Home Blog

Restaurante ‘Meu Cantinho’ e seu vínculo com a origem de Boa Vista

0

Foto: Fernando Szegeri/Trip Adviser

Bons restaurantes regionais proporcionam uma experiência cultural para seus frequentadores. Mas alguns deles tem um vínculo com a cidade em que foram construídos que pode surpreender. O Restaurante Meu Cantinho, em Boa Vista (RR), é um exemplo.

Um dos pontos mais conhecidos da capital roraimense, localizado na área central da cidade, o restaurante funciona no mesmo espaço onde existiu a ‘Fazenda Boa Vista’, considerada o núcleo original que deu origem à capital roraimense.

O local, que hoje abriga mesas e visitantes em busca da culinária regional, já foi o centro de uma fazenda de gado que marcou o início da ocupação da região do Rio Branco.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Assim, a história do restaurante Meu Cantinho se funde com a formação de Boa Vista. Segundo registros históricos, a Fazenda Boa Vista foi criada por volta de 1830, quando o capitão Inácio Lopes de Magalhães se instalou nas margens do rio Branco com o objetivo de desenvolver atividades pecuárias.

O espaço abrigava uma grande casa-sede, feita com técnicas construtivas coloniais, e tornou-se um dos primeiros pontos de referência para os moradores que chegaram à região em busca de novas oportunidades.

Com o passar dos anos, a fazenda passou a atrair famílias, comerciantes e religiosos. Em torno dela, formou-se um pequeno povoado, que deu origem à Freguesia de Nossa Senhora do Carmo em 1858. Esse núcleo foi o primeiro passo para o surgimento da vila de Boa Vista do Rio Branco, que mais tarde seria elevada à categoria de cidade, em 1890.

Desta forma, a antiga fazenda que originou o atual endereço do Restaurante Meu Cantinho está diretamente ligada à fundação da capital roraimense.

Imagem em preto e branco mostra Fazenda Boa Vista onde hoje é o restaurante Meu Cantinho. Bem próximo fica a Igreja da Matriz
Foto: Acervo Francisco Cândido/ Reprodução Facebook Velhos Tempos Roraima

Das origens da fazenda ao coração de Boa Vista

Hoje, o restaurante mantém parte das características arquitetônicas do antigo casarão. O prédio é tombado como patrimônio histórico municipal desde 1993 e preserva elementos da construção original, como as paredes espessas e o pé-direito alto, típicos das edificações rurais do século XIX. A fachada foi restaurada diversas vezes, mas conserva a estrutura base que remete ao período da fazenda.

Leia também: Boa Vista: de fazenda amazonense à capital do estado de Roraima

Restaurante Meu Cantinho e Igreja Matriz ao fundo. Foto: Rayane Lima/Rede Amazônica RR

Durante o século XIX, a Fazenda Boa Vista era um dos principais pontos de referência da região do baixo Rio Branco. Suas terras se estendiam por grandes áreas planas, aproveitadas para a criação de gado e pequenas plantações. O local funcionava também como ponto de parada para viajantes e comerciantes que circulavam entre as vilas do interior e a fronteira com a Guiana.

Com o avanço da urbanização e o crescimento do povoado, a antiga fazenda passou a ser incorporada à área central da nova cidade. O casarão, antes isolado, ficou cercado por novas construções e se transformou em um dos marcos da formação urbana de Boa Vista. Ainda assim, o local manteve sua importância histórica, servindo como símbolo da origem da capital e da permanência de seu patrimônio cultural.

De acordo com o historiador roraimense Davy Batista, o casarão representa “o elo entre o passado rural e o presente urbano de Boa Vista”.

“Essa fazendo basicamente deu origem a vida urbana de Boa Vista. Porque ao redor dela, por volta de 1858, foi se formando a freguesia Nossa Senhora do Carmo, que também deu origem a Igreja da Matriz”, destaca o historiador.

Leia também: Quem foi Salomão Hatem? Imigrante investiu no comércio e desenvolvimento de Boa Vista

A transformação do espaço em restaurante ocorreu décadas depois, quando o prédio já era conhecido pelos moradores como uma construção histórica. O imóvel foi adaptado para receber o público, mas parte da estrutura original foi preservada, incluindo janelas amplas, telhado de duas águas e a disposição interna dos cômodos.

Restaurante Meu Cantinho e a preservação da memória

A criação do Restaurante Meu Cantinho marcou uma nova fase para o antigo prédio. A instalação do estabelecimento uniu dois aspectos: a valorização da gastronomia regional e a conservação da memória histórica de Boa Vista. Desde sua inauguração, o restaurante atrai tanto moradores quanto turistas interessados em conhecer um pouco da culinária e da história local.

O restaurante, além de servir pratos típicos, mantém o ambiente tradicional, com móveis de madeira e decoração inspirada nas casas rurais do passado. Muitas pessoas que frequentam o restaurante não sabem que estão em um dos lugares mais antigos da cidade — um ponto que remonta aos primórdios da colonização da região.

De tempos em tempos, pesquisadores e estudantes visitam o local para conhecer de perto a estrutura da antiga fazenda. Segundo a arquiteta e pesquisadora Maria Clara Barros, que estudou o conjunto histórico do centro de Boa Vista, o prédio onde hoje funciona o Restaurante Meu Cantinho é uma das poucas construções que ainda conservam traços originais do século XIX. “O restaurante é uma peça viva da formação da cidade”, destaca Barros.

Nos anos 2000, o imóvel passou por obras de restauração, com o objetivo de reforçar sua estrutura e garantir a preservação do patrimônio. Apesar das adaptações para uso comercial, o prédio ainda mantém sua identidade histórica.

Para destacar essa existência única, uma placa foi instalada na fachada informando aos visitantes que ali funcionou a Fazenda Boa Vista e a origem da cidade.

“Preservar o local onde é o restaurante Meu Cantinho, essa ex-sede da fazenda Boa Vista, é preservar a memória do povo roraimense”, assegurou David Batista ao Portal Amazônia.

Símbolo histórico e cultural de Boa Vista

Atualmente, o Restaurante Meu Cantinho é considerado parte do patrimônio afetivo dos moradores de Boa Vista. Localizado próximo à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo e à Orla Taumanan, o espaço integra o conjunto histórico do centro da capital. Sua permanência reforça o vínculo entre o passado da cidade e a vida moderna que se desenvolveu ao seu redor.

O prédio do restaurante, que um dia abrigou a fazenda pioneira, transformou-se em um ponto de convivência em que, entre refeições e encontros diários, o local guarda as lembranças de quase dois séculos de história, marcando a passagem do tempo e a continuidade da memória da capital roraimense.

Vila Céu do Mapiá, a comunidade preservada na Amazônia pelo Santo Daime

0

Localizada próxima de Pauini, município do Amazonas, comunidade vive na base da doutrina espiritual do Santo Daime. Foto: santodaime.org

Localizada em uma das mais preservadas áreas da Amazônia ocidental brasileira, segundo a Organização Não Governamental (ONG) Instituto Socioambiental, a Vila Céu do Mapiá está localizada no interior do estado do Amazonas, em uma área de floresta densa às margens do igarapé Mapiá, próximo ao município de Boca do Acre (distante 1030 quilômetros de Manaus).

O território é conhecido por abrigar uma população fixa formada por famílias de diferentes regiões do Brasil e também por visitantes estrangeiros que chegam ao local em períodos específicos do ano.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp 

O acesso à comunidade ocorre predominantemente por via fluvial, o que reforça o isolamento geográfico da localidade em relação aos grandes centros urbanos da região Norte. A Vila Céu do Mapiá se consolidou como um núcleo comunitário estruturado, com moradias, espaços coletivos, áreas de cultivo e locais destinados a atividades religiosas, educacionais e administrativas.

