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Queimadas na BR-319 estão por trás de poluição do ar em Manaus em 2023, aponta estudo

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Fumaça de queimadas prejudicaram o ar em Manaus. Foto: William Duarte/Acervo Rede Amazônia AM

A origem da fumaça que encobriu Manaus (AM) por meses em 2023 está diretamente ligada ao aumento do desmatamento ao longo das rodovias BR-319 e AM-254, especificamente nos municípios de Manaquiri, Careiro e Autazes. A constatação é do estudo publicado na revista Discover Sustainability por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da  Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).

Para verificar a relação entre a exploração de terras nas rodovias e a poluição na capital amazonense, a equipe utilizou dados atmosféricos do Observatório Amazon Tall Tower (ATTO), do INPA, situado cerca de 150 km a nordeste de Manaus, na direção do Pará, e de sensores da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) para verificar as emissões de material particulado PM2.5, indicador-chave de poluição atmosférica; dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET); e dados de satélite do Projeto de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Leia também: Projeto ATTO completa dez anos da maior torre de monitoramento climático do mundo

Em 12 de outubro de 2023, quando Manaus amanheceu encoberta por fumaça das queimadas, a concentração de PM2.5 chegou a 314,99 µg/m³, valor 20 vezes superior ao limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde, de 15 µg/m³.

Conforme a pesquisa, os incêndios foram agravados por uma seca extrema na Amazônia, resultante da combinação do El Niño e do chamado dipolo do Atlântico – quando as águas da porção norte do oceano ficam mais quentes, o que reduz a umidade que chega à Amazônia. Tais fenômenos criam condições propícias para incêndios florestais criminosos, que liberam grande quantidade de partículas de fumaça na atmosfera. A poluição intensifica a seca ao inibir a formação de chuva.

Sobre a origem da fumaça, Philip Fearnside, pesquisador do INPA e coautor do estudo, explica: “É descartado que a fumaça tenha vindo do Pará porque mensuramos tanto as emissões do estado quanto as do meio do caminho e elas não tinham a mesma proporção do nível de fumaça que chegou a Manaus”.

A estação ATTO mostrou índices diários de qualidade do ar mais baixos em comparação com a média das estações localizadas ao sul de Manaus. Já os sensores da UEA em Santarém (PA) registraram picos após os verificados na capital amazonense — e com níveis inferiores. Além disso, mapas de vento e dados meteorológicos para outubro e novembro de 2023 indicaram uma grande pluma de fumaça originada da região sul de Manaus, claramente separada das emissões no Pará.

imagem colorida mostra fumaça geradas por queimadas cobrindo a cidade de manaus em 2023
Queimadas geraram fumaça que prejudicava até mesmo o trânsito. Foto: William Duarte/Acervo Rede Amazônia AM

Áreas queimadas foram transformadas em pastagens

Segundo Lucas Ferrante, pesquisador da USP e principal autor do trabalho, observações de campo mostraram áreas queimadas nos municípios de Careiro e Autazes e no trajeto da BR-319, sendo rapidamente convertidas em pastagens, com presença de maquinário e gado.

Diante dos resultados, os pesquisadores enfatizam que a proposta de reconstrução da BR-319 é inviável e, aliada à fraca fiscalização ambiental, ameaça não apenas a biodiversidade e a estabilidade climática, mas também a sustentabilidade de centros urbanos que dependem da integridade ecológica da Amazônia. A estrada, que liga Manaus a Porto Velho, pode impactar 63 terras indígenas, cinco comunidades não reconhecidas e uma população de indígenas isolados, totalizando mais de 18 mil indígenas afetados pela rodovia. O governo federal afirmou que deve anunciar um “acordo definitivo” em setembro para a pavimentação da rodovia.

Porém, avalia Ferrante, “a BR-319 é uma fórmula para o desastre e servirá como espinha dorsal para aumento de incêndios e desmatamentos ilegais em área de floresta intacta, além de abrir áreas com reservatórios zoonóticos, com potencial de liberar novos patógenos preocupantes para a saúde global”.

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Segundo o estudo, as soluções passam por priorizar alternativas de baixo impacto, como a melhoria das vias navegáveis, e por políticas integradas que vão além da prevenção reativa de incêndios, confrontando a expansão ilegal da pecuária, grilagem de terras e falta de fiscalização, que alimentam continuamente a degradação ambiental na Amazônia.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori

Maués é reconhecida por lei oficialmente como Capital Nacional do Guaraná

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Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

O município de Maués, no Amazonas, foi oficialmente reconhecido como a Capital Nacional do Guaraná. A Lei 15.216/25, que confere o título à cidade, foi sancionada e publicada na edição do Diário Oficial da União desta terça-feira (23).

Leia também: 10 fatos sobre Maués, a capital do guaraná

Conhecido como “Terra do Guaraná”, Maués, a 267 quilômetros de Manaus, é responsável por grande parte da produção brasileira da planta. Anualmente o município organiza a Festa do Guaraná, que celebra lendas e a cultura do fruto.

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A lei teve origem em um projeto (PL 2913/22) do deputado federal Sidney Leite (PSD-AM).

“Na região, mais de 2.500 produtores fazem parte do processo de produção. Só em 2019, por exemplo, 540 toneladas foram produzidas em Maués”, explicou o parlamentar, ao apresentar a proposta.

Leia também: Saiba como o guaraná se tornou símbolo da cultura de Maués

colheita de guaraná na amazônia
Foto: Felipe Santos da Rosa/Embrapa

O guaraná

Paullinia cupana é uma planta amazônica e suas sementes são ricas em cafeína, o que lhe dá propriedades estimulantes, semelhantes ao café, ao chá-mate e ao cacau. O extrato é usado em cápsulas, chás, energéticos e alimentos.

Devido a fatores geográficos e físicos, como o solo, vegetação, clima e relevo, a região onde está localizado o município de Maués é considerada um ambiente privilegiado para o surgimento de uma espécie única e efetiva adaptação e reprodução do fruto.

*Com informações da Agência Câmara de Notícias

Qualidade do ar: veja quais são os cuidados essenciais em períodos de fumaça causada por queimadas

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Foto: Filipe Jazz/TCE-AM

A qualidade do ar em Manaus (AM) voltou a ser tema de atenção em 2024, quando a capital amazonense enfrentou um dos episódios mais críticos de fumaça provocada por queimadas em áreas próximas. Naquele período, a cidade registrou elevados índices de poluição atmosférica, com concentração de material particulado acima dos níveis recomendados por órgãos internacionais de saúde.

A situação levou autoridades a emitirem alertas para a população, especialmente para grupos mais vulneráveis, como crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias crônicas.

Leia também: Saiba como monitorar a qualidade do ar na Amazônia em plataformas online

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a exposição a poluentes resultantes da queima de biomassa pode causar desde irritações nos olhos e garganta até complicações respiratórias mais graves, incluindo crises de asma, bronquite e agravamento de doenças cardiovasculares.

O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) destacou em relatórios que a fumaça decorrente das queimadas contém partículas finas capazes de penetrar profundamente nos pulmões e atingir a corrente sanguínea, elevando o risco de problemas à saúde em curto e longo prazo.

Durante a crise de 2024, órgãos de saúde recomendaram medidas emergenciais para reduzir a exposição. Entre as principais orientações estava o uso de máscaras com filtro, como as do tipo PFF2 ou N95, que ajudam a bloquear partículas suspensas no ar. Além disso, recomendava-se evitar atividades físicas ao ar livre, manter as janelas fechadas e usar panos úmidos para vedar frestas em portas e janelas, reduzindo a entrada de fumaça em ambientes internos.

Outro ponto ressaltado por especialistas é a importância da hidratação constante. Beber água regularmente auxilia o organismo a se recuperar da irritação provocada pelas partículas inaladas e a manter as vias respiratórias úmidas, o que diminui a sensação de desconforto.

Pessoas que já apresentavam quadros respiratórios foram orientadas a reforçar o uso de medicamentos prescritos e a procurar atendimento médico em caso de sintomas como falta de ar, dor no peito ou tosse persistente.

