Em todo o Amazonas, 31,6% das mulheres já sofreram algum tipo de violência. Essa é uma das estatísticas reveladas pela mais recente atualização do banco de pesquisas do Observatório da Violência contra a Mulher, iniciativa da Procuradoria Especial da Mulher da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam).
O assunto veio à tona na Sessão Ordinária, desta terça-feira (02/09), quando a deputada estadual Alessandra Campelo (Podemos) ocupou a tribuna da Casa Legislativa para apresentar dados inéditos levantados pelo Observatório da Violência contra a Mulher.
A pesquisa de opinião, que abrangeu mais de 63 mil pessoas de Manaus e dos municípios do interior, aponta que, em se tratando de violência, o “inimigo” mora em casa. A mostra aponta que 55,1% das mulheres que revelaram ter sofrido algum tipo de violência são casadas ou moram junto com seus companheiros.
De acordo com os números divulgados pelo Observatório, o sentimento de posse também é confirmado na pesquisa, pois 26,5% de mulheres separadas ou divorciadas revelaram ter sofrido algum tipo de violência.
“Antes dessa pesquisa do Observatório da Violência contra a Mulher, a gente não tinha esse dado de como a mulher se sente em relação à violência. Isso vai fazer com que a gente possa elaborar políticas públicas que realmente impactem essa mulher. O objetivo da Procuradoria da Mulher é aperfeiçoar o trabalho legislativo, aperfeiçoar a criação de políticas públicas por meio dessa vivência da realidade da mulher amazônica”, enfatizou a deputada Alessandra Campelo.
Alessandra Campelo informou que o Observatório da Violência contra a Mulher é uma ferramenta perene da Casa Legislativa, visto que foi instituído por meio da Resolução Legislativa nº 1.049, de 02 de julho de 2024.
“Isso é inédito no Amazonas, e preciso agradecer ao presidente Roberto Cidade e a todos os deputados e as deputadas que acreditaram neste trabalho, aprovando a Resolução Legislativa, onde qualquer órgão poderá usar estes dados para a promoção de políticas públicas de proteção às mulheres”, disse a deputada, por ocasião do lançamento do projeto, em agosto de 2024.
Para tornar a comunicação em espaços públicos e privados mais acessível às pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), o deputado estadual Roberto Cidade (UB), presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), apresentou o Projeto de Lei nº 673/2025, que altera a Lei nº 6.458/2023 e consolida a legislação relativa à pessoa com TEA, estabelecendo critérios mais específicos de atendimento para esse público.
“É importante que façamos as adaptações necessárias para que as pessoas com TEA e suas famílias sejam cada vez melhor acolhidas e pertencentes a todos os ambientes. Elas precisam ser inseridas na sociedade com respeito e empatia. O que nossa emenda propõe é a efetivação prática dos direitos já previstos em âmbito constitucional e legal, mas com uma linguagem mais apropriada, inibindo sobrecargas sensoriais, crises, desistência do atendimento e outras formas de violação de direitos”, destacou o parlamentar.
De acordo com a propositura, os estabelecimentos públicos e privados que prestem atendimento direto à população no Amazonas deverão adotar estratégias específicas de acolhimento e linguagem acessível voltadas às pessoas com TEA, observando parâmetros de comunicação clara, objetiva e literal, evitando ambiguidades, ironias ou figuras de linguagem.
As instruções devem ser diretas, indicando com precisão o que deve ser feito, quando e como, respeitando o tempo necessário para a resposta e compreensão da pessoa com TEA. O texto prevê também o acolhimento de comportamentos característicos do espectro, como repetições, desorganização na fala, desvios de assunto e movimentos repetitivos, sempre com redirecionamento gentil.
A proposta estabelece medidas relacionadas ao ambiente, para que ele seja inclusivo e respeitoso às particularidades das pessoas com TEA, além da formação e capacitação periódica de servidores e funcionários no atendimento, com foco na comunicação, sensibilização e empatia.
O presidente da Aleam também é autor do PL nº 726/2025, que acrescenta ao Art. 32-A da Lei nº 6.458/2023 a obrigatoriedade de que os planos de saúde privados garantam às pessoas com TEA a cobertura integral das sessões de equoterapia, musicoterapia e hidroterapia, sempre que prescritas por profissional de saúde especializado.
“Do ponto de vista regulatório, nosso PL não cria obrigação inédita, mas alinha o âmbito estadual às diretrizes federais e à jurisprudência, coibindo negativas administrativas frequentes e evitando judicialização desnecessária”, afirmou Cidade.
O projeto prevê que a cobertura não poderá ter limitações de quantidade de sessões, desde que haja laudo comprovando a necessidade de acompanhamento contínuo; deverá incluir profissionais e centros de terapias credenciados e regularizados; e seguirá sempre a prescrição individualizada constante em relatório técnico de profissional habilitado.
De acordo com levantamento amostral do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ao menos 2 milhões de brasileiros convivem com o espectro autista, número possivelmente subestimado devido à subnotificação e ao diagnóstico tardio.
O Colorau, especiaria de sabor intenso, terroso e até apimentado, é produzido a partir de um fruto conhecido como urucum. O fruto é uma semente de uma pequena árvore nativa das regiões tropicais da América do Sul, o urucuzeiro (Bixa orellana). Para a sua produção são utilizadas apenas as sementes do fruto, inteiras ou moídas.
Conheça o processo de produção do colorau, um dos temperos mais usados nas cozinhas brasileiras e um símbolo da cultura alimentar amazônica:
Origem do fruto
O urucum, do tupi uruku, que significa ‘vermelho’, é um fruto de uma árvore tropical que pode atingir até 6 metros de altura. A árvore produz frutos espinhosos em forma de cápsulas, que abrigam sementes cobertas por um pó vermelho intenso rico em bixina, e com propriedades corantes e antioxidantes.
