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Glocal Amazônia 2025: especialistas convidam público em Manaus para debates sobre sustentabilidade e uma prévia da COP 30

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Foto: Clarissa Bacellar/Portal Amazônia

O Palácio da Justiça, no Centro de Manaus (AM), recebe a terceira edição da Glocal Experience Amazônia. Em 2025, o evento reúne palestrantes, organizadores e convidados para debates sobre a importância da sustentabilidade para a Amazônia. A abertura ocorreu nesta quinta-feira (28).

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Criada há quatro anos no Rio de Janeiro, a Glocal chegou à Amazônia mantendo seus pilares originais, mas ganhou ainda mais força na região.

De acordo com Malu Sevieri, Head da Glocal na Dream Factory, o projeto tem como lema “Pensar Global e Agir Local”, e o seu principal objetivo é reunir pessoas e iniciativas em busca de soluções para o futuro.

“Hoje o coração da Glocal bate na Amazônia, porque aqui o projeto já é muito maior, com engajamento crescente e diversas atividades oferecidas gratuitamente durante os três dias de programação”, disse.

Malu Sevieri, Head do Glocal na Dream Factory, participou da abertura do evento. Foto: Clarissa Bacellar/Portal Amazônia

O evento acontece entre 28 e 30 de agosto. Ainda durante a abertura da nova edição da Glocal, o gestor do evento, Artur Barros, informou as novidades e como é gratificante mais uma vez ocupar o Centro Histórico de Manaus para celebrar a sustentabilidade e democratizar o debate sobre temas ambientais.

“Este ano, a programação foi reformulada: o primeiro dia será dedicado à inovação, startups, empresas e indústria; o segundo, às escolas e universidades; e o terceiro, ao turismo sustentável”, contou Barros.

Saiba mais: Glocal Amazônia 2025 traz programação gratuita a partir de quinta-feira (28); veja a programação

Na parte artística, uma mudança chama a atenção: os bois Caprichoso e Garantido, que costumavam se apresentar juntos, terão dias separados, sexta e sábado, respectivamente. Além disso, o evento traz experiências de realidade virtual com três novos filmes, a mostra ‘Sabores Global’ em parceria com restaurantes locais e diversas atrações gratuitas para toda a família.

COP 30

Outro ponto destacado por Artur Barros foi a preparação para a COP 30, que será realizada em novembro, no Pará. Segundo ele, este ano, a Glocal Amazônia funciona como um aquecimento para o maior evento de sustentabilidade do mundo, iniciando conversas fundamentais que chegarão à conferência.

“No terceiro dia do evento, será realizada uma Masterclass para explicar o que é a COP 30 e qual será seu legado para a Região Norte, esclarecendo ao público a importância das decisões tomadas nesse encontro global. Iniciar esse debate na própria Amazônia é essencial para chegar a Belém com temas já amadurecidos e prontos para serem aprofundados”, afirmou.

Sustentabilidade em foco

A Fundação Rede Amazônica (FRAM) é a realizadora da Glocal Amazônia em Manaus. A diretora-presidente da instituição, Claudia Daou Paixão, exaltou a realização do evento na capital amazonense e reforçou o papel da FRAM em iniciativas voltadas para a sustentabilidade e o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Segundo Claudia, a Glocal se destaca como um espaço de troca de experiências e de valorização da biodiversidade, permitindo discutir soluções locais com impacto global.

“A maior importância da Glocal é essa troca, essa conectividade, dar voz às pessoas que vivem aqui e refletir sobre qual futuro queremos para a Amazônia”, afirmou.

Ela ressaltou ainda que, apesar da programação cultural com shows e entretenimento, os painéis de debate são o ponto central do evento:

“Queremos tratar de assuntos voltados para a Amazônia de forma séria, buscando que, ao pensar localmente, possamos agir de maneira global. Não queremos que a região seja vista apenas por suas belezas naturais, mas sim pelas pessoas que vivem aqui. Nosso papel como Fundação Rede Amazônica é respeitar e dar credibilidade a essas vozes”.

Abertura oficial do Glocal Amazônia 2025. Foto: Clarissa Bacellar/Portal Amazônia

A FRAM vê a Glocal como uma grande aliada na preparação para a COP 30. Segundo a diretora executiva da entidade, Mariane Cavalcante, a sustentabilidade é um dos pilares centrais da fundação e motivou a realização do evento na Amazônia.

De acordo com Mariane, a Glocal aproxima a sociedade do bioma amazônico, permitindo que o público vá além do debate e tenha experiências reais que valorizem a floresta e as populações que nela vivem.

“Queríamos fomentar um espaço em que as pessoas pudessem vivenciar a Amazônia através da arte, de experiências imersivas e da culinária. Isso é pensar global, agir local e construir soluções para um desenvolvimento que preserve o que temos de mais importante, que é a floresta”, destacou.

Eduardo Taveira acredita que a Glocal é uma prévia da COP 30. Foto: Clarissa Bacellar/Portal Amazônia

Também presente na abertura do evento, o secretário de Estado do Meio Ambiente, Eduardo Taveira, concordou que a Glocal é umas das prévias da COP 30. Para Taveira, além de ampliar os debates sobre sustentabilidade, é essencial discutir caminhos concretos para alcançá-la.

“A Glocal tem se firmado como um espaço de construção de soluções, pensando de maneira local, mas agindo para que esse local tenha uma interferência positiva no âmbito global”, comentou.