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Recomendações de cuidados essenciais

👶 Crianças

  • Evitar exposição externa: manter dentro de casa sempre que possível.
  • Máscaras adequadas: usar máscaras de proteção (preferencialmente PFF2/N95) em caso de necessidade de sair.
  • Hidratação frequente: oferecer água em intervalos regulares, mesmo que a criança não peça.
  • Ambiente interno saudável: manter janelas fechadas, usar toalhas úmidas em frestas e, se possível, purificadores de ar.
  • Atividades físicas: suspender atividades ao ar livre, especialmente exercícios.
  • Atenção a sintomas: observar sinais como tosse persistente, chiado no peito, falta de ar ou irritação nos olhos.

👴 Idosos

  • Evitar esforço físico: não realizar atividades pesadas durante períodos de fumaça intensa.
  • Uso de medicamentos: manter uso correto de medicações de rotina (para pressão, coração ou doenças respiratórias).
  • Hidratação constante: beber bastante água para manter mucosas úmidas.
  • Ambiente controlado: permanecer em locais fechados, limpos e, se possível, climatizados.
  • Máscaras de proteção: utilizar sempre que for necessário sair.
  • Monitorar saúde: ficar atento a sinais de agravamento de doenças respiratórias ou cardíacas (falta de ar, cansaço, palpitação).

🚨 Recomendações gerais

  • Acompanhar alertas da Defesa Civil e órgãos de saúde.
  • Buscar atendimento médico imediato em caso de dificuldade para respirar, dor no peito, tontura ou sintomas graves.
  • Seguir orientações dos planos municipais de contingência.

Leia também: Governo Federal inicia ‘Defesa Civil Alerta’ no Norte e amplia rede de proteção nacional; entenda

Em 2023 a fumaça foi tão forte que cobriu até mesmo a Ponte do Rio Negro, em Manaus. Foto: William Duarte/Rede Amazônica AM

As escolas e instituições públicas também precisaram adaptar suas rotinas. Em alguns dias de maior intensidade da fumaça, houve suspensão parcial de aulas presenciais e recomendação para que crianças permanecessem em casa.

Hospitais e unidades de pronto atendimento registraram aumento expressivo no número de casos relacionados a complicações respiratórias, o que evidenciou a necessidade de preparo prévio do sistema de saúde para esse tipo de evento sazonal.

Além dos cuidados individuais, a ventilação adequada em ambientes fechados foi apontada como uma medida importante. O uso de aparelhos de ar-condicionado com filtros limpos ou de purificadores de ar domésticos pode contribuir para a melhora da qualidade do ar interno.

Em regiões onde esses recursos não estavam disponíveis, órgãos públicos recomendaram a criação de espaços coletivos fechados e climatizados, funcionando como refúgios temporários para grupos de risco durante os dias de pior qualidade do ar.

A Secretaria Municipal de Saúde reforçou, ainda em 2024, a importância da vacinação contra a gripe e outras doenças respiratórias. A justificativa foi que infecções respiratórias virais podem se agravar em cenários de poluição atmosférica, aumentando a vulnerabilidade da população exposta. As unidades básicas de saúde passaram a distribuir material informativo com instruções sobre como agir durante períodos de fumaça intensa.

Acompanhamento da qualidade do ar

Os dados mais recentes mostram que, em episódios de degradação da qualidade do ar, o tempo de exposição é determinante para os efeitos na saúde. Enquanto exposições curtas podem causar apenas desconforto momentâneo, a permanência em áreas afetadas por vários dias consecutivos eleva significativamente os riscos.

Por isso, os órgãos de monitoramento ambiental recomendam acompanhar diariamente os índices de poluição atmosférica, da qualidade do ar, divulgados em plataformas oficiais, como os boletins do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e da própria prefeitura de Manaus.

Em situações de emergência, como a enfrentada na capital em 2024, a população é orientada a manter kits básicos de prevenção em casa, contendo máscaras, colírios lubrificantes, soro fisiológico e medicamentos de uso contínuo para doenças respiratórias. O objetivo é garantir resposta rápida diante de crises desencadeadas pela má qualidade do ar.

Assim, os cuidados adotados em períodos de fumaça decorrente de queimadas envolvem tanto a prevenção quanto o acompanhamento constante da saúde. A experiência vivida por Manaus em 2024 evidenciou a necessidade de medidas simples, mas eficazes, para minimizar os impactos da poluição atmosférica no bem-estar da população.

Disputa por ilha no rio Amazonas aumenta tensão entre Colômbia e Peru na tríplice fronteira

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Foto: Reprodução/Governo do Peru

A disputa entre Colômbia e Peru pela posse de uma ilha formada no rio Amazonas ganhou novos contornos recentemente e passou de um impasse diplomático para movimentações militares. O conflito envolve a ilha de Santa Rosa, localizada na tríplice fronteira amazônica entre Brasil, Colômbia e Peru. A região, que já apresenta desafios geográficos e sociais, agora se tornou palco de embates políticos e estratégicos.

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Nas últimas semanas, militares peruanos foram enviados para reforçar a presença do país na ilha, em resposta às acusações do presidente colombiano Gustavo Petro, que afirma que Lima se apropriou de um território que não pertence oficialmente ao Peru. Ao mesmo tempo, as Forças Armadas da Colômbia reforçaram a cidade de Letícia, localizada em frente à área contestada. O cenário reflete uma escalada diplomática que tem chamado atenção internacional.

O conflito ganhou força depois que o Peru publicou uma lei em julho deste ano criando o distrito de Santa Rosa de Loreto, que inclui a ilha em disputa. A decisão foi considerada pelo governo colombiano como uma violação de tratados anteriores, provocando declarações duras de Bogotá e uma série de reações políticas.

Origem da disputa pela ilha

A ilha de Santa Rosa surgiu no rio Amazonas devido ao processo natural de sedimentação. Essa formação recente não está prevista nos tratados que delimitam a fronteira da região, assinados há quase cem anos. Por isso, os dois países reivindicam a posse.

Gustavo Petro afirmou em entrevista ao jornal espanhol El País: “Eu quero que eles me expliquem por que chegou um helicóptero com militares à ilha de Santa Rosa se ainda não foi decidido que essa ilha é peruana”.

O presidente colombiano defende que seja feita uma nova convenção internacional para redefinir a situação territorial, alegando que o tratado original não contempla as formações recentes do rio.

O governo peruano, por sua vez, afirma que exerce soberania legítima sobre a região há mais de um século. Em comunicado oficial, destacou:

“O Governo do Peru expressa seu mais firme e enérgico protesto diante das declarações do Governo da Colômbia sobre os direitos soberanos e atos de jurisdição que o Peru exerce de forma legítima e legal”.

Além das disputas jurídicas, há também questões sociais. Cerca de três mil pessoas vivem na região, em comunidades que enfrentam carências estruturais, como falta de energia elétrica e abastecimento de água potável. Apesar do potencial turístico da ilha, relatos apontam abandono e ausência de políticas públicas.

Leia também: Projeto Mosaic coleta dados de saúde na Tríplice Fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia

Visitas oficiais e demonstração de força

A tensão aumentou recentemente com a presença de autoridades dos dois países na região. No dia 7 de agosto, o presidente Gustavo Petro esteve em Letícia, onde transferiu uma celebração nacional colombiana como gesto de afirmação territorial. No mesmo dia, o primeiro-ministro do Peru, Eduardo Arana, e parte de seu gabinete também visitaram a área.

Essas visitas foram interpretadas como demonstrações de força política. Além disso, a imprensa peruana noticiou um suposto sobrevoo de aviões colombianos no espaço aéreo do Peru, o que aumentou o clima de desconfiança entre os países.

A crise, no entanto, não começou apenas agora. Autoridades colombianas já haviam questionado a ocupação da ilha no ano passado, mas a situação havia sido amenizada por meio da diplomacia. A publicação da lei peruana em julho reabriu o conflito e, desde então, a tensão só cresceu.