Foto: Márcio Moia
Antes mesmo da colonização, os povos indígenas já utilizavam o urucum como corante para objetos de cerâmica, conservação de alimentos e corante natural, proteção contra picadas de mosquito e queimaduras de sol e para pintura corporal.
Atualmente, o fruto além de ser um remédio natural também é utilizado como corante em produtos cosméticos e como condimento alimentar.
Existem três formas principais de produzir o colorau a partir do urucum:
1. Extração do pigmento com fubá (sem uso das sementes no final)
Nesse método, as sementes do urucum são misturadas com óleo vegetal, que auxilia na remoção do pigmento das sementes, depois acontece a adição de farinha de fubá e a combinação é misturada até que o pigmento passe totalmente para o fubá. A proporção comum é de uma parte de sementes para três a cinco partes de fubá, dependendo da cor desejada.
Depois que o fubá adquire a cor desejada, coloca-se sal e a mistura é peneirada para tirar as sementes usadas. A partir daí, o colorau está pronto para ser embalado e vendido.
2. Trituração das sementes (sementes fazem parte do produto final)
Foto: Neri9
Dessa maneira, as sementes de ururcum são misturadas com óleo para soltar o pigmento e depois trituradas junto com sementes de milho e sal. A mistura final contém partes das sementes de urucum, e as proporções variam, mas geralmente são utilizadas uma parte de urucum para três a sete partes de milho. Após a moagem das sementes, a mistura é peneirada e está pronta para ser embalada e vendida.
3. Mistura com corante industrial
Nesse processo, usa-se um corante já extraído das sementes de urucum, misturado com óleo, e combinado com fubá e sal. Como o pigmento já vem pronto, é possível ter mais controle sobre a qualidade e a cor do colorau, e a quantidade de corante vai depender da sua concentração.
O colorau de urucum está presente em receitas típicas da Amazônia, como o tacacá (em algumas variações regionais), o pato no tucupi, moquecas de peixe ou camarão, arroz paraense e ensopados com jambu e camarão seco.
Além disso, é usado em temperos caseiros, marinadas e em preparos que exigem um ‘toque de cor’ sem alterar significativamente o sabor.
Colorau e páprica são a mesma coisa?
Embora ambos tenham coloração avermelhada e sejam usados como condimentos, o colorau é feito a partir do urucum e a páprica é feita com pimentão vermelho seco e moído.
Em sintonia com o ‘Setembro Azul‘, mês dedicado à conscientização e à visibilidade da comunidade surda, a Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) tem reforçado o apoio à causa por meio de diversas iniciativas.
Matérias legislativas e sessões de debate abordam temas cruciais para a inclusão, como o acesso à educação e a garantia de direitos. A Casa Legislativa reconhece a importância de leis que promovam a acessibilidade e a igualdade de oportunidades para todos, incluindo a regulamentação e o incentivo à profissão de tradutor e intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras).
Durante todo o mês, leis federais estabelecem datas significativas que reforçam a luta por um mundo mais inclusivo, como a Semana Internacional dos Surdos (20 a 26 de setembro), o Dia Internacional da Língua de Sinais (23/09), o Dia Nacional do Surdo (26/09) e o Dia Internacional do Tradutor e Intérprete (30/9).
No âmbito estadual, e buscando fortalecer a promoção da acessibilidade no Parlamento, a Aleam foi uma das primeiras Casas Legislativas do Brasil a contar com intérprete de Libras, ainda em 2002. O atual intérprete da Casa, Marlison Barral de Azevedo, relembra que somente após a Assembleia implantar o serviço, a língua foi oficializada no Brasil pela Câmara Federal.
“Na época, quando nem se falava em inclusão, a Assembleia deu o primeiro passo nesse sentido. A partir do momento em que a linguagem foi oficializada pela Câmara Federal, a Aleam apenas comunicou que já tinha um intérprete. Avançamos, ganhou a Casa e, claro, a comunidade surda”, recorda.
De acordo com o Censo Demográfico de 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui cerca de 9,7 milhões de pessoas com deficiência auditiva, sendo aproximadamente 2 milhões surdas. No Amazonas, segundo o mesmo levantamento, há cerca de 140 mil pessoas com deficiência auditiva, das quais aproximadamente 28 mil são surdas.
Buscando ampliar a comunicação e o acesso à informação, a Aleam aprovou a Lei nº 7.321/2025, que tornou obrigatória a utilização de Libras em todas as propagandas institucionais veiculadas por órgãos públicos na televisão e nas redes sociais.
“Além de ampliar a inclusão social e o respeito à diversidade linguística das pessoas surdas ou com deficiência auditiva no Amazonas, queremos garantir o direito à informação e à comunicação nas propagandas institucionais realizadas pelos órgãos públicos”, afirma a deputada Mayra Dias (Avante), autora do projeto que deu origem à norma.
Outras iniciativas de valorização e propagação da Libras também foram aprovadas pelo Parlamento, como a Lei nº 6.254/2023, de autoria do deputado Mário César Filho (UB), que tornou obrigatório o atendimento nas repartições públicas, empresas concessionárias de serviços públicos e instituições financeiras por tradutores e intérpretes de Libras.
Já a Lei nº 6.923/2024, de autoria do deputado Rozenha (PMB), estabeleceu diretrizes para detecção precoce da deficiência auditiva infantil.
“É preciso assegurar que a perda auditiva possa ser identificada e tratada o mais cedo possível, conscientizando sobre a importância da prevenção nos cuidados com a audição”, destaca o parlamentar.
Reforçando o compromisso com a inclusão, a Aleam aprovou ainda a Lei nº 7.314/2025, oriunda de projeto da deputada Joana Darc (UB), que trata da utilização de tecnologia assistiva para atendimento a pessoas com deficiência auditiva em hospitais públicos.
A lei define como tecnologias assistivas o conjunto de recursos e serviços que promovem acessibilidade, autonomia e independência às pessoas com deficiência, assegurando maior inclusão.