O Portal Amazônia conversou com Ronaldo Pereira, filho de um dos fundadores da Vila do Céu do Mapiá, para entender como a comunidade surgiu e como ela vive diante de tantas ameaças ao meio ambiente e as comunidades tradicionais.

Neste contexto, é possível entender também como dentro de uma doutrina religiosa, essa comunidade convive em prol de um espaço sustentável.

Surgimento da Vila Mapiá

O Mapiá passou a ganhar maior visibilidade a partir da segunda metade do século XX, quando a área foi ocupada de forma mais organizada por seguidores de práticas religiosas ligadas ao uso ritualístico da Ayahuasca.

Mas tudo começou na décade de 80, quando Sebastião Mota de Melo, conhecido como Padrinho Sebastião, dentro da manifestação religiosa do Santo Daime teve visões e afirmava ter recebido um “chamado da floresta” para sair dos arredores de Rio Branco, no Acre.

Depois de algum tempo dentro do Santo Daime, fundou a vila “Céu do Mapiá”, em uma localidade afastada da civilização em que são necessários dois dias de viagem em embarcações conhecidas como “voadeiras“.

Leia também: Plantas utilizadas no chá de ayahuasca são estudadas por pesquisadores

Sebastião Mota de Melo, conhecido como Padrinho Sebastião, fundador da Vila Céu do Mapiá. Foto: Reprodução/santodaime.org

Ronaldo Pereira, ainda criança, acompanhou a fundação da Vila Céu do Mapiá e compartilhou com o Portal Amazônia suas impressões sobre o início da construção dessa comunidade e sua consolidação.

“Para começar a falar sobre a Vila Céu do Mapiá é necessário voltar um tempo atrás. Em 1975, quando a Colônia Cinco Mil, também fundada pelo padrinho em Rio Branco, já estava formada, vista e consolidada, o padrinho sentiu a necessidade de ir para a floresta para aprofundar os estudos. Daí chegou a Rio do Ouro, área de mata virgem, onde começou a abrir estradas, formando as colocações, mas apareceu um fazendeiro dizendo que era dono daquela terra. E o padrinho que não gostava de confusão procurou o Incra [Instituto Nacional da Colonização e Reforma Agrária] que indicou o seringal Céu do Mapiá, que já foi habitada pelos indígenas Apurinãs”, explicou Ronaldo.

A partir de então, Ronaldo conta que padrinho Sebastião partiu rumo à área indicada. Inicialmente as dificuldades de acesso ao local eram grandes, mas a força dos discípulos foi fundamental para as primeiras instalações da comunidade, segundo ele.

“Meus pais e outros fundadores começaram tudo do zero. Antes era tudo fechado, a floresta era bruta, começando abrindo caminhos a qual chamamos de ‘estradas’ e aí a força comunitária foi o grande suporte para que tudo desse certo. A comunidade se ajudou, desde o início, inclusive a primeira atividade de subsestência foi a extração de latéx, além do principal que é a igreja”, explicou o morador.

Discípulos do Santo Daime na Vila Céu do Mapiá. Foto: Reprodução/santodaime.org

Organização social

Ainda segundo Pereira, rapidamente, a notícia da fundação do Céu do Mapiá e sua ligação com o Santo Daime se espalhou e o local começou a receber visitas de discípulos das mais diversas origens, tornando-se um centro de peregrinação de adeptos da doutrina do Santo Daime. E então, com a criação da Floresta Nacional Purus, em 1990, a vila se tornou um tipo de “capital em meio à Floresta Amazônica”.

“O Mapiá sempre foi, desde o começo, esse local de cura, uma escola espiritual, tudo em convivência e harmonia com a natureza, sempre respeitando o meio ambiente e tratando a agricultura de forma subsistente. Aí ela foi crescendo, virou a Vila Céu do Mapiá, com bastante movimentação social, ambiental, do ecoturismo e e de cura”, frisou Ronaldo.

Vila Céu do Mapiá. Foto: AmaGaia

Assim, segundo o morador, a dinâmica social do Mapiá está baseada em regras comunitárias próprias, que orientam o uso do solo, a convivência entre moradores e a preservação ambiental. A floresta ao redor da vila é considerada parte fundamental do modo de vida local, sendo utilizada para agricultura de subsistência, coleta de frutos, manejo de plantas medicinais e proteção dos recursos naturais. O modelo adotado busca conciliar ocupação humana e conservação ambiental em uma região de difícil acesso.

Estrutura comunitária

Ao longo dos anos, a Vila Céu do Mapiá se tornou um ponto de referência para estudos acadêmicos, reportagens e pesquisas voltadas à antropologia, sociologia, meio ambiente e religiões amazônicas.

O nome Mapiá passou a ser associado a uma experiência comunitária singular dentro do contexto amazônico, marcada por uma organização social própria e pela relação direta com a floresta e os rios da região.

Vila Céu do Mapiá possui vários programas com serviços voltados à comunidade. Foto: Reprodução/AmaGaia

Com cerca de 600 moradores, a vila conta com diversas estruturas voltadas para a oferta de serviços à comunidade. A primeira, e talvez a mais importante delas, é a Igreja do Culto Eclético da Fluente Luz Universal (ICEFLU), fundada pelo padrinho Sebastião, a instituição oficial que representa o Santo Daime.

A segunda estrutura mais importante é a Associação dos Moradores da Vila Céu do Mapiá (AMVCM), fundada em 1987, e que funciona como um centro administrativo e representante legal dos moradores que habitam o local.

Cozinha Geral da Vila Céu do Mapiá. Foto: Reprodução/AmaGaia

As outras estruturas são:

  • Escola Cruzeiro do Céu – unidade escolar estadual que, juntamente com o Jardim de Infância Municipal Madrinha Rita, atende alunos da pré-escola até o ensino médio, além da educação para adultos;
  • Santa Casa de Cura – realiza trabalho de caridade para atendimento das pessoas da vida e do entorno da comunidade, abordagem espirita em atendimento de saúde;
  • Centro de Medicina da Floresta – desenvolve pesquisas na elaboração de remédios fitoterapicos e florais e atua na formação de jovens por meio dos saberes tradicionais;
  • Centro de Saúde – unidade básica de saúde construída formada comunitariamente e oferece serviços de odontologia e enfermaria;
  • Cooperativa Agroextrativista – principal articuladora da dimensão econômica da comunidade, com abastecimento de produtos e a comercialização do cacau nativo, considerado o carro chefe da instituição;
  • Jardim da Natureza – local onde artistas e artesãos estudam, trabalham e capacitam jovens para a produção de biojoias e peças artesanais a partir de aproveitamento dos recursos naturais da floresta;
  • Cozinha Geral – trabalha na produção e fornecimento de refeições para comunidade, durante os grandes eventos realizados na Vila;
  • Instituto de Desenvolvimento Ambiental – agência de desenvolvimento local que realiza e apoia ações de sustentabilidade;
  • Telecentro – Espaço com internet, biblioteca e rádio comunitária para os comunitários.

Além delas, existe a Casa de Música e o Centro de Cultura, Esporte e Lazer com diversas atividades voltadas para a comunidade.

Padrinho Sebastião na comunidade. Foto: Santodaime.org

Santo Daime

O movimento religioso do Santo Daime começou na Floresta Amazônica, nas primeiras décadas do século XX, com o neto de escravos Raimundo Irineu Serra, natural do Maranhão. A doutrina de cunho cristão e eclético reúne tradições católicas, espíritas, esotéricas, caboclas e indígenas em torno do uso ritual do milenar chá conhecido pelos povos originários como ayahuasca, o vinho das almas, e por ele denominado Santo Daime.