Impactos geográficos e estratégicos

A geografia da região também tem papel central na disputa. Estudos indicam que, até 2030, o curso do rio Amazonas poderá mudar, concentrando-se no lado peruano. Caso isso se confirme, a cidade de Letícia, na Colômbia, pode perder sua saída direta para o rio, o que representaria um impacto estratégico e econômico para o país.

Arnold Pérez, morador da ilha, resumiu o sentimento local em entrevista à rádio colombiana Caracol: “Tudo aqui é e sempre foi peruano: a comida, as pessoas, as escolas, a bandeira”.

Além das questões de soberania, a disputa reflete uma rivalidade mais ampla entre os dois países, marcada por desentendimentos diplomáticos desde 2022, quando o então presidente do Peru, Pedro Castillo, foi destituído. Na época, Petro classificou a decisão como um golpe e retirou o embaixador colombiano de Lima, levando o Peru a responder da mesma forma.

Diplomacia em foco

Apesar da escalada militar, os dois países ainda recorrem à diplomacia. A chancelaria colombiana declarou que “o governo colombiano usará, antes de tudo, os canais diplomáticos para defender a soberania nacional”.

A disputa pela ilha de Santa Rosa demonstra como formações naturais no rio Amazonas podem gerar impactos políticos significativos.

Ao mesmo tempo, revela os desafios enfrentados por comunidades locais que vivem em meio a tensões internacionais, em uma região marcada tanto pela riqueza da Floresta Amazônica quanto por sua vulnerabilidade estrutural.

O desfecho do impasse dependerá da habilidade de Colômbia e Peru em encontrar uma solução pacífica e negociada, que contemple os interesses estratégicos de ambos os lados e, sobretudo, leve em consideração as necessidades da população que habita a área em litígio.

Estudos confirmam viabilidade econômica de sistemas sustentáveis de produção na Amazônia e no Cerrado

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Os sistemas de ILPF integram diversas atividades produtivas – agricultura, pecuária e floresta – numa mesma área. Foto: Breno Lobato

Estudos de caso sobre sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e agroflorestais (SAFs) no Cerrado e na Amazônia mostram ganhos em produtividade, segurança alimentar, conservação ambiental e resiliência climática, além de gerar empregos e renda. Com base nesses levantamentos, pesquisadores da Embrapa elaboraram, em parceria com o Banco Mundial, uma síntese que reúne as evidências econômicas e traz recomendações para superar barreiras e ampliar a adoção de sistemas de produção sustentáveis.

“As informações sobre o desempenho econômico de sistemas integrados de produção na Amazônia e no Cerrado servirão de subsídio para as políticas do Banco Mundial. Além disso, podem contribuir para inserir esses sistemas nas políticas nacionais de crédito, como o Plano Safra da Agricultura Familiar. O documento evidencia ainda que, principalmente na Amazônia, existe a necessidade de ampliá-los”, declara o pesquisador da Embrapa Acre (AC) Judson Valentim.

Para o economista agrícola sênior do Banco Mundial em Brasília, Leonardo Bichara Rocha, o trabalho traz evidências importantes para orientar políticas públicas e instrumentos financeiros que promovam o uso mais inclusivo, intensivo e ambientalmente sustentável da terra.

“O estudo é inovador ao mostrar que, além dos benefícios ambientais e agronômicos, os sistemas de ILPF e os SAFs trazem maiores retornos econômicos e financeiros ao agricultor e ao pecuarista, comparados aos dos sistemas tradicionais. Foi um passo importante no novo marco de colaboração do Banco Mundial com a Embrapa, assinado em 2024”, conclui.

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Os sistemas de ILPF integram diversas atividades produtivas – agricultura, pecuária e floresta – numa mesma área por meio de sucessões, consórcios ou rotações de culturas, visando à sinergia entre os componentes do agroecossistema, o que permite maior produtividade, intensificação do uso da terra e redução da necessidade de abertura de novas áreas, entre outros benefícios.

Já os SAFs se adequam à agricultura familiar pelo menor nível de mecanização e uso de mão de obra intensiva. Eles associam, na mesma área e em  períodos determinados, espécies perenes (como árvores frutíferas ou madeireiras), cultivos semiperenes (como banana, abacaxi, mandioca e algumas espécies de forrageiras) e plantios de ciclo curto, como grãos.

Segundo Valentim, os dados atualmente disponíveis são limitados, considerando a diversidade ambiental, social e econômica da Amazônia, que corresponde a 60% do território nacional. “Conseguimos avaliar cinco sistemas que possuíam dados sistematizados, e isso foi importante porque organizamos as informações sobre o que existe e as lacunas para a pesquisa agropecuária”, afirma.

Imagem colorida mostra sistemas agroflorestais na amazônia
Sistemas SAF. Foto: Ronaldo Rosa

Análises econômicas abrangeram diferentes municípios dos dois biomas

A síntese mostra resultados da análise econômica comparativa entre um sistema de ILPF (ILPF-A), em Nova Canaã do Norte (MT), na Amazônia Legal; outro (ILPF-C), em Nova Xavantina (MT), região de Cerrado; e as duas estratégias de uso da terra mais representativas em Mato Grosso: um sistema de lavoura em grande escala e outro de pecuária extensiva. Também são apresentados resultados econômicos de quatro modelos de SAFs com diferentes estratégias de diversificação de cultivos no bioma amazônico, sendo dois (BR SAF RO 1 e BR SAF RO 2) em Nova Califórnia, distrito de Porto Velho (RO), no Projeto RECA e dois (SAF 3 e SAF 4) em Tomé-Açu (PA), trabalhados no Projeto Tipitamba (veja infográfico abaixo).

“São estudos de caso representativos de sistemas ILPF, ILP (Integração lavoura e pecuária) e SAFs, que comprovam seu potencial de adoção por agricultores de pequeno, médio e grandes porte nos dois biomas”, complementa o pesquisador Júlio César dos Reis, da Embrapa Cerrados (DF), responsável pelo trabalho. Além dele e de Valentim, também participaram, pela Embrapa, os pesquisadores: Mariana de Aragão Pereira, da Embrapa Gado de Corte (MS), e Flávio Wruck, da Embrapa Agrossilvipastoril (MT).

Foto: Priscila Viudes (SAF)

Arte: Wellington Cavalcanti

ILPF mostra melhor desempenho econômico no Cerrado e na Amazônia

Os sistemas de ILPF tiveram desempenho econômico mais favorável (tabela 1). O lucro bruto foi maior no ILPF-C, sendo 8% maior que o da fazenda de lavoura e mais que o dobro da fazenda de pecuária, devido, segundo os pesquisadores, ao elevado rendimento do componente florestal associado à estratégia de comercialização de gado, aproveitando a vantagem logística proporcionada pela localização da fazenda, próxima à divisa com Goiás. Já o alto custo de produção do sistema ILPF-A e a demanda limitada por madeira na região reduziram o lucro bruto. Ainda assim, a taxa de retorno interna e o retorno sobre o investimento foram superiores aos das fazendas de agricultura e de pecuária extensiva (tabela 2).

Os indicadores de viabilidade econômica mostram que o sistema ILPF-C é o mais atrativo financeiramente, apresentando um Valor Presente Líquido Anual (VPLA) 13 vezes maior que o da fazenda de lavoura e 41 vezes maior que o da fazenda de pecuária, além do maior índice de lucratividade – 1,36 ou 36 centavos de lucro para cada dólar investido. A fazenda de lavoura, apesar do investimento inicial semelhante ao do sistema ILPF-C, apresentou retorno 35% inferior e índice de lucratividade de 1,03 devido a riscos econômicos e de mercado, mesmo em cenários favoráveis de preços. Por outro lado, o sistema de pecuária extensiva gerou apenas dois centavos de lucro para cada dólar aportado, sendo o menos lucrativo.

“Os resultados demonstram que os sistemas de ILPF são mais resilientes, reduzem os custos unitários de produção, promovem o uso mais eficiente dos recursos ambientais e podem contribuir para políticas de redução do desmatamento. O componente agrícola tem menor dependência de insumos externos e a produtividade animal é superior devido à melhor qualidade das pastagens”, comenta Reis.

