquanto planeja ou apoia projetos que impactam áreas habitadas por estes povos. A mencionada Rodovia Binacional atravessaria o Parque Nacional da Serra do Divisor, uma das áreas de maior biodiversidade do Planeta e habitat de povos indígenas isolados. Da mesma forma, a proposta da “Ferrovia para o Pacífico”, discutida pelo governo há anos, representa uma ameaça direta à existência desses povos. Além disso, denunciamos as reiteradas iniciativas de prospecção de petróleo nesta região. Esses projetos, caso implementados, terão consequências catastróficas para a floresta e para os povos que nela habitam. Tememos que, com o novo porto de Chancay, no Peru, recentemente inaugurado com a presença do presidente da China, esses empreendimentos ganham novo impulso.
Com ausência do Estado, não demarcando e protegendo as terras indígenas, as comunidades estão à mercê da sua própria sorte com empresas aliciando os povos originários e tradicionais para aceitar contratos de REDD, sem que estes povos entendam como funcionam e o que são estes contratos de REDD. Após ter analisado e discutido esse tipo de projeto, chegamos à conclusão de que ele não pode trazer benefícios de longo prazo para nossas comunidades e nem para as catástrofes ambientais.
Ao contrário, traz divisão e conflitos internos e, ao restringir nosso uso tradicional da terra, ameaça nossa soberania territorial e segurança alimentar. Além disso, contribui com a contínua queima de combustíveis fósseis, uma vez que objetiva a emissão e venda de créditos de carbono, que na verdade devem ser chamados de permissões para poluir. Entendemos que as secas, incêndios e inundações, que cada vez mais frequentemente atingem nossas terras, se dão em consequência da poluição por parte das indústrias e não queremos ser cúmplices desta destruição da nossa Mãe Terra. Ao contrário, exigimos que as sociedades industrializadas, por serem os principais responsáveis pela crise climática, com a máxima urgência, ao invés de “compensarem” suas emissões, com estes enganosos créditos, as reduzam radicalmente.
Exigimos o cumprimento integral dos Art. 231 e 232 da CF que foram referendados pelo STF no julgamento do marco temporal, avançando com as demarcações das terras indígenas e a proteção destes territórios garantindo a integridade física das lideranças indígenas ameaçadas na luta pelo território.
Nos comprometemos em manter as comunidades em alerta para qualquer ameaça aos nossos direitos e aos nossos territórios.
Clamamos a todos os seguimentos da sociedade que se levantem contra os desmontes dos direitos indígenas, nossas terras não estão disponíveis para comércio, mineração e a substituição das nossas florestas para dar lugar ao agronegócio. Resistiremos!
Os rios Amazonas, Purus, Madeira, Solimões, Negro, que estão entre os principais da bacia do Amazonas, e também o afluente Paraná do Careiro, enfrentaram uma seca sem precedentes em 2024.
Onze das 16 estações de monitoramento da altura dos rios da bacia (68% do total) registraram, até 29 de outubro, os níveis mais baixos dos últimos 122 anos, desde o início do monitoramento do Serviço Geológico do Brasil (SGB), segundo análise exclusiva da InfoAmazonia.
O monitoramento do SGB na bacia do Amazonas abrange, além desses seis rios, outros dois: o Acre e o Branco (a reportagem usou o boletim da Bacia do Rio Amazonas, do SGB, que traz os oito rios mencionados. Além destes, os rios Japurá, Xingu e Tapajós também se destacam dentro da bacia, por suas extensões). Juntos, eles são responsáveis por abastecer populações urbanas, ribeirinhas e indígenas nos estados de Roraima, Acre e Amazonas.
“Estamos falando de uma região que depende unicamente dos rios para abastecimento e locomoção. Não temos estradas, temos os rios”, explica Jussara Cury, pesquisadora responsável pelos boletins do SGB da bacia do Amazonas.