O líder quilombola Raimundo Magno, do Pará. Foto: Raimundo Magno/Acervo pessoal
Entre indígenas e quilombolas, a saúde mental não é vista apenas como uma dimensão individual. Ela é compreendida como parte de um cuidado comunitário e espiritual. Práticas ancestrais — como rezas, rodas de escuta, rituais de passagem e benzimentos — seguem sendo estratégias de enfrentamento diante do adoecimento psíquico.
No caso dos povos Guarani, a casa de reza faz parte até mesmo do calendário escolar. Cânticos e rezas semanais são considerados tão importantes quanto as aulas formais. Além disso, práticas como o xondaro, uma dança e luta comunitária, fortalecem simultaneamente corpo e espírito.
Nos quilombos, benzedeiras, parteiras e puxadores de ervas continuam atuando no cuidado à saúde. São elas que transmitem saberes de cura e acolhimento, preparados com chás, ervas e rezas.
Como resume o quilombola Raimundo Magno Cardoso Nascimento, liderança do quilombo África, no Pará: “O que de fato é fundamental é o trabalho das parteiras, das benzedeiras, dos puxadores, das ervas, daquele que bebe, que cura, que faz o chá”.
Para Otto Payayá, indígena do povo Payayá e coletor de ervas medicinais e sementes da Chapada Diamantina (BA), a saúde mental está profundamente ligada aos saberes herdados dos ancestrais. “Quando alguém adoece, a gente não olha só para o sintoma. Primeiro vem a escuta, o diálogo, entender de onde começou aquele sofrimento. Depois vem o banho, o chá, a reza, até um abraço, um afago. É assim que se vai acalmando a mente e fortalecendo o espírito”.
Esses conhecimentos, transmitidos de geração em geração, orientam tanto o cuidado com o corpo quanto com a mente. “É histórico, secular. Vai do avô, bisavô, tataravô. Hoje a gente prepara os mais jovens para assumir essa responsabilidade, porque o cuidado exige zelo, espiritualidade, ligação com a terra, com as águas, com a floresta”. Otto destaca a prevenção como princípio, que inclui rituais de limpeza do corpo e do espírito com ervas como caçaú, quina, taraxaco, cúrcuma e carqueja, além de banhos, rezas e vomitórios. “Não é uma cura mágica. É um processo de paciência, cuidado e acompanhamento coletivo”.
Ele lembra que ataques históricos aos territórios indígenas — invasões, desmatamento e mudanças climáticas — também são fatores de adoecimento. “É como se alguém entrasse na sua casa e dissesse: isso não é mais seu. Essa pressão turva o sangue e afeta o pensamento, o comportamento perante a vida”. Ainda assim, Otto defende o diálogo entre saberes: “Quando a medicina acadêmica desce um pouco do seu patamar e procura conhecer as práticas indígenas, todo mundo ganha. A gente respeita os limites de cada lado, mas quer manter nossa forma de cuidar, porque ela dá resultado”.
O peso das violências e do racismo na saúde mental
Esse tecido comunitário, no entanto, sofre pressões permanentes. Em 2023 e 2024, duas mortes por suicídio — de uma adolescente de 15 anos e de um jovem — abalaram aldeias Guarani no Rio de Janeiro. O fenômeno, até então incomum, levou pajés e lideranças a promoverem encontros, buscando estratégias de prevenção junto a crianças e jovens.
No Pará, comunidades quilombolas também sentiram os efeitos dessa crise. No território Tijarapeiro Preto, formado por 14 comunidades, casos levaram à criação de um projeto de apoio psicossocial. A iniciativa mobilizou psicólogos, enfermeiros, advogados e comunicadores durante um ano inteiro. “A equipe acabou fazendo um trabalho muito denso, muito sólido, para identificar essas questões de adoecimento e trabalhar o processo de formação em comunicação da juventude e de quem quisesse participar”, explica Raimundo Magno.
Ainda que o trabalho tenha gerado frutos, ele reconhece a precariedade do sistema público: “Criamos meios de orientar as famílias a procurar os serviços de saúde. Depois, discutimos com os próprios serviços, mas vimos que infelizmente são cheios de deficiência, de necessidade de ajuste e investimento público”.
Para a pesquisadora Ana Paula da Silva, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e associada ao PROÍNDIO/UERJ, os fatores de violência estrutural são determinantes para a saúde mental.
“Essa violência do racismo afeta muito a vida dos indígenas”, observa.
O sofrimento psíquico, explica, não pode ser separado das condições de exclusão, precariedade e desrespeito que marcam historicamente esses povos.
Ela também aponta novas pressões que atravessam os territórios, como o impacto das redes sociais e da substituição de alimentos tradicionais por ultraprocessados. “Você fica o tempo todo nas redes, vai se isolando, se individualizando, e são povos extremamente coletivos”, analisa. Para Ana Paula, essa ruptura enfraquece vínculos comunitários que antes funcionavam como proteção simbólica e emocional. Já a mudança alimentar afeta tanto a saúde física quanto a cultural: “Vai comendo essas comidas congeladas, industrializadas, e isso enfraquece o corpo das pessoas”.
Deslocamentos e adoecimentos
No Quilombo Bitiua, em Bacuri, oeste do Maranhão, a rotina de Ana Cláudia Lisboa Mendes se divide entre o giz e a enxada. Aos 29 anos, formada em pedagogia, ela dá aulas para crianças quilombolas na escola local. Nos intervalos, ajuda a família na lavoura, cultivando os alimentos que garantem a sobrevivência da comunidade.
A história de Ana Cláudia aponta para uma questão central: a saúde mental, para quilombolas e indígenas, é indissociável de identidade, pertencimento e coletividade. O que aprendeu com o pai e a mãe — a soletrar à noite, a quebrar o coco babaçu, a preparar farinha e tapioca — ela chama de herança. “Esse conhecimento de origem a gente nunca perde”, resume. Mas sua trajetória também foi marcada por deslocamentos e episódios de violência simbólica. Em Belém, para onde se mudou em busca de trabalho, viveu experiências que revelam o peso do racismo cotidiano..