SAFs com cultivos de maior valor agregado são mais rentáveis

Valentim explica que nos anos iniciais dos SAFs o gasto é maior devido ao uso de insumos, mão de obra e equipamentos para o estabelecimento das culturas, além da menor diversificação dos produtos comercializados.

“Para um SAF se manter rentável ao longo dos anos, é preciso considerar o tempo para cada componente produzir, bem como possibilitar uma safra de ciclo rápido, de baixo custo e que mantenha um fluxo de caixa positivo”, afirma, acrescentando que o período de análise econômica precisa ser longo para que as receitas das espécies principais, geralmente florestais nativas, sejam consideradas – como ocorreu com as avaliações dos SAFs BR SAF RO 01 (15 anos), BR SAF RO 02 (20 anos) e SAFs 3 e 4 (30 anos).

No SAF BR RO 1, as vendas de milho, arroz, mandioca e feijão garantiram as receitas nos primeiros anos, papel assumido pelas sementes de pupunha e pelos frutos do cupuaçu a partir do quarto ano. No SAF BR RO 2, a banana respondeu por 60% da receita do sistema nos três primeiros anos, sendo sucedida pelo palmito de pupunha, que predominou a partir do quarto ano e foi substituído pela andiroba e pela pupunha para sementes ao longo dos anos seguintes. A pimenta-do-reino foi a principal geradora de receita nos anos iniciais dos SAFs 3 e 4, com a diversificação ocorrendo a partir do quinto ano com as vendas de cupuaçu (principal receita), açaí e madeira de paricá no SAF 3; de amêndoas de cacau a partir do sétimo ano e, principalmente, do açaí a partir do oitavo ano no SAF 4.

Os quatro sistemas foram capazes de cobrir os custos de produção nos períodos avaliados. Os SAFs 3 e 4 apresentaram os maiores lucros (tabela 3) devido aos custos de produção inferiores e à venda de produtos de maior valor agregado, como o açaí e o cacau.

Leia também: Projeto visa integrar saberes indígenas com tecnologias de produção sustentável por meio de SAFs

De acordo com os índices de viabilidade econômica para um período de 15 anos (veja tabela 4), o BR SAF RO 1 obteve lucro líquido anual de US$ 1720, 49/ha e retorno de US$ 2,50 para cada dólar investido. Apesar do investimento inicial 1,8 vez maior, o BR SAF RO 2 obteve lucro 60% inferior, mas ainda se apresentou competitivo, com retorno de US$ 1,75 por dólar gasto.

O SAF 3, com US$ 636,11/ha de investimento inicial, retornou US$ 5,60 para cada dólar investido, enquanto no SAF 4 o investimento foi de US$ 1819,24/ha, retornando US$ 9,20 por dólar gasto, devido à venda do açaí e da amêndoa do cacau.

Para Valentim, os resultados demonstram que as políticas de financiamento, principalmente para os SAFs, devem prever um tempo de carência mais longo.

“Estimamos em seis anos o retorno positivo para que os produtores consigam pagar os financiamentos. Os SAFs são um instrumento importante de diversificação dos sistemas produtivos e de aumento da resiliência frente às mudanças climáticas porque, se em um ano, uma lavoura apresenta um preço ruim, há um segundo produto que pode ter um preço melhor. Isso aumenta a resiliência do produtor, que não vai depender de apenas um produto”, explica, concluindo que o estudo é uma base importante para a implementação de políticas públicas de crédito rural, sobretudo para a produção familiar na Amazônia.

ILPF. Foto: Fabiano Bastos

Barreiras e lacunas de conhecimento precisam ser superadas para ampliar adoção 

A área ocupada com sistemas de ILPF no País, em 2017, era de 17 milhões de hectares, o que representa 7% de toda a área ocupada pela agropecuária, de acordo com dados da Rede ILPF. No documento, os pesquisadores elencam uma série de barreiras financeiras, ambientais, sociais e técnicas e de infraestrutura e mercado para a adoção dos sistemas de ILPF e dos SAFs na Amazônia e no Cerrado, além das políticas públicas e dos incentivos existentes, com sugestões de melhorias para a expansão dessas práticas sustentáveis. Eles também apontam lacunas no conhecimento relacionadas à avaliação econômica dos sistemas.

Entre as barreiras financeiras, são citadas as políticas de crédito, que não estão alinhadas à dinâmica de fluxo de caixa dos sistemas de produção sustentáveis, pois focam em resultados anuais. Apesar de o Plano Safra e o Plano ABC oferecerem empréstimos a juros baixos para investimentos em diversificação produtiva, são sugeridos ajustes para que os mecanismos de crédito considerem resultados econômicos, sociais e ambientais de longo prazo.

A falta de regulamentação da Lei 14.119/2021, que institui a Política Nacional de Pagamentos por Serviços Ambientais, é uma das barreiras ambientais. Mesmo com o novo Código Florestal, os pesquisadores ressaltam a necessidade de fortalecer o investimento público em pesquisa para desenvolver indicadores e métricas que sirvam de referência para políticas ambientais, além da priorização da criação do Cadastro Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais, do Programa Federal de Pagamento por Serviços Ambientais e do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa.

A falta de assistência técnica e a disponibilidade limitada de mão de obra qualificada para tarefas complexas dos sistemas de ILPF e SAFs são as principais barreiras quanto aos aspectos sociais e técnicos. Apesar das pesquisas e iniciativas de extensão rural apoiadas pelo governo federal, bem como das unidades demonstrativas para produtores, sugere-se o fortalecimento do vínculo entre o acesso ao crédito e a prestação de assistência técnica especializada, além da ampliação dos recursos humanos e financeiros da Agência Nacional de Extensão Rural (Anater) e da implementação da Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural.

Sistemas SAF. Foto: Ronaldo Rosa

Como principal barreira de infraestrutura e mercado, é apontada a ausência de infraestrutura agrícola em regiões mais distantes das áreas consolidadas de produção de soja e milho no Cerrado. São sugeridos investimentos especialmente em ferrovias e hidrovias para potencializar a competitividade e a abertura de novos mercados.

Diversos fatores são apontados para explicar a escassez de conhecimento para as análises econômico-financeiras de sistemas sustentáveis na Amazônia e no Cerrado. Entre eles:

  • a dificuldade de coletar informações econômicas em estudos de campo;
  • a dependência, em muitos estudos, de experimentos controlados ou estudos de caso em fazendas, o que restringe a extrapolação dos dados;
  • a grande variabilidade nas abordagens metodológicas;
  • e, diante da disponibilidade limitada de dados, a tendência de avaliação dos componentes dos sistemas isoladamente, sendo que a característica fundamental da ILPF e dos SAFs são as interações sinérgicas entre eles.

“Ao apontar não apenas o potencial como também barreiras para a adoção e lacunas de conhecimento sobre os sistemas de ILPF e os SAFs, esperamos que esta síntese possa estimular uma agenda de pesquisa que leve à construção de um banco de dados econômicos, sociais e ambientais robusto sobre esses sistemas no Brasil”, conclui Reis.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Embrapa, escrito por Breno Lobato 

Festival Olhar do Norte 2025: ‘Boiuna’ se consagra vencedor; confira todos os ganhadores

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Foto: Laryssa Gaynett

A 7ª edição do Festival de Cinema da Amazônia – Olhar do Norte encerrou no domingo (21) com a premiação dos vencedores dos curtas apresentados durante os cinco dias de programação em Manaus (AM). A cerimônia aconteceu no Teatro Amazonas e, antes da premiação, a exibição do longa ‘A Natureza das Coisas Invisíveis’, de Rafaela Camelo (Distrito Federal), encerrou as exibições do festival.

O curta-metragem paraense ‘Boiuna’, dirigido por Adriana de Faria, foi o maior vencedor, com cinco prêmios:

  • ‘Melhor Filme’,
  • ‘Melhor Atuação’,
  • ‘Melhor Direção de Fotografia’,
  • ‘Melhor Som’,
  • ‘Itaú Cultural Play’,
  • além da Menção Honrosa do Júri Jovem.

