A Arena Junina está grandiosa, com capacidade para receber mais de 5 mil pessoas. Foto: Diane Sampaio/PMBV
O Boa Vista Junina começa nesta terça-feira, 3, na Praça Fábio Marques Paracat e com ele, o tradicional ‘Concurso de Quadrilhas’, que este ano, promete emocionar o público boa-vistense com a celebração de 25 anos do Maior Arraial da Amazônia. A Arena Junina está ainda mais grandiosa, com estrutura coberta, iluminação cênica e capacidade para receber mais de 5 mil pessoas.
A competição contará com a participação de 24 grupos – 12 do Grupo Especial e 12 do Grupo de Acesso. O concurso segue até sexta-feira, 6, com a grande apuração marcada para o dia 7. No domingo, 8, último dia do evento, se apresentam as campeãs do Grupo de Especial e do Grupo de Acesso, que serão contempladas com troféus. A grande vencedora do Grupo Especial também garantirá um pacote com passagens aéreas para representar Roraima no cenário nacional de quadrilhas.
O “Giro de Saia” é um dos grandes destaques das apresentações dos grupos juninos. Foto: Diane Sampaio/PMBV
Maior Arraial da Amazônia repleto de novidades
A estrutura da Arena Junina foi pensada para proporcionar conforto e visibilidade ao público, com um tablado de mais de 700 metros quadrados, um dos maiores já utilizados no evento. A iluminação cênica dará o toque final às apresentações, valorizando ainda mais os detalhes de cada espetáculo.
Entre as novidades deste ano está a premiação técnica individual, com troféus para os três primeiros colocados nas categorias de visagismo, cenografia e iluminação cênica – avaliadas por professores doutores do curso de Artes Visuais da UFRR. A tradicional premiação para os destaques do concurso segue com R$ 6 mil para cada eleito nas categorias Rei Matuto, Rainha Caipira, Rainha da Diversidade e Casal de Noivos.
A premiação técnica individual, com troféus para os três primeiros colocados nas categorias de visagismo, cenografia e iluminação cênica está entre as novidades deste ano. Foto: Giovani Oliveira/PMBV
“25 anos de brilho, tradição e resistência”
Para o diretor executivo do Concurso de Quadrilhas Juninas, Chiquinho Santos, a edição comemorativa de 2025 será um verdadeiro espetáculo da cultura popular.
“O público pode esperar ainda mais brilho e emoção este ano. Ampliamos a capacidade da Arena Junina, atendendo a um pedido antigo da comunidade. Também aumentamos o tablado para mais de 700 metros quadrados, garantindo mais liberdade de criação para os grupos. Tudo isso para celebrar os 25 anos de história do Boa Vista Junina com a grandiosidade que ele merece”, disse.
Chiquinho também destacou o impacto social e econômico do evento. “O Boa Vista Junina não é só um giro de saia ou uma palma de mão. É uma manifestação artística que movimenta a economia criativa da nossa cidade. Isso é identidade cultural gerando desenvolvimento e oportunidade”, garantiu.
Os quesitos a serem avaliados durante as apresentações incluem desde coreografia, repertório, figurino até criatividade e animação. Foto: Giovani Oliveira/PMBV
O corpo de julgadores contará com nove especialistas – sendo três de fora do Estado – com formações e vivências diversas, incluindo representantes indígenas e quilombolas. Os quesitos a serem avaliados vão desde coreografia, repertório e figurino até criatividade e animação. Com tanta diversidade e dedicação, o Concurso de Quadrilhas promete encantar, emocionar e reforçar o orgulho de ser roraimense reafirmando o Boa Vista junina como o maior da Amazônia.
Em Parintins, cada toada é um grito da floresta e um canto de identidade. No embalo da rivalidade entre Caprichoso e Garantido, surgem palavras que vão além da melodia. Para o festival deste ano, o Garantido traz a ‘Perrechéologia’, mistura de tradição e orgulho vermelho. Já o Caprichoso chega com ‘Palmares, uma Invasão Caprichoso’, toada marcada por força, resistência e raiz azul.
Entender esses termos é se aprofundar no vocabulário criativo de um festival onde música, história e emoção se misturam na voz do povo da Ilha Tupinambarana e, para isso, o Grupo Rede Amazônica mergulhou no universo do Festival Folclórico de Parintins e ouviu quem dá voz a essa poesia: os próprios compositores.
‘Palmares, Uma Invasão Caprichoso’, composta por Adriano Aguiar, Vanessa Aguiar e Edval Machado, é mais que uma toada — é um grito de retomada. Com versos que exaltam a origem do boi azul e a força do povo que o viu nascer, a canção costura memórias e resistência em cada palavra.
Ao cantar a história do Caprichoso, os compositores resgatam raízes e homenageia a coragem de quem, mesmo sem estrutura ou apoio, construiu um dos maiores símbolos da cultura amazônica.
A toada traz expressões carregadas de identidade local, como “pra lá da placa”, referência ao bairro do Palmares, onde nasceu o boi, além de “lombrigueira”, árvore típica de Parintins, e “Seo Jove”, figura histórica do Caprichoso, entre outras.
Boi Caprichoso. Foto: Divulgação
Veja o que significa as expressões utilizadas pelos compositores do boi azul e branco:
🌟 Pra lá da placa: termo utilizado para identificar a comunidade que deu origem ao bairro do Palmares, reduto do Boi Caprichoso;
🌟 Lombrigueira: árvore típica de Parintins que ficava localizada no fim do bairro do Palmares, próximo ao lago do Macurany;
🌟 Canto da porrada: bar popular do Palmares, onde antigamente ocorria a briga de ‘galeras’ (grupo de jovens);
🌟 Seo Jove: morador muito ilustre do bairro do Palmares e fundador do time o ‘Estrela do Norte’. “Ele também chegou a brincar de boi no Caprichoso, inclusive chegou a ser o tripa do boi. É uma grande figura do nosso Palmares”, contou Adriano Aguiar.
A toada ‘Perrechéologia’ é um manifesto em forma de ritmo, que exalta com orgulho a tradição do povo vermelho e a grandiosidade do Boi Garantido, conhecido como a verdadeira realeza da Baixa do São José.
Com melodia marcante e versos cheios de identidade, a composição valoriza as raízes culturais da galera encarnada, celebrando um modo de viver e festejar que atravessa gerações. O termo “perrechélogia” mistura irreverência com sabedoria popular, criando quase uma ciência do boi, da rua, da fé e da resistência.
Ao longo da letra, os compositores Jaércio Curuatá, Bruno Bulcão, Nazira Marques e Alessanda Reis pintam o retrato de um Garantido que pisa firme no chão da ilha, levando consigo o orgulho do seu povo.
Boi Garantido. Foto: Patrick Marques/Rede Amazônica AM
Veja o que significa as expressões utilizadas pelos compositores do boi vermelho e branco:
❤️ Um pirão de gente: pirão é farinha molhada que vira uma massa firme, bem do jeito do Norte. Também é jeito de falar de um povo reunido: um amontoado de gente;
❤️ Tece um tapete encarnado: alusão aos tapetes vermelhos que se estendiam para a realeza passar — o povo reunido tece seu próprio tapete encarnado para o Garantido desfilar;
❤️ Perrechéologia: é a “ciência” que explica o sentimento de ser Garantido, que só quem sente de verdade consegue entender;
❤️ Apofiar: “é como uma criança tentando apostar corrida com um carro. Ela sai correndo do lado e dizem que ela está ‘apofiando’. Então, posso dizer que eu vou apofiar com o Garantido. Eu vou junto, na fé e na coragem”, narrou Bruno Bulcão.