Foto: Ana Cláudia Lisboa Mendes/Acervo pessoal
Foi chamada de “Maria” por patrões que, de forma preconceituosa, insistiam em reduzir todas as empregadas negras a um nome genérico. A resposta foi firme: “Meu nome é Ana Cláudia. Se naminha identidade tivesse Maria, o senhor poderia me chamar de Maria. Mas meu nome é Ana Cláudia, então me chame assim”.
Hoje, de volta ao quilombo, sonha em unir pedagogia e psicologia. “Se me especializar, serei uma profissional dentro da minha sala. Aí consigo conversar melhor, controlar situações, apoiar meus alunos e a comunidade em situações traumáticas”.
Saberes tradicionais e acadêmicos
Em Alagoas, os saberes tradicionais quilombolas foram incorporados em um projeto da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau). O Mate Masie, termo da cultura de Gana que significa “eu guardo aquilo que eu ouço”, nasceu em 2023 a partir de uma demanda direta de comunidades quilombolas, que recusaram atendimentos médicos convencionais e pediram ações voltadas à saúde mental. “A gente parte do conceito ampliado de saúde mental. Terra é um determinante, o trabalho, a questão cultural, é da etnia”, explica Tereza Cristina, supervisora de atenção psicossocial da Secretaria.
Um dos pilares do programa é a valorização dos saberes tradicionais. “Quando a gente vai fazer esse levantamento inicial, já avaliamos o que eles têm de processos de cura no território: benzedeira, rezadeira, comunidades que produzem chás e rituais”, relata Wilzacler Rosa, psicóloga e coordenadora do Mate Masie.
Esses agentes locais são convidados a compartilhar práticas de cuidado junto aos profissionais, construindo um atendimento compartilhado.
Em pouco mais de um ano, o programa visitou 12 comunidades quilombolas em 7 municípios, alcançando 1.968 famílias por meio de 96 visitas domiciliares e realizando mais de 1.400 atendimentos diretos. Mobilizou especialmente as mulheres — 2.159 participaram de rodas de conversa e oficinas de geração de renda — e fortaleceu a rede de atenção psicossocial com a capacitação de centenas de profissionais em prevenção ao suicídio, redução de danos, rastreio de autismo e notificações. Também promoveu emissão de documentos, oficinas de tranças, culinária e artesanato sustentável, reforçando a geração de renda e o resgate cultural.
Entre os impactos, o Mate Masie contribuiu para a criação de um comitê específico para pautas quilombolas em um território e inspirou mudanças em formulários de notificação do Ministério da Saúde. “Nunca fomos a uma comunidade e mantivemos a programação que levamos. Sempre mudamos dentro do território. A gente não chega impondo, mas construindo junto”, resume Tereza.
Para a psiquiatra e ativista Laura Eiko Uyeno, os saberes tradicionais exercem papel fundamental no cuidado em saúde mental. “Grande parte das soluções de transtornos mentais mais leves que acontecem no dia a dia das aldeias, os aconselhamentos e os saberes tradicionais já ajudam muito”. Mesmo quando tratamentos biomédicos são sugeridos, muitos jovens continuam recorrendo aos pajés para orientação espiritual e emocional.
Ela destaca o uso de ervas e essências naturais como parte central desse cuidado. “Eles usam muito as próprias ervas e essências, como alecrim e lavanda, que ajudam em crises de ansiedade”. Nos encontros nacionais como o Acampamento Terra Livre, Laura observa a coexistência entre equipes médicas e setores de práticas tradicionais: “A gente só é chamado quando são situações muito urgentes, porque o tratamento menos invasivo já consegue resolver muito”.
Segundo Laura, esses saberes fazem parte de uma cosmologia que articula corpo, espírito, comunidade e território. “O bem-viver é uma relação do corpo com o próprio território. Se a comunidade não está saudável, não está em paz, cada indivíduo adoece também. É um adoecimento coletivo”.
Ela ressalta que o diálogo entre medicinas só acontece quando há reconhecimento dessa lógica. “Eles têm os próprios conhecimentos e nos trazem conhecimentos. Estamos trocando formas de cura e saberes. Antes de entrar no território, o branco precisa primeiro ser acolhido como igual. Só assim o tratamento é aceito”.
Por fim, Laura aponta que o fortalecimento das práticas tradicionais depende da ocupação de espaços acadêmicos e de saúde pelos próprios indígenas. “Acredito cada vez mais na criação de universidades indígenas, com saberes tradicionais em várias áreas. Isso será muito mais assertivo do que quando chegamos com uma caixinha de medicação impondo uma cura”.
Para enfrentar a crise de saúde mental em territórios indígenas e quilombolas, especialistas apontam que é preciso articular políticas públicas à valorização dos saberes tradicionais, reconhecendo que a cura não está apenas em medicamentos ou atendimentos clínicos, mas também em práticas coletivas, espirituais e no vínculo com a terra.
Como resume Ana Paula da Silva: “São conhecimentos diferentes, mas não são superiores ou inferiores. Eles são só diversos. Para muitos povos, riqueza é ter um território saudável, uma água limpa, animais e parentes ao redor. Isso é vida boa. A nossa visão capitalista não compreende, porque valoriza o dinheiro, mas para eles o sentido de bem-viver é outro”.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Nonada Jornalismo, escrito por Lucas Veloso
Rio Branco em Roraima. Foto: Oseias Martins/Rede Amazônica RR
Quanto mais desnorteado o trajeto de um rio, com desvios aparentemente ilógicos, maior o interesse do geógrafo André Salgado, da Universidade Federal de Goiás (UFGO). Nos últimos 15 anos, com imagens de satélite, análises de solos e muitas horas de caminhadas e observação, ele identificou avanços e recuos em várias redes fluviais no Brasil, ampliando as áreas das pesquisas realizadas desde os anos 1950.