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Prêmios Festival Olhar do Norte 2025

Realizado pela Artrupe Produções – formada por Diego Bauer, César Nogueira, Hamyle Nobre e Victor Kaleb -, o festival teve como parceria o Cine Set e a Itaú Cultural Play. Contou ainda com o apoio da Atelo, Amazonas Shopping e Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa.

No total, a 7ª edição do festival recebeu a inscrição de 832 filmes. Entre eles, a produção amazonense que conta a história do artista Da Silva, o documentário ‘DASILVA DASELVA’, dirigido por Anderson Mendes. O trabalho também foi um dos grandes destaques da edição, com três prêmios: ‘Prêmio Especial do Júri’, ‘Melhor Roteiro’ e ‘Melhor Atuação’ (para Moacy Freitas).

“Esse reconhecimento nos enche de orgulho. É a prova de que a cultura do Amazonas, quando retratada com verdade, encontra eco no público e no júri. Da Silva foi um gigante da arte, e ver sua memória reverberar dessa forma é emocionante”, disse Mendes.

Leia também: Documentário recria mundo imaginário do artista amazonense Da Silva da Selva

DaSilva DaSelva concorre no Festival Olhar do Norte
Foto: Divulgação

Ovacionado pelo público, Moacy Freitas destacou a força da história e a experiência no festival: “Estar no palco do Teatro Amazonas e ouvir os aplausos foi algo inesquecível. Esse prêmio é fruto da força de Da Silva e da energia que sua arte continua inspirando”.

O curador Diego Bauer reforçou que a edição de 2025 atingiu um novo patamar: “A cada ano buscamos evoluir. Esse foi um festival histórico, com a maior presença de público da nossa trajetória e uma recepção calorosa aos filmes”.

Confira os vencedores do Olhar do Norte 2025:

Amazônia

● Melhor Filme: Boiuna (PA)
● Melhor Filme Voto Popular: Ticar Bodó (AM)
● Prêmio Especial do Júri: DaSilva DaSelva (AM)
● Melhor Direção: Sérgio de Carvalho e Alexandre Barros – Noke Koi (AC)
● Melhor Roteiro: Anderson Mendes – DaSilva DaSelva (AM)
● Melhor Atuação: Moacy Freitas – DaSilva DaSelva (AM)
● Melhor Atuação: Jhenifer Santos – Boiuna (PA)
● Melhor Direção de Fotografia: Thiago Pelaes – Boiuna (PA)
● Melhor Montagem: Kalel Pessôa – Pálido Ponto Vermelho (PA)
● Melhor Direção de Arte: Fabiano Barros – Mucura (RO)
● Melhor Som: Lucas Coelho – Boiuna (PA)
● Melhor Figurino: Ketlen Suzy – Americana (PA)
● Melhor Maquiagem: Vitória Tabanã e Bruno Ferreira – Americana (PA)
● Menção Honrosa: Entre as Nuvens (RR) e Llaneros em Boa Vista (RR)
● Prêmio ItaúCultural Play – Boiuna

Olhar Panorâmico

● Melhor Filme: A Bici de Ramon (RR)
● Melhor Filme Voto Popular: A Bici de Ramon (RR)
● Menção Honrosa do Júri: E Assim Aprendi a Voar (RO)

Outros Nortes

● Melhor Filme: Dois Nilos (RJ)
● Melhor Filme Voto Popular: Cavaram uma Cova no Meu Coração (AL)
● Menção Honrosa do Júri: E Seu Corpo É Belo (RJ) e Ataques Psicotrônicos (BA)

Júri Jovem

● Melhor Filme: Mucura (RO)
● Menção Honrosa do Júri: Boiuna (PA) e Americana (PA)

Mormaço Cultural 2025: Mais de 200 mil pessoas prestigiaram programação no Parque do Rio Branco

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O festival reuniu mais de 200 mil pessoas no Parque do Rio Branco. Foto: Divulgação/PMBV

O Mormaço Cultural 2025 se despediu deixando um gostinho de quero mais. Após três dias de programação intensa e gratuita no maior cartão-postal de Boa Vista, o festival reuniu mais de 200 mil pessoas no Parque do Rio Branco. Em sua 4ª edição, se consolidou como um dos maiores eventos da cidade, celebrando a diversidade cultural com atrações locais e nacionais.

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De acordo com o presidente da Fundação de Educação, Turismo, Esporte e Cultura de Boa Vista (Fetec), Dyego Monnzaho, o Festival foi considerado um grande sucesso em todas as etapas de sua realização: a satisfação do público, o número zero de ocorrências durante os dias de evento, o alcance midiático, o impacto na economia local e o retorno positivo dos artistas que se apresentaram tanto no Teatro Municipal, quanto no Parque do Rio Branco.

“Diversos aspectos nos permitem afirmar que o Mormaço Cultural foi um marco para a cidade, cumprindo sua missão de ativar toda a cadeia econômica da cultura na cidade de Boa Vista, e ao mesmo tempo, promover uma ampla difusão artística em diferentes linguagens e produtos culturais. A edição de 2025 superou a anterior, e já começamos a trabalhar para que, em 2026, possamos fazer uma edição ainda mais potente, quando se trata de realização de projetos como o Festival Mormaço Cultural”, destacou o presidente da Fetec.

Leia também: Mormaço 2025 – Palcos, feiras e muita arte: estrutura do festival no Parque do Rio Branco

Em sua 4ª edição, o evento se consolidou como um dos maiores eventos da cidade, celebrando a diversidade cultural com atrações locais e nacionais. Fotos: Divulgação/PMBV

O público prestigiou atrações de peso como Capital Inicial, Iza, Jetlag, Lagum, Maneva, Matuê, MC Livinho, Raça Negra e Vitor Kley, além dos talentos locais que levaram aos palcos Sol e Lua toda a força da música roraimense. Só na segunda noite da programação, o festival atraiu mais de 100 mil pessoas.

“Olha, o festival é a coisa mais aguardada do ano e essa edição está demais. Matuê e Capital Inicial são e foram os meus favoritos. Esse ano, estou com amigos e a gente escuta de tudo, participa, é livre. Além da comida boa, então todo mundo curte o que gosta, é perfeito”, destacou a funcionária pública Odalene Dantas.

Gastronomia

Chef Felipe Bronze na aula-show do Mormaço Cultural 2025. Foto: Giovani Oliveira/PMBV

Se estamos falando de cultura, também estamos falando de gastronomia. E como parte da programação do Mormaço 2025, a prefeitura promoveu no sábado, 20, uma aula-show especial com o chef Felipe Bronze. O evento gratuito reuniu mais de 180 pessoas em uma experiência marcada por aromas e sabores, especialmente do Norte do país. À noite, o chef visitou a Feira Gastronômica do festival, se encantando ainda mais com o tempero nortista.

Mormacinho

Na Capital da Primeira Infância, as crianças não podiam ficar de fora. Com programação inteiramente especialm o Mormacinho reuniu Luccas Neto e artistas da terra para fazer a festa da criançada neste domingo, 21, no Palco Sol, além de várias atividades dentro do Parque do Rio Branco.

A criançada contou com uma programação especial no Mormacinho. Fotos: Giovani Oliveira/PMBV

Segurança

A programação no Parque do Rio Branco também foi um sucesso no quesito segurança, com a presença de agentes da Guarda Civil Municipal (GCM), Superintendência Municipal de Trânsito (SMTRAN), Polícia Militar e Bombeiros, garantindo a proteção e bem-estar do público durante todo o evento.

Theatro da Paz é avaliado como candidato a Patrimônio Mundial Cultural

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O Theatro da Paz, em Belém, recebeu entre os dias 11 e 14 de setembro a visita da representante do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos), entidade associada à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). A missão integra a etapa de avaliação dos “Teatros da Amazônia” — Theatro da Paz (PA) e Teatro Amazonas (AM) — à Lista do Patrimônio Mundial Cultural da Unesco.