Festival de Parintins 2025
O 58º Festival Folclórico de Parintins acontece nos dias 27, 28 e 29 de junho, no tradicional Bumbódromo de Parintins, interior do Amazonas. Ao longo das três noites de apresentação, 21 itens de cada agremiação são julgados em apresentações de no máximo 2h30.
Este ano, o Boi Caprichoso apresenta o tema ‘É Tempo de Retomada’ em busca do tetracampeonato. O tema é inspirado no livro de mesmo nome da escritora indígena Trudruá Dorrico. A escolha tem como objetivo valorizar a cultura indígena e reafirmar o compromisso do bumbá azul e branco com a defesa da Amazônia e dos povos tradicionais.
Já o Boi Garantido leva para a arena o tema ‘Boi do Povo, Boi do Povão’ para tentar alcançar seu 33º título na história do Festival. Com essa temática, o bumbá vermelho e branco promete levar ao Bumbódromo uma celebração da resistência, ancestralidade e força de seus povos, reafirmando sua posição como o mais querido do povão.
Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
Ao comparecer à Comissão de Infraestrutura do Senado Federal, na terça-feira, 27, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva (MMA), foi alvo de severas críticas aos seus posicionamentos divergentes em relação a todo e qualquer iniciativa pública alusiva a interesses autóctones relacionados ao desenvolvimento regional.
A ministra age com extremo rigor, e este é um ponto de alta tensão entre ela, as ONGs que representa e a sociedade brasileira e amazônida, ao mandar prender bois em terras sem a devida regularização fundiária; mandar destruir balsas de mineração clandestina, expulsar madeireiros ou pescadores operando em áreas desprovidas de títulos de propriedade rural comprovantes da posse legal de uma área de terra utilizada em atividades agrícolas, pecuárias ou florestais, essencial à garantia da segurança jurídica do ocupante. Além de passo fundamental para a regularização fundiária, à promoção da cidadania e ao fortalecimento da agricultura familiar das comunidades rurais. Enquanto isso, o país permanece desprovido de políticas públicas voltadas à correção dos atos de degradação florestal.
Marina da Silva é omissa ao não participar in-loco de discussões sobre planos, programas e projetos voltados à implantação de infraestrutura sócio-econômica, à necessidade de correção de crônicos pontos de ineficiência do sistema de ensino, pesquisa e extensão, ao desenvolvimento de tecnologias de processo e produto, à um sistema educacional e de saúde pública ajustado às condições geopolíticas da região. O posicionamento da ministra e de sua tropa de choque, os jurássicos Ibama e Icmbio, é sempre marcado por fortes tensões e divergências entre a gestora, o Congresso e a comunidade amazônica quando defende uma Amazônia em estado natural, como Deus a criou. Esquecendo, mesmo nascida no estado do Acre, que a região, 59% do território brasileiro, abriga uma população de cerca de 30 milhões de habitantes, que, historicamente, depara se com graves adversidades, como desmatamento, pobreza e violência.
Marina Silva. Foto: Fernando Donasci/MMA
Na Comissão, a ministra foi cobrada pela demora na liberação de licenças ambientais, na aprovação da exploração de petróleo na Margem Equatorial brasileira e na conclusão da rodovia BR-319, obra que tem na ministra do Meio Ambiente seu maior pesadelo. Daí hoje ser amplamente reconhecida como inimiga número 1 da Amazônia. Sua presença foi marcada por posicionamentos intransigentes como se o Senado fosse um colegiado de neófitos. A despeito dos defeitos e suspeitas que marcam a instituição, assim como a própria ministra, certamente hão de ser respeitados, mesmo que ela não o faça por merecer. Na verdade, o MMA e o próprio governo federal não têm um projeto de Amazônia, um plano de curto, médio e longo prazo estabelecendo prioridades à promoção do desenvolvimento regional. O presidente Lula, aqui tão bem votado, deve uma palavra de apoio à região.
O MMA não está minimamente preocupado com as reivindicações do Amazonas, das classes empresariais e da própria sociedade sobre medidas de proteção florestal, Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE), regularização fundiária ou a conclusão da BR-319. Ignora que o Amazonas detém cerca de 95% de seu território absolutamente preservado e que, conforme dados do governo estadual, 54,73% configuram áreas estaduais protegidas, distribuídas entre Unidades de Conservação Federal (14,97%), Estadual (12,06%) e Terra Indígena (27,7%). Para Silva, entretanto, isso não é suficiente. Ela é adversa a todo e qualquer programa voltado ao desenvolvimento regional, mesmo que tenha como premissas o aproveitamento dos recursos da biodiversidade com preservação ambiental.
Quanto à exploração das reservas petrolíferas em águas profundas na margem Equatorial, a região litorânea entre o Amapá e o Rio Grande do Norte, o IBAMA aprovou o plano da Petrobras de proteção à fauna local. Essa aprovação é uma etapa importante no processo de licenciamento ambiental da operação, permitindo o avanço à próxima fase envolvendo vistorias e simulações de resgate de animais em caso de acidente. Mesmo assim, Marina da Silva não valoriza esses passos. Tanto que, num passe de mágica, determinou a criação de quatro unidades de conservação na Margem Equatorial sob a alegação de que não impedirão a pesquisa e a exploração econômica da região.
Não leva em conta, entretanto, a distância da foz do rio Amazonas ao poço exploratório, que visa investigar o potencial da região, encontrar-se a mais de 500 km do estuário do rio Amazonas. Distância semelhante à que separa as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, portanto, fora de qualquer possibilidade de virem a causar danos à flora e à fauna pela exploração petrolífera na região. “Quem chora por ti, Amazônia?”, choramos nós que lutamos por um polo industrial integrado à bioeconomia sustentado logisticamente pela BR-319 e vias náuticas sinalizadas e seguras dos rios Madeira e Solimões, por uma infraestrutura, enfim, que permita que o Amazonas, definitivamente, faça parte do Brasil.
Sobre o autor
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).
Em um ano, 200 mil alunos com autismo foram matriculados em escolas comuns. Foto: Mardilson Gomes/SEE
O Acre é o estado com a maior taxa de escolarização entre pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) do país, com 55% desta população escolarizada. Foi o que mostrou um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), baseado em dados do Censo 2022, divulgado na sexta-feira (23).
A pesquisa de escolarização considerou as pessoas diagnosticadas acima dos 6 anos de idade. O estado ficou acima da média nacional, que foi de 37%.
Esta taxa também é maior entre homens que entre mulheres: 62% entre o público masculino contra 41% da população feminina com TEA. Os maiores índices segundo o IBGE são do Acre (54,64), Amapá (51,75) e Sergipe (44,35).
Outra tendência revelada pela pesquisa é de que a faixa etária mais baixa, entre 6 e 14 anos, é a mais escolarizada, com 96,3%. O público de 15 a 17 anos tem 80% de escolarização, seguido por 28,17% do público entre 18 e 25 anos, e apenas 7,3% da faixa acima de 25 anos.