A bacia se estende além dos limites do Brasil, abrangendo também a Colômbia, o Peru, o Equador e a Bolívia, sendo a maior bacia hidrográfica de água doce do planeta, com 1.700 rios e os dois maiores arquipélagos fluviais do mundo: Mariuá e Anavilhanas. Além disso, o rio Amazonas, que integra a bacia, é o maior rio do mundo.
11 das 16 estações de monitoramento da bacia do Amazonas atingiram menor nível da história em 2024
Seca nos rios Amazonas, Madeira, Solimões, Negro, Purus e Careiro levou às menores cotas mínimas em 122 anos. Cada estação possui uma régua com uma marca zero, que representa o nível do rio no momento em que ela foi instalada. Os índices negativos estão abaixo dessa marca.
O rio Solimões tem quatro pontos de medição do nível da água localizados nos municípios de Tabatinga, Manacapuru, Itapeua e Fonte Boa. Cada um deles possui uma régua com gradações em centímetros com a marca zero, que representa o nível em que o rio estava no momento em que a régua foi instalada. A data da instalação varia e, no caso desses rios, ocorreu há cerca de 30 anos.
Todas as quatro estações do rio Solimões registraram o menor nível da história, conhecido como evento mínimo. Em Fonte Boa, a seca mais grave havia ocorrido em 2010, quando o rio atingiu 802 centímetros (cm) em 22 de outubro. Em 2024, o nível chegou a 717 cm em 12 de outubro.
Seca no rio Solimões no município de Tabatinga
Estação de monitoramento do município atingiu o menor nível da história em 8 de outubro deste ano.
Fonte: Planet Labs. Inc., Serviço Geológico do Brasil (SGB) • Análise e visualização: InfoAmazonia
Na estação de Tabatinga, a cota (termo técnico para o nível do rio em altura) mínima histórica era de -86 cm (oitenta e seis centímetros abaixo da marca zero da régua), registrada em outubro de 2010. Em 2024, o evento mínimo atingiu -234 cm, também em outubro.
O povo Kokama vive agora às margens de um rio Solimões seco. São mais de 100 pessoas que moram à beira de um extenso banco de areia, numa praia formada após a seca, na Terra Indígena (TI) Assunção, próxima ao município de Alvarães, no Amazonas, a cerca de 531 km da capital Manaus.
Terra Indígena Assunção vive a seca do rio Solimões
Fonte: Planet Labs. Inc., Serviço Geológico do Brasil (SGB) • Análise e visualização: InfoAmazonia
A TI ainda não é demarcada pelo governo federal e falta infraestrutura para amenizar os danos de eventos extremos. Por isso, os moradores da comunidade racionam água desde agosto. Parte deles usa a água do poço, enquanto a outra espera pelo dia seguinte para sua vez.
A conselheira de saúde da TI, Maria Auxiliadora Kokama, conta que a situação se agravou na seca do ano passado e, neste ano, se repetiu. Quando conversou com a reportagem, em setembro, ela estava sem água na torneira, aguardando o dia seguinte para ter acesso.
“Eu nunca imaginei que esse rio ficaria assim, mas o meu velho pai dizia que um dia o Amazonas se tornaria o Ceará. Isso aqui, esse mundão de rio, ele disse que um dia ia virar seca. Eu me lembro dessas palavras dele e hoje eu tô vendo”, diz a conselheira de saúde.
Foto: Jullie Pereira/InfoAmazonia
As faixas de areia aumentam a distância até os municípios mais próximos e provocam o surgimento de redemoinhos e tempestades de poeira. Os ventos sopram com tanta força que movimentam a areia, fazendo-a flutuar no ar e formar uma nuvem de poeira.
“A senhora nem imagina como isso aqui fica branco, branco, branco de areia. Dentro da nossa casa fica um monte de areia. É muito triste. Às vezes, dá vontade de a gente abandonar e ir embora”, conta. “Tem criança que tem arritmia, que tem asma, [é] pior quando eles gripam. A areia atrapalha muito”, complementa.