Seus trabalhos indicaram que o trajeto do rio São Francisco já foi 250 quilômetros (km) mais extenso, antes de seu trecho inicial ser tomado pelo rio Grande, o principal formador do rio Paraná. Inversamente, o percurso do Poti, o principal afluente do Parnaíba, entre os estados do Ceará e do Piauí, se estendeu com a tomada da maior parte do trecho inicial e médio do Acaraú. Em Rondônia, o Rio Branco incorporou afluentes do Essequibo, o maior da Guiana, e em Santa Catarina o Itajaí-Açu apossou-se dos afluentes dos rios Uruguai e Iguaçu. “As bacias hidrográficas mudam continuamente”, comenta Salgado.
Por meio da chamada captura fluvial, os rios agem como canibais, incorporando partes de outros, que encolherão ou desaparecerão. Em um artigo de maio de 2013 na Science, Sean Willett e outros geólogos do Instituto Federal Suíço de Tecnologia, em Zurique, chamaram de agressores e vítimas os rios que participam, com papéis opostos, desse fenômeno de progressão lenta. O ritmo das mudanças superficiais ou subterrâneas do fluxo da água depende do tipo de solo, da natureza das rochas (quanto menos resistentes, mais fácil para a água escavar) e da inclinação do terreno, já que a água tende a fluir para as áreas mais baixas.
Pesam também o clima, com mais ou menos chuva, que determina o poder erosivo dos rios, e os movimentos tectônicos, como o soerguimento da camada de solos e rochas mais superficial da Terra.
“A captura fluvial é como um bolo devorado dos dois lados. Quem come mais rápido de um lado chega antes no outro lado”, compara Salgado.
Ao formarem desvios e fundirem parte de seus trajetos, os rios aumentam ou reduzem a quantidade de água que irriga uma região. Em consequência, o clima, os tipos de vegetação e de ocupação humana podem mudar. “O Parnaíba capturou o Poti, em algum momento entre 23 milhões e 2,5 milhões de anos atrás, deixando o atual estado do Ceará mais seco do que seria sem esse desvio de águas para o Piauí”, diz Salgado, um dos autores do artigo de maio de 2024 na Revista Brasileira de Geomorfologia que descreve esses episódio.
O geógrafo norte-americano William Morris Davis (1850-1934) começou a estudar esse fenômeno ao descrever, em 1896, a captura de um rio no nordeste da França. Outras análises explicaram os desvios dos rios Ohio e James, nos Estados Unidos, do Tâmisa, em Londres, do Nilo, no Egito, e do Amarelo, na China, entre outros. No Brasil, a partir dos anos 1950, os geógrafos Aziz Ab’Saber (1921-2012), da Universidade de São Paulo (USP), e Antonio Christofoletti (1936-1999), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Rio Claro, apresentaram algumas possibilidades de captura, embora ainda com argumentos limitados, em vista das técnicas de análises menos apuradas que as atuais.
O rio Branco (na foto maior), em Caracaraí (RR), avolumou-se ao ganhar as águas do Essequibo, deixando vestígios de um antigo rio nos limites das duas bacias (no destaque). Fotos: Tulio F /Wikimedia e André Salgado/UFG
Com o tempo, o redesenho dos rios ganhou dimensões políticas, na medida em que pode definir os limites de território, como aconteceu com o rio Branco. Seus principais afluentes faziam parte da bacia do rio Essequibo, que nasce em uma serra na divisa entre os estados de Roraima e Pará, corta a Guiana e deságua ao norte, no Atlântico. Em dezembro de 2021 na Journal of South American Earth Sciences, Salgado e seus colegas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde lecionou até 2022, argumentaram que, provavelmente por causa de um afundamento da crosta terrestre no sul de Roraima, o rio Branco capturou o Uraricoera, um dos afluentes do Essequibo, e depois o Tacutu, mudando sua direção e aumentando sua área de drenagem.
“Se o rio Branco continuasse a ir na direção nordeste em vez de mudar seu trajeto para sudoeste, o Brasil teria perdido para a Guiana toda a área central e norte de Roraima, porque as fronteiras entre os países nessa região eram definidas basicamente pelos limites das bacias hidrográficas”, comenta Salgado. “Como os colonizadores europeus entraram na Amazônia pelos rios, quem teria alcançado o interior de Roraima primeiro, se não tivesse ocorrido a captura, teriam sido os ingleses”.
Análises de sedimentos às margens dos rios indicaram que essa mudança deve ter ocorrido em período geológico relativamente recente, entre 18 mil e 10 mil anos atrás. Com outras metodologias, o também geógrafo Fábio Alves, da Universidade Federal do Oeste da Bahia (Ufob), estudou a região e confirmou os achados das equipes da UFG e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ao ver que a captura do rio Branco deve ter começado há cerca de 18,7 mil anos.
“A bacia Amazônica se formou e se expandiu por meio de sucessivas capturas de rios”, diz Alves, com base em um artigo de outubro de 2018 na Neotropical Ichthyology.
Nesse trabalho, o biólogo James Albert, da Universidade de Louisiana em Lafayette, nos Estados Unidos, e os geólogos Carina Hoorn, da Universidade de Amsterdã, nos Países Baixos, e Pedro Val, da Universidade da Cidade de Nova York (Cuny), argumentam que a rede de rios que corta a floresta amazônica é o resultado de sequestros fluviais ocorridos entre 5,6 milhões e 4,9 milhões de anos atrás, acelerando a diversificação de espécies de animais e plantas da região (ver Pesquisa FAPESP no 334).
Perdas e desvios de rios
As pesquisas nessa área ampliam o interesse de alguns pontos turísticos. Os gestores do Parque Nacional do Itatiaia, por exemplo, poderiam colocar uma placa perto do filete de água que emerge a 1.980 metros de altitude, no município mineiro de Bocaina de Minas, do qual se origina o rio Grande, avisando que ali, há cerca de 5 milhões de anos, era a nascente outro rio, o São Francisco. Atualmente o Velho Chico começa na serra da Canastra, também em Minas, a 250 km dali.