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Ao todo, a missão da representante do Icomos no Brasil teve oito dias. Antes de Belém, de 7 a 10 de setembro, a representante da entidade esteve em Manaus para visitar o Teatro Amazonas. A missão foi organizada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em articulação com os governos do Amazonas e do Pará, além das prefeituras das duas capitais.

Leia também: Representantes da Unesco avaliam candidaturas dos Teatros da Amazônia

Theatro da Paz
Theatro da Paz. Foto: Edivaldo Sodré/Agência Pará

Em Belém, a secretária de Estado de Cultura, Ursula Vidal, participou da abertura e acompanhou os trabalhos.

“Foi uma oportunidade de demonstrar como o Governo do Pará tem um compromisso permanente com a manutenção do nosso patrimônio e também com a garantia de acesso da nossa população a essa casa de espetáculos, que é a mais simbólica do nosso patrimônio histórico”, avalia a secretária.

Ursula acrescentou que a visita também permitiu apresentar o trabalho desenvolvido pelos corpos artísticos do Theatro da Paz, a Amazônia Jazz Band e a Orquestra Sinfônica. “Trazemos para dentro dos espetáculos públicos que, naturalmente, não teriam acesso, garantindo um programa permanente de acesso e inclusão. É um compromisso reafirmado do Governo do Estado com a manutenção e a valorização do nosso patrimônio”, afirma.

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Belém

Na capital paraense, a missão internacional dedicou quatro dias de atividades ao Theatro da Paz e ao seu entorno imediato, formado pela Praça da República, Parque João Coelho e Praça da Sereia — área definida no dossiê da candidatura como zona núcleo (core zone). Também foram observadas ruas e sítios próximos que integram a chamada zona de amortecimento (buffer zone), ambos delimitados no dossiê entregue à Unesco em 31 de janeiro de 2025.

Theatro da Paz. Foto: Bruno Cecim/Agência Pará

Foram analisados elementos arquitetônicos e artísticos, documentos e acervos, além de realizadas reuniões com equipes técnicas, artistas, produtores, educadores, agentes de turismo e representantes da sociedade civil. Ela também assistiu, no dia 13, ao concerto “Jazz Sinfônico”, em que a Amazônia Jazz Band e a Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz se apresentaram juntas no palco do Theatro da Paz.

A representante do Icomos também esteve na ilha do Combu e percorreu a orla da cidade para observar de perto a relação histórica e cotidiana de Belém com seus rios — elemento estruturante da paisagem, da cultura e da formação urbana da capital paraense.

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Manaus

Na capital amazonense, a equipe do Icomos concentrou-se no Teatro Amazonas e em seu entorno, especialmente o Largo de São Sebastião, definido no dossiê como zona núcleo (core zone), e ruas e sítios do centro histórico incluídos na zona de amortecimento (buffer zone). Durante quatro dias, foram avaliados elementos de conservação, documentação e o papel do teatro na vida cultural da cidade.

Transformação

Concebidos como espaços de lazer de elite no século XIX, os Teatros da Amazônia permanecem centrais na vida cultural de Belém e Manaus porque foram ressignificados ao longo do tempo. Hoje, recebem tanto espetáculos eruditos quanto expressões contemporâneas das culturas populares amazônicas e brasileiras.

Theatro da Paz. Foto: Divulgação

Para o diretor do Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização do Iphan, Andrey Schlee, esse dinamismo é determinante na avaliação da candidatura. “Para ser reconhecido como Patrimônio Mundial, um bem tem de ser atualizado, se manter vivo. E os Teatros da Amazônia são. Equipamentos culturais como esses movimentam a economia criativa das duas cidades”, afirmou.

Schlee ressalta que o valor arquitetônico dos dois prédios é apenas um dos atributos em análise. “Se durante o período colonial, as cidades brasileiras eram marcadas por um núcleo composto por igreja e fortificação, a partir da segunda metade do século XIX, teatros como os da Amazônia, com suas praças amplas, passaram a ocupar um novo lugar central na urbe”, explicou.

Ele destacou ainda que os teatros simbolizam a chegada de uma nova classe social enriquecida pelo ciclo da borracha. “Os Teatros da Amazônia simbolizam a chegada de uma nova classe social burguesa, enriquecida pelo apogeu econômico derivado da extração da borracha, com novos valores. Era uma classe influenciada pelos países europeus com os quais passam a dialogar intensamente, sobretudo por meio das águas dos seus rios”, acrescentou Schlee.

Theatro da Paz. Foto: Divulgação

Nesse diálogo de mão dupla, afirma Schlee, os teatros mesclam estéticas e materiais importados da Europa com matérias-primas e referências locais — como o uso de madeiras nativas, pisos com ladrilhos colados com cola de gurijuba (espécie de peixe regional de cuja bexiga natatória se extrai a substância), pinturas que remetem à fauna e à flora amazônicas e bustos que homenageiam expoentes do romantismo brasileiro, como José de Alencar, Gonçalves Dias e Carlos Gomes.

O coordenador técnico do Iphan no Amazonas, Rafael Azevedo, reforçou a preservação dessas características.

“Mesmo as adaptações feitas ao longo das décadas para garantir usos mais seguros e amplos dos dois teatros – como sistemas de combate a incêndio, equipamentos de audiodescrição, rampas e elevadores, por exemplo –, não descaracterizam seus atributos originais”, afirmou.

Representatividade

Para a chefe da Assessoria de Assuntos Internacionais do Iphan, Juliana Bezerra, a candidatura amplia a representatividade cultural da Região Norte no cenário global. 

“A Unesco já reconhece o complexo de áreas protegidas da Amazônia Central – Parque Nacional do Jaú, Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã e Parque Nacional Anavilhanas – como Patrimônio Mundial Natural. E no âmbito da Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Imaterial da Humanidade, já há o Círio de Nazaré. Agora, a atual candidatura dos Teatros da Amazônia joga luz em um projeto de formação urbana e de novas centralidades nas cidades a partir da cultura, bem como difunde e promove a atuação de trabalhadores da cultura dessas duas importantes capitais do Norte”, afirmou.

A recomendação oficial sobre a candidatura deve ser apresentada à Unesco em março de 2026, e a avaliação final está prevista para julho do mesmo ano, durante a 48ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial, com o Brasil representado pelo Iphan, Ministério da Cultura e Ministério das Relações Exteriores.

*Com informações da Assessoria de Comunicação do Iphan

Jovem cria cookie amazônico de tucupi preto, cumaru e castanha: “Único”

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Jovem cria cookie amazônico. Foto: Nalu Cardoso

O cookie tradicional norte-americano é feito com gotas de chocolate. Mas, em Roraima, a receita ganhou um sabor amazônico: tucupi preto, cumaru e castanha-de-caju. Já pensou? A jovem Natália Fuhrmann, de 26 anos, sim. Ela inovou na receita e aposta na criação para lucrar durante o Festival Mormaço, em Boa Vista.

E não para por aí. O cookie amazônico ainda é servido com sorvete de cupuaçu. O doce custa R$ 22 e Natália garante que o cliente não vai se arrepender de provar.

“Espero mostrar que a Amazônia é rica de possibilidades e ingredientes para a produção de pratos e, inclusive, adaptação de pratos de outros países, como o cookie, que com o toque da Amazônia fica muito bom”, garantiu.

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Cookie é um biscoito em formato achatado, feito à base de farinha de trigo. Pode ser doce, com recheios, salgado ou acompanhado de especiarias. A versão com gotas de chocolate, mundialmente conhecida, foi criada nos Estados Unidos.

Natália vende doces desde 2024, por meio de pedidos pela internet. Esta será a primeira vez que participa de um festival, com público grande. Para aproveitar a oportunidade, decidiu inovar e pesquisou ingredientes locais que pudessem render um sabor único de cookie. Disso, nasceu o “tucookieaçu“.