Por causa dessas tempestades de areia, da falta de água e do excesso de calor, o professor Gleison Martins, que ministra aulas de língua kokama e saberes ancestrais na comunidade, precisou reduzir a carga horária escolar.
“O calor é quase insuportável. Por causa da secura, os alunos ficam agoniados. Por mais que você tenha o ventilador, por mais que você esteja com sua água gelada o tempo todo, o calor deixa a gente fadigado”.
Martins tenta explicar às crianças que a seca é um dos eventos climáticos extremos e usa a situação como exemplo para falar sobre a importância da preservação da floresta. “Todo dia, nós vemos que o nosso Solimões está se tornando um deserto. Aqui, na frente, estava a nossa água para tomar nosso banho. Hoje nós estamos vendo uma pintura seca. Nossas crianças estão sentindo tudo isso”, conta.
Foto: Jullie Pereira/ InfoAmazonia
A pesquisadora Jussara Cury afirma que a estação de Tabatinga é a referência para a bacia, localizada no oeste, onde o Solimões entra no país.
“Tabatinga está na região mais a montante, é por lá que eu vou saber quando a estiagem vai acabar. Se o rio está subindo, se está mais consistente, se mudou o regime, é por lá que monitoramos”, explica.
De acordo com o último boletim divulgado pelo SGB, em 6 de novembro, a estação de Tabatinga está apresentando elevações diárias consideráveis, subindo 2,84 m naquela semana. Caso ocorra estabilidade nas elevações nos próximos dias, ainda deve levar semanas para que o restante da bacia atinja estabilidade. Em outros rios, como o Negro, na estação de Manaus, o nível continua a descer.
Foto: Paula Silva/ Instituto Mamirauá
Rios secaram mais cedo
No rio Negro, há quatro estações de monitoramento do SGB: Tapuruquara, São Gabriel da Cachoeira, Manaus e Barcelos, sendo que as duas últimas atingiram os menores níveis históricos este ano. Em Manaus, o rio chegou a 12,17 metros (m) em 8 de outubro. Dois dias depois, em 10 de outubro, atingiu outra marca histórica: 12,11 metros. A pior cota anterior era de 12,70 m, registrada em 26 de outubro do ano passado. Em Barcelos, o recorde de 2024 foi de 6 cm em 28 de fevereiro, enquanto a mínima anterior registrada era de 58 cm, atingida em 18 de março de 1980.
Ou seja, em ambas as estações, o recorde ocorreu antes do que geralmente é previsto. A InfoAmazonia também verificou o padrão das datas em que os rios atingiram os níveis mais graves e verificou que isso também se repete nos outros rios: das 11 estações que registraram recordes neste ano, 10 tiveram eventos mínimos entre o final de setembro e o começo de outubro. A análise histórica mostra que o esperado era que isso ocorresse no final de outubro.
Desde que osefeitos do El Niño, fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico, começaram a ser sentidos em julho de 2023, a chuva diminuiu na Amazônia. Essa seca antecipada também está atrelada ao aquecimento das águas do Oceano Atlântico, que provoca a evaporação do ar, que chega à Amazônia e inibe a formação das nuvens carregadas. Com os dois fenômenos ocorrendo ao mesmo tempo, a região viu os rios apresentarem um cenário fora da normalidade.
Segundo os dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), publicados no início de novembro, 59% dos municípios do estado do Amazonas (37 dos 62 existentes) estão passando por níveis de seca severa e extrema. Em oito localidades, o evento ocorre há mais de um ano: Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro, Codajás, Maraã, Guajará, Fonte Boa, Uarini e Ipixuna.
Foto: Paula Silva/Instituto Mamirauá
As comunidades ficam mais isoladas
A cidade de Uarini, distante 595 km da capital Manaus, enfrenta condições de seca há 15 meses. A região é banhada pelo Solimões e seus afluentes. Lá, a jovem Bianca* Silva (*nome fictício, substituído a pedido da entrevistada), de 20 anos, precisou dar à luz à filha sem uma equipe médica completa, porque não teve tempo de chegar ao hospital.
