As cheias afetam a região Norte do Brasil. Foto: Reprodução/Rede Amazônica Acre
O processo de nacionalização do Defesa Civil Alerta, ferramenta que emite avisos emergenciais diretamente aos celulares da população em áreas de risco, entrou em uma nova fase.
Essa nova etapa ocorre após o sucesso da preparação no Nordeste, que está prestes a receber oficialmente o sistema. Como parte da implementação, um alerta de demonstração em 36 municípios da região, incluindo todas as capitais estaduais.
O ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, reforçou o compromisso do Governo Federal com a ampliação da ferramenta para todo o Brasil.“Essa ferramenta foi criada para que o aviso chegue antes que o perigo alcance você. Nosso compromisso é salvar vidas, garantindo que a população receba alertas em tempo hábil para agir com segurança”, destacou o ministro.
A nacionalização do Defesa Civil Alerta vem sendo realizada em etapas, considerando as características climáticas e os principais riscos de cada região. Após a implantação no Sul e no Sudeste, e com o lançamento no Nordeste em curso, o foco agora está na preparação para o enfrentamento das cheias na Amazônia e, na sequência, para o período de incêndios e chuvas intensas no Centro-Oeste.
A coordenadora da Defesa Civil Nacional, Izabella Rufino, que lidera a capacitação no estado do Amazonas, ressaltou a importância da continuidade do trabalho. “Essa mesma capacitação está ocorrendo também nos demais estados das regiões Norte e Centro-Oeste. Tudo isso faz parte do processo de nacionalização da ferramenta. Aqui, contamos com uma equipe de agentes locais bastante entusiasmada”, afirmou.
Durante os treinamentos, lideranças e técnicos estaduais recebem instruções sobre a operação do sistema, que utiliza tecnologia de transmissão via telefonia celular (Cell Broadcast). Os alertas são exibidos sobre a tela do celular, acompanhados de aviso sonoro — mesmo com o aparelho em modo silencioso — e não exigem cadastro prévio da população.
Para o representante da Defesa Civil Estadual do Amazonas, tenente Charles Barroso, a capacitação chega em um momento estratégico.“Estamos recebendo treinamento para operar uma ferramenta essencial, que fortalecerá nossas ações preventivas em todo o estado.
É de grande importância essa formação, pois ela permite que alcancemos o maior número possível de pessoas que vivem em áreas de risco, sem que seja necessário o cadastramento do celular para o recebimento dos alertas. Dessa forma, poderemos auxiliar essa população na tomada de decisões e na mitigação dos efeitos dos desastres”, declarou.
O alerta de demonstração deste sábado será enviado simultaneamente a quatro municípios de cada estado nordestino, a partir do Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cenad), em Brasília. A ação visa familiarizar a população com a nova tecnologia e prepará-la para sua implementação definitiva.
O Defesa Civil Alerta integra uma estratégia nacional para aprimorar a prevenção de desastres e reduzir os impactos à vida e ao patrimônio da população brasileira.
*Com informações da Assessoria de Comunicação Social do MIDR
Takumã Kuikuro. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
O desenvolvimento do cinema indígena e sua interface com o audiovisual produzido por não indígenas foi tema de debates entre cineastas que participam do 26º Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), na Cidade de Goiás, que terminou no dia 16 de junho. O Fica é considerado o maior evento audiovisual com temática ambiental da América Latina.
Presente ao encontro, Takumã Kuikuro, premiado cineasta brasileiro oriundo do Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso, aponta duas dimensões do trabalho que ele verifica com mais recorrência entre seus pares indígenas, inclusive os dele próprio.
“Tem duas formas de fazer cinema nas aldeias. Uma é documentar, registrar o conhecimento [oral] que vai ficar para sempre circulando para o povo nas aldeias. O outro jeito de produzir é criar uma narrativa própria sobre a realidade, traduzir para o português para que o não indígena entenda nossa realidade, e exibir através do cinema”, afirmou em conversa com a Agência Brasil.
Takumã já teve filmes premiados em festivais como os de Gramado e de Brasília, e em eventos internacionais de cinema, como Presence Autochtone de Terres em Vues, em Montréal, no Canadá. Em 2017, recebeu o prêmio honorário bolsista da Queen Mary University London. E, em 2019, tornou-se o primeiro jurado indígena do Festival de Cinema Brasileiro de Brasília, um dos mais importantes do país.
No Fica 2025, o cineasta colaborou no processo de seleção de obras para mostras competitivas. Ele passou a enxergar um amadurecimento na produção audiovisual indígena, e defende a necessidade de superar as velhas narrativas de caráter etnográfico que permeou a produção cinematográfica sobre os povos tradicionais ao longo de décadas, dentro e fora do país.
“Temos que superar a narrativa etnográfica como única linguagem [sobre indígenas no cinema], essa tem sido a minha preocupação. E explorar a fundo a linguagem cinematográfica para contar nossas próprias histórias, criar nossos personagens, fazendo, por exemplo, mais filmes de ficção”, argumenta.
Vicent Carelli fala com Agência Brasil durante a 26ª edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica 2025). Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Integrante do júri oficial do Fica 2025, o premiado cineasta e indigenista Vincent Carelli, criador do projeto Vídeo nas Aldeias (1987), que forma cineastas indígenas desde meados dos anos 1980, percebe diferenças fundamentais na produção de cinema entre indígenas e não indígenas.
“Esse acesso com intimidade, com a língua, com o conhecimento e convivência da cultura é outra coisa. Isso, em termos de conteúdo, de sensibilidade, tanto de quem filma quanto de quem é filmado, é um grande diferencial”, avalia.
