Megaprojeto de mineração de potássio sobrepõe território Mura, reafirma Funai

Representantes do órgão reiteraram que avanços da empresa Potássio do Brasil em Autazes, no Amazonas, invadem território indígena.

Projeto da canadense Potássio do Brasil inclui 4,4 mil hectares de jazidas subterrâneas totalmente sobrepostas à Terra Indigena Lago do Soares. Foto: Clara Comandolli/Cimi

Representantes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), em reunião com integrantes da Secretaria-Geral da Presidência da República (SGPR), do Ibama e dos Ministérios de Minas e Energia (MME) e dos Povos Indígenas (MPI), confirmaram, pela segunda vez, que o megaprojeto da mineradora canadense Potássio do Brasil está sobreposto ao território tradicional do povo Mura em Autazes (AM).

Durante encontro no dia 14 de agosto, a diretoria da Funai pontuou que “embora não tenham sido definidos os limites no estudo [de identificação e delimitação], já há uma proposta e não há dúvidas de que a área do empreendimento sobrepõe áreas de moradia e circulação dos Mura”. Com Licenças de Instalação concedidas pelo órgão licenciador estadual, o empreendimento avança sobre áreas de moradia e pesca na Terra Indígena (TI) Lago do Soares.

Na ocasião, lideranças voltaram a denunciar ameaças, cerceamento e ausência de Consulta Livre, Prévia e Informada, direito garantido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

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É a segunda vez que a Funai confirma a sobreposição do empreendimento na terra indígena reivindicada pelo povo Mura, localizada no município amazonense de Autazes. Em ofício publicado em 2023, o órgão já havia recomendado a suspensão do processo de licenciamento, por haver evidências concretas de que a “terra indígena em estudo encontra-se sobreposta às áreas de jazidas a serem exploradas no Projeto Potássio Autazes”.

Apesar disso, o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), órgão licenciador do estado, concedeu, ao longo de 2024, ao menos sete Licenças de Instalação à mineradora canadense. Ignorando a recomendação da Funai, o órgão autorizou a realização de obras, incluindo a instalação de uma mina subterrânea para extração de silvinita, minério a partir do qual são extraídos sais de potássio, matéria-prima para a produção de fertilizantes agrícolas.

Com licenças de instalação do Ipaam, empresa Potássio do Brasil desmata áreas dentro da TI Lago do Soares, em estudo pela Funai. Fotos: Filipe Gabriel Mura.
Com licenças de instalação do Ipaam, empresa Potássio do Brasil desmata áreas dentro da TI Lago do Soares, em estudo pela Funai. Fotos: Filipe Gabriel Mura.

Empreendimento já impõe impactos ao povo Mura

Desde então, a mineradora avança sobre o território desmatando áreas de vegetação nativa, conforme o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) já havia denunciado, com fotos e imagens de satélite, em abril deste ano. Registros fotográficos feitos pelos indígenas entre dezembro de 2025 e julho de 2026, e apresentados durante a reunião no MPI, também evidenciam a devastação em curso dentro de áreas onde os indígenas realizam a coleta de frutas e sementes.

Milena Mura, coordenadora da Organização das Mulheres Indígenas Mura (OMIM), denuncia que a comunidade está sendo proibida pela multinacional de transitar nesses locais. “Tem sempre pessoas da empresa no local onde o empreendimento será instalado, proibindo a circulação dos indígenas em seu próprio território”, relata.

Durante a reunião realizada na última semana, Milena e outras duas lideranças presentes também relataram que as obras já estão afetando o abastecimento alimentar da comunidade. Segundo relatos, a abertura de uma estrada de acesso está provocando o secamento de uma nascente, local de desova de peixes, que são a base alimentar do Povo Mura. “Pra gente isso é muito doloroso, porque a gente já está vendo que os peixes estão rareando”, explica Milena.

Leia também: Licenciamento do Projeto Potássio Autazes segue em debate; MPF aponta irregularidades

O desmatamento e a abertura de um ramal já estão provocando o secamento de uma nascente, como mostram registros feitos em julho de 2026. Fotos: Caroline Nogueira.
O desmatamento e a abertura de um ramal já estão provocando o secamento de uma nascente, como mostram registros feitos em julho de 2026. Fotos: Caroline Nogueira.

Projeto de potássio tem irregularidades, segundo MPF

Em maio de 2024, o Ministério Público Federal (MPF) moveu uma Ação Civil Pública (ACP) na qual pede a suspensão das Licenças de Instalação emitidas pelo Ipaam, já que a Constituição Federal proíbe a realização de mineração dentro de terras indígenas, sejam elas demarcadas definitivamente ou ainda não. A peça apresentada também pede a transferência do processo de licenciamento ao Ibama, devido à dimensão do projeto, aos impactos na TI Lago do Soares e em outras terras indígenas da região e ao fato de que este é o órgão responsável por licenciar empreendimentos em terras indígenas.

Segundo o MPF, além da sobreposição à TI Lago do Soares, que já possui, desde 2023, portaria da Funai para a realização de estudos e definição de limites territoriais, “a base de exploração minerária fica a menos de 3 km da Terra Indígena Jauary, e a cerca de 6 km da Terra Indígena Paracuhuba”, esta última homologada desde 1991.

Imagem de reprodução do Projeto Potássio Autazes, que prevê a instalação de uma mina subterrânea, uma planta industrial, áreas para armazenamento de rejeitos e de solo orgânico, além de estrada e um porto às margens do rio Madeira. Foto: Divulgação Potássio do Brasil.
Imagem de reprodução do Projeto Potássio Autazes, que prevê a instalação de uma mina subterrânea, uma planta industrial, áreas para armazenamento de rejeitos e de solo orgânico, além de estrada e um porto às margens do rio Madeira. Foto: Divulgação Potássio do Brasil.

Licenças ambientais não dão conta da dimensão territorial do projeto

Conforme revelou reportagem investigativa do Cimi, o projeto Projeto Potássio Autazes prevê a instalação de uma mina subterrânea, uma planta industrial para o beneficiamento do minério, áreas para armazenamento de rejeitos e de solo orgânico, além de estrada e um porto às margens do rio Madeira para o escoamento da produção. As estruturas de superfície já autorizadas pelo Ipaam abrangem mais de 200 hectares, enquanto autorizações de supressão vegetal permitiram a derrubada de 257 hectares.

A dimensão do empreendimento, porém, é muito maior quando consideradas as jazidas que a empresa pretende explorar no subsolo. Levantamento realizado pelo Cimi Regional Norte 1, a partir de mapas e documentos produzidos pela própria Potássio do Brasil, identificou uma área de aproximadamente 4,4 mil hectares de jazidas subterrâneas. Uma extensão vinte vezes maior do que a área mencionada nas licenças do Ipaam.

Além de estarem totalmente sobrepostas à TI Lago do Soares, as jazidas, em seu limite, ficariam a poucos quilômetros da TI Jauary, delimitada em 2012. A estreita faixa que separa os dois territórios é, basicamente, ocupada por um afluente do rio Madeira. O Estudo de Impacto Ambiental (EIA) reconhece o risco de salinização das águas próximas ao empreendimento.

De acordo com o EIA, a empresa prevê a extração de cerca de 227 milhões de toneladas de minério bruto ao longo de 31 anos, a partir do qual seriam produzidas mais de 61 milhões de toneladas de potássio, gerando 165,3 milhões de toneladas de rejeitos.

Fonte: Ipaam

Povo Mura denuncia violação do protocolo de consulta e ameaças

À justiça do Amazonas, o MPF e lideranças Mura apontam também outras irregularidades graves identificadas no processo de licenciamento, como a “profunda e grave violação” ao protocolo de consulta e consentimento do povo.

O povo Mura aprovou seu protocolo de consulta em 2019, após dois anos de reuniões e debates entre as comunidades e aldeias dos municípios de Careiro da Várzea e Autazes. O documento, que define como os Mura devem ser consultados antes da realização de qualquer atividade dentro de seu território que possa afetar seus direitos, deveria ter sido obedecido pelos órgãos públicos e pela empresa para a concessão de qualquer licença ambiental.

Ministério Público Federal e lideranças apontam graves irregularidades no processo de licenciamento, como a violação ao protocolo de consulta e consentimento do povo Mura. Foto: Clara Comandolli | Cimi.
Ministério Público Federal e lideranças apontam graves irregularidades no processo de licenciamento, como a violação ao protocolo de consulta e consentimento do povo Mura. Foto: Clara Comandolli/Cimi.

Esse protocolo prevê 16 passos, que incluem uma série de reuniões e assembleias que devem contar com uma composição específica, como, por exemplo, a presença de representantes de todas as aldeias, do MPF e da Funai. No entanto, segundo o MPF e a Organização de Lideranças Indígenas Mura de Careiro da Várzea (OLIMCV), não foi isso o que aconteceu.

De acordo com a denúncia apresentada, a consulta alegada pela mineradora canadense, na qual teria sido aprovado o projeto, aconteceu nos dias 21 e 22 de setembro de 2023, com a participação de lideranças de algumas aldeias e do Conselho Indígena Mura (CIM), além de representantes da Potássio do Brasil. Não estiveram presentes membros da Funai, do MPF e nem mesmo moradores da comunidade indígena Soares, principal afetada pelo empreendimento.

“Não se decide o futuro de um povo em uma reunião. E a grande maioria, e principalmente a aldeia mais impactada, que é a Soares, não esteve presente nessa reunião”, relatou William Filgueira, que compõe a diretoria da OLIMCV, durante reunião no MPI.

A denúncia também alega cooptação de lideranças, ameaças e oferecimento de propina por parte da multinacional. À autoridades do Ibama, da Secretaria-Geral da Presidência e dos Ministérios dos Povos Indígenas e de Minas e Energia, Milena Mura relatou que a Potássio do Brasil, “dividiu o povo, ameaçou lideranças, cooptou essas lideranças ameaçadas e fez com que essas próprias lideranças nos ameaçassem”.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Cimi

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