A cidade de Bianca conta com uma unidade de saúde limitada e, quando necessário, os pacientes são encaminhados para Tefé, município que com a seca fica a 4 horas de distância. Em época de normalidade do rio, esse tempo se reduz para 3 horas.
No final da gravidez, ela já estava sendo orientada a ter um parto cesariano, realizado por meio de uma cirurgia com corte na parte inferior do abdômen. Quando começou a sentir as dores, em 12 de setembro, foi levada ao hospital de Uarini, onde duas enfermeiras e uma parteira estavam presentes. Para ela, o ideal seria fazer a cirurgia, mas não foi possível, já que a equipe médica necessária para a cesárea inclui também um obstetra e um anestesiologista.
A alternativa de viajar até Tefé para realizar o procedimento também estava indisponível. Com rios estreitos, rodeados por praias e com o surgimento de galhos e rochas no caminho, a viagem implicava o risco de naufrágio, tempestades de areia e acidentes com outras embarcações. “Eu não tinha passagem [dilatação] para ter o parto normal, mas acabaram me fazendo ter o parto normal mesmo. Minha filha já estava muito embaixo. Ela nasceu com uma manchinha vermelha no olho porque eu a ‘apertei’ muito durante a passagem”, conta a jovem.
Agora, Bianca e sua filha enfrentam o calor intenso da cidade. Na casa de palafita onde moram, os ventiladores são a única opção. Bianca tenta amenizar o calor colocando a filha nos locais mais frescos, mas o calor já começa a afetar a saúde dela. “Ela fica muito agoniada, com o rostinho vermelho. Deixo ela só de fralda, coloco no colchãozinho lá fora, mas está muito quente”.
Outro que precisou enfrentar a seca do rio Solimões para ter acesso ao hospital foi Mesaque Brandão, 16 anos. Jovem da Comunidade Vila Soares, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Amanã, no município de Uarini, ele quebrou o pé jogando bola em 19 de setembro. Sem uma rabeta em casa, precisava pedir emprestado uma embarcação e navegar cerca de 30 minutos até a cidade.
Vídeo: Reprodução / Infoamazonia
A situação era difícil, porque o acidente ocorreu no final da tarde e navegar à noite é muito perigoso. Além dos impactos da seca, a região é conhecida pela presença dos piratas, homens que roubam dinheiro, objetos e embarcações nos rios. Brandão só conseguiu sair de caso no outro dia, pela manhã.
“Eu estava chorando de dor e lá não tem posto de saúde. O jeito foi a gente vir para cá. A minha mãe veio me trazendo devagarzinho, vim segurando no ombro dela. Chegando no porto eu peguei uma moto, não estava mais aguentando, foi difícil”, conta.
Foto: Jullie Pereira/ InfoAmazonia
Como analisamos a seca na Bacia do Rio Amazonas?
Nesta reportagem, analisamos os dados semanais de nível dos rios (cotas) publicados em boletins do Serviço Geológico do Brasil (SGB) de janeiro a outubro de 2024, que também informam os níveis mínimos históricos de cada estação desde 1902.
O escopo da análise compreende 16 estações da bacia do rio Amazonas, monitoradas pelo SGB, distribuídas por 8 rios, são eles: Acre, Amazonas, Branco, Madeira, Negro, Purus, Solimões e Paraná do Careiro.
Para a análise e elaboração do gráfico que mostra a série histórica dos níveis dos rios, utilizamos os dados diários de cotas abertos da Agência Nacional das Águas (ANA) de 1920 a 2023.
Para reforçar nosso compromisso com a transparência e garantir a replicabilidade das análises, a InfoAmazonia disponibiliza os dados nesta pasta.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela InfoAmazonia, escrito por Jullie Pereira