Entre os municípios, o que tem a maior taxa de atualização de pessoas acima de 6 anos diagnosticadas com TEA é Assis Brasil, com 87,3%. O menor índice é de Manoel Urbano, com 4,42% de escolarização.
Ausência de adaptação climática é barreira na proteção da Amazônia. Foto: Michel Mello
A ausência de políticas públicas eficazes e de financiamento adequado tem limitado a implementação de estratégias de adaptação climática na Amazônia. Para a diretora de Pesquisa do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), Patricia Pinho, essa barreira compromete a proteção da floresta e a segurança das comunidades que vivem na região.
Em policy brief publicado em abril deste ano, Pinho, em conjunto com outras pesquisadoras do IPAM, aponta que eventos climáticos extremos na Amazônia — como inundações intensas, secas prolongadas e queimadas — além de agravarem a vulnerabilidade das populações locais, também ameaçam a biodiversidade da região.
Os impactos recaem sobre a infraestrutura, a economia e o cotidiano das pessoas. Conforme o documento, entre 1991 e 2023, os prejuízos econômicos chegaram a R$ 10,6 bilhões. Esses dados reforçam, segundo o estudo, a urgência de medidas de adaptação.
A cheia atinge todos os estados da Amazônia. Foto: Divulgação
“A gente sabe que a situação das pessoas é de vulnerabilidade quanto ao acesso à água potável, energia, transporte e alimentação. A saúde também se torna muito desafiadora, por conta do ir e vir e da ausência de assistência médica em comunidades e municípios mais remotos. Isso é só um panorama para entender que, basicamente, os riscos e impactos climáticos têm aumentado substancialmente, enquanto as estratégias de adaptação continuam a desejar”, explica Pinho.
O IPAM vem ampliando a agenda de atuação nos temas de adaptação às mudanças climáticas, com foco nas populações da Amazônia. Os efeitos sentidos por povos indígenas, por exemplo, são monitorados em iniciativas como o SOMAI-ACI (Sistema de Observação e Monitoramento da Amazônia Indígena e aplicativo Alerta Clima Indígena, respectivamente) para subsidiar a gestão dos territórios e a produção de dados que serve de base para a criação e o fortalecimento de políticas públicas direcionadas.
Na avaliação da pesquisadora, o Brasil deixa a desejar na linha de frente da elaboração de estratégias de adaptação que reduzam impactos e riscos climáticos — especialmente as de origem política ou ligadas à iniciativa privada, que poderiam colaborar com o financiamento de soluções.
Ausência de adaptação climática é barreira na proteção da Amazônia. Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace Brazil
O estudo do IPAM aponta como principal fator para a ausência de ações adaptativas a falta de prioridade política. Segundo o documento, as mudanças climáticas costumam ser deixadas em segundo plano no orçamento, atrás de outras pautas como saúde, segurança pública e economia. Além disso, destaca a escassez de recursos financeiros, a limitada capacidade técnica de muitos municípios e a ausência de dados confiáveis sobre vulnerabilidades e impactos locais. Conflitos de interesse e pressões econômicas também estão entre os obstáculos.
Pinho afirma que o foco por parte do poder público nas medidas de mitigação também é um problema. De acordo com a diretora, atualmente, os recursos públicos são gastos principalmente com as estratégias de recuperação dos desastres. Contudo, ela aponta que, em muitas situações, a depender da gravidade do impacto do evento climático, a recuperação não é fácil — nem mesmo ao longo do tempo. Por esse motivo, a pesquisadora defende uma agenda proativa de adaptação climática, que deve ser tratada como um “seguro”, para que, quando houver impactos, não haja perdas econômicas, sociais e de vidas humanas.
“As estratégias de adaptação têm um custo financeiro e para a mobilização das estruturas de governança e de monitoramento. Mas, quando se compara com o custo dos desastres e seus desdobramentos, vemos que o investimento em adaptação é muito baixo frente aos benefícios que pode gerar”, afirma a pesquisadora.
Ausência de adaptação climática é barreira na proteção da Amazônia. Foto: Marcos Vicentti/Secom.
Nesse cenário, o IPAM tem contribuído ativamente para criar soluções de adaptação local. Uma das iniciativas recentes da organização foi a elaboração do Plano Municipal de Mitigação e Adaptação às Mudanças do Clima de Rio Branco, desenvolvido em parceria com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e com a iniciativa ICLEI (Governos Locais Pela Sustentabilidade para América do Sul).
O plano reúne ações prioritárias para enfrentar os desafios climáticos no município e foi construído a partir do diálogo com diversos setores da sociedade. A experiência de Rio Branco exemplifica como a produção científica aliada à articulação institucional pode resultar em estratégias concretas para fortalecer a resiliência local, demonstrando o potencial das parcerias entre governos, centros de pesquisa e a sociedade civil na agenda adaptativa da Amazônia.
Apesar de já contar com esse plano estruturado, até 2023 a capital acreana ainda não havia implementado as medidas propostas. O município foi atingido por enchentes em 41 dos últimos 52 anos, com episódios de grau médio, grande ou extraordinário em quase metade desse período.
Vazante atinge os rios da Amazônia. Foto: Rafa Neddermeyer/Agencia-Brasil
Só em 2023, mais de 20 mil pessoas foram impactadas pelo transbordamento do Rio Acre e de igarapés, levando a prefeitura a decretar situação de emergência. O plano identifica essas enchentes como vulnerabilidades de alto risco e atribui parte do agravamento dos impactos à ocupação desordenada do solo, à negligência com o Plano Diretor e à ausência de infraestrutura urbana adaptada às novas condições climáticas.
Para o IPAM, o caso de Rio Branco mostra que o planejamento, por si só, não é suficiente: é preciso transformar estratégias em ações concretas e contínuas, sob risco de repetição de tragédias anunciadas.
Além do apoio do IPAM no Acre, o Instituto também avança na discussão sobre mitigação e adaptação às mudanças climáticas em Manaus e em Belém.
Participação das populações na formulação das políticas
Cada impacto climático não tratado por meio da adaptação tende a se multiplicar em severidade e efeitos negativos. Pinho reforça que, ao contrário da mitigação, a agenda de adaptação deve ser implementada em nível local e com envolvimento direto das comunidades afetadas.
Cheia em Parintins, Amazonas. Foto: Divulgação
Graduada em Biologia pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), Pinho destaca que há amplo consenso científico sobre como o engajamento das populações tradicionais na elaboração de políticas climáticas torna as medidas mais efetivas. O conhecimento tradicional, seja ele ecológico ou culturalmente relevante para o ecossistema, favorece a eficácia, a abrangência e o monitoramento das estratégias de adaptação.
Com a participação local, diz ela, há maiores chances de as políticas serem mais abrangentes, além de terem o monitoramento e o aprendizado adaptativo facilitado, em caso de as ações adotadas não funcionarem, fazendo com que as estratégias precisem ser repensadas.
Na visão institucional do IPAM sobre adaptação proteger os territórios naturais — especialmente os indígenas, ribeirinhos, extrativistas e de populações tradicionais — é a estratégia mais urgente. Essa proteção pode ser concretizada , segundo o policy brief, por meio da destinação adequada das Florestas Públicas Não Destinadas e do fortalecimento da autonomia das populações residentes, garantindo acesso a saúde, água potável, energia e infraestrutura básica, reduzindo a dependência da navegabilidade em períodos de seca.