Salgado despertou para esse sequestro aquático a partir de uma observação do geógrafo Éric Andrade Rezende, então no doutorado. “Em 2015, Éric estava em uma estrada para Pimenta, em Minas, e notou algo estranho”, conta. “Ali o rio Grande, o principal formador do rio Paraná, fazia uma curva, em uma área plana. Ele voltou e falou: ‘E se ali fosse o São Francisco e não o rio Grande, como hoje?’.” Salgado, que até então tinha estudado rios pequenos e menos relevantes, apostou na ideia.
Diz Rezende, atualmente na prefeitura de Contagem, em Minas Gerais: “Quanto mais antigo é o processo no tempo geológico, mais difícil é fazer essa reconstrução evolutiva, pois as evidências vão sendo apagadas pela erosão ou pela atividade tectônica”. Salgado, o então doutorando e seu orientador, o geólogo Paulo de Tarso Amorim Castro, lançaram a hipótese em um artigo de julho de 2018 na Revista Brasileira de Geomorfologia, com base na análise de sedimentos, das estruturas geológicas e dos movimentos da superfície da região.
Imagem: Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP
José Cândido Stevaux, geólogo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) que estuda as mudanças do rio Paraná nos últimos 10 mil anos, empolgou-se em um congresso no Ceará, em 2019, ao ouvir a palestra em que Salgado apresentou esses argumentos.
“Nos anos 1980, quando eu estava na Universidade de Maringá, no Paraná, meus colegas biólogos me perguntavam se não houve algum contato entre o Paraná e o São Francisco, porque havia muitas espécies de peixes em comum, e eu não sabia o que dizer”, conta.
Reforçando a hipótese, o grupo da UFG estudou a dispersão de espécies de peixes comuns às duas redes hidrográficas, como o dourado (Salminus brasiliensis) e o pintado (Pseudoplatystoma corruscans). As conclusões, detalhadas em janeiro na Geomorphology, indicaram que houve uma conexão momentânea entre os rios e a nascente do São Francisco se tornou gradualmente a do rio Grande entre 6 milhões e 5 milhões de anos atrás.
Como resultado, o rio Grande abocanhou mil km da extensão do São Francisco. Contando com os afluentes, o formador do Paraná teria incorporado cerca de 50 mil km2, um pouco mais do que a área do estado do Rio de Janeiro. “O São Francisco é um grande perdedor, porque perdeu água para o Paraná, para o Paraguaçu, que nasce na Chapada Diamantina, na Bahia, e para o Jequitinhonha, em Minas”, observa Salgado (ver infográfico).
Estudioso das transformações do Velho Chico nos últimos 90 mil anos (ver Pesquisa FAPESP no331), o geógrafo Genisson Panta, doutorando na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e professor do ensino médio em uma escola pública estadual de Maceió, Alagoas, comenta: “Depois de o trecho inicial do São Francisco ser remodelado por meio das capturas, o rio entalhou rochas e aprofundou seu cânion, a 2 mil km de distância, entre 1,5 milhão e 3,5 milhões de anos atrás”.
Em Cabrobó, no sertão de Pernambuco, o São Francisco faz um desvio abrupto para leste, também chamado de cotovelo, um sinal clássico de captura fluvial, indicando que um rio menor e menos volumoso o incorporou. Panta comenta que um sinal desse sequestro é um canal abandonado, chamado vale seco, na divisa entre Bahia e Piauí, por onde deve ter corrido o rio, como proposto nos anos 1990 pelo geógrafo da UFPE Jannes Mabessone (1931-2007).
“O Parnaíba pode ter sido o ancestral do São Francisco”, cogita. O engenheiro civil e geólogo Luís Flores de Morais Rêgo (1896-1940), da Escola Politécnica da USP, já propunha, em um livro de 1945, que o São Francisco de milhões de anos atrás deveria correr para o norte e desaguar no mar entre o Maranhão e o Piauí.
Polens
“O enfoque estritamente geológico é limitante”, concluiu a geógrafa da USP Déborah de Oliveira, após trabalhar na serra do Mar. Tremores de terra reformataram o relevo e mudaram os rumos de dois rios da região, o Paraíba do Sul e o Tietê: o primeiro se voltou para o litoral e o segundo, que também desaguava no mar, virou-se para o interior paulista (ver Pesquisa FAPESP no 77).
Oliveira estudou os desvios bruscos do rio Guaratuba, na serra do Mar, que antes corria para o alto Tietê e hoje deságua em Bertioga, São Paulo. Em 2013, ela viu que o canal abandonado do rio capturado não formava um vale seco, mas pantanoso, com organossolos, que poderiam conter pólen ou restos de plantas. Três anos depois, caminhando para um congresso no parque de La Vilette, em Paris, ela pediu à geógrafa Natália Nunes Patucci, uma de suas estudantes de doutorado, que a acompanhava: “Investigue os vales secos. Ali tem algo importante”.
Patucci buscou ajuda de especialistas em pólen no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), em Piracicaba, e no Instituto de Geologia (IGc), ambos da USP. Aprendeu a fazer as análises e, por fim, encontrou polens de plantas típicas de clima frio e úmido, como Podocarpus sp., Ilex sp. e Symplocus sp. “Quando o clima mudou para quente e seco, há cerca de 25 mil anos, deve ter chovido mais e a erosão aumentou, facilitando a captura de rios da região”, comenta Oliveira. Seu plano é procurar polens também em outros rios que estuda, com sua equipe, no estado de São Paulo.