Discípulo do Mestre Irineu, padrinho Sebastião recebeu o dom de expandir o culto do Santo Daime por todo o país e além de suas fronteiras. O responsável pela criação da Vila Céu do Mapiá morreu em 20 de janeiro de 1990, no Rio de janeiro, onde se encontrava para se tratar de uma grave doença cardíaca que o acometera alguns anos antes.

Ronaldo Pereira, morador da Vila Céu do Mapiá. Foto: Arquivo pessoal

Seu legado é até hoje mantido pelos filhos Alfredo e Waldete, responsáveis pela continuação de sua missão espiritual e de seu trabalho social e comunitário.

E a rotina da comunidade, segundo Ronaldo Pereira, segue voltada para o propósito de uma nova vida baseada na doutrina espiritual do Santo Daime, como uma alternativa de um modo de vivência sustentável em meio a floresta.

“A Vila do Mapiá tem dois propósitos: o primeiro do padrinho Sebastião de levar o povo para floresta e ensinar a sobreviver com o que tem lá. E o segundo é a questão espiritual. Eu digo que o Mapiá é um dos maiores laboratórios humanos do mundo”, conclui.

*Por Hector Muniz, com a colaboração de Dayson Valente

‘Os Poderosos Treme-Terra’: HQ de ficção envolve heróis, imaginário amazônico e música

0

O publicitário Andrey Rodrigues é o autor da HQ ‘Os Poderosos Treme-Terra’. Foto: Andrey Rodrigues/Acervo pessoal

As aparelhagens surgidas no Pará, que compõem festas muito populares no estado, além do imaginário do povo amazônico e suas lendas, são os elementos da história em quadrinhos (HQ) ‘Os Poderosos Treme-Terra‘. A obra, que deve ser publicada em breve, criada para quem é fã de quadrinhos envolvendo super-heróis e que tem orgulho da cultura nortista, segundo o criador Andrey Rodrigues.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

A história do publicitário belenense de 50 anos mergulha no conhecimento ancestral, na música, na tecnologia e, claro, no universo de super-heróis “amazofuturistas”. Morador do bairro Montese, também conhecido como ‘Terra Firme’, na periferia de Belém, o publicitário conversou com o Portal Amazônia sobre este trabalho, a primeira experiência dele com os quadrinhos.

O enredo de ‘Os Poderosos Treme-Terra’

‘Os Poderosos Treme-Terra’ conta a história dos gêmeos Maike e Maikon, que vivem na periferia de Belém, mas em um contexto diferente da realidade da cidade: eles comandam naves inspiradas nas apresentações de aparelhagens, onde é muito comum ver, além de shows de DJs, elementos cenográficos com grande estrutura, cenografia e muitas luzes.

Leia também: 10 curiosidades sobre as festas de aparelhagem do Pará

Os protagonistas da história são ‘carregadores de aparelhagem’, termo utilizado no Pará para quem carrega os equipamentos de som para os artistas locais. Andrey Rorigues explica que os personagens vivem, por meio de naves espaciais, uma viagem no espaço-tempo, redescobrindo conexões ancestrais com seres do passado, presente e futuro.

“Os gêmeos eu usei como referência os Ibejis (orixás gêmeos presentes em religiões de matriz africana como o Candomblé e a Umbanda). Na cosmogonia africana, os gêmeos vencem o espírito da morte por meio da música. Maike e Maikon são os personagens principais. Mas a história tem outras personagens gravitando ao entorno deles”, revelou.

Inspiração

Parte da inspiração desta história veio de um trabalho publicitário feito por Andrey Rodrigues: um comercial de TV que mostrava a aparelhagem ‘Crocodilo’, uma super estrutura onde DJ’s de Belém se apresentam.

“A proposta surgiu enquanto eu trabalhava na gravação de um comercial para o qual escrevi o roteiro e atuei na co-direção. A produção tinha a participação da aparelhagem ‘Crocodilo’, e acompanhei de perto toda a estruturação. Naquele período, eu lia diversas obras de afrofuturismo e passei a enxergar as aparelhagens como um elemento relevante dentro dessa perspectiva. A partir daí, começamos a construir a ideia do amazofuturismo”, contou.

Trabalho publicitário feito por Andrey Rodrigues para uma empresa de material de construções do Pará inspirou a história de ‘Os Poderosos Treme-Terra’. Foto: Andrey Rodrigues/Acervo pessoal

“As aparelhagens fazem parte de minhas memórias afetivas. Lembro dos altares sonoros em festa de interior, bregas do Ted Max, Lambadas e House (Midback). Depois, a fase do Melody, Tecnomelody e enfim Tecnobrega”, comentou o autor da HQ sobre um dos pontos que estimularam sua criatividade.

Leia também: Conheça nove quadrinhos que têm a Amazônia como cenário

As ligações com os sonhos também dão o tom para o enredo da HQ ‘Os Poderosos Treme-Terra’. Rodrigues destaca que os sonhos muitas vezes trazem um significado para o amazônida e isso é levado em conta neste trabalho.

“Essa história que criei vai muito por essas cosmogonias. Tentando resumir, é um multiverso em Belém que conta as nossas cosmogonias amazônicas”, explicou ao Portal Amazônia.

Imagem colorida mostra capa da HQ Os Poderosos Treme-Terra com crocodilo tecnologico a esquerda e a direita uma apresentação de aparelhagem com um artista em cima de uma águia tecnológica e nas suas costas saindo fogos pirotécnicos
Capa da HQ Os Poderosos Treme-Terra foi inspiramente nas apresentações de Aparehagem comuns no Pará. Foto: Divulgação/ Andrey Rodrigues e Rodrigo Pinheiro/ Agência Pará

Rodrigues também destaca que o leitor da HQ conseguirá identificar várias referências aos artistas locais. Muitos dos heróis dos quadrinhos são inspiradas nos artistas ligados a aparelhagem como DJ Méury, Rubi e Badalasson. “Tem vários Easter Eggs (surpresas escondidas), bem como o Stan Lee que aparece nos filmes da Marvel”, afirmou.

Imagem colorida mostra quadrinhos de Os Poderosos Treme-Terra mostrando uma artista se apresentando em aparelhagem
A cantora paraense Gaby Amarantos aparece nos quadrinhos ‘Os Poderosos Treme-Terra’ como um Easter Egg. Imagem: Andrey Rodrigue/Acervo pessoal

Financiamento coletivo

A história em quadrinhos já garantiu os recursos necessários para sair do papel. A campanha de financiamento coletivo, realizada por meio da plataforma Catarse, atingiu a meta estabelecida e assegurou a etapa final de produção da obra.

O projeto tinha como objetivo arrecadar R$ 14 mil para viabilizar a publicação. O valor será destinado às fases de produção e impressão da revista.

“Eu fui buscar ilustradores e também os custos para impressão e eu vi que é algo caro. E foi aí que fui informado sobre o Catarse, que mostra ser uma ferramenta bem transparente e funcionou. Através desta ferramenta, eu também consegui que a imprensa viesse até mim”, destacou.

Com o financiamento confirmado, a equipe agora concentra esforços nos ajustes finais e no processo gráfico para que a publicação chegue ao público apoiador e aos leitores interessados na produção independente da região Norte.

Portal Amazônia responde: o que é uma infração ambiental?

0

Foto: Divulgação/Ibama

A infração ambiental é um tema que tem se feito mais presente no cotidiano, especialmente diante do aumento de debates sobre preservação, fiscalização e responsabilidade no uso dos recursos naturais. O assunto pode envolver situações que vão desde atividades econômicas até ações individuais, todas inseridas em um contexto de regras e limites estabelecidos para proteger o meio ambiente e garantir o equilíbrio.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Mas você sabe o que realmente pode ser considerado infração ambiental e quais tipos de condutas podem se enquadrar neste conceito? E o termo infração ambiental equivale à crime ambiental?

