Observação de libélulas está entre atividades na Resex Tapajós-Arapiuns. Foto: Reprodução/Acervo da pesquisa
Eclosão do ovo, ninfa, libélula ou donzelinha. Simbolicamente, o processo de transformação de insetos da ordem Odonata associa-se à capacidade de mutação e ajuste do ser humano. Na esfera ambiental, a importância recai sobre a manutenção do equilíbrio ecossistêmico ao reciclar matéria orgânica e transferir energia.
Em ambientes de água doce, os odonatos servem como bioindicadores de qualidade. Não obstante o relevo ecológico, a literatura científica tem apontado para o declínio global de insetos em decorrência da alteração do uso da terra (consequência da agricultura e pecuária intensiva), de poluentes químicos, de espécies invasoras e das alterações climáticas.
Alternativas no âmbito do ecoturismo comunitário (CBET, tradução de community-based ecotourism) são discutidas no artigo “‘Libélulas neotropicais (Insecta: Odonata) como organismos-chave para a promoção do ecoturismo comunitário em uma área de conservação da Amazônia brasileira’”, liderado pela bióloga Mayerly Alexandra Guerrero-Moreno e pelo professor José Max Oliveira-Júnior, da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), e coassinado pelo professor Leandro Juen, do Programa de Pós-Graduação em Ecologia (PPGECO/ICB), da Universidade Federal do Pará (UFPA).
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De acordo com o estudo, “o CBET concentra-se na conservação da biodiversidade, envolvendo comunidades locais na gestão e operação de atividades turísticas a fim de promover a cultura local e fomentar o desenvolvimento socioeconômico. A participação e o conhecimento das comunidades anfitriãs são vitais para o planejamento e desenvolvimento desse tipo de turismo”.
De maneira geral, identificaram-se as percepções de lideranças e moradores indígenas e não indígenas acerca do potencial de libélulas e donzelinhas como organismos-chave para promover o ecoturismo comunitário na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns (Resex Tapajós-Arapiuns), localizada entre os municípios de Santarém e Aveiro, no estado do Pará.
Neste local, vivem aproximadamente 23 mil pessoas (distribuídas em mais de 4.800 famílias) que sobrevivem do uso dos recursos naturais, da agricultura familiar e da criação de pequenos animais.

Algumas atividades emergentes incluem a produção de artesanato, a apicultura, a carpintaria e o turismo. O trabalho inova ao discutir o entomoturismo – vertente voltada para observação, estudo e fotografia de insetos – com odonatos em unidades de conservação, considerando a sabedoria da população tradicional.
Na Resex Tapajós-Arapiuns, há riqueza e abundância das seguintes espécies: Argia sp., Epipleoneura capilliformis, Heteragrion bariai e Oxystigma williamsoni.
“Em associação ao Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade (Programa Monitora) do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), que utiliza conhecimentos básicos de Biologia, Ecologia e distribuição dos odonatos para inferir a qualidade ambiental dos riachos da Amazônia brasileira, é possível incluir libélulas e donzelinhas como bioindicadores, bem como desenvolver o ecoturismo comunitário para melhorar a gestão sustentável das áreas de preservação. A participação da população, além de promover o desenvolvimento local, contribui para a proteção abrangente do ambiente e da biodiversidade”, destaca o estudo.
Mais velhos preservam saberes e mulheres lideram atividades
As(Os) investigadoras(es) testaram a hipótese de que a Resex Tapajós-Arapiuns perceberia, de maneira positiva, a integração de odonatos nas atividades de ecoturismo. Utilizando um nível de confiança de 95%, calculou-se a amostra ideal de entrevistadas(os) com base na população total.
No entanto, em decorrência do aumento do número de aldeias dentro da reserva extrativista e com o objetivo de obter uma percepção abrangente da população que a habita, incluíram-se mais pessoas. No total, foram realizadas 415 entrevistas com indígenas (44,34%) e não indígenas (56,66%). Essa composição evidencia a diversidade cultural dentro da Resex Tapajós-Arapiuns.
A faixa etária predominante dos entrevistados foi menor que 55 anos (27,71%). Compreendeu-se que, principalmente nas aldeias indígenas, foram indicados os indivíduos mais velhos para a entrevista, por serem considerados conhecedores dos costumes, das tradições e dinâmicas da reserva. Outro ponto observado é que a maior parte das pessoas entrevistadas (53,49%) era do gênero feminino.
“Isso demonstra que, cada vez mais, as mulheres assumem o protagonismo em questões associadas à liderança, ao desenvolvimento e ao progresso das comunidades amazônicas”, afirma o estudo.
Leia também: Pesquisa destaca potencial das libélulas para impulsionar ecoturismo de base comunitária na Amazônia

No entanto o nível de escolaridade predominante foi o ensino fundamental (33,73%). Isso porque a maioria das escolas municipais (indígenas e não indígenas) dentro da Resex Tapajós-Arapiuns oferece, de maneira regular, somente do 5° ao 9° ano.
“Além de precário, o ensino secundário é oferecido de forma modular em algumas comunidades, exigindo que as(os) alunas(os) que desejam cursá-lo viajem de uma comunidade para outra, às vezes, percorrendo longos e complexos trajetos fluviais. Como não existem Instituições de Ensino Superior na reserva extrativista, a maioria das(os) estudantes, ao concluir a escolaridade, deve migrar para Santarém ou outras cidades, caso desejem se qualificar. Esse cenário não favorece a população local, dada a carência de recursos econômicos”, explicam os pesquisadores.
Moradores consideram as libélulas bonitas e inofensivas
Quase todas(os) as(os) moradoras(es) indígenas e não indígenas da Resex Tapajós-Arapiuns (98,55%) reconhecem as libélulas ou donzelinhas, porém pelo nome popular: jacinas ou jacintas. Segundo as(os) estudiosas(os), o termo “jacina” significa “borboleta marrom com asas azuis-claras”, na língua indígena Tupi.
“O nome popular parece coincidir com a descrição de algumas espécies do gênero Zenithoptera, que possuem corpos marrons com asas azuis metálicas e estão distribuídas da Nicarágua à Argentina, incluindo a região amazônica”, informa o estudo. “Confirma-se a percepção de que as libélulas fazem parte do grupo das borboletas, provavelmente em decorrência da semelhança na capacidade de voo, aos habitats que frequentam e à coloração marcante”.
A sensação (98,07%) e a experiência (63,83%) com libélulas foram avaliadas positivamente por muitos moradores da reserva. Os atributos mais associados aos insetos foram beleza (32,26%), inofensividade (27,74%), aparência marcante e colorida (23,23%) e capacidade de voar (16,77%). Os melhores lugares para se observar libélulas são às margens dos rios (38,65%) e do igarapé (25,04%), e na floresta (26,6%).
O estudo concluiu que o ecoturismo comunitário, centrado em Odonata, tem o potencial não só de atrair turistas, mas também de promover a participação e o empoderamento de populações indígenas e não indígenas que habitam a reserva extrativista. Contudo é necessário projetar e implementar programas educacionais e de treinamento.
“Isso inclui aprofundar-se na biologia, importância ecológica, técnicas de manejo e identificação de espécies potenciais. O financiamento e o desenvolvimento de políticas públicas que apoiem essas iniciativas são cruciais para garantir o sucesso e a sustentabilidade do ecoturismo comunitário”, destacam as(os) investigadoras(es).
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, da UFPA, edição 177, escrito por Rosyane Rodrigues.