“Quando choveu mais, os rios e lagos se uniram”, concorda Salgado, que também fez pesquisas na região. “Como a erosão continua, outros rios serão capturados, reconfigurando novamente a paisagem que vemos hoje”. Como exemplo, ele cita a bacia amazônica, que está capturando pouco a pouco todo trecho inicial da bacia do rio Orinoco, na Venezuela, por meio do rio Casaquiare. Esse canibalismo aquático avançou, mas não terminou. Quando essa conexão se ampliar, o rio Amazonas, o maior do mundo, se apropriará de 40 mil km2 da área de drenagem do Orinoco, o quarto maior do mundo – o equivalente à área territorial da Suíça.
A reportagem acima foi publicada com o título “Canibalismo fluvial” na edição impressa nº 355 de setembro de 2025.
Projetos 1. Estudo das relações entre relevo / litologia / solo / drenagem em várias escalas de abordagem (no 12/19048-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa ‒ Regular; Pesquisadoraresponsável Déborah de Oliveira (USP); Investimento R$ 47.985,52. 2. Geocronologia para avaliação dos processos de capturas fluviais: Aplicação em sedimentos dos vales secos do Guaratuba (SP) (no 16/06654-0); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisadoraresponsável Déborah de Oliveira (USP); Bolsista Natália Nunes Patucci; Investimento R$ 155.123,41.
Única capital brasileira situada acima da linha do Equador, Boa Vista tem uma história marcada por mudanças políticas e territoriais que refletem o processo de ocupação da região Norte do país.
Fundada em 1830 pelo capitão Inácio Lopes de Magalhães, a cidade nasceu como uma fazenda particular às margens do rio Branco, na então província de São José do Rio Negro, área que mais tarde integraria o estado do Amazonas. O povoado cresceu lentamente até se tornar, em 1858, a freguesia de Nossa Senhora do Carmo do Rio Branco.
De acordo com informações da prefeitura de Boa Vista, a consolidação como núcleo urbano ocorreu em 9 de julho de 1890, quando o governador amazonense Augusto Ximeno de Villeroy elevou a freguesia à categoria de município, batizado de Boa Vista do Rio Branco. A cidade, na época, ainda integrava o município amazonense de Moura.
Com a criação do Território Federal do Rio Branco, em 1943, Boa Vista foi emancipada e se tornou capital. A partir daí, experimentou um rápido crescimento impulsionado pelo garimpo, que atraiu migrantes de várias regiões do país. Em 1962, o território passou a se chamar Roraima, e, em 1988, com a promulgação da nova Constituição, foi elevado à condição de estado.
Foto aérea de Boa Vista tirada por Hamilton Rice em 1924. (VERAS, Antonio Tolrino de Rezende. A produção do espaço urbano de Boa Vista – Roraima. Departamento de Geografia da FFLCH da USP, São Paulo-SP, 2009. Tese de doutorado)
Localizada nos chamados ‘Campos de Roraima’, a cidade se destaca pela vegetação típica conhecida como ‘lavrado’, uma cobertura rasteira intercalada por árvores esparsas, como o caimbé, e buritizais que acompanham os igarapés. A capital é cortada pela bacia do rio Branco, que domina quase toda a região e tem no rio Cauamé seu principal afluente pela margem direita.
Atualmente, a capital de Roraima é símbolo de urbanização planejada na Amazônia e carrega, em sua história, a transição de fazenda isolada a capital moderna, que um dia pertenceu ao Amazonas antes de se tornar o centro político e econômico de Roraima.
O Festival de Parintins é reconhecido mundialmente pela grandiosidade de suas alegorias, coreografias e toadas. Mas por trás desse espetáculo estão os artistas que, com talento e dedicação, moldaram por exemplo a história do Boi Garantido.
É justamente para preservar essa memória que a websérie ‘Mestres e Mestras da Arte do Boi Garantido’ foi criada, premiada pelo edital da Lei Paulo Gustavo, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas.
Com estreia no canal Amigos Garantidos no YouTube, a série audiovisual apresenta entrevistas inéditas e emocionantes com personagens que marcaram o Festival de Parintins. A websérie registra, em primeira pessoa, a trajetória de mestres e mestras que transformaram o boi vermelho e branco em um dos fenômenos culturais parintinenses.
Entre os protagonistas da primeira temporada estão nomes históricos como:
Jair Mendes, responsável por introduzir as alegorias e o coração na testa do boi;
Graça Faria, líder das Comadres do Garantido;
Amarildo Teixeira, que revolucionou as tribos;
e Maria do Carmo Monteverde, filha de Lindolfo, fundador do boi da promessa.
Direção da websérie
A direção da websérie é assinada pelo jornalista Allan Rodrigues, que possui uma trajetória profundamente ligada ao Festival de Parintins.
Cobriu a festa por mais de 15 anos, integrou a Comissão de Artes do Boi Garantido, atuou como comentarista das apresentações e é autor do livro “Boi-bumbá: Evolução”, já na segunda edição.
Doutor em Sociedade e Cultura na Amazônia, é atualmente professor do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), unindo sua experiência acadêmica e profissional ao compromisso de preservar a memória cultural do Garantido.
“A websérie se propõe a ser não apenas um registro documental, mas também um tributo. É memória viva, é poesia audiovisual, é a celebração daqueles que dedicaram a vida ao boi vermelho e branco”, diz o diretor e produtor da série, Allan Rodrigues.
Todos os episódios estão disponíveis gratuitamente no canal Amigos Garantidos no YouTube, aproximando o público das histórias que ajudaram a construir a maior festa popular da Amazônia.
Nas águas sagradas do rio Juruena, que banha o estado do Mato Grosso, onde o tempo se move no ritmo das estações e a natureza guarda os segredos ancestrais, o Ritual Yaokwa encontra hoje uma nova proteção. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) lançou o Plano de Salvaguarda desta manifestação sagrada do povo Enawênê Nawê, reconhecida como patrimônio cultural do Brasil desde 2010 pelo Iphan.
O documento traça o mapa de proteção para que o ritual continue acontecendo e mantenham viva a cosmologia de um povo que faz da cerimônia sua própria essência de existir.