Leia também: Glocal Amazônia 2025 abre programação com debates sobre sustentabilidade, tecnologia e economia da floresta

Glocal Experience Amazônia 2025

A Glocal Experience Amazônia 2025 é idealizada e operada por DreamFactory, com realização da Fundação Rede Amazônica e tem o apoio de Bono Conta, Clube POP, Amazônica Net, Águas de Manaus, Agência Amazonense de Desenvolvimento Cultural (AADC), Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) e Governo do Amazonas.

Ministério da Cultura alerta sobre risco estrutural de prédios históricos em Manaus

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Foto: Adneilson Severiano/Acervo Rede Amazônica AM

O Ministério da Cultura reconheceu oficialmente riscos estruturais em prédios históricos do Centro de Manaus (AM). A falta de manutenção e preservação desses imóveis se arrasta há anos, oferecendo perigo para frequentadores e para a população que circula pela região.

Entre os edifícios em situação crítica está o Colégio Amazonense Dom Pedro II, na Avenida Sete de Setembro, uma das áreas mais antigas da cidade.

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O prédio centenário, com 139 anos, apresenta sinais visíveis de deterioração, como rachaduras em colunas, janelas quebradas, grades enferrujadas e até vegetação crescendo nas fachadas.

No interior da escola, a situação é ainda mais grave. Imagens registradas por estudantes mostram pisos de madeira quebrados, infiltrações, vazamentos no teto e banheiros sem pias. Professores relatam que os problemas levaram à suspensão das aulas em abril deste ano.

Leia também: Relatório técnico aponta risco crítico no Sítio Arqueológico de Paricatuba

Alunos afirmam que vistorias realizadas por órgãos competentes não resultaram em melhorias.

“Principalmente na questão do segundo andar, parece que vai cair. E vai molhando as salas, tanto as lousas. A gente pede urgência, porque são mais de mil alunos todos os dias aqui”, disse a estudante Lara Amorim.

Outros prédios

Além do Colégio Amazonense, o dossiê do Ministério da Cultura aponta outros prédios tombados com problemas estruturais, como o Mercado Municipal Adolpho Lisboa, a Santa Casa de Misericórdia — desativada há mais de 20 anos — e imóveis no entorno do Teatro Amazonas e do Porto de Manaus.

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Prédio onde funcionou Santa Casa de Misericórdia, em Manaus. Foto: Camila Henriques/Acervo Rede Amazônica AM

O documento foi enviado à Câmara dos Deputados em resposta a um requerimento do deputado federal Amom Mandel (Cidadania-AM).

No ofício, assinado pela ministra Margareth Menezes, o ministério destacou que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) aplicou diversos autos de infração nos últimos dois anos, confirmando a precariedade dos imóveis tombados em Manaus.

*Com informações de Naine Carvalho, da Rede Amazônica AM

Setor hoteleiro registra mais de 90% de ocupação para o período da 54ª Expofeira do Amapá

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Foto: João FIgueiredo/Arquivo Pessoal

A 54ª Expofeira do Amapá já demonstra sucesso antes mesmo de sua abertura oficial, neste sábado (30). A maior vitrine de negócios sustentáveis da Amazônia, no Parque de Exposições da Fazendinha, em Macapá, movimenta a economia local, gera empregos e atrai visitantes de diferentes regiões do Brasil e do exterior, com mais de 90% de ocupação na rede hoteleira.

De acordo com a Secretaria de Estado do Turismo (Setur), os dados são referentes aos nove dias de programação e refletem diretamente na importância do evento realizado pelo Governo do Amapá. A 54ª Expofeira deve receber delegações de outros estados brasileiros e de países como China e Guiana Francesa, fortalecendo o turismo de negócios e a integração internacional.

“A Expofeira é uma vitrine do potencial produtivo do nosso estado, e os números mostram que o turismo de eventos é um segmento estratégico para o crescimento da economia. Temos turistas de vários estados e até de países vizinhos que vêm prestigiar a feira e movimentar nossa rede de serviços”, destaca a secretária de Estado do Turismo, Syntia Lamarão.

Foto: Jorge Júnior/GEA

O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Amapá (ABIH-AP), Ricardo Bueno, reforçou que o evento representa um marco para o setor de hospedagem e para a economia estadual. Segundo Bueno, os hotéis da capital estão totalmente ocupados, e as hospedagens na região metropolitana já beiram os 100% de lotação.

“A 54ª Expofeira tem gerado uma movimentação econômica muito positiva no Amapá. Estamos com os hotéis lotados, o que impulsiona toda a cadeia produtiva, desde a alimentação até o turismo. É gratificante perceber esse impacto e ver que eventos desse porte estimulam investimentos no setor, garantindo que os visitantes se sintam bem acolhidos em nosso estado”, ressaltou Bueno.

Centro de Atendimento ao Turista (CAT)

Durante a 54ª Expofeira do Amapá os visitantes serão contemplados com o Centro de Atendimento ao Turista (CAT), para que possam oferecer informações e orientações para que aproveitem ao máximo o evento e a capital amapaense.

O CAT será um ponto estratégico de apoio ao público, com serviços que vão desde a divulgação da programação diária até indicações de passeios e locais para degustar as iguarias típicas da região. A iniciativa busca fortalecer o turismo e ampliar a experiência dos visitantes na maior vitrine de negócios sustentáveis da Amazônia.

Expofeira na Rede

A Expofeira na Rede tem o objetivo de valorizar e ampliar o impacto social, cultural, econômico e turístico da tradicional ExpoFeira do Amapá. É uma realização da Fundação Rede Amazônica (FRAM), com apoio do Grupo Equatorial, Tratalyx e Governo do Amapá.