Outro ponto levantado por Pinho é a criação de um sistema que contemple a sazonalidade dos rios amazônicos, considerada um dos principais componentes de risco da região. Ela destaca que a vida das populações amazônidas está profundamente conectada à dinâmica das águas — seja na pesca, na agricultura ou na mobilidade.
O IPAM produziu um documentário, lançado em 2024 durante o Proteja Talks em Manaus, sobre a seca do Rio Negro em 2023 e os impactos sofridos pela população. Além de relatos e entrevistas com moradores e populações tradicionais, o filme convida cientistas a explicar o evento extremo e as saídas para o equilíbrio climático. Assista ao trailer:
Um conjunto de medidas adaptativas consideradas “sem arrependimentos” pode ser adotado de forma imediata e trazer benefícios mesmo diante das incertezas climáticas, indica o estudo do IPAM divulgado em 2025. Entre essas soluções estão: 1) a descentralização da energia com foco em fontes renováveis, como a solar; 2) o fortalecimento da infraestrutura básica e dos serviços de saúde e educação em cidades pequenas; 3) a melhoria da governança dos recursos hídricos; e 4) o incentivo à bioeconomia sustentável, baseada na valorização da biodiversidade e dos saberes tradicionais.
As ações, além de reduzirem a vulnerabilidade das populações amazônicas, também contribuem para conservar os ecossistemas da floresta e evitar perdas socioeconômicas mais graves no futuro.
Além das medidas citadas, o IPAM também propõe estratégias adaptativas voltadas para diferentes setores e territórios da Amazônia. Entre elas estão o apoio à agricultura de baixo impacto, com sistemas integrados e restauração de pastagens degradadas; a gestão sustentável da pesca com tecnologias adaptadas ao clima; e a promoção da piscicultura de baixo impacto ambiental.
O policy brief ainda defende o uso de soluções baseadas na natureza nas cidades, o fortalecimento dos sistemas de alerta precoce para eventos extremos e a ampliação de políticas públicas para proteção dos territórios indígenas e tradicionais, considerados essenciais para manter a floresta em pé e mitigar os impactos das mudanças climáticas.
O documentário ‘MUNDURUKÜYU – a floresta das mulheres peixes’ conta histórias da mitologia do povo Munduruku. Foto: Divulgação/Coletivo Daje Kapap Eypi
Na mesma semana em que Brasília (DF) recebeu o ATL (Acampamento Terra Livre) 2025, mobilização de povos indígenas de todo o país por direitos e políticas públicas, o coletivo audiovisual Daje Kapap Eypi lançou o documentário ‘MUNDURUKÜYU – a floresta das mulheres peixes’ no “É Tudo Verdade”, o principal festival do gênero na América Latina.
Em 2022, o coletivo formado por jovens da Terra Indígena Sawré Muybu, no sudoeste do Pará, lançou um mini documentário em parceria com a Repórter Brasil.
A nova produção gira em torno da mitologia Munduruku e conta a história de mulheres peixes munidas de câmeras de cinema para proteger a Amazônia das forças que destroem a floresta.
Em entrevista à Repórter Brasil, Rilcelia Akai Munduruku, uma das diretoras do documentário, fala sobre o processo de criação e da importância de resgatar as histórias tradicionais do seu povo.
“Em meio de tantos projetos, de tantos ataques que tivemos, veio a ideia de criar um filme que fala da mitologia, que diz onde o rio, a floresta, os peixes, os animais um dia foram nossos antepassados”, afirma Rilcelia.
O filme destaca como a luta pela defesa do território se entrelaça com a mitologia dos povos indígenas.
Indígenas de várias etnias participam da marcha do ATL (Acampamento Terra Livre) 2025, em Brasília. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
“Tudo que hoje a gente defende, tudo que hoje a gente luta para preservar, um dia foram nossos parentes. Então, essa foi a ideia de levar ao público, dizer que um dia nós fomos animais, nós fomos floresta, nós fomos rios, e hoje nós estamos aqui para defender nossos parentes”, complementa a diretora.
Rilcelia Akai é uma das diretoras do documentário lançado nesta semana (Foto: Joana Moncau/Repórter Brasil) Para Rilcelia, o audiovisual e as redes sociais são ferramentas fundamentais de resistência e defesa dos territórios indígenas. Ela também ressalta o protagonismo das mulheres nessa luta.
“Nós, como mulheres, que somos mães, estamos sempre na linha de frente junto com nossos guerreiros, com nossos caciques, com nossas lideranças maiores, para trilhar essa luta e batalhar junto com eles”, explica.
A juventude indígena também tem um papel essencial, segundo Rilcelia.“Nós não podemos desistir em nenhum momento da nossa luta, que nós não podemos nos escalar, que nós não podemos nos vender, que nós não podemos nos intimidar contra grandes impactos que vêm para dentro do nosso território”, afirma.
“Devemos ser fortes, seguir firme, e cada dia viver para defender o que tudo já é sagrado para nós, povos originários, que dependemos do nosso meio ambiente, do nosso lugar sagrado”, finaliza.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Repórter Brasil, escrito por Beatriz Vitória, com edição de Carlos Juliano Barros. Leia a publicação completa AQUI.
Uma foto rara do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira juntos na cidade de Tabatinga, no Amazonas, a caminho do Vale do Javari em 2018. Foto: Gary Calton
“Não se pode parar um importante trabalho jornalístico e de qualidade”. Essa foi a principal motivação de Alessandra Sampaio, viúva do jornalista Dom Phillips, para unir forças com os amigos do marido e finalizar o livro que ele começou a escrever antes de ser assassinado em 2022. “Logo que aconteceu a tragédia, ficou bem claro para mim e eu acho que também com os amigos jornalistas [do Dom], de quem eu tive muito suporte, que era importante finalizar o livro”, diz Sampaio em entrevista por vídeo para a Mongabay.
Em 5 de junho de 2022, Phillips e o indigenista Bruno Pereira foram brutalmente assassinados na região do Vale do Javari, na Amazônia brasileira. Phillips investigava a pesca ilegal na área, numa viagem que, segundo Sampaio, seria a penúltima para concluir seu livro.
Próxima à tríplice fronteira Brasil-Colômbia-Peru, a região do Vale do Javari é uma área dominada pelo crime organizado, tráfico de drogas, extração ilegal de madeira e caça predatória. É a segunda maior terra indígena do Brasil — com 8,5 milhões de hectares, duas vezes o tamanho da Suíça — e abriga cerca de 17 povos indígenas isolados, com pouco ou nenhum contato com o mundo exterior.
A capa da edição brasileira do livro de Dom Phillips, que será lançado no Brasil em 18 de junho.
Três anos depois, o livro Como salvar a Amazônia — Uma busca mortal por respostas, de Phillips com colaboradores, será lançado a partir de 31 de maio no Reino Unido, nos Estados Unidos e no Brasil, com eventos nos três países.
“Emocionalmente, tem vários sentidos para mim. Primeiro porque é como eu realizar a morte do Dom, porque ali ele ainda escrevia, ele ainda estava vivo”, diz Sampaio, em lágrimas. “E ele me contava algumas histórias que estão no livro, então eu volto no tempo e eu reconheço ali toda a paixão do Dom pela pela Amazônia, a curiosidade dele”.
Para ela, o livro resume a essência e o apelo ao trabalho coletivo e colaborativo para salvar a Amazônia, destacado pelo próprio autor na introdução: “As pessoas precisam aprender com os povos indígenas que só o pensamento coletivo, comunitário — e não a ganância individual — pode salvar a Amazônia. Precisamos nos unir, não nos separar”, escreveu Phillips.
Respeitando o tempo do luto, Sampaio reuniu todo o material que Phillips havia deixado: computador, HDs externos e seus “famosos caderninhos” com as anotações dele. Ele era muito organizado, ela diz, com alguns parágrafos bem definidos; outros ainda em forma de ideias.
“Naturalmente, esse grupo foi sendo articulado e foi muito bom porque eu me senti muito amparada pela experiência, pelo contato cuidadoso deles, pelo entendimento de que eles iam contribuir com o livro do Dom, mas o livro era do Dom. Foi muito bacana”, diz Sampaio. Essa iniciativa também acompanhou uma campanha de solidariedade e de financiamento coletivo para concluir o livro, acrescenta.
Phillips tinha uma “capacidade muito rara de escuta” e abertura para conversar com quem defendia a floresta e também com quem atuava em atividades ilegais, “tentando não pré-julgar”, algo que era “uma enorme inspiração”, segundo Sampaio. Ele também era muito sociável e “conseguia se conectar de uma forma tão bonita às pessoas”. Para ela, o formato colaborativo do livro é a “é a essência da própria afirmação e da própria crença do Dom”.
Phillips deixou cerca de um terço do livro escrito. “Os outros capítulos, por mais que tenham seguido as ideias do Dom, cada um tem um estilo, tem uma vivência, então achei assim um apanhado muito bonito de outras formas de escrever, de outras experiências, experiências, outros estilos”.
Mas, ela admite, não foi fácil ler o livro inteiro. “Quando acabam os capítulos dele, eu demorei um tempo para conseguir ler o livro, foi um choque também”.
Continuidade do trabalho de Phillips e coragem de Sampaio
Em junho de 2022, Phillips e Pereira foram mortos a tiros em uma área remota do estado do Amazonas, onde investigavam pesca ilegal e caça predatória. Seus corpos foram encontrados dez dias depois.
Para Beatriz Matos, viúva de Pereira, a ideia de que a morte de Phillips teria sido um “efeito colateral” do trabalho de Bruno não é verdadeira. Para ela, ambas as mortes representam a “interrupção de um trabalho de proteção, de defesa da Amazônia, de defesa dos povos indígenas”. Ela destaca que o trabalho de Phillips era “muito importante, assim como o do Bruno”, por ser um jornalista que mostrava tudo isso ao mundo.
O lançamento do livro, diz Matos, representa “a continuidade do trabalho do Dom, representa a coragem da Alessandra, representa a força da Alessandra, representa a força do trabalho do Dom”. Para ela, “é muito importante que esse trabalho não seja interrompido. É muito importante que as histórias que ele estava contando sejam contadas”.
Matos diz que o livro também está diretamente conectado com o trabalho de Bruno e também com todos que trabalham para defender a Amazônia e os povos indígenas. “Eu sei que vai ter essa dimensão do trabalho do Bruno ali sendo mostrado também. É super importante”, diz ela à Mongabay em uma entrevista em vídeo. “A Alessandra sempre fala que, desde que o Dom conheceu o Bruno, que ele ficou muito impressionado com Bruno, que o Dom sempre falava do Bruno”.
Por outro lado, diz Matos, Pereira também respeitava muito o trabalho de Phillips, que era uma pessoa importante para ele. Ela se lembra das últimas palavras de Pereira por telefone antes da viagem fatal de barco: “Eu terminei minha missão que eu tinha que fazer, mas eu vou acompanhar o Dom, ele vai fazer umas entrevistas e tal, mas vão ser três, quatro dias só e aí eu volto”.
“O que eu sei é que [Phillips] era um cara importante para ele [Pereira], um cara tão importante que ele fez questão de ele mesmo acompanhar o Dom na reportagem”, diz Matos. Pereira cursou jornalismo, acrescentou, mas abandonou a universidade para ir trabalhar no interior do Amazonas, antes de ir para Funai. “Ele tinha também uma percepção muito clara disso, da importância de procurar bons repórteres, de falar com a imprensa. A gente brincava que ele tinha essa coisa de fazer uma certa assessoria de comunicação dos isolados”.
Matos, antropóloga com mais de 20 anos de trabalho de campo no Vale do Javari — onde conheceu Bruno — diz que também “se vê” no livro. “Eu acho que tem muita coisa do Bruno ali, acho que também do ponto de vista do meu trabalho também. Eu também trabalho na região há muitos anos, então eu também me vejo. Vai ser incrível, assim, estou doida para ler”.
Alessandra Sampaio, viúva do jornalista britânico Dom Phillips, lançou o Instituto Dom Phillips no Vale do Javari em 29 de maio de 2024. Imagem cortesia de Fernanda Macedo/Instituto Dom Phillips.
Continuando o legado de Phillips e Pereira
Tanto Sampaio quanto Matos afirmam que estão comprometidas em continuar o legado de seus maridos.
Desde fevereiro de 2023, Matos coordena o departamento de proteção territorial e de povos indígenas isolados e de recente contato no Ministério dos Povos Indígenas (MPI). “O trabalho, o desafio também mantém a gente viva”, diz ela. Pereira trabalhou por muitos anos na Funai, coordenando o departamento de indígenas isolados e de recente contato.
“A gente se conheceu e se apaixonou lá [ [no Vale do Javari] e por causa de lá também”, diz Matos. “Eu e Bruno, a gente fez uma parceria de vida, de tudo e de trabalho também, sobretudo nessa questão [do Vale do Javari]. Nossos filhos têm nomes de indígenas de lá, a gente tem uma casa lá”.
Ela conta que assumiu o cargo no MPI para continuar defendendo essa causa: “Vai ser uma oportunidade incrível para a gente fazer tudo que a gente estava planejando antes. E quando eu falo a gente, é eu e Bruno”. Tal decisão, acrescenta, também inclui a continuidade do trabalho de parceiros da Funai e de outros órgãos governamentais e do Observatório dos Povos Isolados (OPI). “A gente a gente assumiu esses postos no no governo pensando num trabalho coletivo, num projeto do que a gente vem fermentando há muito tempo. Com certeza, se o governo estivesse vivo, ele estaria na Funai ou no Ministério dos Povos Indígenas”.
Em 29 de maio de 2024, Sampaio lançou o Instituto Dom Phillips, uma ONG dedicada a amplificar as vozes da Amazônia e o saber dos povos originários, por meio da educação. “O caminho que a gente escolheu foi o caminho da educação, nesse movimento de tentar engajar as pessoas pela mudança de pensamento, mudança de consciência”, diz Sampaio. “O compromisso do Instituto Dom Phillips é seguir com o legado dele, tentando ampliar esse legado — porque ele não teve tempo para fazer isso — ecoando as vozes da Amazônia e o conhecimento dos povos, o conhecimento ancestral dos povos e dos defensores da Amazônia”.
De acordo com Sampaio, o instituto também está alinhado com a concepção inicial do livro de Phillips de focar em soluções para proteger a Amazônia a partir da própria floresta. Ela conta que Phillips sempre voltava “encantado” de suas viagens de reportagem, dizendo que se as pessoas conhecessem a Amazônia, toda a sua beleza, seu potencial e toda a sabedoria de seus povos, elas se conectariam natural e efetivamente com a Amazônia e se engajariam na causa da proteção. “Esse é o caminho que a gente quer navegar com o instituto: ter mais uma frente para trabalhar esse desconhecimento que ainda se tem sobre a Amazônia, porque a gente só pode cuidar do que a gente conhece”.
O primeiro projeto do instituto, “Amazônia, coisa linda”, leva o nome da última publicação de Phillips nas redes sociais. O projeto está sendo implementado no Vale do Javari com jovens comunicadores da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (UNIVAJA).
Sampaio diz estar profundamente impressionada com a cosmovisão dos povos indígenas, que é outra visão de mundo. “Eu acho que, finalmente, que eu estou vivendo tudo isso que eu vi na Amazônia através dos olhos do Dom. Eu não conhecia a Amazônia antes da morte do Dom. E ele sempre voltava muito encantado. Então, esse encantamento eu estou podendo viver agora. Apesar dessa tragédia, eu tenho o privilégio de ter esse contato, essa confiança dos povos, não só amazônicos, mas das comunidades tradicionais e fazer essa troca que a gente tem muito o que aprender com eles”.
‘Tio Dom e tio Bruno’
Em novembro de 2024, autoridades concluíram as investigações, apontando Ruben Dario da Silva Villar, conhecido como “Colômbia”, como mandante do duplo homicídio. Ele é acusado de financiar e armar os executores para matar Phillips e Pereira e ocultar seus corpos. Villar nega as acusações.
Desde o início da investigação, outras oito pessoas foram indiciadas. Três réus — Amarildo da Costa de Oliveira (“Pelado”), Jefferson da Silva Lima e Oseney da Costa de Oliveira — foram reunidos em um único processo. Em setembro de 2024, Oseney foi excluído do processo por decisão judicial, e o Ministério Público Federal recorreu.
Seguindo o sonho de Dom Phillips, sua viúva Alessandra Sampaio diz que o principal objetivo tanto do lançamento do livro quanto do Instituto Dom Phillips, lançado no Vale do Javari há um ano, é dar esperança e tornar protagonistas as pessoas que vêm trabalhando há anos e desenvolvendo projetos incríveis para proteger a Amazônia. Imagem cortesia de Fernanda Macedo/Instituto Dom Phillips.
Segundo o advogado de Sampaio, Rafael Fagundes, Pelado e Lima podem ir a júri popular ainda este ano “se não tiver nenhum fato extraordinário”. Já o caso de Oseney é imprevisível.
“Eu acredito na justiça, realmente. Eu acho que esse caso vai ser julgado exemplarmente, porque tem que ser. O tempo da justiça, infelizmente, não é o tempo das famílias, [e] não sou só eu. Mas eu sigo acreditando na justiça, de que os responsáveis vão ter que responder”, diz Sampaio. E justiça, acrescenta, também está ligada à proteção das pessoas que continuam sendo ameaçadas na região do Javari.
Matos concorda. Para ela, a justiça é mais lenta que o esperado, mas é fundamental que o crime não fique impune não só do ponto de vista da justiça assim, mas também que o crime não seja esquecido porque é “um absurdo que não pode se repetir”.
O sonho de Sampaio é “continuar firme e forte” através do Instituto, para levar adiante o legado de Phillips. “Acredito muito nesse movimento educacional para mudar a consciência das pessoas”, diz. “O sonho é esse, conseguir através do instituto inspirar as pessoas para que elas tenham mais vínculo, mais afetividade, se entendam como natureza. A gente não está separado dela, a gente é parte dessa rede de vida”.
Mesmo em meio a toda dor e tristeza após a tragédia, ela diz que alguns fatos positivos realmente a tocaram, especialmente o recebimento de mensagens de crianças no Brasil e no exterior mencionando “tio Dom e tio Bruno como protetores da floresta” e como eles se tornaram símbolos de proteção da Amazônia. “Como isso impactou muitas crianças!”.
Phillips e Pereira foram mortos no Dia Mundial do Meio Ambiente. Sampaio diz que há um movimento nas escolas falando sobre “tio Dom e tio Bruno” como “guardiões” que morreram para defender essa causa. “Acho isso super bonito, e que marcou uma geração. A educação vem por esse caminho, que impactou tanto as crianças, e que a gente pode usar o nome do Dom e do Bruno também para trazer esse entendimento da importância da natureza, do que a gente está preservando, cuidando”.
Matos diz que seu sonho é que seus filhos cresçam “não muito traumatizados e felizes” e possam construir uma vida boa em um lugar agradável, em um ambiente melhor, com diversidade cultural e com a Amazônia em pé.
Ela diz que também sonha que seus filhos aprendam com os povos indígenas tanto quanto ela e Pereira aprenderam. Para ela, esse será o maior legado do pai, pois os filhos tinham apenas 2 e 3 anos de idade quando Pereira morreu. “Tudo que eles vão ter do pai é o que as outras pessoas falam, é o legado do trabalho dele”.
Ao trabalhar pelas terras indígenas e pelos povos indígenas, diz Matos, se está trabalhando pelo futuro do país. “Quando a gente trabalha para as terras indígenas, para os povos indígenas, eu estou trabalhando para o futuro dos meus filhos. Eu quero que eles cresçam em um lugar bom, com diversidade cultura”, diz. “Eu só quero o bem dos meus filhos. Mas o bem dos meus filhos eu entendo que está ligado a tudo isso”.
Segundo Matos, o MPI promoverá um evento em Brasília no dia 5 de junho, em parceria com o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, em homenagem a Phillips e Pereira.
Seguindo o sonho de Phillips, Sampaio diz que o principal objetivo do lançamento do livro e do instituto é dar esperança e tornar protagonistas as pessoas que vêm trabalhando há anos e desenvolvendo projetos incríveis para proteger a Amazônia. Ela se lembra das palavras de Phillips para ela: “Quando eu converso com algumas pessoas, elas já estão muito desesperançadas, como se não tivesse mais o que fazer. Então, abrem mão de se engajar no movimento de proteção porque acham que não tem mais jeito. E tem jeito. Todo mundo pode fazer alguma coisa. Todo mundo pode se comprometer de alguma forma”.
O livro foi finalizado depois de uma campanha de financiamento coletivo e trabalho colaborativo para escrita, revisão e tradução. Os co-autores abriram mão dos direitos autorais; toda a receita das vendas será destinada a Alessandra Sampaio.
Lançamento:
Reino Unido: 31 de maio a 5 de junho
EUA: 9 a 14 de junho
Brasil: 18 de junho, na Feira do Livro do Pacaembu, em São Paulo
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*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Karla Mendes
Karla Mendes é repórter investigativa da Mongabay no Brasil e é membro do Rainforest Investigations Network do Pulitzer Center. Ela é a primeira brasileira e latinoamericana eleita para a diretoria da Society of Environmental Journalists (SEJ), dos Estados Unidos, onde ela também foi eleita Vice-Presidenta de Diversidade, Equidade e Inclusão. Leia outras matérias publicadas por ela na Mongabay aqui. Encontre-a no Instagram, LinkedIn, Threads, 𝕏 e Bluesky.
Ministro Waldez Góes apresentou diagnóstico da pesca e aquicultura durante 2º Workshop de Pesca Esportiva e Amadora no Amapá. Foto: Reprodução/MIDR
O ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), Waldez Góes, participou no dia 30 de maio do encerramento do 2º Workshop de Pesca Esportiva e Amadora no Amapá – Desenvolvimento Responsável e Sustentável, onde foi apresentado o Diagnóstico e Plano de Desenvolvimento da Pesca e Aquicultura do Amapá, uma iniciativa do programa Rotas de Integração Nacional, do MIDR.
O ministro da Pesca e Aquicultura, André de Paula, o secretário nacional de Desenvolvimento Regional e Territorial do MIDR, Daniel Fortunato, e o secretário nacional de Fundos e Instrumentos Financeiros do MIDR, Eduardo Tavares, também estiveram presentes no evento.
Segundo o ministro Waldez, o Governo Federal vai construir a biofábrica do pescado e da aquicultura no município de Tartarugalzinho, no Amapá, para servir todo o estado.
“Lá vai ser possível produzir alevinos, desenvolver tecnologias apropriadas para todos aqueles que atuam no mar, no rio, nos igarapés e na piscicultura”, disse o ministro. “Esse evento potencializa e reafirma os compromissos do governo do presidente Lula com o Amapá e, principalmente, com aqueles que produzem”, complementou.
Segundo o secretário Daniel Fortunado, o documento apresentado é importante para ajudar a enxergar mais possibilidades para o setor do pescado no Amapá.
“Esse diagnóstico representa os pescadores e os aquicultores. Sem o trabalho desse importante setor, não teríamos essa análise. Agora, com esse relatório, o Governo Federal e os governos estadual e municipais podem unir esforços em um direcionamento para potencializar as entregas e as políticas para esse setor que trará grandes oportunidades para o desenvolvimento do Amapá”, declarou.
O ministro André de Paula destacou o trabalho transversal do Governo Federal para garantir melhores condições para os pescadores. “Esse é um trabalho conjunto entre o MIDR, o Ministério do Turismo, o Ministério da Pesca e Aquicultura e muitos órgãos públicos que se somaram. Eu tenho certeza absoluta que esse esforço que foi feito aqui vai fazer a diferença. Nós vamos fazer uma pesca e uma aquicultura no Amapá cada vez mais forte e sustentável”, afirmou.
O diagnóstico produtivo das cadeias da pesca e aquicultura no Amapá buscou proporcionar o melhor entendimento sobre a produção de pescado no estado. Dessa forma, o documento apresenta uma caracterização das atividades desenvolvidas no decorrer dos meses de julho de 2024 a janeiro de 2025, nos 16 municípios do estado, para entender os aspectos sociais e produtivos das atividades de pesca e aquicultura, além de todas as infraestruturas de apoio à produção e à comercialização de pescado.
O documento reúne dados socioeconômicos, produtivos e de infraestrutura, e tem como objetivo subsidiar políticas públicas voltadas ao fortalecimento da pesca e aquicultura no estado, promovendo o desenvolvimento da economia azul e a inclusão produtiva nas comunidades ribeirinhas e costeiras.
Pescado em feira no Amapá. Foto: Maksuel Martins/GEA
Confira abaixo alguns dos principais resultados levantados pelo Diagnóstico da Pesca e Aquicultura do Amapá:
A profissão é exercida, em sua maioria, por profissionais do sexo masculino, na faixa de 50 a 74 anos, com pouca ou nenhuma escolaridade. A maioria está inserida no seguro-defeso e com renda média mensal de 1 salário mínimo, para 42% dos pescadores;
No âmbito da geração de emprego e renda, a atividade é responsável por empregar aproximadamente 15 mil pescadores no estado;
A cadeia da pesca e da aquicultura pode se tornar uma importante fonte de receitas, desde que sejam trabalhados ordenamento, monitoramento e controle da pesca, os mercados paralelos, a informalidade dos profissionais do setor. As expectativas apontam que a cadeia produtiva do pescado no estado poderá representar 9% do PIB do estado do Amapá em 2035 (Abbud et al., 2024);
O amapaense consome em média 25 kg de pescado por ano, tendo uma das maiores médias do país;
Os principais produtores de pescado da pesca artesanal do Estado são os municípios de Santana e Macapá, e a principal espécie capturada é Piramutaba, com 13% das 18 mil toneladas de produzidas;
A aquicultura é o segmento produtivo com maior viabilidade para crescimento no estado. Em 2024, a produção representou 1.200 toneladas, tendo a espécie Pirapitinga como a mais cultivada. O município com maior produção na aquicultura foi Macapá, com o cultivo de Pirapitinga, Tambatinga e Tambaqui;
O estado é um grande exportador de pescado, com mais de 11 mil toneladas, o que comprova a pujança da atividade de pesca artesanal.
O diagnóstico realizado permitiu a proposição de um Plano de Desenvolvimento da Pesca e Aquicultura para o Estado, analisando os entraves ao desenvolvimento da atividade no Estado, mapeando as forças existentes na cadeia do pescado, identificando os riscos e ameaças nos diversos elos das cadeias, conjuntamente com os principais atores estaduais.
No planejamento apresentado foi possível propor as iniciativas regionalizadas de curto, médio e longo prazo, com ações, parceiros potenciais, objetivos, metas e recursos, na busca das melhores alternativas para o desenvolvimento da pesca e aquicultura no Estado do Amapá.
Microcrédito
Em paralelo a apresentação do diagnóstico, o MIDR realizou um mutirão de microcrédito para pequenos produtores e pescadores artesanais, em parceria com a Caixa Econômica Federal. A iniciativa oferece linhas de financiamento com condições facilitadas, voltadas ao custeio da produção, aquisição de equipamentos e investimentos em infraestrutura.
“Nosso objetivo é garantir inclusão produtiva e prosperidade para o povo da Amazônia”, disse o secretário Eduardo Tavares.
Pesca esportiva
A pesca esportiva passa a integrar oficialmente a Rota do Pescado, iniciativa do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) voltada ao fortalecimento das cadeias produtivas no país. O novo eixo foi anunciado nesta quarta-feira (28), durante a abertura do 2º Workshop de Pesca Esportiva e Amadora no Amapá – Desenvolvimento Responsável e Sustentável, realizado no Museu Sacaca, em Macapá. A inclusão da pesca esportiva tem como objetivo fomentar o desenvolvimento regional no estado e na região amazônica.
Acampamento Terra Livre 2025, que reuniu diversos povos indígenas em Brasília. Foto: Lucas Landau/Greenpeace
Com a aprovação do Senado, no dia 28 de maio, do Projeto de Decreto Legislativo (PDL) nº 717/2024, o Greenpeace Brasil fez um alerta: a proposta “viola direitos dos povos indígenas e apaga todo um histórico de luta e reconhecimento de territórios”.
De acordo com a publicação, “a justificativa para esse ataque se apoia na Lei 14.701/2023, que instituiu a tese do Marco Temporal como base legal para o reconhecimento de Terras Indígenas. Uma tese já considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal, mas que foi ressuscitada e transformada em Lei por um Congresso profundamente alinhado aos interesses do agronegócio”.
Para a entidade ambiental, “não se trata apenas de um ataque jurídico, é um ataque direto à vida, à história e aos direitos originários dos povos indígenas”.
“O que o Senado aprovou hoje não é só um decreto, é uma sentença grave contra o direito originário. A medida irá afetar todos os povos indígenas e não só o povo Guarani Mbya, da Terra Indígena Morro dos Cavalos e o povo Kaingang, pertencente à Toldo Imbu. É abrir a porteira para mais despejos, mais violência e mais devastação dentro dos territórios, sejam eles demarcados ou não. O Marco Temporal não é um debate jurídico, é um projeto de apagamento cultural, territorial e de genocídio contra os povos originários”, afirma Grégor Daflon, porta-voz da Frente de Povos Indígenas.
Para Dinaman Tuxá, coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), o momento exige mobilização total.
“Estamos vendo um cenário de desmonte da política indigenista, da política de demarcação de Terras Indígenas. O Senado, mais uma vez, afronta o texto constitucional e tenta sustar os efeitos de homologação dos territórios Morro dos Cavalos e Toldo Imbu. Isso é mais um cenário do que essas bancadas que têm interesse sobre os territórios indígenas têm articulado, fazendo lobby dentro da política brasileira e principalmente dentro do Congresso Nacional. Esse PDL, vai refletir inclusive para as próximas homologações, se for aprovado no plenário do Senado”, frisou.
Além disso, o Greenpeace Brasil também já havia feito uma avaliação sobre a aprovação do que tem sido chamado como “PL da Devastação”, o Projeto de Lei 2.159/2021, que também fragiliza a proteção ambiental.
O Senado Federal aprovou o PL no dia 21 de maio, com 54 votos favoráveis e 13 contrários. Segundo o Greenpeace, este é “considerado o maior ataque à legislação ambiental brasileira das últimas décadas”.
“Entre os pontos mais críticos do PL, está a autorização para que empresas responsáveis por empreendimentos com impactos ambientais relevantes se autodeclararem isentas de licenciamento por meio de formulários online. A partir da autodeclaração, o Estado brasileiro e demais órgãos ambientais, que deveriam analisar os riscos, não serão ouvidos”, avalia.
Para o Greenpeace Brasil, a decisão representa uma verdadeira “licença para desmatar e destruir” e pavimenta o caminho para novos desastres em um país que conhece de perto as consequências de tragédias socioambientais como as de Brumadinho, Mariana e Cubatão.
“A aprovação deste projeto, sem debate suficiente e sem que a população tivesse conhecimento sobre o impacto real do texto, escancara a pressa dos senadores em desmontar os pilares da proteção ambiental no país”, afirma Mariana Mota, gerente de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil.
Inteligência artificial (IA) é usada para estudar os peixes-bois. Foto: Sônia Vill
Pesquisadores do Instituto Mamirauá, em parceria com a Universidade Politécnica da Catalunha, revelaram um habitat crítico do peixe-boi amazônico (Trichechus inunguis) por meio de uma abordagem inovadora que combina monitoramento acústico passivo e inteligência artificial (IA). A pesquisa foi conduzida por Florence Erbs, Mike van der Schaar, Miriam Marmontel, Marina Gaona, Emiliano Ramalho e Michel André, e publicada na revista científica Remote Sensing in Ecology and Conservation, da Zoological Society of London (ZSL).
Devido à natureza discreta e ao comportamento esquivo do peixe-boi, métodos tradicionais de observação visual têm se mostrado ineficazes para monitorar a espécie. Para superar esse desafio, a equipe aplicou um modelo de Rede Neural Convolucional que detectou com alta precisão (até 98%) as vocalizações dos animais a partir de longas gravações subaquáticas, coletadas durante duas estações de cheia consecutivas nas várzeas da Amazônia brasileira, entre 2021 e 2022.
O estudo analisou 226 dias de gravações, revelando que os peixes-boi estavam presentes de forma consistente, com vocalizações registradas em até 94% dos dias em 2021 e por até 11 horas diárias nos picos de atividade.
Chamados revelam presença de filhotes e uso reprodutivo do habitat
As vocalizações — caracterizadas por alta frequência e repetição rápida — indicam uma forte possibilidade de interações entre mães e filhotes, reforçando a importância do local para a reprodução da espécie. A identificação da presença de filhotes é especialmente relevante considerando a baixa taxa reprodutiva do peixe-boi amazônico, o que torna qualquer informação sobre sua reprodução valiosa para estratégias de conservação.
Segundo Miriam Marmontel, líder do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá, “a identificação de filhotes ao longo do tempo auxilia na compreensão acerca do período reprodutivo, e regiões, como as da Reserva Mamirauá, com presença regular de filhotes, apontam para uma área importante à espécie como local de reprodução e cuidado parental”. Ela destaca que “a proteção de tais áreas é fundamental, tanto para os adultos reprodutivos quanto para os filhotes que se incorporam à população atual”.
Este é o primeiro estudo a oferecer dados diários contínuos sobre a presença do peixe-boi ao longo das estações, fornecendo uma resolução temporal sem precedentes sobre o uso do habitat por esses mamíferos aquáticos. Embora a área monitorada tenha limitações quanto à replicação espacial — ou seja, não se pode garantir que os dados representem toda a população —, as evidências apontam para a importância ecológica do local estudado.
Peixe-boi da Amazônia (Trichechus inunguis). Foto: Reprodução/AMPA
A análise também sugere que o método pode ser útil para identificar rotas de migração da espécie, especialmente em função do pulso de inundação amazônico (o ciclo natural de subida e descida anual dos rios na Bacia Amazônica), o que permitiria avaliar os impactos da construção de hidrelétricas sobre a sobrevivência das populações.
Tecnologia acessível e promissora para a conservação
A combinação de monitoramento acústico passivo com modelos de aprendizado profundo representa uma solução econômica, confiável e escalável, que pode ser aplicada a protocolos de longo prazo de pesquisa e conservação de espécies aquáticas. Esse tipo de tecnologia é especialmente valioso para regiões remotas e de difícil acesso, como os sistemas de água doce da Amazônia, onde os desafios logísticos frequentemente limitam os esforços de conservação.
Para Marmontel, o potencial de expansão da tecnologia é significativo: “trata-se de equipamentos de pequeno volume, que podem ser instalados em áreas remotas e, em certos casos, sem necessidade de manutenção periódica. Tem a possibilidade de captar sons de inúmeras espécies aquáticas em diferentes áreas e ao longo do tempo”.
Ela acrescenta que os próximos passos envolvem “gerar uma grande quantidade de registros para alimentar a inteligência artificial e criar o padrão vocal de cada espécie, além de instalar mais equipamentos ao longo da região, inclusive em locais onde não haja pesquisadores ou centros de pesquisa próximos”.
Além disso, ao ampliar a capacidade de detecção da espécie em ambientes onde a observação direta é praticamente impossível, o método oferece uma nova janela para compreender o comportamento, a distribuição e as necessidades ecológicas do peixe-boi amazônico. O estudo faz parte do Projeto Providence e contou com financiamento da Fundação Sense of Silence, Fundação Gordon e Betty Moore, do Instituto Rolex e da Fundação Príncipe Albert II de Mônaco.