Cumaru, a ‘baunilha brasileira’, e o tucupi preto feito por indígenas

O primeiro ingrediente que Natália decidiu usar foi o cumaru, semente nativa da Amazônia, também como “baunilha brasileira” por ter o aroma e sabor adocicado.

Leia também: Saiba para quê serve e quais os benefícios do cumaru, a baunilha da Amazônia

Em seguida, Natália escolheu o tucupi preto, um condimento feito a partir da redução do tucupi amarelo, caldo fermentado da mandioca, para dar sabor mais intenso ao cookie. O ingrediente é produzido por mulheres indígenas da região da Serra da Lua, no município de Cantá. Por último, incluiu a castanha-de-caju à receita.

“O tucupi que utilizo vem da comunidade indígena da Tabalascada. Meu interesse também está no fortalecimento do empreendedorismo feminino. Na comunidade, o tucupi é produzido por mulheres indígenas”, lembrou.

Com a ideia e os ingredientes definidos, Natália colocou a mão na massa e testou diferentes receitas. Depois de vários experimentos, percebeu que o sorvete de cupuaçu seria o toque ideal para trazer frescor no calor do Mormaço.

Finalmente, “os humilhados foram exaltados” e Natália cravou o “tucookieaçu”: um cookie que leva cumaru, tucupi preto e castanha-de-caju misturados à massa amanteigada, e servido com uma bola de sorvete de cupuaçu e uma leve calda de tucupi preto.

cookie amazônico criado em Roraima
A massa do cookie leva cumaru, tucupi preto e castanha-de-caju — Foto: Nalu Cardoso

“O cumaru me chamou atenção. É super aromático, um verdadeiro ouro da Amazônia, e ainda é pouco usado. O tucupi preto também é incrível, e às vezes vejo ele sendo mais valorizado em outros lugares. Trazer esses ingredientes pra receita foi uma forma de valorizar o que é nosso e mostrar que temos sabores únicos que podem — e devem — estar presentes nas nossas receitas”.

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“Amazônia é rica de possibilidades”

Com o tempo, mesmo sabendo fazer vários doces, Natália decidiu investir na produção de cookies, vendendo-os online por delivery. Atualmente, a loja dela, chamada ‘Malukies‘, oferece 12 sabores diferentes do biscoito.

“O que eu espero mesmo é mostrar que a Amazônia é rica de possibilidades e ingredientes para a produção de pratos e, inclusive, adaptação de pratos de outros países, como o cookie, que com o toque da Amazônia fica muito bom”.

O cardápio da Malukies tem cookies sabores: clássico, black, capuccino, churros, limão siciliano com geleia de morango, kinder bueno, coconut, red velvet, tucookieaçu, cookie funfet, clássico com sorvete, black e sorvete. Os preços variam de R$ 5 a R$ 22.

*Por Nalu Cardoso, da Rede Amazônica RR

MMA explica como funcionará o Fundo Florestas Tropicais para Sempre

Brasil concentra grande área de florestas tropicais com Amazônia e Mata Atlântica. Foto: Reprodução/Acervo MMA

O Brasil encabeça uma das iniciativas que deve modificar a forma do mundo enxergar a conservação ambiental. O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês) – que deve ser lançado durante a COP 30 – irá viabilizar pagamentos para países que garantam a conservação dessas florestas. A iniciativa visa fortalecer a manutenção das florestas em pé, demonstrando que sua proteção vale mais que a derrubada.

No total, mais de 70 países em desenvolvimento com florestas tropicais podem receber os recursos deste que seria um dos maiores fundos multilaterais já criados no planeta.

A valoração da preservação ambiental em dinheiro pelo TFFF se dá com base na compreensão de que biomas como a Mata Atlântica, a Amazônia, as florestas da Bacia do Congo e do Mekong/Borneo, são fundamentais para a manutenção da vida como conhecemos hoje.

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A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Brasil, Marina Silva, afirmou que este é o momento de mudar a forma como a humanidade lida com os recursos naturais do planeta.

“Já exploramos demais a natureza para gerar recursos financeiros e bens materiais. Agora, é hora de usar os recursos que geramos com essa exploração para proteger a natureza. Somos constantemente cobrados por depender apenas de dinheiro público para essa proteção, mas o Fundo Florestas Tropicais para Sempre representa uma virada de chave”, enfatizou.

“Não é doação, mas uma iniciativa que opera com lógica de mercado, alavancando recursos privados a partir de investimentos públicos. Para cada dólar aportado pelos países, espera-se mobilizar cerca de quatro dólares do setor privado, criando um fundo fiduciário permanente. É uma nova forma de financiar a conservação, com responsabilidade compartilhada e visão de futuro”, complementou a ministra.

O assessor especial de Economia e Meio Ambiente do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), André Aquino, explica o papel dos biomas que poderão ser contemplados pelo TFFF.

“Nós sabemos que as florestas tropicais são fonte da estabilidade climática, porque elas retêm carbono e garantem ciclos hídricos, – os rios voadores na Amazônia que conhecemos hoje muito bem no Brasil, por exemplo. Mais de 80% da biodiversidade terrestre de todo o mundo estão nas florestas tropicais. Logo, elas fornecem serviços ecossistêmicos para a humanidade a nível global. O que o TFFF busca é que o mundo remunere parte desses serviços. É remunerar a florestas como base da vida, como base da economia, pelo nosso bem-estar”.

O secretário-executivo adjunto do Ministério da Fazenda (MF), Rafael Dubeux, reforça que o mecanismo dá materialidade ao valor das matas.

“Para quem é proprietário de uma área, há uma espécie de custo de oportunidade – para usar uma expressão econômica. Ele poderia, em tese – e não é uma boa opção – considerar destruir aquela área para colocar gado, para fazer uma plantação. Para quem é dono daquela área, não é tão visível o dinheiro, o valor daquela floresta preservada. O TFFF está criando uma solução para que a gente deixe claro que não é apenas um slogan a ideia de que a floresta em pé vale mais do que é derrubada. A gente vai verdadeiramente monetizar, viabilizar, pagar pelo serviço de preservação da floresta”, frisou.

Segundo o secretário de Clima, Energia e Meio Ambiente do Ministério das Relações Exteriores (MRE), embaixador Mauricio Lyrio, consolidar o TFFF na COP30 fortalecerá o multilateralismo. “É motivo de orgulho que no Brasil, em Belém, ou seja, no meio da floresta Amazônica, nosso país lance uma iniciativa que partiu do próprio Sul Global, da articulação do Brasil com outros países em desenvolvimento que têm florestas tropicais. Tem uma importância histórica”, avaliou.

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Origem

O Brasil lidera os esforços pela criação do TFFF desde a COP28, realizada em Dubai, em 2023, quando o tema foi abordado publicamente pela primeira vez pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Até o momento, outros cinco países que possuem florestas tropicais integram a iniciativa: Colômbia, Gana, República Democrática do Congo, Indonésia e Malásia. Além disso, cinco países potencialmente investidores também participam do processo de fundação do mecanismo: Alemanha, Emirados Árabes Unidos, França, Noruega e Reino Unido.

áreas alagáveis na Amazônia
Foto: Kelvin Uchoa/PeldMaua-Inpa

Recursos e atratividade

A expectativa é que as nações investidoras disponibilizem um aporte inicial de 25 bilhões de dólares. Com esta injeção, deve ser possível alavancar mais 100 bilhões de dólares (capital sênior) do setor privado ao longo dos próximos anos. Os governos, ao aceitarem o papel de capital júnior, consentem em incorrer em um risco um pouco maior do que o setor privado, atraindo estes investidores privados.

As projeções dos responsáveis por elaborar o TFFF apontam também que o mecanismo deve viabilizar 4 bilhões de dólares anuais para a preservação ambiental, o que representa um valor próximo do triplo do volume aplicado globalmente para a proteção das florestas tropicais por meio de recursos concessionais.

De maneira inovadora, os recursos disponibilizados pelo TFFF serão disponibilizados aos países com florestas tropicais, que contarão com uma fonte de recursos previsível e em grande escala para financiar objetivos de longo prazo. O TFFF espera que os pagamentos aos países sejam adicionais aos recursos do orçamento hoje empregados para a conservação das florestas, que são extremamente limitados. “Isso daria uma capacidade de investimento em políticas públicas muito forte”, frisou André Aquino.

