Primeira unidade de conservação do Acre tem quase 100% do seu território intacto e preserva espécies ameaçadas de extinção

Estação Ecológica Rio Acre foi criada em 2 de junho de 1981 e é uma das Unidades de Conservação Federal mais isoladas e de difícil acesso na Amazônia.

Com uma área de 79.395,22 hectares praticamente intactos, a Estação Ecológica Rio Acre é um território imprescindível para a preservação da flora e fauna do estado acreano. Criada em 2 de junho de 1981 pelo decreto federal n°86.061, fica no município de Assis Brasil, interior do Acre, onde faz divisa com o Peru.

Nos últimos anos, o local foi usado para muitas pesquisas, descobertas e registros importantes para a fauna e flora da região amazônica e do país.

Atualmente, é classificada como uma das unidades de conservação federal mais isoladas e de difícil acesso na Amazônia e tem o papel de proteger e preservar as nascentes do Rio Acre e toda sua biodiversidade.
Macaco-aranha está em risco de extinção — Foto: Estação Ecológica Rio Acre/Arquivo

Por isso, a gestão da unidade, que é de responsabilidade do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), com o uso e aplicação de ferramentas de gestão, parcerias, recursos tecnológicos e uma equipe qualificada, desenvolve ações e planejamento para que o local continue com a riqueza natural. 

“Ao longo dos últimos anos, para ser mais específico desde 2019, a gente intensificou as atividades de pesquisa depois de toda uma reestruturação e melhoria nas condições da base. A gente recebeu instituições renomadas como Instituto Butantan, que realizou pesquisa científica aqui com os répteis, mais precisamente com as serpentes peçonhentas, tivemos a visita de um pesquisador da Universidade da Flórida, dos Estados Unidos, que também esteve aqui para fazer uma revisão de uma família botânica, enfim, temos parceria com alunos da Fiocruz, com a Universidade Federal do Acre e, nos últimos dois anos, temos diversas novidades para a ciência, tanto como espécies novas distribuídas para o Acre, como de espécies novas para o Brasil, espécies que aconteciam somente no Peru e Bolívia e que a gente conseguiu encontrar na estação ecológica”, explica Luan Rocha, biólogo e chefe da unidade de conservação.

A preservação do local só é possível com monitoramento e o desempenho da equipe responsável pelo local. Segundo o chefe da unidade, só é possível desenvolver esses estudos por conta da riqueza da unidade.

“E todos esses encontros ocorrem porque a unidade tem praticamente 100% da sua cobertura florestal intacta, ou seja, ela é a unidade menos desmatada do Acre e possivelmente da Amazônia. Se a gente pegar esse mosaico de Rondônia, Acre e Amazonas, provavelmente a estação ecológica é a que se mantém mais preservada e nela a gente encontra espécies que são chaves para a conservação, que estão ameaçadas de extinção, como a anta, macaco-aranha, a nambu azul, diversas espécies que estão extintas localmente, ou seja, a gente não consegue mais encontrar elas em nenhum outro local do Acre e a gente tem aqui na estação ecológica e por isso a gente investe muito na questão do fomento à pesquisa científica, para justamente gerar esse conhecimento e devolver à sociedade”, destaca.

Estação Ecológica Rio Acre fica entre duas terras indígenas — Foto: Estação Ecológica Rio Acre/Arquivo pessoal

Fauna e flora 

O local, segundo o biólogo, que também é mestre em ecologia e manejo de recursos naturais, reúne diversas espécies que estão vulneráveis a extinção, como é o caso da Azulona (Tinamus tao), também conhecida como nambu/inhambu-azul. É considerada rara em sua distribuição geográfica por sua baixa taxa populacional na natureza. Atualmente, a vulnerabilidade da espécie é devido as ameaças: a caça predatória e o desmatamento. A população deverá diminuir rapidamente nas próximas duas décadas, e por isso seu estado de conservação em seu habitat natural está classificado como vulnerável a extinção.

“É uma espécie muito, muito difícil e que a gente fez um registro que, se não me engano, para o Acre todo, só tinha um registro em Manoel Urbano dela de fotografia e outros registros que era apenas dos ovos, de ninho, a gente fez o terceiro com uma foto super nítida, é a melhor foto que temos”, enfatiza.

Outro animal que pode ser visto com bastante abundância na estação é o Macaco-aranha (Ateles chamek ). Segundo Luan Rocha, a população dessa espécie é muito frequente na unidade.

“Em algumas regiões do Acre ele já está extinto e aqui temos eles em abundância e podemos dizer que eles são os primatas que dominam a estação ecológica, porque próximo da base, a gente consegue encontrar vários bandos e a gente observa que tem um sucesso reprodutivo, inclusive temos vários registros de mães com filhotes, então a gente crê e espera que o nosso trabalho esteja valendo a pena voltado à proteção da unidade”, destaca.

O macaco aranha sofre grande pressão de caça, e, devido isso, está na lista vermelha de conservação da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), na categoria vulnerável.

A anta, um dos maiores mamíferos do Brasil, é registrada na unidade — Foto: Estação Ecológica Rio Acre/Arquivo

Outra figurinha carimbada na unidade e que pode ser vista com frequência entre a exuberância da estação é a Tapirus terrestris, a anta-brasileira, que é o maior mamífero terrestre do Brasil e o segundo da América do Sul, podendo chegar até 300 kg, mais de 240 centímetros de comprimento e podem viver até 35 anos. Pelo seu porte, é considerado o último animal da megafauna na Amazônia.

“Aqui na unidade nós encontramos várias espécies que são bioindicadores de qualidade de meio ambiente, ou seja, que só ocorre mesmo em locais muito preservados e como exemplo nós temos a anta, que sofre muita pressão de caça e está na lista de animais ameaçados de extinção.”

Com relação à flora, o local também é usado para descoberta de novos fungos, novas espécies e até por pesquisadores que se propõem a revisar alguns estudos sobre a flora. 

Estação Ecológica Rio Acre fica em Assis Brasil — Foto: Estação Ecológica Rio Acre/Arquivo

Entre terras indígenas 

Preservar a nascentes do Rio Acre, que é o principal abastecedor para o baixo e alto Acre no estado, não é a única missão dos que estão à frente da gestão da unidade, mas também é dever deles garantir a manutenção de vida da população ribeirinha e indígena de toda a faixa de qual ele banha.

“Temos a missão de proteger e preservar as nascentes do Rio Acre, mas também toda sua biodiversidade envolvida, seja fauna, flora e recursos pesqueiros. Ela foi a primeira unidade de conservação federal criada no Acre e está inserida na tabela de proteção integral, que é diferente da grande maioria das unidades de conservação que a gente tem presentes no estado. De todas as onze unidades de conservação federais que temos no Acre, somente duas são de proteção integral, que é a estação ecológica Rio Acre e o Parque Nacional da Serra do Divisor, que são voltados para realização de pesquisas científicas e educação ambiental”, pontua.

Inclusive a estação fica no meio de duas terras indígenas, que é a Terra Indígena Cabeceira do Rio Acre e Mamoadate.

“Aqui no entorno nós temos duas etnias indígenas, que é Jaminawa e Manchineri, e a estação ecológica também serve de corredor para os povos indígenas que não tiveram contato ainda, que ainda estão no isolamento voluntário e transitam também pela unidade e usam a mesma como refúgio, tendo em vista que grande parte desses povos são de origem peruana. A estação ecológica faz fronteira direta com o Peru, o que separa os dois países é só o rio, e do outro lado do rio, tem uma área de concessão florestal, que tem exploração madeireira e muitas atividades e esses povos tendem a se concentrar mais do lado brasileiro.” 

Nambu/inhambu-azul também é encontrada na unidade de conservação — Foto: Estação Ecológica Rio Acre/Arquivo

Acesso somente pelo rio 

Como é considerada uma das unidades mais isoladas da Amazônia, o acesso à estação é feito somente pelo rio. Por isso, uma das bases da equipe funciona dentro da unidade.

“O acesso dela é exclusivamente por meio fluvial e como fica nas áreas de nascente dos rios, a logística pode levar até cinco dias ou até mesmo nem conseguir chegar porque o nível eleva e baixa muito rápido. Em menos de 24 horas, pode ter uma variação de 6,7 ou até 8 metros no nível da água, então do mesmo jeito que enche muito rápido, seca muito rápido e isso dificulta um pouco no planejamento das atividades nessa unidade, mas mesmo assim temos uma base implementada com toda estrutura, que é utilizada pela gestão para as atividades voltadas à proteção, educação ambiental e o carro-chefe, que é pesquisa científica”, destaca.

O gestor diz que a autarquia também apoia na proteção e auxílio aos povos tradicionais do entorno, tanto com a articulação para levar saúde itinerante, políticas públicas e, principalmente com auxílio à proteção do território, tendo em vista que parte da zona de amortecimento da estação ecológica é decretada dentro da terra indígena.

“No ano de 2021, ofertamos capacitação de primeiros- socorros de resgate em ambiente aquático, tendo em vista que todos eles utilizam o rio como meio de locomoção, manejo de injetável, tendo em vista o isolamento, as dificuldades para que eles consigam chegar na cidade. A gente vem sempre ofertando esses cursos, e cursos também voltados à questão da biodiversidade”, destaca.

Para fazer esse trabalho a equipe conta com o chefe da unidade; um analista ambiental; uma técnica ambiental e quatro servidores temporários, que são agentes ambientais temporários, que têm contrato por três anos.

A sede administrativa fica em Brasileia, há ainda uma base avançada que fica em Assis Brasil, na zona urbana, além da unidade interior da estação ecológica.

“Essa sede dentro da unidade a gente ocupa ao longo do período de todo o inverno, então a gente faz rodízio, alterna as vindas, mas, durante o verão, fica mais complicado porque o acesso é exclusivamente fluvial e a gente não consegue chegar, então tem vezes que a gente tenta vir, passa seis dias e não consegue chegar na unidade, então na base fica em torno de seis a quatro servidores por escala, a gente vai se alternando.” 

Por Tácita Muniz, g1 AC — Rio Branco

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