O Plano de Salvaguarda é resultado do ciclo de reuniões e debates com lideranças do povo indígena e com grupos de professores indígenas e não-indígenas, representantes femininas das aldeias, outros atores da comunidade detentora e representantes de parceiros institucionais locais.
O documento ressalta que o impacto ambiental resultante do avanço dos empreendimentos hidrelétricos e do agronegócio na região da bacia do rio Juruena tem se apresentado como um desafio ao modo de vida indígena dos Enawênê Nawê, que tem o Ritual Yaokwa como a celebração da vida.
Com duração de sete meses, o Ritual Yaokwa define o princípio do calendário anual Enawênê, quando os homens saem para a realização da maior de suas pescas – a pesca coletiva de barragem. O ritual estende-se durante o período da seca, época marcada pelas interações com os temidos seres naturais do patamar subterrâneo, os Yakairiti.
Na perspectiva nativa, estes seres estão condenados a viver com uma fome insaciável e precisam dos Enawênê Nawê para satisfazer seu desejo voraz por sal vegetal, peixe e outros alimentos derivados do milho e da mandioca.
O Ritual Yaokwa inicia-se em janeiro, com a colheita da mandioca e a coleta das matérias-primas, casca de árvore e cipó, para a construção do Mafa – corpo central das armadilhas de pesca que deve ser acoplado às barragens a serem construídas nos rios. Neste período, realizam-se as primeiras oferendas de alimentos, cantos e danças aos Yakairiti.
O ritual é reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil desde 2010 e foi revalidado pelo Conselho Consultivo do Iphan em novembro de 2024. A revalidação está relacionada a bens imateriais que já são reconhecidos pelo Iphan e tem o objetivo de avaliar a atual situação desses bens, levantar informações, averiguar a efetividade das ações de salvaguarda, verificar mudanças nos sentidos e significados atribuídos ao bem, entre outras questões.
Presidente Lula reafirma compromisso com a preservação do trecho central da floresta amazônica. Foto: Ricardo Stuckert/PR
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, em entrevista exclusiva ao Grupo Rede Amazônica em Brasília na segunda-feira (8), que a obra de recuperação da BR-319 vai sair do papel, ressaltando que a rodovia será realizada com responsabilidade ambiental.
“Vamos fazer a BR-319, eu posso te garantir. Mas vamos fazer de comum acordo com os ambientalistas, com aqueles que precisam da estrada e, sobretudo, para atender duas capitais que não podem ficar isoladas como Porto Velho e Manaus”, disse Lula.
Inaugurada em 1976, a BR-319 tem 885,9 quilômetros de extensão, sendo 821 km no Amazonas e 64,9 km em Rondônia. É a única ligação terrestre entre o Amazonas e o restante do país e dá acesso a cidades como Humaitá, Lábrea e Manicoré.
Há mais de 30 anos, a BR-319 tem trechos não pavimentados que dificultam o tráfego e causam prejuízos a quem depende da estrada. Impasses e exigências ambientais têm impedido a reconstrução completa da rodovia.
Lula ressaltou que a discussão tem sido tratada com seriedade dentro do governo e que o equilíbrio entre desenvolvimento e preservação será prioridade.
“Não podemos fazer uma rodovia e, dois meses depois, ver o desmatamento, o grileiro criando gado onde não pode criar gado, plantando soja onde não pode plantar soja. Temos que manter a floresta intocável para o bem da humanidade inteira”, pontuou.
Foto: Ricardo Stucker/PR
O presidente também defendeu a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, lembrando que ela não se opõe à obra.
“Às vezes jogam a culpa em cima da Marina. Mas a Marina nunca disse que é proibido fazer. O que ela quer discutir é como fazer as coisas. E se for bem feito, é melhor para todo mundo”, disse.
Segundo ele, a realização da obra depende de um pacto conjunto entre União, estados e municípios.
“Temos que ter responsabilidade do governo federal, do governo estadual e das prefeituras para que a gente cuide da Amazônia”, afirmou.
No dia 27 de maio, parlamentares ofenderam a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, durante audiência na Comissão de Infraestrutura do Senado, enquanto discutiam proteção ambiental na Amazônia.
O senador Marcos Rogério, do PL, disse que Marina deveria “se por no seu lugar”, e o senador Plínio Valério afirmou respeitar a mulher, mas não a ministra. Marina reagiu, cobrou pedido de desculpas que não veio e decidiu se retirar da audiência.
Durante a sessão, o senador Omar Aziz falou sobre o asfaltamento da BR-319: “Queremos, sim! Nós temos o direito de passear na BR-319, e não é a senhora que não vai permitir que a gente passeie na BR-319. A senhora passeia na Avenida Paulista hoje, e nós queremos passear na BR-319”.
A ministra respondeu que é necessário realizar antes uma avaliação ambiental estratégica, ressaltando que seu trabalho segue a lei e considera as futuras gerações.
Avaliação ambiental estratégica da BR-319 e decisões da Justiça
Em 15 de julho, Marina Silva anunciou a criação de uma comissão interministerial para conduzir uma Avaliação Ambiental Estratégica (AAE) voltada à recuperação da BR-319.
A iniciativa reúne os Ministérios do Meio Ambiente e dos Transportes, com coordenação geral da Casa Civil. A avaliação abordará toda a área de influência da rodovia e prevê a criação de um modelo de governança para uma faixa de 100 km ao redor da estrada, incluindo terras indígenas, unidades de conservação e áreas sem destinação definida.
A Justiça Federal já suspendeu a licença prévia para o trecho central da rodovia em julho, atendendo a recursos do Observatório do Clima que apontam impactos ambientais antecipados, como abertura de ramais ilegais e especulação imobiliária.
A Advocacia-Geral da União defende a manutenção da licença, destacando que 55% da área ao redor da BR-319 já possui unidades de conservação reconhecidas, funcionando como barreira contra o desmatamento.