Sistemas Agroflorestais do Pará promovem integração da floresta com agricultura

O Sistema Agroflorestal, também chamado de SAF, promove a integração da floresta com agricultura para produção de alimentos numa mesma área.

Agricultores do município de Tomé-Açu, no Pará, receberam uma missão técnica para conhecer os Sistemas Agroflorestais, que são referência em produção sustentável na Amazônia. Gestores e pesquisadores da Embrapa Cocais (MA) , técnicos da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Naturais do Maranhão e a produtora rural Teresa Vendramini, membro do Conselho de Administração da Embrapa (Consad) conheceram SAFs de diferentes escalas em áreas de produtores, a pesquisa com os sistemas integrados de produção e a cadeia agroindustrial da região.

O Sistema Agroflorestal, também chamado de SAF, promove a integração da floresta com agricultura para produção de alimentos numa mesma área.

“Um dos maiores benefícios desse sistema é a diversificação e a geração de produtos em épocas diferentes. Isso possibilita ao agricultor ter produção de um ano inteiro na propriedade. E a diversidade traz também o ganho ambiental, com a presença de outros seres vivos no sistema”,

explica Osvaldo Kato, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental.

Foto: Ronaldo Rosa

No município de Tomé-Açu, região Nordeste do Pará, estão os SAFs mais antigos da Amazônia, iniciados na década de 60 por imigrantes japoneses, como alternativa aos monocultivos da pimenta-do-reino, que na época foram atacados por fusariose – doença causada por fungo.

Com 40 hectares de Sistemas Agroflorestais de mais de 30 anos, a área do agricultor José Maria Pantoja Filho, em Tomé-Açu, mostra a importância desse modelo de produção para a região. O agricultor ressalta que o carro-chefe da produção é o cupuaçu, mas é uma diversidade que garante alimento e renda para a família. “Eu tenho cacau, açaí, pimenta-do-reino, maracujá, taperebá e cupuaçu em diferentes transferências. No SAF a gente colhe o ano todo e todas as culturas complementam a renda”, afirmou.

Já na área do agricultor Ernesto Suzuki, o plantio do dendê consorciado com fruteiras e espécies florestais gerou uma revolução na região. “Houve uma quebra de paradigma com relação ao cultivo do dendê, que tradicionalmente era monocultura. Acreditava-se que outras culturas no meio do dendê poderiam prejudicar a produtividade da palmeira”, lembra Suzuki.

Um projeto desenvolvido pela Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu (Camta) e empresa Natura, em parceria com a Embrapa , implantou na região o consórcio do dendê com cacau, açaí e andiroba, chamado de SAF Dendê. São 420 hectares com essa modalidade de sistema na região.

Na propriedade do agricultor Ernesto Suzuki são 40 hectares de SAF dendê e outros 60 hectares com diferentes combinações de fruteiras e essências florestais, como taperebá, mogno, cupuaçu e outras culturas. 

“Existe uma harmonia entre as várias espécies existentes aqui, não só em termos de solo, microrganismos, mas também entre os animais, diferentes de um monocultivo”,

completa o agricultor.

Organização social e mercado

A terceira experiência visitada pelo grupo foi a propriedade do agricultor Michinori Konagano, um dos pioneiros na implantação dos Sistemas Agroflorestais em Tomé-Açu. Konagano chegou na região aos dois anos de idade, na década de 1960 . Ele conta que as primeiras experiências de combinações de espécies foram realizadas a partir da observação dos quintais das populações locais.

Nos 850 hectares da propriedade de Konagano, 230 hectares são ocupados por SAFs altamente diversificados com cacau, açaí, pimenta-do-reino, cupuaçu e citros, além das culturas anuais, como melancia, abóbora, feijão e maracujá. Ele gera cerca de 30 empregos diretos na sua propriedade e destaca a parceria da pesquisa no aprimoramento dos sistemas e no desenvolvimento de variedades mais produtivas. “A Embrapa foi e é uma grande parceira”, afirma o agricultor.

A organização dos agricultores em torno da Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu (Camta) é um dos elementos fundamentais para o sucesso da produção local, de acordo com o agricultor. “Não existe receita pronta, o primeiro passo é estudar o mercado para ‘desenhar’ sua propriedade”, acrescenta Konagano. Ele destaca ainda a formação de pessoas e a necessidade de políticas públicas duradouras.

Foto: Ronaldo Rosa

“Somos 5 milhões de produtores rurais no Brasil, sendo 80% pequenos produtores. Por isso estou aqui para aprender com o pequeno produtor da Amazônia e com a Embrapa”, afirma a produtora rural Teresa Vendramini, que é membro do Conselho de Administração da Embrapa e ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira. Para ela, os exemplos de Tomé-Açu são inspiradores para pequenos, médios e grandes produtores em diferentes regiões brasileiras. E destaca ainda a importância da Camta na cadeia produtiva dos SAFs.

Vendramini ressalta que as iniciativas dos produtores de Tomé-Açu são extremamente relevantes e precisam ser replicadas cada vez mais como oportunidades de geração de renda às famílias no meio rural. “Qualquer produtor que queira replicar isso, tem que pensar no mercado próximo da sua propriedade, da sua cidade, do seu estado. É preciso prensar no retorno financeiro da produção e isso a gente aprendeu muito aqui também”, acrescenta Vendramin

Pesquisa e política pública

A Embrapa Amazônia Oriental, de acordo com o chefe-geral Walkymário Lemos, vem investigando os SAFs ao longo do tempo, buscando não apenas redefinir desenhos, mas também gerar indicadores de sustentabilidade ambiental, econômica e social. No campo experimental da instituição em Tomé-Açu, as pesquisas com fruteiras nativas e introduzidas na região já geraram importantes resultados para a fruticultura, como cultivares de cupuaçu e açaí, amplamente utilizadas nos SAFs da região.

“Os Sistemas Agroflorestais representam um modelo de produção que temos defendido para a Amazônia. É inclusivo, é ecologicamente desejável por ofertar serviços ambientais e mitigar emissões de gases de efeito estuda e resulta em recursos diversos para a nossa população”, afirma o gestor.

Para Marco Aurélio Bomfim, chefe-geral da Embrapa Cocais (MA), a conexão da ciência com o segmento produtivo, na qual a pesquisa acontece nas áreas dos produtores e as práticas e inovações são imediatamente validadas, é um ponto importante visto nas experiências de Tomé-Açu.

Ele, chefes-adjuntos e equipe técnica da Embrapa no Maranhão visitaram a região para conhecer os Sistemas Agroflorestais e o trabalho da pesquisa. A diretoria da Embrapa, como afirma o gestor, vem incentivando plataformas colaborativas de pesquisa e maior aproximação entre as Unidades.

“Tomé-Açu é um exemplo muito consolidado de trabalho com a pesquisa na perspectiva da inovação aberta. E os sistemas sustentáveis são uma das pautas que vêm sendo priorizadas dentro da agenda de bioeconomia da Embrapa”, argumentou o gestor.

Para Maria Arouche, superintendente de Economia Verde, da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Naturais do Maranhão (Sema), as experiências vistas em Tomé-Açu deixam um legado de resultados positivos tanto para as comunidades quanto para o meio ambiente. “Nossa intenção é desenvolver no Maranhão um projeto em parceria com a Embrapa voltado aos SAFs. Vamos levar esse aprendizado e adaptar à nossa região o que for necessário”, anuncia.

A missão encerrou no dia 14 de março, com reunião técnica na sede da Embrapa Amazônia Oriental, em Belém (PA).

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Embrapa

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