A equipe do Portal Amazônia conversou com a professora de Direito, mestre em Direito Ambiental pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Penélope Antony Lira, para explicar o configura uma infração ambiental.

O conceito de infração ambiental

Embora o termo seja amplamente utilizado, seus significados e desdobramentos legais nem sempre são de conhecimento público. Para compreender melhor como a infração ambiental é definida, identificada e tratada pela legislação brasileira, a mestre em Direito Ambiental explica que os critérios adotados e as consequências estão previstas na Lei n. 9.605/98.

“Segundo a Lei n. 9.605/98 (Lei de Crimes Ambientais), infração ambiental é qualquer tipo de ação ou omissão que viole normas de proteção ao meio ambiente (natural ou artificial), independentemente se o dano foi efetivo. Para se saber o que é ou não uma violação ambiental, existem normas que estabelecem padrões ambientais aceitáveis. Ultrapassando esses limites, configura-se uma infração ambiental”, pontua a professora.

Penélope Antony Lira explica que a infração ambiental é uma das punições iniciais do poder público em caso de constatações de dano ao meio ambiente:

“A simples violação às normas ambientais, já são consideradas infrações na esfera civil, penal ou administrativa. Podem se enquadrar nesse conceito: desmatamento ilegal de vegetação; lançamento de resíduos na água, solo, ar (desde que sem licença ambiental para isso), transporte, comércio ou destinação de resíduos perigosos (desde que sem licença ambiental para isso), construção ou obra em áreas proibidas (desde que sem licença ambiental para isso)”.

Sanções previstas na legislação ambiental

As consequências para quem comete uma infração ambiental variam conforme o tipo de conduta, o responsável envolvido e os impactos causados ao meio ambiente.

A legislação brasileira estabelece um conjunto de medidas que podem ser aplicadas pelas autoridades competentes, levando em consideração critérios técnicos e jurídicos definidos em lei.

Sobre esse ponto, Penélope explica que as penalidades não são padronizadas e dependem de diversos fatores analisados caso a caso.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que é a Amazônia Setentrional?

“A legislação ambiental prevê vários tipos de sanções para quem comete uma infração ambiental, dependendo de quem comete, se pessoa física ou jurídica, da gravidade da infração e da capacidade econômica de quem pratica o ato. Desta forma, temos penalidades como multa, suspensão e cassação de licenças, interdição de obra ou atividade, demolição de obra, apreensão de bens, perdimento de bens, condenação em indenização pecuniária e até detenção”, destaca.

Responsabilização nas três esferas da lei

Imagem gerada por IA

Ainda segundo a professora de Direito, a prática de uma infração ambiental também pode gerar consequências que vão além da aplicação de multas ou advertências administrativas.

Dependendo da conduta, dos danos causados e do enquadramento legal, o responsável pode ser chamado a responder simultaneamente em diferentes instâncias previstas na legislação brasileira. Esse modelo busca assegurar que danos ambientais sejam apurados de forma ampla e que as sanções sejam proporcionais à gravidade do caso.

“Em qualquer situação que viole uma norma administrativa, cause danos ou riscos concretos a terceiros ou ao patrimônio público, ou ainda se enquadre como crime ambiental, pode ocorrer a responsabilização nas três esferas. Caberá, assim, ao Poder Judiciário processar e julgar as ações civis e penais, enquanto ao órgão ambiental compete a aplicação das sanções administrativas”, conclui.

Entenda como fica a situação da Venezuela após o ataque dos Estados Unidos e prisão de presidente e primeira dama

Fotos: Reprodução

A Venezuela foi alvo de uma ação militar dos Estados Unidos (EUA) neste sábado (3), que envolveram ataques aéreos e bombardeios em várias regiões do país, marcando um dos episódios mais graves de conflito entre os dois países nas últimas décadas.

O presidente do Estados Unidos Donald Trump afirmou que forças militares americanas realizaram um ataque de grande escala no território venezuelano, tendo como um dos objetivos principais a captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, os quais, segundo confirmação dele ainda na tarde deste sábado, foram detidos e levados para fora do país para enfrentar acusações relacionadas ao narcotráfico internacional.

Explosões foram ouvidas na madrugada em Caracas, capital da Venezuela, e em áreas dos estados de Miranda, Aragua e La Guaira, com relatos de aeronaves voando a baixa altitude e danos a infraestruturas militares. A operação teve repercussões imediatas na diplomacia regional e global.

Países vizinhos como Colômbia e Cuba condenaram o ataque, classificando a ação como uma agressão inaceitável e pedindo vigilância pela comunidade internacional. O Brasil por meio de seu presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, também reeprendeu os ataques em uma mensagem publicada em suas redes sociais e convocou uma reunião para analisar a situação.

“Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”, declarou.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Em nível internacional, o secretário-geral da ONU António Guterres expressou preocupação com as consequências do uso da força no caso da Venezuela, afirmando que tal ação poderia estabelecer um “precedente perigoso” no cenário das relações entre nações. Lideranças estrangeiras reforçaram a necessidade de respeitar a Carta das Nações Unidas e os princípios de soberania e não-intervenção.

Análise geopolítica da Venezuela

O Portal Amazônia ouviu o analista político Helso Ribeiro para entender o cenário geopolítico deste conflito após as ações que cuminaram na prisão de Maduro e da primeira dama da Venezuela.

O Brasil, há alguns anos, tem recebido imigrantes venezuelanos devido há uma crise humanitária vivida no país vizinho, parte da Amazônia internacional, e que se agravou durante a gestão de Nicolas Maduro. Para Helso Ribeiro, essa situação vivida principalmente pela região amazônica pode não mudar mesmo com a ação do governo norte-americano, tendo ações também em outros países como exemplo.

“A análise deve ser ampla e não apaixonante. E é claro, as pessoas que odeiam ao Chavismo e odeiam Lula, estão celebrando. Eu particularmente nunca fui simpático ao Maduro, mas sou simpático ao Direito Internacional e ao multilateralismo. Eu não apoio que nenhum país invada o outro e retire seu algoz e se afore como o dono da situação”, opinou.

“Cabe lembrar que isso já foi feito anteriormente. Em 2006 os Estados Unidos invadiu o Iraque, capturou Saddam Hussein, alegando o uso de Armas de Destruição em Massa, e o Iraque hoje é um país em frangalhos. O mesmo aconteceu com a Líbia e outros países. Não que eu apoie a situações de Iraque e Líbia, mas isso só reforça as instabilidades políticas”, completou Ribeiro.

Leia também: Lula diz a Maduro que América Latina é região de paz

Para o analista político, o interesse dos EUA em atacar a Venezuela é apenas pelo petróleo: “No caso da Venezuela, lá existe uma das maiores reservas de petróleo do mundo, que interessa aos Estados Unidos evidentemente. Os Estados Unidos ainda mantém os combustíveis fósseis como parâmetro de desenvolvimento e o próprio Trump afirmou isso”.

Trump traz detalhes sobre a situação da Venezuela

Durante a tarde, horas após a ação bélica em território venezuelano, o presidente norte-americano Donald Trump falou em coletiva de imprensa sobre o futuro do país sul-americano após os ataques. Trump afirmou que os EUA vão “administrar” a Venezuela de forma interina após ataques a pontos de Caracas e a captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e de sua esposa, que foram levados a Nova York em um navio de guerra norte-americano.

No pronunciamento, Trump disse que o país será governado temporariamente por um “grupo” a ser designado até uma transição de poder, sem detalhar prazos ou composição, e declarou: “nós vamos administrar o país até o momento em que pudermos, temos certeza de que haverá uma transição adequada, justa e legal. Queremos liberdade e justiça para o grande povo da Venezuela”.