Mais de 112 mil pessoas vivem em áreas de risco alto e muito alto em Manaus

Foto: Divulgação/SGB

O Serviço Geológico do Brasil (SGB) divulgou, nesta quarta-feira (27), os resultados da atualização do mapeamento de áreas de risco geológico de Manaus (AM). O levantamento indica que, aproximadamente, 112 mil pessoas vivem em 438 setores classificados como de risco alto (R3) e muito alto (R4) para desastres como inundações, alagamentos, enxurradas, erosões e deslizamentos. A entrega do relatório foi feita à prefeitura e à Defesa Civil municipal para subsidiar ações de prevenção e planejamento urbano.

De acordo com o estudo, a capital amazonense possui 362 setores de risco alto e 76 de risco muito alto. Em relação ao levantamento anterior, realizado em 2019, é observado um aumento do tamanho de áreas de risco em km², no número de moradias e de pessoas vivendo nessas áreas mapeadas. Na época, havia 73 mil pessoas nos setores classificados como de risco alto e muito alto, agora esse número saltou para aproximadamente 112 mil.

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A atualização do mapeamento indica que todas as zonas administrativas apresentam áreas de risco, com destaque para as zonas Leste e Norte, que concentram maior número de setores e domicílios vulneráveis. Entre os bairros, os que mais se destacam pelo número de moradias em risco registrado são:

  • Jorge Teixeira,
  • Cidade Nova,
  • Gilberto Mestrinho,
  • Alvorada,
  • Mauazinho
  • e Nova Cidade.

Juntos, esses seis bairros concentram 194 setores de risco alto e muito alto, abrangendo mais de 13 mil domicílios e aproximadamente 52 mil pessoas vulneráveis aos processos geológicos e hidrológicos identificados.

O pesquisador em geociências do SGB, Elton Andretta, explica que o crescimento urbano desordenado de Manaus, observado há décadas, é o principal fator para a existência de áreas de risco. Segundo ele, o cenário se agrava porque a cidade é cortada por diversos igarapés e rios, que atravessam todas as zonas administrativas.

“A ocupação irregular nas planícies de inundação e sobre as drenagens deixa as casas vulneráveis a enchentes, alagamentos, inundações e enxurradas, além de erosões de margem fluvial”, detalha.

O estudo mostra ainda que os meses de janeiro a abril, período de maior intensidade de chuvas, concentram a maior parte dos registros de ocorrências. O SGB também identificou que parte das áreas mapeadas em 2019 passou por intervenções de mitigação, mas o crescimento urbano desordenado e a ocupação de áreas impróprias para habitação continuam sendo fatores que ampliam a vulnerabilidade da população.

mapeamento area de risco manaus
Imagem: Divulgação/SGB

No estudo, o SGB apresenta recomendações para reduzir os riscos existentes, principalmente, nos setores classificados como de risco muito alto.

“Esses 76 setores mapeados devem ser priorizados pelas municipalidades na questão de intervenções estruturais (obras) e não estruturais (alertas, gestão e gerenciamento), visando a mitigação dessas áreas. Para não agravar mais a situação, o planejamento urbano do município é de extrema importância, combatendo as invasões e ocupações irregulares, realizando de obras de urbanização e infraestrutura contínuas por toda a cidade”, ressaltou Andretta.

O mapeamento de áreas de risco é um dos principais trabalhos que o SGB realiza em todo o país para apoiar o poder público em ações de prevenção de desastres. Mais de 1,7 mil municípios brasileiros já receberam esse estudo.

Leia também: Voçorocas: as crateras que se formam na região urbana de Manaus

Atualização do mapeamento de áreas de risco

O levantamento anterior foi realizado em 2019 e, na ocasião, foram identificados 634 setores de risco alto e muito alto, onde viviam, aproximadamente, 73 mil pessoas. A variação no número de setores observada no novo mapeamento decorre da aplicação de metodologias e tecnologias mais precisas e atualizadas.

Para a atualização, o SGB adotou uma nova metodologia, considerando apenas os setores de risco alto e muito alto. Também foram utilizadas tecnologias como imagens de maior resolução e drones, o que permitiu unir em um mesmo setor áreas vizinhas que antes eram contabilizadas separadamente. Além disso, foi usada a base de dados domiciliar do Censo 2022 do IBGE, o que proporcionou maior precisão na estimativa populacional.

*Com informações do Serviço Geológico do Brasil

Microrganismos da Amazônia revelam potencial agrícola e farmacêutico

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Microbioma amazônico é uma fonte ainda pouco explorada de inovação para a agricultura sustentável. Foto: Juan Lopes Teixeira

Um estudo desenvolvido na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), campus de Piracicaba, revelou o potencial de microrganismos isolados da floresta amazônica na promoção do crescimento de plantas, no controle de doenças agrícolas e na descoberta de compostos bioativos inéditos.

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A pesquisa explorou actinobactérias, um grupo de bactérias conhecido pela rica produção de metabólitos com aplicações agrícolas e farmacêuticas.

De autoria da bióloga Naydja Moralles Maimone, a pesquisa foi financiada pela FAPESP e realizada no Laboratório de Microbiologia Agrícola e Química de Produtos Naturais, sob orientação da professora Simone Lira.

O projeto reuniu pesquisadores da Esalq, da USP de São Carlos e da Simon Fraser University, do Canadá. “As actinobactérias estudadas foram isoladas de solos amazônicos e estavam armazenadas no Laboratório de Genética de Microrganismos da Esalq. Destacamos o caráter interdisciplinar desse estudo, que englobou diferentes áreas da microbiologia, genética e química orgânica”, conta Maimone à Assessoria de Imprensa da Esalq.

