Evento reuniu especialistas para falar sobre o atual estado dos ecossistemas amazônicos frente às mudanças climáticas. Foto: Marcos Torres/Academia Brasileira de Ciências
O Brasil possui 12% da água doce do planeta, três quartos na Amazônia. Maior bacia hidrográfica do mundo, onde estão os rios mais imponentes, falar de crise hídrica na região parece contrassenso, mas é a realidade quando olhamos para a trajetória de degradação das últimas quatro décadas.
“No século 21, o número de dias em emergência hídrica da cidade de Manaus, aferida pelo nível da água nos rios, já é maior do que em todo o século anterior”, resumiu o pesquisador Jochen Schöngart, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
Schöngart foi um dos palestrantes do ‘Debate COP 30: Balanço Crítico e Lições para a Ciência Brasileira rumo à COP 31’, organizado pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) na Universidade Federal do Amapá (Unifap), em Macapá, antecedendo o ‘Simpósio e Diplomação dos Novos Afiliados ABC para a Região Norte’. O evento foi o segundo de uma série de debates inaugurada no dia 5 de agosto, quando especialistas em cada bioma brasileiro apresentaram o estado atual dos ecossistemas frente às mudanças climáticas.
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Igarapés: termômetros para as mudanças climáticas
A Amazônia é o maior bioma brasileiro, ocupando 5,5 milhões de quilômetros quadrados entre o Brasil e outras oito nações. Se fosse um país, seria o sétimo maior do mundo. Considerando o tamanho, é natural que o impacto das mudanças climáticas seja diferente em suas sub-regiões, e, por isso, o enfrentamento da crise precisa ter um olhar regionalizado.
“O que dá certo no Amapá pode não dar certo no Amazonas, e assim por diante”, resumiu o ecólogo Leandro Juen, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Juen estuda os igarapés, talvez os rios amazônicos mais esquecidos. Numa floresta de rios caudalosos, os pequenos córregos não chamam atenção, mas são o melhor termômetro para avaliar a saúde hídrica do bioma.
“A maior parte da bacia é formada por igarapés, e são eles que primeiro manifestam os efeitos das mudanças climáticas. É onde a temperatura da água aumenta mais rápido e onde primeiro se perdem as espécies. A perda de intensidade nos pulsos de água não apenas diminui a vazão, muitos igarapés mudam de lugar ou desaparecem completamente”, explicou o professor, que foi membro afiliado da ABC entre 2019 e 2013.
Além dos impactos ecológicos, a mudança nos igarapés afeta a memória territorial dos povos da floresta, que tem os cursos d’água como referência geográfica. Para melhorar o monitoramento, o pesquisador está instalando sensores que a cada meia hora atualizam os dados sobre temperatura e a biodiversidade nesses ecossistemas. “Os maiores perdedores tendem a ser as espécies endêmicas, de menor capacidade de adaptação, enquanto as espécies invasoras proliferam”, avaliou.
O problema das espécies invasoras foi um dos pontos abordados pela pesquisadora Claudia Bonecker, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná. Ela abordou os serviços ecossistêmicos providos pela espécies dos rios e relatou como eles deterioram conforme a própria biodiversidade é perdida.
Em seu estado, a proliferação de cianobactérias no Rio Paraná se tornou comum, aumentando a mortalidade de peixes e da microbiota secundária, e comprometendo os setores econômicos da pesca e turismo. “Há perda de habitats, diminuição no tamanho dos animais sobreviventes, disrupções na cadeia alimentar. Quanto menos biodiverso o ecossistema, pior ele funciona”.
Menos de 1/3 da região tem acesso à água e saneamento básico
Na Amazônia, apesar do grande volume de água, o problema da eutrofização também se faz cada vez mais presente. Trata-se do excesso de nutrientes, como nitrogênio e fósforo, no corpo d’água, levando à proliferação descontrolada de algas e bactérias que deslocam as outras espécies. Essa questão foi abordada pela professora Sandra Azevedo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Apesar de ainda ser a região menos populosa do Brasil, a ocupação da floresta deu um salto no último século e hoje já são 26 milhões de brasileiros na Amazônia Legal. Porém, boa parte desse crescimento se deu sem o acompanhamento da infraestrutura necessária,. Menos de um terço da população da Região Norte conta com coleta de esgoto, e menos ainda com tratamento adequado dos rejeitos. “Coletar é retirar os dejetos da porta da casa das pessoas e liberar mais à frente. Sem tratamento, os dejetos continuam poluindo”, reforçou a pesquisadora.
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A falta de saneamento básico se reflete não apenas no aumento do fósforo e nitrogênio nos rios, mas também no aumento de pesticidas, fertilizantes industriais e medicamentos.
“Todos esses componentes químicos chegam ao curso d’água e degradam o equilíbrio ecológico, já pressionado pelo aumento da temperatura. Já existem florações perenes de cianobactérias na Amazônia” alertou Sandra. A situação é agravada pela intensificação da pecuária. “O excremento de uma só vaca corresponde ao de 30 pessoas”, continuou.
A palestrante finalizou comparando os corpos d’água eutrofizados à sopa primordial, onde acredita-se que a vida surgiu a partir da formação das primeiras moléculas orgânicas. “Aquela certamente não era uma água cristalina, também estava cheia de material. Agora, quem vocês acham que vai se sair melhor num ambiente desses? Nós ou as bactérias, que já são adaptadas a ele há bilhões de anos?”, indagou. “Não teremos nenhuma chance.”
Temperaturas no sul da floresta aumentam 0,4°C a 0,5°C por década
Todos esses processos impulsionam e se retroalimentam das mudanças climáticas. Voltando ao que alertava o professor Schöngart, o sul da Amazônia está aquecendo em média 0,4°C por década, um ritmo nunca antes visto. As estiagens, cada vez mais frequentes e duradouras, levam alguns lagos amazônicos a perderem 90% de suas águas. Na última seca extrema, o lago Tefé, a 500 quilômetro de Manaus, mediu um aumento de 40% na temperatura da água, que causou a morte em massa de botos cor-de-rosa.

O crescimento na amplitude entre secas e cheias afeta particularmente as áreas alagáveis, chamadas igapós, que possuem uma biodiversidade própria e são fundamentais para economias locais e para o equilíbrio ecológico. “Mas a maior parte dos igapós estão fora das regiões de preservação”, alertou Schöngart. Outra pressão sobre essas áreas são os projetos de hidrelétricas. “Não faz o menor sentido, econômico ou ambiental, termos mais de 200 projetos de hidroelétricas no sul da Amazônia, justamente onde os rios já estão secando”, criticou.
Organizador da série de debates, o vice-presidente da ABC para a Região Norte, Adalberto Luis Val, afirmou que a água é o principal elo condutor entre questões sociais e ambientais na região. “A maior fonte de proteína das populações amazônicas é o peixe, que estão a no máximo 1,2 °C de suas temperaturas máximas toleradas. Peixes que não conseguem regular temperatura morrem, e a projeção para esse novo El Niño é mais drástica ainda”, alertou.
Sobre os poluentes, Val lembrou que a ABC produziu recentemente relatórios sobre mercúrio, microplásticos e exploração de petróleo na margem equatorial. Os dois primeiros já são poluentes encontrados na biota amazônica, enquanto o petróleo pode ser particularmente catastrófico para as espécies pulmonares da Amazônia – como mamíferos aquáticos, répteis e aves aquáticas -, no caso de vazamentos.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Academia Brasileira de Ciências