Além disso, Trump anunciou a entrada de petroleiras dos EUA na indústria venezuelana ao afirmar “vamos fazer o petróleo fluir” e sustentar: “nossas gigantescas companhias petrolíferas dos Estados Unidos, as maiores do mundo, vão entrar, gastar bilhões de dólares, consertar a infraestrutura petrolífera que está em péssimo estado e começar a gerar lucro para o país”.

Imagem de Maduro preso divulgado por Trump em redes sociais. Foto: Reprodução/ Rede Social Truth

Trump também invocou a Doutrina Monroe ao dizer que “o domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado”, comentou que ainda avalia o futuro político do país e que a oposicionista María Corina Machado “não tem apoio interno nem respeito”, afirmando ainda que o secretário de Estado, Marco Rubio, dialoga com a vice-presidente Delcy Rodríguez, “que está disposta a fazer o que for preciso”.

Questionado sobre o Congresso, disse que a comunicação ocorreu após a operação para evitar vazamentos, e sobre Maduro afirmou que “será levado a Nova York em um futuro breve”, cabendo à Justiça definir onde ficará preso enquanto aguarda julgamento nos Estados Unidos.

*Esta matéria pode ter atualizações conforme o desenvolvimento do caso

Portal Amazônia responde: o que é grilagem de terras?

Grilagem de terras tem dizimado diversas áreas verdes na Amazônia. Foto: Marizila Cruppe/Greenpeace

A grilagem de terras é uma prática recorrente no Brasil e envolve a apropriação irregular de áreas públicas por particulares, utilizando mecanismos que buscam dar aparência de legalidade a ocupações ilegais.

O tema está diretamente ligado à organização fundiária do país, à destinação de terras públicas e ao uso de recursos naturais, especialmente em regiões com grande extensão territorial e histórico de conflitos agrários.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

De acordo com a legislação brasileira, existem situações em que a ocupação de uma terra pode gerar direito à propriedade. Isso ocorre quando uma pessoa ocupa de forma pacífica uma área pública sem destinação definida, conhecida como terra devoluta, e utiliza o espaço para produção. Nesses casos, a lei prevê a possibilidade de regularização fundiária. No entanto, esse entendimento não se aplica a áreas que já possuem destinação específica definida pelo poder público.

Em entrevista ao Portal Amazônia, a socioambientalista Muriel Saragoussi explica que é justamente nessa diferença que se estabelece a grilagem de terras.

“No Brasil, o que a legislação prevê é que uma pessoa que está ocupando uma terra de forma pacífica e que está utilizando a terra para produção pode ter direito à propriedade dessa terra se ela pertence à União, ao Estado ou se é uma terra devoluta, ou seja, que ainda não teve uma destinação definida”, explica.

Ela esclarece: “a grilagem de terras é quando uma pessoa se instala numa terra pública que tem destinação, por exemplo, terras indígenas ou unidades de conservação, e busca titular essa terra como se fosse uma terra devoluta, como se essa terra não tivesse destinação anteriormente definida”.

Para alcançar esse objetivo, a grilagem de terras envolve o uso de fraudes documentais. De acordo com a socioambientalista, uma das práticas mais conhecidas é a falsificação de documentos de propriedade. “Muitas vezes, os grileiros se utilizam de falcatruas para tentar justificar o pedido de titulação. Por exemplo, eles forjam documentos de titulação da terra, documentos antigos”, relata.

A origem do termo ‘grilagem de terras’ está ligada a esse tipo de fraude. “A palavra grilagem vem de pegar documentos que foram feitos recentemente e colocá-los numa gaveta com grilos e outros insetos, que vão dar uma aparência envelhecida ao documento”, explica Muriel que também foi secretária nacional de Coordenação de Políticas Públicas para a Amazônia do Ministério do Meio Ambiente.

Segundo ela, “os grilos roem pedacinhos do papel, e a urina e os dejetos amarelecem o documento, dando a impressão de que ele é muito antigo, quando na verdade foi forjado há pouco tempo”.

Além desse método, a grilagem de terras também pode envolver fraudes em registros oficiais. “Outra prática é forjar documentos em livros de terra de cartórios, de forma fraudulenta”, afirma a socioambientalista e doutora em fisiologia vegetal. Essas ações buscam criar uma cadeia documental que sustente a falsa ideia de posse ou propriedade legítima.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que é concessão florestal?

Muriel Saragoussi, que também foi diretora do Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA), resume a prática como uma apropriação indevida de bens públicos: “a grilagem é a ocupação de terras que são públicas e a apropriação dessas terras por pessoas que não têm direito a elas, nem por possuírem título, nem por terem uma ocupação antiga, e porque essas terras já têm outra destinação”.

Segundo ela, trata-se de uma transferência irregular do que é coletivo para o privado. “Isso é uma apropriação privada de um bem público, daquilo que é de todos”, destacou.

Consequências socioeconômicas da grilagem de terras

Imagem colorida mostra ação da PF em cartório para combate a grilagem de terras no Acre
Segundo Saragoussi, grileiros tem usado registros cartorários para surrupiar terras. Foto: Reprodução/PF AC

As consequências da grilagem de terras também geram impactos financeiros ao Estado. De acordo com Muriel, quando o poder público atua para retirar ocupantes ilegais dessas áreas, podem surgir disputas judiciais.

“Se depois o governo vai tirar esse ocupante ilegal da terra, ele pode querer uma indenização. Então, aquilo que é público, que foi tomado de forma ilegal, ainda pode gerar gasto de dinheiro público para pagar indenizações ao grileiro, se não houver denúncia e apuração correta”, explica Saragoussi

Outro ponto destacado pela socioambientalista é a exploração de recursos naturais em áreas griladas: “muitas vezes, nas terras griladas, os grileiros se apropriam dos recursos naturais, seja madeira, seja outros produtos do extrativismo, incluindo o subsolo, como mineração ou garimpagem”.

Essa exploração representa um prejuízo coletivo, segundo a especialista, pois os benefícios ficam concentrados em quem realizou a ocupação ilegal.

A grilagem de terras também se sustenta por meio da criação de cadeias dominiais artificiais. “Os grileiros buscam criar novas cadeias dominiais. Eles vendem essas terras a segundos, que vendem a terceiros, que vendem a outros, para que a pessoa que inicialmente grilou a terra fique perdida nesses papéis”, explica Muriel. Esse processo dá a impressão de legalidade e dificulta a identificação da origem ilegal da ocupação.

Imagem colorida mostra a socioambientalista Muriel Saragoussi sorrindo em uma apresentação com uma mapa da america do sul ao fundo
A sociambietalista Muriel Saragoussi. Foto: Caroline Rocha/Inpa

Além disso, mais recentemente, a grilagem de terras também passou a aparecer associada a novas atividades econômicas. “Essa história de crédito de carbono é uma coisa recente. Pessoas que dizem ser donas de áreas apresentam essas áreas como garantia para vender crédito de carbono e recebem dinheiro para manter a floresta em pé”, relata a socioambientalista.

No entanto, ela ressalta que esse não é o principal objetivo da prática. “O grande negócio da grilagem de terra não é o crédito de carbono, é a apropriação dos recursos naturais e depois a venda dessas terras”, conclui.

Gente do Norte Empresas: saiba quem é Ari Silva

O empresário amapaense Ari Silva. Foto: Reprodução/ Amazon Sat

Nascido em Macapá, capital do Amapá, Ari Silva é filho de comerciante e aprendeu desde cedo o valor do trabalho com o pai. Junto aos irmãos, João e Marco, Ari dava seus primeiros passos na futura profissão quando, aos 12 anos, acompanhava o pai ao Mercado Central de Macapá para vender produtos agrícolas.