O estudo utilizou técnicas avançadas de metabolômica e genômica, revelando como o microbioma amazônico é uma fonte ainda pouco explorada de inovação para a agricultura sustentável.

Leia também: Microrganismos do solo também estão ameaçados por substituição de florestas por pastagens na Amazônia

Duas das linhagens avaliadas se destacaram. A Streptomyces sp. AM25 demonstrou forte potencial como bioinsumo agrícola, promovendo o crescimento de plantas de milho e inibindo fungos que atacam culturas como soja, milho e tomate.

Streptantibioticus sp. AM24 surpreendeu por produzir compostos inéditos, como duas novas acidifilamidas, tripeptídeos (um tipo de peptídeo composto por três aminoácidos) com estruturas químicas não usuais, uma delas contendo uma modificação que ainda não havia sido descrita anteriormente em metabólitos originados de microrganismos.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Fapesp

Árvores da Amazônia já registram efeitos de secas intensas

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Anéis dos troncos de árvores espelham a variação anual de chuva. Foto: Leó Ramos Chaves/Pesquisa FAPESP

No último século, as árvores da Amazônia e de outras regiões tropicais têm resistido aos períodos de seca intensa, mesmo quando duram mais de um ano, e retomam depois o crescimento. No entanto, já se notam os efeitos de temperaturas mais altas. Ao longo desses 100 anos, os episódios de estiagem severa induziram uma leve redução no crescimento do diâmetro das árvores, o suficiente para aumentar em 10% a taxa de mortalidade. Se o calor continuar a se ampliar, o desenvolvimento tende a diminuir de forma mais acentuada e a mortalidade aumentará, de acordo com um artigo publicado em 31 de julho na Science.

As conclusões se basearam em análises feitas em colaboração com 150 pesquisadores de 124 instituições, 17 delas brasileiras, que participam da rede internacional Tropical Tree-ring Network (TTRNetwork), financiada no Brasil pela FAPESP. Eles examinaram os efeitos de secas extremas e do aquecimento global por meio da variação da espessura dos anéis de crescimento do tronco de mais de 10 mil árvores do Brasil e de outras regiões tropicais.

“Até aqui, as árvores se mostraram resilientes às secas extremas”, observa o biólogo Peter Groenendijk, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um dos autores principais do artigo.

Resiliência, ele explica, é a capacidade de retornar ao estado anterior após um distúrbio. “Desde 1930, o crescimento nos períodos de seca intensa diminuiu em média 2,5%, mas as plantas cresceram normalmente na estação chuvosa seguinte”.

Notou-se a retomada do crescimento após secas intensas mesmo em ambientes de regiões de clima mais quente, como a Caatinga brasileira. Nesse bioma, as reduções de crescimento em anos de secas severas foram de até 10%, mas as árvores retomavam o ritmo normal de crescimento quando voltava a chover.

Leia também: Secas mais frequentes e intensas reduzem capacidade da Amazônia de recircular água e estocar carbono

Temperaturas mais altas, crescimento menor das árvores

No entanto, a intensidade das secas e a redução do crescimento aumentaram nas últimas décadas. “Caso essa tendência se acentue com as mudanças climáticas, a mortalidade das árvores e as emissões de gases de efeito estufa [GEE] podem aumentar”, alerta Groenendijk.

O aumento de 10% nas taxas de mortalidade das árvores, por si só, resultou em uma emissão de GEE equivalente à de um país do porte da Alemanha, com 85 milhões de habitantes.

Em um trabalho anterior com 99 espécies em cinco continentes, a equipe da TTRNetwork verificou que o aquecimento global deve reduzir a capacidade das plantas de absorver carbono da atmosfera, como descrito em um artigo publicado na revista Nature Geosciences em 2022. Agora, o grupo ampliou a amostra e examinou o efeito das secas mais intensas ocorridas desde 1930 nos anéis dos troncos de 163 espécies de árvores.

A largura de cada anel reflete o crescimento ao longo de um ano, variando nos períodos de chuva ou de seca. Para examinar os anéis sem cortar a árvore, os pesquisadores retiram um cilindro do caule usando um tipo especial de broca manual ou motorizada, deixando um furo de cerca de 1 a 3 centímetros (cm). Essa amostragem atravessa o tronco, mas não compromete o desenvolvimento das árvores. Segundo Groenendijk, as árvores se recuperam desse tipo de ferida.

O caule das árvores é formado por vasos que transportam a água e os nutrientes absorvidos do solo. Na seca extrema, a coluna de água pode se romper, formando bolhas que bloqueiam o fluxo e, dependendo da quantidade de vasos afetados, levar o sistema de circulação do vegetal ao colapso.

“Se a temperatura subir demais e as secas se tornarem mais intensas, as árvores mais velhas devem começar a morrer e as mais jovens a viver menos tempo”, alerta o biólogo Giuliano Locosselli, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP), um dos autores do estudo, responsável por coletas em Minas Gerais e São Paulo.