De acordo com Rafael Dubeux, o fundo mudará a forma de aplicar capital em prol do meio ambiente.

“Ao contrário de experiências anteriores que são muito baseadas em doações, filantropia, o TFFF traz uma inovação porque pressiona menos o orçamento de todo mundo, já que é um investimento”, destacou.

Trata-se de um fundo fiduciário, similar aos “endowments” que sustentam as grandes universidades privadas dos EUA.

Ainda conforme Dubeux, se as previsões se concretizarem, este será um dos maiores fundos multilaterais já criados no planeta, atrás apenas do Banco Mundial.

Veja onde estão as 74 nações que possuem florestas elegíveis para integrar o fundo:

74 nações que possuem florestas elegíveis para integrar o fundo. Imagem: Reprodução/ICMBio

Funcionamento do Fundo

Os países com florestas tropicais que aderirem ao TFFF deverão apresentar ao conselho do fundo relatórios anuais que comprovem a conservação das florestas, com monitoramento via satélite. O Brasil já faz este acompanhamento por meio do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e poderá ser exemplo para as outras nações, segundo o MMA.

As cifras encaminhadas às nações com florestas seguem o cálculo de 4 bilhões de dólares por hectare preservado. Os repasses poderão ser cortados, caso seja constatado que houve desmatamento e degradação florestal.

Os países beneficiários terão autonomia para definir o destino final dos recursos. No Brasil, o MMA projeta que a verba poderá fortalecer uma série de medidas de preservação ambiental, como o Programa Bolsa Verde, a Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais e ações de incentivos à bioeconomia.

Leia também: Portal Amazônia responde: qual a diferença entre economia verde e bioeconomia?

“O TFFF apoia os países que já têm baixo desmatamento, aumentando os recursos para seus programas e políticas de conservação, uso sustentável e restauração”, afirma Garo Batmanian, diretor-geral do Serviço Florestal Brasileiro.

Apesar de garantir a liberdade na aplicação dos recursos, o TFFF tem regras de elegibilidade. Os países devem ter sistemas de gestão financeira transparentes, e concordar em separar 20% dos recursos especificamente para povos indígenas e comunidades tradicionais.

Quanto aos investimentos feitos pelo fundo para remunerar os países, a aplicação em projetos que envolvam combustíveis fósseis é vetada. A prioridade é optar por ações e títulos de governos e companhias de países emergentes e produtos considerados verdes.

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Articulação internacional

O TFFF será uma das principais defesas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na 80ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), que será realizada esta semana, em Nova Iorque. Segundo o Itamaraty, na ocasião, o Brasil promoverá um evento para debater a proposta com líderes mundiais.

“Estamos trabalhando para que os países sinalizem fortemente o aporte de recursos a partir da COP30”, enfatizou a ministra Marina Silva.

doação fundo amazônia - Fábio Rodrigues - Pozzebom - Agência Brasil
Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

O embaixador Mauricio Lyrio destacou que o fundo de florestas é uma demonstração de que o multilateralismo é capaz de entregar resultados concretos e inovadores, num momento em que a cooperação internacional é questionada em algumas partes do mundo.

“Não é algo que é imposto do Norte ao Sul, como a gente chama. Isso é muito importante para reforçar o multilateralismo na área de clima. É um sinal de vitalidade”, pontuou o presidente da COP30.

Para além dos membros do comitê que está construindo o fundo, a iniciativa já recebeu manifestações positivas de outros países, como dos líderes dos BRICS, e de países amazônicos. Em setembro, o governo da China saudou a iniciativa brasileira de instituição do TFFF, afirmando que a nação está ansiosa pelo impacto positivo que isso pode gerar para um planeta saudável.

Ainda conforme o representante do MRE, a pasta tem dialogado com países em todas as partes do mundo, tanto por meio das embaixadas brasileiras no exterior como das embaixadas estrangeiras em Brasília.

Indígenas e comunidades locais

Uma das regras previstas para o TFFF é que 20% do valor repassado a cada nação com florestas tropicais deve ser encaminhado para populações indígenas e comunidades locais. A forma de aplicação do recurso deverá ser definida pelos governos nacionais em articulação com essas populações, garantindo a soberania dos países.

“Os povos indígenas são os maiores guardiões da floresta e da biodiversidade. É comprovado já em muitos âmbitos. E a gente sempre fez isso sem recurso nenhum. Tendo esse recurso, vai garantir a autonomia dos povos indígenas, essa estrutura que se precisa para a implementação dos seus projetos, suas iniciativas, diretamente nos territórios”, afirmou a ministra dos Povos Indígenas do Brasil, Sonia Guajajara.

Um relatório de 2021 da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e do Fundo para o Desenvolvimento dos Povos Indígenas da América Latina e do Caribe (FILAC) atesta a declaração da ministra, demonstrando evidências de que territórios nas mãos de povos indígenas e tradicionais sofrem menos desmatamento e emitem menos carbono. Conforme o documento, a eliminação de vegetação nativa em territórios demarcados como terras indígenas no Brasil é 2,5 vezes menor que em outras áreas.

Ainda de acordo com a ministra, o governo mantém interlocução com povos originários de outros países para viabilizar o TFFF, via diálogos com a Aliança Global de Comunidades Territoriais (AGCT). A organização representa 35 milhões de pessoas que vivem em territórios florestais de 24 países na Ásia, África e América Latina.

Mobilização de recursos

A decisão de sediar a COP30 no coração da Amazônia foi inspirada, entre outros motivos, pela necessidade de mostrar ao mundo a importância das florestas tropicais para a manutenção da vida no planeta.

Um dos principais temas discutidos na agenda de mudança do clima é a mobilização de recursos para apoiar os países em desenvolvimento a implementar ações de mitigação e adaptação. Na COP29, em Baku, definiu-se como meta o levantamento de 1,3 trilhão de dólares para financiamento climático até a conferência, conforme o Roteiro de Baku a Belém. André Aquino ponderou que, apesar de ainda não fazer parte desta iniciativa, o fundo tem potencial para ser incluído.

“O TFFF não é formalmente um instrumento da UNFCCC, mas ele contribui diretamente para os objetivos de redução de emissões via conservação da floresta, preservação, conservação da biodiversidade, entre outros. Dessa forma, seus recursos poderiam vir a ser contabilizados nessa mobilização que estamos tentando fazer. Contudo, isso ainda está em avaliação”, pontuou.

Entenda o Roteiro Baku – Belém

De acordo com o secretário-executivo adjunto da Fazenda, uma das vantagens do TFFF frente a outras medidas debatidas no âmbito da COP30 é que, para entrar em operação, o fundo não precisa da concordância de todos os 196 países que estarão no evento, podendo ser viabilizado apenas a partir do aporte inicial das nações investidoras e com o trabalho dos países com florestas.

Esta premissa também vale para a proposta de criação de uma coalizão mundial de mercados de crédito de carbono.

Mercado de carbono e TFFF

Ao lado do TFFF, uma das principais propostas do Ministério da Fazenda para debate na COP30 é a criação de uma coalizão de mercados de crédito de carbono de vários países. Enquanto este mecanismo remuneraria atores que capturam o gás de efeito estufa, – podendo ser também através do reflorestamento, por exemplo, – o TFFF pagará estados nacionais que preservem suas florestas, criando uma complementaridade.

A ideia é que os integrantes da coalizão do mercado de carbono criem um limite de emissões global que vá sendo reduzido ao longo do tempo. O Brasil já aprovou a legislação que regula este mercado em território nacional. A medida está em fase de implementação.

Mais informações sobre a estrutura do Tropical Forest Forever Facility podem ser encontradas aqui. Todos os valores indicados são estimativas ainda em negociação pelos países que compõem os trabalhos de elaboração do TFFF.

*Com informações da Assessoria de Comunicação da COP30 e do MMA