A perda precoce do pai, aos 52 anos, foi um marco na vida de Ari e de seus irmãos. Motivados a continuar o legado, eles juntaram suas economias para comprar o Mercantil Santa Lúcia, onde, com esforço e dedicação, construíram o império que é hoje um dos maiores negócios da região.

Apesar das dificuldades enfrentadas, Ari destaca que nada foi fácil. Foram horas de trabalho árduo, muitas vezes longe de sua esposa e de seus dois filhos, para garantir que o negócio prosperasse. “Foi uma trajetória de muito esforço e perseverança. Cada conquista foi fruto do nosso trabalho e do apoio da nossa família”, afirma.

“Ninguém começa grande, né? A maioria dos empreendedores, tanto aqui no Amapá quanto no resto do Brasil, enfrenta a mesma dificuldade: começar pequeno. A mensagem que deixo é a de começar pequeno, trabalhar muito e, claro, entender que, no início, você vai precisar abrir mão de muitas coisas. Às vezes, é necessário priorizar o trabalho e, infelizmente, abrir mão da convivência familiar. Mas, com o tempo, isso vale a pena. Se você começar e trabalhar de forma certa, vai crescer.”

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

A história dos Supermercados Santa Lúcia, sob a liderança de Ari Silva e seus irmãos, teve início em 1988, quando o trio adquiriu o mercado. Aos 16 anos, Ari já se via diante do desafio de aplicar os conhecimentos que havia adquirido com seu pai para fazer o comércio crescer.

“Quando começamos no mercado, já tínhamos a noção do que era necessário, porque vendíamos de tudo: tempero, farinha, arroz. Naquela época, tudo era pesado. Então, o investimento sempre foi em variedade. E hoje, o grupo Santa Lúcia trabalha com cerca de vinte mil itens”, afirma Ari.

Leia também: Gente do Norte Empresas: saiba quem é Edevaldo Xavier

Ari Silva no mercado do pai durante sua infância. Foto: Reprodução/ Amazon Sat

Com quase 40 anos de história, Ari Silva se orgulha não apenas da variedade de produtos oferecidos à população de Macapá, mas também da geração de emprego proporcionada a cada supermercado aberto pelo grupo Santa Lúcia. Em entrevista, Ari destacou que o objetivo sempre foi empregar pessoas que residem nas proximidades das lojas, criando um impacto social positivo para a comunidade e seu entorno.

“O Santa Lúcia possui hoje cerca de mil e cem funcionários, e graças a Deus, chegamos até aqui com muito trabalho. O que mais nos orgulha é a oportunidade de empregar pessoas. A cada nova loja que abrimos, nosso maior orgulho é conseguir gerar mais empregos. Temos como premissa contratar pessoas que moram nas proximidades das lojas, e isso tem dado muito certo, porque também envolve a comunidade local”, afirmou Ari Silva.

A expansão do negócio de Ari Silva e dos irmãos

Atualmente, os Supermercados Santa Lúcia estão presentes em duas cidades do Amapá: Macapá e Santana. Ao todo, são cinco lojas nos dois municípios. Em Macapá, a empresa também deu um passo importante ao inaugurar o “Atacarejo Bem Nosso”, um novo modelo de negócio idealizado pelos três irmãos.

“Tudo o que ganhamos, reinvestimos no negócio. Estamos sempre em busca do crescimento da empresa, buscando constantemente expandir. Dentro desse contexto, realizamos projetos, identificamos pontos estratégicos nas cidades e também nas áreas rurais, onde percebemos o crescimento da população ou eventos significativos, como no Oiapoque, onde está prevista a exploração do petróleo, o que deve impulsionar o crescimento da população.”

O empresário é um dos convidados do programa Gente do Norte – Empresas, transmitido pelo Amazon Sat.

Ciclo de reprodução de peixes na Amazônia é determinado pelos rios; biólogo explica

Foto: Marco Aurélio Esparza/Wikimedia Commons

Os peixes da Amazônia apresentam padrões de reprodução fortemente conectados com o ciclo hidrológico da região. A cheia (enchente), a seca (vazante) e as flutuações da vazão dos rios influenciam diretamente o momento em que muitos peixes se reproduzem.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Em ambientes amazônicos, os peixes precisam sincronizar a desova com momentos favoráveis — seja para garantir alimento abundante aos alevinos, seja para proporcionar locais seguros de abrigo. Em alguns casos, o início da estação chuvosa sinaliza o momento crítico para a reprodução. Em outros, certas espécies adaptam-se a períodos mais prolongados.

A inundação das margens, a expansão das águas nos igarapés e várzeas e a migração de adultos para diferentes habitats são elementos que determinam “quando” e “como” os peixes se reproduzem. Por isso, estudar a reprodução de peixes na Amazônia é observar muito mais que a biologia individual: é compreender a dinâmica dos rios, da floresta e dos ciclos sazonais.

O Portal Amazônia buscou por estudos e pesquisas recentes que apontam esse vínculo entre os peixes amazônicos e o ambiente para a reprodução, com especial atenção aos fatores ambientais e aos diferentes padrões reprodutivos, e também conversou com o biólogo Edinbergh Oliveira.

Ambiente e disparadores da reprodução dos peixes

Pesquisas sobre espécies de riachos amazônicos mostram que variáveis como profundidade do canal, condutividade elétrica, revestimento de folhagem no leito e pluviometria influenciam a atividade reprodutiva dos peixes. Um estudo com Helogenes marmoratus, pequeno peixe de riacho amazônico, identificou um período reprodutivo estendido entre julho de 2019 e março de 2020. A pesquisa apontou que a profundidade e a condutividade explicaram cerca de 32% da variação no índice gonado-somático (GSI) das fêmeas.

Em rios principais e na plataforma continental, outra espécie, Lutjanus purpureus (o pargo-vermelho do Atlântico Norte e bacia amazônica), apresentou picos de desova identificados em períodos de maior descarga do rio: o mais relevante entre janeiro e março, com uma possível segunda onda em outubro.

Leia também: Portal Amazônia responde: os peixes sentem sede?

Esses estudos reforçam que os peixes amazônicos dependem de janelas sazonais — geralmente ligadas à cheia ou ao início da inundação — para iniciar a reprodução. A inundação amplia os habitats, disponibiliza recursos alimentares para larvas e juvenis e oferece abrigo contra predadores.

O biólogo Edinbergh Oliveira explica que o processo de enchente tem um papel fundamental:

“A enchente dos rios amazônicos constitui o principal gatilho para a maioria das espécies de peixes migradoras, ou seja, que sobem grandes distâncias rio acima para desovar. No entanto, um menor número de espécies migradoras de curtas distâncias e que fazem movimentos laterais dos lagos para o canal principal do rio desovam tanto na enchente quanto na vazante”, detalha.

Padrões reprodutivos são diversos entre os peixes

Entre os peixes amazônicos, há uma ampla variedade de estratégias reprodutivas. Algumas espécies realizam longas migrações, outras adotam desova múltipla ou prolongam o período reprodutivo ao longo de meses.

De acordo com o biólogo, os grandes migradores (como tambaqui, jaraqui, sardinha, aracu, cubiu, pacu, piramutaba, surubim, piraíba e mandi) desovam durante os meses de enchente.

Larva do cubiu ( Hemiodus spp) mede 3,7 mm de comprimento padrão. Foto: Edinbergh Oliveira/ Laboratório de Ecologia Aquática do ICB/ UFAM

Já espécies como sardinha (Família Engraulidae), pescada, mapará, acará, tucunaré, aruanã e pirarucu desovam tanto na enchente quanto na vazante.

Larva de mapará ( Hypophthalmus marginatus ) de 3,2 mm de comprimento padrão. Foto: Edinbergh Oliveira/ Laboratório de Ecologia Aquática do ICB/ UFAM

Leia também: Portal Amazônia responde: como funcionam os processos de enchente e vazante dos rios?