No Cerrado e na Caatinga, Groenendijk testa outro método, com sensores que monitoram o fluxo de água e a transpiração, para ver o limite de temperatura e de falta de água que as árvores suportam.

aneis de arvores
Nelson-Jaen, da Unicamp, examina um mogno brasileiro (Swietenia) coletado no Acre (à esq.). Amostras de anéis de espécies tropicais de árvores (à dir.). Foto: Peter Groenendijk/Unicamp

Variação extrema

A seca intensa que afeta o crescimento das árvores não significa necessariamente que a precipitação anual na Amazônia esteja diminuindo. Segundo o biólogo brasileiro Bruno Cintra, da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, o clima na Amazônia está se tornando cada vez mais extremo, com chuvas torrenciais no verão, alternadas com invernos mais secos.

Cintra analisou a proporção de diferentes tipos de isótopos (formas de mesmo elemento químico com massa atômica diferente) de oxigênio, que varia conforme a quantidade de chuva e é incorporado aos troncos. Desse modo, a proporção dos isótopos nos anéis de crescimento indicará a intensidade da chuva de cada ano.

No estudo, anéis de troncos de espécies distintas indicaram a variação de chuva ao longo do ano. O cedro-cheiroso (Cedrela odorata), árvore de áreas não alagáveis, serviu de referência para a estação chuvosa, enquanto o arapari-branco (Macrolobium acaciifolium), adaptado a ambientes alagáveis, foi usado como parâmetro para a estação seca. “Conseguimos medir a chuva de cada ano sem precisar de dados climáticos da Amazônia, que são escassos”, destaca Cintra.

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Anel tropical

Por muito tempo, os especialistas no estudo dos anéis de crescimento, ciência conhecida como dendrocronologia, consideraram que as árvores dos trópicos, por viverem em lugares sem grandes variações entre as estações do ano, teriam um crescimento contínuo e formariam uma madeira uniforme. Presumia-se que os anéis eram resultado de estações bem delimitadas nas árvores de regiões temperadas, como as sequoias (Sequoia sempervirens), que podem viver mais de 2 mil anos, com troncos de 10 m de diâmetro e altura de até 100 m.

Nas regiões de clima mais ameno dos hemisférios Norte e Sul, o crescimento do tronco das árvores diminui gradativamente até parar no inverno e recomeçar na primavera. O contraste entre a madeira mais escura formada no final da estação de crescimento com a madeira mais clara gerada no verão resulta em anéis bem delimitados.

A partir dos anos 1980, os estudos nessa área deixaram claro que a variação do clima nos trópicos poderia ser suficiente para promover a formação de anéis anuais de crescimento, embora em muitas espécies sejam difíceis de visualizar. Por isso, os pesquisadores preferem as espécies que produzem anéis facilmente identificáveis, como os cedros (Cedrela spp.), a araucária (Araucaria angustifolia) e o jatobá (Hymenaea spp.).

“Nos trópicos, variações no clima podem fazer com que o crescimento das árvores se torne irregular”, ressalta a engenheira florestal Ana Carolina Barbosa, da Universidade Federal de Lavras (Ufla), que fez coletas na Amazônia ocidental e em regiões mais secas de Mata Atlântica, no norte de Minas Gerais, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Segundo ela, uma das dificuldades desse trabalho são os chamados falsos anéis, que se formam fora da época esperada, quando chove excepcionalmente muito. Já em anos de seca extrema, nas regiões mais áridas, as árvores podem deixar de crescer e não formarem o anel de crescimento, dificultando a datação e a identificação da oscilação do clima,

“Os anéis podem se tornar bem mais largos nas regiões tropicais do que nas temperadas”, reforça Locosselli. Por exemplo, os anéis do guapuruvu (Schizolobium parahyba), que cresce com rapidez em clareiras ou regiões desmatadas, podem passar de 3 cm de espessura, enquanto os das sequoias podem ter em média menos de 1 milímetro (mm).

Com base nesse conhecimento, Locosselli verificou que a tipuana (Tipuana tipu), espécie de copa larga e flores amarelas, que chega a 25 metros de altura, cresce bem sob temperaturas altas, mesmo nos períodos de seca intensa, como mostrado em um artigo publicado em maio de 2024 na revista Urban Climate. Segundo ele, a tipuana ajuda não só a amenizar a temperatura das cidades, mas também a sequestrar carbono da atmosfera, por causa de sua capacidade de crescer com rapidez.

Projetos
1. DendroGrad: Aplicando anéis de crescimento, anatomia da madeira e atributos hidráulicos em um gradiente ambiental para avaliar as respostas de crescimento de três espécies tropicais à fertilização por CO2 (nº 18/01847-0); Modalidade Jovem Pesquisador; Pesquisador responsável Peter Stoltenborg Groenendyk (Unicamp); Investimento R$ 1.300.245,40.
2. Florestas funcionais: Biodiversidade a favor das cidades (nº 19/08783-0); Modalidade Jovem Pesquisador; Pesquisador responsável Giuliano Maselli Locosselli (USP); Investimento R$ 1.399.634,55.

Artigos científicos
LOCOSSELLI, G. M. et alStress-tolerant trees for resilient cities: Tree-ring analysis reveals species suitable for a future climateUrban Climate. v. 55, 101964. 11 mai. 2024.
ZUIDEMA, P. A. et al. Pantropical tree rings show small effects of drought on stem growthScience. v. 389, n. 6759, p. 532-8. 31 jul. 2025.
ZUIDEMA, P. A. et alTropical tree growth driven by dry-season climate variabilityNature Geoscience. v. 15, p. 269-76. 31 mar. 2022.

*O conteúdo foi originalmente publicado Revista Pesquisa Fapesp, escrito por Gilberto Stam

Você sabia que alguns peixes “se disfarçam” de cobras?