“Eu sempre tentei fugir dessa ideia de cinema etnográfico para refletir as questões indígenas”.
Relações simétricas
Ao longo dos últimos anos, a colaboração entre indígenas e não indígenas tem sido uma constante no cinema sobre povos tradicionais, mas esse processo ainda ocorre em meio a tensões.
“Quando você vai nas aldeias, todos eles dizem que já tiveram experiências negativas com imprensa, com pesquisadores, com televisão, e com cineastas, né. Todos os agentes. Porque aí ocorre essa falta de simetria no relacionamento”, aponta Vincent Carelli. “Isso é algo que ainda acontece, mas esses jovens indígenas do cinema estão tendo uma atitude mais contundente contra isso atualmente, se colocando como diretores, assinando as obras”, acrescenta.
“Eu vejo muitos não indígenas se colocando acima dos indígenas, excluindo dos festivais mais importantes. Eu, por exemplo, participei do Festival de Gramado, em 2011. Eu ganhei lá um Kikito [premiação], mas, depois disso, nunca ouvi falar indígena participando. Então, ainda é uma coisa meio isolada, esse reconhecimento”, aponta Takumã Kuikuro.
“A gente enfrenta ainda um certo preconceito para ocupar esse espaço”, afirma Kléber Xukuru, cineasta e comunicador indígena, diretor da Ororubá Filmes. “Mas é bom lembrar que os povos indígenas do Brasil são resistentes e insistentes. E o audiovisual é uma ferramenta que hoje a gente tem visto também como uma porta de luta”, destaca.
Olhar indígena
No filme Minha Terra Estrangeira, essa questão aparece dentro e fora da tela. O longa, que estreou com grande sucesso no festival É Tudo Verdade, em abril, foi o principal filme convidado do Fica este ano, e contou com três exibições em salas de cinema da antiga capital goiana. Trata-se de uma colaboração entre o coletivo Lakapoy, formado por indígenas, Louise Botkay, que foi formada pelo projeto Vídeo nas Aldeias, e João Moreira Salles.
O filme acompanha o cacique Almir Suruí, líder indígena candidato a deputado federal por Rondônia, e sua filha, a Txai Suruí, jovem ativista ambiental, durante 40 dias que antecederam as eleições de 2022. A trajetória de Txai no filme foi acompanhada por Salles. O resultado são dois olhares simultâneos, complementares e distintos, sobre as jornadas de pai e filha.
Uma cena do filme debate exatamente esse ponto, quando num diálogo entre Txai e João Moreira Salles, o diretor se questiona e a questiona sobre o olhar de um homem branco (no caso, ele próprio) para a ativista indígena, focado apenas na militância por direitos territoriais. Nesse momento, ela comenta que um diretor indígena poderia ter optado por ir além de filmar a ativista em ação, mas acompanhar outras dimensões da vida dela, como sua relação com a floresta e com o amor.
Uma das novidades desta edição do Fica é a criação do Fórum Indígena e de Povos Tradicionais, com o objetivo de amplificar os saberes e conhecimentos dos povos dos territórios e fortalecer a produção audiovisual feita por pessoas que fazem parte dessas comunidades. Além deste fórum, o festival conta, ainda, com os fóruns de Cinema e Meio Ambiente, criados em edições anteriores.
Uma das mostras competitivas é exclusivamente dedicada a exibir e premiar obras de realizadores indígenas e de povos e comunidades tradicionais. “É uma janela específica para esses realizadores, sem prejuízo de que eles estejam nas outras mostras também, como sempre estiveram e continuarão estando”, afirma o diretor de programação do festival, Pedro Novaes.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Brasil, escrito por Pedro Rafael Vilela (enviado especial a convite da organização do 26º Fica)
Rondônia possui 48 mil hectares e produção superior a 2,8 milhões de sacas de café robusta. Foto: Enrique Alves
Rondônia vive um momento histórico com a explosão nas exportações de café, que saltaram de US$ 66,8 mil em 2019, para expressivos US$ 130,9 milhões em 2024.
O crescimento é resultado de uma combinação estratégica de fatores, como a elevação do consumo mundial da bebida e o fortalecimento da política agrícola estadual voltada à cafeicultura. Hoje, Rondônia é o maior produtor de café da Região Norte e o 5º do Brasil, com mais de 48 mil hectares cultivados e produção superior a 2,8 milhões de sacas de café robusta.
O estado se preparou ao longo dos últimos anos para alcançar esse patamar. A implementação de programas com distribuição de mudas, o Plante Mais, e o Concurso de Qualidade e Produtividade do Café (Concafé), por meio de políticas públicas da Secretaria de Estado da Agricultura (Seagri) e Entidade Autárquica de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Rondônia (Emater-RO), e a determinação dos produtores foram fundamentais para incentivar a modernização da produção e elevar a qualidade dos grãos. O resultado é uma cafeicultura sustentável, com destaque nacional e cada vez mais valorizada no exterior.
Em agosto de 2024, o preço da saca de café ultrapassou marcas históricas, impulsionado pelo aumento do consumo no mundo todo e pela redução da oferta devido à crise hídrica em outras regiões produtoras. Com isso, Rondônia passou a competir em igualdade de condições com grandes mercados, conseguindo parear os preços da saca com os principais estados exportadores do país. O secretário de Agricultura, Luiz Paulo, destacou que, “esse salto é fruto de um trabalho consistente, que vai desde o suporte técnico ao produtor até o fortalecimento da imagem do nosso café lá fora.”