O artigo Natural History of Amazon Fishes descreve que alguns peixes se reproduzem uma única vez na vida e depois morrem (semelparidade), enquanto outros se reproduzem várias vezes ao longo da vida (iteroparidade). Essa diversidade mostra como os peixes da Amazônia adaptam a reprodução às condições ambientais e ao tipo de habitat ocupado.

Locais com alta variabilidade hidrológica favorecem espécies com estratégias mais flexíveis ou prolongadas, enquanto ambientes mais estáveis permitem janelas mais definidas.

Defeso e conservação das espécies

Tambaqui é uma espécie de peixe amazônico que desova durante as enchentes. Foto: Siglia Souza/ Embrapa

O entendimento dos padrões de reprodução tem implicações diretas para a pesca, a aquicultura e a conservação. Quando a reprodução dos peixes está fortemente ligada a janelas sazonais — como durante a enchente — a pesca fora desses períodos pode comprometer a renovação das populações.

Para Oliveira, o período de defeso é uma ferramenta essencial para mitigar os impactos da pesca sobre as espécies reprodutoras, embora ainda careça de aprimoramento e fiscalização.

“A Lei do Defeso, baseada no Decreto Federal 221 de 1967 e na Portaria 48 de 2007 do Ibama, é uma ferramenta importante de manejo da pesca, não que seja a ideal, mas é a que existe hoje e possibilita mitigar em parte os impactos, pois protege as espécies durante os meses da enchente. Além disso, há o lado social: o salário-defeso pago aos pescadores cadastrados entre novembro e março, período de proibição da captura das espécies comerciais”, explica.

“Mas ainda falta fiscalização das autoridades estaduais e municipais e consciência dos consumidores para evitar o consumo das espécies protegidas. Assim, poderemos reduzir a pressão sobre os estoques pesqueiros e viabilizar uma pesca com manejo mais sustentáve”, finaliza

Alterações no ambiente — como construção de barragens, desmatamento das margens e mudanças na vazão — também podem interferir diretamente nos disparadores naturais da reprodução. A ausência de dados biológicos históricos sobre reprodução ainda dificulta a adoção de medidas mais eficientes de manejo para muitas espécies.

Em resumo, os peixes amazônicos dependem fortemente da dinâmica ambiental para a reprodução. A enchente, a vazante e as variações de nível dos rios definem o momento e o local da desova. A diversidade de estratégias — desde desova única até períodos prolongados — demonstra a complexa adaptação dos organismos aquáticos ao ambiente amazônico.

O biólogo defende que compreender esses padrões e fortalecer instrumentos como o defeso e a fiscalização são passos fundamentais para garantir a conservação e o uso sustentável dos recursos pesqueiros da maior bacia hidrográfica do planeta.

Guaraná Andrade em Manaus: a primeira fábrica de refrigerante de guaraná do Brasil

0

Guaraná Andrade figura como parte do patrimônio industrial e cultural de Manaus, sendo constantemente relembrado em publicações e pesquisas. Foto: Reprodução/Manaus de Antigamente

Entre as bebidas industrializadas, os refrigerantes ganham destaque por sua variedade. Muitas marcas surgem e desaparecem ao longo do tempo e, entre elas, existem algumas que mexem com a memória afetiva das pessoas, como o Guaraná Andrade. E ele ocupa um lugar relevante na história industrial de Manaus (AM).

A bebida surgiu no início do século XX, quando a cidade vivia uma fase de expansão urbana e comercial, e se tornou um dos primeiros refrigerantes regionais à base de guaraná. Pesquisas da Embrapa afirmam que a produção do Guaraná Andrade em Manaus teve início em 1907.

“No início do século 20, em 1905, a elaboração de método de processamento do fruto para produção de extrato de guaraná, por um médico do Rio de Janeiro, possibilitou o uso como ingrediente na indústria de refrigerantes. A primeira fábrica de refrigerante de guaraná no Brasil foi estabelecida em Manaus, a partir de 1907, com o Guaraná Andrade que existiu até a década de 1970”, detalha a pesquisa.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp 

A fábrica que produzia o Guaraná Andrade estava situada originalmente na Rua Dr. Leovigildo Coelho e era propriedade dos irmãos portugueses António Ribeiro d’Andrade e Alberto Ribeiro d’Andrade, que chegaram à cidade no final do século XIX. O empreendimento evoluiu com maquinário movido a combustível inglês e tratamento da água para a produção, conforme registros históricos.

Entre os feitos da marca, consta o envio de seus produtos a exposições internacionais, como as de Bruxelas, na Bélgica (1910), e Turim, na Itália (1911), o que indica que o Guaraná Andrade alcançou reconhecimento além do mercado local. A produção, no entanto, funcionou até aproximadamente o final dos anos 1970.

Hoje, o Guaraná Andrade figura como parte do patrimônio industrial e cultural de Manaus, sendo constantemente relembrado em publicações e pesquisas que abordam a história das bebidas regionais.

Leia também: Refrescante: refrigerantes feitos na Amazônia que você talvez não conheça

A inovação industrial do Guaraná Andrade em Manaus

Durante a virada do século XIX para o XX, Manaus vivia um ciclo de prosperidade relativo à borracha, o que gerou investimentos em infraestrutura urbana e indústrias. Nesse contexto, a produção de refrigerantes regionais se inseriu como uma atividade complementar ao mercado local.

E a fábrica da marca Guaraná Andrade teve o papel pioneiro. Além da modernização dos processos de fabricação — como o uso de água filtrada ou destilada — e da busca por qualidade, a marca aproveitou a matéria-prima regional: o guaraná, planta nativa da Amazônia, que tinha significado tanto cultural quanto econômico para o estado do Amazonas.

Leia também: Além do sabor: confira os impactos econômicos e culturais do guaraná

Esse pioneirismo ajudou a inserir o Estado do Amazonas no cenário industrial brasileiro de bebidas, ainda que o mercado nacional fosse dominado por grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro.

Visita de Álvaro Maia à fábrica do Guaraná Andrade

Uma demonstração do preparo do guaraná feita pelo Sr. Francisco Cunha, sócio e químico da Fábrica Andrade, ao interventor Álvaro Maia. Foto: Nelson José da Cunha/Acervo pessoal

A visita do interventor Álvaro Maia à fábrica do Guaraná Andrade, em Manaus, ocorreu durante o período em que ele exercia a função de interventor do estado do Amazonas. Na ocasião, a direção da fábrica preparou uma recepção formal, com decoração especial, painéis e vitrôs que destacavam a importância do empreendimento para a economia local. O evento representou um momento simbólico de aproximação entre o poder público e a indústria regional.

Durante a visita, o sócio-químico da fábrica, senhor Francisco Cunha, realizou uma demonstração prática do preparo do refrigerante à base de guaraná, apresentando os processos de fabricação e explicando as etapas de produção ao interventor. Essa demonstração teve como objetivo evidenciar o nível de modernização e a qualidade técnica da produção do Guaraná Andrade, que já se destacava no mercado amazônico pela inovação e pelo uso de matéria-prima local.

Fotografias da época registram a solenidade organizada especialmente para receber Álvaro Maia, com a presença de funcionários e convidados. O encontro teve caráter institucional, funcionando também como uma espécie de inspeção e de reconhecimento público da importância da fábrica para o desenvolvimento industrial de Manaus.

Visita do interventor Álvaro Mario à fábrica do Guaraná Andrade. Foto: Nelson José da Cunha/Acervo pessoal

A visita de Álvaro Maia à Guaraná Andrade consolidou a imagem da marca como símbolo de progresso e de valorização da produção amazonense. O evento reforçou a integração entre o governo e as iniciativas privadas locais, mostrando que o Guaraná Andrade não era apenas uma bebida popular, mas também um exemplo de empreendimento pioneiro que contribuiu para a formação da identidade econômica e cultural de Manaus no século XX.