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Poraquê. Foto: Phelipe Janning/Agência FAPESP

Assim como existem espécies de cobra que nadam tão bem quanto peixes, também há muitos peixes que parecem com as serpentes. A semelhança se dá principalmente pelo formato alongado do corpo e, em alguns casos, por conta daquela cara de zangada que certas cobrinhas têm.

Entre os peixes muito bem disfarçados, pode-se destacar as enguias (família Anguillidae), as moreias (família Muraenidae), as piramboias (família Lepidosirenidae) e o muçum (Família Synbranchidae).

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Entre esses animais que “se disfarçam”, alguns são encontrados na Amazônia, como o poraquê (Electrophorus voltai), um dos integrantes da família das enguias.

Natural da Bacia Amazônica, ele é capaz de produzir descarga elétrica de até 860 volts – cerca de quatro vezes a voltagem de uma tomada de 220 volts. 

Leia também: Especialistas explicam se peixe-elétrico consegue mesmo matar um ser humano

Peixes simpáticos e inofensivos

Outros aspirantes a serpentes são a piramboia e o muçum, peixes de água doce com nomes que vêm da cultura indígena. Na língua dos tupis – população originária que vivia na costa brasileira quando os portugueses chegaram no Brasil, no século XVI –, o termo “pirá” significa “peixe” e “mboia”, “cobra”; enquanto “mu’su” significa “escorregadio”.

Essa característica, inclusive, é comum aos dois peixes, uma vez que secretam um tipo de muco pela pele. Isso faz com que eles consigam se movimentar rapidamente, escapando de seus predadores e pregando sustos nas pessoas que se refrescam nos rios. 

Outra curiosidade é que piramboia e muçum podem viver longos períodos em áreas de lama, sem água, para escapar da seca.

A piramboia consegue essa façanha porque possui pulmão: quando está na água, ela precisa subir à superfície de tempos em tempos para buscar ar. (Com habitat exclusivo em água doce, a piramboia pode ser encontrada nas bacias dos rios Amazonas, Paraguai e baixo Paraná, além de países e regiões como Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru, Colômbia, Venezuela, Guiana e Guiana Francesa).

Leia também: Portal Amazônia responde: peixes conseguem respirar fora d’água?

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Piramboia. Foto: João Paulo Marques D’Andretta

Já o muçum tem uma faringe altamente vascularizada, que funciona de forma similar ao órgão responsável pela respiração. Por isso, durante à noite, é comum encontrá-lo rastejando pelo chão, indo de um corpo d’água para outro.

*O conteúdo completo foi escrito por Natasha Pinelli para o Instituto Butantan. A matéria contou com a contribuição e foi validada pelo biólogo e tecnologista do Laboratório de Ecologia e Evolução (LEEV) do Butantan Fabiano Morezi de Andrade.

Confira a programação completa do primeiro dia da Glocal Experience Amazônia em Manaus

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A Glocal Amazônia 2025 começa nesta quinta-feira (28) em Manaus (AM) com muitos debates, workshops sobre sustentabilidade e inovação, oficinas e também ações culturais.

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Veja a programação completa do primeiro dia:

Leia também: Glocal Amazônia 2025 traz música, dança e tradição amazônica para o público

Glocal Experience Amazônia 2025

A Glocal Experience Amazônia 2025 é idealizada e operada por DreamFactory, com realização da Fundação Rede Amazônica e tem o apoio de Bono Conta, Clube POP, Amazônica Net, Águas de Manaus, Agência Amazonense de Desenvolvimento Cultural (AADC), Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) e Governo do Amazonas.

Do açaí ao cará, comidas amazônicas são chave para educação sobre alimentação saudável na região, propõe livro

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Foto: Daniel Tregidgo/Acervo pesquisadores

Lançado nesta quarta (27), um livro inédito vai apoiar escolas e agentes de saúde em comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas da Amazônia. A obra alia o conhecimento tradicional amazônico às informações científicas sobre a qualidade nutricional de frutos como açaí e tucumã, tubérculos como mandioca e cará, peixes e outros alimentos da floresta.

Além disso, o material propõe que a Educação Alimentar e Nutricional seja tratada de forma transversal no ensino, e não apenas em aulas de ciências. O currículo pode englobar desde aulas sobre a origem histórica dos alimentos tradicionais até a aplicação de conceitos matemáticos como razão e proporção a receitas culinárias locais.

O livro ‘Educação Alimentar e Nutricional nas escolas da Amazônia: valorizando os saberes e sabores da floresta‘ foi desenvolvido de forma colaborativa, com participação de 117 professores e agentes comunitários de saúde de comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas, além de uma equipe multidisciplinar de especialistas do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), da Universidade Federal do Pará e da Unicef.

No dia 20 de agosto, o trabalho foi anunciado como um dos três finalistas do Prêmio Álvara Lopes de Mello e Silva 2025, concedido pelo Conselho Regional de Nutrição da 7ª Região (CRN-7). O resultado final será divulgado nesta quinta (28).

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açaí é um dos frutos citados no livro
Açaí. Foto: Reprodução/IDAAM

A região amazônica apresenta índices críticos de insegurança alimentar, com taxas de anemia infantil nas comunidades ribeirinhas seis vezes maiores que a média nacional, além de aumento do consumo de produtos ultraprocessados.

Para o pesquisador Daniel Tregidgo, do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, o conhecimento reunido no livro pode ajudar no combate à má nutrição ao permitir a escolha da população por alimentos saudáveis.

“Precisamos melhorar a educação alimentar e nutricional em todas as regiões do Brasil, porém os professores amazônicos reclamam que a pouca informação que chega sobre alimentação não reflete a realidade das comunidades”, avalia.

