Da contenção à retirada do lixo: iniciativas que buscam reduzir a poluição dos recursos hídricos de Manaus

O lixo que chega aos igarapés de Manaus percorre diferentes caminhos, já que resíduos descartados irregularmente nas ruas podem alcançar os cursos d’água.

O lixo que chega aos igarapés de Manaus (AM) percorre diferentes caminhos, já que garrafas plásticas, embalagens e outros resíduos descartados irregularmente nas ruas podem ser levados pela chuva até os bueiros e, posteriormente, alcançar os cursos d’água. Para enfrentar esse problema, iniciativas atuam em diferentes etapas da limpeza, desde a contenção do material flutuante até a retirada manual dos resíduos que já estão na água.

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Entre essas iniciativas estão as ecobarreiras, estruturas instaladas em pontos estratégicos dos igarapés de Manaus para reter parte do lixo transportado pela correnteza, e a Remada Ambiental, que promove ações de retirada de resíduos dos cursos  d’água da cidade.

Embora atuem de maneiras distintas, as duas iniciativas têm um objetivo em comum: reduzir a poluição dos recursos hídricos da capital e chamar a atenção para a necessidade de preservar esses ambientes.

Ecobarreiras: interromper o caminho do lixo

A criação das ecobarreiras em Manaus está ligada à trajetória do ativista ambiental Manoel Ademar Pinheiro Brito, conhecido como ‘Mazinho da ecobarreira’, que, há cerca de 20 anos, desenvolve ações de preservação ambiental. O trabalho começou com a limpeza de lagoas como a do Japiim.

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A partir dessa experiência, o trabalho avançou para os igarapés da capital, pois Mazinho percebeu que precisava encontrar uma maneira de reter os resíduos antes que eles avançassem pelo curso d’água. Depois de realizar experimentos, desenvolveu um equipamento que utiliza uma estrutura flutuante para acompanhar as variações do nível da água e concentrar o material descartado irregularmente.

“Eu comecei a fazer um trabalho de formiguinha no igarapé. Eu e um gari, o gari limpava, tirava o lixo de dentro do Igarapé e eu conscientizava os moradores que trabalham na orla do Igarapé do Coroado. Só que o lixo entra pelos bueiros. Tem o lixo produzido e também tem aquele lixo que entra pelos bueiros. Então eu senti a necessidade de parar o lixo no local”, explicou Mazinho ao Portal Amazônia. 

Ecobarreira, iniciativa que retém o lixo dos igarapés
Ecobarreira instalada no igarapé do Coroado em Manaus. Foto: Paco Nascimento/Amazon Sat

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O primeiro experimento, como relatado pelo ativista, foi realizado no Igarapé do Coroado, aproveitando a estrutura de uma ponte existente no local. O modelo serviu de referência para outras instalações na cidade, e o projeto recebeu apoio da Prefeitura de Manaus para sua expansão. 

Segundo Mazinho, a estrutura foi desenvolvida para atuar diretamente no problema do lixo flutuante, sem poluir a água. O equipamento, no entanto, não substitui o tratamento da água nem resolve sozinho a contaminação dos igarapés, já que sua função é reter os resíduos e reduzir a quantidade de material que segue em direção ao Rio Negro.

 Foto: Divulgação/Semulsp

Toneladas de resíduos retidas nos igarapés

Os números da iniciativa mostram a dimensão do desafio enfrentado nos cursos d’água de Manaus. Segundo dados da Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp), as 14 ecobarreiras retém, em média, de 300 toneladas de resíduos por mês.

A retirada dos materiais é realizada diariamente por uma equipe da Prefeitura. Durante a limpeza, os resíduos são separados conforme suas características, e as garrafas PET, por exemplo, seguem para a Semulsp, onde podem ser reaproveitadas na fabricação de vassouras. 

Ecobarreira instalada no igarapé do Coroado em Manaus. Foto: Paco Nascimento/Amazon Sat

Assim, a iniciativa busca, além de evitar que parte do lixo chegue ao Rio Negro, que a retenção dos materiais contribua para reduzir o acúmulo de resíduos nos igarapés e o risco de obstrução de bueiros. Os realizadores lembram que o descarte irregular pode agravar alagamentos e favorecer problemas sanitários, especialmente em comunidades próximas aos cursos d’água.

Entre os pontos de instalação, Mazinho destaca a ecobarreira do igarapé do Mindu, que possui 12 boias e está em um trecho com aproximadamente 60 metros de largura. De acordo com o ativista, o local está entre os que mais acumulam resíduos retidos pelo equipamento.

Inspiração que veio do Japão

Mas como surgiram as ecobarreiras em Manaus? Na busca por uma solução, o ativista pesquisou e encontrou informações sobre ecobarreiras com referências de equipamentos desenvolvidos no Japão para conter resíduos em cursos de água urbanos. A partir desse conhecimento, Mazinho começou a fazer experimentos para criar uma estrutura que pudesse ser instalada em Manaus e gerar resultados práticos.

“Os japoneses inventaram as ecobarreiras, limparam os igarapés urbanos deles. Nos igarapés urbanos do Japão hoje tem carpa, eles criam peixe nos igarapés urbanos”, relata.

Para Mazinho, essa inspiração é o que faz a criação das ecobarreiras em Manaus representarem a possibilidade de transformar uma preocupação ambiental em uma solução. “Eu tenho um orgulho e um amor pela natureza. Então, para mim, ver um projeto meu dando certo, isso para mim não tem preço”, afirma.

Remada Ambiental: a retirada dos resíduos dos cursos d’água – um por um

A proteção dos igarapés, entretanto, também depende do envolvimento direto da população. É nesse ponto que ações de mobilização ambiental podem ampliar o alcance do trabalho, aproximando a população dos igarapés e reforçando a importância de cuidar das águas que fazem parte da vida da cidade. 

Se as ecobarreiras atuam para impedir que parte do lixo avance pela correnteza, outras iniciativas trabalham diretamente na retirada dos resíduos dos cursos d’água da cidade. Manualmente. É o caso da Remada Ambiental, que promove ações de limpeza em rios e igarapés da região e mobiliza esforços para remover materiais descartados irregularmente.

O que começou como uma atividade comercial de aluguel de pranchas de stand up paddle e caiaques se transformou em uma iniciativa de preservação ambiental em Manaus.

Em 2016, ao perceber a quantidade de resíduos que aparecia durante os passeios na bacia do Tarumã-Açu, o empreendedor Jadson Maciel encontrou uma forma de unir a prática esportiva à conscientização ambiental, nascendo assim a Remada Ambiental.

A situação chamou a atenção de Jadson e de sua irmã, Joice Maciel, que propôs aproveitar as pranchas disponíveis para organizar uma ação de coleta com voluntários.

“Falei, poxa, mas as pessoas estão vindo para cá para brincar. Como é que ela vai vir para cá para coletar? Então, ela meio que me puxou ali na finca. Falei: ‘então, vamos fazer alguma coisa’. Conversei com uma amiga e a gente reuniu os voluntários. E aí a gente fez a primeira atividade, numa sexta-feira, eu lembro perfeitamente. Quando foi no sábado, o material estava todo lá de novo”, relembrou Jadson.

Foto: Jadson Maciel/Acervo pessoal

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O grupo passou a observar a dinâmica da bacia e o caminho percorrido pelos resíduos. O igarapé do Gigante, um dos afluentes do sistema, tem cerca de sete quilômetros de extensão e nasce dentro do Aeroporto Internacional de Manaus.

Segundo Jadson, a água chega limpa à nascente, mas, ao sair da área do aeroporto e atravessar regiões urbanizadas, o curso d’água passa a receber os impactos do descarte inadequado de materiais.

Conscientização para além da coleta

Mais do que retirar resíduos, o projeto procura fazer com que os participantes compreendam a relação entre o consumo cotidiano e a poluição dos rios. A proposta é mostrar que o lixo descartado incorretamente pode percorrer longas distâncias, ultrapassar os limites dos bairros e chegar a outros ambientes hídricos.

Jadson explica que a responsabilidade não deve ser atribuída apenas às comunidades que vivem próximas aos igarapés. Durante os primeiros anos de atuação, o grupo também precisou rever a própria percepção sobre a origem dos resíduos encontrados na água.

“A gente teve um grande desafio no decorrer do tempo, porque as pessoas achavam que esse material era produzido e descartado de forma indevida pela comunidade ribeirinha, que é aquela cidade flutuante. Então, no decorrer do tempo, a gente descobriu que não, que não era eles. Eu mesmo, inclusive, cheguei em algum momento nesse período e falei assim: ‘Poxa, esse material é a comunidade que está sujando isso aqui tudo’. E, depois que a gente estudou, descobrimos que não. Mas a comunidade carrega essa culpa”, destacou o empresário. 

Foto: Jadson Maciel/Acervo pessoal

Para o cofundador do projeto, é necessário considerar também o papel das empresas que colocam embalagens e produtos no mercado, além dos desafios enfrentados pelos serviços de coleta e reciclagem.

Nos anos 2023 e 2024, a iniciativa realizou estudo de caracterização dos materiais recolhidos, em parceria com o Pacto Global, braço da Organização das Nações Unidas (ONU). O trabalho buscou identificar os tipos de resíduos encontrados e produzir dados que possam contribuir para discutir justamente a responsabilidade das empresas e também os mecanismos de logística reversa (processo de coletar, transportar e dar a destinação correta a produtos, embalagens e resíduos após o consumo).

Destinação dos resíduos recolhidos

Segundo Jadson Maciel, a destinação dos resíduos coletados nas ações do Remada Ambiental começa com a separação dos materiais por tipo. Ele explica que uma parcela pode ser reaproveitada, enquanto outra parte não tem condições de retornar à cadeia produtiva e precisa ser descartada adequadamente.

“Eu pego material, de uma forma mais clara, que está sujo de lodo. Esse material é fácil de descontaminar, mas o material que está contaminado, que é mais complexo de descontaminar, infelizmente vira rejeito. Então é uma média de 40% a 60% de material que consigo reaproveitar”, esclarece.

Foto: Jadson Maciel/Acervo pessoal

De acordo com o empresário, é na usina de reaproveitamento “que a mágica acontece.” “Na usina eu separo por tipologia, eu descontamino por tipologia, lavo por tipologia e seco por tipologia. E, no final, eu tenho a matéria-prima, que o nome técnico é pré-beneficiamento”, comenta Jadson, em referência ao compromisso do projeto com a sustentabilidade. 

A participação da sociedade na proteção dos rios

As atividades da Remada Ambiental também envolvem crianças e famílias, com o objetivo de levar a discussão sobre descarte e reciclagem para dentro de casa. A intenção é que a experiência de participar da coleta tenha continuidade nas escolhas feitas no cotidiano, desde a redução do consumo de descartáveis até a separação e a destinação adequada dos resíduos diariamente.

“A ideia é que a gente sensibilize ele e que ele vá para casa e que possa refletir”, destaca.

A iniciativa segue reunindo voluntários para recolher resíduos, gerar informações e estimular mudanças de comportamento. A cada remada, o objetivo é fazer com que os participantes não apenas enxerguem o problema do lixo na água, mas compreendam como suas escolhas podem contribuir para evitar que ele continue se repetindo e prejudicando a saúde das comunidades e o meio ambiente em que vivemos.

Conheça detalhes das iniciativas na videorreportagem: 

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