Restaurante proporciona experiências imersivas. Foto: Renato Menezes/Rede Amazônica AC
Ancorado em um trecho mais calmo do Rio Acre, no Segundo Distrito de Rio Branco, o Restaurante Flutuante Malveira, que funciona em uma embarcação, serve do tambaqui a galinha caipira e funciona como uma extensão da paisagem no Centro da capital acreana.
Sustentado por seis toras de madeira, cerca de 100 galões de mil litros, e movido por cabos de aço a depender do nível do rio, o espaço se consolida, na seca ou na cheia, como ponto turístico ao reunir culinária regional, passeios de barco e uma vista privilegiada do manancial e da Gameleira.
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Com bom humor e algumas historias de pescador, o proprietário Carlos Alberto de Souza Moura, de 59 anos, que divide a rotina entre a churrasqueira, a cozinha e o atendimento ao público, contou ao g1 que o restaurante, que está na rota de muitos turistas acreanos, é mais do que um negócio: é um espaço pensado para acolher.
“Eu gosto de sorrir, de conversar com as pessoas, de contar histórias. Venho de uma família de seringueiros, por isso quis criar um ambiente familiar, onde as pessoas possam vir, comer bem, tirar foto, apreciar o rio e ir embora feliz”, afirmou.
Com três anos de fundação, o Flutuante Malveira atende visitantes, turistas e até figuras importantes da gastronomia, como o chef Otto Vitelleschi, um influenciador de culinária que veio ao estado em agosto do ano passado e aproveitou para provar a famosa banda de tambaqui, o prato principal da casa.

O peixe, assado na brasa, é preparado com técnica e cuidado. O alimento é pré-cozido no papel-alumínio e finalizado na churrasqueira apenas na hora do pedido, o que garante que o prato fique pronto em até 20 minutos.
“Nada aqui é feito de qualquer jeito. O peixe chega à mesa em cerca de 15 minutos, mas ele já passa por um pré-preparo”, comentou Carlos.
O brasiliense Paulo Renato Brives Souza, de 26 anos, optou pela banda do tambaqui para almoçar com a esposa.
“Moro há dois anos no Acre e nunca tinha visto um espaço tão cultural quanto esse. Além da comida ser boa, essa é minha primeira vez em um flutuante, confesso que é bem diferente do que eu estava acostumado lá em Brasília”, disse o visitante.
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Trabalho em equipe
O funcionamento envolve cerca de 15 pessoas, entre familiares e funcionários, que se revezam conforme a demanda de quarta a domingo. Nos fins de semana, quando o movimento é maior e as mesas se esgotam ainda perto do horário do almoço, a própria família assume diferentes funções para manter o ritmo do atendimento.
O crescimento do restaurante trouxe desafios e aprendizados. Carlos relembrou que, no início, a falta de experiência com o novo formato quase comprometeu a operação. A partir desse episódio, ele passou a organizar processos, anotar rotinas e ajustar o funcionamento da casa.
“Quando começamos, tudo era novidade. Eu estava fora, em Goiânia, fazendo exames, quando o restaurante lotou pela primeira vez. Foi confusão: faltou organização, luz, comida”, disse.

Engenheiro agrônomo de formação, professor da rede pública há mais de 30 anos e produtor de legumes, Carlos explica que ele mesmo montou o cardápio, e apesar de não ter formação gastronômica, sempre gostou de cozinhar.
“O cliente não gosta de esperar, por isso começamos cedo os preparos. Aqui, se for um cliente só ou se a casa estiver cheia, o atendimento tem que ser o mesmo, nota dez. Na vida a gente aprende de tudo um pouco. O cardápio foi todo idealizado por mim, fui fazendo as alterações até acertar”, disse.
Ainda segundo o homem, os tambaquis, carro-chefe da casa, vem de um frigorifico em Itapuã do Oeste, no interior de Rondônia. Durante a cheia do Rio Acre, que costuma atrair muitos visitantes para ver o manancial, o dono do flutuante chega a comprar 130 kg de peixe, que dura em média uma semana.
“Não esperávamos essa quantidade toda de visitante, esse ano o movimento está maior do que o normal. Durante o final de semana, chegamos a receber mais de 250 pessoas”, declarou.

Dos planos à prática: criação do restaurante
A história do Flutuante começa antes da cozinha ganhar protagonismo. De acordo com a estudante Karla Malveira Azevedo Moura, de 19 anos, filha de Carlos, a relação da família com o rio vem de outras atividades. A embarcação foi construída em 2021, no Riozinho do Rola, principal afluente do Rio Acre.
“Ele construiu o flutuante pensando em um espaço de lazer para a nossa família durante os fins de semana, mas com o tempo, pessoas de jet ski e barqueiros que passavam acabavam encostando achando que tinha almoço para vender, então meu pai que sempre gostou de cozinhar, uniu o útil ao agradável”, destacou.
Antes de abrir o restaurante, a família trabalhava com passeios turísticos de barco na região. A ideia surgiu depois de uma viagem de Carlos a Porto Velho. Ao retornar, ele passou a observar materiais disponíveis às margens do rio e a pensar em uma estrutura própria. O sistema de flutuação foi construído de forma artesanal.
“Ele voltou cheio de ideias e resolveu abrir o restaurante lá no Riozinho do Rôla, contudo, só chegava lá quem tinha barco. Com o tempo, um amigo dele, que é dono do espaço onde o flutuante está atualmente, o chamou para vir para mais perto da cidade e tem sido um sucesso. A vida do meu pai está aqui no flutuante”, disse Karla.

As madeiras que sustentam o local são do tipo acapu, utilizadas na construção de palafitas, além de galões que auxiliam na flutuação. Toda a estrutura sobe e desce conforme o nível do rio, ficando presa à margem por cabos de aço.
“As toras de madeira tem uma vida útil de 30 a 40 anos dentro d’água, e junto do local que o flutuante está, que é uma área de remanso [trecho do rio sem correnteza], as manutenções podem ser feitas sem precisar tirá-lo da água”, afirmou Carlos.
Com bom humor, o dono do lugar completou dizendo que o nome do flutuante surgiu em homenagem ao pai já falecido, que saiu do Ceará para se tornar um soldado da borracha no Acre e assim, nunca mais voltou para o Nordeste.
“Ele ficou encantado com tanta água, criou raiz e nunca quis voltar. Meu jeito brincalhão veio dele. Outro dia, contei para uns visitante que coloquei um pirarucu no aquário e os outros aprenderam e pularam sozinhos. São essas historias de pescador que o pessoal gosta de ouvir”, declarou.
Experiência cultural
Com a casa cheia nos fins de semana, o restaurante chega a vender dezenas de bandas de tambaqui em um único dia.
Além da gastronomia, o espaço também oferece passeios de barco pelo Rio Acre que, em meio à cheia, se torna um dos atrativos mais buscados, especialmente por turistas. Segundo o proprietário, muitos visitantes se emocionam ao conhecer a paisagem da cidade vista do rio.
“Tem gente que quase chora. Já ouvi de uma turista do Rio Grande do Sul que ela nunca tinha sentido tanta paz”, relembrou.
*Por Renato Menezes e Walace Gomes, da Rede Amazônica AC