A nutricionista e mestranda da UEA Jessica Cardoso Lopes conta que a motivação para a organização da obra partiu de sua experiência de oito anos em municípios, comunidades e aldeias do médio rio Solimões.

“Muitas vezes, professores e agentes comunitários de saúde não tinham acesso a conteúdos que integrassem nutrição e cultura local, dificultando a prática da educação alimentar e nutricional prevista no currículo escolar”, diz.  Esse intercâmbio possibilitou a criação de uma metodologia aplicável a diferentes comunidades.

“Esse é um diferencial importante: superar a predominância de materiais didáticos baseados em alimentos de outras regiões, o que muitas vezes desvaloriza a cultura alimentar amazônica”, enfatiza Lopes.

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Livro também inclui informações específicas

O conteúdo inclui informações sobre alimentos, histórias e atividades regionais que se relacionam com as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular.

“No capítulo 2, usamos farinha de mandioca como um exemplo de carboidratos, cupuaçu como fonte de vitamina C, açaí para explicar compostos bioativos, a diferença entre pilotar ou remar uma canoa para explicar gastos energéticos, e o curupira (o protetor da floresta) nos ajuda a explicar micronutrientes (protetores do nosso corpo). Os saberes das comunidades tradicionais foram incorporados nas sugestões de aulas no capítulo 3, que os professores e agentes comunitários de saúde apresentaram durante as oficinas nas comunidades, e que refletem a realidade local”, revela Tregidgo.

Na visão dos profissionais envolvidos, o livro é uma ferramenta pedagógica que reforça a valorização cultural dos povos da floresta e contribui para a melhoria da saúde nas comunidades.

Embora voltada para a Amazônia, a metodologia pode ser adaptada a outras regiões do Brasil, respeitando as suas especificidades alimentares e culturais. O projeto contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) e da Conservation, Food and Health Foundation.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori

Tecnologia social transforma farinhas artesanais da Amazônia em produto de mercado

Embrapa apoia comunidades quilombolas na produção de farinhas artesanais, gerando emprego e renda. Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

A união entre ciência e tradição vem mudando a realidade de comunidades quilombolas do nordeste do Pará. Com apoio da Embrapa, a produção artesanal de farinhas à base de cará, araruta, banana e outros ingredientes típicos da sociobiodiversidade amazônica ganhou potencial de escala, qualidade e preparo agroindustrial, abrindo caminho para novos mercados e geração de renda — tudo sem abrir mão da floresta em pé.

A transformação foi possível graças ao Projeto Quirera, a primeira iniciativa de inovação social da Embrapa no Pará, desenvolvida em parceria com a Rede Bragantina de Saberes e Sabores. O coletivo reúne agricultores, associações e cooperativas em mais de dez municípios da região Bragantina e aposta na força do conhecimento tradicional aliado a tecnologias simples, criadas com comunidades locais e para elas.

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A proposta é diferente do modelo tradicional de difusão de tecnologia: aqui, os saberes locais orientam o desenvolvimento técnico, num processo de escuta, respeito e construção coletiva. O resultado mais visível está nas agroindústrias comunitárias: nas quais antes se produziam dez quilos de farinha por semana com altas perdas e trabalho pesado, hoje são processados até 40 quilos com alto padrão de higiene, qualidade nutricional e conservação.

Dessa forma diferenciada de fazer ciência, renasceram farinhas sem glúten a base cará branco, cará roxo, araruta, banana, pupunha e tucumã, matérias-primas que comumente se perdiam nos períodos de safra ou não se cultivavam mais nas áreas de plantio. Esses alimentos atendem a um nicho diferenciado de consumo e ainda são mais nutritivos que similares encontrados no mercado, com múltiplas possibilidades de uso, desde produtos de panificação a shakes e o que mais a criatividade gastronômica permitir.

Inovação social transforma territórios tradicionais

A Embrapa tem investido em inovação social como estratégia para ampliar o acesso de povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares a tecnologias e conhecimentos capazes de fortalecer suas atividades produtivas ao mesmo tempo em que respeita os saberes e territórios desses grupos.

O pesquisador da Embrapa Agrobiologia (RJ) Mauro Pinto, acompanha de perto os projetos da Empresa em todo País que têm esse modo especial de fazer ciência. Ele destaca que a parceria com organizações sociais é essencial para atender às especificidades territoriais e gerar impactos positivos.

Ele reconhece que, por diversas razões, as comunidades têm dificuldade de acessar tecnologias e esse é o grande desafio.

“A Embrapa estimula e vem fortalecendo ações que privilegiam a utilização de abordagens de construção coletiva de conhecimentos e tecnologias como estratégia para fortalecer os processos de inovação nos territórios, no intuito de gerar valor e impactos positivos às comunidades envolvidas e a toda a sociedade”, declara o cientista.

Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

De alimento ancestral a nicho de mercado

Historicamente ligadas à produção de farinha de mandioca — base da alimentação local —, as comunidades rurais quilombolas da região também desenvolviam, de forma artesanal, farinhas a partir de outras fontes como banana, milho, puba, cará e até a multimistura, um mix de farinhas usado no combate à desnutrição infantil. Com o tempo, essas práticas se tornaram raras ou restritas ao consumo doméstico.

A criação da Rede Bragantina (foto à direita), no fim dos anos 2000, começou a reverter esse cenário. As farinhas voltaram a aparecer em feiras e eventos na capital paraense. Mas o salto de qualidade só veio com a parceria e inovação social resultando em adequações tecnológicas e boas práticas no todo processo de fabricação.

Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

Antes, a secagem era feita ao sol e os equipamentos eram rudimentares exigindo esforço físico extremo. Durante o inverno amazônico, período mais chuvoso, as perdas se acumulavam e a produção parava. Com o Projeto Quirera, secadores elétricos adaptados e treinamentos em boas práticas reduziram perdas pela metade.

Equipamentos e peças de reposição de baixo custo, fáceis de manter e encontrar, como ventiladores, carrinhos de padaria e resistências de fritadeira elétrica, tiveram o uso adaptado para melhorias de ferramentas agroindustriais eficientes. Como resultado, a produção quadruplicou e a qualidade aumentou gerando farinhas de maior durabilidade, respeitando a legislação vigente.

“Antes, secar a matéria-prima era um problema, principalmente no inverno. Agora, com os equipamentos, conseguimos manter a produção com menos desperdício”, conta Leiane Nascimento, jovem liderança da agroindústria Atavida, uma das beneficiadas pelo projeto. Lá, são produzidas farinhas de banana, cará branco, cará roxo, araruta, pupunha e tucumã, todas sem glúten e com alto valor nutricional.

Farinhas com padrão de qualidade e identidade local

farinhas artesanais amazônicas
Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

A padronização e melhoria da higiene também foram destaque. O corte manual foi substituído por máquinas de fatiar, e a secagem – antes vulnerável à umidade – agora é feita em estufas fechadas, uma elétrica e outra solar, esta com lona e policarbonato, ideia das próprias agricultoras. “A qualidade da farinha melhorou muito. Agora sabemos armazenar, secar e processar corretamente. O produto dura mais e fica pronto para a prateleira”, conta Nascimento.

Além do ganho técnico, o projeto resgata alimentos ameaçados de desaparecer dos sistemas produtivos, como o cará e a araruta, fortalecendo a sociobiodiversidade amazônica e a segurança alimentar das comunidades. Para Nazaré Reis, assessora técnica da Rede Bragantina, a comunidade passou a olhar para a floresta com mais atenção. “Se antes pensavam em desmatar, agora plantam e entendem que preservar garante renda e alimentação”, observa.

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Ciência com escuta e criatividade

O diferencial do Quirera e dos projetos de inovação social foi tratar a comunidade como parceira desde o início. “O conhecimento tradicional teve o mesmo peso da ciência em todo processo. Ouvimos e adaptamos soluções às necessidades locais”, destaca Laura Abreu, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental (PA) e coordenadora do projeto.

A ausência de equipamentos industriais e a distância dos centros urbanos exigiram criatividade técnica e para isso, secadoras elétricas já criadas por outras Unidades da Embrapa, receberam resistências de fritadeiras elétricas. Ventiladores comuns e carrinhos de padaria foram transformados em tecnologia agroindustrial de baixo custo e fácil manutenção.

secador elétrico desenvolvido pela Embrapa Agroindústria Alimentos é um exemplo. Compacto e eficiente, pode ser operado por técnicos locais e adaptado para funcionar com energia solar, gás ou biomassa. Com ele, a secagem, que levava dias, agora leva poucas horas, aumentando a produtividade e melhorando a segurança sanitária dos alimentos.

Ganha a ciência, ganha o território

Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

Para a Embrapa, projetos como o Quirera representam um avanço no modo de fazer ciência. “É uma ciência que dialoga, que reconhece que as soluções nascem do território e que inovação não precisa ser cara, mas precisa ser útil e replicável”, afirma Abreu.

Para as comunidades, o ganho é múltiplo: renda, autonomia, segurança alimentar e fortalecimento cultural. “As mulheres voltaram a produzir, os jovens se interessaram de novo pelo campo, e a farinha que antes era só para casa agora tem valor de mercado”, celebra Nazaré.

Já para a bioeconomia amazônica, a iniciativa mostra que o futuro passa pelo respeito ao saber local, pela agregação de valor aos produtos da floresta e pela valorização dos modos de vida tradicionais. “É possível produzir com tecnologia, sem desmatar, respeitando o tempo das pessoas e da natureza”, reforça Nazaré.

Um modelo que pode inspirar o País

Com o sucesso na região Bragantina, o Projeto Quirera já inspira novas possibilidades. A Embrapa estuda replicar o modelo em outros territórios tradicionais, com adaptações às realidades locais.

“Nosso sonho é que pequenas agroindústrias se multipliquem, levando dignidade, saúde e floresta em pé por toda a Amazônia”, afirma Laura Abreu.

Ao transformar saber tradicional em tecnologia útil, acessível e replicável, o projeto mostra um novo caminho para o desenvolvimento rural no Brasil. Um caminho em que ciência e cultura local caminham juntas — e em que uma simples farinha de banana pode carregar o sabor de toda uma revolução. Por enquanto, a transformação já pode ser vista nos olhos de quem, com orgulho, oferece um mingau de farinha de banana ou um bolo de cará e pode dizer: “essa é nossa ciência também”.

Publicações científicas

As melhorias no processo agroindustrial para a profissionalização das farinhas sem glúten da produtos oriundos da sociobiodiversidade amazônica estão nos artigos:

Obtenção e caracterização de ferinhas multiuso e seus produtos de panificação, publicado recentemente pela Revista Aracê; 

Efeitos das adequações tecnológicas na qualidade das farinhas da agricultura familiar, Revista Caderno  Pedagógico

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Embrapa