Declínio e legado da marca

Fábrica da Av. Joaquim Nabuco, em frente ao colégio Nilo Peçanha, segunda sede da empresa. Foto: Reprodução/Manaus de Antigamente

Com o passar dos anos, a produção do Guaraná Andrade em Manaus passou por mudanças e, eventualmente, foi encerrada. Fontes indicam que a fábrica funcionou até a década de 1970. Registros históricos apontam que a produção foi mantida até 1979.

O encerramento pode ser compreendido em um contexto mais amplo de consolidação industrial, fusões de empresas e competição acirrada no setor de refrigerantes, que beneficiou grandes marcas nacionais. A produção local de bebidas regionais em Manaus encontrou dificuldades de escala, logística e competitividade frente a marcas de fora.

Apesar do fim da produção, o Guaraná Andrade mantém presença simbólica entre os manauaras que se lembram da bebida e de sua relevância histórica. Propagandas antigas da marca, peças de arquivo e o registro em acervos digitais já fazem parte da memória coletiva da cidade.

O prédio mais recente em que funcionou a fábrica do Guaraná Andrade, na Avenida Joaquim Nabuco. Foto: Reprodução/Manaus de Antigamente

Importância para a história regional

A marca Guaraná Andrade não é apenas uma bebida, mas um capítulo importante da história industrial de Manaus e da região amazônica. A própria plantação e o beneficiamento do guaraná estão intimamente ligados ao ambiente amazônico e à cultura indígena. O guaraná era consumido por povos indígenas antes da colonização e, a partir do século XX, passou a ser explorado comercialmente como insumo industrial.

Leia também: Saiba como o guaraná se tornou símbolo da cultura de Maués

Em Manaus, a presença da Guaraná Andrade revela que a cidade não era apenas portuária ou extrativista — também havia um ambiente de produção industrial, com fábricas, máquinas, distribuição, publicidade e participação em exposições internacionais. Esses elementos ajudam a compreender o desenvolvimento urbano e econômico da capital amazonense, contrastando com visões centradas apenas no ciclo da borracha.

Feitio de Paixão: samba eternizado na voz de Jorge Aragão é baseado em história de amor em Manaus

0

Samba composto no Amazonas encantou o artista carioca. Foto: Adriano Von Markendorf/Divulgação

Feitio de Paixão‘ é uma das composições mais conhecidas no repertório do cantor brasileiro Jorge Aragão, marcando presença constante nas rodas de samba e nos palcos dedicados ao gênero. A canção é reconhecida por um texto lírico que se tornou referência entre sambistas e intérpretes, ganhando projeção nacional ao ser incluída em discos e apresentações do artista, consolidando-se como parte fundamental de sua trajetória.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Mas você sabia que essa famosa composição é do amazonense Paulo Onça com Paulinho Carvalho, ex-integrante do grupo Raça Negra, e que é baseada em uma história de amor entre ele e uma sambista da Escola de Samba Vitória Régia, com sede no bairro Praça 14, zona Sul de Manaus (AM)?

Uma história de amor contada pelo filho do poeta

É isso mesmo. E a história foi revelada pelo influenciador digital Vito Israel, filho de Paulo Onça, em vídeo feito para as suas redes sociais.

O Portal Amazônia conversou Vito que explicou que o samba nasceu de uma “paixonite” na década de 80 vivida pelo compositor, que é seu pai, durante um ensaio da Vitória Régia.

Ele contou que o pai se encantou ao ver sua mãe, Nádia Costa Israel, desfilando como passista da escola, que despertou a atenção de outros olhares.

“Eu cresci dentro da Vitória Régia, meu aniversário de um ano foi dentro da quadra, então eu sempre ouvi essas histórias desde pequeno, e com a história do meu pai e da minha mãe não foi diferente. O Paulo Onça, já atuante como sambista, vinha observando a jovem passista, mas a inspiração para compor surgiu quando percebeu que outro cantor, já famoso no cenário nacional, também demonstrou interesse por ela. Esse episódio motivou meu pai a transformar o sentimento em versos, criando assim os primeiros trechos que dariam origem a Feitio de Paixão, composta em parceria com Paulinho Carvalho”, revelou.

Nádia Costa Israel e Paulo Onça em apresentação da Escola de Samba Vitória Régia, durante a década de 80. Foto: Vito Israel/Acervo pessoal

A criação de Feitio de Paixão

Paulo Onça então “cantou” a história para Paulinho Carvalho e o também compositor, que teve passagem pelo Grupo Raça Negra, esboçou o texto em um papel, com algumas mudanças, já que “a canção tinha uma letra pesada”.

“O Paulo Onça chegou lá em casa e eu morava em Manaus na época. Ele foi lá pra casa então fazer um samba e ele veio com quatro estrofes e aí a gente discorreu. Eu fiz a melodia praticamente toda e o Paulo Onça foi colocando a letra em cima. A letra era assim: ‘Queria fazer amor…assim desejando estou. Só vou sossegar, quando te penetrar’. Daí eu falei pro Paulo que penetrar ‘tava’ muito forte. Aí achei que a palavrar ‘conquistar’ ficaria melhor. E aí ficou”, contou Paulinho Carvalho em um vídeo feito para a digital influencer Daniela Miranda sobre a criação da música Feitio de Paixão.

Imagem colorida mostra Quadra da Escola de Samba Vitoria Régia em ensaio feito em 2020, espaço onde surgia a inspiração da canção Feitio de Paixão
Foto: Reprodução/ Facebook- Vitória Régia

Em vídeo feito por Vito, Nadia Israel confirmou que, após a música Feitio de Paixão ser apresentada, Paulo Onça passou a cortejá-la com mais insistência, e foi assim que os dois começaram a namorar. A canção, que refletia a intensidade desse início de relação, acabou sendo a peça musical que aproximou o casal.

Paulo Onça em vida também afirmou que esperava conquistar Nadia e que a música surgiu em um momento de forte inspiração, o que demonstrava a ligação entre vida pessoal e criação artística. Confira a explicação de Vito:

Leia também: Cinco composições marcantes de Paulo Onça interpretadas por artistas consagrados

Com o tempo, o samba Feitio de Paixão se destacou em Manaus e alcançou o cenário nacional na voz de Jorge Aragão. Aliás foi o produtor do cantor que ligou para Paulo Onça pedindo para gravar a música depois de ouvir a música sendo cantada em bares em Manaus.

Essa história foi contada pelo próprio Paulo Onça no documentário produzido pelo canal Amazon Sat: ‘Paulo Onça – A Composição da Minha História’.

Marco na história

Feitio de Paixão foi gravada para o disco ‘Raiz e Flor’, de Jorge Aragão, de 1988. Depois disso a música se tornou praticamente obrigatória nas apresentações do artista. A canção também se relaciona com a tradição do samba urbano carioca, gênero que se consolidou nas grandes capitais a partir do século XX.

“Eu tenho muito orgulho do meu pai e do que ele fez. Ainda dói falar sobre ele porque ainda é muito recente. É sempre emocionante”, declarou Vito ao Portal Amazônia. Paulo Onça não resistiu às complicações de uma agressão sofrida após um acidente de trânsito, ocorrido em dezembro de 2024 e veio a falecer em maio deste ano.

Jorge Aragão amazonense?

Quase… o cantor carioca é filho de uma amazonense e tem um vínculo especial com o Estado. No Dia do Samba, comemorado em 30 de novembro, Jorge Aragão faz um show na capital amazonense. E Vito reuniu mais algumas curiosidades sobre essa relação do cantor com o Amazonas: