Conexão na selva: Veterano de guerra dos EUA cria laços com jaguatiricas da Amazônia

Em 2022, Harry criou a ong ONG Emerald Arc e ainda pretende fazer um retiro na floresta para pessoas com estresse pós-traumático.

Você provavelmente já deve ter ouvido falar de várias histórias envolvendo a conexão entre homem e animal ou homem e natureza. Mesmo que não, é possível que você se encante pela história – cinematográfica- a seguir.

Com 20 anos de idade, o britânico Harry Turner já era veterano da Guerra do Afeganistão e passava por um estresse pós-traumático e depressão severa. Após tentativas de suicídio na sua terra natal, decidiu vir até a Amazônia Internacional (no Peru) tirar sua própria vida.

Contudo, essa história teve um outro rumo e sua vida teve um novo recomeço. Turner passou a se envolver em projetos de conservação ambiental e até “adotou” dois filhotes órfãos de jaguatirica: Khan e Keanu.

Imagem: Trevor Frost/Prime Video

Em sua estadia na Amazônia, o ex-combatente passou quase dois anos ensinando os felinos a sobreviver até reintroduzi-los novamente na floresta.

Mesmo com todas as dificuldades, a tarefa deu a ele uma razão para continuar vivo. Em 2022, criou a Emerald Arch, ONG de conservação ambiental baseada nos Estados Unidos, e protagonizou o documentário “Wildcat”, lançado pelo streaming Prime Video.

Por achar que era um caminho mais fácil para conseguir dinheiro, Harry entrou para o exército aos 18 e se frustrou bastante ao ver crianças afegãs morrerem na sua frente. 

 Khan e Keanu: as jaguatiricas

Khan e Keanu foram os nomes dados as jaguatiricas que Harry ‘adotou’. As duas perderam suas mães por conta da extração ilegal de madeira, uma das principais ameaças na região amazônica. A derrubada de árvores leva à morte de animais e deixa suas crias órfãs. No caso da jaguatirica, os filhotes dependem da mãe por muitos meses onde aprendem com ela a caçar e se proteger.

Além de estarem privados desses cuidados, os dois filhotes que chegaram às mãos de Harry estavam doentes e desnutridos. Ele já vinha resgatando animais na Amazônia peruana como voluntário da ONG Hoja Nueva, ao lado da bióloga e fundadora Samantha Zwicker. Mas seria a primeira vez que fariam a reabilitação e reintrodução de filhotes de jaguatirica.

Para isso, Zwicker fez muitas pesquisas e estruturou um plano. Além de manter o filhote alimentado e hidratado, a prioridade inicial era garantir que ele se sentisse seguro.

“Deixei eles dormirem no meu ombro para que sentissem minha respiração e meu batimento cardíaco como fariam com a mãe. Se o animal não se sentir seguro, ele fica estressado e o estresse pode levar à morte.”

disse Harry em entrevista aos site Ecoa.

Quando os filhotes passaram a se mostrar mais relaxados perto de Harry, começou o trabalho de andar com eles pela floresta, ensinando-os a caçar, a identificar presas e perigos.

Ele exemplifica: “Se eles estivessem brincando com uma cobra muito venenosa, eu teria que separá-los e repreendê-los de alguma forma, como a mãe deles faria, geralmente com um tapinha na cabeça”.

Como jaguatiricas normalmente caçam à noite, Harry passou muitas madrugadas com os felinos na floresta, sem dormir. O objetivo final da reabilitação é que, depois de cerca de um ano e três meses, já adultos, eles comecem a passar cada vez mais tempo sozinhos na floresta, até assumirem totalmente o comportamento de um felino selvagem.

“Eu precisei me tornar uma mãe. Eu tinha que estar lá para eles, treiná-los e ensiná-los a ser selvagens. Enquanto fazia isso, senti que tinha um propósito. Isso me deu motivo para continuar acordando de manhã e insistir naquilo, porque eles precisavam de mim”

ressalta.

Imagem: Trevor Frost/Prime Video

 ‘Quando estou na natureza é quando estou mais feliz’

Harry descreve o processo de treinar os filhotes como cheio de tentativas e erros, aprendizados e problemas. Somada às dificuldades que ele já enfrentava, a empreitada se mostrou física e emocionalmente extenuante: enquanto cumpria sua missão, o cansaço e a saudade da família apertaram e ele adoeceu.

Quando Khan tinha nove meses veio o golpe mais duro: o primeiro filhote de quem se dedicou a cuidar foi atingido por um tiro de uma armadilha de caça na pata dianteira e não sobreviveu. A perda fez com que Harry caísse novamente em uma depressão profunda e passasse por episódios de automutilação.

Um ano depois, porém, veio Keanu. Com uma tatuagem de Khan cobrindo seu pescoço, ainda se recuperando do luto, Harry recomeçou a rotina de cuidados e ensinamentos com o novo filhote, dessa vez numa área mais remota e segura. 

Imagem: Trevor Frost/Prime Video

Harry conseguiu concluir a reintrodução de Keanu no fim de 2019. O animal foi visto por uma câmera instalada pela equipe na floresta seis meses após sua soltura, com aparência saudável. 

Em 2022, ele fundou com sua noiva, Lexie Gray, a ONG Emerald Arch – “arco esmeralda”, em tradução livre, uma referência ao verde da floresta e à ponte que a organização pretende construir entre conservação, educação e saúde mental. Eles ainda estão arrecadando fundos para seus projetos, mas pretendem construir um retiro na floresta para pessoas com estresse pós-traumático, com foco especial em quem esteve na guerra.

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