Ambientalista viaja de bicicleta até Belém. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Por muitas gerações, a bicicleta é usada como um meio de locomoção e para a prática de esportes. Crianças e adolescentes veem nas duas rodas a liberdade de explorar novos limites e adultos têm os pedais como aliados para chegar mais rápido e gastando menos.
Embora o desejo pela bicicleta tenha dado lugar aos jogos eletrônicos e a conteúdos digitais, o meio de transporte ainda é uma alternativa barata e que não prejudica o meio ambiente, além de promover saúde. Pensando nisso, o geógrafo e ambientalista Leandro Costa decidiu dar mais um uso ao veículo, transformando em um instrumento de educação ambiental.
“A gente precisa que o problema da mudança climática seja levado para o dia a dia da vida das pessoas. A gente fala muito em ações pensadas na esfera federal ou estadual, mas as pessoas não sabem como agir e como isso vai impactar na vida delas. E a bicicleta é um impacto positivo gigante”, avalia.
Com a confirmação de que a 30º Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) ocorreria este ano na cidade de Belém, no Pará, Leandro decidiu percorrer o caminho do Rio de Janeiro, onde mora, até a capital paraense de bicicleta.
Pelo caminho, planejou encontros com crianças e jovens para conversar sobre a aventura de 3,5 mil quilômetros e o impacto da escolha da bicicleta como meio de transporte para o planeta e para o futuro de quem vive nele.
No meio da viagem de 3,5 mil quilômetros até Belém, o geógrafo e educador ambiental Leandro Costa faz uma parada em Brasília Foto; Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
“É preciso discutir emergencialmente isso dentro das escolas, dentro das comunidades, enfim, em todo o ambiente da sociedade civil organizada, para que a gente traga essas questões para a vida das pessoas”, acredita.
Segundo o geógrafo, o caminho entre as cidades – Rio e Belém – inspirou uma reflexão sobre o que já foi percorrido entre a Eco 92, ocorrida no Rio de Janeiro, e que foi a primeira conferência para tratar sobre o tema climático, e a COP30, que é como se fosse um retorno ao começo três décadas depois.
“A partir daí eu também quis ter uma visão de como as pessoas veem essa COP aqui no Brasil e entender como elas podem fazer parte disso”, explicou.
Com o apoio das embaixadas da Bélgica e da Holanda e do Instituto Piabanha, Leandro viabilizou o projeto e já percorreu quase metade do caminho.
“É um trabalho não só de sensibilizar as pessoas sobre as mudanças climáticas, mas também de nos fazer refletir sobre o que cada um pode fazer, e até mesmo de encorajar negociadores de seguirem até terem um bom resultado, sem parar, até o final”, reforça o embaixador da Bélgica no Brasil, Chris Hoornaert, ao receber o ciclista em Brasília.
Ao longo do trajeto, Leandro disse que conversa com crianças e adolescentes sobre a COP30 e a necessidade de cada um contribuir para enfrentar o problema global.
Ainda segundo Leandro, na bagagem, reúne as perspectivas sobre as mudanças climáticas dos territórios por onde passa, e que serão apresentadas em um painel digital a ser exibido em Belém, pelo The Climate Reality Project Brasil.
“Eu estou passando pelo interior real do Brasil, e quando você passa de bicicleta, você vê o que não é possível ver de carro ou ônibus. Já saindo do Rio de Janeiro, tive o impacto de ver uma grande quantidade de bicicletas sendo utilizadas nas comunidades mais vulnerabilizadas, até na Avenida Brasil, como meio de locomoção no dia a dia”, disse.
Diariamente, o ambientalista percorre de 70 km a 110 km nos períodos onde o sol é menos intenso, evitando sofrer na pele os efeitos da seca extrema, que ele também atribui aos impactos causados pela ação do homem sobre o clima. Até Brasília, foram 1,5 mil quilômetros percorridos desde o dia 21 de setembro.
Ao final da jornada, quando chegar em Belém, Leandro deixará de emitir quase uma tonelada de gás carbônico equivalente (CO²e), em média, e deixará pelo percurso, em mais de dez escolas e centenas de comunidades, a semente da capacidade de cada um de promover a mudança em seu território.
A fé e a solidariedade caminham juntas no Círio na Rede 2025, e neste ano o gesto de doar ganha ainda mais força. A Fundação Rede Amazônica (FRAM) promove, em parceria com a Diocese de Macapá, uma campanha especial de arrecadação de alimentos não perecíveis, que serão destinados as famílias mais carentes atendidas pela Paróquia Nossa Senhora de Fátima.
As doações poderão ser feitas na Praça Santuário de Fátima, no próximo sábado (11), das 9h às 19h, ou enquanto houver itens disponíveis. Para incentivar a participação, o público poderá trocar os alimentos por brindes exclusivos do Círio na Rede, como camisas e ecobags transformando a solidariedade em um gesto de comunhão e alegria.
Foto: Divulgação
“A arrecadação de alimentos é uma das formas mais bonitas de unir fé e solidariedade. Nossa expectativa é superar as metas dos últimos anos, fortalecendo o compromisso da Fundação Rede Amazônica com o bem-estar das comunidades onde atuamos. Cada doação leva esperança à mesa de quem mais precisa e reafirma nosso propósito de transformar a realidade amazônica com união e empatia”, explica o coordenador de projetos da fundação, Matheus Aquino.
A iniciativa faz parte da programação oficial do Círio de Nazaré 2025 em Macapá, e reforça o compromisso da Fundação Rede Amazônica em fortalecer o vínculo entre fé, cultura e responsabilidade social. A expectativa é arrecadar uma grande quantidade de alimentos que possam ajudar famílias que enfrentam dificuldades diárias, levando mais dignidade e esperança neste período especial de celebração.
Foto: Divulgação
O Círio na Rede segue promovendo atividades que unem devoção, cultura e solidariedade em toda a Amazônia.
Crustáceo parasito foi identificado no litoral do Maranhão. Foto: Divulgação
Pesquisadores da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) fizeram parte de um projeto que identificou uma nova espécie de crustáceo parasito chamado Naricolax zafirae. O animal, visível apenas com o auxílio de uma lupa binocular, foi encontrado no litoral do Maranhão, na cavidade nasal de um peixe conhecido popularmente como barbudinho, comum da região.
A descoberta é considerada inédita para a ciência, por ser o primeiro registro do gênero Naricolax no Oceano Atlântico. Isso amplia o conhecimento sobre a biodiversidade marinha, destacando o Maranhão como um dos principais polos de pesquisa sobre ecossistemas costeiros da Amazônia Atlântica.
O estudo foi fruto de uma colaboração entre a UFMA, a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema). Os esforços resultaram na descrição de uma espécie até então desconhecida, encontrada em áreas de manguezais, dunas e praias que apresentam grande amplitude de maré.
Crustáceo faz parte de região ainda pouco explorada da diversidade amazônica
Segundo o professor do curso de Oceanografia e Limnologia da UFMA que participou da pesquisa, Jorge Nunes, o estudo buscou investigar partes ainda pouco exploradas da diversidade amazônica.
“A proposta visava estudar parasitos de tubarões e raias, mas fomos além, porque a relação hospedeiro-parasito das espécies de peixes estuarino-marinhas do Litoral Amazônico é muito desconhecida. Com base nisso, demos prioridade para os critérios ecológicos locais mais relevantes, como o endemismo ou importância econômica, várias espécies de peixes foram estudadas com o intuito de prospectar tanto os ectoparasitos, quanto endoparasitos”, relata.
Nova espécie de crustáceo parasito: Naricolax zafirae. Foto: Divulgação
O Maranhão, por sua posição geográfica estratégica e diversidade de ambientes costeiros, tem se consolidado como um território essencial para estudos sobre biodiversidade e transformações ambientais. Dessa forma, pesquisas como essa contribuem para descobrir o potencial de ambientes que atuam diretamente no equilíbrio dos outros ecossistemas, como o bioma amazônico.
“A Amazônia é colossal em todos os sentidos. Na diversidade biológica, é considerada um dos ambientes mais impressionantes do planeta. Mas mensurar essa exuberância em números pode subestimar em níveis muito elevados. Por outro lado, sob a lente de uma visão sistêmica ou funcional, deixa notório sua importância dentro do contexto da história evolutiva e ecológica, visto que a relação hospedeiro-parasito revela um processo concomitante dos dois organismos, conhecido como coevolução e resulta em uma fotografia ecológica em tempo real”, explica o professor Jorge.
Ciência e mudanças climáticas: um debate em evidência
A descoberta do crustáceo parasita ocorre em um momento em que as discussões sobre mudanças climáticas ganham destaque mundial, especialmente com a aproximação da COP 30, que será realizada em novembro, no Pará. O evento reunirá representantes de diversos países para debater soluções globais diante da crise climática, e os estudos que estão sendo produzidos na região amazônica são de grande importância para o diálogo.
O aquecimento dos oceanos e o aumento da acidez da água são apontados por pesquisadores como algumas das principais ameaças à vida marinha. Essas alterações afetam diretamente crustáceos, corais e outros organismos cruciais para o equilíbrio dos ecossistemas costeiros. Apesar de ainda não ser possível apontar como essas condições podem afetar a espécie recém-descoberta, é urgente continuar com as investigações, como explica o professor e pesquisador da UERJ, Fabiano Paschoal.
“É necessário um acompanhamento da presente espécie ao longo dos anos para uma melhor elucidação do tema”, indicam, sobre a nova espécie de crustáceo.
Além de ampliar o conhecimento científico, estudos que ajudam a compreender como o oceano responde a variações de temperatura, salinidade e pH são indicadores fundamentais para prever impactos ecológicos de longo prazo.
Caminhos para a preservação
As descobertas científicas precisam caminhar junto às medidas de proteção aos ecossistemas, que são fundamentais para o equilíbrio ambiental e a manutenção das atividades humanas que deles dependem. O fortalecimento de políticas integradas de gestão, monitoramento ambiental e educação científica é um caminho indispensável para a proteção ambiental.
“Medidas protetivas para os ambientes marinhos do estado não constituem uma tarefa fácil. Infelizmente, não existe fórmula nem mágica instantânea. A construção precisa de tempo, porque os efeitos são tardios e graduais. Sempre que aprendemos algo novo, incluímos nas propostas estratégicas para a conservação biológica. A meu ver, evitar problemas ambientais é mais eficaz e mais econômico que a sua mitigação da forma que vemos”, destaca Jorge.
Para a UFMA, descobertas como a do crustáceo parasito evidenciam o compromisso da universidade pública com a produção de conhecimento sobre o meio ambiente e com a busca por soluções para os desafios climáticos contemporâneos. “As universidades buscam excelência em todos os pilares que as sustentam. Nesse sentido, conquistas como essa representam uma grande projeção e reconhecimento científico para a UFMA”, concluiu Jorge Nunes.
A política de ação afirmativa tem desempenhado papel central na democratização do ensino superior no Brasil, especialmente na Amazônia Legal. É o que revela a tese de doutorado da pesquisadora Marcineuza Santos de Jesus, defendida no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Amazonas (PPGE/Ufam).
O estudo analisou os impactos da Lei de Cotas (12.711/2012) na Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) e a própria Ufam, integrantes da rede Procad-Amazônia.
Orientado pela professora Fabiane Maia Garcia e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), o estudo nasceu como uma proposta de desdobramento/continuação da pesquisa de mestrado e apontou como resultados que a política de ação afirmativa foi fundamental para ampliação do acesso de estudantes de escolas públicas, além de estudantes pretos, pardos e indígena, aumentando a diversidade da população universitária da UFMT e da Ufam.
A tese também identificou desafios como na UFPA, nos dois primeiros anos de implementação, que provocou uma redução no acesso, porque a universidade já possuía um sistema de reserva de vagas consolidado e precisou se adequar à nova legislação. Isso significou a diminuição do acesso de estudantes da rede pública e diversidade na UFPA.
De acordo com a pesquisadora Marcineuza Santos de Jesus, a política de cotas promoveu a ampliação do acesso de estudantes de escolas públicas e pardos, aos cursos mais concorridos e de maior prestígio social, no campus da Ufam e da UFMT.
“Porém foi possível notar alguns efeitos contrastantes, por exemplo, na UFMT após a implementação da lei 12.711/2012 notamos a redução do acesso de estudantes pretos, se comparados a 2012, ano em que a universidade implementou o seu próprio sistema de reserva de vagas. Na Ufam, pudemos notar a diminuição do acesso de estudantes indígenas, que pode ter relação com a configuração da política na universidade, que coloca pretos, pardos e indígenas para concorrer entre si as vagas reservadas. Já na UFPA houve a diminuição do acesso de estudantes em todas as categorias, o que pode ter relação a adaptação da universidade à nova política”, explicou a pesquisadora.
Marcineuza Santos de Jesus defendeu tese sobre política de cotas na Amazônia. Foto: Reprodução/Ufam
Marcineuza Santos de Jesus ressaltou que a política de ação afirmativa contribui para democratização do ensino superior na Amazônia ao se configurar como um mecanismo fundamental para o acesso, a inclusão, a participação, a diversidade institucional para a classe trabalhadora, especialmente para a população negra, considerando o modelo de sociedade e de sociabilidade burguesa que estamos inseridos.
“Porém, em termos de democratização, reflete no máximo os ideais de uma democracia representativa, uma vez que a atual conjuntura societária funciona como um limitante da democracia substantiva, e consequentemente da democratização do ensino superior, já que isto implicaria no acesso universal, e não restrito como temos hoje”, defendeu a pesquisadora.
O que é a rede Procad-Amazônia?
O Procad-Amazônia lançado, em 2006, com o objetivo de apoiar projetos conjuntos de pesquisa realizados por instituições de ensino superior pertencentes à região amazônica em associação com outras instituições do país, proporcionando a ampliação da formação de mestres e doutores e da produção científica, o intercâmbio docente e discente, a criação de novos programas de pós-graduação e a fixação de doutores na Amazônia brasileira.
De acordo com a pesquisadora, a escolha pelo Procad-AM de 2018 ocorreu por ter sido a edição mais recente dessa rede de cooperação, e pelo objetivo, uma vez visou à diminuição das assimetrias regionais observadas no Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG), conforme diretrizes do Plano Nacional de Pós-Graduação 2011-2020.
“A escolha da rede de cooperação dessas três Universidades, intitulada ‘Políticas educacionais, linguagens e práticas culturais na Amazônia’ ocorreu devido ao objetivo da cooperação que estas estabelecem, visando o aprimoramento do ensino e da pesquisa acadêmica na perspectiva da internacionalização dos programas de pós- graduação envolvidos na rede acadêmica do Procad-Amazônia, cujo foco são as políticas educacionais e as linguagens e práticas culturais na Amazônia, priorizando as questões étnico- raciais, indígenas e quilombolas na pesquisa em educação e cultura. Foi justamente por priorizarem as questões étnico-raciais, indígenas e quilombolas que optamos por essa rede de cooperação, uma vez que representa um compromisso público com a produção e divulgação de conhecimentos acerca dessas temáticas na Amazônia Legal e que se ligam diretamente ao problema da pesquisa”, explicou a pesquisadora.
Marcineuza Santos de Jesus salientou a escolha da Amazônia Legal como lócus de pesquisa porque em se tratando de educação e principalmente de democratização, esta possui especificidades, marcada por assimetrias em relação às demais regiões do país.
“A questão geográfica e as disparidades educacionais, se comparadas ao restante do Brasil, são elementos importantes nas discussões sobre democratização do ensino superior amazônico e como, as políticas, a exemplo das de Ação Afirmativa, implicam nesse cenário”, enfatizou.
Para caracterizar as políticas de ação afirmativa implementadas e desenvolvidas nos âmbitos das três universidades amazônicas, inicialmente, a pesquisadora analisou os documentos das três universidades que tinham em seu escopo o combate à discriminação e uma efetiva igualdade de acesso à educação.
“Esses documentos foram analisados para compreendermos o tipo de política afirmativa desenvolvido nas universidades, o público-alvo, a própria iniciativa e compromissos das instituições com a questão”, explicou Marcineuza Santos de Jesus.
Paralelo a isso, a pesquisa selecionou os quatro cursos com maiores números de inscritos de cada instituição, de 2011 a 2014 nos casos da UFMT e UFPA; e no caso da UFAM de 2015 a 2018, antes e depois das cotas (lei 12.711/2012) e depois, ampla concorrência, lei de cotas e ação afirmativas. Após a seleção dos cursos, traçou-se o perfil do tipo de escola e o étnico racial.
“As categorias analisadas foram origem educacional, raça, etnia, que são categorias abordadas na política. Essa análise ocorreu em duas frentes. A primeira é a análise do perfil dos estudantes ingressantes, dois anos antes (2011-2012) e dois anos depois (2013-2014) da lei 12.711/2012, na UFPA e UFMT, e na UFAM como esse trabalho já foi realizado na dissertação, aprofundamos o período (2011-2018) para ver como a política se consolidou. A segunda análise, ocorreu a partir do perfil dos estudantes nos cursos que possuem mais prestígio social, como Direito e Medicina, e outros menos prestigiados como Pedagogia e Serviço Social, para caracterizarmos o perfil de quem adentrava esses cursos antes das ações afirmativas e o perfil de quem ingressou após as ações afirmativas. Essas análises nos possibilitaram o estabelecimento de um panorama acerca dos desdobramentos das ações afirmativas no processo de democratização dessas universidades”, detalhou a pesquisadora.
Para a doutora, as políticas de ações afirmativas não podem ser entendidas como processos isolados da sociedade em que estão inseridas, não só como uma política em si, mas um objeto que está inserido em um contexto societário, onde a educação e consequentemente as políticas educacionais são perpassadas por processos de disputas entre grupos e classes antagônicas.
“Isso significa que a análise do nosso objeto precisava ser situada em um contexto social, político, econômico, cultural e ideológico, de forma que pudéssemos capturar as várias nuances que os cercam. As dinâmicas sociais, perpetrada pelo modo de produção capitalista são influenciadas e exercem influência em todos os aspectos da vida em sociedade, inclusive na educação. Logo, tratar de políticas educacionais pressupõe situá-las em um contexto mais amplo, em uma sociedade regulada pelo modo de produção capitalista, que tem como especificidade a divisão em classes sociais e a propriedade dos meios de produção material”, finalizou.
Foram anunciados os os projetos pré-selecionados do Programa Pró-Amazônia. Foto: Eufran Amaral
O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) anunciou na terça-feira (7), em cerimônia na sede da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), os projetos pré-selecionados do Programa Pró-Amazônia, que direcionará R$ 33,5 milhões para pesquisas voltadas à preservação ambiental, ao uso sustentável dos recursos naturais e ao fortalecimento da integração entre países amazônicos.
A chamada pública MCTI/CNPq nº 03/2025, desenvolvida em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), financiará 74 propostas de pesquisa distribuídas em 13 áreas estratégicas, entre elas biotecnologia, energias renováveis, recuperação e monitoramento de ecossistemas, tecnologias sociais, inteligência artificial aplicada à região, sistemas alimentares sustentáveis e gestão de recursos hídricos.
As iniciativas são lideradas por 32 instituições da Amazônia Legal e contam com 83 parcerias internacionais, principalmente com Colômbia, Peru, Bolívia e Equador.
Durante a cerimônia, o secretário-geral da OTCA, Martin von Hildebrand, destacou que cada projeto representa uma oportunidade de transformação. Ele afirmou que ao unir ciência moderna e saberes tradicionais, os países amazônicos constroem respostas conjuntas para proteger a floresta e promover um desenvolvimento sustentável e integrado.
Já a ministra Luciana Santos ressaltou que o programa consolida a ciência como instrumento de cooperação e ação conjunta entre os países amazônicos. Ela afirmou que enfrentar os desafios ambientais, culturais e sociais da região exige soluções construídas de forma coletiva, combinando conhecimento científico e saberes tradicionais. Para a ministra, o edital reforça uma visão de soberania e sustentabilidade que orienta a política científica do governo federal para a Amazônia.
O presidente do CNPq, Ricardo Galvão, disse que a qualidade das propostas e a importância da descentralização dos investimentos em ciência e tecnologia. Segundo ele, os resultados demonstram a capacidade científica das instituições amazônicas, a diversidade temática das pesquisas e o fortalecimento das redes de cooperação nacionais e internacionais.
Pró-Amazônia
Criado pelo MCTI com recursos do FNDCT, o Programa Pró-Amazônia faz parte de uma estratégia mais ampla de fortalecimento da ciência e inovação na região. Além de apoiar pesquisas em áreas prioritárias, a iniciativa prevê investimentos em infraestrutura científica, inovação em biotecnologia e descarbonização, projetos em rede e cooperação internacional. As iniciativas contempladas pelo programa contribuem com a preservação ambiental, incentivando o monitoramento e a recuperação de ecossistemas, a proteção da biodiversidade e o uso sustentável dos recursos naturais. O Pró-Amazônia também valoriza conhecimentos tradicionais e culturais, promovendo a integração regional e o fortalecimento das cadeias produtivas da sociobiodiversidade.
Sobre a OTCA
A Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) é a principal entidade intergovernamental da região amazônica, criada com o objetivo de promover a cooperação entre os países membros – Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela.
Sede da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA). Foto: Reprodução/Amazon Sat
A OTCA atua em diversas frentes estratégicas, incluindo proteção da biodiversidade, manejo florestal, ciência e tecnologia, governança territorial, inclusão social e defesa dos direitos dos povos indígenas. Além disso, a organização desenvolve instrumentos de monitoramento ambiental e políticas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, buscando soluções integradas para o desenvolvimento econômico da região, além de consolidar políticas de sustentabilidade e proteção da biodiversidade amazônica.
*Com informação da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA)
Fruto de quase três décadas de investigação científica, o ‘Atlas de Doenças de Búfalo no Brasil‘ consolida o conhecimento acumulado sobre as principais enfermidades que acometem a espécie no país, com atenção especial às condições da região amazônica.
A obra, publicada em formato digital pelos professores José Diomedes Barbosa e Carlos Magno Chaves, do Instituto de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Pará (UFPA), em parceria com Marilena Brito e Pedro Malafaia, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), tornou-se uma referência técnica para médicos-veterinários, pesquisadores e produtores.
A obra reúne informações detalhadas sobre patologias que afetam a pecuária bubalina, uma atividade de grande importância econômica e social, especialmente na Amazônia, onde o búfalo é parte fundamental do sistema produtivo.
Com uma abordagem didática e linguagem acessível, o atlas oferece uma visão abrangente dos principais problemas sanitários que impactam o rebanho.
Organizado por temas, o conteúdo reúne informações sobre doenças infecciosas, parasitárias, metabólicas e reprodutivas, apresentadas com linguagem acessível e enriquecidas por imagens clínicas e histopatológicas obtidas em campo, necropsias e exames laboratoriais.
Foco é na saúde dos búfalos
Resultado de observações diretas e pesquisas aplicadas, o material preenche uma lacuna na literatura veterinária brasileira, contribuindo para o avanço técnico-científico e o fortalecimento da cadeia produtiva de búfalos no país.
Mais do que um compêndio diagnóstico, o livro reflete o compromisso dos pesquisadores com a melhoria da saúde animal e o desenvolvimento sustentável da pecuária amazônica.
A Universidade Federal de Rondônia homenageia a pianista Linda Bustani com o título de Doutora Honoris Causa, reconhecendo sua trajetória brilhante e influência na formação de gerações de músicos brasileiros. Nascida em Porto Velho, em 1951, Linda iniciou sua carreira aos cinco anos e, em 2026, completa sete décadas dedicadas à música.
Referência internacional na escola pianística russa, seu repertório inclui mais de 40 concertos para piano e orquestra. Solista, recitalista e pedagoga, Linda eleva o nome de Rondônia no cenário da alta performance artística — e também no universo acadêmico.
O que pensa a Geração Z: entre diversidade e conservadorismo
Pesquisa inédita revela os valores e hábitos dos jovens que vão dominar o mundo até 2030. Uma pesquisa da MindMiners encomendada pela revista VEJA traça o perfil da Geração Z — jovens nascidos entre 1997 e 2012 — que já estão moldando o futuro. Em 2030, eles representarão 25% da população mundial. O estudo ouviu mil brasileiros entre 18 e 28 anos e revelou um grupo conectado, consciente e paradoxal.
Principais dados da pesquisa: Conectividade: 66% acessam a internet todos os dias; 59% ficam entre 1 e 4 horas online; Relacionamentos: 61% buscam vínculos duradouros; 48% não priorizam o sexo; 67% apoiam a diversidade sexual; Consumo de substâncias: 55% não bebem álcool; 61% nunca usaram drogas; 48% são contra a legalização; Trabalho: 48% valorizam a segurança financeira; 35% abandonariam empregos tóxicos; Religião: 56% não seguem nenhuma; 25% acreditam em algo espiritual; Futuro: 44% enxergam o amanhã com pessimismo.
O paradoxo Z – Apesar de serem inclusivos e abertos à diversidade, muitos jovens da Geração Z demonstram traços conservadores em suas escolhas pessoais. Valorizam saúde, estabilidade e relações profundas — e desafiam os estereótipos de alienação digital. Eles estão prontos para transformar o mundo.
100 anos de Dió: o comunista que plantou utopias em Rondônia
Foto: Divulgação
Nascido em 7 de outubro de 1925, em Rio Branco (AC), Dionízio Xavier da Silveira — o lendário “Dió” — completaria um século em 2025. Cabo da Guarda Territorial durante a Segunda Guerra, entrou para o Partido Comunista e foi perseguido após a cassação do PCB em 1947. Um pouso forçado em Porto Velho mudou seu destino: ali fincou raízes e se tornou figura central da militância política e cultural da região.
Mascate, guarda-livros, jornalista e vereador na capital rondoniense, Dió foi pioneiro na luta contra os grileiros e fundador do jornal “A Palavra”, em Ji-Paraná. Atuou na clandestinidade durante a ditadura, enfrentou agressões e perseguições, mas nunca abriu mão de seus ideais.
Faleceu em 2001, aos 75 anos, deixando um legado de idealismo e amor profundo por Rondônia. Ele continua a inspirar gerações. Seu filho, o jornalista Zola Xavier, mantém viva essa memória: em 2019, lançou o documentário Caçambada Cutuba, e em 2023 publicou o livro Uma Frente Popular no Oeste do Brasil, onde Dió também figura como personagem central.
A mulher que batizou o Rio de “Cidade Maravilhosa”
Jane Catulle Mendès e o epíteto que virou identidade. Em setembro de 1911, a atriz e poeta francesa Jane Catulle Mendès desembarcou no Rio de Janeiro e, sem saber, eternizou a cidade com um nome que atravessaria gerações: “Cidade Maravilhosa”.
A expressão nasceu de um deslumbre — um pôr do sol na Baía de Guanabara — e foi registrada por Jane em uma dedicatória à equipe do jornal “A Imprensa”: “Rio de Janeiro est une ville merveilleuse dont je suis éblouie” (“O Rio de Janeiro é uma cidade maravilhosa que me deslumbra”).
Imagem: Divulgação
Viúva do escritor Abraham Catulle Mendès, Jane buscava autonomia intelectual e encantou a elite carioca com sua beleza, erudição e ousadia: viajava apenas com uma jovem assistente, algo incomum para a época. Em 1913, lançou “La Ville Merveilleuse”, livro de poemas inspirado no Brasil, selando sua paixão pela cidade.
O jornalista Rafael Sento Sé resgata essa história no livro “A Poeta da Cidade Maravilhosa” (Autêntica), recém-publicado, revelando como uma musa da Belle Époque francesa ajudou a moldar a alma do Rio com um simples gesto — e uma frase que virou símbolo.
Sobre o autor
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.
Prefeitura de Boa Vista apoia todas as etapas do cultivo nas comunidades indígenas, do plantio à colheita. Foto: Diane Sampaio/PMBV
Marcada pelo trabalho coletivo, a colheita de milho seco nas comunidades indígenas representa um momento de importância cultural e alimentar. Diante dos benefícios da produção agrícola para as famílias, o apoio da Prefeitura de Boa Vista ocorre em todas as etapas do processo de cultivo, como plantio, preparação do solo, aquisição de sementes e insumos.
Na comunidade indígena Lago Grande, localizada na região do Baixo São Marcos, as famílias agricultoras colheram cerca de 160 sacas de milho, com o apoio de técnicos agrícolas e colheitadeiras da prefeitura. De acordo com o prefeito Arthur Henrique, o município destina políticas públicas para a agricultura familiar e investe na sustentabilidade ambiental, social e econômica do município.
“Esse trabalho reforça o compromisso da nossa gestão em apoiar a agricultura familiar e valorizar as comunidades indígenas, que têm papel fundamental no desenvolvimento sustentável do nosso município. Com o incentivo da Prefeitura de Boa Vista garantimos não apenas o fortalecimento da produção local, mas também a geração de renda e segurança alimentar das famílias”, disse.
Neste ano, a produção nas áreas indígenas deve ultrapassar 600 toneladas de grãos. Foto: Diane Sampaio/PMBV
Superação de plantio e colheita
A prefeitura plantou 865 hectares de milho no município, sendo 105 hectares nas comunidades indígenas. A colheita já está em andamento e deve ser concluída na segunda quinzena de outubro. Neste ano, a produção nas áreas indígenas deve ultrapassar 600 toneladas de grãos, além de a área cultivada ter superado as expectativas dos produtores e técnicos de Boa Vista.
Com relação a produtividade observada nas áreas já colhidas, a marca alcançou índices iguais ou superiores a 6 toneladas por hectare, o que equivale a uma média de 120 sacas de 50 kg por hectare. Sidney Tavares, 2º tuxaua da comunidade Lago Grande afirma que o investimento da prefeitura tem proporcionado um aumento significativo na lavoura indígena.
“Há 30 anos, o nosso povo produzia tudo de forma manual, no machado e com enxada em mãos. Claro que o tamanho da área de produção era bem menor, mas hoje, a Prefeitura de Boa Vista olha com carinho para a comunidade e o nosso trabalho recebe apoio técnico e de alta tecnologia aqui dentro. Neste ano, a gente aumentou o plantio e a expectativa é ampliar cada vez mais”, destacou.
Mulheres protagonizam o campo e impulsionam o crescimento da produção agrícola. Foto: Diane Sampaio/PMBV
Mulheres no campo
Unindo força, cuidado e inovação no trabalho diário, as mulheres são protagonistas no campo, impulsionando a produção agrícola. Meirejane Lima, coordenadora das Mulheres Agricultoras da Comunidade Lago Grande, relata que o apoio da prefeitura tem proporcionado independência financeira para os produtores, além de incentivar as lavouras comandadas pelas mulheres.
“Os técnicos sempre veem nos acompanhando desde o início do plantio, com a adubação até agora, na colheita. A comunidade sempre esteve preocupada com a qualidade da produção e garantiu que o resultado fosse positivo. No início de tudo, a gente não sabia como trabalhar em grande proporção porque nós indígenas nunca tínhamos cultivado hectares. Era apenas um pedaço de linha, mas hoje, a realidade é outra”, apontou.
Idosos também participam. Nelcia Paixão, 73, marcou presença na colheita. Foto: Diane Sampaio/PMBV
Colheita envolve todas as idades
Essa prática fortalece a autonomia produtiva da comunidade e valoriza a agricultura sustentável, transmitida de geração em geração como parte essencial do modo de vida indígena. Durante a colheita, adultos, idosos, jovens e crianças participam ativamente do processo de colheita. Considerado dia de festa, as aulas das crianças são diferenciadas, pois todos são encaminhados para a lavoura, método para garantir a sucessão familiar.
Quem trabalhou por anos no campo também não ficou de fora, claro, agora em um ritmo mais lento, mas com muito a ensinar aos jovens. É o caso dos idosos que também são inseridos no processo. Nelcia Paixão, 73 anos, esteve a vida toda na roça e marcou presença na colheita. No rastro da colheitadeira, a idosa resgatou as espigas de milho que ficavam para trás e garantiu 100% de aproveitamento.
“Estou catando o milho para dar para as galinhas e para os porcos. Assim, a gente aproveita tudo e não estraga nada. Eu cresci trabalhando na roça. Desde que eu nasci, com a enxada nas mãos, fazendo farinha e tapioca. Agora eu estou velha e cansada e não tenho mais forças para trabalhar o dia todinho. Hoje, eu sou aposentada, mas meu dinheirinho não dá para comprar bastante comida para os animais”, contou.
O Amazonas conta, a partir de agora, com uma nova lei voltada à transformação social por meio da tecnologia. De autoria do presidente da Assembleia Legislativa do Estado (Aleam), deputado Roberto Cidade (UB), a Lei Ordinária nº 7.715, de 17 de julho de 2025, institui diretrizes de incentivo ao empreendedorismo jovem no mercado digital, com prioridade aos jovens amazonenses em situação de vulnerabilidade.
A legislação estimula a criação de oportunidades econômicas e profissionais para jovens entre 18 e 29 anos, com foco em capacitação tecnológica, inovação e acesso a novas formas de geração de renda no ambiente digital.
“Com esta lei, queremos preparar nossos jovens para os desafios e oportunidades do futuro, promovendo a inclusão digital, o protagonismo e a autonomia financeira. O empreendedorismo digital é um caminho concreto para reduzir desigualdades e fortalecer a economia do Amazonas”, destacou o deputado Roberto Cidade.
A norma define diretrizes para o desenvolvimento de incubadoras e aceleradoras digitais, a oferta gratuita de cursos de formação em tecnologia, gestão e inovação, além da criação de linhas de crédito com condições especiais para jovens empreendedores.
Outro ponto de destaque é a criação de uma plataforma digital estadual, que servirá como vitrine para a divulgação e comercialização de produtos e serviços desenvolvidos pelos participantes do programa, estimulando o crescimento de negócios locais e o fortalecimento do ecossistema digital amazonense.
Roberto Cidade ressaltou que a iniciativa abre espaço para parcerias estratégicas entre o poder público, o setor privado, universidades e organizações da sociedade civil.
“O empreendedorismo digital é uma ferramenta de transformação social. Nosso papel, como representantes do povo, é garantir que os jovens do Amazonas tenham acesso a conhecimento, infraestrutura e oportunidades para prosperar nesse novo cenário econômico”, afirmou o presidente da Aleam.
O Projeto de Lei nº 91/2025 foi sancionado e transformado na Lei nº 7.715/2025 no dia 17 de julho de 2025.
Palmeira patauá (Oenocarpus bataua) em um baixio na Amazônia Central: espécie é a próxima em que pesquisadores vão instalar sensores para estimar armazenamento de água. Foto: Thaise Emilio/IB-Unesp
Uma das famílias de plantas mais abundantes na Amazônia, as palmeiras (Arecaceae) têm capacidade de armazenar duas vezes mais água do que as árvores dicotiledôneas – grupo de plantas como o ipê, o mogno e o eucalipto, com flores cujas sementes contêm dois cotilédones, que são as primeiras “folhas” do embrião e servem como fonte de alimento. A existência delas e de outras espécies de plantas associadas a climas úmidos, contudo, está ameaçada devido às mudanças que têm ocorrido no ciclo hidrológico da floresta amazônica.
Alguns resultados preliminares dos trabalhos em andamento foram apresentados em palestra durante o Fórum Brasil-França “Florestas, Biodiversidade e Sociedades Humanas”, que aconteceu entre os dias 1º e 2 de outubro, no auditório da Fundação.
Organizado pelo Museu Nacional de História Natural (MNHN) da França, em Paris, pela Universidade de São Paulo (USP) e pela FAPESP, o objetivo do evento foi discutir a biodiversidade florestal, os ecossistemas e suas relações com as sociedades humanas, do passado e do presente.
“As palmeiras são grandes reservatórios ou caixas d’água da floresta”, disse Thaise Emilio, professora da Unesp, coordenadora do projeto e pesquisadora associada ao CBioClima.
A despeito de ser apenas uma entre 171 famílias de plantas arborescentes na Amazônia, diz a cientista, as palmeiras são extremamente dominantes na floresta, tanto no dossel como no sub-bosque.
Uma das hipóteses para explicar por que as palmeiras dominam a paisagem da floresta é que podem ter sido domesticadas pelas primeiras populações humanas que ocuparam e manejaram a Amazônia há milhões de anos.
“Há dúvidas, porém, se foram os humanos que enriqueceram a Amazônia com palmeiras ou se eles decidiram viver na floresta justamente por possuírem essas plantas tão abundantes e úteis, que têm grande importância econômica”, ponderou.
Aproximadamente 75% da produção brasileira de produtos florestais não madeireiros hoje é proveniente de palmeiras, sendo 50% só do açaí (Euterpe oleracea), sublinhou a pesquisadora.
Thaise Emílio, professora da Unesp, coordenadora do projeto e pesquisadora associada ao CBioClima: apesar de ser apenas uma entre 171 famílias de plantas arborescentes na Amazônia, as palmeiras são extremamente dominantes na floresta, tanto no dossel como no sub-bosque. Foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP
Por muito tempo se pensou que as palmeiras fossem extremamente vulneráveis à seca em razão de sua arquitetura hidráulica. A fim de avançar no conhecimento sobre essa questão, a pesquisadora iniciou em 2017 uma colaboração com colegas do Soleil Síncrotron, de Paris, e da Universidade de Bordeaux, em que analisaram a resistência do xilema (tecido vascular responsável por transportar água e sais minerais das raízes para o resto da planta, especialmente para as folhas) de palmeiras à embolia induzida pela seca.
Esse quadro é caracterizado pela formação de bolhas de ar dentro dos vasos do xilema, interrompendo a coluna de água e o transporte do recurso hídrico e de nutrientes do solo para as folhas. Isso acontece quando o estresse hídrico (a falta de água) cria uma pressão negativa tão grande que a água líquida vira gás, prejudicando a função dos vasos e podendo levar à morte da planta.
Por meio de diferentes técnicas, os pesquisadores quantificaram a resistência à seca de seis espécies de palmeiras pertencentes às duas subfamílias mais amplamente cultivadas: a Arecoideae e a Coryphoideae.
As observações foram conduzidas em uma das linhas de feixe do Soleil Síncrotron – acelerador circular de partículas carregadas (elétrons) que gera uma radiação, chamada de luz síncrotron, que permite investigar a composição e a estrutura da matéria na escala dos átomos e das moléculas.
“Por meio das observações, constatamos que as palmeiras são vulneráveis à seca como qualquer outra angiosperma [plantas complexas que apresentam raiz, caule, folhas, flores, frutos e sementes] ou gimnosperma [plantas terrestres que possuem sementes, mas não produzem frutos]. Mas, diferentemente de outras plantas de regiões temperadas, elas têm mais água dentro dos troncos. Dessa forma, conseguem mobilizar mais água e isso acaba se tornando a estratégia mais importante para minimizar os riscos de embolia”, explicou Emilio.
Mais recentemente, ao monitorar, em parceria com colegas da Universidade de Edimburgo, na Escócia, a quantidade de água armazenada pelas palmeiras, os pesquisadores constataram que, enquanto as árvores dicotiledôneas armazenam, no máximo, 50% de seu volume de água, as palmeiras chegam a reter 70%, e durante as épocas secas reservam ainda mais do que nas estações chuvosas.
“Isso tem enormes impactos na biodiversidade da floresta amazônica, que ainda não são estimados”, disse a pesquisadora.
Ao realizar trabalhos de pesquisa de campo na floresta durante os períodos de seca é comum observar só palmeiras com frutos, contou.
“A gente vê que só elas dão frutos nessas épocas de seca. Isso é muito importante para manter a alimentação dos animais na floresta e dos humanos, que dependem desses recursos. E uma das hipóteses pelas quais elas são capazes de manter esse serviço durante períodos de seca é justamente porque têm esse funcionamento diferente de outras plantas, conseguindo armazenar mais água.”
Esse serviço ecossistêmico prestado pelas palmeiras, contudo, está ameaçado em razão do declínio da abundância de espécies de plantas associadas a climas úmidos, devido à intensificação do ciclo hidrológico, caracterizada por secas e estações chuvosas mais intensas. “Isso terá um impacto muito importante para a dinâmica da floresta”, estimou Emilio.
Em um estudo em andamento, os pesquisadores têm avaliado por meio de modelagem o risco de morte de palmeiras em diferentes ambientes – em regiões com lençóis freáticos mais rasos ou mais profundos – e em anos mais secos ou mais úmidos. Resultados preliminares indicaram que elas morreriam duas vezes mais do que outras árvores.
“A combinação de anos chuvosos e secos está causando uma mudança na dinâmica e nas características de regiões da floresta”, afirmou Emilio.
Parceria Brasil-França
O evento integrou a Temporada França-Brasil 2025, uma programação conjunta de atividades culturais, científicas e acadêmicas promovidas para marcar os 200 anos de relações diplomáticas entre os dois países.
O encontro reuniu cientistas, artistas, gestores públicos, profissionais de museus, estudantes e representantes da sociedade civil em conferências, mesas-redondas e debates, além de visitas institucionais.
“Esse evento é a segunda parte de um encontro realizado em junho deste ano em Paris, que integrou a programação da FAPESP Week na França. Nossa experiência naquela ocasião foi muito intensa e produtiva em diferentes áreas, incluindo aeronáutica e espacial, medicina, inovação, sustentabilidade, biodiversidade e museologia”, avaliou Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP, na abertura do evento (leia mais em: agencia.fapesp.br/54994).
Zago sublinhou que a Amazônia Legal ocupa aproximadamente 4 milhões de quilômetros quadrados (km²) do Brasil, uma área que corresponde a mais ou menos 40% do tamanho da Europa, mas que essa imensa floresta estende-se também ao território francês, da Guiana Francesa.
“Temos, pois, nós, brasileiros e franceses, uma responsabilidade compartilhada sobre essa floresta que é uma das maiores reservas da biodiversidade do planeta. Portanto, seu destino pode determinar, em grande parte, o destino da humanidade”, avaliou.
Da esquerda para a direita, Jônatas Trindade, subsecretário da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística de São Paulo, Maria Arminda do Nascimento Arruda, vice-reitora da USP, Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP, Alexandra Mias, consulesa-geral da França em São Paulo, Gilles Bloch, presidente do MNHN, e Flávia Teixeira, gerente de Meio Ambiente, Responsabilidade Social Corporativa e Transição Energética da Fundação Engie. Foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP
O presidente do MNHN, Gilles Bloch, afirmou que “os desafios ambientais compartilhados pela França e pelo Brasil são muito sérios e a instituição está fortemente comprometida em trabalhar as questões de forma contundente”.
“Este fórum é bastante ambicioso e reforça a tradição de colaboração que existe entre nós e a USP. Todos os acordos que estamos celebrando nessa visita são uma grande honra para nós e vão facilitar a prática de ações e cooperação em um trabalho que precisa ser realizado em rede”, avaliou.
A vice-reitora da USP, Maria Arminda do Nascimento Arruda, anunciou em sua fala um projeto, atualmente em execução, de construção da Praça dos Museus da USP, que reunirá acervos dos museus de Zoologia (MZ-USP) e de Arqueologia e Etnologia (MAE-USP).
“No Brasil, os museus de história natural estão intimamente ligados ao surgimento da pesquisa científica no país. A Universidade de São Paulo tem acervos museológicos ímpares e coleções científicas e culturais entre as maiores do mundo. Temos um compromisso com nossos museus e esses acervos e, por isso, estamos construindo um novo espaço, com um projeto notável do grande arquiteto Paulo Mendes da Rocha [1928-2021]. Esse novo museu será uma referência para toda a cidade, para o país e para o mundo”, avaliou.
Também participaram da abertura do evento Alexandra Mias, consulesa-geral da França em São Paulo; Jônatas Souza da Trindade, subsecretário da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística de São Paulo; Flávia Teixeira, gerente de Meio Ambiente, Responsabilidade Social Corporativa e Transição Energética da Fundação Engie; o diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo (CTA) da FAPESP, Carlos Graeff; e o diretor administrativo da instituição, Fernando Menezes.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por Elton Alisson