Além dos investimentos na produção, a qualidade dos cafés robustas e a construção de uma política estadual focada nos grãos foi decisiva para consolidar Rondônia no mapa global do café. A realização da 1ª Feira Robustas Amazônicos ajudou a projetar os cafés robusta de Rondônia como produtos especiais, sustentáveis e de altíssima qualidade. Atualmente, o estado exporta para mercados exigentes como Vietnã, Alemanha, Bélgica, Itália, Estados Unidos, e Índia, entre outros.
O governador de Rondônia, Marcos Rocha, celebrou os resultados, reforçando o papel da política pública na transformação do setor. “Com a criação de uma política agrícola consistente, com fomento à produção e incentivo à modernização, tivemos estrutura para alcançar essa qualidade e essa competitividade. Hoje, Rondônia colhe os frutos de um trabalho visionário que valoriza o produtor e o meio ambiente”, enfatizou.
Com mais de 17 mil famílias envolvidas na atividade, a cafeicultura se consolida como uma das principais forças da economia rural de Rondônia. O apoio técnico, o incentivo à inovação e a criação de canais para promover os cafés no exterior contribuíram para que o estado atingisse esse nível de excelência e rentabilidade.
Diante de um mercado internacional cada vez mais exigente e consciente, Rondônia mostra que está preparada. Os investimentos e políticas bem estruturadas permitiram que o estado se destaque como fornecedor de grãos especiais e sustentáveis, capazes de competir de igual para igual com os melhores cafés do mundo.
Palmas, no Tocantins. Foto: Adilvan Nogueira/Governo do Tocantins
O Mato Grosso e o Tocantins ganharam destaque na comparação do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ao longo dos últimos 20 anos. Conforme análise dos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2003 a 2022 (último ano disponível), o dois estados dividem a primeira colocação dos que mais cresceram no Brasil.
De acordo com o Governo do Tocantins, a série histórica, com base no Sistema de Contas Nacionais do IBGE, aponta que o estado teve crescimento médio anual de 4,8%, mais que o dobro da média nacional (assim como o Mato Grosso), que foi de 2,1%.
Na agropecuária, o Tocantins chegou a crescer mais que o Mato Grosso. Enquanto o estado tocantinense avançou, em 20 anos, uma média de 8,8% ao ano, o mato-grossense teve um crescimento médio de 7,5% ao ano. No setor industrial, o Tocantins alcançou a média de crescimento de 4,6% ao ano; e no de serviços, atingiu a média de 3,3% ao ano.
Entre as unidades federativas, tanto o Tocantins quanto o Mato Grosso apresentaram o maior crescimento médio anual do país, com 4,8%. O estado de Roraima, com média de 4,5%, aparece em seguida e, depois, o Piauí com 3,7%.
“Analisar os dados consolidados do PIB do Tocantins ao longo dos últimos 20 anos permite compreender o que já funcionou e apontar caminhos viáveis para o crescimento sustentável. O cálculo do PIB trimestral do Tocantins, implantado na gestão do governador Wanderlei Barbosa, representa um avanço importante e oferece uma ferramenta estratégica para tornar o planejamento público ainda mais eficiente, contribuindo com o Tocantins que queremos para o futuro da nossa população”, pontua o titular da Secretaria de Estado do Planejamento e Orçamento (Seplan), Sergislei de Moura, ao acrescentar que a equipe econômica do Governo do Tocantins está atenta aos indicadores que impactam diretamente o desenvolvimento regional.
Giovanna Evelin entre as prefessoras Lunalva Aurélio Pedroso e Márcia Guelma. Foto: Divulgação
A estudante Giovanna Evelin Conceição Lima, do 5º período do curso de Enfermagem/Câmpus Augustinópolis, na Universidade Estadual do Tocantins (Unitins), desenvolveu um creme hidratante com formulação inédita à base de óleo de buriti, voltado especialmente para a hidratação da pele de idosos e pessoas com diabetes.
A formulação do creme foi desenvolvida em parceria com a professora farmacêutica Márcia Guelma, da Unisulma, em Imperatriz (MA), e já tem como próximo passo o pedido de registro junto à Unitins, com vistas à futura aplicação prática e produção em escala.
O projeto foi realizado no âmbito do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (Pibiti), sob orientação da professora doutora Lunalva Aurélio Pedroso.
“O óleo de buriti possui propriedades significativas para o cuidado com a pele, devido à sua concentração de ácidos graxos e outros nutrientes. O desenvolvimento de um creme hidratante com esse ingrediente valoriza as riquezas da nossa região, pois a inclusão de recursos naturais em formulações cosméticas pode contribuir para o fortalecimento econômico de comunidades locais. Além disso, buscamos apoio científico para comprovar os benefícios terapêuticos do óleo, sempre com responsabilidade social e ambiental”, pontuou Giovanna.
Para a professora doutora Lunalva Aurélio Pedroso, o projeto representa uma importante convergência entre saúde, ciência e sustentabilidade: “Eu vejo com grande entusiasmo, pois é um avanço significativo na intersecção entre a saúde, a biodiversidade amazônica e a tecnologia. O desenvolvimento de um creme com formulação inédita, a partir do óleo de buriti extraído na região do Bico do Papagaio, no Tocantins, evidencia o valor da nossa biodiversidade”.
O óleo de buriti é amplamente reconhecido por suas propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e regeneradoras. Aliado a uma base tecnológica desenvolvida para maximizar seus efeitos, o produto une saberes tradicionais e inovação científica, com potencial de aplicação direta na enfermagem e no cuidado à saúde.
Outro diferencial do projeto é o uso de métodos sustentáveis de extração do buriti, que respeitam o meio ambiente e fortalecem comunidades locais, promovendo a economia solidária e a valorização dos saberes regionais.
Mulheres Huni Kuin inauguram Casa de Cultura para fortalecer saberes ancestrais em Jordão, no Acre. Foto: Nara Mattos/Ainbu Daya
Foi com grafismos, cantos tradicionais e sorrisos de orgulho que as mulheres indígenas Huni Kuin celebraram a inauguração da Casa de Cultura, Arte e Saberes Ancestrais Ainbu Daya, no município de Jordão, no interior do Acre. O espaço foi criado para preservar os saberes tradicionais, promover autonomia econômica e fortalecer os laços entre mulheres de diferentes aldeias por meio da arte, do ensino e da valorização cultural.
O projeto nasceu da mobilização das próprias mulheres indígenas e da atuação do Instituto Ainbu Daya, organização formada por mulheres dos três territórios Huni Kuin da região Alto Jordão, Baixo Jordão e Seringal Independência.
“Esse é um projeto muito importante para que as mulheres possam estar unidas, trocando experiências, fortalecendo esse trabalho. As jovens aprendem e as mais velhas ensinam cestaria, tecelagem, tingimento natural, o cultivo do algodão. Tudo isso faz parte da nossa cultura”, explicou ao Grupo Rede Amazônica a vice-presidente do Instituto, Batani Huni Kuin, de 42 anos.
O nome do projeto, Ainbu Daya, significa ‘Mulher Luz’ em Hãtxa Kuin, refletindo a missão de iluminar caminhos de autonomia e preservação cultural por meio das mãos e saberes femininos.
Hashuani Huni Kuin é aprendiz, mas foi escolhida como artesã representante da comunidade porque também está ensinando. Foto: Nara Mattos/Ainbu Daya
“Pra muitas de nós, sair da aldeia é difícil. Só o transporte das artes já custa caro. Com esse projeto, a gente pode se encontrar e levar nossos trabalhos com mais dignidade. Isso dá coragem pra continuar”, complementou a liderança.
A iniciativa é patrocinada pelo Banco da Amazônia, com apoio do Programa Rouanet Norte, e tem parceria do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Correios, Ministério da Cultura e Governo Federal. A inauguração ocorreu no último dia 4 de junho e também contou com autoridades locais.
A Casa foi alugada por um período inicial de seis meses, durante os quais funcionará como ateliê, espaço de encontros e sede das ações do Instituto Ainbu Daya. Durante esse tempo, 44 mestras artesãs, guardiãs dos saberes ancestrais do povo Huni Kuin, receberão bolsas mensais como forma de reconhecimento simbólico e incentivo à continuidade da produção artesanal e transmissão de conhecimentos para as novas gerações.
Reunir mulheres de 44 aldeias Huni Kuin, espalhadas por regiões entre os rios Tarauacá e Jordão, exige não apenas planejamento, mas também recursos. O projeto garante apoio logístico para que essas mulheres possam participar dos encontros, levando suas artes e suas histórias.
Além do apoio financeiro, o projeto prevê seis encontros, um por mês, cada um com foco em um tema como: empreendedorismo, mídias sociais, informática básica, desenvolvimento criativo e planejamento financeiro. Também haverá oficinas online voltadas para a formalização de artesãs, estratégias de venda, gestão e organização do processo produtivo.
“Queremos que elas aprendam não só a criar, mas também a planejar, precificar e vender suas artes com autonomia. O objetivo é que elas façam por elas mesmas, sem depender de intermediários”, explicou Priscilla Romão, uma das integrantes do projeto.
De filha para mãe, de mãe para filha
Entre as participantes está Hashuani Huni Kuin, de 21 anos, que desde os 12 acompanha sua mãe, uma mestra da comunidade, e aprendeu a arte da tecelagem, miçangaria e pintura. Atualmente, além de continuar produzindo, ela também ensina outras jovens da aldeia, incluindo sua própria filha de 8 anos.
“A gente faz arte pra usar, porque é a nossa cultura. Mas também para vender, pra que outras pessoas conheçam o nosso artesanato. Isso traz muita felicidade pra nós”, contou.
Casa foi alugada por seis meses e será sede para ações do Instituto Ainbu Daya no Jordão, interior do Acre. Foto: Nara Mattos/Ainbu Daya
Segundo Hashuani, a chegada do projeto representa um alívio. Antes, ela conta, era difícil vender os produtos. “A gente produzia bastante arte, mas só conseguia vender quando um gringo vinha na aldeia. A gente não sabe mexer no Instagram, nem como vender online. Agora, vamos aprender juntas. Vai dar certo”, comentou.
Entre linhas e grafismos, também se tecem futuros. Enquanto ensina outras jovens, Hashuani sonha que sua filha aprenda não só a arte tradicional, mas também possa estudar e transitar entre dois mundos: o dos saberes ancestrais e o da educação formal.
“Quero que ela aprenda a tecer, a fazer o tingimento natural, mas também que possa estudar, fazer faculdade. Aprender o ‘mundo nauá’ (não indígena), sem esquecer do nosso mundo, dos saberes Huni Kuin”, disse.
O lançamento do projeto ocorre em um ano simbólico: em 2025, o grafismo Kene Kuĩ, arte tradicional dos Huni Kuin, foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Para o povo Huni Kuin, os grafismos não são apenas estética. São ensinamento, espiritualidade, identidade. “Cada peça produzida carrega a força de nossa história. A arte é uma energia, uma força, a beleza do povo Huni Kuin. É assim que a gente transmite a cultura”, afirma Hashuani.
Casa Ainbu Daya em Jordão, no interior do Acre. Foto: Divulgação/Instituto Ainbu Daya
O apoio financeiro concedido às mestras é descrito pelo projeto como uma forma de reparação histórica e reconhecimento do papel dessas mulheres como guardiãs da memória e do saber.
Mais do que arte, a Casa Ainbu Daya é símbolo de um movimento maior, que integra os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. O projeto articula ações de regeneração cultural e ambiental, reafirmando o protagonismo feminino indígena na preservação da Amazônia.
“Estamos falando de mulheres que produzem, vendem, lideram e ensinam. Elas são protagonistas. Isso é força, isso é futuro. Um futuro tecido pelas mãos das mulheres da floresta”, concluiu Romão.
Hashuani compartilha do mesmo sentimento. “A nossa arte é também um trabalho. É o que a gente tem pra viver e pra mostrar pro mundo quem a gente é. Quando as pessoas compram nossa arte, elas tão levando um pouco da nossa história junto”, frisou.
Porto de entrada do Seringal Paraíso. Foto: Luzimar Bessa
Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br
Era uma vez… em Ossela, numa encantadora aldeia do concelho (parte de um distrito) de Oliveira de Azeméis, Beira Litoral, não muito longe de S. João da Madeira e Porto, em Portugal, nasceu a 24 de maio de 1898, um menino que recebeu na pia batismal o nome de José Maria de Ferreira de Castro, destinado pelos deuses ou fadas, a descrever uma trajetória luminosa nos horizontes infinitos das letras portuguesas.
Aos 12 anos, órfão de pai e apenas com o diploma da 4ª classe, emigrou de Ossela rumo a Belém do Pará, no Brasil, munido de um dicionário e no coração a dor da partida e também sonhos lindos e dourados: ser talvez rico e angariar a subsistência de sua mãe, docente, e de seus dois irmãos criança.
Chegando em Belém, empregou-se numa mercearia e após uma breve estada, de uns dois meses, foi despedido. E assim, em março de 1911, ele rumou para o Seringal Paraíso, no Alto Amazonas, nas margens escalavradas do Rio Madeira, na companhia de cearenses, maranhenses, marginais e aventureiros, que à selva iam em busca de sorte e fortuna.
Sentindo a dor da saudade da família, da aldeia, dos amigos, dos campos e do solo pátrio, para esquecer-se, ele escreveu, aos 13 anos, no Seringal Paraíso, o seu primeiro livro, ‘Criminoso por Ambição’, sob a sombra amiga da sapotilheira junto ao barracão do seringal.
Quatro longos e sofridos anos passou Ferreira de Castro no seringal, de março de 1911 a 28 de outubro de 1914, quando se iniciava na Europa a 1° Guerra Mundial, tendo regressado a Belém, onde passou privações e provações.
Em 1916, com a ajuda de um amigo, publicou o livro ‘Criminoso por Ambição’, que foi vender aos amigos e compatriotas, em fascículos. Alguns anos depois, em 1919, regressou a Portugal com apenas 400 mil reis no bolso.
Ferreira de Castro. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
Teima seguir a carreira de jornalismo em Lisboa, mas reconhece alguma animosidade por parte de alguns colegas. Então, refugia-se nas comunidades primitivas da Serra do Barroso (Minho) que percorre e na Casa do Capitão, em Padornelos, onde escreve as primeiras páginas do seu livro ‘Terra Fria’, e na Serra da Estrela vai em busca de dramas sociais, quando escreve o livro ‘A Lã e a Neve’. Depois visita as Minas de Aljustrel (Alentejo) e escreve extrema e realista reportagem, que foi censurada.
Enquanto enamora-se de Diana Liz, poetisa, que inspirou ao neófilo escritor uma intensa paixão. Foi sob o olhar terno de Diana de Liz, na Rua Tenente Espanca, em Lisboa, à luz de petróleo vivendo mil dificuldades, que Ferreira de Castro escreveu, em 1929, o imortal livro ‘A Selva’, que publicaria em 1930.
Nesse mesmo ano, de consagração, ele recebe um dos maiores golpes do destino. Diana Liz, que levara a ares para Ossela, morre tuberculosa, à míngua de remédios e recursos financeiros. Profundamente abatido, o romancista refugia-se na ilha da Madeira, onde escreve o livro ‘Eternidade’, um hino de espiritualidade em homenagem a Diana Liz.
Mais tarde, em 1937, e após ter escrito outros livros, vem a conhecer a talentosa pintora Elena Muriel, da Andaluzia, refugiada no Estoril da Guerra Civil espanhola, senhora de uma rara beleza física e moral e companheira dedicada do escritor por mais de 40 anos e com quem vem a casar-se, em Paris (França).
Com Elena Muriel dá a volta ao mundo e escreve, no ensejo, ‘A Volta ao mundo’ e ‘As Maravilhas Artísticas do Mundo’. E escreve mais livros: ‘Emigrantes’ (1929), ‘A Curva da Estrada’, ‘Pequenos Mundos e Grandes Civilizações’, ‘Tempestade’, ‘Missão’, ‘O Instinto Supremo’, ‘Os Fragmentos’ (póstumos) etc.
Em 1970 vê a sua obra ser distinguida com o Prêmio Águia de Ouro Internacional, em Nice, pela Academia Francesa, o que constituiu um dos maiores acontecimentos da vida literária portuguesa. Com o valor desse prêmio constrói a Casa–Museu FC, em Ossela (sua terra natal).
Casa da rua Tenente Espanca, 23, em Lisboa, cujo primeiro andar foi escrito o romance ‘A Selva’. (BRASIL, Jaime. Ferreira de Castro. Lisboa: Ed. Arcádia). Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
Considerado o percursor do neorrealismo e o mais humanista escritor português, sua obra é um hino de louvor e reconhecimento a todo o homem oprimido, solitário ou desprezado, a todo o homem que trabalha, servindo, muitas vezes explorado, humilhado ou ofendido.
Da leitura de seus livros, que é dirigida a todos os homens que mandam para melhor compreenderem o drama do homem que trabalha, depreende-se, sempre, uma fina ternura e empatia, que tanto nos subjuga como fascina.
Ao escrever o livro ‘A Selva’, Ferreira de Castro denunciou situações tremendamente injustas, como era o caso dos milhões de seringueiros que a extração da borracha davam o melhor do seu sangue, suor e liberdade. Em todos os seus livros está patente a denúncia – apresentar os fatos tão somente para o leitor ajuizar, sem jamais se socorrer da linguagem da violência ou do ódio.
Aí o seu mérito e a sua missão. A denúncia subtil por amor à humanidade enferma. Daí o ter sido considerado o mais humanista escritor português e um dos mais universalistas, já traduzido em 25 línguas e em Braile.
Em 1980, no Parque Municipal de Ferreira de Castro, em São João da Madeira, é inaugurado um monumento no ensejo do Cinquentenário de ‘A Selva’, um busto em Ossela e mais tarde outros bustos se ergueram em terras do Brasil: em Teresópolis (RJ), Belém (PA), Manaus (AM), em Humaitá (AM) mesmo defronte ao Seringal Paraíso, palco central e geográfico da odisseia.
Em 1979, por iniciativa do pintor do Canto dos Verdes da Amazônia, o professor catedrático Moacir Andrade, fundou a Associação Internacional dos Amigos de Ferreira de Castro, com o propósito de divulgar a vida/obra/mensagem humanista. Entre os amigos: General Carlos Alberto da Fontoura; a viúva do romancista Elena Muriel e sua filha, Drª Elza Muriel; o então Presidente da Assembleia da República, Vasco da Gama Fernandes; Tenente Coronel Júlio Baptista Santos; Presidente da Câmara Municipal de Sintra, Eurico de Andrade Alves (empossado como presidente); Moacir Andrade; Manuela Montenegro; Manuel de Portugal e outras individualidades.
Indígenas parintintins. Fotografia de Silvino Santos. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
A AIAFC na pessoa do seu presidente, realizou já quatro visitas de divulgação cultural ao Brasil, nomeadamente a Belém, Manaus, Brasília e Rio de Janeiro.
Teresópolis, Salvador e Santos, a Humaitá e Seringal Paraíso, já visitado em 1986 e 1989, tendo escrito no ensejo o livro visita ao Seringal Paraíso, além de palestras em Universidades, Centros Culturais e Escolas Técnicas e Televisão, levou longe o humanismo do escritor.
E na zona mais ridente do Porto, na Foz do Douro, em 22 de outubro de 1988, erigiu um monumento ao romancista, de 6 metros de porte, três figuras distintas, mais de três toneladas de bronze, contemplando o oceano e lá longe o Amazonas e o Seringal Paraíso.
Em 1989, no ensejo dos 10 anos da fundação, a AIAFC publicou o livro ’10 anos in memoriam de Ferreira de Castro’, livro muito documental e ilustrado com perto de 100 fotos.
AIAFC tem sua sede em São João da Madeira, conta com 400 associados de Portugal, Brasil, EUA, Espanha, França, Polônia, Japão e Panamá, sendo 200 fundadores.
Ferreira de Castro morreu em 29 de junho de 1974, no alvorecer da Democracia em Portugal e está sepultado, segundo seu desejo expresso em carta, sob um banco de pedra, em campa rasa, no Castelo dos Mouros, em Sintra, “para estar mais perto dos homens, meus irmãos, das árvores, da lua e das estrelas, que tanto amei”.
Fonte: ALVES, Eurico de Andrade. Moacir Ferreira de Castro e a Amazônia.
Sobre o autor
Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.
Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
O Dia da Biodiversidade, celebrado no último 22 de maio, ensejou ao Idesam “chamar a sociedade para mobilização em prol do plantio de árvores em uma das regiões mais afetadas pelo desmatamento: Apuí, sul do Amazonas”. Com a campanha “Eu Sou Uma Árvore Bonita”, o Instituto definiu como meta “o plantio de 20 mil mudas até final do ano e disseminar informações de educação climática — um gesto de esperança para a floresta e para as comunidades que dela dependem”. Para o Idesam, as datas simbólicas conectadas à “valorização da vida são uma oportunidade para as pessoas (cidadãos) que se perguntam o que elas podem fazer pelo planeta e que a campanha ‘Eu Sou Uma Árvore Bonita’ é uma chance de contribuir de maneira prática com o plantio de árvores na Amazônia e assim contribuir para a transformação do ambiente e de restauração produtiva”, destaca Paola Bleicker, diretora executiva do Idesam.
De acordo com informes disponíveis no site do Idesam, a proposta da ação tem como base doações comunitárias de R$100,00, necessários ao plantio de uma nova árvore na região, que contribuirá para o fortalecimento do sistema de restauração florestal e da agricultura familiar. A restauração produtiva defendida pela campanha, segundo o Idesam, assenta-se nesse modelo, que combina recuperação florestal, segurança alimentar e geração de renda, levando em conta que, “se cada um fizer a sua parte, o município como um todo consegue produzir muitas toneladas e elevar o patamar de Apuí como um grande produtor agrícola, particularmente de café, cuja marca vem conquistando importantes mercados ano a ano. Vale ressaltar que o Idesam há anos atua em Apuí “promovendo a restauração de ecossistemas, o fortalecimento da economia local e o enfrentamento das mudanças climáticas, além de se destacar como um dos protagonistas da Década das Nações Unidas da Restauração de Ecossistemas (2021-2030)”, afirma Bleicker.
Plantar uma árvore no Apuí é, sem dúvida, uma ideia pertinente, meritória. Contudo, a ação do Instituto não deve restringir-se tão somente a esse objetivo, e sim buscar voos mais elevados. Dotado de excepcional competência técnica no campo da captação de contribuições financeiras de organismos nacionais e estrangeiros, deve ampliar seu raio de ação abrangendo objetivos de maior expressão relacionados à economia do município e da região. Exemplo: liderar ações em favor da implantação do Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE) do Sul do Amazonas, de uma política de regularização fundiária indispensável à legalização da distribuição de terras agricultáveis a pequenos produtores da agricultura familiar. Intervenções governamentais que se destinam, ao mesmo tempo, a reduzir invasões de terras, eliminar a pirataria ambiental e incentivar o aproveitamento do potencial de desenvolvimento e crescimento da região. Meio caminho para a maximização de resultados econômicos e sociais do trinômio produção sustentável, defesa e preservação do bioma.
A propósito, ao comentar, no Linkedin, meu artigo “Amazonas: Carências e Vulnerabilidades de Ontem e de Hoje”, de 9/6, o consultor empresarial Aécio da Silva Filho observa que “a regularização fundiária e o Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) constituem ferramentas essenciais e viáveis ao ordenamento do uso da terra, redução dos conflitos e atração de investimentos sustentáveis; legalizar a terra, portanto, é garantia de acesso ao crédito, assistência técnica e inclusão produtiva”. Nada muito complicado de resolver, ao que entendo, por tratar-se de questões dependentes única e exclusivamente de políticas públicas que assegurem recursos destinados à correção dessas distorções e ao pleno aproveitamento das potencialidades econômicas estruturadas na bioeconomia, no manejo florestal e na mineração sustentáveis, no turismo ecológico, na produção de alimentos, setores essenciais à redução do gap que separa a economia amazonense do Polo Industrial de Manaus.
Sobre o autor
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).
“Tia, eu quero ser cientista!”. Carla nunca tinha visto alunos tão entusiasmados com a aula de biologia. Não que ela não tentasse deixá-los empolgados assim nos outros dias, pelo contrário. Quem conhece a realidade da educação básica brasileira sabe o quanto a falta de estrutura e de apoio didático desgasta até os professores mais esforçados e bem-intencionados. Quando o projeto ‘Cientistas nas Escolas’ os visitou, foi diferente.
Naquela sexta, os estudantes de ensino fundamental puderam ver, ouvir e tocar pela primeira vez em materiais que antes pareciam existir só nos livros de ciências. Para os alunos, era como se um universo de novas possibilidades tivesse se revelado.
Além de professora de ensino fundamental e médio licenciada em ciências biológicas, Carla Carolina dos Santos também é doutoranda em Farmacologia e Bioquímica pela Universidade Federal do Pará (PPGFARMABIO). Ela e mais 13 voluntários (estudantes de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado) integram o projeto Cientistas nas Escolas, que tem como objetivo levar a ciência desenvolvida dentro da universidade para as salas de aula da educação básica, da educação infantil e do ensino médio. Para acessar esse público, o projeto desenvolve atividades e visitação em forma de circuito, proporcionando o aprendizado de conceitos científicos de forma prática e emocionante.
“A sociedade como um todo, quando imagina um cientista, pensa naquele químico fazendo poções ou em uma pessoa com muita inteligência, uma coisa fora da média. A maioria não vê o conhecimento científico como algo que faz parte da vida deles. Por isso, cada vez mais, a gente precisa se aproximar da comunidade, inclusive para evitar casos como os que aconteceram durante a pandemia do Covid-19, quando a ciência foi descredibilizada justamente no momento em que se fazia mais necessária. Eu acho que esse é o principal papel do projeto de extensão: aproximar a universidade da sociedade”, explica Lílian Amado, professora da UFPA e coordenadora do Laboratório de Ecotoxicologia da UFPA (LABECOTOX/ICB), o principal grupo organizador do projeto.
Desde que surgiu, em 2022, no contexto pós-pandemia, o grupo já visitou mais de uma dezena de escolas – públicas, privadas, urbanas e ribeirinhas. Entre as temáticas mais abordadas durante as visitações, estão a ciência aquática e a educação ambiental, com as quais faz-se múltiplos paralelos dentro dos conteúdos da Biologia e da Ecotoxicologia.
Ensina-se, por exemplo, sobre fenômenos como a pesca fantasma, que ocorre quando pescadores perdem ou abandonam seus equipamentos nos oceanos e rios, e esses equipamentos abandonados continuam capturando espécimes e colocando em risco a vida aquática. Nesse sentido, a Organização Proteção Animal Mundial estima que, só em águas brasileiras, 25 milhões de animais marinhos são impactados pela pesca fantasma por ano.
Foto: Divulgação/Acervo do projeto
O grande diferencial do Cientistas nas Escolas, no entanto, é a metodologia de ensino. Além das visitações ocorrerem em grupo, os integrantes do Cientistas nas Escolas também levam consigo animais taxidermizados (popularmente conhecidos como animais “empalhados”), fósseis, lupas profissionais e outros equipamentos. Segundo Carla e os demais integrantes do grupo, os materiais científicos aliados às explicações geram um interesse muito maior nos estudantes.
Isso é possível graças aos parceiros do projeto, que cedem seus materiais para as exposições da equipe, como: o Museu de Zoologia da UFRA (MZUFRA), o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Norte (CEPNOR) e o Laboratório de Pesquisa em Monitoramento Ambiental Marinho (LAPMAR).
“Quando eu pego o livro e falo ‘lê uma página daqui até ali’, eles vão ler, mas eles não veem como aquilo se encaixa na vida deles. Geralmente, o primeiro contato que eles têm com uma lupa ou com organismos e animais taxidermizados, por exemplo, é durante as exposições do nosso projeto, principalmente quando a escola não tem estrutura para aulas de ciências que não sejam teóricas. [Nas exposições], quando eles botam o dedo na lupa e veem coisas que eles não conseguem ver a olho nu, a base da ciência, que é investigar, ter um olhar curioso, querer ir atrás de respostas, começa a fazer sentido para eles”, conclui a integrante Carla dos Santos.
Como agendar uma visita
Para receber a visita do projeto Cientistas nas Escolas na sua associação, escola, evento ou comunidade, basta entrar em contato via e-mail, pelo endereço lla@ufpa.br, ou pela DM do perfil @labecotoxufpa no Instagram. Em função das limitações de mobilidade do grupo, a escola solicitante deve estar, de preferência, na Região Metropolitana de Belém ou em cidades próximas. O grupo também está aberto para propostas de parcerias.
Por Julio Sampaio de Andrade – juliosampaio@consultoriaresultado.com.br
Conceitualmente, há diferenças entre um grupo de pessoas, uma equipe e um verdadeiro time. A classificação como grupo pode envolver um amontoado de pessoas, cada uma com seus interesses e remando para um lado. Em uma equipe, pelo menos, os interesses gerais são comuns. Mas é em um time que todos estão comprometidos com os mesmos objetivos, vivenciam os mesmos valores e são capazes de se sacrificar para o sucesso do todo. Não é fácil formar um time.
Um bom líder pode contribuir muito. Não faltam exemplos de times vencedores, nos esportes e nas empresas, que tiveram como referência uma ou algumas pessoas que exerceram esse papel e que conseguiram fazer com que indivíduos diferentes trabalhassem por um mesmo ideal.
É possível estudar técnicas de liderança alcançáveis por qualquer pessoa que se dedique a estudá-las e a treiná-las, mas não é possível formar grandes líderes exclusivamente pela técnica. Há uma força no líder que vem do caráter, da sinceridade, da capacidade de tirar de algum lugar a palavra certa, para a pessoa certa, da maneira certa, no momento certo. Um grande líder não nasce pronto; ele é formado pela vida. O estudo será um importante complemento, um tempero de retoque final.
Um bom líder não é suficiente para formar um time. Nem o melhor líder tem esse poder. Um time é formado por pessoas, e é o seu conjunto que se transformará em um novo ser, com identidade, personalidade e corpo — exatamente o que ocorre com uma empresa ou uma organização de qualquer tipo. Esse ser é diferente do somatório das partes. Em um time, ele será maior e melhor.
Em uma equipe ou em um grupo, existirão aqueles que jogarão para o conjunto, mesmo que ainda não tenham se tornado um time de verdade. São eles que fazem as coisas acontecerem e merecem todo o reconhecimento. No futebol, costumavam ser chamados de “carregadores de piano”.
Há, porém, os que jogarão contra e que são facilmente identificados. São elementos que estão sempre prontos para apontar defeitos nos outros, transmitir uma mensagem de ceticismo, serem críticos com as próprias conquistas do grupo e estimular uma atitude de oposição à liderança, normalmente de maneira velada. Costumam ser tomadores e colocam seus interesses sempre em primeiro lugar. Mais cedo ou mais tarde, são identificados e tendem a ser excluídos para o bem do conjunto.
Ainda nesses segmentos, entre os dedicados e os do contra, há uma categoria que, se não é negativa em si, também não é positiva. São os que balançam a cabeça, adotam o discurso oficial, porém, mais da boca para fora do que realmente sentido. Podemos chamar essas pessoas de neutras. Não são tomadores nem doadores, para utilizar uma linguagem do Adam Grant no livro Dar e Receber, aqui trazida para outro contexto. É aquele grupo de pessoas que participa de uma atividade voluntária, por exemplo, com as melhores das intenções. No entanto, no dia a dia, não sinaliza se leu ou não mensagens no grupo de WhatsApp; não responde aos e-mails ou às consultas; chega atrasado às reuniões, quando não falta; pode não aparecer no dia, porque algo está sempre acontecendo de última hora. É compreensível que elas estejam travando as suas próprias batalhas, mas como contar com essas pessoas? Como considerar que elas compõem um time?
Montar um time não é fácil. Fazer parte de um time também não. A reflexão que eu gostaria de deixar é: você se sente parte de um time, de uma equipe ou de um grupo? E o seu comportamento como participante, em qual dessas categorias se enquadra? O que fazer para melhorar?
Sobre o autor
Julio Sampaio (PCC,ICF) é idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute, diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching e autor do livro Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital). Texto publicado no Portal Amazônia e no https://mcinstitute.com.br/blog/.